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nov 18

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – IMPORTA É ESTAR ATENTO AOS SINAIS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor nosso Deus, fazei que nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Dn 12,1-3

Nesse tempo teu povo será salvo.

A leitura que ouvimos foi tirada do último capítulo do texto hebraico do livro de Daniel. O livro foi escrito durante o domínio selêucida da Síria, no contexto da revolta dos Macabeus. Os judeus eram, então, oprimidos por pesados tributos do rei sírio Antíoco IV, proibidos de praticar sua religião e obrigados a práticas religiosas pagãs. Era um tempo eram de muito sofrimento. Entre os judeus havia os que procuravam ser fiéis à fé dos antepassados; outros, porém, colaboravam com os dominadores e traíam sua fé. O autor projeta o drama de seu tempo (domínio selêucida) para o tempo dos babilônios e persas. Ao descrever suas visões, o autor usa uma linguagem codificada, na qual os governantes são representados como animais ferozes. A intenção é animar a esperança dos fiéis perseguidos. No passado, o profeta Ezequiel animava a esperança dos exilados em Babilônia com a fé na ressurreição da nação (Ez 37,1-14). Em Daniel se afirma não só a salvação do povo judeu, mas também, a ressurreição individual dos justos e pecadores: “Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno”. O caminho sábio para a salvação é a fiel observância da Lei de Deus. Sábios são os que ensinarem os caminhos da virtude (observância da Lei, porque “brilharão como estrelas por toda a eternidade”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 15

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 10,11-14.18

Com uma única oferenda,

levou à perfeição definitiva os que ele santifica.

O autor continua afirmando a superioridade do sacerdócio e do sacrifício único de Cristo sobre o sacerdócio e os sacrifícios do antigo Templo. Os sacrifícios da antiga Aliança eram oferecidos muitas vezes pelos sacerdotes, sem conseguir apagar os pecados do povo. Pelo sacrifício, oferecido uma única vez pelos nossos pecados, Cristo alcançou um lugar de honra “à direita do Pai”, isto é, como juiz: “donde virá a julgar os vivos e os mortos” (Credo). Pela sua morte e ressurreição garantiu, para todos os que o seguem, o perdão dos pecados e “levou à perfeição definitiva os que ele santifica”. ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 21,36

É preciso vigiar e ficar de prontidão;

em que dia o Senhor há de vir, não sabeis não!

3. EVANGELHO: Mc 13,24-32

Ele reunirá os eleitos de Deus,

de uma extremidade à outra da terra.

O último ensinamento de Jesus, antes da paixão, trata da destruição de Jerusalém e seu Templo, e da segunda vinda do Senhor, no fim dos tempos. Mateus e Lucas têm uma descrição mais ampla destes eventos. Marcos fala que, ao sair do Templo, os discípulos chamaram a atenção de Jesus à majestosa construção do Templo. E Jesus lhes responde: “Estais vendo tudo isso? ... Não ficará pedra sobre pedra; tudo será destruído”. Ao chegarem ao monte das Oliveiras, Pedro, Tiago, João e André lhe perguntam, em particular, quando isso haveria de acontecer e qual seria o sinal. Antes do texto hoje proclamado, Jesus fala dos sinais precederão o quando (Mc 13,5-13). Haverá guerras, terremotos e fome. Antes que chegue o fim, o Evangelho deve ser anunciado a todas as nações e os cristãos serão perseguidos. Quando o inimigo se instalar em Jerusalém, é hora de os cristãos – os eleitos – fugirem para os montes e não confiarem em falsos cristos e profetas (v. 14-23). Todos esses sinais estão relacionados à destruição de Jerusalém e à vida dos cristãos no Império Romano.

O texto que hoje ouvimos refere-se à segunda vinda do Senhor no fim dos tempos, como Juiz. Marcos escreveu seu evangelho, provavelmente, antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., nos inícios da Guerra Judaica. Sinais, como boatos de guerra, terremotos e fome, sempre existiram e existirão. Jesus, porém, não responde sobre quando acontecerá a segunda vinda do Filho do Homem: “Quanto a esse dia e à hora, ninguém sabe nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai”. Importa é estar atento aos sinais (exemplo da figueira) e vigiar. As obras humanas, impérios e potências mundiais, tendem a desaparecer: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (cf. Is 40,6-8; 1Pd 1,24-25). Em vez de nos apavorar diante da perspectiva de um fim imaginado como próximo, melhor seria vigiar, reavivar a fé na presença de Cristo no meio de nós e reforçar a confiança na Palavra de Deus: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

nov 11

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

32º DOMINGO DO TEMPO COMUM –A VIÚVA DEU MAIS DO QUE TODOS OS OUTROS –

Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus de poder e misericórdia, afastai de nós todo obstáculo para que, inteiramente disponíveis, nos dediquemos ao vosso serviço”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Rs 17,10-16

A viúva, do seu punhado de farinha,

fez um pãozinho e o levou a Elias.

Acab, rei de Israel, tinha casado com Jezabel, filha do rei pagão de Tiro e Sidônia, no atual Líbano. Jezabel promovia a religião do deus Baal, considerado o deus da fertilidade, em prejuízo da fé no Deus de Israel. Como punição pelo pecado de idolatria, Elias então anunciou uma seca, que duraria até que o Deus de Israel mandasse chuva. Jurado de morte, Elias teve que fugir. Por ordem de Deus, foi hospedar-se na casa de uma viúva em Sarepta, região donde viera a rainha. Lá Deus providenciou para o profeta uma hospedagem: “Eu ordenei a uma viúva de lá que te sustentasse” (v. 9). Chegando a Sarepta, o profeta pediu à viúva que lhe trouxesse água e pão. Ela jurou em nome do Deus de Israel que não tinha pão; na verdade, estava catando alguns gravetos para preparar o último pão para si e seu filho órfão, e depois esperaria a morte. Mesmo assim, Elias pediu-lhe que, primeiro, preparasse um pão para ele e só depois, para si e seu filho. E prometeu em nome do Senhor: Não faltará farinha nem azeite até Deus mandar chuva sobre a terra. Ela acreditou na palavra de Deus anunciada por Elias. E o pão partilhado com generosidade se multiplicou: “E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo” (veja o Evangelho e Mt 14,13-21; Jo 6,9). A historieta no ensina que o Deus de Israel é o protetor dos pobres, representados pela viúva e o órfão, e não Baal. – Os pobres confiam em Deus e partilham com mais facilidade o pouco que têm do que os ricos, que confiam nas riquezas.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 145

Bendize, minh’alma, bendize ao Senhor!

No Salmo, os nove verbos da ação divina em defesa dos oprimidos nos convidam a fazer o mesmo. É a Deus, defensor dos pobres, que louvamos?

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 9,24-28

Cristo foi oferecido uma vez, para tirar os pecados da multidão.

Cada ano, na Festa da Expiação, o sumo sacerdote entrava no Santuário para oferecer um sacrifício cruento em expiação de seus pecados e dos pecados do povo. Jesus ofereceu uma única vez o sacrifício da própria vida em expiação dos pecados da humanidade toda, abolindo assim todos os sacrifícios do antigo Templo. Jesus ressuscitou e entrou definitivamente no santuário do céu, onde está junto de Deus como nosso intercessor. “O destino de todo homem é morrer uma só vez, e depois vem o julgamento” (v. 27). Cristo voltará uma segunda vez (juízo final), para nos salvar. Nele podemos confiar, porque já agora intercede por nós junto do Pai.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Felizes os pobres em espírito,

porque deles é o Reino dos Céus.

3. EVANGELHO: Mc 12,38-44

Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros.

Os ensinamentos de Jesus aos discípulos e ao povo, durante a viagem, terminam com sua entrada triunfal em Jerusalém (cap. 11). No cap. 12 temos ensinamentos resultantes do confronto de Jesus com seus adversários e conclui-se com o Evangelho que hoje ouvimos. O texto se divide em duas cenas, ligadas pelo tema da viúva. Na primeira cena Jesus está ensinando o povo na área do Templo e tece críticas aos escribas ou doutores da Lei de Moisés. Os escribas e fariseus acusavam Jesus de não observar o sábado e outras prescrições da Lei. Jesus os critica porque não fazem o que ensinam: Usam roupas vistosas, exibem-se nas praças e sinagogas, mas, a pretexto de longas orações, “devoravam as casas das viúvas”. A mesma crítica vale, hoje, aos que ensinam o povo cristão, mas não praticam a mensagem.

Na segunda cena o evangelista mostra Jesus no Templo, sentado junto ao cofre das esmolas. Enquanto observava os mais ricos depositando punhados de moedas no cofre, Jesus viu uma pobre viúva que do fundo da sua bolsa tirou duas moedinhas e colocou-as no cofre. Era o cofre das esmolas que serviam para socorrer também os pobres de Jerusalém. Com os olhos de Deus, Jesus viu a cena e disse aos discípulos: “Esta viúva deu mais do que todos os outros”. De fato, ela ofereceu tudo o que tinha para vive; entregou sua vida nas mãos de Deus (1ª leitura!), enquanto outros, apenas o que lhes sobrava.

Jesus deve ter ficado muito feliz com o gesto generoso da viúva. Ela entregou sua vida nas mãos de Deus. Em breve Jesus também iria entregar sua vida para salvar a humanidade do pecado do egoísmo. Na esmola daquela pobre viúva Jesus viu o Reino de Deus que anunciava sendo vivido na prática. Cumpria-se o caminho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Festa de Todos os Santos). A viúva, entregando sua vida nas mãos de Deus, mostrava que o caminho do Reino de Deus era viável para os discípulos: “Quem perder a sua vida por amor de mim e pela causa do Evangelho, há de salvá-la”.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

out 28

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – TU ÉS MEU FILHO, EU HOJE TE GEREI –

*Por Frei Ludovico Garmus, Ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 31,7-9

Os cegos e aleijados, suplicantes, eu os receberei.

O profeta Jeremias era de Anatot, um vilarejo da tribo de Benjamim, a 7km de Jerusalém, pertencente ao antigo reino de Israel. Quando sua capital foi destruída pelos assírios, muitos israelitas se refugiaram no reino de Judá. Jeremias foi chamado a ser profeta cem anos depois, durante o reinado de Josias. Neste tempo Judá se tornou um reino independente e reconquistou grande parte do território até então dominado pelo decadente Império Assírio. À luz desses acontecimentos, em nome de Deus, Jeremias conclama os ouvintes a cantarem um cântico de suplicante alegria: “Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”. Mas é um resto que põe sua esperança no socorro divino: Entre eles, por um lado, há cegos e aleijados que representam um povo abatido, salvo por Deus; por outro lado, mulheres grávidas e as que já deram à luz, portanto, promessas de uma vida nova. É uma verdadeira multidão, chorando de alegria no retorno à sua terra. Ali os espera Deus, pai amoroso de Israel, para abraçá-los como a um filho primogênito.

A liturgia de hoje nos apresenta Cristo como o verdadeiro restaurador de Israel, aquele que traz a salvação para todos. A cura do cego de Jericó revela o amor de Deus para com todos, especialmente os mais pobres e desprotegidos. Bartimeu representa os “cegos e aleijados” de Jeremias, os pobres ameaçados em sua vida. (Evangelho).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 125

Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 5,1-6

Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

Domingo passado a Carta aos Hebreus falava do sacerdócio de Jesus como superior ao do sumo-sacerdote judaico. Cristo é o sumo-sacerdote, o sumo pontífice por excelência porque faz a ponte entre Deus e a humanidade. O texto de hoje continua o pensamento. Como sumo-sacerdote, Jesus tem compaixão de seu povo e se oferece em sacrifício por todos. Foi o próprio Deus que o escolheu como sumo-sacerdote ao dizer: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. O Filho de Deus assume a nossa humanidade pela encarnação. Fez-se solidário com toda a humanidade em tudo, menos no pecado, por isso é capaz de compadecer-se de nossas fraquezas. Em Jesus de Nazaré é o próprio Filho de Deus que se vem até nós, para nos aproximar do Pai e conceder-nos a graça de sua misericórdia.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Jesus Cristo, Salvador, destruiu o mal e a morte;

fez brilhar, pelo Evangelho, a luz e a vida imperecíveis.

3. EVANGELHO: Mc 10,46-52

Mestre, que eu veja!

Há mais de dois meses estamos ouvindo trechos do evangelho de Marcos. Eles fazem parte dos ensinamentos de Jesus aos discípulos e ao povo, durante a viagem da Galileia para Jerusalém. Esta viagem começa após a cura, em dois tempos, do cego de Betsaida (Mc 8,21-26) e termina após a cura de outro cego, em Jericó. No início da viagem Jesus havia perguntado quem o povo e os discípulos diziam que ele era. Pedro confessou que Jesus é o Cristo, isto é, o Ungido do Senhor, que todos esperavam. A partir daí Jesus começa a ensinar, sobretudo, aos discípulos. O ponto fundamental do ensinamento era que o Filho do Homem (Jesus) seria entregue aos sumos sacerdotes e condenado à morte. Pedro contestou a Jesus por pensar assim, mas foi severamente repreendido pelo Mestre (Mc 8,31-33). Jesus ensina também que seus discípulos deveriam seguir seu exemplo, abraçar a própria cruz e estar dispostos a perder sua vida por amor a Cristo e pelo Evangelho. O anúncio da paixão repetiu-se mais duas vezes, sempre seguido por um ensinamento aos discípulos e ao povo. Mas enquanto Jesus falava do Reino de Deus como um serviço de amor, eles buscavam o poder e discutiam entre si quem deles seria o maior no reino, em Jerusalém. Estavam surdos à mensagem de Jesus e precisavam ser curados de sua cegueira.

O Evangelho de hoje mostra Jesus saindo de Jericó para a última etapa da viagem a Jerusalém, acompanhado pelos “discípulos e uma grande multidão”. Os discípulos planejavam aclamar Jesus como rei, o Messias filho de Davi. Mas havia um cego que pedia esmolas à beira da estrada. Ouvindo que era Jesus que passava, ele começou a gritar com insistência: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”! As pessoas ao seu redor mandaram que se calasse. Para eles, o plano de aclamar Jesus como rei era mais urgente. Não podia ser interrompido por um pedinte cego. Jesus, porém, escutou os gritos do cego, parou e mandou chamá-lo. Só então o povo se solidariza com Bartimeu e diz: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama”! E o cego larga o manto de pedinte e de um salto chega até Jesus. Para testar a fé do cego Jesus lhe pergunta: “O que queres que eu te faça”? O cego responde: “Mestre, que eu veja”! Como em outros milagres, Jesus lhe diz: “Vai, a tua fé te curou”. Ao ser curado, Bartimeu experimentou a misericórdia de Deus. Sentiu que Jesus o chamava como seu discípulo e pôs-se a segui-lo pelo caminho. Jesus curou sua cegueira física e abriu-lhe os olhos da fé. Os discípulos, no entanto, continuavam cegos, apesar de todos os ensinamentos recebidos entre as duas curas de cegos. Pedro confessou que Jesus era o Cristo, mas, como outros apóstolos, continuava cego ao seu projeto de Messias, Servo Sofredor. O cego clamou a Jesus, filho de Davi, e viu nele o Messias Salvador misericordioso, capaz de compadecer-se dos sofredores.

Na primeira parte da Missa Jesus nos alimentou com os fartos alimentos de seus ensinamentos. Agora, na Mesa da Eucaristia, Cristo quer nos alimenta com seu amor. Peçamos-lhe que cure nossa cegueira e abra os olhos de nossa fé, para podermos segui-lo sempre como discípulos.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

out 21

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O FILHO DO HOMEM NÃO VEIO PARA SER SERVIDO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração”. 1. PRIMEIRA LEITURA: Is 53,10-11

Oferecendo sua vida em expiação,

ele terá descendência duradoura.

Na segunda parte do Livro de Isaías (Is 40–55) estão inseridos quatro hinos, chamados Cânticos do Servo do Senhor. O texto que ouvimos faz parte do quarto cântico, cujo texto integral é lido da 6ª Feira Santa. O Servo Sofredor pode representar um indivíduo ou o próprio povo de Israel, exilado na Babilônia. No texto devemos prestar atenção a três personagens: Deus que tem um plano de salvação, o Servo Sofredor que obedece e executa este plano e os inúmeros homens justificados. No mesmo relacionamento estamos nós, enquanto assembleia que celebra a Eucaristia.O sofrimento do Servo faz parte do plano de Deus – “o Senhor quis macerá-lo com sofrimentos”. O Servo, que é justo, cumpre a vontade do Senhor. Oferecendo sua vida em expiação pelos pecados de outros, “fará justos inúmeros homens”, “terá uma descendência duradoura” e “alcançará luz e uma ciência duradoura”. A figura deste Servo Sofredor é misteriosa. Por isso, com razão o camareiro etíope perguntava ao diácono Filipe sobre o significado desta figura: “Dize-me de quem o profeta está falando? De si mesmo ou de outro”? – E Filipe pôs-se a falar de Jesus: Ele é o Servo do Senhor, que deu sua vida por nosso amor (At 8,34-35). Nós somos sua descendência duradoura! (Evangelho) SALMO RESPONSORIAL: Sl 32

Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,

pois em vós nós esperamos!

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 4,14-16

Aproximemo-nos, com confiança, do trono da graça.

Domingo passado ouvimos que a Palavra de Deus é viva e eficaz, penetra o mais profundo do ser humano. Ela se identifica com o próprio Filho de Deus feito homem, pelo qual Deus nos comunica seu amor. No texto de hoje o autor compara Jesus ao sumo sacerdote. No judaísmo ele tinha como função coordenar os servidores do Templo, supervisionar o culto, oferecer o sacrifício diário e executar os ritos de expiação dos pecados. Era considerado o mediador por excelência entre Deus e seu povo. O sumo sacerdote representava, sobretudo, a relação do povo com Deus, pela oferta de sacrifícios e pela intercessão. O sacerdócio de Jesus, porém, é superior ao judaico porque, como Filho de Deus, assumiu a natureza humana. Fez-se solidário com os homens em tudo, menos no pecado. É capaz de compadecer-se de nossas fraquezas porque foi provado pelo sofrimento. O Filho de Deus aproximou-se de nós, por isso podemos nos aproximar dele com toda confiança e obter a graça de sua misericórdia. Com estas palavras, o autor quer fortalecer a confiança dos judeu-cristãos que fraquejavam em sua fé e Jesus Cristo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

Jesus Cristo veio servir, Cristo veio dar sua vida.

Jesus Cristo veio salvar, viva Cristo, Cristo viva!

3. EVANGELHO: Mc 10,35-45

O Filho do Homem veio para dar a sua vida

como resgate para muitos.

O texto que ouvimos faz parte do caminho de Jesus com os discípulos e o povo, que o seguem rumo a Jerusalém. Nos domingos anteriores, no caminho, Jesus esclarecia sua missão como o Cristo/Messias, filho de Davi, e como devem agir os discípulos que o seguem. Na cena anterior ao presente texto vimos Jesus indo à frente, enquanto os discípulos “o seguiam apreensivos e apavorados”. É que Jesus, pela terceira vez, lhes anunciava que seria condenado à morte pelos sumos sacerdotes e escribas e entregue aos pagãos. Que projeto haveria de se cumprir, o de Jesus ou o de seus discípulos apreensivos? A cena de hoje mostra os discípulos seguindo fisicamente a Jesus, mas ainda sem ter acolhido o projeto de Deus a respeito de Jesus Messias. Na cabeça deles vigorava o projeto do poder e não o do serviço, abraçado por Jesus, o Servo Sofredor. Tanto assim que planejavam para a entrada em Jerusalém, proclamá-lo rei, o Messias descendente de Davi. Tiago e João, por sua vez, ambicionavam uma posição especial ao lado de Jesus neste reino sonhado pelos doze: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória”. Jesus lhes pergunta se sabiam o que estavam pedindo: “Podeis beber o cálice que eu vou beber”? E eles respondem: “Podemos”. Os dois pensavam no cálice que o servente devia provar antes de oferecer ao rei, para evitar um possível envenenamento. Eram até corajosos, pois o cargo ambicionado exigia confiança e também risco de vida. Jesus pensa no cálice do sofrimento (Mc 14,36) e lhes diz: “Vós bebereis o cálice que eu vou beber”, mas o lugar de honra ao seu lado já estava reservado para outros. – A propósito, Tiago é o primeiro apóstolo a sofrer o martírio pelo nome de Jesus (At 12,1-2). – Ao saber do pedido de Tiago e João, os outros ficaram indignados. Jesus, então chamou os doze para lhes dar uma lição. A proposta de Jesus não é a do poder ambicionado pelos chefes das nações que tiranizam os povos. “Entre vós não deve ser assim”! Quem quiser ser grande ou o primeiro deve servir como escravo de todos. O caminho do discípulo é o do Mestre: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. O caminho ensinado e vivido por Jesus é também o caminho de todo cristão (cf. Jo 13).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

out 07

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – E ELES SERÃO UMA SÓ CARNE –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Gn 2,18-24

E eles serão uma só carne.

Na Bíblia temos duas narrativas da criação do ser humano (Adam). A primeira (Gn 1), chamada sacerdotal, coloca no sexto dia a criação dos animais (v. 24-25) e do ser humano, coroando toda a obra da criação. A criação do ser humano é descrita com solenidade: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea ele os criou” (v. 26-28). Em vista da procriação o ser humano é especificado como “macho e fêmea”; por isso recebe a bênção divina (v. 28). A segunda narrativa (Gn 2) não se preocupa com a criação do mundo, mas com o ser humano e sua relação com demais criaturas criadas no 6º dia, ligadas ao mesmo chão (Gn 1,24-31). O ser humano e os animais são feitos da terra, da terra brotam as árvores do jardim, plantado por Deus, e da terra nascem os rios. A preocupação da narrativa é mostrar que, no projeto divino, o ser humano convive em harmonia, no mesmo ambiente, com as plantas e os animais. Com as plantas e os animais, bebe da mesma água, onde os peixes vivem. Com os seres vivos respira o mesmo ar, por onde as aves e pássaros voam; assim participa do mesmo “ecossistema”. Apesar disso Deus diz: “Não é bom que o ser humano esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (v. 18). De fato, embora feitos da mesma terra, os animais não são a companhia adequada para o ser humano. Deus coloca, então, o ser humano em sono profundo, tira-lhe uma costela e a transforma em mulher. Depois, apresenta-a ao ser humano. Então ele exclama: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne!” A expressão indica parentesco. A partir daí o ser humano é visto como “homem” e “mulher”, ele com ela, numa comunhão de vida e de amor. Diante dela, o ser humano se reconhece como “homem”, ela como “mulher”. Ambos, ele e ela, são um auxílio necessário um para o outro. Esta comunhão de amo, homem-mulher, é até mais forte que a união com os pais: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 127

O Senhor te abençoe de Sião, cada dia de tua vida.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 2,9-11

Tanto o Santificador, quanto os santificados

descendem do mesmo ancestral.

O autor escreve para judeu-cristãos que viviam entre os pagãos. Os cristãos sofriam oposição por parte de pagãos e de judeus. Os sofrimentos e o adiamento da 2ª vinda do Senhor abalavam a fé em Cristo e a esperança na sua vinda. Aos desanimados lembra que o Filho de Deus, assumindo a natureza humana, tornou-se um pouco menor que os anjos. Solidarizou-se com os seres humanos, criados um pouco abaixo dos anjos (Sl 8,6). Tornou-se assim nosso irmão, pois o “Santificador e os santificados” têm os mesmos ancestrais. O “Santificador”/Jesus, nosso irmão, morreu por nós e foi glorificado, para “conduzir muitos filhos à glória” (cf. Fl 2,5-11). São palavras que ainda hoje reanimam nossa fé e reavivam a esperança.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: 1Jo 4,12

Se amarmos uns aos outros, Deus em nós há de estar;

E o seu amor em nós se aperfeiçoará.

3. EVANGELHO: Mc 10,2-16

O que Deus uniu o homem não separe.

Enquanto está a caminho de Jerusalém, Jesus continua ensinando a multidão que o segue. Os fariseus aproveitam a ocasião para testá-lo e lhe perguntam se é permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. Ao perguntar-lhes “O que Moisés vos ordenou?” eles respondem: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. Referiam-se a Dt 24,1-4, um texto casuístico, onde se determina o que fazer no caso de uma separação existente. Escrever uma certidão de divórcio, por um lado, significava uma declaração de falência de um matrimônio; por outro, declarava que a mulher estava livre para casar-se com outra pessoa. Na resposta Jesus diz que Moisés permitiu escrever a carta por causa da “dureza de vosso coração”. Dureza aqui significa a resistência persistente ao projeto de Deus, como o faraó que não deixa os hebreus saírem do Egito, ou Israel que se obstina em não acolher a palavra dos profetas (Is 6,8-10; Jr 7,26). Jesus remete para outra parte da Lei atribuída a Moisés, no livro do Gênesis, onde se fala do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, como “homem e mulher” – literalmente “macho e fêmea” (cf. Gn 1,28). Ao dizer: “Por isso, o homem [ele] deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher [ela] e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). [ver 1ª leitura]. Ao unir os dois textos Jesus aponta para a dupla finalidade do matrimônio: a geração de filhos (“macho e fêmea” – assim como está no grego!) e o complemento mútuo. São o auxílio necessário mútuo, que se corresponde do ponto de vista sexual, psicológico e na comunhão de amor, entre eles e os filhos. Em casa (de Pedro), Jesus explica aos apóstolos que divórcio equivale a adultério. A cena seguinte, que mostra Jesus abraçando as crianças, completa o projeto desejado por Deus para a família; isto é, a união homem-mulher e filhos. Diante da falência de muitos matrimônios o Estado pode e deve legislar. A orientação para os católicos, porém, vem da Igreja. O Sínodo dos bispos sobre a família renovou as orientações pastorais para buscar a fidelidade ao ideal da família proposto por Jesus. Recomendou que os recasados sejam acolhidos na Igreja com misericórdia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: “Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos”.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

set 23

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM -

* Frei Ludovico Garmus, ofm - 

ORAÇÃO: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Sb 2,12.17-20

Vamos condená-lo à morte vergonhosa.

O Livro da Sabedoria é contemporâneo a Jesus Cristo e foi escrito na diáspora dos judeus de Alexandria. É um verdadeiro tratado de “teologia política”, uma crítica sapiencial aos governantes. A comunidade judaica sofria perseguições, opressões e discriminações por parte das autoridades gregas e romanas, apoiadas por judeus que abandonaram a fé. O texto que ouvimos descreve o conflito entre os ímpios – judeus que renegaram sua fé – e os justos, isto é, judeus piedosos, observantes da Lei. Este conflito está também presente no livro dos Salmos (cf. Sl 1). Mais do que as palavras, a própria vida dos justos condena as ações destes judeus ímpios, que imitavam o comportamento dos pagãos. Os ímpios sentem-se incomodados pela fé e pelas práticas dos justos e ficam indignados que se considerem “filhos de Deus”. Por isso, tramam todo tipo de ofensas e torturas, atentam contra a própria vida dos justos, para ver se Deus virá para socorrê-los e libertá-los de suas mãos. As injúrias dos ímpios contra os justos lembram as que Jesus sofreu na cruz (ver o Evangelho e Mt 20,18-19; 27,38-44).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 53

É o Senhor quem sustenta minha vida!

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 3,16–4,3

O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz.

Tiago critica a falta de coerência dos cristãos de seu tempo. É uma comunidade dividida por rixas, inveja, rivalidades e injustiças. Uma comunidade carente de paz, necessitada de amor. Faltava-lhes a “sabedoria que vem do alto”, a sabedoria do Evangelho. Tiago faz o elogia desta sabedoria: Ela é pura, pacífica, modesta, conciliadora, é misericordiosa, é imparcial e sincera. Elogio parecido com o de Paulo aos frutos da caridade / amor (1Cor 13). A comunidade perdera o seu foco, que é a pessoa de Jesus Cristo e sua mensagem (Evangelho). Até nas orações pediam coisas supérfluas, menos a “sabedoria que vem do alto”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Pelo Evangelho o Pai nos chamou,

A fim de alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. EVANGELHO: Mc 9,30-37

O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro,

Que seja aquele que serve a todos.

Estamos no bloco central do Evangelho de Marcos (8,27–10,52). Nesta parte, Pedro confessa que Jesus é o Messias, o Ungido do Senhor. Jesus, por sua vez, ensina e explica em que sentido ele é o Cristo / Messias. Não é o filho de Davi que vai tomar conta do poder político e religioso em Jerusalém, mas o Servo Sofredor. Ensina também que o discípulo deve seguir o caminho do Mestre, como já vimos no domingo passado. Também no evangelho de hoje Jesus continua ensinando, a caminho de Jerusalém. Mais uma vez lhes anuncia aos discípulos que Ele, o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, será morto, mas após três dias ressuscitará. Marcos comenta que eles não estavam entendo o que Jesus lhes falava e tinham medo de perguntar. Maus discípulos que não querem que o Mestre lhes explique as dúvidas. Foi mais fácil Jesus curar o surdo-mudo (7,31-37) e o cego, mesmo em dois tempos (8,22-26), do que curar a cegueira e a surdez de seus discípulos. Eles pressentiam o perigo nas palavras do Mestre e tinham medo, mas faziam como o avestruz, que enterra a cabeça na areia para fugir do perigo. Na realidade, eles não queriam desistir do projeto de fazer de Jesus um Messias-Rei. Por isso, já estavam distribuindo os cargos neste novo reino e discutiam entre si quem deles seria o maior. Nas discussões acaloradas deve ter crescido o ciúme e a rivalidade. Ao chegarem a Cafarnaum, Jesus perguntou o que estavam discutindo no caminho. Eles ficaram calados. Jesus, então, senta-se como Mestre para lhes ensinar o caminho do discípulo: “Quem quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Esta á a postura do Mestre na última ceia: “Se, pois eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Os discípulos queriam ser os primeiros, os maiores, e disputavam entre si um lugar de honra no imaginado reino de Jesus em Jerusalém. Para estes “maiores” Jesus, sentado, continua ensinando. Pegou uma criança, colocou-a no meio, junto de si, abraçou-a e disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo”. Jesus se faz pequeno para abraçar todos os pequenos, os pobres e os sofredores e nos convida a fazermos o mesmo. Fazendo assim, acolhemos o próprio Deus, que se identifica com os pobres, famintos, nus e presos injustamente (Mt 25,31-46). Eis o “caminho” do discípulo neste mundo repleto de sofredores em que estamos vivendo.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

set 16

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – AOS SURDOS FAZ OUVIR E AOS MUDOS FALAR –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que creem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 35,4-7a

Os ouvidos dos surdos se abrirão

e a boca do mudo gritará de alegria.

A primeira parte do Livro de Isaías (Is 1–39) denuncia os pecados de Judá e anuncia a salvação. Anuncia também o julgamento das potências estrangeiras e vizinhos, que oprimiram o povo eleito. Depois do julgamento divino do vizinho reino de Edom, em Is 35, um profeta pós-exílico anuncia mais uma vez a salvação para Israel. Um “apêndice histórico” (Is 36–39) conclui esta primeira parte de Isaías. No texto que ouvimos, o profeta fala a um povo desanimado e sem esperança. Os que ouviram as promessas do profeta anônimo no exílio (Is 40–55) encontraram em Judá uma realidade nada animadora. As estes o profeta reafirma que as promessas continuam válidas. Por isso não devem desanimar, mas confiar na presença de Deus. Ele é o Deus criador que age na história humana. Vê o sofrimento do povo e vem para salvá-lo. A salvação é descrita com imagens de transformação da natureza, na qual o que parece errado será corrigido: os cegos tornarão a ver bem, os surdos a ouvir, os mudos a falar e até no deserto brotarão torrentes de água. Com esta linguagem o profeta procura recuperar a fé, a esperança e a confiança no Deus de Israel. Quando João Batista da prisão manda perguntar a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11,5), Jesus manda dizer-lhe que a profecia de Is 35,5-6 estava se cumprindo em sua missão (ver o Evangelho).

O salmo responsorial (145,7-10) apresenta oito ações salvadoras de Deus, que transformam a vida humana. Elas se tornam evidentes na pregação e na ação de Jesus em favor dos pobres e injustiçados. Jesus nos convida a agirmos da mesma forma como Deus age. Então nossa vida será um sincero louvor a Deus.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 145,7-10

Bendize, ó minha alma ao Senhor.

Bendirei ao Senhor por toda a vida!

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 2,1-5

Não escolheu Deus os pobres deste mundo

para serem herdeiros do Reino?

O Apóstolo conhecia as comunidades cristãs e percebia que alguns comportamentos não condiziam com a fé em Jesus Cristo. Como exemplo cita a acepção ou discriminação de pessoas na comunidade. Fiéis ricos e bem vestidos recebiam um lugar de destaque, enquanto os pobres deviam ficar de pé ou sentar-se no chão. Todo ser humano possui a mesma dignidade, tem os mesmos direitos e merece ser tratado com igual respeito (Dt 16,19). Tanto mais o cristão, seguidor de Cristo, que revela a face amorosa do Pai, deve evitar a discriminação no trato com os irmãos de fé. O modelo é o próprio Deus, que “escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam”. O critério último no relacionamento com os irmãos de fé é o amor de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Jesus Cristo pregava o Evangelho, a boa notícia do Reino

e curava seu povo doente de todos os males, sua gente!

3. EVANGELHO: Mc 7,31-37

Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar.

O Evangelho que ouvimos conta-nos o milagre da cura de um surdo-mudo. Antes deste episódio, Jesus havia curado numerosos enfermos que eram trazidos até o caminho por onde ele passaria. Era tanta a fé das pessoas que lhe pediam que, ao menos, as deixasse tocar suas vestes. Depois discutiu com os fariseus e mestres da lei sobre a questão da pureza. Em seguida, a pedido de uma mulher cananeia curou sua filha. Segue, então, o evangelho que acabamos de ouvir. Jesus acabava de voltar à terra dos judeus, vindo da terra pagã de Tiro e Sidônia. Imediatamente trouxeram um surdo-mudo para que lhe impusesse as mãos. Sabiam que Jesus curava as pessoas tocando-as com as mãos, deixando-se tocar por elas ou, simplesmente, porque tinham fé. Jesus não cura para dar um espetáculo. Por isso, afasta-se da multidão, para dar atenção pessoal ao necessitado. Jesus não olha para nós como multidão. Olha para cada um de nós como pessoa, com as suas necessidades e limitações. Olha para cada um de nós com os olhos de Deus. Toca com os dedos os ouvidos e a língua do surdo-mudo com saliva, olha para o céu, suspira, e diz: “Abre-te!” Jesus repete os gestos do Criador, quando modela com os seus dedos o barro para formar o ser humano. O suspiro de Jesus lembra o sopro divino da criação (cf. Gn 2,7; Sl 8; 104,29-30). É também o suspiro de alguém solidário com os deficientes e sofredores. Por isso o povo exclama: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”. Jesus devolve à sociedade um homem novo, capaz de comunicar-se, de ouvir e ser ouvido, condição básica para conviver com os outros, para acolher e proclamar a fé. O toque nos ouvidos e na boca do recém-batizado lembra que a fé é comunicada pela palavra, para ser professada pela palavra. Jesus também queria “abrir” os ouvidos de seus discípulos e provocar neles a profissão de fé (cf. 8,14-38), preparando-os para a missão evangelizadora. O que Jesus quer dizer para mim com este milagre? Jesus nos tocou os ouvidos pela sua palavra e, agora, quer tocar a cada um de nós com a celebração da eucaristia, para curar nossos males.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

set 02

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Dt 4,1-2.6-8

Nada acrescenteis à palavra que vos digo,

mas guardai os mandamentos do Senhor. O texto que ouvimos foi escrito quando Israel estava no exílio da Babilônia. O povo havia perdido a terra prometida, não tinha mais o culto no templo de Jerusalém. Apesar de viverem no meio de “um povo de fala estranha e língua pesada” (Ez 3,5), era grande a tentação de adorar os deuses locais e abandonar o Deus libertador do Egito. Mas havia a lei da Aliança (Ex 20,1–23,19), reapresentada no livro do Deuteronômio, que, mesmo no exílio, podia conservar a unidade e identidade de Israel. Israel deve cumprir as leis e decretos que Moisés ensina para ser abençoado e poder viver em paz na sua terra. Por isso, a exaltação da Lei de Moisés. Se os babilônios e outros povos têm sua sabedoria e suas leis, Israel tem uma sabedoria superior, porque vem de Deus. São leis que garantem a liberdade, a unidade e a paz para o povo. A Lei do Senhor é como o sol, que “ilumina os olhos” e mostra o caminho a seguir para ser feliz (cf. Sl 19).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 14

Senhor, quem morará em vossa casa

e no vosso monte santo habitará?

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 1,17-18.21b-22.27

Sede praticantes da Palavra.

Tiago faz uma bela exortação aos cristãos de seu tempo, que continua válida em nossos dias. Lembra que tudo é graça, é dom de Deus, o “Pai das luzes”. Pela Palavra da verdade ele nos gerou, pelo batismo, para a vida de filhos e filhas de Deus. Esta Palavra é a fé em Jesus Cristo e a mensagem do Evangelho, que em nós “foi implantada”. A Palavra foi implantada para ser cultivada, colocada em prática e produzir frutos. Por isso, o Apóstolo nos convida: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”. A religião cristã autêntica, que agrada a Deus Pai, são os bons frutos que ela produz: evitar a contaminação pelo mundo e cuidar com amor dos pobres e sofredores, expressado no amor aos órfãos e viúvas.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Deus, nosso Pai, nesse seu imenso amor,

foi quem gerou-nos com a palavra da verdade,

nós, as primícias do seu gesto criador!

3. EVANGELHO: Mc 7,1-8.14-15.21-23

Vós abandonais o mandamento de Deus

para seguir a tradição dos homens.

Deus deu os mandamentos e as leis para um povo libertado da escravidão do Egito. Praticando o que as leis prescreviam Israel mostrava a fidelidade e o amor ao Deus que o escolheu como seu povo: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. E trarás no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno” (Dt 6,5-6). No tempo de Jesus, porém, os mestres da lei multiplicaram as interpretações da lei, chegando a formular 613 preceitos, muitos deles relacionados com “pureza” e “impureza”, sobretudo, de caráter cultual. Os fariseus consideravam-se modelos da fiel observância destes preceitos. Eles eram os “puros” e desprezavam os trabalhadores da roça, os saduceus, os samaritanos e os pagãos, considerados todos impuros. Os fariseus e mestres da Lei vieram de Jerusalém para fiscalizar a não observância da ”tradição dos antigos”, por parte de Jesus e seus discípulos: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” Na resposta Jesus os acusa de praticarem uma falsa religião, baseada em preceitos humanos, que os afasta de Deus. Eles abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens. Para Jesus, a pureza vem do coração humano sincero: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Estes, sim, estão próximos de Deus. Longe de Deus estão os que planejam todo tipo de maldade em seu coração e a põem em prática. É por isso que Jesus cita Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Este princípio valia na antiga aliança e vale para quem segue a Jesus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos Céus, mas quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 26

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – PALAVRAS DE VIDA ETERNA –

*Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

1. PRIMEIRA LEITURA Js 24,1-2a.15-17.18b

Serviremos ao Senhor porque ele é o nosso Deus.

Terminada a conquista da Terra Prometida, Josué convoca uma grande assembleia no Santuário de Siquém. Na presença das doze tribos de Israel, dos anciãos, dos chefes e dos juízes do povo, faz um longo discurso no qual exorta o povo a servir fielmente a Deus. Provoca o povo a uma decisão: servir aos deuses dos outros povos ou servir ao Senhor que os libertou do Egito. Ele e sua família já decidiram servir unicamente ao Senhor. O povo, lembrado da maravilhosa libertação do Egito, da proteção divina recebida no deserto, da Aliança selada com Deus no Sinai e do dom da terra, também decide servir ao Senhor: “Longe de nós abandonarmos o Senhor, para servir a deuses estranhos... Nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”. É uma decisão de fé, de fidelidade e amor ao único Deus, que liberta da escravidão. Assim Josué renovou a aliança do povo com Deus. Discursos comovem, exemplos de fé e amor a Deus, como o de Josué e sua família, arrastam.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 33,2-3.16-23

Provai e vede quão suave é o Senhor!

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 5,21-32

Este mistério é grande, em relação a Cristo e à Igreja.

A leitura que ouvimos choca nossa sensibilidade, sobretudo, das mulheres, quando Paulo diz: “As mulheres sejam submissas aos seus maridos”. Fixando nossa atenção apenas nessa frase que choca os ouvidos modernos, estamos sujeitos a perder a mensagem mais profunda do texto. Basta ouvir a conclusão da frase: “como ao Senhor” – isto é, a Cristo Jesus, o ponto de comparação. Submissão não significa dominação do marido sobre a mulher. Todo o texto é iluminado pela frase inicial: “Vós que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros”. Todos nós que seguimos e amamos a Cristo devemos amar (ser solícito com) uns aos outros. Ser solícito é sinônimo de amar. Esta solicitude/amor começa na família, da qual nos fala Paulo. Na cultura de então o homem era “a cabeça” da família. Hoje os maridos dizem: “Quem manda lá em casa é a mulher”... A comparação é com Cristo, “cabeça da Igreja e o Salvador de seu Corpo”, aquele que dá a vida por nós. Cristo é o modelo de amor/solicitude para a mulher e para o marido. A Igreja ama a Cristo, porque “cabeça” e corpo estão unidos. Assim, a mulher é solícita em tudo (ama) pelo seu marido. O marido, por sua vez, sendo “a cabeça da mulher”, deve amá-la como Cristo ama a Igreja; isto é, deve ser capaz de dar sua vida por ela. E o Apóstolo argumenta: Amar a sua mulher é amar a si mesmo, porque “o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Por isso, conclui Paulo, a união de amor entre homem e mulher é um grande “mistério”, um “sacramento” do amor que nos une a Deus. Eles se tornam uma só carne e ninguém odeia sua própria carne, mas ama sua esposa como a si mesmo, a exemplo de Cristo que ama sua Igreja.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Ó Senhor, vossas palavras são espírito e vida;

as palavras que dizeis, bem que são de eterna vida.

3. EVANGELHO: Jo 6,60-69

A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna.

No texto do domingo anterior Jesus se apresentava como o pão descido do céu. Para ter a vida eterna é necessário alimentar-se deste pão celestial, comer a sua carne e beber o seu sangue. Cristo nos sustenta na caminhada da vida cristã com a doação de sua própria vida. No evangelho de hoje temos a reação dos judeus a estas palavras de Jesus, consideradas “duras”, difíceis de escutar. Jesus insiste que veio de Deus e para Deus vai “subir”. Os judeus estão entendendo suas palavras segundo a carne e não segundo o Espírito, por isso não acreditavam nele. E explica: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que eu vos falei são espírito e vida”. E o evangelista comenta: Jesus sabia... quem eram os que não tinham fé”. Diante de Jesus não dá para ficar neutro. Deve escolher entre seguir a Cristo com fé ou abandoná-lo, como muitos que o fizeram. Quando Jesus pergunta aos que ainda ficaram com ele, se também queriam ir embora, Pedro confessa sua fé: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Mt 16,13-16). A fé que professamos em Cristo é que nos une, num só corpo, como Igreja (segunda leitura).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 19

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA AO CÉU – O SENHOR FEZ GRANDES COISAS EM MEU FAVOR –

*Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab

Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés.

O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios. Segundo a lenda, a arca foi escondida numa caverna pelo profeta Jeremias, para ser reapresentada “quando de novo Deus for propício e reunir a comunidade” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a arca da aliança reaparecerá no Templo da nova Jerusalém, substituindo a antiga aliança pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão, representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15) e, de fato, esmagou por Maria Mãe de Jesus, o qual nos trouxe a salvação (Ap 12,10).

Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 44(45)

À vossa direita se encontra a rainha,

com veste esplendente de ouro de Ofir.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15,20-27ª

Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo.

Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Maria é elevada ao céu,

alegram-se os coros dos anjos.

3. EVANGELHO: Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor:

elevou os humildes.

O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também as crianças, João Batista (o Precursor) e Jesus (o Salvador prometido). Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus; por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída/assumida por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, é o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (L. Boff).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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