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Arquivo por categoria: REFLEXÕES SOBRE A LITURGIA CATÓLICA

mai 08

REFLEXÕES SOBRE A LITURGIA

FREI ARIOVALDO -2

COMUNICAÇÃO LITÚRGICA – O QUE É E COMO VIVENCIÁ-LA - 

 *Frei José Ariovaldo da Silva, OFM –

             Muita gente, equivocadamente, pensa que comunicação litúrgica tem a ver mais é com euforia, barulho, muito show e até algazarra, tanto por quem exerce algum ministério na celebração (presidência, animadores, leitores, músicos etc.), como pela própria assembleia como um todo.

           O tema merece uma boa reflexão. Por isso estou aqui, sinteticamente partilhando com você o que já refleti e aprofundei sobre ele, depois de muita pesquisa, e inclusive com publicação (cf. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, vol. 71, fasc. 283, 2011, p. 642-658; Vida Pastoral, São Paulo, n. 285, 2012, p. 11-19).

            Afinal, o que é mesmo comunicação litúrgica? E como acontece?

            Comecemos pela etimologia. A palavra “comunicação” vem do verbo “comunicar” que, por sua vez, vem do verbo latino communicare, do qual deriva o substantivo communicatio (comunicação).

          O verbo latino communicare, por sua vez, deriva do adjetivo latino communis (de cum+múnus), este normalmente traduzido como “pertencente a todos ou a muitos”, “comum”, “coletivo”.

           Assim sendo, “comunicar” significa, em primeiro lugar, exatamente isso: “Pôr algo em comum com alguém, repartir, partilhar, comungar”. Como estou fazendo com você aqui: Estou “pondo em comum com você” (comunicando) o que aprendei e refleti sobre “comunicação litúrgica”. E “comunicação” é a ação de pôr algo em comum.       E então vem a pergunta: O que é “posto em comum, repartido, dividido e partilhado” conosco e entre nós na Liturgia, para que possamos falar, de fato, em “comunicação litúrgica”?

          O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, afirma que a “obra da salvação”, prenunciada por Deus no Antigo Testamento, é realizada em Cristo, continua na Igreja e se coroa em sua Liturgia (cf. SC 5-6). Então, o que nos é “comunicado” na Liturgia? A divina “obra da salvação”! A Presença amorosa e misericordiosa de Deus Pai pelo mistério pascal de Cristo que nos salvou e na unidade do Espírito Santo que nos santificou! Em outras palavras, na Liturgia que celebramos, a presença viva e atuante de Deus Trindade põe em comum conosco (nos comunica) todo o seu amor misericordioso que nos salva. A isso ouso chamar de “comunicação litúrgica”.

       Mas como vivenciá-la? Ilustremos com um exemplo. Digamos que você, numa celebração (ação) litúrgica, exerce o ministério de leitor(a). Você se dirige ao ambão e, dali, proclama a Palavra. Você o faz como membro do Corpo de Cristo. Portanto, você é mais que seu corpo visível. Você, neste seu corpo, para além (ou aquém) de todas as suas máscaras e couraças, você é um corpo deificado, você é a sua própria Essência, filho(a) de Deus: “Não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20)... O problema é que, cada vez mais distraídos com tantos padrões e “tem-quês” da vida que tomaram conta de nossos corpos e, pior ainda, cada vez mais antenados com mil e uma coisas que o mundo moderno nos favorece, facilmente nos desconectamos do Espírito que nos permeia... Alienamo-nos e, assim, nesse exílio de nossa própria Casa, torna-se quase impossível comunicar Espírito e Vida. Transmitimos apenas palavras, sons, ruídos mais ou menos agradáveis, pois, como diz Ruben Alves, “nossos canais ficaram entupidos”.

        Mas vamos lá! Antes de você se dirigir ao ambão, você para, toma consciência deste seu corpo deificado e que, agora, exercerá um ministério, o ministério da Palavra que se comunica com outros corpos. (A citada Constituição insiste numa participação “consciente” e “interior” de todos na Liturgia, inclusive e, sobretudo, é claro, dos atores e atrizes da celebração!). Você silencia, aquieta, se concentra e, para ajudar a se concentrar melhor, presta atenção apenas no ritmo de sua respiração que traz o Sopro da vida e expele as impurezas do corpo... Você entra em sintonia com seu corpo, para além (ou aquém) de todas as máscaras e couraças nele agregadas e programadas... Você se comunica (comunga) com sua própria Essência, o Espírito que o habita. Faça isso!... Pare, silencie, e fique apenas conectado(a) com esse Essencial, tanto de seu corpo como do rito que lhe é dado realizar.

           Seu corpo espontaneamente então se transforma. Seus passos, sem forçar, ao se dirigirem ao ambão, assumem naturalmente o ritmo calmo, sereno e comedido do Espírito que permeia seu corpo. Já não são mais seus passos. São os passos do próprio Mestre que se dirige ao ambão para pôr em comum com os outros os segredos do seu coração. Por quê? Porque você está andando, agora, embalado(a) a partir de Dentro, a partir da sua comunhão consciente com o Espírito que conduz você ao ambão.

            Uma vez no ambão, seu corpo, seu rosto, seus olhos, seu contato com o livro, embora sendo seus, não são mais seus: são o corpo, o rosto, os olhos, os gestos do próprio Mestre que se apresenta com carinho e compaixão diante de uma assembleia toda ouvidos para ouvir, e toda corpo para acolher a Palavra. Isso a assembleia percebe e, percebendo, interage no mesmo Espírito e, no clima orante criado, já celebra. Por quê? Porque experimenta em você um brilho novo, diferente: o brilho de uma mística que vem, não do seu ego, mas do seu Interior, porque você está conectado(a) com Mistério do seu corpo e de todos os corpos.

           Na verdade, ao proclamar a leitura, sua voz, embora sendo sua voz, não é mais sua voz: é a voz do próprio Mestre que, suave e pausadamente, com firmeza, clareza e convicção, comunica – põe em comum – com a assembleia sua presença de salvação e consolo. Isso, intuitivamente, a assembleia percebe e, percebendo, comunga com a Palavra que, entrando pelos olhos e pelos ouvidos, penetra fundo seu coração. Acontece então, de fato, uma experiência de comunicação litúrgica. Como Elias que sentiu a presença salvadora de Deus na brisa suave do monte Horeb (cf. 1Rs 19,12b-13).

             Isso tudo vale para todos os atores e atrizes da celebração litúrgica: presidente, acólitos, leitores e salmistas, animadores, músicos e instrumentistas, sacristães, ministros da comunhão eucarística, a própria assembleia... E também para cada ação ritual, por mínima que seja.

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*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.

 

mar 13

A LITURGIA REVELA O AMOR DE DEUS PARA CONOSCO

O AMOR DE DEUS

EXPERIÊNCIA DE DEUS E LITURGIA –

 *Frei José Ariovaldo da Silva, OFM –

De tantas coisas bonitas de minha infância, sempre gosto de recordar o seguinte. Depois que fiz a primeira comunhão, num certo domingo, após o almoço, fui obrigado por meu pai a retornar com meu irmão para a igreja, a fim de participarmos da catequese de perseverança. Já tínhamos ido à missa na parte da manhã. Agora, tínhamos que percorrer oito quilômetros a mais, retornando à cidade. E a pé! E acontece que chegamos atrasados. Ao entrarmos na igreja, o frei que estava dando catequese nos repreendeu severamente em público. Comecei a chorar, sentando na extremidade de um banco, ao lado de uma coluna da igreja. Uma religiosa franciscana, a querida Irmã Nívea, que auxiliava na catequese e nos conhecia, pois estudávamos no colégio delas, ao ver-me aos soluços, sentou-se ao meu lado, carinhosamente me abraçou, passou a mão sobre minha cabeça, com palavras de ternura e de conforto... Não me lembro do que o frei ensinou nas suas aulas de catequese. Mas do gesto de amor da Irmã Nívea, nunca me esqueci, até hoje. Esta lição de Evangelho ficou plantada para sempre no meu corpo. E procuro colocá-la em prática, na medida do possível, também nas práticas celebrativas.

Algo parecido aconteceu com o povo de Israel. Experimentou o amor misericordioso e confortador de Deus por ocasião da saída do Egito. O gesto amoroso de Deus, que enxugou as lágrimas desse povo sofrido, ficou gravado no seu coração. E cada vez que o povo, pelas suas liturgias, se recordava deste Deus, se sentia feliz, recobrava as forças para continuar a caminhada. Mesmo depois de sérias infidelidades à aliança e de consequentes desgraças, a recordação da ternura de Deus fazia o povo se levantar e continuar seu caminho. Recordar que Deus continuava operando em favor do povo, renovava e fazia crescer a fé... Deus não era visto nem sentido como uma verdade abstrata, mas como Alguém que estava aí, marcando presença, operando sempre e com eterna misericórdia.

Na plenitude dos tempos, este Alguém (que Deus é!) se fez nós na pessoa do seu Verbo encarnado. Assumiu o nosso corpo. Tocou o nosso corpo e se deixou tocar por nós. Esse era Jesus, o Filho de Deus: Homem totalmente simples, humilde, transparente, livre, sem armaduras, sem couraças, sem preconceitos, sem complicações... Decididamente centrado apenas na essência de nossos corpos, para além dos nossos padrões egóicos, limitados, transitórios, perecíveis, cujas absolutizações comprometem a qualidade da vida das pessoas... Humano assim, só Deus mesmo! Sua simples presença amorosa, transpirando ternura e paz, contagiava as pessoas, produzia saúde às pessoas oprimidas e carregadas de tensões emocionais. Desarmadas diante do seu modo acolhedor e compassivo de ser, as pessoas se sentiam convertidas, curadas, renovadas. O fato de simplesmente deixar que este Alguém ame – que seja a Liturgia do Pai! – já era motivo suficiente para o crescimento na vida e na fé.

Também depois da ressurreição, o Senhor continuou sendo sentido como Alguém profundamente humano. A Boa Nova era sentida não como uma doutrina, um enunciado filosófico e de sabedoria de vida, mas como Alguém marcando presença consoladora e animadora. Ele caminhou para Emaús e se deixou perceber ao partir do pão. Ele soprou sobre os seus. Ele comeu à beira do lago. Depois, continuou sua Presença atuante por seu Espírito. Presença esta que passou a ser celebrada – sentida muito presente! – mediante inúmeros gestos e sinais (batismo, fração do pão, imposição das mãos, unção, oração, a própria reunião dos irmãos e irmãs etc.). Esta experiência é que fazia (e faz) os cristãos crescerem na fé e no compromisso comunitário.

O que eu gostaria de acentuar é o seguinte. Só quando sentimos Deus como alguém muito humano, amoroso, próximo de nós, a ponto de fazer de nossos corpos o seu espaço, sua morada, é que seremos capazes de crescer na experiência de fé. E o lugar privilegiado de fazer esta experiência é a celebração litúrgica. Pois aí não se trata de entrarmos em contato com ideias sobre Deus, mas com ele mesmo em pessoa, confiando-nos o seu segredo. 

Assim, “na liturgia da Palavra não lemos um texto, mas escutamos Alguém que nos fala. Não prestamos atenção à leitura de um texto venerável por sua antiguidade, mas escutamos Deus mesmo que nos fala. Quando lemos um texto, entre ‘escutar’ e ‘ler’ há uma grande diferença. Ao lermos um texto, não pensamos (ou pensamos pouco) no autor da obra; o que nos interessa são as ideias expostas, as descrições feitas, as análises do coração humano. Por outro lado, quando conversamos com um amigo, ficamos geralmente mais atentos à sua pessoa do que ao que ele diz. Mais exatamente, nós nos unimos ao amigo acolhendo as palavras com as quais ele nos confia o seu segredo. As palavras que ele pronuncia têm uma cor, um valor próprio, pois ele se dirige a nós pessoalmente. Assim acontece com a proclamação da Palavra de Deus na celebração litúrgica. Trata-se de uma palavra que nos é dirigida pelo Senhor, nosso maior Amigo, confiando-nos seu segredo. Quando a escutamos, somos convidados a estar atentos àquele que nos fala: Deus” (R. GOFFY. La celebración, lugar de la educación de la fe. In: Phase, Barcelona, n. 118, 1980, p. 273-274).

O mesmo se diga a respeito dos gestos e sinais sacramentais. Através deles nosso melhor Amigo nos confia o seu segredo, o seu amor gratuito, o seu apoio, o seu conforto, a sua cura, o seu apelo etc. Por eles somos tocados, acariciados, alimentados por Deus. Mas isso se torna perceptível e, consequentemente, educador da fé, na medida em que tivermos uma apaixonada consciência de que estamos celebrando Alguém muito próximo, divinamente humano, pessoal, e o fazemos com a totalidade do nosso corpo envolvendo emoções, afeto, coração, levando em consideração a cultura e época que estamos vivendo.

Nossas celebrações litúrgicas deveriam transmitir a experiência cristã de um Deus vivo que, amorosamente, fala, comunica-se com seu povo e age na nossa história. É uma questão a ser pensada...

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FREI ARIOVALDO -2*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.

fev 10

TEMPO DA QUARESMA – ORAÇÃO, JEJUM E CARIDADE

TEMPO DA QUARESMA

 COM JESUS, RUMO À PÁSCOA –

Considerações sobre a Quaresma para este ano – 

Frei José Ariovaldo da Silva, ofm – 

Para qualquer festa importante, a gente sempre se prepara, e se prepara bem! E quanto mais importante a festa, com mais cuidado e antecedência a gente se prepara. Na própria preparação já se começa a viver a festa.

Nós cristãos celebramos todo ano a festa da Páscoa: Morte e ressurreição de Jesus e nossa. É a maior de todas as festas. A mais importante, pois é a vitória da Vida sobre a morte que celebramos... Grande demais para ser preparada em apenas alguns dias. Ela merece mais! Por isso, estendemos sua preparação para quarenta dias (Quaresma).

Por que quarenta? Porque a Bíblia costuma apresentar a quarentena de dias ou de anos também como período de preparação para algum acontecimento importante. Por exemplo: os quarenta dias do dilúvio universal (Gn 7,4), os quarenta dias de Moisés no monte Sinai antes do selo da Aliança (Ex 24,18), os quarenta anos de Israel pelo deserto até chegar na terra prometida (Nr 14,34), os quarenta dias de Elias em fuga até o monte Horeb (1Rs 19,8), o prazo de quarenta dias que Jonas deu ao povo de Nínive para se converter (Jn 3,4), os quarenta dias de Jesus em retiro e jejum no deserto (Mt 4,3 par), os quarenta dias entre a Ressurreição e a Ascensão de Jesus (At 1,3)...

Quaresma! É um tempo em que fazemos o caminho para a Páscoa, motivados pela mensagem e unidos aos sentimentos de Jesus Cristo.

É um tempo de graça e bênção, de escuta da Palavra de Deus, de conversão e mudança de vida, de recordação e preparação do batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos. Tempo de oração mais intensa; tempo de jejum como aprendizagem, entrega e docilidade à vontade do Pai; tempo de esmola, partilha de bens, de especial carinho para com os pobres e necessitados.

É o tempo em que, na tradição da Igreja, os catecúmenos se preparam intensamente para o batismo na noite da Páscoa, isto é, na Vigília pascal. E também nós batizados nos preparamos para renovarmos o nosso batismo na mesma Vigília.

Tem início com a Quarta-feira de cinzas, através da qual inauguramos nosso tempo de preparação para a Páscoa: “Convertei-vos, e crede no Evangelho!”. Por que “quarta-feira de cinzas”? Porque nesse dia, como sinal de penitência, esparramamos cinza sobre nossa cabeça: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar”. Faz pensar na transitoriedade da vida e, consequentemente, na necessidade de aderir à Boa Nova de Cristo para, então, com ele ressuscitarmos para a vida plena.

Depois temos os cinco domingos da Quaresma, nos quais as comunidades se reúnem para celebrar a presença viva do Senhor que nos mostra o caminho para a vitória definitiva da Páscoa. O caminho é mostrado pela Palavra viva do Senhor proclamada nas celebrações litúrgicas. Assim:

  • A primeira leitura de cada domingo nos apresenta seis grandes momentos da história da salvação, desde o início até a chegada de Jesus. Acontecimentos importantes dos primórdios, proclamados na Liturgia, nos levam a perceber a iniciativa salvadora de Deus numa sucessão de diferentes etapas: 1o domingo) a criação do mundo e a queda de Adão e Eva – 2o) a vocação de Abraão, que dá origem ao povo eleito – 3o) a caminhada do povo de Israel (agora totalmente livre) pelo deserto, com a história da água que sai da rocha – 4o) a unção de Davi como rei do povo eleito – 5o) a visão do profeta Ezequiel, dos ossos ressequidos que voltam a ter vida.

  • As segundas leituras (de Paulo) são uma espécie de “homilias” do apóstolo, aplicando à nossa vida a mensagem das outras leituras. A Páscoa de Israel do Antigo Testamento e, sobretudo, a Páscoa de Cristo Jesus são o modelo e pauta da Páscoa de cada cristão. Assim: No 1o domingo, à queda de Adão, Paulo opõe a vitória e a graça do novo e definitivo Adão, Jesus. – No 2o, lembrando a vocação de Abraão, Paulo nos fala de nossa vocação cristã. – No 3o, falando do Espírito que será derramado sobre os crentes, Paulo nos prepara para ouvir o evangelho da samaritana. – No 4o, convidando-nos a viver como filhos da luz, Paulo nos prepara para ouvir o evangelho da cura de cego da nascença. – No 5o, convidando-nos como ressuscitados, Paulo nos prepara para a escuta do evangelho da ressurreição de Lázaro.

  • Os evangelhos nos apresentam Jesus como o modelo vivente do caminho pascal: No 1o domingo, as tentações de Jesus no deserto. – No 2o, sua transfiguração na montanha. – Os três domingos seguintes se caracterizam por seus temas batismais. Assim: No 3o, a água e a samaritana. – No 4o, a luz e a cura do cego. – No 5o a vida restituída a Lázaro.

Então vem o Domingo de Ramos ou da Paixão, no qual lembramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, onde ele sofrerá a paixão e mergulhará na morte, para depois ressuscitar vitorioso. A primeira leitura (do Antigo Testamento) fala do Servo de Javé (figura de Jesus) que se entrega para salvar a todos. Na segunda leitura (do Novo Testamento), lembrando-nos a entrega total que Jesus faz de si, Paulo nos prepara para a escuta do evangelho, que é o evangelho da Paixão de Jesus Cristo segundo Mateus.

Nas comunidades, durante a Quaresma, se fazem também celebrações penitenciais, como sinais da nossa busca de conversão e da misericórdia de Deus que nos acolhe em seu perdão. Nelas, igualmente, se celebram ofícios próprios e procissões, como meio de intensificar a oração. Ainda como parte da Quaresma se celebra na quinta-feira santa de manhã a missa dos santos óleos.

Enfim, como forma penitencial de viver a Quaresma no Brasil, temos a Campanha da Fraternidade que, neste ano, vem com o tema: “Casa comum, nossa responsabilidade”, iluminado pelo lema:  “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24). Toda a natureza, inclusa sobretudo a humana, está sob a nossa responsabilidade!

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*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.
               

dez 20

É TEMPO DO NATAL

liturgia do natal

A LITURGIA DO NATAL  -

*Frei José Ariovaldo da Silva, OFM - Teólogo liturgista - 

1. Escrevi, certa ocasião, que a palavra “liturgia”, de origem grega, pela sua própria etimologia tem a ver com prestação de serviço. Puxando este sentido originário para a teologia, poderíamos então afirmar que “Liturgia” seria toda prestação de serviço que Deus realizou e realiza em favor da humanidade, e que tem seu ponto alto quando a comunidade cristã se reúne – é reunida pelo Senhor! – para celebrá-la, sobretudo quando ouvimos a Palavra de Deus proclamada e celebramos Eucaristia. 2. Uma das maiores obras de Deus em favor de todos nós, uma das maiores “liturgias” de Deus, portanto, foi quando ele nos “presenteou” seu próprio Filho para ser o nosso Salvador. Desde muito tempo, Deus vinha se mostrando um imenso apaixonado pela nossa humanidade. E, enfim, depois de um longo período de “noivado”, em todo o Antigo Testamento, Deus acabou se “casando” com a humanidade, na pessoa de Maria. Realizou-se a promessa, cumpriu-se a profecia (cf. Is 62,1-5!). E deste “matrimonio” resultou – por obra do Espírito Santo! – uma “gravidez” e, por esta “gravidez”, foi-nos dado Jesus, Filho de Deus, Emanuel (Deus-conosco!) (cf. Mt 1,18-25!): O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Maravilhosa obra de Deus em favor da humanidade! 3. Por aí já dá para entender o que quero dizer com “Liturgia do Natal”. Não estou pensando em primeiro lugar nas cerimônias das festas natalinas. Estou pensando na “Liturgia” do Natal, isto é, no enorme bem que Deus fez para nós, quando seu Verbo eterno “mergulhou” para dentro do imenso e abismal mistério da nossa existência humana. Ele que criou todo este infindo universo povoado de milhões e milhões de astros e galáxias, se faz irmão de todos e, de todos, o menor, sobre este “minúsculo” planeta terra. 4. Deste “mergulho” fundo e solidário de Jesus na nossa condição humana, até a morte, e morte numa cruz, resultou enfim a definitiva vitória do amor, da vida, sobre este nosso chão: Ressurreição e dom do Espírito! E daí resultou sermos nós, humanos, elevados pelo Batismo à dignidade de filhos e filhas de Deus (cf. Jo 1,12), membros do corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,12-31), participantes da vida divina, comensais do banquete celeste, “herdeiros da vida eterna” (Tt 3,4). Pelo dom do Espírito, fomos transformados em “geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista”, para proclamar as obras admiráveis daquele que nos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (cf. 1Pd 2,4-9; 9; Ap 1,5b-6; 5,6-10; 20,4-6). Família de Deus, Corpo de Cristo, Igreja, novo e verdadeiro “povo sacerdotal”! Quanto bem Deus fez para nós! Quanta “liturgia”! 5. Por isso, no Natal, podemos ouvir a auspiciosa notícia do anjo: “Não tenham medo! Eu lhes anuncio uma grande alegria, que deve ser espalhada para todo o povo. Hoje... nasceu para vocês um Salvador, que é o Cristo Senhor”. E um coral imenso de anjos irrompe num alegre hino de louvor: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (cf. Lc 1,10-14). Deus nos amou e, deste amor, resultou para nós a paz, que no fundo é sinônimo de vida. E nisto está precisamente a sua admirável grandeza: “A glória de Deus é a vida do ser humano” (S. Irineu). 6. E nós, família de Deus reunida para celebrar a divina Liturgia do Natal, dando graças ao Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo poderoso, proclamamos jubilosos: “Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos” (Prefácio do Natal III). 7. Então, depois de dar graças, participamos da verdadeira Ceia de Natal, na qual o humilde Senhor se entrega a nós como alimento. Feito pão e feito vinho, corpo e sangue dele oferecidos, nós o acolhemos com nosso “amém” e a disposição sincera de formarmos com ele um só corpo bem unido. A Liturgia do Natal atinge, pois, seu ponto alto quando, comendo e bebendo desta Ceia, celebramos a comunhão total do divino com o humano, celebramos a nova “cidadania” (a do céu!), que nos foi dada. Participamos do banquete comemorativo da grande obra do Salvador, pela qual nos eternizamos. 8. Por isso, após a comunhão, rezamos: “Ó Deus de misericórdia, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também sua imortalidade”. Sim, no Natal invocamos Deus como “misericordioso”, pois fez do seu Filho ressuscitado um eterno “hoje” em cada Eucaristia que celebramos e, cada vez que comungamos deste “hoje”, fazemos experiência de comunhão com a vida divina com sabor de eternidade. 9. Não é o “aniversário” de algo que passou que celebramos no Natal, mas a presença viva do Verbo eterno do Pai, que se faz Liturgia viva no chão de nossa história. Por isso, na celebração litúrgica da festa de Natal, proclamamos o permanente “hoje” do mistério: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz” Ou: “Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável, Deus, Príncipe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim”. Ou: “Revelastes hoje o mistério do vosso Filho como luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação”. Liturgia do Natal, presença do eterno “Hoje” salvador, como obra da Trindade! Presença com sabor de Páscoa, pois é a partir da Páscoa que podemos viver o Natal como festa da luz, da vida, da paz! 10. Da parte de todos nós, cristãos e cristãs, filhos e filhas de Deus, no Filho nascido em Belém, ressuscitado em Jerusalém, vivo no seu Corpo eclesial, cuja imagem maior é a Eucaristia, não resta senão honrar a “dignidade” a que fomos elevados, levando adiante a missão de Jesus Cristo, vivendo a Justiça, o Amor e a Paz.

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FREI ARIOVALDO -2*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.

nov 29

REFLETINDO SOBRE A LITURGIA

ADVENTO-2

Tempo do advento

Quando virás para nos libertar?

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM  - 

                 Pensei escrever algo sobre o Advento, mas que tenha a ver com a realidade humana concreta no mundo em que vivemos hoje. Recebi do meu colega e amigo Pe. Marcelino Sivinski um lindo texto que vem ao encontro deste meu sonho. Tomo a liberdade de transcrevê-lo, pois fez muito bem a mim e, tenho certeza, o fará também ao leitor: 

                    “Manhã de domingo. Inicia a celebração. O presidente volta-se para o povo e diz: Estamos iniciando um novo ano litúrgico. ‘Nada entendi da conversa e muito menos das explicações dadas’ – sussurra alguém com seus botões. Hoje algo semelhante se repete. A pergunta está colocada: o que é o advento? Por que todos os anos ouvimos em nossas igrejas: Estamos iniciando um novo ano litúrgico? 

              Na realidade que nos cerca, temos: Os sofrimentos da humanidade, a violência, a fome, as injustiças, a vida ameaçada e espezinhada em todos os cantos da terra. E diante de tanta dor, surge a pergunta: Senhor, nada tens a ver com isso? Quando tudo isso acabará? Quando virás para nos libertar? Perguntas que atravessaram séculos. E hoje fazem parte do nosso cotidiano e do advento. 

                 Tocados pelo sofrimento nos perguntamos: Esse mundo ainda tem salvação? Será que um dia o pobre terá vez e voz? No advento as questões se tornam mais cruciais e remexem com os sentimentos humanos. 

                  Advento lembra comunidades que há mais de cinco mil anos se fizeram essas perguntas e procuraram uma luz para enfrentar o luto e as desgraças, forças para fortalecer as energias, espaços para alimentar inspiração para sobreviver e uma esperança capaz de unir os escravos, privados do direito de viver e ser feliz. 

                   O coração do advento: O pobre espera um pedaço de pão e uma casa para morar. Sem esse sonho dos pobres não é possível entender o que seja o advento e muito menos o nascimento do Filho de Deus. 

                 Jesus nasce em Belém, cidade do pão. Faz a multiplicação dos pães. O povo recorda com saudades o maná do deserto. Na última ceia Jesus abençoa e reparte o pão. A conquista do pão de cada dia e da moradia digna é uma história de luta e resistência muito comovente na caminhada do povo de Deus. Marcada pela solidariedade, pela bravura, pela organização e morte ao egoísmo, pela força para enfrentar e vencer quando tudo parecia estar perdido. 

               História construída com sangue e suor, desprendimento e união na conquista do alimento e da dignidade de vida para todos. Tudo isso na espera da chegada, advento, de dias melhores, do nascimento do Messias como portador da realização de todos os sonhos e expectativas. 

               Aos poucos, chega-se à conclusão de que a conquista da liberdade e vida digna era a causa e a bandeira de luta de Deus, Senhor da vida. 

                 Conclusão que alimenta a caminhada e une corações e sonhos. E hoje, a luta continua. A libertação está chegando. É confortador recordar que a nossa causa é a de Deus. Ele fez aliança conosco. Essa aliança continua viva e é para sempre com o nascimento de Jesus. A palavra ‘Jesus’ significa ‘Deus salva’. No advento sentimos Deus tão humano e solidário. Veio morar conosco, arma sua tenda no nosso acampamento, faz do nosso corpo sua morada na pessoa do seu Filho para se aliar a nós que queremos viver felizes com mesas fartas de pão e paz entre as nações e etnias. Advento lembra a luta pela vida, tendo Deus como aliado e parceiro. 

               Advento revive e faz nossa a luta dos pobres na conquista do pão e da liberdade com a bênção de Deus, Senhor da vida e do pão. Ainda hoje vivemos nesse advento. Todos os anos, início do Ano Litúrgico, retomamos a caminhada da busca da liberdade e do pão. 

                Natal: Sonho de Deus presente nas realizações mais profundas do ser humano e celebração de milênios de luta em busca de pão para que haja vida digna para todos. Natal:  O Senhor chegou e continua chegando para nos libertar e dignificar e divinizar a vida”. 

                 Jesus nasceu no meio de um Império poderoso, cujo chefe, o Imperador, era adorado como Deus. E nasceu também de um povo, cuja religião era feita de riqueza, exuberância, pompa e circunstância, em meio a muita reza e pouco Deus.  No entanto, a miséria de uma multidão de famintos e doentes, abandonados, – “como ovelhas sem pastor”, dirá Jesus (Mc 6,34) – era então gritante, bradava aos céus. 

                 Também nós hoje nascemos e, conosco nasce Jesus, no meio de um Império poderoso. Não o Império romano, mas o chamado Império econômico, cujo Deus é o Capital, a quem são sacrificados milhares de seres humanos... E é disso que ele gosta!  É disso que ele precisa para manter-se no poder! Neste contexto, corremos o risco, também nós cristãos, de fazer da religião um mero supermercado religioso ou um antro de ladrões e corruptos, acomodados e despreocupados com o que acontece lá fora, na periferia. Acontece o quê? Uma multidão de pobres e sofredores numa desenfreada luta pela sobrevivência! 

                     E Jesus vem. É tempo do seu Advento. Vem do Deus verdadeiro que é Amor. Vem e, vivendo este Amor até o fim (cf. Jo 13,1), graças a Deus, desmascara os Impérios: dispersa os soberbos, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,52). 

                        Que seja em nossos corpos o Espírito de Jesus, Espírito de solidariedade e justiça para com os últimos desta sociedade infectada pelo vírus da exclusão e da discriminação. Que seja em nosso corpo – pessoal e coletivo – o “reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio da Missa da Solenidade de Cristo Rei do Universo): Reino de Deus! E que os pobres desta terra possam cantar um “cântico novo” (Sl 33,3; 96,1; 149,1; Is 42,10; Ap 5,9)! Que o teu Reino aconteça, Senhor! Com a nossa humana colaboração, é claro!

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*Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.
 
 

out 18

REFLEXÕES SOBRE A LITURGIA CATÓLICA

TRINDADE

LITURGIA

Obra da Trindade

*Por Frei José Ariovaldo da Silva, OFM 

   Para nós cristãos, nossa páscoa é Cristo, na qual se selou definitivamente a aliança entre o divino e o humano. Sua vida, morte-ressurreição e dom do Espírito são o referencial salvífico maior, central, de toda a história da salvação. Pois, a partir deste mistério (mistério pascal), o pecado e a morte não tem mais vez, estão destruídos e, por isso, temos a certeza de que, em Cristo, nosso fim é também vitorioso. Nele passamos definitivamente da escravidão do pecado e da morte para a liberdade da graça superabundante e vida plena (cf. Rm 5,12-19).

  Pois bem, antes de ser entregue à morte, a exemplo do que foi instituído para os israelitas por ocasião da saída do Egito (cf. Ex 12,14), Jesus também nos instruiu, deixando-nos um memorial. Sim, o memorial agora de sua (e nossa) páscoa, síntese de toda a sua vida e sua missão. Pegando o pão e, depois, o cálice com vinho, deu graças, partiu e deu aos seus discípulos dizendo: Tomai e comei: isto é meu corpo entregue. Tomai e bebei: isto é meu sangue derramado, o sangue da nova e definitiva aliança. Fazei isto em memória de mim. (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20). Fazei isto... “Fazer”, aqui, tem a ver com ação, entrar no jogo do rito e, neste jogo, assimilar o sentido contido no rito (que é o mistério pascal: Jesus se entregando por nós, por amor) para transformá-lo em vida no nosso dia a dia (cf. Jo 13,1-17).

  O rito deixado por Jesus foi assumido pelos seus discípulos e recebeu com o passar dos tempos vários nomes, tais como: fração do pão, ceia do Senhor, eucaristia, oferta, missa, divina liturgia. Nossos irmãos orientais chamam a celebração memorial da ceia pascal do Senhor de “divina liturgia”. E nós falamos em “liturgia da missa”, com duas partes tão intimamente unidas entre si, que constituem um só ato de culto: a “liturgia da Palavra” e “liturgia eucarística”.

  Por que “liturgia”? Essa palavra é significativa. Por isso foi adotada pelos cristãos, a saber: para expressar o que temos de mais sagrado, a saber, o mistério pascal. Trata-se de uma palavra de origem grega, que significa “prestação de serviço à comunidade”. O apóstolo Paulo, por exemplo, usando-a nesse sentido, chama de “liturgia” o trabalho (serviço) de recolher esmolas e socorrer a comunidade cristã de Jerusalém (cf. Rm 15,26-27; 2Cor 9,12).

     Ora, se lermos as Escrituras com esse pano de fundo, algo muito interessante vem à tona. A saber, podemos perceber e compreender Deus como o mais experiente na arte da liturgia, isto é, na arte da prestação de serviço ao povo. Mais que experiente, ele é a própria arte de prestar serviço ao povo, o “liturgo” por excelência. A este Deus, a tradição judaica deu um nome: Javé, Deus, Senhor! E a tradição cristã, depois, passou a caracterizá-lo também como “mistério”.

   A criação, toda ela, é vista e sentida como uma esplêndida manifestação da misteriosa “liturgia” do Criador... Pensemos inclusive no “trabalho” que pacientemente Deus realizou no sentido de o povo reentrar no caminho da vida, da justiça e da paz. Exemplos: Encontrou-se pessoalmente com os patriarcas, salvou o povo de Israel da situação de escravidão, instruiu-lhe sobre o memorial pascal, fez aliança com ele, deu-lhe de comer, matou-lhe a sede, constituiu líderes e suscitou profetas no meio do povo, inspirou formas memoriais celebrativas da sua misteriosa e atuante presença na história, assentou o povo numa terra, e assim por diante...

    E, a certa altura da História, na plenitude dos tempos, Deus nos prestou um serviço ainda maior, a saber: Presenteou-nos com seu próprio Filho que se tornou para nós o Caminho, a Verdade e a Vida, o nosso Salvador, com uma proposta que significa a garantia mais certa daquela vida plena que todos sonhamos.

   Lendo os evangelhos, percebemos que toda a vida de Jesus, passo a passo, foi uma prestação de serviço em favor das pessoas ou, como diriam os gregos, uma grande “liturgia”. Pela sua encarnação, vida, morte e ressurreição, ele mergulhou de cabeça no abismo da realidade humana, até a morte (cf. Fl 2,5-11). Assim, na sua total obediência ao Pai, ele cura os doentes, consola as pessoas, acolhe os pecadores, abençoa as crianças, denuncia as tiranias opressoras, inaugura o tempo novo da libertação... Deu tudo de si – morreu! – pela causa maior que é a causa da justiça, da liberdade, da vida. E sua ressurreição é a marca definitiva de que este foi é o culto que mais agradou a Deus, a melhor “liturgia”, digamos. Em Jesus, Deus nos prestou um serviço salvador, o maior, em favor de toda a humanidade.

    E mais, no fim das contas, Deus ainda nos deu o dom do Espírito (outra grande obra em favor da humanidade!), pelo qual nos tornamos corpo de Cristo, filhos de Deus, família de Deus, povo de Deus, Igreja, raça escolhida e nação santa, povo sacerdotal, habitação do Altíssimo Senhor, colaboradores diretos do Criador no cuidado do paraíso chamado planeta terra. Formando um só corpo em Cristo (cf. 1Cor 12,12-31) pelo batismo, foi-nos garantida a verdadeira dignidade humana e nos foi dada uma nova “cidadania” sobre este planeta terra, a “cidadania” do eterno.

   Tocamos, pois a Fonte, a saber, a Trindade santa na sua arte consumada de prestação de serviço a toda a humanidade. Não só a tocamos, mas, antes, nos percebemos tocados por ela, sobretudo na ação ritual deixada por Jesus como memorial de sua (e nossa) páscoa.

   Por isso que, com razão, nossos irmãos orientais chamam esta ação de “divina liturgia”, e nós a chamamos de “liturgia da missa”. Pois nela se faz presente Aquele que, unido ao Pai e ao Espírito Santo, num gesto ímpar de amor-serviço, opera hoje pelo mistério pascal a salvação da humanidade.

   Eis por que o Catecismo da Igreja Católica identifica a liturgia como “obra da Trindade” continuada hoje no Corpo eclesial como celebração e vida (cf. nn. 1077-1112)! E feliz de quem topa participar deste jogo!

  (Publicado na revista Trinitatis dos monges da Trindade, Monte Sião/MG, n. 35, Ano V, Agosto/Setembro 2014, p. )   __________________________________________
Frei José Ariovaldo da Silva é frade franciscano (OFM); doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma; professor do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis, RJ); membro da equipe de reflexão da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB; membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo); foi membro da Comissão para Acabamento da Basílica de Aparecida; assessor de Liturgia, conferencista, escritor.
 

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