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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

set 17

JESUS TRAZ UM NOVO PRECEITO

LUDOVICO GARMUS

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – EIS UM NOVO MANDAMENTO –

 *Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

 I - PRIMEIRA LEITURA: Eclo 27,33–28,9

Perdoa a injustiça cometida por teu próximo;

quando orares, teus pecados serão perdoados.

 O autor destas palavras é um sábio (200 a.C.), que dá conselhos a seus ouvintes. Para viver uma vida feliz aponta algumas condições: 1) libertar-se do rancor e da vingança contra o ofensor; 2) perdoar a injustiça cometida pelo próximo, porque, quando orar, seus pecados serão perdoados; 3) quem guarda rancor contra o próximo e dele não se compadece, quando pedir perdão de seus pecados não será atendido; 4) lembrar-se que um dia iremos morrer e prestar contas a Deus; 5) Pensar na aliança que Deus fez conosco e não levar em conta a falta alheia (Evangelho). – Jesus inclui o pedido de perdão na oração do Pai-Nosso.

 SALMO RESPONSORIAL: Sl 102

O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso.

 II - SEGUNDA LEITURA: Rm 14,7-9

Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.

 O apóstolo Paulo escreve à comunidade cristã em Roma. Era uma comunidade mista, composta por cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã. Por informações do o casal judeu-cristão, Áquila e Priscila, expulsos de Roma (cf. At 18,1-4), Paulo sabia das tensões entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã, motivadas por diferenças culturais e costumes alimentares (Rm 14,1-6). Um judeu-cristão, por exemplo, não comia carne vendida no mercado público, porque podia ser carne de animal sacrificado aos ídolos pagãos. No caso de uma refeição em comum, Paulo recomenda que o gentio-cristão, acostumado a comer de tal carne, se abstenha de comê-la em respeito à consciência “fraca” do judeu-cristão (cf. 1Cor 8,1-13). O importante, diz Paulo, é que tanto quem come de tudo com quem se abstêm de algum alimento, ambos devem dar graças a Deus (Rm 14,6). No texto que acabamos de ouvir (v. 7-9), Paulo insiste no essencial que une a todos os cristãos: Cristo Jesus. Não vivemos nem morremos para nós mesmos. Vivemos e morremos para o Senhor, porque pertencemos todos ao Senhor. O que importa é que Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos.

 ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu vos dou este novo mandamento,

nova ordem, agora, vos dou;

que, também, vos ameis uns aos outros

como eu vos amei, diz o Senhor.

III - EVANGELHO: Mt 18,21-35

Não te digo perdoar até sete vezes,

mas até setenta vezes sete.

 O texto hoje lido faz parte do assim chamado “sermão da comunidade” de Mateus. A passagem começa com a pergunta de Pedro sobre o perdão das ofensas (v. 21-22) e continua com a parábola do devedor cruel (v. 23-35), ambas exclusivas de Mt. O evangelista, depois de tratar do perdão de ofensas graves que envolvem a comunidade cristã (cf. domingo passado: v. 15-20), fala agora do limite do perdão entre duas pessoas da comunidade. É Pedro que, em nome dos discípulos, introduz a questão com uma pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” No judaísmo rabínico o limite máximo para o perdão fraterno era de até quatro vezes. Na pergunta, Pedro amplia o imperativo do perdão para sete vezes, número considerado perfeito. Na resposta, Jesus amplia de certa forma o imperativo do perdão até o infinito: “Não te digo, até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Porque o perdão de Deus é gratuito, é fruto de seu amor infinito. O amor de Deus é a medida do amor ao próximo e também do perdão a ele dado ou dele recebido: “Se perdoardes as ofensas dos outros, vosso Pai celeste também vos perdoará” (Mt 6,14).

O perdão é gratuito, mas supõe por parte do ofensor a disposição de pedir e acolher o perdão oferecido por Deus, como aprendemos na Oração do Senhor: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. É o que Jesus nos ensina na parábola do devedor cruel (Mt 18,23-35). Um homem devia ao seu patrão uma enorme fortuna, simplesmente impagável. No acerto de contas, o patrão mandou que o empregado fosse vendido, com mulher e filhos e com tudo que possuía, para pagar ao menos parte da dívida. O empregado, porém, prostrado aos pés do patrão, suplicava: “Dá-me um tempo e eu te pagarei tudo!” O patrão, cheio de compaixão, perdoou tudo o que o empregado lhe devia e mandou soltá-lo. Este, porém, logo que saiu, foi cobrar uma insignificante dívida de seu companheiro; agarrou-o e quase o sufocando dizia: “Paga-me o que deves”. O pobre do companheiro lhe suplicava: “Dá-me um tempo e te pagarei tudo”. Mas o empregado não quis saber e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse a divida. Ao saber disso, o patrão, cheio de indignação mandou chamar o empregado cruel e lhe disse: “Eu te perdoei tudo porque me suplicaste. Não devias também tu ter compaixão de teu companheiro como eu tive de ti?” E o empregado foi entregue aos torturadores até que pagasse tudo. – Na minha relação com o próximo sou mais parecido com o Pai misericordioso ou ao empregado cruel? O perdão que pedimos e o perdão que damos aos outros são a melhor preparação para celebrarmos dignamente a Eucaristia.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
   

set 03

AS RENÚNCIAS EXIGIDAS PELO EVANGELHO

LUDOVICO GARMUS

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O EVANGELHO EXIGE RENÚNCIAS –

 *Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

PRIMEIRA LEITURA: Jr 20,7-9

A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha.

Jeremias não escolheu ser profeta do Senhor. Foi escolhido por Deus, conforme no-lo conta (1,4-10), desde o ventre materno. Os tempos em que vivia eram difíceis: O reino de Judá, após a morte do rei justo Josias, teve maus governantes, a sociedade era injusta e violenta, a religião era ameaçada pela prática da idolatria e sincretismo religioso. A missão que recebeu de Deus era bastante negativa: “Dou-te hoje – disse-lhe o Senhor – o poder sobre nações e reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e plantar”. Seus ouvintes – reis, príncipes do povo, sacerdotes, juízes e as pessoas ricas – não gostavam de ouvir suas repreensões e ameaças de castigo, como invasão estrangeira, destruição do templo, exílio, etc. Por isso, até os próprios conterrâneos o odiavam, negavam-lhe o casamento (11,18-23; 16,1-9), afastavam-se dele e o ameaçavam de morte para fazê-lo calar. O texto que ouvirmos mostra que o profeta tinha vontade de desistir e largar tudo; por isso, ele se desabafa diante de Deus, que o conforta e anima a prosseguir na missão recebida. Algo muito forte dentro dele dizia que devia continuar falando coisas desagradáveis para seus ouvintes que não queriam converter-se, zombavam dele e até o ameaçavam, mas necessárias para o bem-estar e salvação do povo.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 62

A minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!

SEGUNDA LEITURA: Rm 12,1-2

Oferecei-vos em sacrifício vivo.

Paulo nos convida a viver o evangelho de hoje: Não pensar como o mundo (“ganhar a vida”), mas “perder a vida” por amor a Jesus e de seu Evangelho, oferecendo-a “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, isto é, colocando-se a serviço do próximo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Ef 1,17-18

Que o Pai do Senhor Jesus Cristo nos dê do saber o espírito;

Conheçamos, assim, a esperança à qual nos chamou, como herança!

EVANGELHO: Mt 16,21-27

Se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo.

Domingo passado ouvimos Pedro confessando Jesus como o Cristo e Filho de Deus. Jesus, então, falava em edificar sua Igreja sobre esta confissão de Pedro e lhe prometia o poder de ligar e desligar, as chaves do Reino dos Céus; isto é, confiava-lhe a direção de sua Igreja. Pedro e os apóstolos tinham os seus próprios sonhos e expectativas a respeito de Jesus, agora, reconhecido como o Messias esperado. Mas, hoje, no evangelho que acabamos de ouvir, Jesus começa a explicar-lhes de que forma ele será o Messias. A viagem que faziam a Jerusalém não terminaria em triunfo, mas na sua rejeição pelos chefes do povo e na sua condenação à morte. Pedro, elogiado no domingo anterior, sente-se no direito de censurar Jesus por ideias tão negativas e assustadoras. Mas Jesus o repreende severamente: “Vai para longe, Satanás!” Não era Pedro que devia guiar Jesus, mas, sim, colocar-se no seguimento do Mestre. Pedro pensava como os homens pensam e não como Deus. Em seguida, Jesus se volta para os discípulos e expõe qual é o pensamento de Deus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, vai salvá-la”. Lucas diz que Jesus falou isso para “as multidões que o seguiam”; portanto, também para nós. Quando o evangelho de Mateus foi escrito, após o ano 70, seguir a Jesus significava carregar a sua cruz, o desprezo, as perseguições e a própria morte [1ª leitura]. Mas a meta final desta viagem a Jerusalém é a ressurreição de Cristo. Assim o é também para todos nós: “Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai... e retribuirá, a cada um, de acordo com a sua conduta”.

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 *Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
   

ago 27

TU ÉS PEDRO!

LUDOVICO GARMUS

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – TU ÉS O CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, daí ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 22,19-23

Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi.

Isaías denuncia Sobna, que administrava o palácio real (casa real de Davi), por causa de sua política externa equivocada e do desvio de bens públicos. Anuncia que Deus cassará seu ofício e transferirá o “poder das chaves” para Eliacim, que será o novo administrador. – Como o administrador age em nome do rei e participa de seu poder, assim também Pedro participa do poder de Cristo, descendente de Davi, e age em seu nome (Mt 16,19).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 137 (138)

Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!

Completai em mim a obra começada!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 11,33-36

Tudo é dele, por ele, e para ele.

Em Rm 9–11. Paulo sente dor e espanto pelo fato de o povo judeu herdeiro legítimo das promessas não ter acolhido Jesus como o Salvador e Messias prometido. Mas vê nisso a sabedoria de Deus, que abriu o caminho da salvação antes para os pagãos, através de seu ministério. Tem esperança, porém, que um dia também os judeus, como povo eleito que são, acolherão a salvação, pois Deus jamais rejeita os que ele escolheu.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja;

E os poderes do reino das trevas jamais poderão contra ela!

3.EVANGELHO: Mt 16,13-20

Tu és Pedro, e eu te darei as chaves do Reino dos céus.

Depois que Jesus foi rejeitado pelos seus conterrâneos em Nazaré (13,54-58) e ficou sabendo da morte de João Batista, procura estar a sós e refletir sobre sua missão (14,1-13). Então, há uma virada na atividade de Jesus. Desacreditado pelos escribas e fariseus (Mt 16,1-4) e mal entendido pelos próprios discípulos (16,5-12), Jesus se retira para a região isolada de Cesareia de Filipe, a fim de dedicar mais à formação dos discípulos. É neste “retiro” que lhes pergunta sobre as expectativas do povo ao seu respeito: “Quem as pessoas dizem que é o Filho do Homem?”

Nas respostas, alguns viam uma continuidade entre a pregação de Jesus e a de João Batista; outros achavam que era o Elias esperado Dia do Senhor, para o fim dos tempos, que traria a renovação total do povo de Deus (Ml 3,22-24); outros viam em Jesus um profeta, corajoso como Jeremias, que enfrentava as autoridades religiosas e civis.

Quando Jesus pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” é Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. – Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de “apascentar as ovelhas e os cordeiros” (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Cristo. Pois a Igreja é constituída dos que nele creem: “E vós também, como pedras vivas, tornai-vos um edifício espiritual” (1Pd 2,5). – Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jurou que seria sempre fiel a Jesus, mas o negou três vezes. Mesmo assim, Jesus o escolheu e rezou por ele para confirmasse seus irmãos na fé (Lc 22,31-34). Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador e pede nossas orações. Ele nos confirma na fé, como o fez na IMJ e na recente visita aos católicos da Coreia do Sul.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 20

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA: MARIA ELEVADA AOS CÉUS

LUDOVICO GARMUS

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA - 

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm - 

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab

Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés.

O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios. Segundo a lenda, a arca foi escondida numa caverna pelo profeta Jeremias, para ser reapresentada “quando de novo Deus for propício e reunir a comunidade” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a arca da aliança reaparecerá no Templo da nova Jerusalém, substituindo a antiga aliança pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão, representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15) e, de fato, esmagou por Maria Mãe de Jesus, o qual nos trouxe a salvação (Ap 12,10).

Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 44(45)

À vossa direita se encontra a rainha,

com veste esplendente de ouro de Ofir.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15,20-27ª

Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo.

Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Maria é elevada ao céu,

alegram-se os coros dos anjos.

3. EVANGELHO: Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor:

elevou os humildes.

O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também as crianças, João Batista (o Precursor) e Jesus (o Salvador prometido). Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus, por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída/assumida por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (L. Boff).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 13

NELE, PODEMOS CONFIAR

LUDOVICO GARMUS

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MANDA-ME IR AO TEU ENCONTRO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus, eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, par alcançarmos um dia a herança que prometestes”.

1 . PRIMEIRA LEITURA: 1Rs 19,9a.11-13ª

Permanece sobre o monte na presença do Senhor.

No seu zelo pelo Deus verdadeiro Elias provocou um massacre dos sacerdotes de Baal, divindade promovida pela rainha Jezabel. A rainha decidiu matar Elias, que foge para o deserto e, desanimado, deseja morrer. Mas um anjo o socorre com pão e água. Reanimado, Elias continua andando até o monte Horeb, onde passou a noite numa caverna. No dia seguinte, Deus manda Elias esperar sua manifestação no alto da montanha. Houve então um vento violento, depois, um terremoto e em seguida um fogo, mas Deus não se manifestou em nenhum deles e sim, numa brisa suave. Ao perceber a presença divina, Elias cobriu seu rosto com um véu e ouviu Deus, que lhe falava. – Deus não se manifesta necessariamente na força, no barulho e na violência, mas prefere o silêncio, a paz e a suavidade. Um recado para nossas liturgias barulhentas: Rezamos, falamos para Deus, cantamos e fazemos muito barulho... Será que abrimos um pequeno espaço de silêncio para deixar que Deus nos fale? – O melhor caminho para encontrar-se com Deus, lembra o profeta Isaías, é “deixar de fazer o mal e aprender a fazer o bem” (1,16-17); sem isso, de nada valem as mais belas liturgias (Is 1,10-15). É melhor dizer no silêncio de seu coração, como o publicano “ó meu Deus, tem piedade de mim, pecador”, do que louvar a Deus, achando-se melhor que os outros, como o fariseu (Lc 18,9-14).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 84

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,

e a vossa salvação nos concedei!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 9,1-5

Eu desejaria ser segregado em favor de meus irmãos.

Paulo se lamenta, cheio de dor, pelos seus irmãos de sangue e fé judaica, por não terem aderido à fé em Cristo. Desejava ser o apóstolo no meio dos judeus. Desejava ser escolhido por Cristo em favor de seus irmãos judeus. Deus, porém, o chamou para falar aos pagãos. Lucas lembra que numa celebração da liturgia, o Espírito Santo disse: “Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os chamo” (At 13,1-3); tratava-se da missão entre os pagãos. Paulo reconhece a herança comum que os cristãos têm com os judeus e é grato por Cristo ter vindo do judaísmo. Também nós somos chamados a ter um relacionamento de gratidão e respeito pelos judeus, pelo muito que do judaísmo recebemos.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu confio em nosso Senhor, com fé, esperança e amor;

Eu espero em sua palavra, Hosana, ó Senhor, vem, me salva!

3. EVANGELHO: Mt 14,22-33

Manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.

Os milagres da natureza (“multiplicação” do pão) e o caminhar de Jesus sobre a água querem nos dizer mais do que, simplesmente, contar um milagre. Mateus, no cap. 8,23-27, ao contar o milagre da tempestade acalmada, quer ilustrar o seguimento de Jesus. No texto que escutamos (14,22-33) Mateus quer focalizar a atitude dos discípulos e instruí-los sobre a verdadeira fé. A vida cristã acontece em meio às tempestades e adversidades do dia-a-dia. Na celebração da Missa, quando o sacerdote nos saúda “O Senhor esteja convosco”, nós respondermos “Ele está no meio de nós”. Mesmo assim, em momentos difíceis, pode surgir a dúvida concreta que afligiu o povo de Israel no deserto: “O Senhor está, ou não está, no meio de nós?” (Ex 17,17). Assim aconteceu com o profeta Elias, que fugiu para o deserto, desanimado de sua luta pela fé no verdadeiro Deus. No silêncio do deserto, porém, teve um encontro com Deus, que lhe deu forças para continuar sua missão (1ª leitura). A fé na presença de Deus torna-nos capazes de fazer coisas incríveis. – Pedro, por exemplo, quando viu Jesus caminhando sobre as águas do mar agitado pediu-lhe para fazer a mesma experiência. Jesus lhe disse: “Vem!” Na presença de Jesus (ressuscitado) parecia fácil e Pedro começou a caminhar. Mas, ao sentir o vento, duvidou da presença do Senhor e, com medo de afundar, pôs-se a gritar: “Senhor, salva-me!” Jesus logo veio em socorro e disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” Imediatamente, todos na barca sentiram a presença do Senhor , prostraram-se diante dele e disseram: “Tu és o Filho de Deus”.

Pedro e os discípulos representam a todos nós. Nossa fé pode fraquejar, mas Jesus sempre vem em nosso socorro quando a Ele clamamos. Nele podemos confiar porque verdadeiramente é o Filho de Deus.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

jul 30

PEDISTE-ME SABEDORIA

LUDOVICO GARMUS

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O REINO DE DEUS E SUA JUSTIÇA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam para abraçar os que não passam”.

1. PRIMEIRA LEITURA: 1Rs 3,5.7-12

Pediste-me sabedoria.

Salomão, apenas nomeado e ungido rei de Israel e Judá, foi oferecer sacrifícios em Gabaon. Estava preocupado com seu plano de governo, para substituir seu pai Davi no trono. Em sonho, o próprio Deus lhe diz: “Pede o que desejas, e eu te darei”. E Salomão não pediu riquezas nem vida longa, ou a morte de seus inimigos. Mas Salomão, jovem e inexperiente, pediu apenas “um coração compreensivo”, isto é, o dom da sabedoria, para governar o povo com justiça. Praticar a justiça para o rei significava julgar os pobres com justiça e coibir a violência e opressão dos grandes e poderosos contra os pequenos, como o órfão, a viúva, o estrangeiro. Para isso precisava de um “coração compreensivo” para governar bem o povo de Deus. Desejava o dom da sabedoria para buscar sempre o melhor para o bem-estar do povo. – Logo em seguida conta-se como o rei fez justiça entre duas pobres mulheres (prostitutas), que, tendo morrido o filho de uma delas, disputavam o filho ainda vivo.

Estamos vivendo em tempos de graves crises, tanto a nível mundial como, especialmente em nosso país. A falta de sabedoria em nossos políticos e governantes provoca o escândalo da injustiça, da corrupção e da violência, como estamos vivendo em nossos dias. Peçamos a Deus que ilumine nossos políticos e governantes com o dom da sabedoria, a fim de que busquem o bem do povo mais pobre e não os interesses pessoais ou de grupos.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 118

Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 8,28-30

Ele nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho.

Paulo medita sobre o projeto de Deus a nosso respeito. Tudo começa com seu projeto de amor para conosco. “Desde sempre” Deus quis nos tornar conformes à imagem de seu Filho. Deus nos ama como seus filhos adotivos e irmãos de Cristo. Quer, assim, que seu Filho seja o primogênito no meio de uma multidão de irmãos. Deus já glorificou seu Filho Jesus Cristo e quer que nós, irmãos de Jesus Cristo, participemos da mesma glória. Esta fé e esperança anima a vida do cristão.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra:

os mistérios do teu Reino aos pequenos, Pai, revelas!

3. EVANGELHO: Mt 13,44-52

Ele vende todos os seus bens e compra aquele campo.

O Evangelho que ouvimos contém as últimas três parábolas (exclusivas de Mateus) e a conclusão do “sermão das parábolas” de Mt 13: parábola do tesouro escondido, parábola da pérola preciosa e a parábola da rede. Jesus continua explicando o que é o Reino dos Céus (Deus). A parábola do tesouro escondido mostra a gratuidade do achado: o homem estava passando por um campo e o “encontra por acaso” e investe tudo que tem para comprar aquele campo, por causa do tesouro escondido. O encontro não era premeditado. É a experiência do deixar-se surpreender por Deus, da qual o Papa Francisco falava aos jovens na JMJ. Deus gosta de nos surpreender... A parábola da pérola preciosa mostra outra faceta: o mercador lidava com pérolas, sabia o que procurava e o que queria; mesmo assim é surpreendido por uma pérola que jamais havia sonhado encontrar. Estas duas parábolas fazem parte da experiência pessoal de Mateus/Levi: Na sua banca de cobrador de impostos lidava com moedas, mas Jesus o surpreende com o convite: “Segue-me!” E Levi/Mateus larga tudo, faz uma festa de despedida para seus amigos e segue a Jesus, porque encontrou o tesouro escondido (Lc 5,27-29). – O seguimento de Jesus, o reino de Deus, exige de nós um “investimento total” e prioritário: “Buscai o reino de Deus e a sua justiça e tudo mais vos será dado de acréscimo” (Mt 6,33). – A parábola da rede aponta para o juízo final e se assemelha àquela do joio no meio do trigo, que ouvimos domingo passado.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 16

O SEMEADOR E AS SEMENTES

LUDOVICO GARMUS

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O SEMEADOR SAIU PARA SEMEAR –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 55,10-11

A chuva faz a terra germinar.

Os profetas no AT falam em nome de Deus ao povo de Israel. Aos poucos começam a refletir sobre o efeito, positivo ou negativo, que esta Palavra produz entre o povo. No livro de Isaías (40–55) temos uma reflexão sobre a palavra de Deus criadora, na criação dos astros, terra, céus e mar (40,26; 48,13; 50,2). E na obra da salvação (42,9; 46,10; 48,5). No texto de hoje (55,10-11) temos um exemplo desta teologia. O texto quer mostrar a eficácia da Palavra de Deus. Em Israel, quando, após seis meses de seca, a chuva novamente cai na terra ressequida produz um efeito espetacular de vida. Assim diz o profeta, acontece com a Palavra que Deus envia do céu. Quando absorvida por corações sedentos de Deus, a Palavra sempre produz seu fruto. Deus tem um plano: executar a obra da salvação de seu povo, sofrido e desanimado (Is 40,6-7.27-31), e nada poderá impedi-lo de realizar seu plano de salvação. A Palavra de Deus é sempre eficaz. Se nós a acolhemos, produz nossa salvação; se a rejeitamos, causa a perdição. “Escolhe, pois, a vida para que vivas” (Dt 30,19). – A Palavra de Deus é viva e atuante em minha vida?

SALMO RESPONSORIAL: Sl 64 (65)

A semente caiu em terra boa e deu fruto.

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 8,18-23

A criação está esperando ansiosamente

o momento de se revelarem os filhos de Deus.

A Palavra de Deus está sendo semeada no terreno dos filhos e filhas de Deus, que vivem em meio aos “sofrimentos do tempo presente”. Não é sufocando a natureza e a criação pelo consumismo e pelo mito da revolução tecnológica que o ser humano se realiza. O cristão, movido pelo Espírito Santo, está todo voltado para frente, para o futuro. Vive a fé e o amor, mas é movido pela esperança. Não só o ser humano tem esta esperança, mas toda a criação é solidária e espera ser libertada da escravidão e assim “participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Paulo diz que nós já temos os primeiros frutos do Espírito; mas estamos gemendo como que em dores de parto, aguardando a nova criação, que vai desabrochar plenamente da semente da Palavra de Deus. Ela atua dentro de nós, pela força do Espírito.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Semente é de Deus a Palavra, o Cristo o semeador;

Todo aquele que o encontra, vida eterna encontrou.

3. EVANGELHO: Mt 13,1-23 (ou 13,1-9)

O semeador saiu para semear.

A parábola do semeador se divide em três partes: 13,1-9: a parábola como tal; 13,10-17: para que servem as parábolas; 13,18-23: a explicação da parábola. Percebe-se uma expansão desta parábola original de Jesus (13,1-9). A parte central da parábola parece ser uma reflexão sobre a razão da incredulidade de Israel; a explicação é uma “aplicação” da parábola para a vida da primeira Igreja, que tinha a missão de anunciar a palavra de Jesus. Na primeira parte Jesus fala à multidão e pinta a realidade da experiência da vida de um trabalhador, que semeia a sua semente na esperança de colher o devido fruto. E conclui: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” – Jesus se apresenta como o semeador escatológico e constata que nem toda a palavra que ele ensina produz fruto, mas quando encontra terra boa, o fruto é abundante (cf. Is 55,10-11). Esta parte representa um espelho da experiência positiva e negativa de Jesus, semeador da Palavra. A pergunta dos apóstolos aprofunda e atualiza o sentido da parábola. A segunda parte reflete o mistério da rejeição de Israel à mensagem de Jesus (13,10-17); a terceira parte reflete o efeito na vida dos que crêem (v. 18-23). Uma coisa é certa: a Palavra de Deus não tem a finalidade de trazer o fechamento (a incredulidade), mas trazer a abertura (terra boa) do coração, que resulta em abundantes frutos. É como a chuva que cai, umedece a terra a não volta ao céu sem produzir seu fruto (Is 55,10-11). A Palavra de Deus, escutada, lida e meditada, está produzindo os frutos que Cristo espera de mim?

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 09

HUMILDADE E MANSIDÃO

LUDOVICO GARMUS

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Zc 9,9-10

Eis que teu rei, humilde, vem ao teu encontro.

O texto da primeira leitura é do IV século a.C. A pequena comunidade judaica não tinha mais rei nem autonomia política, mas estava sob o domínio dos governantes da Pérsia. A esperança messiânica de um novo descendente de Davi tinha que ser repensada e reavivada. É o que o profeta Zacarias procura fazer, conclamando o povo de Jerusalém a acolher o seu rei com alegria. Ele já está vindo ao encontro de Jerusalém. O Messias esperado não será como os reis de Israel e de Judá. Será um rei justo que realmente salvará o seu povo; será um rei humilde e virá montado sobre um jumento, sem a pompa e o aparato militar de um dominador. Ao contrário, o Messias eliminará de Jerusalém cavalos e arcos de guerreiros, símbolo das guerras dos impérios dominadores de então. Mesmo assim estabelecerá a paz universal tão desejada. Mateus, ao descrever a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num jumento cita esta profecia de Zacarias (cf. Mt 21,1-11). Jesus veio implantar o Reino de Deus neste mundo, sem aparato bélico, porque seu reino não é deste mundo (Jo 18,36). Como Servo Sofredor, Jesus deu sua vida por este Reino de Deus para estabelecer a paz e a fraternidade entre os povos. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). No mundo injusto e violento em que estamos vivendo Jesus propõe a todos os povos a vida segundo o Reino de Deus.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 144 (145)

Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

2. LEITURA: Rm 8,9.11-13

Se, pelo Espírito, fizerdes as obras do corpo morrer, vivereis.

Viver segundo a “carne” é viver na autossuficiência, fechado em si mesmo, como os ouvintes que rejeitaram a mensagem de Jesus (evangelho). Paulo fala da oposição entre vida segundo o Espírito e a vida segundo a carne. Vive segundo a carne quem se deixa dominar pelos critérios humanos do consumismo, da dominação sobre o próximo, sem o menor senso de solidariedade humana. Vive segundo o espírito quem pertence a Cristo, porque crê no Espírito que mora em cada cristão. Mas, viver segundo o Espírito, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, é uma “dívida” – diz Paulo – um desafio permanente na vida cristã. O caminho mais seguro é “pertencer” a Cristo e aprender dele, que é “manso e humilde de coração” (evangelho).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra;

os mistérios do teu reino aos pequenos, Pai, revelas!

3. EVANGELHO: Mt 11,25-30

Eu sou manso e humilde de coração.

Antes do evangelho que ouvimos, Jesus critica as cidades da Galileia (Corozaim, Betsaida e Cafarnaum) que o rejeitam por causa de seu orgulho e autossuficiência (11,20-24). Estas cidades não se converteram porque o modo de ser e de agir de Jesus lhes era intragável. Jesus não veio conquistar adeptos pela violência, mas veio com humildade e mansidão. Veio, pedindo licença para bater na porta do coração das pessoas, como o Papa Francisco na JMJ. Os pequenos, pobres, pecadoras e pecadores, desprezados pelos orgulhosos, o acolheram e continuam acolhendo. Por isso, Jesus louva o Pai que se revela aos pequeninos e se oculta aos grandes. O evangelho de hoje nos convida a contemplarmos a imagem do Pai, revelada pelas palavras e gestos de Jesus. Convida-nos a louvar este Deus, que assim se revela. Propõe-nos a agir, com humildade e mansidão, como Jesus agiu com os pequeninos.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 02

EU TE DAREI AS CHAVES DOS CÉUS

LUDOVICO GARMUS

SÃO PEDRO E SÃO PAULO - EU TE DAREI AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé”.

1. Primeira leitura: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu santo anjo

para e libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes... Mas Jesus rezou por Pedro: “... eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, o da prisão para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5).

O Papa Francisco pede que continuemos rezando por ele, para que Deus o proteja de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;

E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. EVANGELHO: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes... Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu. Previu que Pedro o negaria três vezes, mas prometeu rezar- por ele, pedindo que, por sua vez, confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

jun 25

CONFIAR NA PROVIDÊNCIA

LUDOVICO GARMUS

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – NÃO TENHAIS MEDO!

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor”.

PRIMEIRA LEITURA: Jr 20,10-13

Ele salvou das mãos dos malvados a vida do pobre.

Jeremias recebeu a missão de ser profeta quando ainda era muito jovem (Jr 1,4-10). A missão era muito exigente e difícil: “Dou-te hoje poder sobre nações e reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e plantar” (1,10). Pelos verbos, percebe-se que a missão era mais negativa do que positiva. Devia denunciar a injustiça e a violência cometida pelos reis e poderosos contra os pequenos e pobres, e anunciar-lhes o castigo divino caso não se convertessem. Por isso era rejeitado até pelos próprios familiares (16,1-13), ameaçado de morte e perseguido pelas autoridades (26,1-19). Diante da espinhosa missão, o profeta sente-se desanimado e entra em crise. Prestes a desistir de sua dura missão, chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento (20,14-18). O texto que ouvimos pertence às assim chamadas “confissões de Jeremias”, diálogos íntimos que ele mantém com Deus (11,8-23; 12,1-5; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18). Como Jeremias frequentava o Templo de Jerusalém, suas orações são parecidas com as lamentações de muitos Salmos, cantadas pelos levitas. Em nosso texto (20,10-13), porém, depois de lamentar-se, Jeremias renova sua confiança na certeza de Deus o protegerá e lhe dará forças para cumprir sua missão. – Diante de Deus podemos sempre nos apresentar confiantes, como filhos e filhas. Em nossas súplicas, podemos dizer-lhe tudo o que pensamos e sentimos; podemos com franqueza desabafar nossas mágoas, desde que o desabafo sirva de ocasião para renovar nossa confiança em sua constante proteção.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 68

Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

2. SEGUNDA LEITURA: Rm 5,12-15

O dom ultrapassou o delito.

Na carta à comunidade cristã de Roma Paulo explica que todos precisam de salvação (Rm 1,18–3,20). Paulo lembra que o pecado do primeiro ser humano, Adão, trouxe o pecado e a morte para todos os seus descendentes. Mas, a morte e ressurreição de Cristo trouxeram a graça e a reconciliação, mais universais e abundantes do que o estrago causado pelo pecado de Adão. Cristo pôs fim ao domínio da morte. O cristão pode, por vezes, sentir-se impotente diante das estruturas do pecado, do qual ele é vitima e também culpado. Mas, pela fé ele sabe que pode vencê-las pela solidariedade sacramental, eclesial e existencial com a morte e ressurreição de Cristo.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

O Espírito Santo, a Verdade, de mim irá testemunhar

e vós minhas testemunhas sereis em todo lugar.

3. EVANGELHO: Mt 10,26-33

Não tenhais medo dos que matam o corpo.

O evangelho que ouvimos faz parte do discurso missionário de Mateus. A finalidade principal é incutir coragem aos discípulos em meio às perseguições dos anos 80-90 dC. Cristãos eram conduzidos aos tribunais, açoitados nas sinagogas, processados diante de governadores e reis, e odiados por causa do nome do Cristo (Mt 10,17-25). O Evangelho apresenta quatro motivos para não temer as ameaças. 1) O ponto de partida da exortação é a afirmação de que o discípulo não está acima do mestre. A condição para seguir o Mestre é abraçar a cruz: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, há de encontrá-la” (16,25). Se o mestre foi perseguido, acusado, injuriado e morto, o discípulo deverá também estar preparado para sofrer a mesma sorte, por causa de sua fé e pregação do evangelho (10,24-25). – 2) O perseguidor só poderá tirar a vida do corpo, mas não a vida depois da morte, que está nas mãos de Deus (v. 28-29). – 3) Confiar na Providência divina: Deus cuida até dos pardais, quanto mais de seus discípulos (v. 29-31). – 4) Aos que derem testemunho de Cristo diante dos homens, Ele dará testemunho diante do “Pai que está nos céus” (v. 32-33). Na hora da perseguição o cristão era forçado a negar a sua fé; poderia tornar-se infiel. Deus, porém, permanece fiel: “Se o negarmos, também ele nos negará. Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não negar-se a si mesmo” (2Tm 2,13). Quem der testemunho de Jesus aqui na terra, será defendido por Ele no juízo final. – O Papa Francisco nos convida a darmos este testemunho confiante e corajoso em meio ao povo cristão e não cristão, pessoas carentes de Deus e necessitadas do socorro de “bons samaritanos”.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.
 

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