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jul 11

PODEMOS PECAR, AO FALARMOS SOBRE O PECADO

PECADO

PECADO: A NECESSÁRIA COMPREENSÃO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            A abordagem sobre o pecado carece de uma fundamentação teológica bastante sólida, sob pena de tratarmos sobre o tema de forma maximizada e, portanto, ortodoxa e hermeticamente fechada à compreensão das pessoas, ou, de forma minimizada e heterodoxa a tal ponto que perca totalmente a importância. O pecado, diga-se de início, não deve ser avaliado nem por um, nem por outro extremo.

            Portanto, na tentativa de explorar um pouco o assunto, mas, sem perder o rumo, vamos tratá-lo sob a ótica do Teólogo alemão Bernhard Häering[1] que, no Vol. I do Livro Livres e Fieis em Cristo – Teologia moral para sacerdotes e leigos – revela uma forma singular de olhar o pecado, sem se afastar da doutrina católica, mas, também, sem transformar o assunto em um caldeirão fervente, onde os cristãos são severa e impiedosamente atirados.

        Häering inicia sua explanação chamando a atenção para o fato de que, já ao falarmos sobre o pecado, podemos estar promovendo um discurso pecaminoso, caso o nosso objetivo seja desculpar-nos, acusando os outros, ainda que entre estes “outros” figure o próprio demônio, quando nada for feito para superar a ação diabólica no mundo. Afirma, ainda, que, no afã de buscarmos culpados, podemos transferir a culpa para Adão e Eva, fazendo vista grossa para o fato de que, cada um de nós, quando peca “age como Adão e aumenta o grau de pecaminosidade do mundo” [2]. Não estamos distantes de falarmos sobre o pecado sob a ótica exclusiva da culpa, que pode acarretar tristeza, sempre que vier desconectada da possibilidade da redenção e do perdão que cura.

            Para o autor, podemos alcançar o topo da pecaminosidade se olharmos para o pecado de Adão e Eva numa dimensão tal que, possamos deixar transparecer que ele (pecado) é maior do que a graça de Jesus Cristo. Ora, afirma o teólogo alemão, pecamos seriamente contra Deus, que outra coisa não quer senão a salvação de todos, quando condenamos crianças inocentes que, sem culpa, não receberam o batismo. Para Häering, “nosso discurso sobre o pecado original será sempre pecaminoso e alienante se falarmos fora do contexto da redenção ou de forma tal que o poder do Redentor seja diminuído” [3].

         E, ainda, nosso discurso revela-se altamente pecaminoso, quando valorizamos mais os pecados contra as leis e os preceitos ensinados, e nos recusamos a olhar, ou desviamos nossos olhos, do pecado da recusa da honra, da gratidão e do amor para com Deus e, muitas vezes, ficamos apavorados, ou mesmo escandalizados, diante de pecados contra coisas sagradas, ignorando os pecados contra as pessoas e as comunidades humanas.

            A partir daí, Häering aborda a questão do pecado mortal de simples crianças que, sequer, têm capacidade para tal cometimento e, avançando um pouco mais, formula a seguinte questão: “Que espécie de Deus estaremos retratando, se ensinarmos que, em toda a matéria referente ao sexto mandamento, o que se presume é que tanto a mais leve transgressão como um beijo apaixonado importam em pecado mortal, merecedor de castigo eterno?”[4], e arremata, afirmando taxativamente que, sempre que não tivermos feito o esforço necessário para um maior e aprofundado conhecimento de Deus e do homem, estaremos proferindo um discurso, também pecaminoso.

          Ou seja, na visão de Bernhard Häering, é preciso ter bastante cuidado ao falarmos sobre o pecado, para não cairmos escancaradamente no mal que pretendemos combater, pois, ao atribuí-lo aos outros; ao avaliarmos mal os objetos dos pecados; ao atribuirmos maior valor ao pecado, do que à graça de Deus em Jesus Cristo; ao nos prendermos mais aos pecados contra leis, preceitos e objetos sagrados, sem levarmos em alta consideração as ações contra a honra e a gratidão que devemos ter para com Deus, estaremos irremediavelmente caindo em estado pecaminoso, em condições, talvez, bem piores do que aquelas que pensamos estar identificando como pecaminosas.

            Por fim, vale citar uma lição bastante significativa do autor:

“Para saber como falar do pecado, temos de olhar para os profetas, os quais proclamam a possibilidade, a necessidade e a urgência da conversão. Falam dos pecados daqueles que menosprezam a sua comunidade em face do mundo que os cerca. Sacodem as consciências dos poderosos e dos ricos. Manifestando a misericórdia de Deus, desmascaram os pecados dos que não têm misericórdia. Proclamando o amor de Deus, acusam os pecados do desamor. Revelando a santidade e a justiça de Deus, tornam conhecida nossa obrigação de, por justiça, perdoar, curar e ficar do lado das vítimas. Apresentando a mensagem em plenitude, a síntese entre o amor de Deus e o amor do próximo, a síntese e a tensão entre a justiça e a misericórdia, chamam-nos à conversão não apenas em face das leis, mas para Deus e para os irmãos. Proclamando a paz messiânica, deixam sem desculpa aqueles que permanecem sem se envolver e sem se comprometer, embora sejam chamados a receber o dom da paz e a promover a paz em todos os níveis”[5].

        O trabalho de Häering acerca do pecado e, posteriormente, da conversão, é de suma importância para que nós, cristãos, possamos adquirir uma maior e melhor compreensão da realidade contextual na qual estamos inseridos e em face da qual Deus se revela aos homens por intermédio de Jesus Cristo. Não podemos, em pleno século XXI, permanecer alienados à cultura do pecado e da culpa, sem abrirmo-nos para a graça de Deus, também manifestada por meio do mesmo Jesus, buscando incessantemente a conversão e a reconciliação, sobre as quais falaremos em uma próxima oportunidade.

           Por ora, basta o que foi apresentado até aqui, como ponto de partida para o início de uma profunda reflexão sobre os nossos conceitos e pré-conceitos acerca do pecado.

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.
  ________________________________     [1] HÄERING, Bernhard. Livres e Fieis em Cristo – Teologia moral para sacerdotes e leigos. Vol I Teologia Moral Geral. São Paulo. Paulinas. 1978. 459 págs.   [2] Idem, pág. 345.   [3] Idem, pág. 346.   [4] Ibidem.   [5] Op. Cit. pág. 347.

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