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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: UM FOCO NA SANTIDADE

jun 23

O CUIDADO COM O PRÓXIMO É CAMINHO PARA A SANTIDADE

LEITOS NO INVERNO
Por Érika Augusto - 

São Paulo (SP) - “Vejo a Igreja como um hospital de campanha”, esta afirmação do Papa Francisco nunca fez tanto sentido. Em São Paulo, no Largo São Francisco, desde a noite da última segunda-feira, o salão que acolhe durante o dia o Chá do Padre, passou a abrigar dezenas de pessoas em situação de rua para pernoite. Eles chegam por volta das 19 horas, recebem um kit com materiais de higiene pessoal e toalha, tomam banho, ganham uma roupa limpa, jantam e recebem uma cama quente e um cobertor para passarem a noite. Nas duas primeiras noites mais de 50 pessoas foram acolhidas. Para a noite desta quarta-feira, dia 16, a capacidade aumentou para 100 pessoas.

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Muitas pessoas se dispuseram a ajudar da acolhida

A batalha, nesse caso, é contra o frio que chegou forte a São Paulo antes da chegada oficial do inverno. A população de rua, contudo, continuará sendo acolhida até o final da estação, garante Frei José Francisco de Cássia dos Santos, coordenador do Serviço Franciscano de Solidariedade – Sefras. Segundo o frade, desde a primeira morte de um morador de rua, ocorrida no fim da semana passada, nasceu o desejo de fazer algo para atender esta demanda. O frade conta que após uma ligação ao Padre Júlio Lancellotti, Vigário Episcopal para o Povo de rua na Arquidiocese de São Paulo, havia o desejo de acolher os moradores no salão e conversou com alguns funcionários do Sefras, mas não havia nada concreto.

Na segunda-feira, dia de Santo Antônio, em meio às inúmeras celebrações, Frei José Francisco recebeu a ligação de Luciana Temer, Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo, que propôs uma parceira entre a Prefeitura e o Sefras. A partir daí a ideia passou a se tornar realidade. Camas de campanha e colchões foram entregues no Chá do Padre, que fica localizado na Rua Riachuelo, 268. O salão, que serve 300 almoços durante o dia, além de atender os moradores em diversas atividades, passou a acolhê-los também para pernoite.

Frei Diego Atalino de Melo, coordenador do Serviço de Animação Vocacional – SAV, publicou uma foto do espaço no Facebook, com o intuito de divulgar o serviço que passaria a ser prestado. A postagem viralizou, atingindo em 4 dias mais de 123 mil compartilhamentos. A partir de então os meios de comunicação passaram a divulgar, e muitas pessoas se sensibilizaram com a causa. As doações não pararam de chegar, além de inúmeras pessoas se oferecendo para ajudar como voluntários.

Foi o caso de Leidiane e Antônio. Os jovens viram pelo Facebook e entraram em contato. “Foi uma experiência maravilhosa, enriquecedora, a gente passa a conhecer a história destes moradores que são tão ignorados pela sociedade”, partilha a jovem, que está há 2 dias como voluntária na acolhida. Maria Aparecida de Brito, que participa da Ordem Franciscana Secular na Igreja São Francisco das Chagas, conta que ao ver a postagem no Facebook logo se prontificou a ajudar. Cerca de 20 pessoas, entre frades, paroquianos do Largo São Francisco, amigos e jovens vocacionados, estavam ajudando na acolhida na noite desta quarta-feira.

Muitos também compareceram ao local sem nenhum contato prévio, souberam pela mídia e se apresentaram para ajudar. Os voluntários se revezaram na recepção, cozinha, corte de cabelo e separação de doações. Alguns jovens e os frades ficaram durante toda a madrugada no espaço, de prontidão no caso de alguma necessidade.

Na noite de ontem o governador Geraldo Alckmin esteve presente no local, acompanhado da Defesa Civil. Ele conversou com os frades e com os acolhidos. O governador postou em sua conta do Twitter algumas fotos da visita.

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Sr. Olindo, acolhido, no antes e depois do corte de cabelo

O Sefras conta com diversos trabalhos além do Chá do Padre, mas diante da demanda emergencial, muitos funcionários deixaram suas atividades para ajudar no local. Rosangela Pezoti, Coordenadora do Setor de Articulação do Sefras, conta que foi um grande desafio organizar a pernoite em um curto espaço de tempo. “O Sefras tem uma característica de grandes desafios e atender as demandas urgentes”, afirma. Ela conta que um caso semelhante aconteceu com os imigrantes, no Centro de Referência e Casa de Acolhida aos Imigrantes, que fica na Bela Vista, onde foi realizada a pernoite temporária de algumas pessoas.

Frei José Francisco afirma que o serviço permanecerá ativo durante todo o inverno, mas que o Sefras não tem intenção de manter a acolhida, uma vez que o salão passou por uma reforma recente e readequação do espaço para atender o Chá do Padre, que é um trabalho diferenciado, chegando a atender 1200 pessoas por dia com formação, debates, atendimento jurídico e psicológico, entre outros serviços.

As doações estão sendo recolhidas em 4 pontos, as 3 paróquias franciscanas localizadas em São Paulo e no próprio Chá do Padre. Roupas e calçados masculinos, cuecas, cobertores e itens de higiene pessoal (desodorante, aparelho de barbear, sabonete, shampoo, pasta de dente) são a maior urgência no momento, além de mantimentos para o jantar e café da manhã (especialmente farinha de trigo e leite) que são servidos aos moradores.

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PARTICIPE DESTA AÇÃO

Convento São Francisco Largo São Francisco, 133, Sé, São Paulo (SP) (11) 3291-2400 De segunda a sábado das 7h às 18h Domingo das 7h às 13h Paróquia São Francisco – Vila Clementino Rua Borges Lagoa, 1209, Vila Clementino, São Paulo (SP) (11) 5576-7960 De segunda das 8h às 19h De terça a sexta das 8h às 20h Aos sábados das 8h às 18h Paróquia Santo Antônio do Pari Praça Padre Bento, s/n, Pari, São Paulo (SP) (11) 3459-1434 De segunda a sexta das 8h às 12h30 e das 13h30 às 17h20 Aos sábados das 8h ao meio-dia Sefras Rua Hanneman,352, Pari, São Paulo (SP) (11) 3291-4433 Chá do Padre – para doações e voluntários Rua Riachuelo, 238, Sé, São Paulo (SP) Diariamente das 7h às 20h

Os que desejam ser voluntários podem se apresentar pessoalmente no Chá do Padre, ou entrar em contato por e-mail:comunicação.sefras@franciscanos.org.br

__________________________________________________ FONTE: http://www.franciscanos.org.br/?p=111323  

mai 26

COISAS NOVAS E COISAS VELHAS

FREI ALMIR

Atitudes pastorais a serem encorajadas em nossos tempos - 

 *Por Frei Almir Ribeiro Guimarães, ofm - 

1. Desnecessário repetir que vivemos um tempo complexo na vida do mundo e da Igreja. Somos franciscanos e desejamos ser missionários no seio de uma Igreja que muitos amamos e num mundo em transformações radicais. Como São Francisco, somos convidados a restaurar a vida dessa Igreja. Fazemo-lo a partir de nossa vocação de seguimento do Evangelho do Cristo pobre, à maneira de Francisco. Realizamos nossa vocação a partir de nossa Fraternitas. Não nos sentimos “funcionários” de uma “agência do sagrado”. Muitos de nós trabalhamos nas paróquias que foram e continuam nos sendo confiadas. Fazemos o trabalho o melhor que podemos. A partir dessa revolução operada em nós pela vocação, pelo chamamento do seguimento de Cristo, procuramos compreender o mundo e ser agentes através de um sério e alegre retorno ao vigor do Evangelho. Pastores, documentos da Igreja sugerem, aqui e ali, algumas atitudes pastorais que precisam ser encorajadas em nossos tempos. Muitas delas se aproximam do espírito franciscano de ser no mundo e na Igreja. Fique bem claro que nossa presença na pastoral diocesana será na linha de colaborar com a Igreja sempre sabendo que levamos esse nosso ser de seguidores do Evangelho à maneira de Francisco. Não precisamos anunciar as cores e nem usar crachás e rótulos. Basta que passe em nossas palavras e gestos o fogo que nos habita.

2. Há preocupações. Como transmitir a fé? O que é transmitir a fé? Como reagir frente ao indiferentismo manifestado aqui e ali com relação à fé da Igreja? Que visibilidade tem a Igreja nesse momento no mundo? Fazemos sentir que constituímos um grupo de busca séria da verdade, do bem e de Deus? Quais as nossas preocupações pastorais de modo particular quando somos párocos e vigários paroquiais? Será que, sem querer, não aceitamos uma mentalidade meramente sacramentalista?

3. Vivemos, com efeito, num mundo de indiferença. Não temos que ficar lamentando o tempo todo. Será preciso acolher a indiferença com um apelo à renovação do testemunho e um convite ao discernimento. Pode-se dizer que, ao menos nas grandes e médias cidades, há o fenômeno da indiferença frente à Igreja. Não generalizemos. Há sintomas bonitos de busca séria do Evangelho, tanto nas paróquias quanto em grupos de movimentos. Esperamos sempre que esses movimentos não se tornem grupos fechados, com um linguajar bizarro, com práticas apenas emocionais. Há pessoas indiferentes à prática religiosa. Há os que não estão de acordo com certas posições da Igreja no campo da moral. Há pessoas que, além de indiferentes, devido a várias razões foram se tornando impermeáveis aos apelos da fé. Pessoas de certa idade constatam que seus filhos são indiferentes. Lamentam que eles se casem ou passem a viver juntos com pessoas separadas. Lamentam ainda que filhos e netos deixaram de sentir necessidade da missa dominical. Certos pais e avós sentem uma espécie de complexo de culpa. Filhos e netos não retiveram nada daquilo que se designa de transmissão da fé. O fenômeno da indiferença religiosa ou da indiferença para com a prática religiosa mostra que alguma coisa não toca as pessoas, não chega a ser recebida e percebida. Essa atitude de indiferença precisa questionar um certo tipo de pastoral em que as pessoas não fizeram uma verdadeira experiência espiritual. Nasceram numa família católica, foram batizadas, fizeram a primeira comunhão, nunca assimilaram de verdade os enunciados da fé, ficaram numa fé nocional. Os tempos da indiferença são um convite a uma pastoral de “personalização” da fé. Não se transmite a fé como se transmitem traços físicos dos pais e costumes de uma nação. Ora, a indiferença de muitos é um convite a que os agentes de pastoral e as comunidades cristãs digamos nossa fé de uma maneira nova. Sim, a indiferença pode ser um convite a que vivamos com coragem a fé em Cristo como verdadeira experiência espiritual, como uma experiência que não se inventa, mas que se recebe de Deus e modela nossa vida. Os responsáveis pela catequese em todos os níveis devem ser pessoas que estão sempre se reunindo, estudando, rezando, se preocupando em realizar sua missão da melhor e mais profunda maneira.

4. Outra atitude a ser encorajada em nossos dias é praticar um diálogo verdadeiro. Será fundamental não colocar de um lado o certo e do outro o errado em duas colunas. Não se pode elencar de um lado as afirmações da fé com o bloco das indiferenças. Em cada um de nós há o homem da fé e o homem da dúvida ou da indiferença. Há nossa verdade cristã católica, mas também existe a verdade desses outros buscadores sinceros de Deus no cristianismo e nas religiões. Hoje estamos convencidos de que será fundamental viver em constante diálogo. Há o diálogo entre os fiéis e seus pastores, o diálogo entre pais e filhos, o diálogo entre pessoas de religiões diferentes. Nas catequeses, nas homilias isso precisa transparecer. Nada da intransigência dos que dão a impressão de serem donos da verdade. Mas pessoas que estão convencidas da verdade de sua fé, sem o desejo de impor e de levar ninguém para práticas inquisicionais. Pensamos no diálogo entre pessoas de diferentes religiões, mas pensamos também no diálogo diante do pluralismo de pontos de vista dentro da própria comunidade eclesial. O diálogo não é uma estratégia para convencer os outros de nossas convicções ou pontos de vista, mas um clima de busca sincera da verdade que nos liberta. Daí a importância de fóruns, de tardes e dias de reflexão sobre temas candentes do mundo: respeito pela vida, sexualidade, mundo do dinheiro, opções sexuais e tantos outros temas. Quando uma “catequese” é feita em estilo dialogante, as coisas podem mudar. Pensamos de modo muito particular em todo um clima de acolhimento e de diálogo com pessoas que, rompido o vínculo do casamento, se recasaram. Pensamos também em todos os que se sentem discriminados.

5. Será importante cultivar “um estilo de vida” cristão. A fé em Cristo modela e transforma a existência. A fé leva a que adotemos um “estilo de vida” diferente. Sem posições emocionais exageradas, sem discursos, as pessoas devem se dar conta de um estilo de vida cristão que vivemos, que vivem nossas comunidades, que aparece nas exortações de nossos pastores. A evangelização começa sempre com a simples presença. Famosas e claras as palavras de Paulo VI na sua exortação apostólica Evangelii Nuntiandi : “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais nada, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou grupo de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes e sua esperança em qualquer coisa que não se vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que o veem viver, perguntas indeclináveis: Por que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova“ (Evangelii Nuntiandi, 21). Através desse testemunho, desse “estilo de vida” cristão, já há uma primeira inserção do Evangelho de Cristo no tecido da realidade do mundo na ordem social, política, econômica e cultural. No dizer de um documento dos bispos franceses, pode-se dizer que “existe verdadeiramente um ethos cristão, um modo eficaz de manifestar a relação que une a fé proposta e os comportamentos vividos, sobretudo quando no meio ambiente há leis e costumes que estão em oposição ao Evangelho”. Um “estilo de vida” cristão requer uma referência explícita à Palavra de Deus e à voz da Tradição.

6. Em nossos dias, a diferença cristã é chamada a manifestar-se em condições novas. Na medida em que nossa sociedade esquece suas raízes cristãs, mais e mais os batizados deverão andar na busca da fonte de sua identidade e manifestá-la claramente. Esse estilo de vida exige uma formação toda especial que certos movimentos religiosas e famílias de vida consagrada desenvolvem. Não se trata apenas de incentivar o esforço de vida cristã, mas de fundar nosso estilo de vida nas exigências do Evangelho. A vida de consagração religiosa nas diferentes formas, também vivida pelos consagrados no mundo podem ser uma evangelização pela simples presença. Mas se trata também de um testemunho singelo e forte dado nos corredores das câmaras dos vereadores, nos balcões do comércio e e simplesmente num estilo de vida cristão.

Nota bene: Em nosso próximo número continuaremos esta nossa reflexão. Abordaremos outros empenhos pastorais a serem encorajados: manifestar a visibilidade sacramental da Igreja, formar comunidades fraternas e apostólicas, aprender a vivenciar a esperança cristã. Esse nosso texto se inspira, em boa parte, no documento La Passione del Vangelo, do bispo francês Claude Dagens e publicado em italiano na Revista Il Regno (8/2010).

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*Frei Almir Ribeiro Guimarães pertence à ordem dos frades menores, e escreve seus artigos periodicamente para a Província da Imaculada Conceição do Brasil  - See more at: http://www.franciscanos.org.br/?p=7874#sthash.6vRoqzVM.dpuf

abr 28

SÃO FRANCISCO E A COMPAIXÃO – POR FREI ALMIR GUIMARÃES

COMPAIXÃO DE FRANCISCO

A RESPEITO DA COMPAIXÃO EM SÃO FRANCISCO DE ASSIS –

*Por Frei Almir Guimarães –

"Jubileu extraordinário da misericórdia! Em todos os lugares se ouve falar do tema. Inspiramo-nos aqui numa reflexão de Nicole Granger, terceira franciscana francesa, estampada na Revista Évangile Aujourd’hui (n. 198, 2003, p. 29-35) a respeito da compaixão em São Francisco." 

  1. Compaixão e simpatia não são palavras sinônimas. Os dois termos, no entanto, remetem para a mesma ideia: uma aptidão de sofrer com…, de sentir com. Simpatia é a face solar de sentimentos partilhados, a compaixão seu lado dolorido. A compaixão seria doce se pudesse se revestir de sentimentos de simpatia. A simpatia seria indulgente, se ela não ignorasse a compaixão. Em São Francisco os dois sentimentos se unem quando a Regra não bulada afirma: “E devem (os irmãos) estar satisfeitos quando estão no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua” (Regra não bulada 9,3). Em resumo, os irmãos se façam presentes na vida de todos aqueles que carecem de compaixão. 

  1. A palavra compaixão não faz parte do vocabulário de Francisco em seus escritos. O termo, porém, é usado frequentemente por seus biógrafos e de maneira muito tocante: “Quem poderia descrever, afirma Celano, sua imensa compaixão para com os pobres?” (2Cel 83). Compaixão aparece na emoção do santo diante das “mãos aleijadas de uma pobre mulher” (1Cel 67), no fato de beijar os rostos desfigurados dos leprosos (Leg. Maior I,6), ao contemplar as misérias e desgraças do coração. Fazia suas as dores dos sofredores e se extasiava dolentemente diante das dores do Crucificado. Fez a experiência da dores do Amado de modo particular no alto do Alverne. 

  1. Se o corpo de Francisco, quase no final de sua trajetória, é assinalado pelas chagas de Cristo, tantas vezes contempladas e pranteadas com amor, é porque seu caminho de compaixão fez com que de homem em homem, de irmão em irmão ele acolhesse em a si a dor dos outros, não de maneira passiva e estereotipada mas com originalidade própria de tal forma que cada franciscano que contempla o modo de Francisco exercer a compaixão dispõe de um “vade-mécum” , um “modo de fazer” a compaixão, uma “receita do bolo”. 

  1. Chorar – A compaixão não necessita forçosamente se exprimir por lágrimas. Muitas vezes chorar, gemer, pode significar ensimesmamento, preocupação com a própria sensibilidade, decepção raivosa do próprio ego. E no entanto, as lágrimas não são coisas banais. Chorar pode ser expressão de uma tristeza. Há os que afirmam que aquele que perdura na tristeza anda fazendo aliança com o diabo. O diabo fica alegre quando pode surrupiar a alegria do coração das pessoas. Por pequenas brechas o inimigo tira a candura da mente: “A maior alegria do diabo é quando pode roubar ao servo de Deus o gozo do espírito. Carrega um pó para jogar nos menores meandros da consciência para emporcalhar a candura da mente e a pureza da vida” (2Cel 125). Quando alguém é dominado pela tristeza precisará chorar. “… se não for lavado pelas lágrimas produzirá no coração uma ferrugem que vai ficar” (Idem). 

Algo de diferente parece estar representado no famoso quadro que representa Francisco enxugando as lágrimas com um lenço. O quadro nos leva a pensar que a compaixão pelos outros se traduz em abundantes lágrimas. A compaixão é um movimento que atinge o próprio corpo, que suscita e faz nascer intenção de colocar gestos precisos de compreensão e de misericórdia. Lágrimas de compaixão são aquelas que nos permitem ver mais claro, caracterizadas por lucidez e não por um nevoeiro afetivo e sentimental. 

  1. Dar – Como primeiro gesto de compaixão Francisco costumava se desfazer de alguma coisa que tinha em favor dos outros. “Com relação a todas as coisas que que lhe davam para aliviar as necessidades do corpo, ele estava acostumado a pedir licença aos doadores para poder distribuí-las licitamente se encontrasse alguém mais pobre. Não poupava absolutamente nada, nem mantos, nem túnicas, nem livros, nem sequer os paramentos do altar, sem deixar de dar tudo isso aos pobres enquanto podia para cumprir o dever da piedade. Muitas vezes vemo-lo carregar sobre seus ombros a carga que pobres andavam carregando. 

“A mãe de dois frades veio uma vez ter com o santo, pedindo esmola com confiança. Compadecendo-se dela, o santo Pai disse a Frei Pedro Cattani, seu vigário: ‘Podemos dar alguma esmola à nossa mãe?’ Na verdade ,ele dizia que a mãe de algum irmão, era também sua mãe e de todos os irmãos. Respondeu-lhe Frei Pedro: ‘Não há em casa nada que lhe possa ser dado’. E acrescentou: ‘Temos um Novo Testamento em que, por não termos breviários, fazemos as leituras de Matinas. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: ‘Dá o Novo Testamento a nossa mãe para que ela o venda para sua necessidade, porque por ele somos admoestados a ajudar os pobres. Creio realmente que mais agradará a Deus a doação do que a leitura’” (2Cel 91). 

Outro dom de Francisco foi o da sua palavra. O santo conhecia bem o desespero, pobreza, sofrimento moral e estado de inanição de seus contemporâneos. Muitas vezes ele lhes dirigia a palavra com tanto fervor que eles se sentiam consolados. Ora, a palavra que consola é uma palavra de compaixão. A palavra que consola alivia o peso que os outros carregam e faz com que sequem as lágrimas de seus rostos.

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*Frei Almir Ribeiro Guimarães pertence à ordem dos frades menores, e escreve seus artigos periodicamente para a Província da Imaculada Conceição do Brasil - See more at: http://www.franciscanos.org.br/?p=107644#sthash.CbHWr722.dpuf
Referência  Nicole Granger, “La compassion chez saint François” – Évangile Aujourd’hui n. 198, p. 29ss    

mar 24

SANTO ANTÃO: UMA VIDA DE LUZ – PARTE IV

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A “Vida de Antão”: uma pedagogia para a vida ascética – PARTE IV – 

(CONTINUAÇÃO) - 

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, Ofm - 

 4.5.1 Desejo de martírio

 Num império romano onde ser cristão era viver sob o constante risco de perder a própria vida, o martírio é um ideal a ser buscado, o mais alto grau de perfeição a que um cristão possa almejar. O monge é o sucessor do mártir, ao almejar o ideal cristão autêntico. Antão também deseja o martírio. Atanásio, metaforicamente, aplica o martírio à vida de Antão. A Vida de Antão substitui os Acta Martyrum, assim como a vida monástica, com o fim das perseguições, substitui o martírio19. Com a “Pax Constantiniana” (ano 313), os grandes ascetas do deserto se tornam os novos heróis cristãos. Este conceito é claramente expresso na Vida. Antão vai a Alexandria para confortar os cristãos condenados ao martírio, mas também ele tem o expresso desejo de derramar

o sangue para testemunhar o amor a Cristo. Não conseguindo seu objetivo, retorna à sua cela e se torna um “mártir diário em sua consciência” intensificando seu ascetismo20. O tempo das perseguições, com a possibilidade concreta de derramar o sangue pela fé, já havia passado, quando Atanásio está escrevendo a Vida. Assim, Antão é apresentado como alguém que vive, no seu cotidiano, a espiritualidade do martírio: “aí foi mártir cotidiano em sua consciência, lutando sempre as batalhas da fé. Praticou um vida ascética cheia de zelo e mais intensa. Jejuava continuamente, sua veste interior era de pelo, e de couro a exterior, e a conservou até o dia de sua morte...” (XLVII,1-3). A ascese e a mortificação são os novos meios de se testemunhar Cristo no mundo. Atanásio acentua a espiritualidade do “morrer a cada dia” através da seriedade na vida ascética21.

 4.5.2 Ortodoxia de Antão

             De volta ao seu retiro, a fama de Antão faz com muitos o procurem, para curas, conselhos e apoio. Ansiando por solidão e paz, e temeroso de cair em presunção por causa dos prodígios que Deus realizava por seu intermédio, decide partir de novo, dessa feita para a Alta Tebaida22. No caminho, escuta uma voz que lhe diz: “...se realmente queres estar contigo mesmo, então vai-te ao deserto interior”. Este “deserto interior”, representado pela montanha onde Antão passará o resto de seus dias, na verdade representa o auge de sua jornada espiritual. Aqui ele realiza o ideal da busca de perfeição. No deserto interior ele encontra-se “em casa”: “Daí em diante olhou esse lugar como se houvera encontrado seu próprio lar” (L,2). Mas os demônios e as tentações continuam presentes. Na montanha cultiva a terra para o sustento, continua a receber seus monges, e também sai para dar conselhos. Ali realiza a maior parte de seus prodígios. Mas não os atribui a si: “...no entanto suplicava que ninguém o admirasse por essa razão, mas admirasse antes ao Senhor porque Ele nos ouve a nós, que somos apenas homens, a fim de que possamos conhecê-lo melhor” (LXII,2)23.

             De seu refúgio, Antão sai muito raramente. Sai para combater as heresias (arianismo) e para visitar e fortalecer os monges na fé. Mas volta sempre à sua “montanha interior”, da qual não podia ficar muito tempo ausente, como recomendava aos discípulos: “Assim como um peixe morre quando fica algum tempo em terra seca, assim também os monges se perdem quando se tornam folgazões e passam muito tempo [fora]. Por isso, temos que voltar à montanha, como o peixe à água. De outro modo, se nos entretemos, podemos perder de vista a vida interior” (LXXXV, 3)24.

             No combate à heresia ariana, Atanásio apresenta o monge defendendo as teses que ele mesmo, Atanásio, defendia: “Desceu a montanha e entrando em Alexandria denunciou os arianos. Dizia que sua heresia era a pior de todas e precursora do anticristo. Ensinava ao povo que o Filho de Deus não é uma criatura nem veio ‘da não existência’ ao ser, mas ‘é Ele a eterna Palavra e Sabedoria da substância do Pai’... Por isso, não se metam em nada com estes arianos sumamente ímpios” (LXIX, 1-4).

             Antão também recebe a visita de filósofos, que querem discutir com ele e o tentam enganar, mas ele vence a todos, com a “verdadeira sabedoria”: “Foram-se admirados de ver tal sabedoria num homem iletrado, que não tinha as maneiras grosseiras de quem viveu e envelheceu na montanha, mas era um homem simpático e cortês. Seu falar era sazonado com a sabedoria divina” (LXXIII, 3-4). Neste particular, Atanásio praticamente transforma Antão num filósofo, ao colocá-lo discutindo de maneira lógica com sábios pagãos, acerca da natureza dos deuses. Defendendo a “loucura da Cruz”, a encarnação e redenção, realizados por amor à humanidade, Antão utiliza-se de argumentos sofisticados para um homem que havia dedicado toda a vida à ascese: “Os assim chamados filósofos estavam assombrados e realmente atônitos pela sagacidade do homem e pelo milagre realizado. Disse-lhes, porém, Antão: ‘Por que se maravilham com isto? Não somos nós, mas Cristo quem age através dos que Nele creem. Creiam vocês também e verão que não é palavreado e sim fé que pela caridade opera para Cristo’ (cf. Gl 5,6)” (LXXX, 5-6)25.

             A ortodoxia de Antão também é sublinhada pelo respeito que ele tem pela hierarquia. Atanásio parece querer acentuar que a experiência de Antão, e a experiência monástica em geral, não são desvinculadas da tradição da Igreja. Antão mostrava “... o mais profundo respeito aos ministros da Igreja, e exigia que a todo clérigo se desse maior honra do que a ele. Não se envergonhava de inclinar a cabeça diante de bispos e de sacerdotes. Se algum diácono chegava a ele pedindo-lhe ajuda, conversava com ele o que lhe fosse proveitoso, mas, chegando a oração, pedia-lhe que presidisse, não se envergonhando de aprender” (LXVII,1-2)26.

              Antão, que um dia aprendera com os mestres, agora é o mestre espiritual, o maior deles, que consola, cura, reconforta, converte, liberta dos demônios, edifica na fé: “Numa palavra, era como se Deus houvesse dado um médico ao Egito” (LXXXVII,3). 

            Antes de morrer, Antão recomendou aos dois monges que o acompanhavam que o enterrassem e não revelassem a ninguém o local: “... façam-me vocês mesmos os funerais e sepultem meu corpo na terra, e respeitem de tal modo o que lhes disse, que ninguém senão vocês saiba o lugar. Na ressurreição dos mortos, o Salvador me devolverá incorruptível. Distribuam minha roupa. Ao bispo Atanásio deem uma túnica e o manto onde estou deitado e que ele mesmo me deu, mas que se gastou em meu poder; ao bispo Serapião deem a outra túnica, e vocês podem ficar com a camisa de pelo. E agora, meus filhos, Deus os abençoe. Antão parte e não está mais com vocês” (XCI,7-9).

 Conclusão 

A Vida de Antão obteve um enorme sucesso. Inspirou homens e mulheres de todas as épocas, sedentos de se entregar totalmente a Deus na vida ascética. Embora já houvesse monges no tempo de Antão, Atanásio, com a Vida, apresenta um modelo concreto, palpável, numa linguagem que atende ao gosto da cultura do seu tempo. O relato das tentações, que tanta crítica causou à obra de Atanásio, são a prova das dificuldades que aguardam quem opta por este caminho. Mas a certeza da presença e do apoio incondicional de Deus nesta trajetória também são acentuados. A Vida é, sobretudo, um caminho, indicando-nos meios para se atingir o objetivo. Fala-nos de seriedade de vida, de foco, de empenho, de disciplina. Num mundo em que as atenções são tão facilmente desviadas por tantas distrações, mesmo em ambientes onde vivem

pessoas que optaram por dedicar-se totalmente “às coisas do espírito”, a leitura da Vida é de excepcional atualidade, a nos recordar que o caminho do Espírito exige uma atenção constante, um recomeçar sempre, em meio às “tentações modernas”, não menos assustadoras do que foram para Antão. 

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FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.
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19 Acta Martyrum eram os relatos sobre os mártires, lidos pelos cristãos.
20 Francis, J. Alcuin, OSB, Pagan and Christian Philosophy in Athanasius ‘Vita Antonii’, The American Benedictine Review, 32:2 – june 1981, Aurora IL, p. 100-113.
21 “Se vivêssemos como se cada novo dia fôssemos morrer, não pecaríamos. Isto significa que, a cada dia, quando despertamos deveríamos pensar que não vamos viver até à tarde; e de novo, quando vamos dormir, deveríamos pensar que não chegaremos a despertar” (XIX,3). Veja-se também LXXXIX,4 e XCI,3.
22 Localizado, segundo a tradição, na atual região de Ouadi-al-Arab, há cerca de 30 quilômetros do Mar Vermelho. Ali se encontra atualmente o mosteiro Deir-amba-Antonios, ou o Mosteiro de Antão
23 Em vários momentos Atanásio frisa que quem realiza os milagres é sempre Deus, através de Antão: “Antão, pois, curava, não dando ordens, mas orando e invocando o nome de Cristo, de modo que para todos era claro que não era ele quem atuava, mas o Senhor que mostrava seu amor pelos homens, curando aos que sofriam, por intermédio de Antão. Este ocupava-se apenas da oração e da prática da ascese” (LXXXIV,1-2).
24 A mesma frase se encontra nos apoftegmas de Antão.
25 Em polêmica com os filósofos pagãos, os apologetas cristãos defendiam que a verdadeira filosofia é a vida cristã. Atanásio, através de Antão, vai dar um passo à frente, ao afirmar que a verdadeira filosofia é a vida monástica.
26 Antão não era sacerdote, bem como a maioria dos monges do deserto. 
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 Bibliografia:

  Livros
 Colombás, Garcia M., El Monacato Primitivo I: Hombres, Hechos, Costumbres, Instituciones, Biblioteca Autores Cristianos (BAC), Madrid 1974.
Escritos de São Francisco, Organização e tradução de Frei Celso Márcio Teixeira, Vozes 20044.
Lacarrière, Jacques, Padres do Deserto, homens embriagados de Deus, Loyola 1996.
Santo Atanasio, Vita di Antonio. Apoftegmi – Lettere, Introdução de Lisa Cremaschi, Edizione Paoline, Roma 1984.
Sources Chrétiennes 400, Athanase d’Alexandrie. Vie d’Antoine. Introduccion, texte critique, traduction, notes et index par G. J. M. Bartelink, Les Éditions du cerf, Paris 1994.
 Artigos
 Bormolini, Guildalberto, l’arte spirituale di affontare la notte e il dormire, Rivista di Ascetica e Mistica, Anno XXX, n. 2, aprile-giugno 2005, Firenze, p. 207-236.
Carpenter, Dwayne E., The devil bedeviled: diabolical intervention and the desert fathers, The American Benedictine Review, 31:2, june 1980, Aurora IL, p. 182-200.
Francis, J. Alcuin, OSB, Pagan and Christian Philosophy in Athanasius ‘Vita Antonii’, The American Benedictine Review, 32:2 – june 1981, Aurora IL, p. 100-113.
 Arquivos eletrônicos:
https://sumateologica.files.wordpress.com/2010/02/atanasio_vida_de_santo_antao.pdf http://www.peregrina.com/voxbenedictina/MacrinaSyncletica.html

fev 25

SANTO ANTÃO: UMA VIDA DE LUZ – PARTE III

santo antão - 2

A “Vida de Antão”: uma pedagogia para a vida ascética – PARTE III – 

(CONTINUAÇÃO) - 

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, Ofm - 

 4.3 As tentações

 

             Os primeiros anos de vida ascética de Antão, além da sedenta busca de conhecimento da virtude, são marcados também pelas tentações e pela presença do demônio14. Tais tentações vão aumentando gradativamente, à medida em Antão avança na vida ascética. As primeiras tentações estão relacionadas à vida que até há pouco tempo levava: a preocupação com a irmã, com os parentes, os bens, e a lembrança dos prazeres vividos e deixados para trás. É a tentação de, uma vez tendo “colocado as mãos no arado”, voltar a “olhar para trás”. Relacionam-se também com os temores relacionados à austeridade da vida assumida, às dificuldades futuras. Vencida esta etapa, o demônio então concentra seus ataques nas armas que estão “nos músculos de seu ventre (Jo 40,16)” (V,3). Empregando suas mais baixas artimanhas, o demônio ataca justamente o ponto mais delicado no jovem asceta: sua sexualidade. Estas tentações são terríveis, fazendo Antão travar verdadeiras batalhas contra o mal: “cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns” (V,4). O demônio chega a disfarçar-se de mulher para tentá-lo à noite.

             O jovem resiste: “Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, refletiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação” (V,5). O demônio continua suas investidas, e não desiste. Interessante notar que Atanásio emprega expressões muito humanas para se referir ao ânimo do jovem Antão: “enfadado com razão, e entristecido... envergonhado” (V,6). No final do relato, por causa da resistência de Antão, é o demônio que sai derrotado e envergonhado. A vitória, momentânea diga-se de passagem, é atribuída não a Antão, mas à graça de Deus que age nele: “Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem” (V,7).

             A luta e vitória de Antão contra o mal, através do rigor nas mortificações, particularmente a luta contra a concupiscência e os sentidos, é apresentada como modelo para todos os que querem viver uma vida ascética: “Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: ‘Não eu, mas a graça de Deus comigo’ (1 Cor 15,10)” (V,7)15.

 

 4.4 Progresso nas mortificações e avanço para o deserto

 

               Os primeiros combates contra as tentações e a vitória momentânea não iludem Antão: ele sabe que o demônio está à espreita. Por isso, o único caminho é a ascese: “tendo aprendido nas Escrituras quão diversos são os enganos do maligno (Ef 6,11), praticou seriamente a vida ascética, tendo em conta que, se não pudesse seduzir seu coração pelo prazer do corpo, trataria certamente de enganá-lo por algum outro método” (VII,3). Assim, Antão multiplica as mortificações: noites sem dormir ou dormindo no chão, pouco alimento, jejuns constantes, sem carne ou bebidas, ou só pão e sal16. Nesta parte, Atanásio sublinha o esforço contínuo, cotidiano, dia após dia, no caminho da perfeição. Antão não se preocupava com o tempo passado, com o presente ou com o futuro, “mas dia por dia, como se estivesse começando a vida ascética, fazia os maiores esforços rumo à perfeição” (VII,11). O cuidado em sempre “começar de novo” é acentuado por Atanásio “... como que começando de novo, trabalhava duro cada dia para fazer de si mesmo alguém que pudesse aparecer diante de Deus: puro de coração e disposto a seguir Sua vontade” (VII,12). Antão, em vários momentos (inclusive nos apotegmas), vai repetir o conselho de considerar cada dia como se fosse o último, e de sempre recomeçar o caminho da ascese sem olhar para trás.

             Após este embate com o demônio e o acentuar-se de mortificações, Atanásio afirma que Antão dominou-se a si mesmo. Mas, apesar de todo o progresso, o monge não está satisfeito. Sua alma deseja mais. Por isso retira-se para viver em uma tumba abandonada, num cemitério, no deserto próximo à aldeia onde vivia. Ali trava os mais duros combates contra o demônio.

             Nesta parte do relato Antão já é um homem experimentado no sofrimento e nas tentações, e enfrenta o demônio quase “cara a cara”: “Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35)” (IX,2). Para Atanásio, a luta contra o mal não tem trégua. Antão está sempre em confronto com o demônio, que lhe aparece de todas as formas possíveis, causando-lhe dores e ferimentos. E tais tentações são permitidas por Deus. Quando Antão interroga à “visão” que o vem salvar, “por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?”, ouve a explicação de que estava sempre ali, mas “esperava ver-te enquanto agias”. E, embora Antão conte com apenas 35 anos, e tenha ainda um longo caminho a percorrer, a “voz” afirma: “porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte” (X,3).

             No caminho de busca pela perfeição, nada detêm Antão. Tendo vencido o demônio nas tumbas, decidiu aprofundar-se ainda mais no deserto, indo viver numa pequena fortaleza abandonada. Convidou um ancião para ir com ele. Como este recusou, partiu sozinho. Já no caminho o demônio o tenta, mas o asceta segue em frente. Neste refúgio, em solidão absoluta, retirado de tudo e de todos, acompanhado apenas de Deus, do demônio e de suas artimanhas, durante vinte anos praticando a vida ascética, “não saindo nunca e sendo raramente visto por outros” (XII,7), vai empreender sua luta espiritual radical, ao final da qual sairá transformado definitivamente no grande mestre espiritual, no abade Antão, o “pai dos monges”17.

 

 4.5 O mestre espiritual

 

             Quando sai de seu longo retiro, após os apelos daqueles que queriam imitar sua vida, Atanásio faz questão de frisar a naturalidade com que Antão se encontra com os que o esperavam: “O estado de sua alma era puro, pois não estava nem retraído pela aflição, nem dissipado pela alegria, nem dominado pela distração ou pelo desalento. Não se desconcertou ao ver a multidão nem se orgulhou quando viu tantos que o recebiam. Mantinha-se completamente controlado, como homem guiado pela razão e com grande equilíbrio de caráter” (XIV,3-4). Para Atanásio, Antão é exemplo de humildade e sobriedade. O longo tempo que passou em reclusão voluntária, as vitórias contra o mal, a admiração que as pessoas lhe tributavam, nada disso modifica seu caráter e seu comportamento.

             Com a saída de seu refúgio, Atanásio dá por encerrado o processo de transformação de Antão. A partir daí, o monge aparece como um mestre espiritual, um abade, um santo. Realiza curas e milagres, dá conselhos sábios, tem visões, é exemplo de vida para todos os que se aproximam dele, ao seu redor se forma uma pequena comunidade de anacoretas, o deserto “se enche de monges”: “Por meio de constantes conferências, inflamava o ardor dos que já eram monges e incitava muitos outros ao amor à vida ascética; e logo, na medida em que sua mensagem arrastava homens após ele, o número de celas monásticas multiplicava-se, e era para todos como pai e guia” (XV,3)18. Boa parte da obra de Atanásio, após a transformação de Antão em mestre espiritual, é ocupada pelos “ditos” do mestre. Mas mesmo neste momento posterior à sua “formação” definitiva, Atanásio apresenta um Antão sempre num atento processo de busca da perfeição.

 

CONTINUA (4.5.1 DESEJO DE MARTÍRIO)

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FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.
 

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14 O exagerado acento no “demônio” é uma das mais fortes críticas à obra de Atanásio. No entanto, sabe-se que os demônios e as tentações eram um tema comum na religiosidade popular da época e da cultura onde a obra foi escrita. Não nos cabe aqui tratar exaustivamente das “tentações de Santo Antão”. Sobre isso existem livros inteiros. O tema também foi extremamente explorado por importantes artistas, em pinturas, mosaicos, afrescos, iluminuras de livros, etc. De todas as Vidas escritas, a de Antão é a que contem mais aparições diabólicas. Carpenter, Dwayne E., The devil bedevil: diabolical intervention and the desert fathers, The American Benedictine Review, 31:2, june 1980, 182-200.

 15 Antão aprendeu a discernir a verdadeira ascese, por isso alertava constantemente os monges contra o falso desejo de ascese e perfeição. Jejuns, vigílias, mortificações não podem ser absolutizados, e servem apenas como meios para o exercício da caridade, do amor de Deus e do próximo: “Alguns destroem o próprio corpo com a ascese, mas, privados de discernimento, distanciam-se de Deus”. A esse propósito, São Francisco de Assis afirmava: “Muitos há que, insistindo em orações e serviços, fazem muitas abstinências e macerações em seus corpos, mas, por causa de uma única palavra que lhes parece uma injúria a seu próprio eu ou por causa de alguma coisa que se lhes tirem, sempre se escandalizam (cf. Mt 13, 21) e se perturbam. Estes não são pobres de espírito, porque quem é verdadeiramente pobre de espírito se odeia a si mesmo e ama a quem lhe bate na face (cf. Mt 5, 39)”. Escritos de São Francisco, Admoestações XIV, Vozes 20044, p. 40.

 16 Antão, como os demais ascetas, era vegetariano. Na espiritualidade monástica a pratica ascética de dormir por terra assume uma importância tal, a ponto de se criar uma palavra para designá-la: kameonia. Cfr. Bormolini, Guildalberto, l’arte spirituale di affontare la notte e il dormire, Rivista di Ascetica e Mistica, Anno XXX, n. 2, aprile-giugno 2005, Firenze, p. 207-236. Para vencer o pecado, Antão sugere aos monges a prática diária do exame de consciência, mas também indica um meio simples, mas eficaz: anotar num papel os pecados cometidos, como se tivessem que ser mostrados aos outros monges: “podem estar seguros de que de pura vergonha de que isto seja conhecido, deixaremos de pecar e de prosseguir com pensamentos pecaminosos. Quem gosta que o vejam pecando? Quem, depois de pecar, não preferiria mentir, esperando escapar assim de que o descubram?” (LV,9-11).

 17 O “deserto”, mais do que um lugar geográfico, designa o local onde habitam os demônios. Mas é também no deserto que o Senhor firma sua aliança com o povo, e onde Jesus se mostra transfigurado aos seus. “O deserto, antes de tudo, é um lugar inóspito, tórrido, onde ninguém poderia levar uma existência normal. Lá o homem está nu, apanhado entre a terra e o céu, entre os dias extenuantes e as noites gélidas... No deserto nenhum homem pode viver se não for ajudado por Deus ou por seus anjos, ninguém pode morar ali sem enfrentar, mais cedo ou mais tarde os assaltos do diabo: tem de viver ali com os milagres e as tentações”. Lacarrière, Jacques, Padres do Deserto, homens embriagados de Deus, Loyola 1996, p. 50. Os monges conservaram uma série de apotegmas de Antão. Neles, mais do que um herói vitorioso que vence os demônios, aparece um pecador arrependido e tentado, para quem o deserto é um refúgio, mais do que um lugar de combater e enfrentar demônios, e que insiste sobre a discrição, a prudência e a humildade.

18 “Suas celas solitárias nas colinas eram assim como tendas cheias de coros divinos, cantando salmos, estudando, jejuando, orando, gozando com a esperança da vida futura, trabalhando para dar esmolas e preservando o amor e a harmonia entre si. E em realidade, era como ver um país diferente, uma terra de piedade e justiça. Não havia nem malfeitores nem vítimas do mal, nem acusações do cobrador de impostos, mas uma multidão de ascetas, todos com um só propósito: a virtude” (XLIV,2-4). Num diálogo de Antão com Satanás, este, em tom de lamúria, vai reconhecer sua derrota: “Agora não tenho nem lugar, nem armas, nem cidade. Em toda parte há cristãos e até o deserto está cheio de monges” (XLI,4).

 

jan 14

SANTO ANTÃO: UMA VIDA DE LUZ – PARTE II

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A “Vida de Antão”: uma pedagogia para a vida ascética – PARTE II - 

 4.1 A Vocação de Antão

             Um dos primeiros elementos que Atanásio destaca na Vida, é o fato de que o processo de discernimento do jovem Antão é gradual, mas decidido. Após a morte dos pais, entre os 18 ou 20 anos, “já pensando em se doar totalmente ao serviço de Deus”, e tendo em mente o exemplo dos apóstolos, que deixando tudo, seguiram a Cristo, e o exemplo dos primeiros cristãos nos Atos, que distribuíam os seus bens aos pobres, ele ouve na Igreja o Evangelho que o faz decidir-se de uma vez10.

             Vejamos o que diz Atanásio: “Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: ‘Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu’ (Mt 19,21)” (II,3)11. Segundo Atanásio, Antão sentiu que a palavra havia sido dirigida diretamente a ele. E não perdeu tempo: “Antão saiu imediatamente da Igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados” (II,4). Deixou um pouco para a irmã, mas mesmo esta pequena parte acabou dando aos pobres, ao ouvir, de novo na Igreja, o Evangelho que diz “Não vos preocupeis com o dia de amanhã (Mt 6,34)” (III,1). A irmã foi entregue aos cuidados de uma comunidade de virgens.

             Atanásio sublinha alguns elementos importantes na vocação de Antão. Primeiro, a disposição interior para seguir a Deus: já antes de ouvir o Evangelho, Antão vinha “pensando essas coisas”. Isso faz com que, ao ouvir o Evangelho, o jovem sinta um chamado pessoal, direcionado especialmente a ele. E não se nega à resposta: contrariamente ao jovem rico do Evangelho, que como ele “tinha muitos bens”, Antão imediatamente deixa tudo12. Atanásio sublinha a atitude decidida e peremptória do jovem: não há tempo a perder, a decisão já está tomada, e é imediata. Como a resposta imediata dos apóstolos ao “vem e segue-me” de Jesus, Antão parte para a sequela Christi. Mas ainda há um elemento que Atanásio sublinha: a decisão de Antão é, de tal modo definitiva e radical, que ele não deixa espaço para nenhuma possibilidade de retorno. Por isso, embora tivesse deixado uma parte dos bens para o sustento da irmã, como era de direito, quando ouve o Evangelho que diz para “não nos preocuparmos com o dia de amanhã”, até o que havia reservado para a irmã é dado aos pobres.

             Antão não tem mais nada que o prenda a este mundo. A absoluta confiança na Providência Divina é condição para o discipulado. Livre, pode correr ao encontro do Senhor que o chamou por primeiro. Como diz São João Cassiano, “É a voz de Deus que o arrancou deste mundo”13.

 4.2 A iniciação

             Atanásio mostra o processo de iniciação de Antão à vida ascética como uma gradual afastar-se do convívio com os homens. A princípio, pratica a vida ascética, “vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa” (III,1). Porém, sabendo que numa aldeia próxima vivia um ancião que desde a juventude levava vida ascética, muda-se e vai viver próximo a ele. Mas não se limita a isso: “quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava” (III,4). O jovem vivia de trabalhos manuais, para o próprio sustento e para dar esmolas aos pobres, orava incessantemente e se ocupava das Escrituras. Antão é a “sábia abelha” que busca o rico pólen para elaborar o doce mel da virtude.

             Nesse processo inicial, buscava com sede todas as informações que o pudessem ajudá-lo no caminho que havia encetado: “Observava a bondade de um, a seriedade de outro na oração; estudava a aprazível quietude de um e a afabilidade de outro; fixava sua atenção nas vigílias observadas por um e no estudo de outro; admirava um por sua paciência, a outro por jejuar e dormir no chão, considerava atentamente a humildade de um e a paciente abstinência de outro; e em uns e outros notava especialmente a devoção a Cristo e o amor que mutuamente se tinham.

             Havendo-se assim saciado, voltava a seu lugar de vida ascética” (IV,1-2). Na sua busca, Antão recorre a “experts”, que o ajudam a percorrer os vários graus de amadurecimento no espírito. O autor acentua a importância da prática na vida ascética, e não apenas as teorias: “...submetia-se com toda sinceridade aos homens piedosos que visitava, e se esforçava por aprender aquilo em que cada um o avantajava em zelo e prática ascética” (IV,1). Os exercícios visavam submeter totalmente o corpo e os sentidos, para fortalecer o vigor espiritual da alma.

             Atanásio nos revela um jovem Antão num frenético processo de busca, de conhecimento, sedento por aprender com aqueles que tinham mais experiência. Não à toa Atanásio utiliza a expressão “Havendo-se assim saciado”. Antão tem sede de conhecer o caminho da virtude e da salvação. E, segundo Atanásio, este se dá através dos modelos de vida ascética que Antão busca conhecer, cada um com alguma virtude particular. Atanásio apresenta, neste trecho, um compêndio das virtudes que deve ter o monge ideal, que Antão buscava incorporar em sua vida: “Então se apropriava do que havia obtido de cada um e dedicava todas as suas energias a realizar em si as virtudes de todos” (IV,2). Atanásio vai apresentar Antão na sua maturidade como uma síntese de todas essas virtudes.

 

CONTINUA (4.3 AS TENTAÇÕES)

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FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

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10 Seguindo o estilo típico da hagiografia, Atanásio apresenta o menino Antão quase como um mini asceta.

 11 As indicações que se seguem às citações correspondem à edição da Sources Chrètiennes, já citada. Na web encontra-se uma tradução em português da Vida, feita pelas monjas Beneditinas do Mosteiro da Virgem, de Petrópolis: https://sumateologica. files.wordpress.com/2010/02/atanasio_vida_de_santo_antao.pdf.

 12 Este trecho do Evangelho vai inspirar muitos futuros fundadores de Ordens e Congregações religiosas ao longo da história. Três modelos tornaram-se tradicionais a serem seguidos, quando alguém queria compor uma hagiografia: a Vida de Antão, de Atanásio, a Vida de Paulo de Tebas, de Jerônimo, e a Vida de São Martinho, de Sulpício Severo.

 13 Um elemento a sublinhar no texto são as “mediações”: o chamado é Evangélico, através das Escrituras, intermediado pela Igreja, na liturgia dominical, e pelos mestres mais experimentados, que o introduzem na vida ascética. Em toda a obra Atanásio utiliza-se abundantemente dos textos das Escrituras para destacar o perfeito seguimento de Antão da doutrina cristã, ao mesmo tempo em que o identifica com personagens bíblicos.

dez 10

SANTO ANTÃO: UMA VIDA DE LUZ – PARTE I

santo antão - 2A “Vida de Antão”: uma pedagogia para a vida ascética – PARTE I - 

 *Por Frei Sandro Roberto da Costa, ofm  - 

O presente artigo parte da constatação de que uma das biografias mais  importantes sobre a história da vida religiosa é desconhecida justamente por uma grande parte daqueles que optaram pela sequela Christi. Sobre a vida do monge Santo Antão, quase todos já ouviram falar. A obra literária Vida de Antão, escrita por Santo Atanásio, poucos conhecem. Constata-se o fato de que Antão é sim conhecido, mas superficialmente. Por isso, o objetivo deste artigo é oferecer algumas reflexões sobre a proposta de Atanásio ao escrever a Vida de Antão. Não pretendemos esgotar o tema. Nos daremos por satisfeitos se conseguirmos despertar o interesse nos leitores(as), sobre um texto que merece e deve ser melhor conhecido, lido, refletido, principalmente por aqueles e aquelas que, um dia, tocados pelo Espírito, se entusiasmaram por seguir a mesma vida vivida por Antão. 

1. O autor: Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria (295-373) 

A Vida de Antão foi escrita por Atanásio, bispo de Alexandria. Praticamente todas as informações que temos sobre Antão, seu estilo de vida, mortificações, milagres, tentações, virtudes, etc, nos foram legadas por este homem[1]. Por que Atanásio se interessou pela vida de Antão? Para termos uma resposta, precisamos conhecer primeiro o autor. Na verdade Atanásio é um dos personagens mais importantes no longo e trabalhoso processo que culminou com a definição da divindade de Jesus. Nascido por volta de 295, participou em 325 do Concílio de Niceia, como diácono assessor do Patriarca Alexandre, bispo de Alexandria, no Egito. Sucedeu a Alexandre em 328, tornando-se bispo com apenas 31 anos. O Concílio de Niceia, primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, havia definido a divindade de Jesus, derrotando assim a heresia ariana, que afirmava que Jesus era uma criatura inferior ao Pai, negando, portanto, a sua divindade. Apesar da condenação quase unânime dos bispos, o arianismo continuou vivo e atuante. Os poucos arianos derrotados conseguiram o apoio dos membros da família imperial, e aos poucos iniciou-se uma dura repressão contra os defensores de Niceia. Grande bispo, teólogo, asceta, amigo dos monges e incentivador do monaquismo, Atanásio se destaca neste cenário de perseguição e luta pela defesa da fé nicena[2]. Quatro imperadores se empenharam em fazer Atanásio acatar as teses arianas, mas não conseguiram. Atanásio é chamado “coluna da Igreja”. Morreu em 373.

 2. A obra[3] 

Nos 45 anos em que esteve à frente de sua diocese, Atanásio sofreu todo o tipo de perseguições e acusações, incluindo ameaças físicas. Exilado por cinco vezes, nos três últimos exílios refugiou-se junto aos monges do deserto. Teria escrito a Vida de Antão durante sua estadia com estes monges, entre 356-362, ou por volta de 366, após seu último exílio. Discute-se ainda hoje se Atanásio teria de fato conhecido Antão[4]. De qualquer modo, ao escrever a vida de Antão, o bispo o faz sobre um estilo de vida que ele admira e conhece, pois tinha constantes contatos com os monges[5]. Foram estes os seus principais aliados na defesa de Niceia, e ele mesmo, embora não fosse monge, tinha uma vida ascética exemplar. A Vida de Antão é a primeira obra a relatar a vida de um monge, e vai servir de modelo para as biografias (ou hagiografias) posteriores[6]. Antão é conhecido como “o pai dos monges”, embora ele não tenha sido o primeiro a viver vida monástica anacorética, e Atanásio sabia disso[7]. Literariamente a obra é inserida na categoria de hagiografia, onde o objetivo primeiro não é narrar objetivamente a vida de um personagem ilustre, mas, valendo-se de dados históricos, passar uma mensagem edificante, buscando convencer os leitores a trilharem os mesmos passos da pessoa retratada. Isso, no entanto, não significa que a obra não contenha elementos históricos. Ao lado de fatos históricos envolvendo a vida de Antão, Atanásio também faz suas reflexões pessoais, sejam morais, religiosas, doutrinais ou espirituais, sobre o valor e grandeza da vida monástica e cristã em geral. A Vida de Antão contem a síntese de tudo o que um monge deveria viver para ser um monge “ideal”. O próprio Atanásio afirma: “Vocês me pediram um relato sobre a vida de Santo Antão: querem saber como chegou à vida ascética, que foi antes dela, como foi sua morte, e se é verdade o que dele se diz. Pensam modelar suas vidas segundo o zelo da (vida) dele. Muito me alegro em aceitar esse pedido, pois também eu tiro real proveito e ajuda da simples lembrança de Antão, e pressinto que também vocês, depois de ouvida a história, não só admirarão o homem, mas quererão emular sua resolução, quanto lhes seja possível. Realmente, para monges, a vida de Antão é modelo ideal de vida ascética” (Prólogo, 2-3)[8]. A obra obteve um sucesso imediato, tornando-se o que hodiernamente denominamos de “best seller”. Escrita originalmente em grego, levada a Roma foi traduzida para o latim por Evagrio de Antioquia. Dali, a Vida de Antão difundiu-se por todas as partes do Império Romano, influenciando a vida de muitos homens e mulheres de fé. Agostinho, São Jerônimo, São Martinho, entre outros, foram influenciados por ela. 

3. O personagem 

Quando Antão morreu, em 356, estaria com 105 anos de idade. Hoje coloca-se seu nascimento entre 250 e 260. Filho de uma família rica, cedo tornou-se órfão, com uma irmã mais nova. Com cerca de 18-20 anos resolveu deixar tudo para trás e dedicar-se à vida monástica. A partir daí, sua vida foi se desenvolvendo cada vez mais em direção à santidade, com não poucas dificuldades e desafios. Indo um dia à Igreja, e já pensando em se dedicar totalmente ao serviço de Deus, no templo escuta o Evangelho de Mateus: “Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu (Mt 19,21)”. Para Antão, essa é a resposta que procurava para seus questionamentos. Doou seus bens aos pobres, retendo uma pequena parte para a irmã, mas até essa parte será depois distribuída. A irmã é colocada para viver junto a algumas virgens consagradas. A partir daí, Antão inicia sua fuga mundi. 

4. O percurso de Antão na vida ascética 

A Vida de Antão não nos apresenta um santo pronto, estático e definido. Toda a Vida nos fala de dinamicidade, de crescimento gradual, de caminho a ser percorrido. A obra é impostada justamente nestes termos: um guia elaborado de forma a indicar os passos a serem dados, as etapas a serem seguidas, por quem quisesse encetar um estilo de vida igual ao de Antão. Atanásio impostou sua obra dentro de bem delineadas coordenadas, que são como que um “fio condutor”, que o leitor interessado pode seguir e, se o quiser, imitar. O crescimento espiritual não acontece de modo linear: “Cada etapa da vida de Antão é caracterizada por uma crise, um momento de prova e de tentação, um equilíbrio que se rompe para deixar lugar a algo de novo, àquela nova criatura que o Senhor está plasmando pouco a pouco. E a luta contra o mal se torna cada vez mais interior, até atingir a profundidade do coração, as regiões de seu ser ainda não evangelizadas...”[9].

CONTINUA (4.1 A Vocação de Antão)

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[1] As dúvidas levantadas pelos estudiosos sobre a existência histórica de Antão foram superadas. Embora seja quase impossível separar as ideias de Atanásio da vida de Antão, alguns dados históricos provam a existência deste personagem, como o fato de que deixou um grupo de discípulos, além das sete cartas que lhe são atribuídas, e alguns “apoftegmas” (sentenças sábias dos Padres do deserto, transmitidas oralmente, e colocadas por escrito a partir do V século). Uma carta de Serapião, bispo de Thmuis, aos discípulos de Antão, para consolá-los de sua morte, é anterior à Vida, o que atesta a existência histórica de Antão, bem como testemunha a extrema autoridade de que o monge gozava.

[2] O Credo que rezamos a cada domingo na missa, o “niceno-constantinopolitano”, porque elaborado em Niceia, vai ser reafirmado e completado em 381, no Concílio de Constantinopla.

[3] Para a elaboração deste artigo utilizamo-nos da edição da coleção Sources Chrétiennes 400, Athanase d’Alexandrie. Vie d’Antoine. Introduccion, texte critique, traduction, notes et index par G. J. M. Bartelink, Les Éditions du Cerf, Paris, 1994.

[4] Atanásio escreve de forma indireta, ouvindo o testemunho daqueles que conviveram diretamente com Antão. As dúvidas sobre a autoria da obra por Atanásio foram superadas, através de uma série de testemunhos de escritores eclesiásticos autorizados, como Gregório de Nazianzo, por volta de 380, de Jerônimo, em 392, de Agostinho, entre outros. Mas também o estilo próprio de escrever de Atanásio é perceptível em toda a redação.

[5] Utilizamos o termo “monge” aqui para nos referirmos aos ascetas que viviam solitários, diferentemente dos que viviam em comunidades, os “cenobitas”, organizados nos inícios do século IV por São Pacômio (292-348). Outra palavra para designar os que vivem sozinhos é “anacoreta”, derivado do grego “anakorein”: retirar-se, isolar-se, recolher-se.

[6] Não nos cabe, neste artigo, analisar os modelos literários empregados por Atanásio na elaboração de sua obra. Acenamos apenas ao fato de que o autor conhece e emprega elementos da rica cultura literária pagã greco-romana, ao elaborar o perfil de seu personagem ou “herói” cristão.

[7] A Vida não faz nenhuma menção a “monjas”, mulheres vivendo vida ascética. A única referência a uma possível vida religiosa feminina é quando Antão confia sua irmã a uma comunidade de “virgens”, o que não era considerada vida religiosa no sentido exato da palavra. No entanto, em várias passagens, a Vida insinua que o gênero masculino ou feminino não faz nenhuma diferença na vivência da ascese. Provavelmente as Cartas e os escritos sobre a vida ascética, incluindo a Vida, eram lidos também pelas “Virgens”, suscitando, mais tarde, algumas mulheres a viverem o mesmo estilo de vida dos monges do deserto. São João Crisóstomo (347-407), nos informa: “Não só entre os homens triunfa esta vida, senão também entre as mulheres... Comum lhes é com os varões a guerra contra o diabo... muitas vezes as mulheres têm lutado melhor que os homens e obtiveram mais brilhantes vitórias... Vergonhemo-nos, pois, nós homens, ante a constância e firmeza destas mulheres”. Cfr. Colombás, Garcia M., El Monacato Primitivo I: Hombres, Hechos, Costumbres, Instituciones, Biblioteca Autores Cristianos 351 (BAC), Madrid 1974, p. 88. Uma Amma famosa, cuja vida é comparável à Vida de Antão, é Synclética, morta por volta de 350. Cfr. http://www.peregrina. com/voxbenedictina/MacrinaSyncletica.html (acessado dia 04 de abril de 2015).

[8] Na literatura antiga não era nenhum problema um autor valer-se da autoridade de um personagem importante para fazer passar suas próprias convicções, colocando, na boca do personagem, ideias que eram suas.

[9] Santo Atanasio, Vita di Antonio. Apoftegmi – Lettere, Edizione Paoline, Roma 1984. Introdução aos cuidados de Lisa Cremaschi, p. 56. Observamos que, em italiano, o nome de Antão é traduzido como “Antonio”.

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FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.
     

nov 26

LUÍS DE FRANÇA: REI E SANTO – CONTINUAÇÃO

SÃO LUÍS DE FRANÇA - FREI SANDRO

SÃO LUÍS DE FRANÇA E OS FRANCISCANOS

PARTE VIII -

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, ofm -

A espiritualidade que moveu São Luís de França

O franciscanismo reformador de Luís de França

CONTINUAÇÃO

3.3 Um encontro de Luís com os frades

Frei Salimbene de Parma, cronista medieval, é o responsável pela descrição de um dos mais belos quadros de convivência do rei Luís com os franciscanos. Salimbene viajou a Sens, na França, para participar do Capítulo Geral. Além das autoridades da Ordem, como o Ministro Geral João de Parma, chega ao local o rei da França, dirigindo-se em peregrinação para a cruzada. Salimbene descreve a cena da chegada do rei. Povo e religiosos se aglomeram à espera da chegada do rei. Em meio à multidão, perdido, porque se atrasara e os outros frades já tinham ido ao encontro do rei, encontra-se o franciscano Eudes de Rigaud, arcebispo de Rouen, que, mitra na cabeça e cajado à mão, gritava: “Onde está o rei? Onde está o rei?”. Salimbene passa a descrever o rei: “O rei era esbelto e delicado, magro e alto, tendo um rosto angelical e face simpática. E vinha à igreja dos Frades menores não na pompa régia, mas no hábito de peregrino, tendo uma sacola e bordão de peregrinação ao pescoço que decoravam muito bem as espáduas do rei. E vinha não a cavalo, mas a pé; e os seus irmãos de sangue, que eram três condes, […] seguiam-no em semelhante humildade e hábito. […] Na verdade, parecia mais um monge, quanto à devoção do coração, do que um cavaleiro, quanto às armas de guerra. E assim, entrando na igreja dos irmãos, tendo feito a genuflexão mui devotamente diante do altar, rezou. […] Em seguida, o rei disse, com voz bem clara que ninguém entrasse na sala do Capítulo, a não ser os cavaleiros, exceto os irmãos, aos quais ele queria falar. E quando estávamos reunidos no Capítulo, o rei começou a relatar seus atos, recomendando-se a si mesmo, aos irmãos e a rainha sua mãe, e toda sua comitiva; e, fazendo genuflexão com muita devoção, pediu as orações e os sufrágios dos irmãos”[53].

Frei João de Parma tomou a palavra e prometeu as orações da Ordem, devendo cada padre celebrar quatro missas pelo rei. Após o encontro, seguiu-se um lauto banquete, tudo às expensas do rei. Frei João de Parma, embora tendo lugar reservado ao lado do rei, preferiu sentar-se com os mais pobres[54].

No dia seguinte o rei retomou seu caminho em direção ao porto que o levaria para a Terra Santa. Mas ainda faria vários desvios, para visitar os eremitérios franciscanos pelo caminho, onde se punha em oração. De novo é frei Salimbene quem nos descreve uma destas visitas. Em Vézelay, no dia 21 de junho de 1248, o rei e seus três irmãos dirigiram-se ao convento dos frades, modesto e recém-construído. Entraram na igreja e, embora os frades lhes oferecessem bancos e cadeiras, o rei se senta no chão, na poeira, já que o piso da igreja ainda não estava pavimentado. Sentados todos no chão, em círculo em volta do rei, este lhes dirige a palavra e se recomenda às suas orações[55].

4 - Conclusão

A infância do príncipe Luís foi marcada pela presença dos primeiros franciscanos que chegaram à França. Religiosos austeros, piedosos, penitentes, mas ao mesmo tempo plenamente inseridos nos centros urbanos que surgiam, cientes de suas labutas e ambiguidades cotidianas, seja na política, seja no mundo acadêmico ou eclesiástico-religioso.

Franciscanos e dominicanos influenciaram o modo de Luís impostar a política na França. Ambas as Ordens contavam com homens preparados, intelectuais e pensadores que dominavam as cátedras na universidade de Paris. Da parte especificamente franciscana, é interessante notar que Luís se cerca daqueles frades imbuídos de uma nova visão do modo de ser religioso e de impostar as relações com o mundo. O empenho nas reformas, a radicalidade de vida, o combate aos abusos, a visão alegórica, apocalíptica e milenarista, prospectando um mundo diferente, transformado pela radicalidade evangélica, marcam a vida destes homens. Mas não são monges, isolados nos eremitérios e mosteiros, distantes e alheios aos problemas humanos. Ao contrário, são religiosos empenhados em buscar respostas às grandes questões e desafios que aquele momento e aquela sociedade lhes propõem, vivenciando-as e conhecendo-as a partir de dentro. Le Goff afirma que “São Luís… entre os franciscanos estava inclinado a seguir os joaquimitas: mas ele se cerca daqueles que se impõem por sua influência na sociedade da segunda metade do século XIII, quer dizer, pessoas da Igreja que buscam antes de tudo achar um modus vivendi entre as novas seduções da vida, o desenvolvimento de uma economia de troca e empréstimo, e as necessidades da salvação. Pessoas partidárias tanto do compromisso religioso como do compromisso social, de uma evangelização da sociedade nova equilibrando o admissível e o inaceitável”[56].

Os franciscanos correspondem muito bem a esse novo modus vivendi: são homens de uma piedade e seriedade religiosa a toda prova, fautores da pobreza e da simplicidade, vivem nas cidades, e estão nos grandes centros de estudos, discutindo em pé de igualdade com os maiores pensadores de seu tempo, dando respostas pertinentes e eficazes aos desafios dos novos tempos. São homens que entendem as necessidades, a linguagem e os desafios das cidades. Encontram-se, com a mesma desenvoltura, nos mais simples e humildes tugúrios ou nos palácios e parlamentos dos reis. Homens preparados e capazes de corresponder às exigências dos espíritos mais sérios e preocupados em impostar uma política de governo que correspondesse aos desígnios de Deus. Mas, ao mesmo tempo, capazes de guiar os espíritos humanos nas árduas batalhas espirituais travadas dia a dia na busca da salvação da própria alma. Com os discípulos de Francisco de Assis, Luís de França aprendeu a cuidar bem da cidade dos homens, sem perder de vista a Cidade de Deus.

Na peregrinação em busca da salvação, a exemplo de Francisco de Assis, Luís seguiu os passos do Cristo da Paixão. Através da penitência, do sacrifício e da caridade para com o próximo, os pequenos e pobres, conseguiu atingir a meta. Na decisão de partir para a segunda cruzada, doente e enfraquecido, estava a certeza de que a derrota da primeira fora causada por sua culpa, por causa de seus pecados. Assim, a cruzada revela-se como uma via purgativa, de salvação e de conformação com o Cristo pobre e sofredor[57]. A morte na cruzada é a conclusão ideal de sua vida.

As palavras dirigidas ao filho no seu Testamento Espiritual representam o ponto de chegada de uma vida pautada pela busca do bem comum, e pelo empenho pela própria salvação, seguindo as pegadas de Cristo: “Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo coração, com todas as forças, pois sem isto não há salvação… Guarda, meu filho, um coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos e, quanto puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súbditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares; e põe-te sempre de preferência  da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas. Sê dedicado e obediente a nossa mãe, a Igreja Romana, ao Sumo Pontífice, como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e heresia. Ó filho muito amado, dou-te, enfim toda bênção que um pai pode dar ao filho e toda Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém”.

 

F  I  M

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*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no InstitutoTeológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

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[53] Fontes Franciscanas e Clarianas,  2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma)o.c., p. 1402.

[54] João de Parma também era fautor da ala reformista dos joaquimitas. São Boaventura foi seu sucessor, que o processou e condenou à prisão perpétua.  A proximidade dos soberanos franceses com os franciscanos espirituais vai continuar após a morte de Luís. Já citamos aqui São Luís de Toulose, sobrinho de Luís. Ele e seus irmãos tiveram como preceptor frei Pedro de João Olivi, um dos maiores expoentes da corrente dos Espirituais.

[55] Carolus-Barré, Louis. Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome: École Française de Rome, 1994, p. 295, (Publications de l’École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1 . Descrição também em Le Goff, São Luís, 401-402.

[56] Le Goff, Uma Longa..., oc, p. 261.

[57] “O Cristo sofredor é aquele proposto por Boaventura e pelo movimento franciscano, ao contrário de Francisco que tinha, ele mesmo, privilegiado o rosto amoroso do Pai celeste e que se viu ‘irmão’ do Cristo. Francisco se identificou com os sofrimentos espirituais do Filho, ao Cristo do Monte das Oliveiras, e não aos tormentos do supliciado, ao Cristo do Gólgota”. Mercuri, Chiara, San Luigi e la Crociata, 235-236. In: Mélanges de l’Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483.

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Bibliografia:

 Livros:

Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004, Primeira Vida de CelanoCompilação de AssisCrônica de Jordão de JanoCrônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma)Testemunhos Menores – Jacques de Vitry.

Guillaume de Nangis, Vie et vertus de Saint Louis, Librarie de la Société Bibiographique, Paris 1877.

Joinville, Jean, Histoire de Saint Louis, edição de Natalis de Wailly. Paris: Librairie Hachette, 1921.

le Goff, Jacques, São Luís, Record 1999.

____________, Uma longa Idade Média, Civilização Brasileira, RJ 2008.

____________, O maravilhoso e o cotidiano no Ocidente Medieval, Edições 70, Lisboa, Portugal 1985.

____________, São Francisco de Assis, Record, RJ e SP 2011.

Madaule, J., Saint Louis de France, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946.

 Artigos:

Cardini, F., Nella presenza del Soldan superbo: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento dell’idea di Crociata, Studi Francescani, 71, 1974, 199-250.

Carolus-Barre L., Guillaume de Saint-Pathus, confesseur de la reine Marguerite et biografe de Saint-Louis. Archivum Franciscanum Historicum, Firenze 1986, vol. 79, no1-2, pp. 142-152.

D’Aincreville, P., Le voyage de Salimbene en France, La France Franciscaine, t. I, 1912, p. 21-75.

Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012

Miatello, A. L. Pereira, O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no século XIII, Revista Brasileira de História, vol. 32, nº 63.

Peano, P., Resenha de obra sobre frei Hugo de Digne, Archivum Franciscanum Historicum, 79, 1986, 14-19.

 Arquivos eletrônicos:

Carolus-Barré Louis, Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome : École Française de Rome, 1994, 328 p. (Publications de l’École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1

Delaborde Henri-François. Le texte primitif des Enseignements de saint Louis à son fils. In: Bibliothèque de l’école des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406/bec. 1912.448470. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470

Genet, Jean-Philippe. Saint Louis : le roi politique. In: Médiévales, N°34, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406/medi.1998.1410.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410

Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d’histoire de l’Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.

Laband, Edmond-Rène, Saint Louis Pèlerin. In: Revue d’histoire de l’Église de France. Tome 57. N°158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406/rhef.1971.1856.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856

Mercuri, Chiara. San Luigi e la crociata. In: Mélanges de l’Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483

Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l’école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186.

nov 15

LUÍS DE FRANÇA: REI E SANTO – CONTINUAÇÃO

SÃO LUÍS DE FRANÇA - FREI SANDRO

SÃO LUÍS DE FRANÇA E OS FRANCISCANOS

PARTE VII -

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, ofm -

A espiritualidade que moveu São Luís de França

CONTINUAÇÃO

O franciscanismo reformador de Luís de França

A proximidade de Luís com os franciscanos e dominicanos é-nos atestada por uma anedota, transmitida por seus biógrafos: “Godofredo de Beaulieu e Saint-Pathus afirmam que Luís quisera fazer-se dominicano ou franciscano, mas não soube decidir-se sobre as duas ordens, e a rainha Margarida (sua esposa) à qual teria manifestado a sua intenção de deixá-la para entrar no convento na altura em que fosse possível transmitir a coroa ao filho maior, tê-lo-ia dissuadido de tal propósito”[40]. Embora contestado pelos historiadores modernos, este fato, relatado pelos biógrafos contemporâneos ao santo testemunham a proximidade de Luís, senão a simpatia de que gozavam diante dele os franciscanos e dominicanos. Mais séria é, no entanto, a afirmação de que ele teria desejado que seu segundo e terceiro filhos se tornassem frades, um dominicano, outro franciscano[41]. Por outro lado, como já acenamos, os biógrafos são concordes sobre a crítica que se fazia no reino, à imagem de um rei manipulado pelos mendicantes, sendo ele mesmo, quase um frade sobre o trono.

O pesquisador Jean-Philippe Genet afirma que os dominicanos exerceram uma influência fundamental sobre o pensamento político de São Luís. A ideia de um rei como padrão de comportamento moral, um rei com a virtude da sabedoria, teria sido construída e seguida por Luís, seguindo os ditames dos sábios teólogos e filósofos dominicanos que dominavam a universidade de Paris, nos anos 1250-1280[42]. Apesar de Le Goff afirmar que as  elocubrações filosófico-teológicas que fervilhavam na universidade de Paris não interessavam a Luís, o fato é que Luís se cercou de grandes nomes da intelectualidade de seu tempo, pensadores, filósofos e teólogos, principalmente franciscanos e dominicanos, que colaboraram na administração e ajudaram a dar uma determinada direção política ao reino. Le Goff afirma que havia em Paris “uma ‘academia política’ de São Luís cujo coração era o convento dos jacobinos, o célebre convento de Saint-Jacques dos dominicanos parisienses”[43]. Vicente de Beauvais, dominicano, autor do Speculum Maius, a principal enciclopédia utilizada na Idade Média, era um de seus mais próximos colaboradores[44].

Podemos afirmar que dominicanos e franciscanos rivalizavam no papel de conselheiros do rei. Da parte dos franciscanos, porém, graças às pesquisas dos últimos anos, sabemos que Luís tinha um apreço particular pelos frades empenhados numa vivência mais radical dos ditames do Evangelho, que chegavam quase a se constituir uma “seita” dentro da Ordem franciscana. Referimo-nos, aqui, à proximidade de Luís com o movimento dos “Espirituais”[45]. E nesse particular, um encontro vai causar profunda impressão no rei da França.

3.1 O encontro com frei Hugo de Digne

Em 1254, voltando do Oriente derrotado, após a morte da mãe, Luís ouve falar de frei Hugo de Digne, um frade franciscano da corrente dos espirituais, defensor das ideias de Joaquim de Fiore. Frei Hugo era um grande pregador, que arrebatava multidões[46]. Em Hyères, Luís pediu para trazerem o frade à sua presença, pois queria ouvi-lo pregar. Ficou tão maravilhado que queria, a todo custo, que o frade se juntasse a seu séquito que retornava para Paris. Hugo se negou peremptoriamente. Acabou ficando apenas dois dias com Luís, mas este encontro marcou, a partir de então, a vida e o governo do rei. Hugo, segundo as palavras do biógrafo de Luís, Joinville, exortou ao rei que este “deveria se conduzir de acordo com seu povo”. No fim do sermão o frade afirmou que nunca tinha lido que um reino ou domínio se tivesse perdido ou passado a um outro senhor, “a não ser por vício de justiça”. E terminou: “Ora, que atente o rei, continuou, uma vez que vai para a França, que faça tanta justiça a seu povo que o povo assim conserve o amor de Deus, de tal maneira que Deus não lhe tire o reino de França com a vida”[47].

Depois de 1254, Luís assumiu um comportamento sempre mais austero. No dizer de seus biógrafos, passou “da simplicidade, à austeridade”. E este espírito passou à atuação política. Um sinal claro desta orientação foi a chamada “Grande Ordenação”, de dezembro de 1254. Trata-se de uma série de determinações legais que objetivavam reformar profundamente o governo do reino. Entre elas, destacam-se aquelas visando uma moralização da administração pública, para um governo justo (ético e não corrupto, diríamos hoje). Os oficiais do reino deveriam fazer justiça sem fazer distinção de pessoas. Não deveriam aceitar presentes, nem para suas mulheres ou filhos. Também em relação aos costumes e à moral eram promulgadas medidas severas: contra a blasfêmia, contra os jogos, contra a prostituição, contra a usura. No espírito da época, são emanadas também leis contra os judeus. 

3.2 Outros franciscanos influentes no “entourage” de Luís

O encontro e as palavras proféticas de Hugo de Digne certamente impressionaram profundamente o espírito de Luís, educado desde criança num ambiente de piedade, que favorecia uma mística religiosa e devocional, de busca de realizar, na terra, o reino de Deus. Mas já antes deste encontro o rei mantinha, em sua “entourage”, além dos dominicanos, religiosos franciscanos empenhados com a seriedade da reforma dos costumes. Um dos franciscanos mais próximos de Luís é o mestre da Universidade de Paris, Eudes de Rigaud.

Eudes era mestre regente do convento de Paris e mestre de teologia na universidade daquela cidade. Foi o sucessor de Jean de la Rochelle e de Alexandre de Hales, e foi mestre de São Boaventura. Eudes é um dos “Quatro Mestres”, que redigiram o comentário oficial da Regra franciscana, em 1242[48]. Em 1248 foi nomeado arcebispo da diocese de Rouen, a mais importante da França, mas continuou fazendo parte do círculo dos amigos do rei, sendo um dos frades franciscanos mais íntimos de Luís: “Seu mais próximo conselheiro e amigo”, nas palavras de Le Goff[49].

Em 1255 ele celebrou o casamento da filha de Luís, Isabel. A partir de 1258 Eudes se encontra frequentemente na corte. Em novembro de 1258 presidiu a missa no aniversário de morte de Luís VIII, pai do rei. Os documentos testemunham vários encontros do rei com o arcebispo franciscano, em 1259 e 1260, quando da morte de seu herdeiro, o primogênito Luís. Em 1261 ele foi convidado a pregar na Saint-Chapelle. Sabe-se que, quando o rei estava na abadia de Royalmont, pedia que Eudes presidisse a celebração, como na festa de  Pentecostes de 1262. A presença de Eudes na corte se justifica também pelas missões diplomáticas que o rei lhe confiara, como o tratado entre a França e a Inglaterra, em 1259. Em 1264 Eudes tornou-se membro do Parlamento de Paris.

Destaque-se, no comportamento do arcebispo franciscano, seu espírito reformador e de combate aos abusos no clero regular e secular. Visitando incansavelmente todos os mosteiros, abadias e conventos masculinos e femininos de sua arquidiocese, Eudes conseguiu dar uma nova imagem à Igreja. Seus escritos somam mais de mil páginas, consistindo hoje num documento de valor inestimável para conhecermos a realidade da Igreja em uma região da França, no século XIII. Antes de morrer, Luís o designou um de seus executores testamentários. Eudes também tornou-se membro do Conselho de Regência encarregado de governar a França, sendo o primeiro membro  nomeado pelo rei Felipe III, sucessor de Luís, quando ainda se encontrava em Cartago, em outubro de 1270.

Ainda no campo intelectual, outro mestre franciscano de Paris muito próximo do rei é Gilberto de Tournai. Das poucas informações que nos chegaram sobre ele, sabemos que era mestre de teologia em Paris, amigo de São Boaventura e de Luís, e pregador de cruzadas. Escreveu várias obras de cunho pedagógico. Algumas dessas obras nasceram da amizade com o rei, como a Eruditio Regum et Principum (Educação dos reis e dos príncipes), uma coleção de três cartas escritas em 1259, endereçadas a Luís, versando sobre os princípios necessários ao bom governo dos príncipes[50]. Depois de 1261, Gilberto abandonou a cátedra para viver uma vida de oração e contemplação. A pedido de Boaventura, participou do 2º. Concílio de Lião, em 1274, onde teria apresentado sua obra De Scandalis Ecclesiae[51].

Boaventura de Bagnoregio era um dos maiores pregadores da época, mestre da universidade de Paris até 1257, quando foi eleito Ministro Geral dos Franciscanos, também era admirado por Luís, que o convidava para pregar em sua presença. Boaventura pregou pelo menos dezenove vezes diante do rei.

A proximidade e intimidade entre Luís e os franciscanos mostra-se numa querela séria, que estourou na Universidade de Paris. Entre 1254 e 1257, alguns mestres seculares colocaram em questão o estilo de vida dos mendicantes, uma novidade que, segundo eles, ia contra o Direito Canônico, especificamente por causa do princípio mendicante e do ensino universitário e da pregação. O chefe dos seculares era Guilherme de Saint-Amour. Depois de uma acirrada polêmica, com a intervenção dos maiores mestres da época, Boaventura e Tomás de Aquino, entre outros, a Santa Sé reconheceu, por duas vezes, o direito dos frades. O rei Luís executou imediatamente as ordens em favor dos frades. Obrigou Saint-Amour a entregar seus cargos e benefícios, proibiu-o de pregar e ensinar, e o exilou da França[52].

CONTINUA EM 29 DE NOVEMBRO

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*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no InstitutoTeológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

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[40] Le Goff, Jacques, O Maravilhoso…, oc, p. 79.

[41] Seu sobrinho, Luís de Toulose, vai se tornar franciscano e bispo, e também vai se canonizado.

[42] O autor chega a afirmar que Le Goff teria privilegiado, através de Gilberto de Tournai, o São Luís dos franciscanos, em detrimento do São Luís dominicano In: Genet, Jean-Philippe. Saint Louis: le roi politique, In: Médiévales, N°34, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406/medi.1998.1410. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410

[43] Le Goff, Jacques, Uma longa Idade Médiao.c., 226.

[44] “…foi também o compilador de um amplo tratado filosófico-teológico (Speculum doctrinale) em que são discutidos os temas relativos ao poder, ao governo, ao ministério régio, sua função natural e sobrenatural, a constituição mesma de uma comunidade política e sua necessidade. Além de teorizar sobre a política, Vicente também procurou educar os governantes, no sentido de ensinar a arte do governo: devem-se a ele duas das principais obras do século XIII sobre essa matéria”. Miatello, A. L. Pereira, O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no século XIII, Revista Brasileira de História, vol. 32, nº 63, p. 227. Uma dessas obras é o De Morali principis institutione, escrita em 1247, a pedido da rainha Margarida, para a educação de seus filhos. Roberto de Sourbonne, fundador do Colégio (depois Universidade) de Sorbonne, era outro clérigo muito próximo de Luís.

[45] Os “Espirituais” surgiram na Ordem franciscana logo após a morte de Francisco, em oposição ao que consideravam desvios na proposta original de vida do fundador. Sinteticamente, seu programa tinha quatro pontos: atacavam os abusos contra a pobreza, eram contra os estudos, defendiam que a Regra e o Testamento eram obrigatórios para toda a Ordem, eram contra os privilégios pontifícios. São chamados espirituais porque assumiram as doutrinas do abade Joaquim de Fiore, morto em 1202 (por isso também “joaquimitas”), que dividia a história do mundo em três eras: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo. Os frades fiéis (segundo os Espirituais) aos propósitos originais de Francisco, fiéis à pobreza e à simplicidade, iriam inaugurar a era do Espírito: por isso, Espirituais. Com o tempo o grupo se amplia, constituindo um verdadeiro partido rigorista, de reforma e de radicalidade dentro da Ordem, suspeito de heresia.

[46] Sobre frei Hugo de Digne nos informa o cronista medieval Salimbene de Parma: “Ele era um dos maiores clérigos do mundo, solene pregador, querido pelo clero e pelo povo, o maior nas disputas e preparado para tudo. Envolvia a todos, tinha uma conclusão para tudo, tinha língua eloquente e voz como de tuba que soa, de grande trovão e de muitas águas que soam, quando descem pelo precipício. Nunca impunha [suas ideias], nunca complicava. Estava sempre preparado para toda resposta. Dizia coisas maravilhosas da corte celeste, isto é, da glória do paraíso, e coisas terríveis das penas do inferno. Era oriundo da província da Provença, de estatura média e não muito escuro. Homem espiritual além da medida… Havia (em Hyères) muitos notários, juízes, médicos e outros letrados que nos dias solenes se reuniam na sala de Frei Hugo para ouvi-lo, enquanto ele falava da doutrina do abade Joaquim, ensinava e expunha os mistérios da Sagrada Escritura e predizia as coisas futuras. Pois era um grande joaquimita e tinha todos os livros do abade Joaquim escritos com letras grandes”. Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma), p. 1400-1401.

[47] Joinville, Histoire de Saint Louis, citado por le Goff, São Luís, p. 193. O autor vê neste encontro com o franciscano Hugo de Digne um momento fundamental no governo de Luís, pois, voltando derrotado e decepcionado da Cruzada (Luís vai passar um período em profunda tristeza), busca respostas para a derrota e sobre o melhor modo de servir a Deus. O encontro com Hugo é, para Luís, a resposta: governar de modo a fazer reinar, aqui na terra, a justiça do reino de Deus.

[48] A pedido do Ministro Geral frei Haimon de Faversham, alguns mestres das escolas de Oxford e Paris se dispuseram a “interpretar” a Regra, para responder às dúvidas surgidas na Ordem. O resultado da consulta foi a “Expositio quatuor magistrorum super Regulam Fratrum Minorum”, dos mestres de Paris Alexandre de Hales, João de La Rochele, Roberto de Base e Eudes de Rigaud.

[49] Le Goff, Jacques, São Luíso.c., p. 269.

[50] Veja-se: Retrato do rei ideal, in Le Goff, Um Longa…, oc., p. 217-238. Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012.

[51] Cardini, F., Gilberto de Tournai: un francescano predicatore della crociata, Studi Francescani 72, 1975, 31-48.

[52] A questão vai ter seus desdobramentos, a favor e contra os mendicantes. Veja-se a propósito: Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d’histoire de l’Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.

 

out 29

LUÍS DE FRANÇA: REI E SANTO – PARTE IV

 

SÃO LUÍS DE FRANÇA - FREI SANDRO

SÃO LUÍS DE FRANÇA E OS FRANCISCANOS

PARTE VI -

*Por Frei Sandro Roberto da Costa, ofm -

A espiritualidade que moveu São Luís de França

2.2 São Luís e a espiritualidade mendicante

CONTINUAÇÃO

 2.2.1 Sua devoção à Paixão

                        A posse de relíquias era prática comum na Idade Média. Devoção, prestígio, necessidade de proteção eram elementos que se misturavam na procura por relíquias cada vez mais preciosas. Luís tinha um apreço especial pelas relíquias da paixão de Jesus. Prova disso é um acontecimento envolvendo a relíquia do cravo de Jesus. Em 1232, quando a relíquia foi exposta para veneração dos fiéis na catedral de Saint Denis, acabou caindo do relicário e desapareceu. Seguiu-se uma comoção em todo o reino. Guilherme de Nagis relata o sentimento do rei e sua mãe: “O santo rei Luís e a rainha sua mãe, quando souberam da perda desse altíssimo tesouro e o que tinha acontecido ao santo cravo sob seu reinado, sentiram grande dor e disseram que notícia mais cruel não podia ter sido levada a eles nem lhes fizesse sofrer mais cruelmente”[33]. Esta devoção era testemunhada publicamente na Sexta-Feira Santa: “A sua devoção à Cruz, especialmente na Sexta-Feira Santa, tem como momento forte a visita das igrejas ‘próximas do lugar onde se encontrava’: ia lá ‘descalço’, e depois, para a adoração da cruz, tirava o chapéu e a touca e avançava, de cabeça descoberta de joelhos, até à cruz, ‘beijava-a’, e por fim ‘punha-se inclinado para o chão com os braços abertos, como na cruz, durante todo o tempo em que a beijava, e diz-se que enquanto fazia isto chorava’”[34].

                              Nada, porém, supera o esforço para conseguir duas das relíquias mais preciosas para a cristandade: a coroa de espinhos de Jesus e o lenho da Santa Cruz. Luís adquire a coroa do Imperador de Constantinopla, Balduíno. Quando a coroa entra em território francês, em 1239, depois de uma longa viagem desde Constantinopla, o rei e seus irmãos vão ao seu encontro. Carregam o relicário às costas, em procissão, vestidos de túnica branca e descalços, em sinal de humildade e penitência. Os nobres também se associam aos príncipes, participando descalços da procissão. Seguem-se a aquisição do lenho da Cruz e de outras relíquias da Paixão, como a esponja e o ferro da santa lança. Para guardar as relíquias, Luís construiu um dos maiores tesouros da arte gótica: a Saint-Chapelle, capela privada do rei. A estas relíquias preciosas soma-se o travesseiro de São Francisco, enviado ao rei pelos frades de Assis, quando de sua coroação, em 1226.

                        O movimento cruzado tem sua legitimação nesta devoção às relíquias: as terras onde Cristo nasceu, viveu e morreu, estão em mãos infiéis, de pecadores. Jerusalém, a maior relíquia da cristandade, precisa ser libertada.

 2.2.2 Um rei paciente no sofrimento

                        Luís é um rei que, como cristão exemplar, suporta pacientemente os sofrimentos. E não são poucos. Ainda jovem, aos 28 anos, após a guerra contra os ingleses, começa a sofrer de febre terçã (uma espécie de malária). Em 1244, sofre com uma diarreia tão grave, que chegam a considerá-lo morto. Nesta ocasião faz o voto de partir em cruzada[35]. As doenças o perseguem, sejam as crônicas, como a febre ocasionada pelo paludismo, sejam outras que surgem em várias ocasiões: erisipela, diarreia, escorbuto. Mas todos testemunham a paciência do rei frente aos sofrimentos. Joinville testemunhou os sofrimentos do rei durante a sétima cruzada. Segundo ele, o rei, quando prisioneiro dos muçulmanos, sofria de grave infecção intestinal. Estava muito pálido, “com os ossos da coluna todos tão pontudos e tão fraco que era preciso que um homem de sua criadagem o levasse para todas as suas necessidades… À noite desmaiou por várias vezes; e, por causa da forte disenteria que tinha, foi preciso cortar o fundilho de suas  ceroulas, tantas vezes ele descia para ir ao banheiro”[36]. Na partida para a oitava cruzada, o rei estava tão fraco que provocou a indignação de seu amigo Joinville, com aqueles que o deixaram partir naquele estado. O rei mal podia caminhar, pela fraqueza: “ele não podia aguentar ir nem de carroça nem a cavalo. Sua fraqueza era tão grande que ele se resignou que eu o carregasse…”[37]. Sua morte será causada pelo tifo. Mas Luís não é um rei triste. Le Goff afirma: “Talvez nisso também haja um traço de espiritualidade franciscana”[38].

2.2.3 Luís e o combate aos inimigos da Igreja

                        Uma das mais sérias ameaças à fé cristã na passagem do século XII para o século XIII foi a heresia cátara. Por ter seu centro principalmente na região de Albi, no sul da França, eram também chamados de Albigenses.  No auge do reinado de Luís, após o duro combate da Igreja, inclusive com a pregação de Santo Antônio e outros grandes nomes das Ordens mendicantes, a heresia cátara havia se enfraquecido, mas permanecia como uma ameaça. Luís, fiel aos ditames do IV Concílio do Latrão (1215), que determinava que os soberanos cristãos dessem combate à heresia, recomenda ao filho nos seus ensinamentos: “Persiga os hereges e as pessoas ruins de tua terra tanto quanto possas, pedindo como é necessário o sábio conselho das pessoas boas a fim de purgar assim a terra”. Na concepção medieval de colaboração entre Igreja e Estado, o soberano é o defensor da fé e a realeza é o braço secular da Igreja, que deve “caçar” e combater os hereges.

                        Em relação aos muçulmanos, o fato de se empenhar na realização de duas cruzadas exemplifica bem o quanto esta atividade era importante para Luís. Os muçulmanos eram, sobretudo, os infiéis, e deveriam ser convertidos. De um rei piedoso cristão, o mínimo que se esperava é que se empenhasse na defesa da fé frente ao islã[39]. No entanto, em que pese a violência das cruzadas, em vários momentos, especificamente da primeira, Luís entra em diálogo com os muçulmanos. Algumas fontes afirmam que, durante sua prisão, surgiu um afeto e respeito mútuo entre o rei e o sultão que o mantinha prisioneiro. Outros autores relatam que os muçulmanos teriam pedido a Luís que se tornasse seu chefe. O biógrafo Godofredo de Beualieu, testemunha ocular da morte do rei, revela que, no momento extremo de sua agonia, umas das últimas palavras balbuciadas pelo rei foram de preocupação com a conversão dos muçulmanos: “tentemos, pelo amor de Deus, pregar e implantar a fé católica em Tunis. Óh, como poderíamos enviar um pregador capaz a Túnis”, e teria citado um pregador que já havia pregado em Túnis, e se tornara conhecido do sultão.

                        A relação de Luís com os judeus é mais complexa. Antes de mais nada, não podemos julgar as relações entre cristãos e judeus na Idade Média a partir dos parâmetros contemporâneos de ecumenismo e tolerância, que são conquistas modernas. Luís age como os soberanos cristãos de seu tempo. Os judeus, embora sejam uma verdadeira religião, são considerados os “assassinos de Cristo”. Luís tomou medidas severas contra os mesmos, visando a “purificação do reino”, mas ao mesmo tempo os protegeu do abuso de extremistas. Também promoveu a conversão de vários deles, e foi padrinho de alguns judeus convertidos.

                        Outro perigo que rondava o Ocidente medieval era a ameaça tártara, representada pelos mongóis. Luís acalentava o sonho de aliar-se a eles para combater os muçulmanos. Depois de algumas expedições fracassadas, enviadas pelo papa, Luís enviou o dominicano André de Longjumeau, que também não obteve sucesso. Por fim, em 1253, foi enviado o franciscano Guilherme de Roubroek, que se aventurou até a Mongólia, ao Grande Khan, em Karakorum, no coração do reino mongol. Apesar da valiosa relação que o franciscano fez da vida e dos costumes mongóis, o resultado desta missão também foi efêmero. Finalmente, em 1264, uma embaixada de 24 mongóis, tendo à frente dois frades dominicanos como intérpretes, se apresentou em Paris, propondo ao rei uma aliança contra os muçulmanos da Síria. Também esta tentativa de aliança não frutificou.

 

CONTINUA EM 12 DE NOVEMBRO

 

*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no InstitutoTeológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

_____________________________________________ [33] Guilherme de Nagis, citado por Le Goff, São Luís, 115. [34] Le Goff, Jacques, O maravilhoso…, o,.c.. p. 86. As citações entre aspas simples dentro do texto referem-se à citação da obra de  Guilherme de Saint-Pathus. [35] Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l’école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186. [36] Le Goff, São Luís, oc., p. 175; p. 766, citando Joinville. [37] Idem, 768. [38] “Graças a Joinville, vemos São Luís rir e às vezes rir às gargalhadas”. Le Goff, Jacques, São Luísoc., p. 431. [39] A Terra Santa sempre foi, desde as origens do movimento franciscano, mais do que um lugar geográfico, um ideal de santidade e de santificação.

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