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Arquivo por categoria: REFLETINDO SOBRE MARIA

nov 12

MARIA: MÃE DE DEUS E DOS HOMENS

maria-mae-de-deus-e-dos-homensMARIA: MULHER DE DEUS E DOS POBRES[1] -

 

             O título acima é do livro da religiosa argentina Clara Temporelli, da Ordem da Companhia de Maria Nossa Senhora, do qual pretendemos publicar alguns trechos, a fim de prosseguirmos com o trabalho de divulgação de diversos aspectos da pessoa, da vida, da santidade e da devoção a Maria, Mãe de Deus e nossa também.

            Vamos iniciar, destacando a parte do livro que aborda o tema-chave do Concílio de Éfeso, no qual Maria é afirmada como verdadeira Mãe de Deus – Theotokos. Assim, nossa autora principia sua trajetória mariana:

“A Theotokos e seu contexto religioso

 Conforme assinalamos, o concilio queria esclarecer o fato de que Jesus Cristo é o Filho de Deus nascido de mulher e, portanto, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É assim que Maria se tornou parte dos argumentos teológicos evocados nos debates cristológicos. Desde então, podemos dizer que “a mariologia se converteu em disciplina teológica”.[2]

 Durante aqueles dias do concilio, o povo de Éfeso ouvira em todas as igrejas pregações sobre Maria como Theotokos. Esse mesmo povo, depois da segunda sessão, acolheu com entusiasmo a proclamação de Maria como Theotokos e acompanhou alegremente os padres conciliares a suas casas. Cirilo de Alexandria atesta:

 Levaram-nos em meio a tochas a nossas residências. Era de noite. A alegria era geral e toda a cidade se iluminou. As mulheres seguiam adiante com incensários. O Senhor demonstrou sua onipotência contra os que blasfemavam seu Santo nome.[3]

 Em Éfeso, o povo venerara durante séculos a Grande Mãe (originalmente, a deusa virgem Ártemis). Por isso, existia na cidade uma religiosidade popular arraigada, que logo adotou e batizou muitas práticas pagãs e tributou a Maria as honras que, em outra época, eram reservadas à Rainha do Céu.[4]

Com relação a esse tema, J. Moingt aponta:

 Para os historiadores das religiões, não há nada de novo nisso: a representação de uma divindade feminina e materna, de uma deusa mãe, domina gravida, senhora grávida, que dá à luz milagrosamente, leva nos braços e amamenta seu filho divino, é atestada em todas as reli­giões, desde os mais antigos milênios, pela arqueologia e pela epigrafia. Em Roma e em todo o império adorava-se a Grande Mãe, Mãe dos Deuses ou Venus Genitrix. O mesmo ocorria lá onde apareceu o culto a Maria: na Anatólia, desde a época paleolítica, prestava-se culto à Mãe dos deuses, a deusa Kurotrofos, e a seu divino filho, representado como um belo jovem; no Egito adorava- se a deusa Ísis alimentando seu filho Hórus. É possível que Nestório tivesse isso em mente ao denunciar como uma “enfermidade grega” a ideia de “levar o Deus Verbo, associado por apropriação, à lactação”. Ocorrerá, de fato, que muitos elementos do culto a Ísis serão reciclados na nova devoção a Maria Theotokos. “Os deuses vão, os cultos ficam”, constata Eric Dodds. A conivência dessa devoção com um imaginário religioso ancestral será uma ajuda pouco contestável para a penetração da fé cristã em povos ainda marcados pela religiosidade pagã.[5]

 Os cultos e as crenças anteriores ao processo de uma nova evangelização e inculturação da fé cristã se concretizam em Éfeso, onde o culto a Maria cresce e, com ele, as características da Virgem e Mãe, que assume títulos e funções das grandes deusas das cidades importantes do império romano.

 É verdade que as discussões conciliares se concentraram nas questões cristológicas, mas, para o povo simples, as categorias discutidas pelos padres conciliares não faziam sentido algum, ou não eram totalmente captadas. No entanto, o culto às deusas estivera muito arraigado ali, e com tal força que a definição de Maria como Theotokos significava reconhecer para ela um lugar destacado no panteão cristão. Com esta proclamação se realiza, por um lado, uma nova relação com o paganismo - Maria assume e transforma as figuras divinas femininas - e, por outro lado, se dá uma diferença notável entre as antigas deusas e Maria - ela não gera por si mesma um filho de Deus, mas sim recebe de Deus um Filho, que deve unicamente a Deus o ser propriamente Filho de Deus; não o gera fora do tempo nem no mundo dos deuses, gera-o na terra e no tempo, para que pertença à história da huma­nidade; além disso, seu culto está longe de ser associado aos rituais de fecundidade e de sexualidade.

 Do Concilio de Éfeso nos resta, além de sua definição, um fenômeno religioso da maior importância: o culto a Maria, Mãe de Deus, que logo conhecerá um desenvolvimento litúrgico considerável e dará ao cristianismo a forma característica de culto à Virgem Mãe e ao Deus Menino. Culto que alcançará grande esplendor, sobretudo, na Igreja oriental e que paulatinamente se estenderá ao Ocidente.

d) A doutrina da maternidade divina antes e depois de Éfeso Concilio Constantinopolitano I (ano 381)

 A única referência a Maria no Concilio de Constantinopla I (ano 381 ,DS 150) é a afirmação destinada a esclarecer a doutrina da encarnação do Verbo, expressa em seu símbolo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine (e se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria). A importância desse breve inciso aparece de imediato ao notarmos que, no símbolo do Concilio de Niceia (ano 325), não há nenhuma menção mariana.

 Ainda que não se trate de um discurso diretamente relativo à maternidade virginal de Maria, a afirmação de sua função materna na encarnação do Filho é explícita e segura. Como tal, deve ser considerada a primeira formulação de fé, de data segura, apesar de ter adquirido valor dogmático universal somente a partir daí.

 A fórmula mariana do Constantinopolitano I conserva o tom das fórmulas simbólicas mais antigas, que sintetizavam a fé da Igreja ligada à revelação da Palavra de Deus e à tradição fiel do testemunho apostólico. Maria é mencionada como elemento humano que esclarece a encarnação do Verbo e sua obra redentora."

 

 ____________________________________________________________

[1] TEMPORELLI, Clara. MARIA – Mulher de deus e dos pobres. São Paulo. Paulus. 2ª ed.: 2011. 263 páginas.

[2] S. Benko. The Virgin Goddess. Studies in the pagan and Christian roots of mariology. New York/Köln: J. Brill Leiden, 1993, p. 257.

 [3] Cirilo de Alexandria. Epístola 24. PG 77, p. 237

[4] S. Benko. The Virgin Goddess. Studies in the pagan and Christian roots of mariology, p. 262

[5] J. Moingt. El hombre que vertia de Dios. Bilbao: DDB, 1995, vol. I, p. 136.

set 04

ROSA MÍSTICA: SÍMBOLO DO SACRIFÍCIO!

ROSA MÍSTICA - 2

NOSSA SENHORA ROSA MÍSTICA! 

*Por Viviane Gonçalves Noel –

 

Nossa Senhora Rosa Mística,

Mais bela do que uma obra artística!

Sua mensagem vem através das rosas,

Tão perfumadas e formosas!

 

A rosa branca simboliza a oração,

Um gesto de amor e adoração!

A oração é fonte de comunicação e de fervor,

Pedidos e agradecimentos são entregues ao Criador!

 

A rosa vermelha simboliza o sacrifício,

Ele enobrece o caráter e o ofício!

O sacrifício é uma verdadeira doação,

Ele brota da entrega do coração!

 

A rosa amarela simboliza a penitência,

Um olhar profundo para a própria experiência!

A penitência é uma oportunidade de reconciliação,

É assumir, diante de Deus, a nossa filiação!

 

Maria, a Rosa Mística de maior beleza,

Mãe que passa na frente com doçura e firmeza!

Pétalas e espinhos estão presentes em nossa vida cotidiana,

Mas a nossa inspiração é mariana!

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*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 
     

ago 20

A ASSUNÇÃO DE MARIA AOS CÉUS

ASSUNÇÃO DE MARIA - 3

ELEVADA AO CÉU EM CORPO E ALMA –

Frei Clarêncio Neotti, OFM –
FONTE: http://www.franciscanos.org.br/?page_id=5507 - 

            “O último, no sentido de mais recente, dos quatro dogmas marianos é o da assunção em corpo e alma ao céu de Maria, proclamado pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, festa de Todos os Santos. Esta verdade de fé só tem sentido considerada como consequência lógica da maternidade divina de Maria. Maria é uma criatura de Deus Criador, por isso mesmo teve um início e um final de vida na terra. No início, temos sua conceição imaculada, em previsão de sua maternidade divina. No final, temos sua assunção gloriosa, como coroamento de uma vida humana vivida sem pecado, “cheia de graça” (Lc 1,28), íntegra no corpo e na alma, inteiramente consagrada à missão para a qual Deus a escolhera.

            Na curta fórmula usada pelo Papa Pio XII para proclamar o dogma da assunção de Maria, que vem dentro da constituição apostólica “Munificentissimus Deus”, são explicitamente citados os outros dogmas marianos: a conceição imaculada, a maternidade divina e a virgindade perpétua. A solene fórmula é esta: “Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. No texto da constituição, o Papa acentua “a maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso Redentor”.

            Não vamos aqui discutir exegeticamente o sentido dos termos usados pelo Papa para a declaração do dogma. Já foram escritas centenas e centenas de páginas sobre isso. Apenas digamos que as palavras do Papa evitam falar sobre a morte ou não morte corpórea de Maria; evitam falar sobre o que seja o corpo humano e qual sua condição ao ser elevado ao céu; evitam falar do relacionamento entre corpo e alma; evitam usar algum verbo que sugira que o céu seja algum lugar determinado, “nas alturas”, por exemplo. Evidentemente os belíssimos quadros de Murillo e de outros pintores marianos, que fixaram em telas a assunção, sugerem ter sido Maria “levada pelos anjos” ao “mais alto” céu. O dogma não entrou nesse linguajar humano, muito compreensível, por sinal, porque sempre se imaginou Deus nas alturas e o diabo nos abismos.

            O Papa Pio XII, na mesma constituição, faz, logo no início, uma longa referência ao nexo entre Maria assunta e Maria imaculada. Cito o belíssimo e fundamental texto, que espantou alguns grandes teólogos: “O privilégio da assunção brilhou com novo fulgor, quando o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato, estes dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Deus, porém, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa. Mas Deus quis excetuar desta lei geral a Bem-aventurada Virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular, ela venceu o pecado com a sua conceição imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro nem teve de esperar a redenção do corpo até o fim dos tempos. Quando se definiu solenemente que a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi imune desde a conceição de toda a mancha, logo os corações dos fiéis conceberam uma mais nova esperança de que em breve o Supremo Magistério da Igreja definiria também o dogma da Assunção corpórea da Virgem ao céu”.

            Se o dogma da Assunção é recente, a devoção a Nossa Senhora Assunta faz parte da piedade popular desde os primeiros séculos da Igreja. Nos primeiros séculos celebrava-se a “dormição” de Maria, cercada de muitas lendas, algumas até com evidentes heresias. Mas nenhuma dessas celebrações separava Maria de seu Filho glorioso. A celebração chamava-se também “Trânsito de Maria” e já então divergiam as opiniões sobre a morte ou não morte da Mãe de Jesus. Essas celebrações eram cercadas de muito carinho, sobretudo numa fértil e impressionante imaginação sobre os modos como Jesus teria vindo buscar sua Mãe e quem vinha em companhia dele para levar Maria aos céus.

            Já no século V temos documentos da festa da Assunção no dia 15 de agosto e a festa vem enumerada junto com as festas da Natividade, da Apresentação, da Anunciação e da Purificação de Maria. E era por ocasião destas festas que os Santos Padres pronunciavam suas homilias marianas, fixando assim, através dos séculos, uma doutrina teológica que, seguramente, foi sustentada, alimentada e celebrada pela piedade popular. O Papa Pio XII, na Constituição Apostólica para a declaração do dogma, lembra que “nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, os santos Padres e os grandes doutores falavam de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram; apresentaram seus sentido e conteúdo com profundas razões, colocando especialmente em plena luz o que a festa tem em vista: não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito Jesus Cristo”.

            Um desses Santos Padres, sempre citado e citado pelo próprio Papa Pio XII, é São João Damasceno (650-750). É dele este texto: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda a corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura como mãe e serva de Deus”.

            O Santo Padre cita vários outros grandes autores antigos e conclui: “Por conseguinte, desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas consequências, ela alcançou ser guardada imune da corrupção do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios. Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à glória celeste, onde, rainha, refulge à direita do seu Filho, o imortal rei dos séculos”.

            São Francisco de Assis tinha especial devoção à Imaculada Conceição, tanto que mandou fazer um altar especial para ela. Mas a devoção predileta do primeiro teólogo da Ordem Franciscana, Santo Antônio (+1231), era Nossa Senhora Assunta, Nossa Senhora da Glória. Morreu cantando a antífona das Laudes da Virgem: “Ó gloriosa e excelsa Senhora, bem mais que o sol brilhais”. Entre seus esquemas de sermões, há um inteiro dedicado à Assunção de Maria. Parte do texto do Eclesiástico: “Como um vaso de ouro maciço, ornado de toda espécie de pedras preciosas, como a oliveira carregada de frutos e como o cipreste que se eleva até as nuvens” (Eclo 50,10-11). Cito a passagem, onde fala de Maria como o trono do Altíssimo: “O lugar dos pés do Senhor foi Maria Santíssima, da qual recebeu a humanidade. Este lugar glorificou-o no dia de hoje, porque a exaltou acima dos coros dos anjos. Por isso se percebe claramente que a Virgem Santíssima foi assunta com aquele corpo que foi o lugar dos pés do Senhor. Donde a palavra do Salmo:

            “Sobe, Senhor, para o lugar do teu repouso, tu e a arca da tua santificação” (Sl 132,8). O Senhor subiu, quando se assentou à direita do Pai. Subiu também a arca da sua santificação, quando no dia de hoje a Virgem Mãe chegou ao tálamo celestial”. Santo Antônio termina o esquema, lembrando que, aquela que fora na terra o trono do Senhor, hoje é posta num trono de luz eterna.

            Logo depois de proclamar o dogma da Assunção em corpo e alma ao céu, o Papa Pio XII rezou uma oração composta por ele. Destaco apenas dois tópicos, para encerrar a nossa reflexão: Ó Virgem Imaculada, Mãe de Deus e Mãe dos homens, cremos, com todo o fervor de nossa fé, em vossa assunção triunfal em corpo e alma ao céu, onde sois aclamada Rainha por todos os coros dos anjos e todas as legiões dos santos, e a eles nos unimos para louvar e bendizer o Senhor, que vos exaltou sobre todas as demais criaturas, e para vos oferecer as expansões da nossa devoção e do nosso amor. Cremos que, na glória, onde reinais, revestida do sol e coroada de estrelas, sois, depois de Jesus, a alegria e o júbilo de todos os anjos e de todos os santos. E nós, desta terra onde somos peregrinos, confortados pela fé numa futura ressurreição, volvemos nossos olhos para vós, nossa vida, nossa doçura e nossa esperança”.”

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Texto publicado em http://www.franciscanos.org.br/?page_id=5507 em 20 de agosto de 2016

 

mai 15

MARIA: UMA REFLEXÃO CONSTANTE

MARIA DE NAZARÉ

A MÃE FUGITIVA –

*Por Inácio Larrañaga[1]

Certo dia, o céu falou: “Toma o menino e sua Mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te diga outra coisa” (Mt 2,13). Essas poucas palavras encheram de interroga­ções o coração de Maria.

Por que Herodes procura esse menino? Como soube do seu nascimento? Que mal lhe fez, para que o rei queira acabar com ele? Para o Egito? Por que não para a Sama- ria, a Síria ou o Líbano, onde Herodes não é rei? Como vamos ganhar a vida? Que língua vamos ter que falar? Em que templo haveremos de rezar? Até quando teremos que ficar? “Até que eu te diga outra coisa.” E os perseguidores estarão perto?

Mais uma vez abateu-se sobre a jovem Mãe o terrível silêncio de Deus, como uma nuvem sombria. Quantas ve­zes acontece isso mesmo em nossa vida! De repente, tudo parece absurdo. Nada tem sentido. Tudo parece uma fatalidade cega e sinistra. Nós mesmos sentimo-nos como joquetes no meio de um torvelinho. Deus? Se existe e se é poderoso, por que permite tudo isso? Por que se cala? Dá vontade de nos rebelarmos contra tudo, de negar tudo.

A Mãe não se rebelou; abandonou-se. A cada per­gunta respondeu com um faça-se. Uma serva não faz per­guntas. Entrega-se. Senhor meu, eu me abandono em si­lêncio em tuas mãos. Faze de mim o que quiseres, estou disposta a tudo, aceito tudo. Lutarei com unhas e dentes para defender a vida do menino e minha própria vida. Mas durante a luta, e depois, entrego em tuas mãos a sorte de minha vida. E a Mãe, em silêncio e paz, empreende a fuga para o estrangeiro.

* * *

Nesse momento, Maria está na condição de fugitiva política. A existência do menino ameaça a segurança do trono. O cetro, para defender sua segurança, ameaça a existência do menino, e este, nos braços da Mãe, tem que fugir para garantir sua existência.

Para saber qual o estado de ânimo da Mãe durante aquela fuga, precisamos ter presente a psicologia de um fugitivo político. Um fugitivo político vive de sobressalto em sobressalto. Não pode dormir duas noites seguidas num mesmo lugar. Todo desconhecido é para ele um even­tual delator. Qualquer suspeito é um policial à paisana. Vive com medo, na defensiva.

Assim viveu a pobre Mãe naqueles dias: de sobres­salto em sobressalto: aqueles que vêm vindo lá atrás, não serão da polícia de Herodes? Aqueles outros lá na frente... esses que estão aí parados... Será que poderemos dormir aqui? Que será melhor: viajar de dia ou de noite?...

A fuga da Mãe também foi feita dentro da psicologia de todo fugitivo, isto é, devagar e depressa. Devagar, que não podiam andar pelas estradas principais, onde podia estar alerta a polícia de Herodes, mas dando voltas por morros e vias secundárias, por Hebron, Bersabéia, Iduméia. E depressa, porque precisavam sair quanto antes dos limites do reino de Herodes, até passar a fronteira de El-Arish.

Ao aproximar-se do delta do Nilo, estende-se o clás­sico deserto, o “mar de areia”, onde não se acha nenhum matagal, nenhum talo de erva, nem uma pedra: só areia.

Os três fugitivos devem ter-se arrastado fatigosa- mente durante o dia sobre as areias móveis e sob o sol escaldante, passando a noite estendidos na ter­ra, contando com a pouca água e o pouco alimento que levavam consigo, isto é, o suficiente para uma semana.

Para dar conta dessa travessia, o viajante atual tem que ter passado diversas noites sem dormir e ao relento, na desolada Iduméia, e ter percebido de dia como passa por ele algum pequeno grupo de ho­mens contados, inclusive de alguma mulher com uma criança ao peito, e divisá-los taciturnos e pen­sativos, resignados à fatalidade, enquanto se afas­tam na desolação para uma ignorada meta.

Quem passou por essa experiência e teve encontros como esses naquele deserto, viu, mais do que cenas de cor local, documentos históricos à viagem dos três prófugos de Belém.

No meio dessa devastada solidão telúrica e envol­ta no silêncio mais impressionante de Deus, lá vai a Mãe fugitiva, como uma figura patética, mas com o ar de uma grande dama, humilde, abandonada nas mãos do Pai, cheia de uma doçura inquebrantável, repetindo perma­nentemente o seu amém, ao mesmo tempo que procura não ser descoberta pela polícia.

_______________________________________ [1] LARRAÑAGA, Inácio (2015). O Silêncio de Maria. São Paulo. Paulinas. pp. 75/77.

abr 09

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE IV

MARIA DE NAZARÉ

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE IV –

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

CAPÍTULO XV [1]

VIVENDO NO REINO

 “Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. (Lucas 1:52)

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo:

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.

Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia. Bem- aventurados os puros de coração, pois verão a Deus”. (Mateus 5:1-8)” 

            Quando Jesus reuniu os discípulos à sua volta e ensinou-lhes a lição que agora chamamos de as Bem-Aventuranças, estava proclamando os princípios de seu Reino para todos os tem­pos, conectando as enormes necessidades de seu povo com as abundantes bênçãos espirituais que haveriam de receber de suas mãos. Esses princípios eram revolucionários, acertando a sabe­doria do mundo bem no coração.

             Poucos anos mais tarde, depois que Jesus retornou ao Pai nos céus, foi dito desses mesmos discípulos que eles “têm causado alvoroço por todo o mundo” (Atos 17:6). Esses ho­mens eram, em sua maioria, moradores das vilas locais com pouca instrução formal. Nunca haviam sido conhecidos pela proeza acadêmica ou por habilidades em oratória. Contudo, por meio de sua mensagem, mudaram o mundo.

             O mesmo pode ser dito de Maria, a Virgem de Nazaré. Sem fanfarra e com pouquíssimas palavras, ela também trans­tornou o mundo. Os poderosos ainda são colocados para fora dos tronos pelas lições de obediência de Maria e pelo traba­lho do “fruto do [seu] ventre”, Jesus (Lucas 1:42). O Reino dos céus ainda está derrubando os reinos do mundo e fazendo de tola a sua sabedoria.

             A palavra traduzida para “reino” pode também — e quem sabe de forma mais acurada — ser traduzida como “reinado”. O reinado de Jesus Cristo traz consolo para os que choram, herança para os mansos, satisfação aos espiritualmente famintos e sedentos, misericórdia aos misericordiosos e a mais rica de todas as bênçãos para os pobres em espírito. O reinado de Cristo eleva os desamparados e derruba aqueles que se apoiam nos poderes mundanos. A medida que contemplamos essas coisas, chegamos à conclusão de que humildade é amabilidade para o Senhor.

             Maria compreendeu essa verdade. E também compreendeu a primazia do ser sobre o fazer. Sua vida foi em primeiro lugar, sempre e até o fim, focada num relacionamento com Deus. Ela não é lembrada por uma infinitude de atividades ou por grandes realizações. Foi a sua humildade, seu afeto abnegado pelo Senhor, que a fez ser tão querida por ele. Ela não tinha nenhum trono a reivindicar, nem um território a proteger. Ela só reconhecia um trono e um reino — aquele pertencente ao Deus que a chamara, que a redimira e que se revelou por meio dela. Ela amava o Rei dos reis e compreendia que seu Reino é divulgado através daqueles que seguem o caminho da mansidão, da pobreza no espírito e da humildade. E no poder de Deus que nos apoiamos e não no nosso próprio.

             Algumas vezes, somos tentados a pensar que nossos esforços de fato ajudam a expandir o Reino. Isso não é verdade. Somos apenas convidados a participar à medida que Jesus prossegue em sua missão redentora. Ele nos convida a aderirmos a sua obra, no entanto não necessita de ajuda. Ele apenas pede que nos esvaziemos de nós mesmos de modo a sermos preenchidos com a graça que flui dele. Essa graça nos transforma, e àqueles à nossa volta, à medida que cooperamos com ele.

             Maria é um exemplo desse tipo de amor que se auto esvazia. Como já vimos antes, esse derramar-se de si próprio é revelado de modo perfeito em Jesus Cristo, que se esvaziou de si mesmo e assumiu a forma de servo (Filipenses 2:7). Ainda somos chamados a viver desse mesmo modo. A vida do Reino, na verdade, não tem nada a ver conosco, mas tem tudo a ver com ele. Precisamos deixar nossos tronos terrenos e nos tornar humildes. Precisamos renunciar a nossas áreas de controle, desistirmos dos direitos pessoais, e nos tornarmos peregrinos que anseiam por “uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial” (Hebreus 11:16).

             Esse ato de derrubar os poderosos e exaltar os humildes se põe diretamente contra a idolatria do poder, do controle e da influência que permeou nossa cultura contemporânea e infelizmente contaminou algumas expressões religiosas de nosso tempo. O exemplo de Maria não se conforma com o espírito de nossa era, viciado no poder humano. Hoje, até mesmo a religião cristã pode tornar-se uma forma de auto exaltação disfarçada de devoção piedosa.

             Na noite passada, liguei a televisão porque não conseguia dormir. Eu estava refletindo sobre alguns eventos recentes e tentava compreender de algum modo a enfermidade de um amigo. Enquanto ouvia algumas das engenhosas ideias cristãs a respeito de saúde, riqueza e aparente felicidade que estavam sendo transmitidas, meus pensamentos se voltaram para Maria, para o ministério de Jesus e à maneira de Deus de transformar as fraquezas humanas em sua força. Não podemos ser salvos por nosso próprio poder; somente por sua misericórdia.

             Durante a enfermidade de meu amigo, ouvi cristãos sinceros de várias tradições insistirem em que sua doença era devida a algum tipo de ataque demoníaco. Eles estavam convencidos de que, de algum modo, o Diabo tentava impedir um talentoso e jovem líder de realizar seu importante trabalho. Entretanto, toda vez que alguém à minha volta via o Diabo, eu via a cruz. Toda a vez que alguém “reivindicava autoridade”, eu me sentia inclinado a clamar por misericórdia. O refrão do Salmo 136 preenchia minhas noites e meus dias, enquanto eu, como tantos outros, per­manecia em vigília. “A sua misericórdia dura para sempre”, eu exclamava em meu coração (Salmos 136:1).

____________________________________________________________ [1] FOURNIER, Keith – A ORAÇÃO DE MARIA. Rio de Janeiro. Thomas Nélson Brasil: 2007. 212 páginas.

mar 05

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE III

O SIM DE MARIA

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE III –

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

 

CAPÍTULO XIV [1]

MANTENDO AS RAÍZES NA REALIDADE

 “O orgulho leva a todos os demais vícios, ele é o completo estado da mente anti Deus.” C. S. Lewis

             O orgulho humano, que se opõe à humildade divina, tradicio­nalmente é chamado de o pecado do qual todos os demais se originam. O orgulho é algo a que nos referimos como presun­ção. O coração humano é o lugar sagrado onde Deus quer ha­bitar. O orgulho é o ladrão que vem para roubar essa habitação. A presunção é a fraude que substitui o eu, e a adoração do eu pela adoração pura e amor verdadeiro a Deus. O orgulho nasce de um coração que não se rendeu completamente. Ele destrói a unidade do eu tanto quanto Babel destruiu a unidade entre as nações. Na tradição cristã dos sete pecados capitais, o orgulho é o mais mortal de todos.

             Algumas formas de espiritualidade cristã são ilegítimas porque, em certo sentido, batizam o orgulho justificando-o com uma sólida base religiosa. O orgulho do legalismo, o orgulho da justiça própria, o orgulho da auto exaltação e o orgulho da aparência externa conduzem ao erro dos fariseus. A arrogância deles era uma ofensa a Jesus. O mesmo erro é repetido entre os ultra zelosos de cada tempo.

           Contrastando de modo profundo com o orgulho e a arrogância humana está a Virgem de Nazaré. Depois da Anunciação, quando o anjo a convidou para ser o vaso escolhido de Deus para a encarnação do Filho, seu plano para a redenção do mundo, Maria poderia muito bem ter sentido uma onda de vaidade. Poderia ter decidido deixar que os amigos, parentes e conterrâneos soubessem um ou outro detalhe acerca de seu novo papel como favorita de Deus. Desnecessário dizer que ela não o fez. Ao contrário, seu cântico de louvor a Deus — o Magnificat — apresentou um retrato de sua inegável humildade. Maria é lembrada pelo espírito humilde. E isso, como já vimos, não se baseia na falta de autoestima, mas, antes, na clara e reverente perspectiva de quem Deus é.

             O orgulho é o inimigo do amor. C. S. Lewis escreveu: “Segundo professores cristãos, o vicio elementar, o supremo mal, é o orgulho. A lascívia, a ira, a ganância, a bebedeira e tudo o mais são apenas ninharias quando comparadas; foi pelo orgulho que o Diabo se tornou o Diabo; o orgulho leva a todos os demais vícios; ele é o completo estado da mente anti Deus.” Uma mente orgulhosa não permanece e na verdade não pode permanecer neutra. Quem está cheio de orgulho começa a se colocar no lugar de Deus, fazendo do orgulho um portão de acesso à idolatria. O catecismo católico ensina: “O ódio a Deus advém do orgulho. Ele é contrário ao amor de Deus, cuja bondade nega, e a quem ele ousa amaldiçoar como sendo aquele que proíbe o pecado e inflige o castigo.”

             A cristandade oriental, ortodoxa e católica, fala do temor a Deus como sendo o único antídoto para o orgulho. “Uma celebração para o homem espiritual”, escreve Santo Efrém, o Sírio, “é a observância dos mandamentos divinos e sua confortável abstinência do mal. Seu orgulho é o temor a Deus, sua verdadeira alegria é o dia em que o Rei Celestial o chama para herdar as riquezas eternas.” Esse trecho dos Padres do deserto nos ensina que uma vida de humildade diante de Deus é o chamado para todo homem e toda mulher.

            De onde vem o orgulho? Suas raízes estão na imaginação. Como outros pecados, nossos erros começam com pensamentos errados. O mal é concebido nos pensamentos, em que tramamos contra os outros, prevendo cenas que os rebaixem ou humilhem de modo a nos exaltar. Como são frequentes as incursões aos centros de fantasia da autoglorificação! Ansiamos por ser admirados, aplaudidos e aclamados. Produzimos cenários em que somos o centro das atenções. Maria, porém, nos avisa que os orgulhosos de mente e coração serão dispersos.

 “Como nos vemos quando sonhamos acordados? Não é que deixemos Deus fora de nossa mente por completo. Podemos é pensar que ele esteja entoando nossos louvores em conjunto com todos os outros”

             Quem pensamos ser? Que tipo de glória específica nos instiga totalmente e nos enche de desejo, que alimenta a presunção e o orgulho? Será que queremos ser heróis, inteligentes, belos, famosos, fortes, sedutores, eloquentes, ricos ou poderosos? Como nos vemos quando sonhamos acordados? Não é que deixemos Deus fora de nossa mente por completo. Podemos é pensar que ele esteja entoando nossos louvores em conjunto com todos os outros.

             O apóstolo Paulo escreveu duas cartas aos cristãos de Corinto. De maneira similar a seus contemporâneos do Ocidente, os coríntios estavam cheios de orgulho por suas próprias realizações. Tinham uma cidade bem-sucedida, uma cidade que eles acreditavam ter atingido as alturas da criatividade e da realização humana. Ele instruiu os cristãos da antiga Corinto a resistirem ao pecado do orgulho:

 Pois está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes”. Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que creem por meio da loucura da pregação. [...] Porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem. (1 Coríntios 1:19-21,25)

             A pregação dos primeiros apóstolos sintetiza essa realidade. Como poderiam onze homens sem estudo, nascidos e criados num canto remoto do mundo antigo, surgir com o conceito radical de uma fé capaz de transformar toda uma vida, na qual Deus morre por amor? Até o início do ministério de Jesus, esses homens provavelmente não haviam sequer estado numa cidade ou numa praça pública. Como poderiam pensar em arquitetar a mudança do curso da história mundial pela transformação de cada coração humano?

             De início, os discípulos eram temerosos e tímidos. Quando Cristo foi preso, todos eles fugiram, apesar das palavras profundas que ouviram, dos milagres que viram e da presença contínua daquele com quem compartilharam a vida durante três anos. Para piorar a situação, Pedro, o líder deles mais proeminente depois do próprio Jesus, na realidade negou até o fato de ter chegado a conhecer Jesus de Nazaré. A verdade é que os caminhos de Deus deixam os caminhos do mundo transtornados. Os discípulos jamais poderiam pensar em si mesmos como sendo eloquentes o bastante — através do poder do Espírito Santo — para pregar a mensagem de Cristo em grandes e sofisticados centros metropolitanos, como Atenas, Éfeso e Roma. Quando a situação ficou difícil, eles só conseguiam visualizar o retorno à carreira de pescadores. Como poderiam chegar a se ver enfrentando com coragem mortes violentas e brutais por amor a Jesus? Ao fim do primeiro século, todos eles, à exceção de João, o apóstolo amado, haviam vivido sacrificialmente e morrido como mártires pela causa do evangelho. Quem poderia ter imaginado uma coisa dessas?

             Maria, que trabalhara lado a lado com esses primeiros discípulos, não se deixara enganar pensando que de algum modo se transformara numa pessoa importante e significativa. Ela sabia quem era porque sabia quem era Deus. Desde o princípio ela se esvaziara de si mesma. Ela era humilde. Estava embasada na realidade, pois não se pode ser mais real do que o próprio Jesus. O mundo fora criado através dele e o cosmos está fundamentado nele. Ele é a Palavra que se fez carne e que habitou entre nós (João 1:1 -4).

             Maria conhecia essa Palavra pelo nome. Ela levara a Palavra que se fez carne dentro dela, junto a seu coração, por nove meses. Ela deu à luz num estábulo, onde Jesus humildemente entrou num mundo atolado em orgulho. Ele passou seus últimos três anos sem casa, sem ter “onde repousar a cabeça” (Lucas 9:58) e continuamente enfrentava rejeição e ameaças. No fim enfrentou a cruz. Ao fazer isso, ele dispersou os soberbos e exaltou os humildes.

             Aquela cruz ainda é o lugar onde os seguidores de Cristo são reunidos, humildes e agradecidos por ficarem junto a ele, e são feitos novas criaturas pelo sangue e pela água que fluíram de seu lado ferido. Lá, nos reunimos a Maria, ao discípulo amado, João, e à família ampliada do Senhor. Ele nos convida todos a irmos até ele, pois ele é manso e humilde de coração. Nele encontraremos alívio para os anseios por significado e importância. Encontramos a restauração para a imaginação adoecida pelo pecado. Encontramos descanso para a alma.

 Um irmão ortodoxo escreveu:

 “Onde tu habitas, ó humilde alma; e quem vive em ti; a que te compararei?

 Tu queimas tão brilhante quanto o sol, sem, porém, se consumir; com teu calor aqueces a todos.

 A ti pertence a terra do manso, segundo a palavra do Senhor.

 Tu és como o adentrar num jardim florido, em cujo coração há uma morada esplêndida, onde o Senhor gosta de estar.

 A ti amam os céus e a terra.

 A ti os santos apóstolos, profetas, hierarcas e veneráveis amam.

 A ti os anjos, serafins e querubins amam. [...]

 A ti o Senhor ama e em ti se regozija.”

(O venerável Starets Siluan de Monte Atos)

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 [1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.

 

fev 13

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE II

Maria, Mãe de Deus

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE II –

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

CAPÍTULO XII [1]

VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA

(CONTINUAÇÃO) 

“Esse tipo de deus é imaginado de forma diversa como alguém que satisfaz a todos os desejos, um mordomo cósmico, ou outra força bondosa cuja função principal é fazer com que os sonhos de todo mundo, por mais desvairados que sejam, se realizem. Essas formas de conceber o Deus verdadeiro são tanto falsas quanto idólatras” 

            E verdade que Deus é todo-poderoso e que sua justiça pode ser experimentada como uma terrível espada afiada. O juízo divino é tremendo sobre aqueles que rejeitam seu convite mise­ricordioso. Porém, nas palavras do discípulo amado, João, Deus é amor (1 João 4:8). “No amor não há medo; ao contrário o perfei­to amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1 João 4:1 8). 

            Infelizmente, alguns cristãos não compreendem essa distinção entre “temer o Senhor” e o medo humano. Em função disso, eles tendem a ir ao extremo oposto. C. S. Lewis descre­veu de maneira um tanto enérgica as pessoas que têm uma pers­pectiva de Deus como uma espécie de “vovozão”. Ele descreve: “uma benevolência senil, que, como eles mesmos dizem, ‘gosta de ver os jovens se divertindo’ e cujo plano para o Universo é, simplesmente, que se possa dizer com toda a sinceridade ao fim de cada dia: ‘todos se divertiram.”’ (0 problema do sofrimento, ca­pítulo 3.) Esse tipo de deus é imaginado de forma diversa como alguém que satisfaz a todos os desejos, um mordomo cósmico, ou outra força bondosa cuja função principal é fazer com que os sonhos de todo mundo, por mais desvairados que sejam, se realizem. Essas formas de conceber o Deus verdadeiro são tan­to falsas quanto idólatras.

            O temor do Senhor que somos chamados a abraçar — o temor que nos torna receptivos para receber, perceber e então agir com misericórdia — é uma reverência repleta de admiração por quem Deus é de fato. E uma consciência viva quanto ao po­der de Deus e um reconhecimento completamente honesto de nossas fraquezas; de sua pureza e de nossa natureza ferida e cheia de falhas; de sua sabedoria e de nossa insensatez. Um provérbio muito conhecido afirma: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Nas palavras de Maria, encontra­mos uma verdade ainda mais profunda: que o temor do Senhor também é o princípio da misericórdia. Quando tememos a Deus e recebemos com alegria seu Filho em nossa vida, ele estende sua misericórdia até nós na forma de um relacionamento trans­formador, redentor e frutífero. Experimentamos a misericórdia, mas, além disso, também nos tornamos misericordiosos, levando sua mensagem de amor a toda a humanidade. 

            Todos os seguidores de Jesus são convidados a ser men­sageiros e espelhos de misericórdia. Somos chamados a amar uns aos outros como ele nos amou — com um amor que é, por natureza, rico em misericórdia. Ele nos ensinou a não julgar­mos uns aos outros, e essa é uma forma de exercermos miseri­córdia. Ele nos deu o exemplo e nos instruiu a oferecer a outra face, a andar mais uma milha e a entregar o casaco que estamos vestindo. Todas essas são expressões de misericórdia. 

            Vemos essa misericórdia refletida na vida de Maria. Como mãe, é óbvio, ela amava Jesus com toda a ternura com que as mães amam seus filhos. Nos últimos anos da vida de Jesus, com a intensificação de seu ministério, a fiel presença de Maria foi uma profunda expressão tanto do temor a Deus como da misericórdia, que é a mais perfeita forma do amor leal.

            Em Caná, no contexto de um casamento, símbolo do amor de Cristo por sua noiva, a Igreja (ver Efésios 5), Maria atraiu a atenção de todos para seu Filho, enquanto ele de­monstrava a misericórdia de Deus no primeiro de seus muitos sinais do Reino. Ela demonstrou misericórdia em sua preocu­pação para com os convidados do casamento; e demonstrou uma misericórdia ainda maior a todos que viessem a necessi­tar da ajuda de seu Filho, ao declarar: “Façam tudo o que ele lhes mandar” (João 2:5). 

            Maria se preocupava com o bem-estar de Jesus não ape­nas em termos espirituais, como também nos sentidos físico e emocional. Em mais de uma ocasião, ela se dirigiu aos lugares onde ele ministrava, perguntando a seu respeito e expressando uma preocupação materna por ele. E que mensagem maior de misericórdia Jesus poderia ter recebido do que olhar para bai­xo, da cruz onde estava, e ver a sua mãe parada lá, chorando, observando-o e o amando? Naquele momento, ao menos por um breve instante, parecia que até o Pai o havia rejeitado.

              Na gestação ou quando deu à luz, em sua participação na vida, morte e ressurreição de seu Filho, que foi e continua sendo o Filho do Deus vivo, Maria foi escolhida, preparada, e privilegiada para desempenhar um papel singular na suprema manifestação de misericórdia a um mundo em expectativa. 

“E que mensagem maior de misericórdia Jesus poderia ter recebido do que olhar para baixo, da cruz onde estava, e ver a sua mãe parada lá, chorando, observando-o e o amando?” 

            Hoje, à luz da misericórdia divina para conosco, somos convidados a demonstrar misericórdia uns aos outros. Fomos perdoados e, portanto, devemos perdoar. Fomos curados e, portanto, devemos estender nossas mãos para curar um mundo ferido. Tivemos nossas necessidades reais atendidas, portanto devemos ser o veículo para outros que passam por necessidade. Assim como Maria, fomos abençoados além da medida, além da expectativa, além do que poderíamos pedir ou mesmo pensar em pedir. Essas bênçãos são totalmente nossas por causa apenas da misericórdia de Deus. Jesus declarou: “Vocês receberam de graça; deem também de graça” (Mateus 10:8).

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 [1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.

 

jan 16

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE I

MARIA - MÃE DO SENHOR

MARIA: VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA – PARTE I –

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

CAPÍTULO XII [1]

VIVENDO SOB A MISERICÓRDIA DIVINA

“A misericórdia nos leva a uma cruz sobre o monte Gólgota e é disseminada poderosamente a partir de um sepulcro vazio.”

                A misericórdia de Deus está no coração da fé cristã. A misericórdia forma uma ponte entre a justiça e o amor. A misericórdia se situa no âmago da revelação de Deus acerca dele mesmo através de Cristo Jesus.

            No Antigo Testamento, duas palavras hebraicas, hesed e rahamin, eram usadas de forma predominante para expressar a misericórdia divina. Hesed tem a conotação de uma atitude de profunda e amorosa bondade que, quando existente entre pes­soas, é revelada numa relação de fidelidade estável e profunda. Significa, também, graça e amor. Hesed tem uma conotação mas­culina de se assumir a responsabilidade pelas obrigações e pelos objetivos do amor de alguém. Deus sempre agiu com hesed para com Israel, mesmo quando ela lhe foi infiel.

            O segundo termo, rahamin, descreve o amor de uma mãe (rehem é o útero materno), aquele amor gratuito para com uma criança, intuitivo e que inclui uma gama de emoções: bon­dade, paciência, compreensão, prontidão para perdoar e espe­rança. Essas duas expressões do hebraico, dentre muitas outras, ajudam-nos a compreender alguns aspectos da multifacetada misericórdia de Deus.

            A misericórdia tem um nome: Jesus, aquele que sal­vará todo o povo de Deus do pecado. O amor misericordioso de Deus, conforme expressado através de Jesus Cristo, é mais poderoso que a morte, mais poderoso que o pecado e mais po­deroso que a separação entre o homem e Deus ocasionada pelo pecado. O amor misericordioso de Deus conquistaria tudo isso, uma vez que a obra de Cristo estivesse completa. O fim de sua obra se tornaria um novo começo para todos nós, em função da misericórdia divina. Do tabernáculo físico de Maria, o Filho Unigênito de Deus nasceu, revelando assim o significado supre­mo da misericórdia: tornar-se homem.

            Nas Escrituras hebraicas, Deus manifestou hesed, ou amor misericordioso, em sua fidelidade para com o povo es­colhido, os judeus. Através de Jesus, ele manifestou sua mise­ricórdia a todas as nações. O apóstolo Paulo relembra a fidelida­de de Deus para com seu povo na carta aos cristãos de Roma. A incansável busca de Deus por Israel prosseguiu pelo Novo Testamento, mas, no hm das contas, estendeu-se ao mundo in­teiro (Romanos 9:15-16,23; 11:31-32; 15:9).

            Por toda a Escritura, as pessoas são descritas como sendo, sem nenhum merecimento, recipientes do amor misericordioso de Deus. Pedro proclamou na primeira epístola aos cristãos dis­persos: “Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a recebe­ram” (1 Pedro 2:10). O Novo Testamento inteiro corrobora essa posição de um mesmo caminho de justiça e amor. A misericórdia nos leva a uma cruz sobre o monte Gólgota e é disseminada po­derosamente a partir de um sepulcro vazio.

            O Evangelho, as “boas-novas”, é tanto uma mensagem quanto uma missão de misericórdia. A palavra misericórdia é utilizada de maneira farta para descrever a própria natureza e também a obra de Deus. É também um caminho pelo qual os seguidores de Jesus são chamados a andar. Na Carta Magna da vida cristã, o grande Sermão da Montanha proferido por Jesus, somos chamados a viver de forma misericordiosa. Jesus prometeu: “Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia” (Mateus 5:7).

            Na tradição das igrejas católica e ortodoxa, Maria é chamada de mãe de misericórdia. Em sua vida, e na vida de to­dos que demonstram misericórdia para com os outros, Cristo é revelado como um bálsamo, a fonte de cura de toda a miséria humana. Fora de uma relação de amor com Deus, as pessoas vivem uma condição miserável, à sombra do sofrimento, do medo, da perda, da rejeição e por fim da morte. No entanto, Deus veio ao encontro da nossa miséria. Nos braços abertos do amado Filho, ele estende sua misericórdia ao mundo, num abraço de amor que nos redime. Por causa de Jesus, em Jesus e através de Jesus, a justiça e a verdade agora se encontram.

            Maria afirmou: “A sua misericórdia estende-se aos que o temem.” Deus estendeu um convite especial no qual, quando respondemos, sua misericórdia também nos é estendida. Entre­tanto, há uma decisão a ser tomada que está embutida nas palavras de Maria. A misericórdia divina é para mulheres e homens que vivem no temor do Senhor. O que isso significa de fato?

            No grego, phobos é a palavra traduzida por “temor” ou “reverência” por Deus. Tal temor tem o propósito de nos levar a amar a Deus de um modo prático, amor esse que nos conduz a uma mudança na forma de viver em relação aos outros. Quando conhecemos a Deus, nosso temor por ele não tem nada a ver com pavor. A mensagem trazida pelo anjo até Maria foi: “Não tenha medo!.” Somos convidados a viver em profunda reverência a Deus, e não com nossos medos humanos.

 

* * *

CONTINUA EM BREVE

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 [1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.

 

   

dez 12

A VERDADEIRA NATUREZA DE DEUS – PARTE II

MARIA - MÃE DO SENHOR

MARIA: IMAGEM DE DEUS – PARTE II - 

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

                        Não temos por objetivo transcrever todo o conteúdo do Livro de Keith Fournier, aqui, neste simples espaço de publicações quinzenais, mas, apenas o suficiente para divulgar o que a intelectualidade estrangeira pensa e escreve sobre a Mãe de Deus. Por esta razão, hoje, estamos publicando o Capítulo XI, por meio do qual Maria assume plenamente o papel de coautora da salvação.

CAPÍTULO XI [1]

CONTINUAÇÃO

RECONHECENDO A VERDADEIRA NATUREZA DE DEUS

“0 Filho de Deus, diante de quem um dia todas as nações iriam ficar de joelhos, dobrou seus joelhos humanos diante daqueles que escolhera como seus embaixadores.” 

            No mesmo evangelho, lemos a continuação dessa história de amor. Depois de Jesus ter lavado os pés de seus discípulos, deu início à importante refeição eucarística, doando-se a si próprio como comida e bebida a todos que o seguissem em direção ao Pai. Ele explicou que o pão e o vinho abençoados eram, na realidade, seu corpo partido e seu sangue vertido. Ele os convidou a trazer todo mundo para se juntar à celebração. O grande convite — um trabalho missionário que só terminará quando ele retornar — prossegue ainda hoje, através da missão da Igreja de nossos dias.

            Por fim, o Santo tomou a cruz e subiu ao monte Gólgota. Ele tomou para si, de modo voluntário, o castigo e o escárnio, a agonia e o abandono, em favor de um mundo que estava literal­mente morrendo por falta de amor verdadeiro e de santidade. Foi por nós — por você, por mim e por toda a humanidade que Jesus cruzou a Via Dolorosa, a via do sofrimento. Cada gota de sangue e de água saída de seu lado ferido escorreu por você e por mim. Na suprema consumação de sua missão redentora, aquele que não conheceu o pecado se fez pecado de forma a desfazer o poder do pecado sobre nós, para que nele pudésse­mos nos tornar a própria justiça de Deus (2 Coríntios 5:21). Ele pagou a conta da justiça eterna. Ele derrotou Satanás e o inimigo final, a morte. Ele deu início a uma nova criação.

            Todo dia, por causa do que ele fez por nós, podemos escolher recomeçar. Podemos fazer com que esse mistério seja o nosso mistério. Não sendo apenas meros expectadores da pai­xão de Cristo, nós, os que levamos o nome de cristãos, somos convidados a nos tornar participantes. Somos chamados a apa­nhar a bacia e a toalha e a servir os outros. A oferecer comida e bebida aos que têm fome e sede, a pegar a nossa cruz e seguir nosso Senhor numa vida de santidade e de amor, baseada na humildade. E ainda há mais. Não somente somos chamados a viver no sofrimento e no sacrifício da cruz, como também a receber dentro de nós mesmos o poder que ressuscitou Jesus dentre os mortos — poder esse que tem a faculdade de nos transformar na imagem do Deus santo.

            Nossa fé e nosso amor devem ser ativos, dando frutos à medida que seguimos as pegadas do Deus que lava os pés. Somos convidados a entregar nossa vida, de modo a podermos descobrir a nova vida — e o nosso novo nome — nele. A me­dida que permitimos que seu poder nos transforme de dentro para fora, vamos sendo santificados, separados para satisfazer a vontade de Deus, enquanto o Filho vive sua vida através de nós. “Santo é o seu nome”, entoou Maria. E por sua graça somos chamados por esse nome.

            A Virgem Maria é tida por obediente ao dizer: “Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra”.

             Mas Eva foi desobediente; pois não obedeceu [...]. Assim como Eva foi seduzida pelo discurso de um anjo para evi­tar Deus, tendo transgredido a sua palavra, assim também Maria recebeu as boas-novas por meio da fala de um anjo, de modo a levar Deus dentro dela, sendo obediente à sua palavra. E embora uma tenha desobedecido a Deus, a ou­tra foi levada a obedecer a Deus, para que da virgem Eva a Virgem Maria pudesse se tornar defensora. E assim como por uma virgem a raça humana ficou escrava da morte, por uma virgem é salva, preservando-se o equilíbrio da desobediência de uma virgem pela obediência de outra.

* * *

CONTINUA EM BREVE

____________________________ [1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.      

nov 28

A VERDADEIRA NATUREZA DE DEUS

MARIA - MÃE DO SENHOR

MARIA: IMAGEM DE DEUS –

                                Estamos prosseguindo com a narrativa de Keith Fournier, um americano que, além de advogado na área dos direitos humanos é, também, teólogo e filósofo, graduado pela Universidade Franciscana de Steunbenville, de Ohio, e que publicou em 2007, pela Thomas Nelson Brasil, o livro intitulado “A Oração de Maria”, por meio do qual ele explora os caminhos percorridos por Maria desde o Fiat até o Pentecostes, trazendo para nós uma visão apaixonante de Maria. Uma visão que certamente vai ampliar nossa devoção ou, em última análise, fará de nós verdadeiros devotos.

                        Não temos por objetivo transcrever todo o conteúdo do Livro de Keith Fournier, aqui, neste simples espaço de publicações quinzenais, mas, apenas o suficiente para divulgar o que a intelectualidade estrangeira pensa e escreve sobre a Mãe de Deus. Por esta razão, hoje, estamos publicando o Capítulo XI, por meio do qual Maria assume plenamente o papel de coautora da salvação.

CAPÍTULO XI [1]

RECONHECENDO A VERDADEIRA NATUREZA DE DEUS

“0 Filho de Deus, diante de quem um dia todas as nações iriam ficar de joelhos, dobrou seus joelhos humanos diante daqueles que escolhera como seus embaixadores.”

            “O que Maria quis dizer ao cantar “Santo é o seu nome”? Por que ela diria que o nome de Deus é santo? Na perspectiva bíblica, o nome de uma pessoa é mais do que uma forma de identificação. No mundo antigo, o nome revelava a natureza de uma pessoa. Muitas vezes, na Bíblia, encontramos Deus modificando os nomes das pessoas — Abrão para Abraão, Sarai para Sara, Jacó para Israel, Simão para Pedro —, depois que elas respondiam a seu convite e se deparavam com sua graça. A mudança refletia tanto o novo relacionamento em que entravam com ele quanto o papel individual que assumiam em seu plano já em andamento para a redenção de homens e mulheres. Quando Deus mudava o nome de alguém, estava assinalando uma mudança interior, uma transformação no estilo de vida daquela pessoa.

            De modo semelhante, cada um de nós recebeu a promessa de um dia ganhar um novo nome, nome esse que nos identificará como um membro da família de Deus. “Ao vencedor”, podemos ler, “darei do maná escondido. Também lhe darei uma pedra branca com um novo nome nela inscrito, conhecido apenas por aquele que o recebe” (Apocalipse 2:17). Só seremos totalmente perfeitos, ou completos, quando entrarmos na plenitude daquela comunhão em Cristo. Só então nos tornaremos as criaturas únicas que Deus planejou que fôssemos.

            Quando Maria entoou “Santo é o seu nome”, ela compreendia que Deus é santo e que ele quer que todos os seus filhos e filhas sejam santos. Deus enviou seu Filho Jesus ao mundo, para possibilitar que tivéssemos um relacionamento íntimo com ele. Através desse dinâmico relacionamento de amor, ele vai nos transformando nas mulheres e nos homens santos que deseja nos tornar. Jesus declarou: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mateus 5:8).

            Na humanidade sagrada de Cristo, vemos o Deus eterno. Também já vimos, moldado por ele, o modo como somos cha­mados a viver aqui e agora. O nome de Deus fala de sua natureza; ele é um Deus santo, e seu nome revela e comunica essa santida­de. Ao também nos chamar para a santidade, ele torna possível que cresçamos em pureza de coração através de sua graça.

            Como vimos, a santidade não pode ser falsificada ou fin­gida. Não tem nada a ver com a expressão facial, com a forma de olhar ou com um vocabulário repleto de palavras piedosas. Não tem nada a ver com imitar o melhor ou mesmo ser o me­lhor. A santidade requer que mantenhamos um relacionamento com a fonte de toda a santidade, ou seja, com o próprio Deus. Deus é tão santo que, sob as leis da antiga aliança, seu nome não podia nem ao menos ser pronunciado. Hoje, porém, por causa do que Jesus Cristo fez por nós na cruz, somos convidados a chamar esse Deus perfeitamente santo de Aba, que é uma pala­vra afetuosa para “Pai”.

            A santidade vista no sentido de consagração — de ser se­parado para Deus — não é tanto algo para se fazer, mas um con­vite para um novo estilo de vida. Santidade significa que somos feitos “naturalmente sobrenaturais” através da conversão, a qual o apóstolo Paulo explicou aos cristãos de Corinto: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5:17).

            A santidade que Paulo descreve não é um evento está­tico, mas um processo dinâmico, um modo de vivermos a nova vida em Cristo. Esse novo modo de vida é o do amor. Quando declaramos com Maria “Santo é o seu nome”, o ponto de refe­rência, e a fonte da graça que nos faz sermos novos, é o próprio Deus. E Deus é amor.

            O apóstolo João escreveu:

Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. (1 João 4:7-9)

Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. (1 João 4:11-12)

Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nos, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. (1 João 4:16h-l 7)

            A santidade de Deus é revelada na própria natureza de seu amor. Ele se esvaziou por nós. O Deus que formou todo o Universo, que habita em luz inacessível, veio ao mundo e habi­tou entre as criaturas que formou. Ele se fez vulnerável, e o fez por nós. “Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós te­nhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos ou­tros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós” (1 João 4:9-12).

            Talvez o mais pungente retrato desse amor também te­nha sido registrado pelo discípulo amado de Jesus, João, em seu evangelho. Antes de Jesus compartilhar uma última refei­ção com seus amigos mais íntimos, antes que estendesse seus braços a fim de abarcar o mundo inteiro e unir o céu à terra, ele se cingiu com uma toalha e lavou os pés dos discípulos. O Filho de Deus, diante de quem um dia todas as nações iriam ficar de joelhos, dobrou seus joelhos humanos diante daqueles que escolhera como seus embaixadores. Deus, encarnado em Jesus Cristo, apanhou uma bacia e uma toalha (João 13:1-11). Nesse lindo encontro, observamos o amor divino servindo, derramando a si mesmo como a água na bacia, a fim de limpar todos os que foram maculados pelo pecado.”

 

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CONTINUA EM BREVE

_______________________________________ [1] Fournier, Keith e GILBERT, Lela. A ORAÇÃO DE MARIA – Aprenda a orar com a mãe de Jesus e descubra a melhor forma de falar com Deus. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil: 2007. 216 páginas.

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