Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

jul 16

O SEMEADOR E AS SEMENTES

LUDOVICO GARMUS

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O SEMEADOR SAIU PARA SEMEAR –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 55,10-11

A chuva faz a terra germinar.

Os profetas no AT falam em nome de Deus ao povo de Israel. Aos poucos começam a refletir sobre o efeito, positivo ou negativo, que esta Palavra produz entre o povo. No livro de Isaías (40–55) temos uma reflexão sobre a palavra de Deus criadora, na criação dos astros, terra, céus e mar (40,26; 48,13; 50,2). E na obra da salvação (42,9; 46,10; 48,5). No texto de hoje (55,10-11) temos um exemplo desta teologia. O texto quer mostrar a eficácia da Palavra de Deus. Em Israel, quando, após seis meses de seca, a chuva novamente cai na terra ressequida produz um efeito espetacular de vida. Assim diz o profeta, acontece com a Palavra que Deus envia do céu. Quando absorvida por corações sedentos de Deus, a Palavra sempre produz seu fruto. Deus tem um plano: executar a obra da salvação de seu povo, sofrido e desanimado (Is 40,6-7.27-31), e nada poderá impedi-lo de realizar seu plano de salvação. A Palavra de Deus é sempre eficaz. Se nós a acolhemos, produz nossa salvação; se a rejeitamos, causa a perdição. “Escolhe, pois, a vida para que vivas” (Dt 30,19). – A Palavra de Deus é viva e atuante em minha vida?

SALMO RESPONSORIAL: Sl 64 (65)

A semente caiu em terra boa e deu fruto.

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 8,18-23

A criação está esperando ansiosamente

o momento de se revelarem os filhos de Deus.

A Palavra de Deus está sendo semeada no terreno dos filhos e filhas de Deus, que vivem em meio aos “sofrimentos do tempo presente”. Não é sufocando a natureza e a criação pelo consumismo e pelo mito da revolução tecnológica que o ser humano se realiza. O cristão, movido pelo Espírito Santo, está todo voltado para frente, para o futuro. Vive a fé e o amor, mas é movido pela esperança. Não só o ser humano tem esta esperança, mas toda a criação é solidária e espera ser libertada da escravidão e assim “participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Paulo diz que nós já temos os primeiros frutos do Espírito; mas estamos gemendo como que em dores de parto, aguardando a nova criação, que vai desabrochar plenamente da semente da Palavra de Deus. Ela atua dentro de nós, pela força do Espírito.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Semente é de Deus a Palavra, o Cristo o semeador;

Todo aquele que o encontra, vida eterna encontrou.

3. EVANGELHO: Mt 13,1-23 (ou 13,1-9)

O semeador saiu para semear.

A parábola do semeador se divide em três partes: 13,1-9: a parábola como tal; 13,10-17: para que servem as parábolas; 13,18-23: a explicação da parábola. Percebe-se uma expansão desta parábola original de Jesus (13,1-9). A parte central da parábola parece ser uma reflexão sobre a razão da incredulidade de Israel; a explicação é uma “aplicação” da parábola para a vida da primeira Igreja, que tinha a missão de anunciar a palavra de Jesus. Na primeira parte Jesus fala à multidão e pinta a realidade da experiência da vida de um trabalhador, que semeia a sua semente na esperança de colher o devido fruto. E conclui: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” – Jesus se apresenta como o semeador escatológico e constata que nem toda a palavra que ele ensina produz fruto, mas quando encontra terra boa, o fruto é abundante (cf. Is 55,10-11). Esta parte representa um espelho da experiência positiva e negativa de Jesus, semeador da Palavra. A pergunta dos apóstolos aprofunda e atualiza o sentido da parábola. A segunda parte reflete o mistério da rejeição de Israel à mensagem de Jesus (13,10-17); a terceira parte reflete o efeito na vida dos que crêem (v. 18-23). Uma coisa é certa: a Palavra de Deus não tem a finalidade de trazer o fechamento (a incredulidade), mas trazer a abertura (terra boa) do coração, que resulta em abundantes frutos. É como a chuva que cai, umedece a terra a não volta ao céu sem produzir seu fruto (Is 55,10-11). A Palavra de Deus, escutada, lida e meditada, está produzindo os frutos que Cristo espera de mim?

_____________________________________
*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 09

HUMILDADE E MANSIDÃO

LUDOVICO GARMUS

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Zc 9,9-10

Eis que teu rei, humilde, vem ao teu encontro.

O texto da primeira leitura é do IV século a.C. A pequena comunidade judaica não tinha mais rei nem autonomia política, mas estava sob o domínio dos governantes da Pérsia. A esperança messiânica de um novo descendente de Davi tinha que ser repensada e reavivada. É o que o profeta Zacarias procura fazer, conclamando o povo de Jerusalém a acolher o seu rei com alegria. Ele já está vindo ao encontro de Jerusalém. O Messias esperado não será como os reis de Israel e de Judá. Será um rei justo que realmente salvará o seu povo; será um rei humilde e virá montado sobre um jumento, sem a pompa e o aparato militar de um dominador. Ao contrário, o Messias eliminará de Jerusalém cavalos e arcos de guerreiros, símbolo das guerras dos impérios dominadores de então. Mesmo assim estabelecerá a paz universal tão desejada. Mateus, ao descrever a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num jumento cita esta profecia de Zacarias (cf. Mt 21,1-11). Jesus veio implantar o Reino de Deus neste mundo, sem aparato bélico, porque seu reino não é deste mundo (Jo 18,36). Como Servo Sofredor, Jesus deu sua vida por este Reino de Deus para estabelecer a paz e a fraternidade entre os povos. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). No mundo injusto e violento em que estamos vivendo Jesus propõe a todos os povos a vida segundo o Reino de Deus.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 144 (145)

Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

2. LEITURA: Rm 8,9.11-13

Se, pelo Espírito, fizerdes as obras do corpo morrer, vivereis.

Viver segundo a “carne” é viver na autossuficiência, fechado em si mesmo, como os ouvintes que rejeitaram a mensagem de Jesus (evangelho). Paulo fala da oposição entre vida segundo o Espírito e a vida segundo a carne. Vive segundo a carne quem se deixa dominar pelos critérios humanos do consumismo, da dominação sobre o próximo, sem o menor senso de solidariedade humana. Vive segundo o espírito quem pertence a Cristo, porque crê no Espírito que mora em cada cristão. Mas, viver segundo o Espírito, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, é uma “dívida” – diz Paulo – um desafio permanente na vida cristã. O caminho mais seguro é “pertencer” a Cristo e aprender dele, que é “manso e humilde de coração” (evangelho).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra;

os mistérios do teu reino aos pequenos, Pai, revelas!

3. EVANGELHO: Mt 11,25-30

Eu sou manso e humilde de coração.

Antes do evangelho que ouvimos, Jesus critica as cidades da Galileia (Corozaim, Betsaida e Cafarnaum) que o rejeitam por causa de seu orgulho e autossuficiência (11,20-24). Estas cidades não se converteram porque o modo de ser e de agir de Jesus lhes era intragável. Jesus não veio conquistar adeptos pela violência, mas veio com humildade e mansidão. Veio, pedindo licença para bater na porta do coração das pessoas, como o Papa Francisco na JMJ. Os pequenos, pobres, pecadoras e pecadores, desprezados pelos orgulhosos, o acolheram e continuam acolhendo. Por isso, Jesus louva o Pai que se revela aos pequeninos e se oculta aos grandes. O evangelho de hoje nos convida a contemplarmos a imagem do Pai, revelada pelas palavras e gestos de Jesus. Convida-nos a louvar este Deus, que assim se revela. Propõe-nos a agir, com humildade e mansidão, como Jesus agiu com os pequeninos.

__________________________________

*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 02

EU TE DAREI AS CHAVES DOS CÉUS

LUDOVICO GARMUS

SÃO PEDRO E SÃO PAULO - EU TE DAREI AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé”.

1. Primeira leitura: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu santo anjo

para e libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes... Mas Jesus rezou por Pedro: “... eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, o da prisão para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5).

O Papa Francisco pede que continuemos rezando por ele, para que Deus o proteja de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;

E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. EVANGELHO: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes... Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu. Previu que Pedro o negaria três vezes, mas prometeu rezar- por ele, pedindo que, por sua vez, confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu.

_____________________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

jun 25

CONFIAR NA PROVIDÊNCIA

LUDOVICO GARMUS

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – NÃO TENHAIS MEDO!

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor”.

PRIMEIRA LEITURA: Jr 20,10-13

Ele salvou das mãos dos malvados a vida do pobre.

Jeremias recebeu a missão de ser profeta quando ainda era muito jovem (Jr 1,4-10). A missão era muito exigente e difícil: “Dou-te hoje poder sobre nações e reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e plantar” (1,10). Pelos verbos, percebe-se que a missão era mais negativa do que positiva. Devia denunciar a injustiça e a violência cometida pelos reis e poderosos contra os pequenos e pobres, e anunciar-lhes o castigo divino caso não se convertessem. Por isso era rejeitado até pelos próprios familiares (16,1-13), ameaçado de morte e perseguido pelas autoridades (26,1-19). Diante da espinhosa missão, o profeta sente-se desanimado e entra em crise. Prestes a desistir de sua dura missão, chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento (20,14-18). O texto que ouvimos pertence às assim chamadas “confissões de Jeremias”, diálogos íntimos que ele mantém com Deus (11,8-23; 12,1-5; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18). Como Jeremias frequentava o Templo de Jerusalém, suas orações são parecidas com as lamentações de muitos Salmos, cantadas pelos levitas. Em nosso texto (20,10-13), porém, depois de lamentar-se, Jeremias renova sua confiança na certeza de Deus o protegerá e lhe dará forças para cumprir sua missão. – Diante de Deus podemos sempre nos apresentar confiantes, como filhos e filhas. Em nossas súplicas, podemos dizer-lhe tudo o que pensamos e sentimos; podemos com franqueza desabafar nossas mágoas, desde que o desabafo sirva de ocasião para renovar nossa confiança em sua constante proteção.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 68

Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 5,12-15

O dom ultrapassou o delito.

Na carta à comunidade cristã de Roma Paulo explica que todos precisam de salvação (Rm 1,18–3,20). Paulo lembra que o pecado do primeiro ser humano, Adão, trouxe o pecado e a morte para todos os seus descendentes. Mas, a morte e ressurreição de Cristo trouxeram a graça e a reconciliação, mais universais e abundantes do que o estrago causado pelo pecado de Adão. Cristo pôs fim ao domínio da morte. O cristão pode, por vezes, sentir-se impotente diante das estruturas do pecado, do qual ele é vitima e também culpado. Mas, pela fé ele sabe que pode vencê-las pela solidariedade sacramental, eclesial e existencial com a morte e ressurreição de Cristo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

O Espírito Santo, a Verdade, de mim irá testemunhar

e vós minhas testemunhas sereis em todo lugar.

3. EVANGELHO: Mt 10,26-33

Não tenhais medo dos que matam o corpo.

O evangelho que ouvimos faz parte do discurso missionário de Mateus. A finalidade principal é incutir coragem aos discípulos em meio às perseguições dos anos 80-90 dC. Cristãos eram conduzidos aos tribunais, açoitados nas sinagogas, processados diante de governadores e reis, e odiados por causa do nome do Cristo (Mt 10,17-25). O Evangelho apresenta quatro motivos para não temer as ameaças. 1) O ponto de partida da exortação é a afirmação de que o discípulo não está acima do mestre. A condição para seguir o Mestre é abraçar a cruz: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, há de encontrá-la” (16,25). Se o mestre foi perseguido, acusado, injuriado e morto, o discípulo deverá também estar preparado para sofrer a mesma sorte, por causa de sua fé e pregação do evangelho (10,24-25). – 2) O perseguidor só poderá tirar a vida do corpo, mas não a vida depois da morte, que está nas mãos de Deus (v. 28-29). – 3) Confiar na Providência divina: Deus cuida até dos pardais, quanto mais de seus discípulos (v. 29-31). – 4) Aos que derem testemunho de Cristo diante dos homens, Ele dará testemunho diante do “Pai que está nos céus” (v. 32-33). Na hora da perseguição o cristão era forçado a negar a sua fé; poderia tornar-se infiel. Deus, porém, permanece fiel: “Se o negarmos, também ele nos negará. Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não negar-se a si mesmo” (2Tm 2,13). Quem der testemunho de Jesus aqui na terra, será defendido por Ele no juízo final. – O Papa Francisco nos convida a darmos este testemunho confiante e corajoso em meio ao povo cristão e não cristão, pessoas carentes de Deus e necessitadas do socorro de “bons samaritanos”.

_____________________________________________________
*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

jun 04

RECEBEI O ESPÍRITO SANTO

LUDOVICO GARMUS

PENTECOSTES – RECEBEI O ESPÍRITO SANTO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

Oração: “Ó Deus que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.

1. Primeira leitura: At 2,1-11

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.

João coloca a doação do Espírito Santo no dia da Páscoa, quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos reunidos no Cenáculo. Lucas coloca-a no dia da festa judaica de Pentecostes. Na origem era uma festa agrícola do início da colheita do trigo, celebrada sete semanas após a festa dos ázimos, ligada à Páscoa. Era uma das três festas de peregrinação. Nesta festa o israelita devia comparecer diante de Deus e apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. No II século aC, a festa de Pentecostes passou comemorar a promulgação da Lei de Moisés no Sinai. A doação do Espírito se dá em meio a um “barulho” e “forte ventania”, que lembram a teofania do Sinai: “trovões, relâmpagos... fortíssimo som de trombetas”, marcando a descida de Deus “em meio ao fogo” (Ex 19,16-19). Rabi Johanan dizia a respeito: “A voz saiu e se repartiu em setenta vozes ou línguas, de modo que todos os povos a entendessem; e cada povo ouviu a voz em sua própria língua”. Lucas conhecia esta tradição: Como a Lei de Moisés era conhecida em todo o mundo, agora também o Evangelho é pregado a todos os povos, citados em nosso texto. A diversidade das línguas nas quais cada um entendia a mensagem do Evangelho é um convite aos apóstolos e discípulos a levarem a mensagem de Jesus a todos os povos e culturas, impulsionados pelo Espírito Santo.

Salmo responsorial: Sl 103 (104)

2. Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Fomos batizados num único Espírito,

para formarmos um único corpo.

Paulo fala longamente para a comunidade de Corinto dos dons do Espírito Santo (1Cor 11,2-16; 12,1–14,39). Sem estes dons, nada podemos fazer, nem mesmo dizer: “Jesus é o Senhor”. Os dons ou “carismas” são “atividades”, serviços ou manifestações do Espírito “em vista do bem comum”; cada membro presta serviço para o bem do mesmo corpo. Paulo usa a imagem do corpo que tem muitos membros, mas forma uma única unidade. O Espírito nos unifica num só Corpo em Cristo: “judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito”. O Espírito Santo distribui seus dons / carismas não para distinguir esta ou aquela pessoa, mas em vista do bem da comunidade. A manifestação do Espírito se dá em todos os membros da comunidade. Não é privilégio do clero, dos religiosos ou de “grupos carismáticos”.

Sequência

Espírito de Deus, enviai dos céus um raio de luz!

Vinde, Pai dos pobres, daí aos corações vossos sete dons.

Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!

No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem.

Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!

Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele.

Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente.

Dobrai o que é duro, guiai no escuro, o frio aquecei.

Dai à vossa Igreja, que espera e deseja, vossos sete dons.

Dai um prêmio ao forte uma santa morte, alegria eterna. Amém.

Aclamação ao Evangelho

Vinde, Espírito Divino,

e enchei com vossos dons os corações dos fiei;

e acendei neles o amor como um fogo abrasador!

3. Evangelho: Jo 20,19-23

Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio:

Recebei o Espírito Santo!

No domingo da Ascensão ouvimos que Jesus prometia: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo”. Hoje nos é revelado como se dará esta presença de Cristo entre nós. Hoje Jesus aparece no meio dos discípulos e os saúda duas vezes: “A paz esteja convosco”. Jesus ressuscitado já perdoou os discípulos que o abandonaram durante a paixão e tranquiliza-os assim com a sua presença. Jesus se identifica mostrando-lhes as mãos e o lado perfurados e eles se alegram por verem o Senhor. Sim, Ele é o mesmo Jesus crucificado, que cumpriu sua missão, a obra de nossa salvação, e pode voltar ao Pai: “Subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Antes de voltar ao Pai, porém, deixa-nos a tarefa de continuar sua missão: “Como o Pai me enviou também eu vos envio”. O Cristo ressuscitado não abandona os seus discípulos. Estará sempre conosco pelo seu Espírito, o Advogado e Consolado para cumprirmos esta missão. Por isso diz: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoados, eles lhes será retidos”. Pelo dom de sua vida Jesus nos reconciliou com Deus, manifestando o amor misericordioso do Pai. O maior presente da Páscoa é a nossa reconciliação com Deus e com nossos irmãos....... Agora confia aos seus discípulos a missão de manifestar esta mesma misericórdia: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados...” Não se trata apenas da reconciliação pelo Sacramento da Penitência. Inclui também o perdão mútuo que devemos nos dar uma ao outro (Pai Nosso...). Quando não perdoamos nosso irmão ou não lhe pedimos perdão, ficamos acorrentados a nossos desafetos. Deus nos quer livres para que em nós se manifestem os dons do Espírito Santo, dados para o bem comum.

_________________________________________________
*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

mai 28

ESTAREI CONVOSCO TODOS OS DIAS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DA ASCENSÃO – JESUS É LEVADO AO CÉUS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar de sua glória”.

1. LEITURA: At 1,1-11

Jesus foi levado aos céus, à vista deles.

Lucas escreveu dois livros: o Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Nestes livros ele divide a história da salvação em três tempos: a) o tempo da promessa é o Antigo Testamento até o final da atividade de João Batista; b) o tempo da realização da promessa, que é a vida pública de Jesus, desde o batismo até a Ascensão ao céu; c) o tempo da Igreja, que se inicia com o dom do Espírito Santo. Na liturgia de hoje celebramos o término do segundo tempo: do batismo de Jesus até sua ascensão ao Céu. No trecho da Palavra de Deus que acabamos e escutar Lucas lembra o seu primeiro livro, o Evangelho, onde escreveu sobre “tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. Isto é, desde o batismo de Jesus até o dia em que “foi elevado ao alto”. Mas esta frase também sugere que, no segundo livro, os Atos dos Apóstolos, vai falar daquilo que a Igreja, movida pela força do Espírito Santo, continuou a “fazer e ensinar”. – O tempo da Igreja é inaugurado pelo próprio Jesus Ressuscitado, que durante quarenta dias instruiu os apóstolos sobre as “coisas referentes ao Reino de Deus”. Entre elas, Jesus recomenda que não se afastem de Jerusalém até receberem o Espírito Santo. Jesus ressuscitado estava falando com os discípulos sobre o Reino de Deus. Mas, os apóstolos e discípulos ainda lhe perguntavam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel?” Em vez do reino de Israel Jesus lhes traça o programa do anúncio dão Reino de Deus. Para cumprir a missão deveriam receber o Espírito Santo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra”. A cena dos apóstolos fitando os céus, para onde Jesus era levado, introduz anjos que os chamam de volta à realidade da missão. Jesus vai voltar um dia, sim, mas agora é o momento de cumprir a ordem de executar a missão delineada por Jesus: Com a força do Espírito Santo, ser testemunha do Ressuscitado em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra (v. 8). A nós, que recebemos o Espírito Santo, Jesus confia também esta mesma missão, até quando ele vier para “julgar os vivos e os mortos” (Creio).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 46

Por entre aclamações Deus se elevou,

o Senhor subiu ao toque da trombeta.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 1,17-23

E o fez sentar-se à sua direita nos céus.

O Apóstolo nos convida a abrirmos o coração, para sabermos qual é a esperança que o chamado divino nos dá; qual é a riqueza de nossa herança com os santos e que imenso poder Deus exerce naqueles que nele creem. A ascensão marca a glorificação de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus encarnado, que se fez servo “humilde e obediente, até a morte numa cruz. Foi por isso que Deus o exaltou...” (Fl 2,8-9; cf. Hb 5,7-9). Jesus Cristo conclui sua missão aqui na terra e nos concede a força do Espírito Santo, para cumprirmos a missão de anunciar e viver o seu evangelho.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Ide ao mundo, ensinai aos povos todos;

Convosco estarei, todos os dias,

Até o fim dos tempos, diz Jesus.

3. EVANGELHO: Mt 28,16-20

Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.

As mulheres que foram ver o túmulo de Jesus, um anjo explica que Jesus tinha ressuscitado; por isso, o túmulo estava vazio. Elas deviam comunicar aos discípulos que Jesus ressuscitado queria encontrar-se com eles na Galileia, onde o veriam. Foi na Galileia dos gentios que “brilhou uma grande luz” quando Jesus iniciou sua pregação (Mt 4,15-16). Este encontro com o Ressuscitado foi marcado durante a última ceia. Jesus previu que todos o haveriam de abandar no momento da morte. Mas reafirmou que, mesmo abandonado por todos, haveria de ressuscitar e iria à frente deles à Galileia para se encontrar com seus discípulos (Mt 26,32). De fato, o encontro com o Ressuscitado aconteceu num monte indicado por Jesus. Em Mateus, foi num monte que Jesus proclamou as bem-aventuranças e a sua mensagem. Agora, é de um monte que Jesus envia os discípulos para a missão. Ao verem o Ressuscitado, os discípulos se prostraram, mas alguns ainda duvidavam. Jesus, no entanto, envia a todos para a missão, também aos que duvidavam: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo quanto eu vos ordenei”. Para se tornar cristão é preciso ter fé em Deus que é Pai, crer em Cristo seu Filho e no Espírito Santo que está conosco; é preciso ser ensinado e ensinar a observar tudo quanto Jesus ordenou. É preciso confiar, ter fé, que não estamos cumprindo a missão sozinhos. Ele está e estará sempre conosco.

_________________________________

*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 21

ACLAMAI O SENHOR, Ó TERRA INTEIRA

LUDOVICO GARMUS

6º DOMINGO DA PÁSCOA – UM OUTRO DEFENSOR –

*Por Frei Ludovico Garmus, OFM –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 8,5-8.14-17

Impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.

Antes da ascensão ao céu, Jesus reforça a promessa da vinda do Espírito Santo e comunica o plano de evangelização a ser seguido: “Recebereis... o Espírito Santo... e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). Na missão de Jerusalém se destacam as figuras de Pedro e João; na Judeia e Samaria, Estêvão e Filipe; e na missão aos “confins da terra”, Barnabé e Paulo. Em Jerusalém e na Judeia se convertem judeus de língua aramaica e, depois, judeus de fala grega. A força que impulsiona a missão vem do Espírito Santo, derramado sobre a Igreja. É o Espírito Santo que leva Pedro e João a pregar corajosamente o evangelho em Jerusalém. Leva Estêvão a pregar aos judeus de língua grega, Filipe a pregar ao camareiro etíope (pagão) e a levar o evangelho aos samaritanos. Os samaritanos, que só aceitam o Pentateuco, acolhem com alegria o anúncio de Jesus Cristo; depois, pela imposição das mãos de Pedro e João, recebem o Espírito Santo. É o Espírito Santo que leva Pedro a pregar o evangelho à família de Cornélio em Cesareia Marítima. É Ele que une numa só família a Igreja formada de judeus de língua aramaica, judeus de língua grega, samaritanos e pagãos convertidos.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 65

Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira,

cantai salmos a seu nome glorioso.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Pd 3,15-18

Sofreu a morte em sua existência humana,

mas recebeu nova vida no Espírito.

O autor da epístola exorta os cristãos perseguidos por causa de sua fé em Cristo a dar razões de sua esperança. Isso deve ser feito “com boa consciência”, isto é, sem polêmicas, com mansidão e respeito pelos que não creem. Para uma testemunha de Cristo (mártir) “será melhor sofrer praticando o bem... do que praticando mal”. O modelo a seguir é Cristo, que “sofreu na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito”. O testemunho dado por Cristo é a razão da esperança cristã.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

Quem me ama realmente guardará minha palavra,

e meu Pai o amará, e a ele nós viremos.

3. EVANGELHO: Jo 14,15-21

Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor.

Continuamos escutando o discurso de despedida de Jesus. Domingo passado (Jo 14,1-12) a insistência era nas palavras “crer, acreditar e confiar” (seis vezes). No texto de hoje a insistência é no verbo “amar” (cinco vezes). Jesus vai separar-se fisicamente dos seus discípulos, mas não os deixará órfãos (v. 18). Pedirá ao Pai que lhes dará um Defensor, o Espírito Santo, para que permaneça sempre com eles. O Espírito Santo é o Defensor ou Advogado do cristão quando deverá dar testemunho de sua fé diante dos tribunais: “Quando vos levarem diante das sinagogas, dos magistrados e das autoridades, não vos preocupeis como, ou o que, haveis de responder; porque nessa hora o Espírito Santo ensinará o que deveis dizer” (Lc 12,11-12). A condição é o amor: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v. 15.21). Pelo amor conheceremos o Espírito da Verdade, “porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. A presença física e mortal de Jesus é substituída pela presença ou inabitação da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, nos cristãos que amam a Cristo e observam os seus mandamentos: “Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele. Os mandamentos de Cristo se resumem no amor, vivido com os irmãos: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (13,34). Quando o cristão, animado pelo Espírito Santo, vive o amor ao próximo torna viva a presença do amor de Deus.

________________________________________

*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 07

JESUS VEIO PARA QUE TODOS TENHAM VIDA

LUDOVICO GARMUS

4º DOMINGO DA PÁSCOA – ELE É O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus todo-poderoso, conduzi-nos à comunhão das alegrias celestes, para que o rebanho possa atingir, apesar de sua fraqueza, a fortaleza do Pastor”. 1. LEITURA: At 2,14a.36-41

Não era possível que a morte o dominasse.

No domingo passado, em seu primeiro anúncio aos judeus (querigma), no dia de Pentecostes, Pedro lembrou o que Jesus fez durante sua vida pública e acusou os chefes que o mataram. Mas Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, ao terceiro dia, e que os apóstolos eram testemunhas disso. Jesus, porém, foi exaltado à direita de Deus e derramou o Espírito Santo, conforme prometera. De fato, todos os ouvintes foram atraídos para saber o que estava acontecendo junto ao Cenáculo. – Hoje é retomado o discurso de Pedro no dia de Pentecostes, Pedro apela a todos os ouvintes que reconheçam que “Deus constituiu Senhor e Cristo este Jesus que vós crucificastes”. O anúncio de Pedro provoca um desejo de mudança, por isso a pergunta: “Irmãos, o que devemos fazer?” A resposta de Pedro é clara: Todos devem converter-se, isto é, mudar de vida, batizar-se em nome de Jesus Cristo para receberem o perdão dos pecados, condição para eles também receberem o Espírito Santo. Esta proposta/promessa da pregação de Pedro é para os judeus (“vós e vossos filhos”) e para os pagãos (“os que estão longe”), para todos que “nosso Deus chamar a si”. – Deus nos chama por meio de seu Filho, Jesus Cristo, o bom pastor e nos faz um apelo: “Salvai-vos dessa gente perversa”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz,

para as águas repousantes me encaminha.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Pd 2,20b-25

Voltareis ao Pastor de vossas vidas.

Pela sua cruz, Cristo “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”. Cristo é o bom pastor que vai atrás das ovelhas perdidas, para enfaixar aquelas machucadas (Ez 34,11.16; Lc 15,1-7) e curar suas feridas com o remédio de seu amor: “Por suas feridas fostes curados. Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas” (1Pd 2,24-25).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Jo 10,14

Eu sou o bom pastor, diz o Senhor;

Eu conheço as minhas ovelhas

e elas me conhecem a mim.

3. EVANGELHO: Jo 10,1-10

Eu sou a porta das ovelhas

Cada ano do ciclo litúrgico (anos A, B e C) medita-se uma parte da parábola (ou alegoria) do Bom Pastor de Jo 10. Neste ano (A) meditamos a primeira parte. O texto se divide em duas partes: uma parábola enigmática do pastor das ovelhas (v. 1-6) e Jesus como a porta das ovelhas (v. 7-10). Há uma oposição entre a figura do ladrão/assaltante e a do verdadeiro pastor das ovelhas. Há também uma diferente reação das ovelhas: elas seguem confiantes ao seu pastor e fogem do estranho, que é o ladrão e o assaltante. A porta tem dupla função: distingue o verdadeiro do falso pastor e serve para a entrada e saída tanto das ovelhas como do pastor. A porta significa, pois, segurança para as ovelhas durante a noite e chance de sair em busca de pastagens e água. A porta do curral exerce, portanto, uma função básica para a vida das ovelhas; possibilita, também, apresentar Jesus como a porta (v. 7-10). Insiste-se agora na distinção entre Jesus e os assaltantes, que ameaçavam as ovelhas no curral. A estes, porém, as ovelhas não ouviram, porque eles vieram para matar, roubar e destruir. Mas Jesus veio para que todos tenham vida em abundância. Jesus é a porta em relação ao Pai. Ele é o caminho, a verdade e a vida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Com razão o Papa Francisco nos convoca a sermos uma “Igreja em saída”. A Igreja não pode permanecer medrosa, encerrada em si mesma, como os discípulos no Cenáculo antes da manifestação do Espírito. A Igreja de Cristo deve abrir suas portas e janelas, sair em busca das ovelhas desgarradas, perdidas ou machucadas. O verdadeiro pastor vai ao encontro das ovelhas. Deve ter o “cheiro das ovelhas”, para que elas o reconheçam e o sigam em busca de pastagens que as saciem de verdade e da água viva, que é o próprio Cristo Jesus (Jo 4,13-14). ____________________________________

*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 30

OS DISCÍPULOS DE EMAÚS RECEBERAM O RESSUSCITADO EM CASA!

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA – EM EMAÚS, A RECORDAÇÃO DAS PROMESSAS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que o vosso pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição”.

1. Primeira leitura: At 2,14.22-33

Não era possível que a morte o dominasse.

No dia de Pentecostes os judeus comemoravam em Jerusalém a doação da Lei de Moisés. Na mesma ocasião estavam reunidos em Jerusalém, também, os apóstolos com dezenas de discípulos e discípulas, no monte Sião. A comunidade estava reunida em oração, com portas e janelas fechadas, por medo dos judeus. De repente, houve um forte ruído do céu, acompanhado de um vento impetuoso e línguas de fogo, enchendo toda a casa onde os discípulos estavam reunidos. Era a manifestação do Espírito Santo prometida por Jesus, antes da ascensão de Jesus ao céu (At 2,1-4). Muitos judeus peregrinos acorreram ao lugar para ver o que estava acontecendo. Em meio a uma intensa alegria, abrem-se as portas e janelas e os discípulos saem da casa. Pedro, então, toma a palavra para explicar ao povo o sentido de tudo o que estava acontecendo. Em seu discurso, Pedro dirige-se aos ouvintes judeus (v. 22-24) o “querigma”, isto é, a proclamação da paixão, morte e ressurreição de Jesus que visa levar os ouvintes à conversão e à fé em Jesus. Os acontecimentos do “querigma” pascal são pura iniciativa de Deus, nome repetido quatro vezes. A ação divina por meio de Jesus é pública: “tudo isso vós mesmos o sabeis”, porque as coisas aconteceram “entre vós”. Mas, a ressurreição de Jesus é presenciada apenas pelas testemunhas qualificadas (v. 32), as 120 pessoas reunidas no cenáculo com os apóstolos. Pedro cita o salmo 15, argumentando que Davi, profeticamente, fala da ressurreição de Jesus, “eu vós o matastes, pregando-o numa cruz” (v. 25-33). Deus Pai ressuscitou Jesus dentre os mortos (cf. Lc 9,21-22.43-45; 18,31-34) e o exaltou à sua direita na glória do céu. O Pai concedeu a Jesus o Espírito Santo que havia prometido, e Jesus o derramou sobre as testemunhas de sua ressurreição. Os ouvintes estavam presenciando a ação do Espírito Santo derramado sobre as testemunhas.

Salmo responsorial: Sl 15 (16)

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;

junto de vós felicidade sem limites!

2. Segunda leitura: 1Pd 1,17-21

Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,

cordeiro sem mancha!

Desde antes da criação do mundo Deus nos amou e no fim dos tempos enviou seu próprio Filho para nos salvar. Não foi com ouro ou prata que Cristo nos resgatou do pecado e da morte, mas com seu próprio sangue, entregando sua vida como máxima expressão de amor. Mas Deus o ressuscitou dos mortos – diz Pedro – e por isso alcançamos a fé em Deus. Pela fé estamos firmemente ancorados em Deus. Assim, nossa fé e esperança estão guardadas no coração de Deus. É o que cantamos no Salmo responsorial: “Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio”.

Aclamação ao Evangelho

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura;

Fazei o nosso coração arder, quando falardes.

3. Evangelho: Lc 24,13-35

Reconheceram-no ao partir o pão.

Lucas coloca três narrativas relacionadas com a ressurreição de Jesus, todas, no primeiro dia da semana, dia especial em que os cristãos celebravam a ressurreição do Senhor (At 20,7). Na primeira conta como as mulheres, discípulas de Jesus desde a Galileia (Lc 8,1-3), que o acompanharam até testemunharem sua morte na cruz (23,55), se dirigem ao túmulo levando perfumes, mas não encontram o corpo de Jesus. Dois anjos lhes explicam que o túmulo está vazio porque Jesus ressuscitou como havia dito. Elas levam a notícia aos discípulos. Eles, porém, não acreditam na explicação dada pelos anjos. Pedro, no entanto, vai conferir o túmulo vazio e fica apenas admirado. Segue, então, a narrativa sobre os discípulos de Emaús, que hoje escutamos. Após a manifestação do Ressuscitado os dois discípulos voltam imediatamente a Jerusalém para contar sua experiência aos apóstolos, que lhes comunicam: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão”. Segue, então, no mesmo dia, já de noite, a aparição de Jesus a todos os que estavam reunidos. – As experiências de Jesus se dão enquanto as pessoas estão reunidas falam de Jesus, contam e recordam o que Ele fez e falou. Os anjos recordam que Jesus ressuscitou conforme havia dito na Galileia. Jesus leva a boa notícia de sua ressurreição aos discípulos tristes e desanimados, recorda as Escrituras e se manifesta a eles ao partir do pão. Tudo aponta para a liturgia eucarística que estamos celebrando. A celebração da Eucaristia na comunidade reunida no Dia do Senhor é o lugar privilegiado para a experiência da presença viva do Cristo Ressuscitado, que nos quer alimentar com sua palavra e com seu corpo e sangue.

_____________________________________

* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 09

O POVO ESCOLHE BARRABÁS

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DE RAMOS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar como ele em sua glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 50,4-7

Não desviei o meu rosto das bofetadas e cusparadas. Sei que não serei humilhado.

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. Ele está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto para os exilados abatidos. O Servo apresenta-se como um discípulo obediente, atento todas as manhãs para receber a mensagem divina a ser transmitida. Mas, para cumprir esta missão deve enfrentar o desprezo e o sofrimento.

Embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim. Confiando no auxílio divino, Jesus não se deixou abater, mas foi fiel até a morte da cruz; por isso foi glorificado por Deus, que o tornou “Senhor” (2ª leitura).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22 (21),8.9.17-18a.19-20.23-24

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

2. SEGUNDA LEITURA: Fl 2,8-9

Humilhou-se a si mesmo; por isso, Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder, mas esvaziou-se e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), colocou-se a serviço de todos: “Eu estou no meio de vós como quem serve” (Lc 22,27). Identificou-se não com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. O caminho de Cristo tornou-se o caminho do cristão.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Salve, ó Cristo obediente! / Salve, amor onipotente,

que te entregou à cruz/ e te recebeu na luz!

3. EVANGELHO: Mt 26,14–27,66 (ou: 27,11-54)

“Ele era mesmo Filho de Deus”.

Jesus não é entregue contra a sua vontade, por traição. Ele se entrega nos sinais do pão e do vinho, na doação livre de sua vida, de seu corpo e de seu sangue. Na leitura mais breve, Jesus é apresentando a Pilatos para o julgamento. A acusação é de caráter político, como se vê na pergunta de Pilatos: “Tu és o rei dos judeus?” Sob pressão da multidão, “sabendo que haviam entregue Jesus por inveja”, Pilatos propõe a escolha entre (Jesus) Barrabás e Jesus que chamam de Messias. O povo escolhe Barrabás, levado por suas aspirações messiânicas de caráter político, e rejeita o próprio Messias, Servo do Senhor (27,21-22). – Algumas afirmações próprias de Mateus se destacam: o sonho da mulher de Pilatos (27,19); Pilatos lava as mãos e a multidão se responsabiliza (27,24-25); terremoto e ressurreição dos mortos na hora da morte de Jesus (27,51b-53). – Os judeus zombam de Jesus como Messias (26,68) e os soldados romanos, como rei (27,27-31). Nas zombarias, dirigidas a Jesus na cruz aparece o motivo da destruição do Templo (26,60-62), usado como acusação contra Jesus no processo do Sinédrio; a ação salvadora de Jesus agora incapaz de salvar-se a si mesmo; a confiança em Deus que agora abandona seu Filho.

________________________________________ *Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

Posts mais antigos «

Apoio: