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dez 27

AS PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – FINAL

6.2 A busca da santidade:

- Por Frei Sandro Roberto da Costa, OFM -
Apesar das ambiguidades que marcaram o modo como a vida religiosas feminina se instaurou no Brasil, não poucas foram as mulheres que encontraram, dentro dos muros do convento, o caminho da santidade. A rigor, a história se ocupa dos acontecimentos e fatos extraordinários, das polêmicas, dos grandes feitos e dos grandes personagens. O cotidiano, o dia-a-dia das pessoas discretas e humildes, que não deixaram documentos escritos, dificilmente são alcançados pelos pesquisadores. Também no convento do Desterro, da Lapa e da Ajuda, em que pese o imaginário criado pela literatura folhetinesca colonial, podemos destacar espíritos profundamente piedosos, dedicados à busca da perfeição, à vivência dos ideais do espírito, no cultivo discreto e diário da vocação religiosa no silêncio das celas. A imagem de mulheres forçadas à clausura, infelizes, buscando todos os meios para preencher a frustração de uma vocação não escolhida, contrapõe-se o testemunho de mulheres que optaram livremente pela clausura, que buscaram e encontraram, nos claustros, o caminho da realização. A historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva relata alguns casos de mulheres que declararam categoricamente, diante das autoridades, sua livre opção pela vida no claustro, independente de pressões familiares.39
Rocha Pita anotava nas primeiras décadas de 1700, sobre as religiosas do convento do Desterro: “Foi crescendo com o amor de Deus a pureza das religiosas em tal grau, que se competiam em santidade, e faleceram algumas admiráveis em prodigiosa penitência e com notável opinião...”.40 O mesmo autor destaca, quando fala das primeiras que ingressaram no convento do Desterro, que, ao lado daquelas que ali foram colocadas pelos pais, também entraram outras que “pretendendo conservarem o estado virginal e florescerem em santas virtudes, desejavam servir a Deus nos votos e claustros da religião”.41 Frei João da Apresentação notava, também falando do Desterro em 1739: “Tem várias religiosas de vida exemplar...”.42
No convento da Lapa ficou célebre madre Joana Angélica de Jesus, que ali ingressou em 1782. Em 1822, no turbilhão dos tumultos que se seguiram à declaração da independência, a então abadessa, opondo-se tenazmente à invasão da clausura pelos soldados, foi morta a golpes de baioneta. Tombou defendendo a clausura e as irmãs de hábito.43

6.2.1 Madre Vitória da Encarnação

Entre os “perfis de virtude” do convento do Desterro, destaca-se uma personagem pouco conhecida, mas que marcou seu tempo pelo testemunho de fé e experiências místicas: irmã Vitória da Encarnação. Tal foi a fama desta religiosa, que o ilustre arcebispo da Bahia, D. Sebastião Monteiro da Vide, escreveu um livrinho relatando sua vida.44 Nascida no dia 6 de março de 1661, filha de Bartolomeu Correia e de Luiza Bixarxe, uma abastada família de Salvador, dizia quando criança que, ante a possibilidade de entrar num convento, preferia que lhe cortassem a cabeça. Após “visões terrificantes”, que continuaram na clausura, entrou, juntamente com a única irmã, para o convento de Santa Clara do Desterro, no dia 29 de setembro de 1686, aos 25 anos. Lá, tomou-se modelo de religiosa, segundo os parâmetros de então: “Madre Vitória só comia sentada no chão, jamais consumia came, estragava o sabor da comida com água e cinza. Todas as noites, carregava pesada cruz às costas, movendo-se de joelhos e trazendo coroa de espinhos à cabeça. Esbofeteava-se e usava cilícios para flagelar o corpo. Certa vez, pôs na boca, para flagelar-se, a canela de um defunto em avançado estado de decomposição, o que lhe causou uma crise de salivação por oito dias seguidos”.45
Madre Vitória se sobressaía às irmãs de hábito também no espírito de oração: “Passava noites inteiras diante do tabernáculo eucarístico, de joelhos, ou prostrada por terra, ou com os braços em cruz. Pontualíssima em todos os exercícios obrigatórios, ia além das exigências da regra. Acabava a comunidade a reza das matinas e saíam as religiosas; ela ficava, e prostrava-se então, e chorava rezando, pedindo a Deus perdão para si, e para todas a vida eterna”.46
As “visões” que tinham começado antes de ingressar no claustro, a acompanharam por toda a vida. Nestas experiências místicas, fazia visitas às almas do purgatório, e até o diabo lhe aparecia, em forma de um “molequinho negro”. Crescendo sua fama não só entre as irmãs de hábito, mas entre os moradores da cidade, foram-lhe atribuídos poderes taumatúrgicos, como o de, a exemplo de Santo Antônio, encontrar coisas perdidas. Faleceu em “odor de santidade”, no convento do Desterro, no dia 19 de julho de 1715.
Segundo Pedro Calmon, madre Vitória “encarnava... a austeridade intransigente das grandes místicas: serve de contraste à tradição que ficou, do amável convento do século XVIII”.47 Rocha Pita, por sua vez, falando da obra de D. Sebastião Monteiro da Vide, afirma que o mesmo “com voos de águia, soube registrar as luzes daquele extático sol”. Ainda sobre a vida de madre Vitória, escreve o historiador Pedro Calmon que “guarda-se no convento do Desterro, da Bahia, a piedosa memória de Sóror Vitória da Encarnação, ali falecida em 1715, e em cuja honra o arcebispo Dom Sebastião Monteiro da vide escreveu o livrinho famoso (1722). Na cela que foi de sóror Vitória, ainda se vê a ‘vera-effigie’, ali mandada colocar pelo prelado, que a conheceu, testemunhando-lhe as virtudes, com a biografia, e a fama, com o retrato”. E conclui, categórico, Pedro Calmon: “É necessário incluir no hagiológio brasileiro essa heroica figura de mulher...”.48
Rocha Pita ressalta que, além de madre Vitória da Encarnação, outras religiosas se destacavam pela virtude e piedade: “Porém não foram só a madre Vitória e as outras falecidas as que resplandeceram em prodígios no seu convento, porque ainda naquela grande esfera de virtudes há mais estrelas da mesma constelação”.49

Conclusão

O estudo da história da vida religiosa nos ajuda a compreender as ambiguidades e tensões que sempre existiram entre a busca da vivência dos ideais preconizados pelos fundadores, e a realidade concreta onde se dá essa vivência, mediada pelos fatores econômicos, políticos, sociais, e religiosos. Nesse sentido, o estudo do contexto em que se instalaram no Brasil as primeiras religiosas clarissas nos mostra que as religiosas do convento do Desterro foram religiosas do seu tempo. Apesar de viverem enclausuradas, estavam inteiramente inseridas na realidade sócio-política que as cercava, determinadas, na sua organização, nas estruturas e modo de conceber a vida religiosa, pelos fatores e mecanismos externos de uma sociedade ainda em formação, de uma sociedade em ebulição, que tateava em busca de respostas aos desafios que a cada momento surgiam. Nesta busca, os “recolhimentos” e “beatérios” foram uma resposta brasileira, dada com a criatividade e o dinamismo que, na história da vida religiosa, sempre caracterizou os espíritos que decidem dedicar-se totalmente ao serviço de Deus.
Os consagrados hoje, mulheres e homens, estão buscando, mais do que nunca, meios de corresponder com fidelidade ao carisma. “Volta às fontes”, “refundação”, têm sido alguns dos temas recorrentes nos últimos tempos. A história das instituições religiosas nos mostra que nem sempre foi assim. Não obstante tudo, mesmo num ambiente marcado pelo preconceito, pela segregação racial, pela hierarquização e pela dominação do mais forte sobre o mais fraco, houve mulheres e homens que conseguiram encontrar o caminho da realização e da santificação. Se, em nome da manutenção do status quo, muitas vezes os valores evangélicos foram ofuscados, na prática, no dia-dia, muitos religiosos e religiosas conseguiram, numa vida de devoção, de piedade e de experiência de Deus, manter acesa a chama da busca de uma vida coerente com os votos que um dia tinham professado.
Os mais tradicionais conventos de vida religiosa da colônia, passada sua fase de esplendor, entraram em decadência. A sociedade estava mudando, bem como seus valores e parâmetros. A própria imagem e posição da mulher na sociedade estava se modificando. Também a imagem da mulher religiosa. Com o advento do iluminismo, a vida religiosa sofre as mais duras críticas. No dia 19 de maio de 1855 o Ministro da Justiça assina um decreto imperial proibindo, em absoluto, a entrada de noviços nas ordens religiosas masculinas e femininas. Chegando quase à extinção no fim do século, algumas entidades conseguem como que renascer das cinzas. O mesmo não aconteceu com o convento de Santa Clara do Desterro. Em 1915 morria a última religiosa. Encerrava-se assim a primeira fase da história das religiosas clarissas no Brasil. Uma nova fase estava para começar. No dia 25 de setembro de 1928, sob a mediação do franciscano frei Rogério Neuhaus, chegavam de Düsseldorf, na Alemanha, oito religiosas clarissas. A partir da fundação do mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula, no Rio de Janeiro, as irmãs clarissas se espalham de novo pelo Brasil. Sua presença silenciosa e discreta, na oração, na contemplação e no testemunho da pobreza evangélica, lembra a todos os franciscanos e franciscanas sua missão: fazer presente no Brasil a mensagem sempre necessária e atual da Paz e do Bem.
Endereço do autor: Convento Sagrado Coração de Jesus Caixa Postal: 90023 25689-900 - Petrópolis – RJ E-mail: sdacosta@itf.org.br
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39. História da família..., o.c., 230. 40. História da América Portuguesa, o.c., 186. 41. Idem, 185. 42. REB 642. 43. Sobre irmã Joana Angélica veja-se o artigo de irmã Lindinalva de Maria, Madre Joana Angélica de Jesus, in Brasil Franciscano, FFB, Petrópolis 1998, 101-111. 44. A obra, à qual não tivemos acesso, intitula-se: História da vida e morte de madre soror Vitória da Encarnação, religiosa do Convento de Santa Clara do Desterro da Cidade da Bahia, e foi impressa em Roma, em 1720. O autor, Dom Sebastião Monteiro da Vide, português, foi o quinto arcebispo da Bahia (1701-1722), e tomou-se célebre, entre outras coisas, pela realização do sí- nodo diocesano que teve lugar em Salvador, entre 12 e 14 de junho de 1707. Como resultado deste sínodo saíram as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, publicadas em Portu¬gal em 1719 e 1720. NEVES, G. P., D. Sebastião Monteiro da Vide, in Dicionário de História do Brasil Colonial, o.c., 180. O insigne historiador professor Riolando Azzi informa que foi publicada, em 1934, pela escritora baiana Amélia Rodrigues, uma versão atualizada da obra de D. Se¬bastião sobre madre Vitória. Cfr. AZZI, R., A Sé Primacial de Salvador. A Igreja Católica na Ba¬hia (1551-2001), vol. I, Vozes -Ucsal, Petrópolis - Salvador 2001, 391.
45. VAINFAS, R., Madre Vitória da Encarnação, in Dicionário de História do Brasil Colonial, o.c., 362-363.
46. RODRIGUES, A., Uma flor do Desterro, Escolas Profissionais Salesianas, Niterói 1934, cita¬do em AZZI, R., A Sé Primacial de Salvador..., o.c., 392. Por passar longo tempo ajoelhada, “se lhe formaram nos joelhos empolas de sangue, as quais cortava com a tesoura, e depois de feitas em chagas as esfregava com sal e limão para sararem, como dizia às que a viam impossibilitada para as adorações externas”. Idem, 393. 47. História social do Brasil, o.c., 188. 48. Idem. 49. História da América Portuguesa, o.c., 186.

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