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mai 08

REFLEXÕES SOBRE A LITURGIA

FREI ARIOVALDO -2

COMUNICAÇÃO LITÚRGICA – O QUE É E COMO VIVENCIÁ-LA - 

 *Frei José Ariovaldo da Silva, OFM –

             Muita gente, equivocadamente, pensa que comunicação litúrgica tem a ver mais é com euforia, barulho, muito show e até algazarra, tanto por quem exerce algum ministério na celebração (presidência, animadores, leitores, músicos etc.), como pela própria assembleia como um todo.

           O tema merece uma boa reflexão. Por isso estou aqui, sinteticamente partilhando com você o que já refleti e aprofundei sobre ele, depois de muita pesquisa, e inclusive com publicação (cf. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, vol. 71, fasc. 283, 2011, p. 642-658; Vida Pastoral, São Paulo, n. 285, 2012, p. 11-19).

            Afinal, o que é mesmo comunicação litúrgica? E como acontece?

            Comecemos pela etimologia. A palavra “comunicação” vem do verbo “comunicar” que, por sua vez, vem do verbo latino communicare, do qual deriva o substantivo communicatio (comunicação).

          O verbo latino communicare, por sua vez, deriva do adjetivo latino communis (de cum+múnus), este normalmente traduzido como “pertencente a todos ou a muitos”, “comum”, “coletivo”.

           Assim sendo, “comunicar” significa, em primeiro lugar, exatamente isso: “Pôr algo em comum com alguém, repartir, partilhar, comungar”. Como estou fazendo com você aqui: Estou “pondo em comum com você” (comunicando) o que aprendei e refleti sobre “comunicação litúrgica”. E “comunicação” é a ação de pôr algo em comum.       E então vem a pergunta: O que é “posto em comum, repartido, dividido e partilhado” conosco e entre nós na Liturgia, para que possamos falar, de fato, em “comunicação litúrgica”?

          O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, afirma que a “obra da salvação”, prenunciada por Deus no Antigo Testamento, é realizada em Cristo, continua na Igreja e se coroa em sua Liturgia (cf. SC 5-6). Então, o que nos é “comunicado” na Liturgia? A divina “obra da salvação”! A Presença amorosa e misericordiosa de Deus Pai pelo mistério pascal de Cristo que nos salvou e na unidade do Espírito Santo que nos santificou! Em outras palavras, na Liturgia que celebramos, a presença viva e atuante de Deus Trindade põe em comum conosco (nos comunica) todo o seu amor misericordioso que nos salva. A isso ouso chamar de “comunicação litúrgica”.

       Mas como vivenciá-la? Ilustremos com um exemplo. Digamos que você, numa celebração (ação) litúrgica, exerce o ministério de leitor(a). Você se dirige ao ambão e, dali, proclama a Palavra. Você o faz como membro do Corpo de Cristo. Portanto, você é mais que seu corpo visível. Você, neste seu corpo, para além (ou aquém) de todas as suas máscaras e couraças, você é um corpo deificado, você é a sua própria Essência, filho(a) de Deus: “Não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)... O problema é que, cada vez mais distraídos com tantos padrões e “tem-quês” da vida que tomaram conta de nossos corpos e, pior ainda, cada vez mais antenados com mil e uma coisas que o mundo moderno nos favorece, facilmente nos desconectamos do Espírito que nos permeia... Alienamo-nos e, assim, nesse exílio de nossa própria Casa, torna-se quase impossível comunicar Espírito e Vida. Transmitimos apenas palavras, sons, ruídos mais ou menos agradáveis, pois, como diz Ruben Alves, “nossos canais ficaram entupidos”.

        Mas vamos lá! Antes de você se dirigir ao ambão, você para, toma consciência deste seu corpo deificado e que, agora, exercerá um ministério, o ministério da Palavra que se comunica com outros corpos. (A citada Constituição insiste numa participação “consciente” e “interior” de todos na Liturgia, inclusive e, sobretudo, é claro, dos atores e atrizes da celebração!). Você silencia, aquieta, se concentra e, para ajudar a se concentrar melhor, presta atenção apenas no ritmo de sua respiração que traz o Sopro da vida e expele as impurezas do corpo... Você entra em sintonia com seu corpo, para além (ou aquém) de todas as máscaras e couraças nele agregadas e programadas... Você se comunica (comunga) com sua própria Essência, o Espírito que o habita. Faça isso!... Pare, silencie, e fique apenas conectado(a) com esse Essencial, tanto de seu corpo como do rito que lhe é dado realizar.

           Seu corpo espontaneamente então se transforma. Seus passos, sem forçar, ao se dirigirem ao ambão, assumem naturalmente o ritmo calmo, sereno e comedido do Espírito que permeia seu corpo. Já não são mais seus passos. São os passos do próprio Mestre que se dirige ao ambão para pôr em comum com os outros os segredos do seu coração. Por quê? Porque você está andando, agora, embalado(a) a partir de Dentro, a partir da sua comunhão consciente com o Espírito que conduz você ao ambão.

            Uma vez no ambão, seu corpo, seu rosto, seus olhos, seu contato com o livro, embora sendo seus, não são mais seus: são o corpo, o rosto, os olhos, os gestos do próprio Mestre que se apresenta com carinho e compaixão diante de uma assembleia toda ouvidos para ouvir, e toda corpo para acolher a Palavra. Isso a assembleia percebe e, percebendo, interage no mesmo Espírito e, no clima orante criado, já celebra. Por quê? Porque experimenta em você um brilho novo, diferente: o brilho de uma mística que vem, não do seu ego, mas do seu Interior, porque você está conectado(a) com Mistério do seu corpo e de todos os corpos.

           Na verdade, ao proclamar a leitura, sua voz, embora sendo sua voz, não é mais sua voz: é a voz do próprio Mestre que, suave e pausadamente, com firmeza, clareza e convicção, comunica – põe em comum – com a assembleia sua presença de salvação e consolo. Isso, intuitivamente, a assembleia percebe e, percebendo, comunga com a Palavra que, entrando pelos olhos e pelos ouvidos, penetra fundo seu coração. Acontece então, de fato, uma experiência de comunicação litúrgica. Como Elias que sentiu a presença salvadora de Deus na brisa suave do monte Horeb (cf. 1Rs 19,12b-13).

             Isso tudo vale para todos os atores e atrizes da celebração litúrgica: presidente, acólitos, leitores e salmistas, animadores, músicos e instrumentistas, sacristães, ministros da comunhão eucarística, a própria assembleia... E também para cada ação ritual, por mínima que seja.

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*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.

 

1 comentário

  1. MCLEMOS

    MUITO BOM O TEXTO. É UMA QUESTÃO DE AMADURECIMENTO. TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO É VIDA E VIDA NÃO SE DIZ, SE FAZ, SE VIVE. COMO SERIA BOM SE NOSSAS LITURGIAS CHEGASSEM A ESTE NÍVEL.
    UM DIA CHEGAREMOS LÁ, TENHO CERTEZA. OBRIGADA FREI ARIOVALDO. VOCÊ É 10.

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