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mai 25

UM SONHO INFELIZ – UMA RIVALIDADE FATAL

DUELO FATAL - 2

UM DUELO ENIGMÁTICO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A cena se passa no estado americano do Oregon e é transmitida ao vivo pela televisão. Eu assisto a tudo, como telespectador, mas, também, e ao mesmo tempo, me vejo presente no palco em que tudo ocorre.

Trata-se de um sonho que tive na madrugada do dia 23 de maio de 2017, durante o qual fui testemunha de um duelo mortal entre os americanos Garry Smith e Raymond Gardner, cujos os nomes são anunciados pelo locutor da TV local que, também, descreve todos os movimentos dos dois personagens principais falando, inclusive, sobre alguns detalhes de suas vidas pessoais.

Entretanto, em dado momento, vejo-me presente naquele cenário e, encolhido em um canto, no que parecia ser um cômodo em ruínas de uma casa velha, com os restos de um sofá vermelho em pé e escorado em uma meia parede do meu lado direito, observo bem lá adiante, numa espécie de galpão aberto em toda a sua extensão horizontal, a chegada de Gardner, com uma mochila grande e preta nas costas. Observo, também, que ele está vestido à paisana, com uma camiseta escura e uma bermuda clara, calçando tênis e meias.

Eu estou, em linha reta, a mais ou menos um quilômetro de distância de Gardner e, do meu lado esquerdo, bem atrás, e a mais ou menos uns seiscentos metros, sei que Garry deve estar se preparando para o confronto. Mas eu não o vejo. Minha visão é apenas a de Gardner que, lá adiante, prepara seu fuzil, do qual não sei descrever detalhes. Apenas observo a preparação de Gardner: ele monta as peças principais, apoia o fuzil numa espécie de tripé e toma posição de tiro. Parece que está ali para a simples prática de um esporte, sem demonstrar, pelo menos àquela distância, qualquer movimento brusco ou impensado.

Faz-se uma pequena pausa nos movimentos, parecendo que, pelo menos Gardner já está preparado. De repente, um terceiro homem surge em cena e gira uma espécie de corda em torno de si e para o alto, como se fosse um grande laço, lançando no ar um artefato que explode a uma determinada altura. Imediatamente compreendo tratar-se do sinal para o tiro e, em aproximadamente três segundos ouço o estampido forte, cujo o eco não deixa dúvidas: saiu de uma arma pesada.

Na posição em que me encontro, não consigo ver se o tiro acertou Garry, porque eu estou encoberto por uma velha parede. No entanto, e com a rapidez de um raio, olho para a frente e percebo que Gardner foi atingido, inexplicavelmente, na altura do peito. Digo isso porque, na posição de tiro na qual ele se encontrava, parecia haver um espaço muito pequeno entre o seu tronco e o chão no qual ele estava semi-deitado.

Fiquei muito impressionado com a cena, porque Gardner, uma vez atingido, fez menção de cair, mas, para minha surpresa ele solta os braços do tripé no qual estava apoiado o seu fuzil, senta sobre os calcanhares, apoia as duas mãos nos joelhos, abaixa a cabeça por um instante e, levantando-se de forma meio cambaleante, caminha com passos meio desgovernados para o lado direito. Naquele momento pareceu que o mundo todo havia parado para observar a cena.

Gardner sai andando, dá um pequeno salto sobre alguma coisa que está no chão, à sua frente, e continua naqueles curtos, lentos e desconcertados passos. De repente, ele levanta lentamente o braço esquerdo e enfia os dedos por entre seus cabelos, deixando o braço cair novamente de forma lenta, como se o braço estivesse bem pesado.

Um pouco à frente de onde ele estava, e à sua direita, havia um portão de madeira, por onde um rapaz que nada tinha a ver com o drama, estava saindo. Ele olha para Gardner e, naquele momento, o jovem soldado, ferido de morte, cai de encontro ao portão. O rapaz, que não sei explicar como, sai do alcance da minha vista e eu vejo Gardner apenas levando as duas mãos para trás e, sentado no chão, esboçar um gesto para se levantar. Com as duas mãos encostadas no portão e à meia altura para ficar novamente de pé, ele perde todas as suas forças e, finalmente, tomba para o lado direito, morto.

Fiquei muito impressionado com aquela cena e saí andando na direção do lugar em que Raymond Gardner acabara de perder a vida. Enquanto isto, ouço o barulho de um carro do meu lado esquerdo. É Garry Smith que, após desmontar o seu equipamento, dirige-se na direção daquele corpo estendido no chão.

Chego bem rápido ao local e vejo Garry sair do carro e aproximar-se do morto para, chorando, abraçá-lo e trazê-lo junto ao peito.

Fico sabendo depois, que Garry e Gardner atuaram juntos como atiradores de elite das tropas americanas na guerra do Golfo, onde o primeiro foi instrutor de tiro do segundo.

Em entrevista, ainda no local do duelo, Garry declarou ter sido duramente desafiado por Gardner, que o chamou de velho inútil e de covarde, afirmando que, em um duelo, conseguiria matá-lo antes que ele pudesse pensar em atirar. Na mesma entrevista Garry afirma ter 68 anos e alguém por ali fala que Gardner tinha 52 anos de idade, era casado e pai de três filhos.

Em meio àquele burburinho, algumas pessoas vão surgindo pouco a pouco e, então, eu ouço alguém dizer que a mulher e os filhos de Gardner estavam em casa, assistindo tudo pela televisão.

Quando o repórter pergunta a Garry sobre o futuro, ele responde prontamente: “jurei a Deus e à minha família que, se saísse vivo deste duelo, jamais voltaria a atirar. Foi o último tiro que dei na minha vida”. Ao dizer isto, ele deixa a mochila com os equipamentos no chão e, de cabeça baixa e visivelmente abatido e consternado, entra no carro e vai embora.

Naquele momento eu comecei a acordar. Queria continuar ali mais um pouco, para refletir sobre tudo o que acabara de presenciar, mas, sonho é sonho e, lentamente, fui acordando, até não ter mais condições de retornar àquela cena.

Fiquei tão impressionado com tudo o que vi que, sabendo que os dias apagarão da minha memória tudo aquilo, decidi descrever toda a cena aqui, neste texto, por meio do qual eternizo um drama que, espero sinceramente, jamais tenha ocorrido porque a tristeza em ver a morte de Gardner e a amargura e o sofrimento de Garry foi algo tão forte para a minha vida, que quero deixar expresso para sempre nestas linhas.

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador e um cultor do silêncio.

 

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