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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: VIDA DOS SANTOS

jan 25

A VIDA DOS SANTOS

VIDA DOS SANTOS

SANTO APOLINÁRIO ( Legenda Áurea)[1] - 

 “Apolinário deriva de pollens, “poderoso”, e de ares, “virtude”, significando “poderoso em virtude”. Ou rode derivar de pollo, “admirável”, e de narís, que pode ser entendido como “discrição”, significando “admiravelmente discreto”. Ou pode derivar de a, “sem”, de polluo, “manchar”, e de ares, “virtude”, e assim equivaleria a “virtuoso sem mancha de vícios”.”

“Apolinário, discípulo de Pedro, foi enviado pelo apóstolo de Roma a Ravena. Nesta cidade curou a esposa de um tribuno e batizou-o amamente com sua família. Quando estes feitos foram denunciados, o Juiz ordenou primeiramente que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter, onde sacrificaria. Como Apolinário disse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem à disposição dos demônios, foi agarrado e espancado, ficando meio morto. Mas alguns discípulos o levaram are a casa de uma viúva, na qual ficou se recuperando durante sete meses. Em seguida foi à cidade de Classe, e lá curou um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa do mudo, uma jovem possuída por um espírito imundo começou a gritar: “Saia daqui, escravo de Deus, ou farei que amarrem seus pés e mãos e que o expulsem da cidade!”. Apolinário imediatamente repreendeu o demônio e expulsou-o. Em seguida invocou sobre o mudo o nome do Senhor e este foi curado, diante do que quinhentos homens converteram-se. Os pagãos, por sua vez, proibiram-no de pronunciar o nome de Jesus e o agrediram. Apesar de jogado ao chão, Apolinário gritava: “Ele é o verdadeiro Deus!”. Então os pagãos tiraram seu calçado e fizeram-no ficar de pé sobre brasas, mas como continuava ininterruptamente a pregar o Cristo, expulsaram-no da cidade. 

“Apolinário, discípulo de Pedro, foi enviado pelo apóstolo de Roma a Ravena. Nesta cidade curou a esposa de um tribuno e batizou-o amamente com sua família. Quando estes feitos foram denunciados, o Juiz ordenou primeiramente que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter, onde sacrificaria. Como Apolinário disse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem à disposição dos demônios, foi agarrado e espancado, ficando meio morto. Mas alguns discípulos o levaram are a casa de uma viúva, na qual ficou se recuperando durante sete meses. Em seguida foi à cidade de Classe, e lá curou um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa do mudo, uma jovem possuída por um espírito imundo começou a gritar: “Saia daqui, escravo de Deus, ou farei que amarrem seus pés e mãos e que o expulsem da cidade!”. Apolinário imediatamente repreendeu o demônio e expulsou-o. Em seguida invocou sobre o mudo o nome do Senhor e este foi curado, diante do que quinhentos homens converteram-se. Os pagãos, por sua vez, proibiram-no de pronunciar o nome de Jesus e o agrediram. Apesar de jogado ao chão, Apolinário gritava: “Ele é o verdadeiro Deus!”. Então os pagãos tiraram seu calçado e fizeram-no ficar de pé sobre brasas, mas como continuava ininterruptamente a pregar o Cristo, expulsaram-no da cidade.

Naquela época Rufo, um patrício de Ravena, estava com a filha enferma e mandou chamar Apolinário, que entrou na casa quando ela morreu. Então Rufo disse: “Quem dera você não tivesse entrado em minha casa. Os deuses ficaram muito irados, não quiseram curar a minha filha, e o que você poderia fazer?”. Apolinário respondeu: “Não tema. Jure-me que se a jovem ressuscitar não a proibirá de seguir seu Criador”. Rufo jurou, Apolinário fez uma oração, a jovem ressuscitou, proclamou o nome de Cristo, recebeu o batismo com sua mãe e uma grande multidão e permaneceu virgem.

Quando o césar soube disso, escreveu ao prefeito do pretório para que forçasse Apolinário a oferecer sacrifícios ou que o mandasse para o exílio. Como o prefeito não conseguiu fazê-lo sacrificar, mandou sangrá-lo com açoites e esticar seus membros no potro. Como ele continuou a pregar o nome do Senhor, o prefeito mandou que jogassem água fervendo em suas feridas, que o atassem a grossas correntes de ferre que o exilassem.

 Vendo tanta impiedade, de ânimo exaltado os cristãos lançaram-se sobre os pagãos e mataram mais de duzentos homens. O prefeito escondeu-se e ordenou que prendessem Apolinário num horrendo cárcere. Posteriormente mandou levá-lo, acorrentado a três clérigos, a um navio que os conduziu ao exílio. Ocorreu uma tempestade da qual escaparam apenas ele, dois clérigos e dois soldados, que foram batizados. Apolinário voltou a Ravena, foi novamente preso e conduzido ao templo de Apoio, cuja estátua amaldiçoou, fazendo-a tombar. Vendo isso os pontífices levaram-no diante do juiz Tauro, que tinha um filho cego ao qual Apolinário devolveu a visão. Por esta razão, o juiz tornou-se crente e por quatro anos manteve Apolinário em uma propriedade sua. Como os pontífices acusaram Apolinário diante de Vespasiano, este determinou que todos os que ofendessem os deuses ou sacrificariam a eles ou seriam expulsos da cidade, porque “não é preciso que vinguemos nossos deuses, eles mesmos, se irados, podem se vingar de seus inimigos”.

 O patrício Demóstenes não conseguiu fazer Apolinário sacrifica e entregou-o a um centurião, que secretamente já era cristão e rogou que ele se refugiasse em uma aldeia de leprosos, onde poderia viver longe do furor dos gentios. Mas a multidão que o perseguia o alcançou, feriu-o, deixando-o quase morto, e apenas graças aos cuidados dos discípulos viveu ainda sete dias antes de entregar o espírito e ser honradamente sepultado pelos cristãos. Isto ocorreu sob Vespasiano, que começou a reinar por volta do ano 70 do Senhor.

 No prefácio a este mártir, diz Ambrósio: 

“O digníssimo bispo Apolinário foi enviado a Ravena por Pedro, príncipe dos apóstolos, para anunciar o nome de Jesus aos incrédulos. Nesta cidade fez coisas maravilhosas em favor dos que acreditavam em Cristo. Consumido pelos sofrimentos de constantes flagelações, seu corpo já velho foi submetido pelos ímpios a horrendas torturas. Mas para que os fiéis não vacilassem com seus sofrimentos físicos, continuou pela virtude do Senhor Jesus Cristo fazendo milagres semelhantes aos apostólicos. Depois de ter sido torturado ressuscitou uma jovem, devolveu a visão a um cego, restituiu a fala a um mudo, libertou uma possessa do demônio, limpou um leproso de sua infecção, sarou os membros fracos de um pestilento, derrubou a imagem de um ídolo e seu templo. O digníssimo pontífice, merecedor de admiração, que com pontificai dignidade recebeu os poderes dos apóstolos! O fortíssimo atleta de Cristo, que com idade avançada mesmo em meio a tormentos pregou constantemente a Jesus Cristo, redentor do mundo!”
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[1] 1. VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea. Vida de Santos. São Paulo. 4ª reimpressão. Companhia das Letras. pp. 371-374.

A vida dos Santos que ora apresentamos é extraída da milenar obra conhecida como “Legenda Áurea”, do frade dominicano Jacopo de Varazze que, com a finalidade de fornecer aos seus colegas de hábito material para a elaboração de seus sermões, isento de qualquer contágio herético, pesquisou textos antigos, conhecidos como “exemplum”, que relatavam as vidas de diversos santos e mártires. Reconhecidamente, Jacopo de Varazze utilizou a rica literatura hagiográfica preexistente sem, no entanto, compilá-la. Legenda, cuja tradução literal é “aquilo que deve ser lido” e “Áurea” = de ouro (leitura de ouro), só veio a ser entendida como “lenda”, no século XIX, pela força dos positivistas. Assim, por uma espécie de adulteração da própria tradução (palavra que não encontra paradigma no latim clássico), “Legenda” passou a ser aceita como sendo um “relato que deforma fatos e personagens históricos. Entretanto, é mais fácil atribuir falta de credibilidade à tardia acepção da palavra “legenda”, do que aos fatos históricos trazidos sob esse título. O que queremos dizer? Que a vida dos santos apresentada pela “Legenda Áurea”, de Jacopo de Varazze, carece de prova em contrário para infirmá-la. Se este ou aquele fato introduzido na história de vida de cada santo ou santa parecer inverossímil, deve-se atribuí-lo à necessidade do autor de criar certas figurações a fim de robustecer a trajetória da personagem, nunca, porém, tornando fictícia a personagem ou a história como um todo.

jan 11

A VIDA DOS SANTOS

VIDA DOS SANTOS

- SÃO MARCOS (Legenda áurea)¹ -

Marcos quer dizer "de sublime mandato”, "seguro”, “modesto” e "amargo”. Ele foi “de sublime mandato”' devido à perfeição de sua vida, pois não apenas observou os mandamentos que são comuns a todos, mas também os sublimes, caso dos preceitos evangélicos. Foi “seguro” devido à confiança na doutrina do Evangelho, o que aprendeu de seu mestre Pedro. Foi “modesto” devido à sua profunda humildade, que o levou a amputar um polegar para não poder ser ordenado sacerdote. Foi "amargo” devido aos tormentos que suportou quando arrastado pela cidade até render o espírito. O nome Marcos também pode vir de marco, o martelo que doma o ferro e ao bater na bigorna produz melodia. Tudo isso se aplica a Marcos, que por meio da doutrina de seu evangelho doma a perfídia dos heréticos, produz a melodia do louvor divino, fortalece a Igreja.

                       O evangelista Marcos, sacerdote da tribo de Levi, foi pelo batismo filho do apóstolo Pedro, de quem era discípulo na palavra divina. Quando ele acompanhou o bem-aventurado Pedro a Roma, onde este pregava, os fiéis da cidade pediram ao beato Marcos que escrevesse o Evangelho de forma a perpetuá-lo na memória de todos. Ele pôs escrito tudo que ouvira de seu mestre, o beato Pedro, que examinou o relato com cuidado e vendo que era pleno de verdade aprovou-o e julgou-o digno de ser recebido por todos os fiéis. Vendo Pedro que Marcos era firme na fé, mandou-o a Aquileia pregar a palavra de Deus, e ele ai converteu enormes multidões de gentios à fé em Cristo. Conta-se que foi lá que escreveu seu Evangelho, ainda hoje conservado com grande devoção na igreja de Aquileia.

                           O bem-aventurado Marcos levou para Roma um cidadão de Aquileia que convertera à fé em Cristo, Ermágora, a fim de que Pedro o consagrasse bispo de Aquileia. Depois de receber o pontificado, Ermágora governou sua igreja com zelo até ser capturado pelos infiéis e receber a coroa do martírio. Marcos, por sua vez, foi então enviado pelo beato Pedro a Alexandria para pregar a palavra de Deus. Logo depois de entrar na cidade, conforme relata Fílon, judeu muito eloquente, juntou-se uma multidão unida pela fé, pela devoção e pela continência. Papias, bispo de Jerusalém, fez o elogio dele em estilo refinado, e PEDRO DAMIANO diz a seu respeito: “Tão grande foi sua influência em Alexandria, que todos os que acorriam para ser instruídos nos rudimentos da fé logo estavam praticando a continência e todo gênero de boas obras, parecendo uma comunidade de monges. Esse resultado devia-se menos aos milagres e à eloquência de suas prédicas, do que a seus exemplos”. E acrescenta que após a morte o corpo dele foi levado de volta para Itália, a fim de que a terra na qual escrevera seu Evangelho tivesse a honra de possuir seus sagrados despojos: “Feliz Alexandria, que foi banhada por seu sangue glorioso, feliz Itália, por possuir o tesouro de seu corpo”.

                             Conta-se que Marcos era dotado de tamanha humildade que cortou o polegar para que não pudesse ser ordenado sacerdote, mas prevaleceu a autoridade de São Pedro, que o escolheu para bispo de Alexandria. Ao entrar em Alexandria, seu sapato subitamente se rasgou e ele espiritualmente compreendeu o significado do fato: “Ao me livrar destas peles mortas, o Senhor mostrou-me que na verdade Satanás não será mais um obstáculo para mim”. Vendo um sapateiro, Marcos entregou seu calçado destroçado para ser consertado, mas, ao tentar fazê-lo, o artesão feriu-se gravemente na mão esquerda e pôs-se a gritar: “Deus único!”. Ouvindo aquilo, o homem de Deus falou: “Com efeito, o Senhor torna proveitosa minha viagem”. Então misturou um pouco de terra com sua saliva e colocou-a sobre a mão do sapateiro, que imediatamente ficou curado. Este, vendo o poder daquele homem, introduziu-o na sua casa e perguntou-lhe quem era e de onde vinha. Marcos revelou ser um escravo do Senhor Jesus. O outro disse: " Gostaria de conhece-lo'". Marcos: “Vou mostrá-lo”.

                           E Marcos passou a lhe anunciar o Evangelho de Cristo e batizou-o, bem como a todos os de sua casa. Ouvindo falar de um galileu que desprezava os sacrifícios aos deuses, os habitantes da cidade prepararam-lhe algumas ciladas. Sabedor do fato, Marcos ordenou como bispo a Aniano, o homem que ele havia curado, e partiu para Pentápole, onde ficou dois anos antes de voltar para Alexandria. Nesta cidade viu que tinha aumentado muito o número de cristãos na igreja que erguera sobre os rochedos à beira-mar, no lugar chamado Matadouro.

                           Sabendo que ele havia voltado, os sacerdotes dos templos planejaram prendê-lo, e no dia de Páscoa, quando o bem-aventurado Marcos celebrava missa, entraram na igreja, amarraram-lhe uma corda no pescoço e arrastaram-no por toda a cidade, dizendo: “Levemos o búfalo ao Matadouro”. Sua carne e seu sangue espalharam-se pelo chão e cobriram as pedras. Em seguida foi colocado numa prisão, onde um anjo consolou-o e o próprio Senhor Jesus Cristo dignou-se visitá-lo, dizendo para confortá-lo: “A paz esteja consigo! Marcos, meu evangelista, nada tema, porque estou aqui para levá-lo comigo”.

                          Chegada a manhã, puseram outra vez uma corda no seu pescoço e o arrastaram de um lado para o outro, gritando: “Levemos o búfalo 10 Matadouro”. No meio desse suplício, Marcos dava graças a Deus dizendo: “Entrego meu espírito em suas mãos”. E, pronunciando estas palavras, expirou. Era a época de Nero, por volta do ano 57 do Senhor. Como os pagãos queriam queimar seu corpo, de repente o ar ficou turvo, começou uma tempestade, caiu granizo, explodiram trovoadas, faiscaram relâmpagos. Todo mundo fugiu, deixando intacto o corpo do santo, que os cristãos recolheram e sepultaram na igreja, com toda reverência.

                    O beato Marcos tinha nariz comprido, sobrancelhas baixas, olhos bonitos, ligeiras entradas no cabelo, barba espessa. Era homem de boas maneiras e de meia-idade. Seus cabelos começavam a branquear, era afetuoso, comedido e cheio da graça de Deus. O bem-aventurado Ambrósio diz a seu respeito:

"O beato Marcos brilhava por incontáveis milagres. Quando um sapateiro a quem ele dera seu calçado para consertar furou a mão esquerda em seu trabalho, gritando ao se ferir: “Deus único!”, o escravo de Deus ficou todo feliz ao ouvi-lo, pegou um pouco de lama feita com a própria saliva, com ela untou a mão machucada, que sarou no mesmo instante, de modo que o homem pôde continuar seu trabalho. Este milagre foi semelhante àquele contado no Evangelho, segundo o qual o Senhor curou um cego de nascença".

_________________________________________________ 1. VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea. Vida de Santos. São Paulo. 4ª reimpressão. Companhia das Letras. pp. 371-374. A vida dos Santos que ora apresentamos é extraída da milenar obra conhecida como “Legenda Áurea”, do frade dominicano Jacopo de Varazze que, com a finalidade de fornecer aos seus colegas de hábito material para a elaboração de seus sermões, isento de qualquer contágio herético, pesquisou textos antigos, conhecidos como “exemplum”, que relatavam as vidas de diversos santos e mártires. Reconhecidamente, Jacopo de Varazze utilizou a rica literatura hagiográfica preexistente sem, no entanto, compilá-la. Legenda, cuja tradução literal é “aquilo que deve ser lido” e “Áurea” = de ouro (leitura de ouro), só veio a ser entendida como “lenda”, no século XIX, pela força dos positivistas. Assim, por uma espécie de adulteração da própria tradução (palavra que não encontra paradigma no latim clássico), “Legenda” passou a ser aceita como sendo um “relato que deforma fatos e personagens históricos. Entretanto, é mais fácil atribuir falta de credibilidade à tardia acepção da palavra “legenda”, do que aos fatos históricos trazidos sob esse título. O que queremos dizer? Que a vida dos santos apresentada pela “Legenda Áurea”, de Jacopo de Varazze, carece de prova em contrário para infirmá-la. Se este ou aquele fato introduzido na história de vida de cada santo ou santa parecer inverossímil, deve-se atribuí-lo à necessidade do autor de criar certas figurações a fim de robustecer a trajetória da personagem, nunca, porém, tornando fictícia a personagem ou a história como um todo.

dez 21

REFLETINDO SOBRE AGOSTINHO

SANTO AGOSTINHO-2

REFLETINDO SOBRE AGOSTINHO

 

            A vida de todo cristão deveria pautar-se pelo exemplo deixado por algum dos muitos líderes espirituais do passado, através da vida e dos escritos que deixaram. Seria impossível, aqui, citá-los um a um, ante a infindável lista que a história nos apresenta.

            Nestes tempos de sucessivas leituras sobre a Patrologia, um personagem de ponta surge no horizonte, de forma nítida e brilhante: Agostinho de Hipona. A vida deste homem é singular!  Entretanto, o Agostinho que chega à nossa alma e nos faz refletir e mirar no exemplo, não é aquele dotado de saberes e de luzes emanados dos céus, mas sim, o homem acima de tudo feito de carne e osso, com todas as implicações que decorrem desta condição. Capturamos a imagem do Agostinho nascido em uma família humilde, com pais e irmãos, morando numa casa simples, uma vida pobre sim, mas sem privações absurdas, nada anormal.

             O Agostinho menino, viveu como os meninos do seu tempo, fazendo bagunças pelas redondezas, chegando em casa suado depois das fanfarrices realizadas nas ruas e nos becos, cercado de outros pequenos baderneiros praticando, como ele próprio mais tarde reconheceria com grande pesar[1], pequenos furtos de frutas nos pomares vizinhos, não por necessidade, mas pelo mero prazer de executar atos proibidos[2]. Na adolescência, imbuído do espírito da rebeldia que ainda hoje assola nossos filhos, deu algum trabalho a Mônica e a Patrício, principalmente por este último ser infiel à esposa, ferindo o orgulho do filho que de tudo sabia e sofria por sua mãe.

            Jovem, encantou-se com a retórica de Macróbio e, com a ajuda de um parente de seu pai – Romaniano –, e querendo tornar-se advogado, pôde estudar oratória em Madaura, distante apenas 24 km de Tagaste, tornando-se tão brilhante que, mais tarde em Milão, exerceria o magistério. Tornado cidadão importante, advogado e mestre da palavra e do discurso, vivendo como um nobre, em meio de tudo o que dava prazer e sentimento de autorrealização, Agostinho decide viver ao lado de uma mulher que, de escrava, torna-se amante, amada e desejada e, posteriormente, mãe de seu filho Adeodato.

            A influência de Mani, líder dos maniqueus, na vida de Agostinho foi vital para fortalecer nele a certeza e a convicção de que o homem não precisava de Deus, cuja existência era objeto de sérias dúvidas por todos eles. Mais tarde, Agostinho vai se lamentar profundamente pela ignorância vivida naquele período de sua vida[3].  Naquela época ele vivia no melhor dos mundos: nobre, intelectual, amante e amado por todos e por todas e quase despontando como líder de uma filosofia de vida que afrontava diretamente os cristãos da época e os fundamentos do Evangelho.

            A julgar por este histórico, poderíamos concluir apressadamente que Agostinho jamais teria mudado o rumo de sua vida. No entanto, com a doença e a morte de Patrício, Mônica, que era muito católica, teve imenso desgosto ao ver Agostinho retornar a Tagaste acompanhado da escrava-amante que, em pouco tempo, traria Adeodato ao mundo. Mesmo assim não se deu por vencida. Estava diante de um filho já homem feito, dotado de boa formação intelectual, dono de uma retórica e de uma oratória fascinantes, apreendidas na leitura das obras de Cícero – filósofo, tradutor e brilhante orador romano – e que, acima de tudo, cultivava aversão aos cristãos em geral e aos católicos em especial.

            As orações de Mônica eram incessantes, implorando a Deus a conversão do filho que parecia cada dia mais fortalecido em suas convicções. Entretanto, a ida para Milão levou-o a encontrar aquele que realizaria a obra de Deus, tão implorada por Mônica: o bispo Ambrósio. Ao ser apresentado ao bispo e com ele estabelecer alguns debates acalorados, Agostinho sentiu que sua vida estava em processo de profunda transformação. Ambrósio, além de excelente orador, detinha profundo conhecimento sobre Platão, o que assombrou Agostinho que, desconhecendo o grego, nunca lera nada sobre o discípulo de Sócrates.  Os fundamentos do seu conhecimento pagão foram seriamente abalados; o maniqueísmo já não atendia às suas convicções; a fúria do império romano mostrava claramente que o ápice de todos os valores era o endeusamento do imperador e dos seus caprichos imperiais e mundanos, fundamentados na luxúria e na superstição.

            Agostinho, por fim, dá-se por vencido e aceita ser batizado justamente por Ambrósio, levando consigo o amigo Alípio e o filho Adeodato, não sem antes ler o profeta Isaías, por determinação do Bispo[4].

            É a partir daqui que o exemplo de Agostinho interessa aos cristãos de todos os tempos. Depois do batismo, embora ainda resistindo à ideia de se tornar um sacerdote, ele faz profunda reflexão sobre sua vida passada. Chora copiosamente e lamenta todo mal que fez, os mínimos dos quais ainda se recordava, assim como aquele com o qual tenha sido conivente. Vai empreender viagem ao fundo da sua alma e chegará à conclusão de que “O homem não pode ter esperança de encontrar Deus se não encontrar antes a si mesmo: pois esse Deus é mais profundo que o meu próprio íntimo, e a experiência dele torna-se “melhor” quanto mais é interior. Acima de tudo, a tragédia do homem é ser impelido a fugir “para o lado de fora”, a perder o contato consigo mesmo, a “vagar para longe” de “seu coração”: “Estáveis bem diante de mim, porém eu me apartara de mim e, se não podia encontrar a mim mesmo, muito menos encontraria a Vós[5] . Torna-se não apenas sacerdote, mas é sagrado Bispo de Hipona, a partir de quando enfrenta as doutrinas contrárias ao evangelho, como o Pelagianismo e o donatismo, escrevendo textos e obras que o consagrariam para sempre, como as “Confissões”, por meio das quais se arrepende de toda a sua vida passada, lamenta o tempo em que não conhecia Deus, suplica pelo perdão divino e assume de uma vez por todas a missão que lhe estava reservada desde o ventre de sua mãe: combater as heresias do seu tempo e conduzir os católicos cada vez mais no caminho do Evangelho de Jesus, o Cristo de Deus.

            A vida e a história de Agostinho são por demais interessantes, tanto pelo exemplo deixado, quanto pela necessidade que os católicos têm ainda hoje, de buscar de forma consistente a conversão a Deus. A necessidade urgente da introspecção de cada um de nós, da viagem pelos recônditos caminhos do nosso íntimo, indo até as profundezas da alma, em busca do arrependimento e da correção de tudo o que, contrário à vontade de Deus, praticamos ou somos coniventes com a prática. Quantas vezes, para preservar nosso status quo, rimos da desgraça alheia, fazendo coro com os poderosos, só porque achamos que deles dependemos para assegurar a nossa “felicidade”? quantas vezes em nossas vidas preferimos baixar a cabeça diante de Deus, fingindo não reconhecê-lo, para não termos de nos defrontar com nossas culpas e iniquidades?

              Conhecer e refletir sobre Agostinho é sempre um caminho viável e atual, para quem quer encontrar-se consigo mesmo e, de forma concreta e definitiva, encontrar-se com Deus, sem ilusões e falsas convicções, certezas e expectativas. Agostinho é exemplo sempre citado, quando se fala sobre conversões “impossíveis” de acontecer, porque, para nós, muitas coisas são realmente impossíveis de serem realizadas, mas Deus sempre tem um Ambrósio para tornar possível o que o homem comum não consegue.

            Conhecendo a história de Agostinho e refletindo profundamente sobre ela, chegamos à convicção de que, não apenas a nossa conversão diária e incessante é possível e necessária, como também de que podemos trabalhar para a conversão de inúmeras almas para Deus! Tudo podemos naquele que nos fortalece, já ensinava o Apóstolo dos Gentios. A vida de Agostinho ainda brilha no horizonte de todos os cristãos, como um imenso farol a indicar o porto seguro para atracar o imenso e pesado barco das nossas vidas. Façamos a experiência de vida com Agostinho e, certamente, gozaremos de profunda conversão das nossas almas servindo, quem sabe, como exemplo para as gerações futuras.

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[1] Confissões – Vozes – Petrópolis – 1992 – págs. 54/55 – “Que fruto nessa ocasião colhi eu, miserável, das ações que agora ao recordá-las me fazem corar de vergonha, nomeadamente daquele roubo, em que amei o próprio roubo e nada mais? Nenhum, pois o furto nada valia e, com ele, me tornei mais miserável”.

[2] Idem, pág. 50 – “(...) roubei, não instigado pela necessidade, mas somente pela penúria, fastio da justiça e pelo excesso da maldade. Tanto é assim que furtei o que tinha em abundância e em muito melhores condições. Não pretendia desfrutar do furto mas do roubo em si e do pecado”.

[3] Idem, pág. 66 – “(...) afastava-me da verdade com a aparência de caminhar para ela, porque não sabia que o mal é apenas a privação do bem, privação cujo último termo é o nada. Como podia eu conhece-lo, se meus olhos só atingiam o corpo e meu espírito não via mais do que fantasmas?”

[4] Idem, pág. 198 – “Comuniquei por carta ao Vosso Santo Bispo Ambrósio os meus desregramentos passados e a minha resolução presente, para que me indicasse o que de preferência devia ler nas Vossas Escrituras, a fim de melhor me dispor e de me tornar mais apto para a recepção de tão insigne graça. Ordenou-me que lesse o profeta Isaías, segundo me parece, por ter vaticinado mais claramente do que qualquer outro, o Vosso Evangelho e a vocação dos gentios à fé”.

[5] Brown, Peter - Santo Agostinho – Uma biografia, 2005 – Record , pág.205.

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