Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

out 07

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – E ELES SERÃO UMA SÓ CARNE –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Gn 2,18-24

E eles serão uma só carne.

Na Bíblia temos duas narrativas da criação do ser humano (Adam). A primeira (Gn 1), chamada sacerdotal, coloca no sexto dia a criação dos animais (v. 24-25) e do ser humano, coroando toda a obra da criação. A criação do ser humano é descrita com solenidade: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea ele os criou” (v. 26-28). Em vista da procriação o ser humano é especificado como “macho e fêmea”; por isso recebe a bênção divina (v. 28). A segunda narrativa (Gn 2) não se preocupa com a criação do mundo, mas com o ser humano e sua relação com demais criaturas criadas no 6º dia, ligadas ao mesmo chão (Gn 1,24-31). O ser humano e os animais são feitos da terra, da terra brotam as árvores do jardim, plantado por Deus, e da terra nascem os rios. A preocupação da narrativa é mostrar que, no projeto divino, o ser humano convive em harmonia, no mesmo ambiente, com as plantas e os animais. Com as plantas e os animais, bebe da mesma água, onde os peixes vivem. Com os seres vivos respira o mesmo ar, por onde as aves e pássaros voam; assim participa do mesmo “ecossistema”. Apesar disso Deus diz: “Não é bom que o ser humano esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (v. 18). De fato, embora feitos da mesma terra, os animais não são a companhia adequada para o ser humano. Deus coloca, então, o ser humano em sono profundo, tira-lhe uma costela e a transforma em mulher. Depois, apresenta-a ao ser humano. Então ele exclama: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne!” A expressão indica parentesco. A partir daí o ser humano é visto como “homem” e “mulher”, ele com ela, numa comunhão de vida e de amor. Diante dela, o ser humano se reconhece como “homem”, ela como “mulher”. Ambos, ele e ela, são um auxílio necessário um para o outro. Esta comunhão de amo, homem-mulher, é até mais forte que a união com os pais: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 127

O Senhor te abençoe de Sião, cada dia de tua vida.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 2,9-11

Tanto o Santificador, quanto os santificados

descendem do mesmo ancestral.

O autor escreve para judeu-cristãos que viviam entre os pagãos. Os cristãos sofriam oposição por parte de pagãos e de judeus. Os sofrimentos e o adiamento da 2ª vinda do Senhor abalavam a fé em Cristo e a esperança na sua vinda. Aos desanimados lembra que o Filho de Deus, assumindo a natureza humana, tornou-se um pouco menor que os anjos. Solidarizou-se com os seres humanos, criados um pouco abaixo dos anjos (Sl 8,6). Tornou-se assim nosso irmão, pois o “Santificador e os santificados” têm os mesmos ancestrais. O “Santificador”/Jesus, nosso irmão, morreu por nós e foi glorificado, para “conduzir muitos filhos à glória” (cf. Fl 2,5-11). São palavras que ainda hoje reanimam nossa fé e reavivam a esperança.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: 1Jo 4,12

Se amarmos uns aos outros, Deus em nós há de estar;

E o seu amor em nós se aperfeiçoará.

3. EVANGELHO: Mc 10,2-16

O que Deus uniu o homem não separe.

Enquanto está a caminho de Jerusalém, Jesus continua ensinando a multidão que o segue. Os fariseus aproveitam a ocasião para testá-lo e lhe perguntam se é permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. Ao perguntar-lhes “O que Moisés vos ordenou?” eles respondem: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. Referiam-se a Dt 24,1-4, um texto casuístico, onde se determina o que fazer no caso de uma separação existente. Escrever uma certidão de divórcio, por um lado, significava uma declaração de falência de um matrimônio; por outro, declarava que a mulher estava livre para casar-se com outra pessoa. Na resposta Jesus diz que Moisés permitiu escrever a carta por causa da “dureza de vosso coração”. Dureza aqui significa a resistência persistente ao projeto de Deus, como o faraó que não deixa os hebreus saírem do Egito, ou Israel que se obstina em não acolher a palavra dos profetas (Is 6,8-10; Jr 7,26). Jesus remete para outra parte da Lei atribuída a Moisés, no livro do Gênesis, onde se fala do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, como “homem e mulher” – literalmente “macho e fêmea” (cf. Gn 1,28). Ao dizer: “Por isso, o homem [ele] deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher [ela] e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). [ver 1ª leitura]. Ao unir os dois textos Jesus aponta para a dupla finalidade do matrimônio: a geração de filhos (“macho e fêmea” – assim como está no grego!) e o complemento mútuo. São o auxílio necessário mútuo, que se corresponde do ponto de vista sexual, psicológico e na comunhão de amor, entre eles e os filhos. Em casa (de Pedro), Jesus explica aos apóstolos que divórcio equivale a adultério. A cena seguinte, que mostra Jesus abraçando as crianças, completa o projeto desejado por Deus para a família; isto é, a união homem-mulher e filhos. Diante da falência de muitos matrimônios o Estado pode e deve legislar. A orientação para os católicos, porém, vem da Igreja. O Sínodo dos bispos sobre a família renovou as orientações pastorais para buscar a fidelidade ao ideal da família proposto por Jesus. Recomendou que os recasados sejam acolhidos na Igreja com misericórdia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: “Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos”.

____________________________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: