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jul 08

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ez 2,2-5

São um bando de rebeldes,

e ficarão sabendo que houve entre eles um profeta.

Ezequiel conta em primeira pessoa sua experiência de ser chamado por Deus como profeta. Outros profetas como Amós (7,15), Jeremias (1,7) e Isaías (6,8-11) também contam sua vocação profética. Ezequiel narra como foi arrebatado pelo espírito divino. Deus como que invade sua pessoa (3,12.24; 8,3) e toma conta de sua fala (3,1-3). E o profeta torna-se assim o porta-voz de Deus, mas continua livre em acolher, ou não, o chamado divino. Por outro lado, o profeta tem consciência de estar falando em nome de Deus. Os ouvintes têm a liberdade de acreditar, ou não, que Ezequiel fala em nome de Deus. Por isso Deus adverte Ezequiel sobre as dificuldades da missão: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim... filhos de cabeça dura e coração de pedra”. O profeta tinha que falar em nome de Deus a um povo rebelde e agressivo, que o cercava como se fossem espinhos e escorpiões (v. 6-7). Não obstante a rebeldia, Deus misericordioso continua falando a Israel porque são seus filhos. Mas, se persistirem endurecendo o coração, sobrevirá o silêncio de Deus, como diz o profeta Amós: “Enviarei fome ao país, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Andarão cambaleando de um mar a outro, do norte até o oriente, procurando a palavra do Senhor, mas não a encontrarão” (8,11-12). – Ouçamos hoje a voz do Senhor!

SALMO RESPONSORIAL: Sl 122

Os nossos olhos estão fitos no Senhor;

tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

2. SEGUNDA LEITURA: 2Cor 12,7-10

Gloriar-me-ei das minhas fraquezas,

para que a força de Cristo habite em mim.

Ezequiel teve que enfrentar a dureza de coração de seus opositores. Deus o anima a não temê-los, “mesmo que espinhos te cerquem e estejas assentado sobre escorpiões” (Ez 2,6). Jesus foi expulso pelos doutores da Lei e fariseus não só de Nazaré, mas também da sinagoga (evangelho). Da mesma forma o apóstolo Paulo teve que enfrentar tanto inimigos externos, como adversários dentro do próprio cristianismo. Eram cristãos de linha judaica, que contestavam seu apostolado porque Paulo defendia a liberdade frente à Lei de Moisés. Na Segunda Carta aos Coríntios (cap. 10–12) Paulo defende seu modo de pregar o Evangelho e a autoridade de seu apostolado, do qual tinha orgulho. No texto que ouvimos reconhece, porém, suas fraquezas. Paulo fala de um “espinho na carne” que o atormentava (doença, prisões, tentações, oposição de judeu-cristãos ou remorso de seu passado?), para que não se orgulhasse dos dons e das revelações recebidas de Cristo. Reconhece que a força de seu ministério vem de Cristo: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 4,18

O Espírito do Senhor, sobre mim fez a sua unção;

enviou-me aos empobrecidos a fazer feliz proclamação.

3. EVANGELHO: Mc 6,1-6

Um profeta só não é estimado em sua pátria.

Depois de ser batizado por João e tentado pelo demônio no deserto, Jesus iniciou sua atividade nas aldeias em torno do lago de Genesaré. A fama de seus milagres e de sua pregação já havia chegado até Nazaré. De fato, seus parentes o haviam procurado em Cafarnaum para tirá-lo de circulação, pois pensavam que estava ficando louco (3,21.31-35). Mas a pregação de Jesus sobre a boa-nova do Reino de Deus nem sempre tinha sucesso. Sua mensagem dividia o auditório. Havia os que o seguiam na esperança de serem beneficiados por algum milagre. Outros o seguiam para ouvir sua mensagem; outros, ainda, o seguiam apenas para contestar suas palavras e criticar suas ações. Jesus exemplifica as diferentes respostas dos ouvintes na parábola do semeador (Mc 4,1-20). No entanto, diante dos aparentes fracassos Jesus continuava confiante na semente da Palavra que semeava. As parábolas da “semente que cresce sozinha” e do “grão de mostarda” (4,26-32) no-lo demonstram claramente. Com esta confiança Jesus chega à aldeia de Nazaré, onde fora criado. Quando Jesus entra na sinagoga podemos imaginar que a expectativa em ouvi-lo era enorme. Logo, porém, da admiração pelos milagres e sabedoria de seu ensinamento os ouvintes passam para a desconfiança e o desdém. Desautorizaram a Jesus porque não estudou a Lei junto aos mestres da Lei em Jerusalém. Jesus não passava de um carpinteiro, um trabalhador braçal. Todo mundo conhecia sua mãe e seus familiares. Jesus ficou admirado da falta de fé de sua gente: “Um profeta só não é estimado em sua pátria entre seus parentes e familiares”. Diante da incredulidade dos conterrâneos, Jesus “curou apenas alguns doentes”. A primeira vez que Jesus entra numa sinagoga de Cafarnaum para ensinar todos reconhecem sua autoridade: “O que é isso? Uma doutrina nova dada com autoridade!” (1,27). A última vez que Jesus ensina numa sinagoga é na sua terra natal e dela sai desautorizado (6,29). Mesmo assim, continua ensinando nos povoados dos arredores e curando os doentes. O evangelho deve ser anunciado “quer te escutem, quer não” (1ª leitura). João Batista já dizia: “quem tem ouvidos [para ouvir Jesus], que ouça” (Mt 11,15).

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 01

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

SÃO PEDRO E SÃO PAULO – PILARES DA IGREJA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor nosso Deus, concedei-nos os auxílios necessários à salvação, pela intercessão dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, pelos quis destes à vossa Igreja os primeiros benefícios da fé”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo

para me libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes... Mas Jesus rezou por Pedro: “... eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5). Pedro foi libertado das correntes porque a palavra do Evangelho não podia ser acorrentada. Havia ainda uma longa missão a cumprir. Sabemos através de Paulo que Pedro esteve pregando em Antioquia da Síria e em Corinto. Segundo a tradição, Pedro e Paulo sofreram o martírio em Roma durante a perseguição aos cristãos promovida pelo Imperador Nero.

O Papa Francisco pede que continuemos rezando por ele, para que Deus o proteja de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;

E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. EVANGELHO: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo”. Os outros discípulos haviam trazido as opiniões colhidas entre o povo: Jesus seria um novo João Batista, ou Elias, ou Jeremias, ou mesmo, algum dos antigos profetas. Pedro deu a resposta mais precisa. Mas não era uma simples opinião pessoal (carne e sangue). Era o próprio Pai do céu que revelou isso a Pedro. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Nesta Igreja de Cristo Pedro recebe as chaves do Reino dos Céus (= Deus); isto é, o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes. Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu e prometeu rezar por ele para que confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu. Que o Espírito Santo ilumine o Papa Francisco a fim de que confirme nossa fé e nos conduza com segurança na construção do Reino de Deus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jun 10

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA – SATANÁS SERÁ DESTRUÍDO

LUDOVICO GARMUS

10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – SATANÁS SERÁ DESTRUÍDO –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”.

1. LEITURA: Gn 3,9-15

Porei inimizade entre a tua descendência

e a descendência da mulher.

Em Gn 2–3, Deus cria o ser humano como um ser comunitário; homem e mulher são “auxílio necessário”, um para o outro, a fim de viverem na comunhão de amor, planejada pelo Criador. Havia harmonia entre homem e mulher, harmonia entre o ser humano e as demais criaturas da terra (jardim de Éden) e harmonia com o Criador. Este é o projeto de Deus. Em Gn 2, porém, Deus não diz que “tudo que havia feito era muito bom”, como em Gn 1,31, pois esta harmonia é algo por ser ainda buscado. Na realidade ela é quebrada quando homem e mulher, por sugestão da “serpente” (símbolo do mistério do mal, satanás, adversário), comem do fruto proibido, que os faria “como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Em vez de se tornarem “como deuses”, percebem que estão nus; essa nudez significa não tanto o pudor, mas a limitação e carência do ser humano diante de Deus. Por isso se escondem. Deus, porém, visita o jardim, não apenas para punir a desobediência do ser humano, mas para socorrê-lo em sua carência e limitação. No interrogatório, Deus pergunta ao homem por que está se escondendo e ele responde que estava com medo porque estava nu. Deus o acusa de ter desobedecido ao comer do fruto proibido e ele responde, de certo modo, acusando a Deus: “Foi a mulher que me deste por companheira”. E a mulher ao ser interrogada joga a culpa na serpente, também uma criatura de Deus, como os outros animais (Gn 2,18-20). No fundo, a explicação da origem do mal recai sobre Deus. No livro da Sabedoria (2,24) o diabo é identificado com a serpente. Assim também em Jo 8,44; Ap 12,9; 20,2). Tiago, porém, adverte: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘É Deus que me tenta’. Pois Deus não pode ser tentado para o mal, nem tenta ninguém. Cada um é tentado pelo próprio mau desejo que alicia e seduz” (Tg 1,13-14). A serpente é punida e deverá arrastar-se pelo chão; a mulher é punida pela dominação que o marido sobre ela exerce e pelos sofrimentos de sua gravidez; o homem é punido pela dureza do trabalho na produção de alimentos. Começa a desarmonia entre Deus e o ser humano, entre homem e mulher e entre o homem e a terra. Deus nos deu a liberdade para podermos amá-lo. Seremos sempre atraídos pelo Sumo Bem e tentados para o Mal. Mas os descentes de “Eva” sempre poderão esmagar a cabeça da serpente, com Maria, a “Nova Eva”, e com Jesus Cristo, seu grande descendente.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 129

No Senhor toda graça e redenção.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Cor 4,13–5,1

Nós também cremos e, por isso, falamos.

Paulo está engajado, de corpo e alma, na luta da pregação do Evangelho. A pregação do Evangelho e a vida cristã são sustentadas pela fé no Cristo Ressuscitado. Paulo tem consciência de sua limitação humana e que tudo é graça, é dom de Deus. É movido pela esperança da vitória final sobre o mal e sobre a morte: “Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”. Porque “o último inimigo a ser reduzido a nada será a morte” (1Cor 15,26). Pois, como diz Paulo, à medida que nosso “homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior... vai se renovando”. É da fé em Jesus Cristo que brota a esperança da ressurreição.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

O príncipe deste mundo agora será expulso;

e eu, da terra levantado, atrairei todos a mim mesmo.

3. EVANGELHO: Mc 3,20-35

Satanás será destruído.

A luta permanente entre a Humanidade e a Serpente, entre o Bem e o Mal, da qual fala a primeira leitura, concretiza-se na vida pública de Jesus. A intensa atividade de Jesus, andando pelas aldeias, anunciado a boa nova do Reino de Deus, curando os enfermos e aleijados, expulsando os demônios deixava seus parentes e adversários preocupados. Os parentes de Jesus, preocupados com sua saúde física e psíquica, queriam tirá-lo do meio do povo, pensando que ele “estava fora de si”; isto é, possuído por um espírito, ou que estava “estressado” – diríamos nós. De fato, Jesus e os discípulos “não tinham nem tempo para comer”. De Jerusalém vem os mestres da Lei para examinar o caso e desautorizam Jesus, acusando-o de expulsar demônios em nome de Belzebu, o chefe dos demônios. Aos mestres da Lei Jesus responde que, ao expulsar os demônios, está combatendo o Satanás; por isso, o Reino de Deus que anuncia vai acabar com o reino do Mal. Aos seus familiares Jesus responde que agora tem uma nova família, isto é, seus discípulos e o povo que o acompanham. Olhando para eles, Jesus diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A urgência de anunciar a boa-nova do Reino de Deus exigiu de Jesus a opção radical de deixar sua própria mãe. O mesmo, Jesus exige daqueles que desejam abraçar sua missão: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Assumir a vida em família também tem suas exigências: “Por isso o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne” (Gn 2,24). Fazer a vontade de Deus é assumir as práticas de Jesus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 27

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

SANTÍSSIMA TRINDADE –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Dt 4,32-34.39-40

O Senhor é o Deus lá em cima no céu

e cá embaixo na terra, e não há outro além dele.

O texto que ouvimos é uma meditação sobre a história da relação de Israel com seu Deus e, ao mesmo tempo, uma catequese. O contexto é o do exílio, visto como uma punição devida às infidelidades cometidas. Longe do Templo e da terra prometida, Israel toma consciência de suas ingratidões e percebe melhor a presença de Deus ao longo de sua história. A meditação atribui a Javé, Deus de Israel, a criação do ser humano. O Deus criador é um só: “O Senhor é o único Deus... e não há outro além dele”. Foi este Deus que escolheu Israel dentre as nações como seu povo e com ele fala. Israel percebe que Deus intervém em sua história, sobretudo nos momentos de crise, e o salva. Em resposta, Deus pede a observância de seus mandamentos (cf. Dt 5,6-21), que se resumem num único: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (6,5). Jesus acrescentará: “E a teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,35-40). Deus nos envolve com seu amor e espera de nós uma resposta de amor, estendido ao nosso próximo.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 32

Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança.

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 8,14-17

Recebestes um espírito de filhos,

no qual todos nós clamamos: Abbá, ó Pai!

A sociedade greco-romana era escravagista. Em Roma, com cerca de um milhão de habitantes, mais de um terço da população eram escravos. Paulo escreve à comunidade de Roma, composta de judeus e pagãos convertidos. Pelo batismo, diz ele, os judeus deixam de ser escravos da Lei e os pagãos, de seus ídolos e da cultura escravagista (cf. Carta a Filêmon). Pelo batismo nos tornamos filhos adotivos – linguagem que os romanos entendiam – e somos introduzidos na família de Deus, que é Trindade e Comunhão. Pelo batismo recebemos o Espírito e Deus nos acolhe como filhos seus, a exemplo de Jesus. “Tu és meu filho amado” (Mc 1,11). Podemos clamar a Deus: “Abbá” / Papai! – como diziam os judeus a seu pai carnal.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Divino,

Ao Deus que é, que era e que vem, pelos séculos. Amém.

3. EVANGELHO: Mt 28,16-20

Batizai-os e nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

No Evangelho de Mateus, após a última ceia, Jesus anuncia que todos os discípulos o abandonariam. Pedro, então, jurou que jamais o haveria de abandonar; o mesmo repetiam os outros discípulos. Apesar de tudo, Jesus prometeu-lhes que, após sua ressurreição, iria à frente deles à Galileia para reunir-se com eles (26,30-35). No primeiro dia da semana duas mulheres foram visitar o túmulo e encontram-no vazio. Mas um anjo lhes explica que Jesus havia ressuscitado e que elas deveriam anunciar aos discípulos para se dirigirem à Galileia, onde se encontrariam com o Ressuscitado. Atendendo à mensagem das mulheres, os discípulos se dirigem para a Galileia, “ao monte que Jesus lhes havia indicado”. Em Mateus, o monte é o lugar apropriado para uma revelação divina. No Sermão da Montanha (Mt 5–7) temos a síntese da doutrina de Jesus; na Transfiguração (Mt 17,1-13) o Filho do homem se revela maior que Moisés e Elias. Agora, a missão que Jesus dá aos discípulos também acontece num monte. Na Galileia Jesus começou o anúncio do Reino dos Céus (4,12-17) e chamou os primeiros discípulos. É também na Galileia que se despede de seus discípulos e lhes confere a missão de irem pelo mundo inteiro, para fazer discípulos de Jesus todos os povos. Isso acontece pelo batismo em nome da Santíssima Trindade. Pelo batismo somos incluídos no mistério do Deus uno e trino, envolvidos por seu amor. Pelos ensinamentos somos introduzidos nas práticas do Reino dos Céus, ensinadas por Jesus. Este mandato deixado à sua Igreja tem a chancela do poder do Filho de Deus: “Toda a autoridade me foi dada...” Tem a promessa da presença permanente do Deus-conosco (Emanuel), nascido da Virgem Maria (1,23): “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (28,20). No dia de Pentecostes (domingo passado) ouvimos Jesus apareceu aos discípulos na noite da Páscoa, conferiu-lhes o dom do Espírito Santo e os enviou em missão. No Evangelho de hoje, em nome da Santíssima Trindade, Jesus envia em missão seus discípulos, mesmo os que “ainda duvidavam”, para batizar a todos os povos e ensinar-lhes “a observar tudo o que vos ordenei”.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 13

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA – ASCENSÃO DO SENHOR

LUDOVICO GARMUS

DOMINGO DA ASCENSÃO –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, como membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”.

1. LEITURA: At 1,1-11

Foi levado ao céu e sentou-se à direita de Deus.

Lucas escreveu dois livros: o Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Nestes livros ele divide a história da salvação em três tempos: a) o tempo da promessa é o Antigo Testamento até o final da atividade de João Batista; b) o tempo da realização da promessa, que é a vida pública de Jesus, desde o batismo de João Batista, quando Jesus é ungido pelo Espírito Santo, até a Ascensão ao céu; c) o tempo da Igreja, que se inicia com o dom do Espírito Santo. No trecho da Palavra de Deus que hoje escutamos Lucas lembra o seu primeiro livro no qual mostrou “tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. Isto é, desde o batismo de Jesus até o dia em que “foi elevado ao alto”. Mas esta frase também sugere que, no segundo livro, os Atos dos Apóstolos, vai falar daquilo que a Igreja, movida pela força do Espírito Santo, continuou a “fazer e ensinar”. – O tempo da Igreja é inaugurado pelo próprio Jesus Ressuscitado, que durante quarenta dias instrui os apóstolos sobre as “coisas referentes ao Reino de Deus”. Entre elas, Jesus recomenda que não se afastem de Jerusalém, até receberem o Espírito Santo. Alguns ainda lhe perguntavam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel?” Em vez do reino de Israel, Jesus lhes traça o programa do anúncio do Reino de Deus (missão), depois que recebessem o Espírito Santo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra”. Enquanto os apóstolos estão fitando os céus para onde Jesus se afastava, dois anjos lhes aparecem e dizem: “Por que ficais aqui parados, olhando para o céu?” É um chamado de volta à realidade do dia-a-dia. Jesus vai voltar um dia, sim, mas agora é o momento de cumprir a ordem de executar a missão delineada por Jesus: Com a força do Espírito Santo, eles devem ser testemunhas do Ressuscitado, em Jerusalém, na Judeia e Samaria, até os confins da terra. – O Papa Francisco nos pede para não ficarmos apenas parados, esperando a vinda do Senhor no fim dos tempos, mas nos desafia a sermos uma Igreja em saída.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 1,17-23

E o fez sentar-se à sua direita nos céus.

O Apóstolo nos convida a abrirmos o coração, para sabermos qual a esperança que o chamado divino nos dá, qual a riqueza de nossa herança com os santos e que imenso poder Deus exerce naqueles que nele creem. A força do Espírito Santo, derramado em nosso coração, é que nos envia em missão. O Espírito Santo é a força de Cristo, que o Pai “ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus”. O triunfo de Cristo, a Cabeça, é também o triunfo dos fiéis, que são “membros do seu corpo” (Oração).

3. EVANGELHO: Mc 16,15-20

Foi levado ao céu e sentou-se à direita de Deus.

Nos manuscritos mais antigos, o Evangelho atribuído a Marcos termina em 16,8: Na manhã do primeiro dia da semana, as mulheres visitam o túmulo e encontram-no aberto. Um anjo lhes explica que Jesus não estava mais ali, porque havia ressuscitado. O anjo, então, lhes ordena que avisem aos discípulos e a Pedro sobre o ocorrido e que devem ir à Galileia, onde verão o Ressuscitado. Mas elas fogem apavoradas sem dizer nada a ninguém. Este era o final original de Marcos, como consta nos códices manuscritos mais antigos. A síntese dos relatos sobre as aparições do Ressuscitado (v. 9-14), o relato da missão dada aos apóstolos e a ascensão de Jesus ao céu (v. 15-20), hoje proclamado, são tardios. Foram acrescentados mais tarde (II séc.), valendo-se das narrativas de outros evangelhos, sobretudo, João e Lucas. – O autor deste acréscimo lembra a aparição de Jesus a Maria Madalena, mas os discípulos não lhe dão crédito. O mesmo acontece quando os discípulos de Emaús lhes contam que tinham visto Jesus ressuscitado. A insistência na incredulidade dos discípulos é uma advertência a nós que somos convidados para crermos nas testemunhas da ressurreição, sem que tenhamos visto pessoalmente o Senhor (cf. Jo 20,25.29). Como em Mt 20,16-20, Jesus repreende a incredulidade dos onze; mesmo assim, os envia em missão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. Aponta como caminho da salvação a fé em Jesus Cristo e o batismo, e confere aos apóstolos o poder de fazer milagres. Por fim, lembra a ascensão de Jesus ao céu e como os discípulos cumpriram sua missão, com a assistência do Senhor, que confirmava a Palavra anunciada com milagres. O autor não fala diretamente do Espírito Santo, mas supõe sua ação permanente na missão da Igreja. A ascensão de Jesus ao céu marca o fim de sua missão aqui na terra e o começo da missão de seus discípulos (cf. Elias e Eliseu: 2Rs 2,9-18). “Por que ficais aqui, parados, olhando o céu?” – perguntavam os anjos aos apóstolos. Sejamos uma Igreja em saída, nos diz o Papa Francisco.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mai 06

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

6º DOMINGO DA PÁSCOA – AMAI-VOS UNS AOS OUTROS –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo Ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 10,25-26.34-35.44-48

O dom do Espírito Santo

também foi derramado sobre os pagãos.

Lucas, nos Atos dos Apóstolos, descreve como o Evangelho foi anunciado depois de Pentecostes, primeiro aos judeus (At 2). Depois, o diácono Estêvão começa a ser pregar o evangelho aos judeus de língua grega, que o apedrejam na presença de Paulo (At 6–7). Em seguida, o diácono Filipe prega aos samaritanos, separados do judaísmo oficial, e ao camareiro etíope, um pagão simpatizante do judaísmo (At 8). Domingo passado, Lucas nos falava de Paulo, que antes havia apoiado o apedrejamento de S. Estêvão, mas agora era um convertido à fé cristã. Depois que Barnabé o apresentou aos apóstolos, Paulo começou a pregar em Jerusalém aos judeus de língua grega (At 9). Na leitura de hoje, porém, Lucas quer mostrar que a iniciativa de Paulo, ao pregar o evangelho aos judeus de língua grega e aos pagãos, teve o apoio dos apóstolos e do próprio Pedro, chefe dos apóstolos. Levado pelo Espírito Santo, ele começou a pregar a fé em Cristo Ressuscitado aos pagãos. Quando é acolhido pelo comandante romano, Cornélio, Pedro conta-lhe a visão que teve em Jope; este, por sua vez, explica que o havia chamado para conhecer melhor a Jesus Cristo. Pedro então reconhece que “Deus não faz distinção de pessoas”, mas acolhe qualquer pessoa de qualquer nação, que teme a Deus e pratica a justiça. Enquanto Pedro falava, o Espírito Santo desceu sobre todos os ouvintes, assim como havia acontecido no Cenáculo no dia de Pentecostes. Ao ver o fenômeno, os judeu-cristãos que o acompanhavam ficaram perplexos e Pedro mandou que a família toda fosse batizada em nome de Jesus Cristo. Não havia como não serem batizados, pois o próprio Espírito Santo já havia sido derramado sobre eles. O espanto dos acompanhantes tornou-se uma crítica em Jerusalém à iniciativa de Pedro, e ele teve que se explicar aos judeu-cristãos de Jerusalém (cf. At 10–11). Lucas dá amplo espaço a esta narrativa, pela importância que o evento teve ao abrir uma nova fase para a difusão do cristianismo entre os pagãos. Com essa nova abertura ao mundo grego, aos poucos vai se concretizando o plano traçado por Jesus Ressuscitado, antes de sua Ascensão ao céu: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). Uma Igreja em saída é a novidade que o Espírito Santo nos propõe hoje pela boca do Papa Francisco.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 97

O Senhor fez conhecer a salvação

e revelou sua justiça às nações.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Jo 4,7-10

Deus é amor.

A primeira Carta de João, desde o início, é perpassada pelo tema do amor. Também o trecho que acabamos de ouvir é marcado pelo mesmo tema. Em apenas quatro versículos, as palavras “amar” ou “amor” aparecem dez vezes. O próprio Apóstolo João dirige-se aos irmãos de fé com palavras carinhosas, como “filhinhos”, “caríssimos” – isto é, muito amados. A comunhão de amor entre os cristãos expressa a comunhão de amor entre o Pai e seu Filho Jesus Cristo. Somente quando vivemos o amor fraterno entre nós, podemos dizer que conhecemos a Deus e dele nascemos. Assim nos tornamos seus filhos, “pois Deus é amor”. Não fomos nós que tomamos a iniciativa deste diálogo de amor. Foi Deus, a fonte do Amor, quem nos amou por primeiro, “enviando seu Filho único ao mundo para que tenhamos vida por meio dele”. Para que recebermos esta vida, o Filho único de Deus entregou sua própria vida por nós, morrendo “pelos nossos pecados”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Quem me ama realmente guardará minha palavra,

e meu Pai o amará, e a ele nós viremos.

3. EVANGELHO: Jo 15,9-17

Ninguém tem maior amor

do que aquele que dá a vida pelos amigos.

O evangelho que hoje ouvimos é uma explicitação da alegoria da videira e seus ramos, meditada no Domingo passado. Antes Jesus dizia: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”; somente assim poderemos produzir os frutos que Deus de nós espera. Hoje, nos é explicado o que significa este “permanecer” em Cristo e produzir fruto. É a nossa ligação contínua a Cristo e ao Pai pelo amor: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. Este amor que recebemos do Pai por meio de Jesus Cristo, simbolizado pela relação agricultor-videira-ramos, não é uma conquista nossa, mas uma livre escolha e dom de Deus, que nos amou primeiro: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi... para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça”. Jesus está se despedindo dos discípulos, após a última ceia; por isso podemos pedir o que quisermos e nos será concedido. Jesus, porém, nos deixa o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Esta é a condição para sermos atendidos em nossas orações.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 29

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

5º DOMINGO DA PÁSCOA – PERMANECEI EM MIM –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que creem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 9,26-31

Contou-lhes como tinha visto o Senhor no caminho.

Domingo passado ouvimos o discurso de Pedro, explicando ao povo que foi em nome de Jesus de Nazaré, “aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos”, que o paralítico foi curado. Na leitura de hoje Lucas nos apresenta Paulo, o futuro evangelizador dos gentios. Paulo, que antes aprovou o apedrejamento de Estêvão e perseguia os cristãos, agora volta a Jerusalém e procura juntar-se à comunidade cristã. Mas é visto com desconfiança. Barnabé, que era de origem grega como Paulo. Apresentou-o aos apóstolos e “contou-lhes que Paulo tinha visto o Senhor no caminho e de sua “coragem em anunciar o nome Jesus em Damasco. E assim Paulo foi acolhido pela comunidade de Jerusalém e começou a com entusiasmo aos helenistas; estes, porém, queriam matá-lo, como o fizeram com Estêvão. Mas os irmãos de fé o puseram a salvo, encaminhando-o a Cesareia Marítima e depois a Tarso, sua cidade natal. Lucas quer assim mostrar Paulo como alguém que está em comunhão com a Igreja-mãe de Jerusalém. A versão de Paulo sobre sua conversão e missão entre os pagãos é um pouco diferente (Gl 1,18-21). Ele diz que, em Jerusalém, “viu” apenas Pedro. Com isso afirma que sua maneira de pregar o evangelho era aprovada pelo chefe dos apóstolos. Paulo, portanto, estava unido à Igreja-mãe, como o ramo que produz fruto está unido à videira (evangelho, v. 5).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 21

Senhor, sois meu louvor

em meio à grande assembleia!

2. SEGUNDA LEITURA: 1Jo 3,18-24

Este é o seu mandamento:

que creiamos e nos amemos uns aos outros.

O autor desta carta insiste no que é essencial da vida cristã: nossa fé em Jesus Cristo e a vivência do amor fraterno. Nisto se resumem os mandamentos que devemos observar para agradar a Deus (evangelho). Não basta dizer que amo a Deus. É preciso concretizar este amor, amando de verdade os irmãos: “Não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!” É a vivência da fé em Cristo e a observância do amor fraterno que nos liga a Deus: “Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele”. Seremos como os ramos ligados à videira, que é de Deus (evangelho).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

Ficai em mim, e eu em vós hei de ficar, diz o Senhor;

quem em mim permanece, esse dá muito fruto.

3. EVANGELHO: Jo 15,1-8

Quem permanece em mim, e eu nele, produz muito fruto.

Na alegoria da videira, o evangelho de hoje explicita a união de Jesus com o Pai e nossa união com Deus, enquanto estamos unidos com Jesus. No AT Israel é a videira – a vinha que, apesar de bem cuidada por Deus, não produziu os frutos dela esperados (cf. Is 5,1-7). Jesus é a videira verdadeira que pertence a Deus, o agricultor. Jesus é de Deus. Dele são também os ramos, isto é, os fiéis, enquanto estão ligados a Jesus. Pela palavra de Jesus (v. 3), o Pai como agricultor faz a limpeza da vinha (a poda): corta fora os ramos sem vida e limpa os ramos que têm a seiva, para que produzam mais frutos. O cristão produz bons frutos enquanto recebe a seiva da videira, isto é, se deixa conduzir pelas palavras de Jesus. Por isso, para produzir bons frutos é necessário estar ligado a Cristo: “Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer”. Permanecendo em Jesus e nas suas palavras (o mandamento do amor), nos tornamos seus discípulos e glorificamos o Pai. Ele é o agricultor que se alegra com os bons frutos produzidos pelos ramos ligados à videira, que é seu Filho Jesus. O fruto que o Pai espera de nós é a fé que nos liga a Cristo, e a observância do mandamento do amor, que nos une como irmãos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 15

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA – ELE RESSUSCITOU

LUDOVICO GARMUS

3º DOMINGO DA PÁSCOA – APÓS A MORTE, A RESSURREIÇÃO!

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, que vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com confiança o dia da ressurreição”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 3,13-15.17-19

Vós matastes o autor da vida,

mas Deus o ressuscitou dos mortos.

Depois que Pedro e João curaram o paralítico, este os acompanhava por toda parte; isso atraiu muita gente para ver o maravilhoso acontecimento. Então Pedro tomou a palavra para explicar o acontecido. Não foram eles que o curaram, e sim, Jesus. Este Jesus, que o povo e as autoridades haviam rejeitado diante de Pilatos. Preferiram que lhes soltasse Barrabás, um assassino, e condenasse à morte Jesus, o “Santo e Justo”, o próprio “Autor” ou princípio “da vida”, por meio do qual Deus concede a Israel a conversão e o perdão dos pecados (5,31). Escolheram um assassino, que tira a vida, e rejeitaram a Jesus, aquele que dá a vida. – Os vários títulos dados a Jesus fazem parte da pregação dos primeiros cristãos. – O mais importante, porém, é o anúncio da ressurreição de Jesus, rejeitado “por ignorância” pelo seu povo. Pedro explica que, assim, Deus quis cumprir o sofrimento do Messias, anunciado pelos profetas. Ao dizer que Jesus foi rejeitado pelo seu povo “por ignorância”, Pedro se coloca no mesmo nível dos que ele acusa. Talvez, se lembrasse que ele próprio havia negado Jesus no tribunal judaico; mas arrependeu-se e foi perdoado. Experimentou a misericórdia divina e, por isso, exorta os ouvintes: “Arrependei-vos e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. No domingo passado (Jo 20,19-31) perdoou os discípulos que o traíram, negaram e abandonaram; deu-lhes também o Espírito Santo para perdoarem os pecados. Hoje, Pedro coloca-se como pecador perdoado, que anuncia a boa-nova do perdão e da reconciliação aos seus ouvintes.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 4

Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

2. SEGUNDA LEITURA: 1Jo 2,1-5ª

Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados,

e também pelos pecados do mundo inteiro.

Com palavras paternais, o autor da Carta exorta os cristãos do final do I século a não pecarem. Tem consciência que as pessoas podem tornar-se infiéis à primeira conversão, quando abraçaram a fé cristã e receberam o perdão dos pecados. Lembra, contudo, que, se alguém pecar, pode confiar em Jesus Cristo, o intermediário junto ao Pai, e ser novamente perdoado. Mas quem conhece/experimenta a misericórdia do perdão de Deus é convidado a observar os seus mandamentos, a fim de que nele se realize o seu amor divino.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 24,32

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura,

fazei o nosso coração arder, quando nos falardes.

3. EVANGELHO: Lc 24,35-48

Aleluia, Aleluia, Aleluia.

Assim está escrito: o Messias sofrerá

e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia.

Lucas fala de três manifestações de Jesus ressuscitado: Na primeira, algumas mulheres que seguiram Jesus desde a Galileia, visitam o túmulo e encontram-no vazio; dois anjos lhes explicam o que aconteceu: “Ele não está aqui, mas ressuscitou como havia prometido”. Elas não veem a Jesus. Mesmo assim, comunicam a notícia aos apóstolos, mas eles não acreditam (24,1-12). Depois, Jesus se manifesta a dois discípulos no caminho de Emaús. Quando estes voltam a Jerusalém e comunicam o acontecimento aos onze e aos discípulos reunidos, estes o confirmam: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão” (24,13-35). Por fim, no evangelho de hoje (v. 36-48), enquanto os apóstolos ouviam o relato dos discípulos de Emaús, Jesus aparece e os saúda: “A paz esteja convosco!” Mas eles se assustam, pensando ver um fantasma. Para tirar-lhes as dúvidas e confirmar que ressuscitou “de verdade”, Jesus mostra-lhes as mãos e os pés chagados. Como, apesar da alegria e surpresa, alguns ainda duvidassem, Jesus pede-lhes algo para comer e come diante deles (cf. At 10,41). Para crer na ressurreição, não basta um túmulo vazio. Agora eles têm provas que confirmam a identidade do Cristo ressuscitado com o Jesus histórico, que conviveu com seus discípulos na vida pública e morreu na cruz. Além destas provas, o próprio Jesus recorda o que havia dito sobre sua morte e ressurreição e abre-lhes a inteligência para compreenderem o que as Escrituras dele falavam. Por fim, aponta-lhes a futura missão: Como testemunhas qualificadas, deveriam anunciar em seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (cf. At 1,8). – A fé na ressurreição de Cristo a uma vida nova de cristãos reconciliados com Deus e com os irmãos.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

abr 08

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

2º DOMINGO DA PÁSCOA – MEU SENHOR E MEU DEUS –

* Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o espírito que nos deu nova vida, e o sangue que nos redimiu”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 2,32-35

Um só coração e uma só alma.

Nos Atos dos Apóstolos, Lucas dirige-se de modo especial aos cristãos de origem pagã, que viviam fora da Palestina, depois do ano 80. Jerusalém já tinha sido destruída no ano 70, mas para Lucas a comunidade que ali vivia depois de Pentecostes continuava sendo um modelo para os cristãos da 2ª geração. Era uma comunidade movida pela fé no Cristo ressuscitado e animada pelo Espírito Santo, sobre ela derramado. Viviam em comunhão fraterna, eram ouvintes assíduos no ensinamento dos apóstolos, nas “reuniões em comum, no partir do pão e nas orações” e na partilha dos bens com os mais pobres, esperando que Cristo voltasse logo (At 2,42.44-45). Para viver esta partilha de bens com os necessitados, havia os que vendiam até suas propriedades e depositavam o valor aos pés dos apóstolos. Luca cita o exemplo de Barnabé, que será o futuro companheiro de Paulo nas viagens missionárias. Chega a exagerar, dizendo que “não havia necessitados entre eles”. Sabemos, porém, que havia muitos pobres em Jerusalém; para socorrê-los foram então escolhidos sete diáconos, para melhor atender os cristãos de língua grega (6,1-7). Mais tarde, por ocasião de uma grande seca, a comunidade de Antioquia enviou auxílio à de Jerusalém (11,27-30) e Paulo fez coletas para socorrer os pobres da Igreja-mãe (2Cor 8–9). Lucas quer dizer com isso que os primeiros cristãos colocavam o amor fraterno em primeiro lugar e não os bens deste mundo. Por isso os apresenta como modelo. Quem se coloca no “caminho” da vida cristã transforma a sua vida para viver, em comunidade, a vida fraterna e o Reino de Deus sonhado por Jesus.

SALMO RESPONSORIAL

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom;

eterna é a sua misericórdia.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Jo 5,1-6

Todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo.

O cristão é convidado a viver a comunhão de amor com Deus e com os irmãos. O critério para sabermos se estamos em comunhão com Deus é o amor vivido com os irmãos (4,19-21). No texto que ouvimos, o autor da Carta nos diz que o amor que vivemos com Deus e com os irmãos é um dom do próprio Deus. Amamos a Deus porque, pelo batismo, nascemos de Deus. Este amor nasce da fé em Jesus, o Messias e Filho de Deus (cf. Jo 20,30-31). A fé nos torna filhos de Deus e nos leva a observar os seus mandamentos, especialmente, o mandamento do amor (cf. Jo 13,14-15.34-35).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Aleluia, Aleluia, Aleluia!

Acreditaste, Tomé, porque me viste.

Felizes os que creram sem ter visto.

3. EVANGELHO: Jo 20,19-31

Oito dias depois, Jesus entrou.

O Evangelho que acabamos de ouvir fala de duas aparições do Ressuscitado, no “primeiro dia da semana”. Foi a partir deste dia que começou a fé em Cristo ressuscitado. Desde então, a vida pública de Jesus, seus ensinamentos aos discípulos e os “sinais” em favor dos doentes, pobres e pecadores ganharam um sentido. As manifestações do Ressuscitado acontecem quando os discípulos estão reunidos. Por isso, este dia passou a ser chamado “dia do Senhor”, dies Domini, ou Domingo, dia preferido para as reuniões em que se celebra a Eucaristia e se comemora a ressurreição do Senhor Jesus (cf. At 20,7-12; 1Cor 16,2; Ap 1,10). A presença de Jesus ressuscitado “invade” a reunião dos discípulos ainda com medo dos judeus, e lhes comunica a paz. Agora Jesus se reconcilia com os discípulos que o abandonaram, perdoando-lhes a infidelidade. A paz comunicada por Jesus é fruto do perdão divino, que reconcilia a pessoa consigo mesma, com o próximo e com Deus. Concede-lhes o poder de perdoar na comunidade em nome de Jesus. Jesus não restringe este poder aos dirigentes da Igreja. Concede-o a cada cristão: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido...” Um dos dons principais que Deus nos concede é o perdão de nossos pecados. A comunidade pós-pascal é uma comunidade reconciliada com Deus e com os irmãos. É uma comunidade onde reina o amor e a paz, fruto da fé no Ressuscitado a ser comunicada aos outros. Por isso Jesus os envia em missão: “Recebei o Espírito Santo” (...). “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados...” – Tomé, porém, não estava presente na primeira manifestação do Ressuscitado e permanecia incrédulo aos que lhe diziam: “Vimos o Senhor!” Só acreditarei, dizia Tomé, se puder tocar as chagas de suas mãos, dos pés e do lado. Oito dias depois, de novo, Jesus se põe no meio dos discípulos reunidos, comunica-lhes a paz, e convida Tomé tocar suas chagas. Tomé reconhece a Jesus e o adora: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus o repreende: “Acreditaste porque me viste?” Assim, Tomé começou a fazer parte das testemunhas privilegiadas da ressurreição do Senhor; são testemunhas porque puderam ver e tocar o Ressuscitado, e comer com ele. Mas João, no final do 1º século, escreve para cristãos que não conheceram a Jesus histórico, nem ouviram as testemunhas privilegiadas da ressurreição, que já tinham morrido. Mesmo assim creram. A estes cristãos, e a nós, Jesus diz: “Bem aventurados os que creram sem terem visto”. Felizes somos também nós, que cremos em Cristo Ressuscitado, sem tê-lo visto.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

mar 18

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA: O GRÃO DE TRIGO

LUDOVICO GARMUS

5º DOMINGO DA QUARESMA – O GRÃO DE TRIGO PRECISA CAIR NA TERRA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor nosso Deus, dai-nos por vossa graça caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 31,31-34

Concluirei uma nova aliança, e não mais lembrarei o seu pecado.

Jeremias já era profeta quando, em 622, o rei Josias, apoiado pelos sacerdotes e os anciãos, renovou a Aliança com Deus, centralizou o culto no templo de Jerusalém e proibiu o culto a outros deuses. Mas esta aliança, feita outrora no deserto por de Moisés, foi muitas vezes violada por Israel. Mesmo durante a vida de Josias ela foi rompida, por patrões, que atendendo as exigências da Lei, tinham libertado seus escravos, mas tornaram a escravizá-los, quando os babilônios aparentemente levantaram o cerco de Jerusalém. Mas, Jerusalém foi tomada e destruída pelo inimigo e muitos foram levados para o exílio. Aqui, Jeremias promete não mais uma renovação da aliança do Sinai, tantas vezes violada, mas uma nova aliança. Deus a fará com os sobreviventes do reino de Israel, destruído pelos assírios e do reino de Judá, pelos babilônios. Os termos da aliança não serão mais escritos em pedra (como a aliança do Sinai), mas inscritos no coração de cada pessoa. Deus levará de volta o seu povo ao deserto para “falar-lhe ao coração” (cf. Os 2,16). Vai arrancar o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, humano e sensível, capaz de receber o Espírito do Senhor (cf. Ez 36,26-27). A Lei não precisará mais ser ensinada, mas será vivida porque todos “conhecerão” e terão a experiência do amor misericordioso de Deus, que tudo perdoa.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 50(51)

Criai em mim um coração que seja puro.

2. SEGUNDA LEITURA: Hb 5,7-9

Aprendeu a obediência e tornou-se causa de salvação eterna.

O texto que ouvimos é uma interpretação da cena da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, descrita pelos evangelistas. O autor não esconde a angústia de Jesus frente à morte, que faz parte da vida humana, nem as preces, súplicas e lágrimas para que o Pai o livrasse desta hora (evangelho: “Pai, livra-me desta hora”). Destaca, porém, que Jesus aprendeu a ser obediente e assim tornou-se causa de salvação para os que o imitam na obediência. É como Paulo diz na Carta aos Hebreus: “Ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas preparaste-me um corpo...Eis-me aqui, ó Deus, venho para fazer a tua vontade’” (Hb 10,5-7). Afirma que a oração de Jesus foi atendida pelo Pai (5,7), sem livrá-lo da morte, mas glorificando-o pela ressurreição (cf. Fl 2,5-11; Is 52,13–53,12).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

Glória a vós, ó Cristo, verbo de Deus.

Se alguém me quer servir, que venha atrás de mim;

e onde eu estiver, ali estará meu servo.

3. EVANGELHO: Jo 12,20-33

Se o grão de trigo cair na terra e morrer, produzirá muito fruto.

Alguns judeus de origem grega se dirigem a Filipe e André porque “queriam ver a Jesus”. Ambos eram de Betsaida, a região mais helenizada da Galileia. André fazia parte dos seguidores de João Batista e, encaminhado pelo Batista, é o primeiro a seguir a Jesus. Filipe é o primeiro discípulo que Jesus chama diretamente para segui-lo. André já tinha chamado seu irmão Simão Pedro para conhecer a Jesus (Jo 1,40-42). Filipe, por sua vez, tinha chamado Natanael para conhecer Jesus de Nazaré (Jo 1,45-51). Eles vão até Jesus e expõem o pedido dos gregos. Jesus, porém, lhes dá uma resposta que inicia uma virada no Evangelho de João: conclui a primeira parte do Evangelho (Jo 1,19–12,50: “Livro dos Sinais”) e dá início ao “Livro da Exaltação (13–20): “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Jesus várias vezes já havia falado desta sua “hora” (Jo 2,4; 4,21.23; 5.25.28; 7,30; 8,20). É a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta glorificação coincide com sua exaltação e morte na cruz e culmina com a ressurreição. A chegada desta “hora” é comunicada por Filipe e André em primeiro lugar aos gregos que desejavam ver a Jesus. No “Livro dos Sinais” Jesus se dirigia, sobretudo, aos judeus. Chegando a “hora” de sua exaltação dirige-se a todos, especialmente, aos gregos: “É necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (evangelho do 4º Domingo!). Também os pagãos! O Filho do Homem entrega sua vida, morre como o grão de trigo, para produzir fruto. Para estar com Jesus o discípulo deve ter a mesma disposição do Mestre: “Quem se apega à sua vida, perde-a, mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conserva-a para a vida eterna”. Estar com Jesus é estar com Ele em sua agonia (cf. Mt 26,36-46). O Evangelho de João vê Jesus através de sua glorificação, mas não esconde o drama humano de sua existência (cf. 2ª leitura).

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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