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set 23

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM -

* Frei Ludovico Garmus, ofm - 

ORAÇÃO: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Sb 2,12.17-20

Vamos condená-lo à morte vergonhosa.

O Livro da Sabedoria é contemporâneo a Jesus Cristo e foi escrito na diáspora dos judeus de Alexandria. É um verdadeiro tratado de “teologia política”, uma crítica sapiencial aos governantes. A comunidade judaica sofria perseguições, opressões e discriminações por parte das autoridades gregas e romanas, apoiadas por judeus que abandonaram a fé. O texto que ouvimos descreve o conflito entre os ímpios – judeus que renegaram sua fé – e os justos, isto é, judeus piedosos, observantes da Lei. Este conflito está também presente no livro dos Salmos (cf. Sl 1). Mais do que as palavras, a própria vida dos justos condena as ações destes judeus ímpios, que imitavam o comportamento dos pagãos. Os ímpios sentem-se incomodados pela fé e pelas práticas dos justos e ficam indignados que se considerem “filhos de Deus”. Por isso, tramam todo tipo de ofensas e torturas, atentam contra a própria vida dos justos, para ver se Deus virá para socorrê-los e libertá-los de suas mãos. As injúrias dos ímpios contra os justos lembram as que Jesus sofreu na cruz (ver o Evangelho e Mt 20,18-19; 27,38-44).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 53

É o Senhor quem sustenta minha vida!

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 3,16–4,3

O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz.

Tiago critica a falta de coerência dos cristãos de seu tempo. É uma comunidade dividida por rixas, inveja, rivalidades e injustiças. Uma comunidade carente de paz, necessitada de amor. Faltava-lhes a “sabedoria que vem do alto”, a sabedoria do Evangelho. Tiago faz o elogia desta sabedoria: Ela é pura, pacífica, modesta, conciliadora, é misericordiosa, é imparcial e sincera. Elogio parecido com o de Paulo aos frutos da caridade / amor (1Cor 13). A comunidade perdera o seu foco, que é a pessoa de Jesus Cristo e sua mensagem (Evangelho). Até nas orações pediam coisas supérfluas, menos a “sabedoria que vem do alto”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Pelo Evangelho o Pai nos chamou,

A fim de alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. EVANGELHO: Mc 9,30-37

O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro,

Que seja aquele que serve a todos.

Estamos no bloco central do Evangelho de Marcos (8,27–10,52). Nesta parte, Pedro confessa que Jesus é o Messias, o Ungido do Senhor. Jesus, por sua vez, ensina e explica em que sentido ele é o Cristo / Messias. Não é o filho de Davi que vai tomar conta do poder político e religioso em Jerusalém, mas o Servo Sofredor. Ensina também que o discípulo deve seguir o caminho do Mestre, como já vimos no domingo passado. Também no evangelho de hoje Jesus continua ensinando, a caminho de Jerusalém. Mais uma vez lhes anuncia aos discípulos que Ele, o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, será morto, mas após três dias ressuscitará. Marcos comenta que eles não estavam entendo o que Jesus lhes falava e tinham medo de perguntar. Maus discípulos que não querem que o Mestre lhes explique as dúvidas. Foi mais fácil Jesus curar o surdo-mudo (7,31-37) e o cego, mesmo em dois tempos (8,22-26), do que curar a cegueira e a surdez de seus discípulos. Eles pressentiam o perigo nas palavras do Mestre e tinham medo, mas faziam como o avestruz, que enterra a cabeça na areia para fugir do perigo. Na realidade, eles não queriam desistir do projeto de fazer de Jesus um Messias-Rei. Por isso, já estavam distribuindo os cargos neste novo reino e discutiam entre si quem deles seria o maior. Nas discussões acaloradas deve ter crescido o ciúme e a rivalidade. Ao chegarem a Cafarnaum, Jesus perguntou o que estavam discutindo no caminho. Eles ficaram calados. Jesus, então, senta-se como Mestre para lhes ensinar o caminho do discípulo: “Quem quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Esta á a postura do Mestre na última ceia: “Se, pois eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Os discípulos queriam ser os primeiros, os maiores, e disputavam entre si um lugar de honra no imaginado reino de Jesus em Jerusalém. Para estes “maiores” Jesus, sentado, continua ensinando. Pegou uma criança, colocou-a no meio, junto de si, abraçou-a e disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo”. Jesus se faz pequeno para abraçar todos os pequenos, os pobres e os sofredores e nos convida a fazermos o mesmo. Fazendo assim, acolhemos o próprio Deus, que se identifica com os pobres, famintos, nus e presos injustamente (Mt 25,31-46). Eis o “caminho” do discípulo neste mundo repleto de sofredores em que estamos vivendo.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

set 16

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – AOS SURDOS FAZ OUVIR E AOS MUDOS FALAR –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que creem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Is 35,4-7a

Os ouvidos dos surdos se abrirão

e a boca do mudo gritará de alegria.

A primeira parte do Livro de Isaías (Is 1–39) denuncia os pecados de Judá e anuncia a salvação. Anuncia também o julgamento das potências estrangeiras e vizinhos, que oprimiram o povo eleito. Depois do julgamento divino do vizinho reino de Edom, em Is 35, um profeta pós-exílico anuncia mais uma vez a salvação para Israel. Um “apêndice histórico” (Is 36–39) conclui esta primeira parte de Isaías. No texto que ouvimos, o profeta fala a um povo desanimado e sem esperança. Os que ouviram as promessas do profeta anônimo no exílio (Is 40–55) encontraram em Judá uma realidade nada animadora. As estes o profeta reafirma que as promessas continuam válidas. Por isso não devem desanimar, mas confiar na presença de Deus. Ele é o Deus criador que age na história humana. Vê o sofrimento do povo e vem para salvá-lo. A salvação é descrita com imagens de transformação da natureza, na qual o que parece errado será corrigido: os cegos tornarão a ver bem, os surdos a ouvir, os mudos a falar e até no deserto brotarão torrentes de água. Com esta linguagem o profeta procura recuperar a fé, a esperança e a confiança no Deus de Israel. Quando João Batista da prisão manda perguntar a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11,5), Jesus manda dizer-lhe que a profecia de Is 35,5-6 estava se cumprindo em sua missão (ver o Evangelho).

O salmo responsorial (145,7-10) apresenta oito ações salvadoras de Deus, que transformam a vida humana. Elas se tornam evidentes na pregação e na ação de Jesus em favor dos pobres e injustiçados. Jesus nos convida a agirmos da mesma forma como Deus age. Então nossa vida será um sincero louvor a Deus.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 145,7-10

Bendize, ó minha alma ao Senhor.

Bendirei ao Senhor por toda a vida!

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 2,1-5

Não escolheu Deus os pobres deste mundo

para serem herdeiros do Reino?

O Apóstolo conhecia as comunidades cristãs e percebia que alguns comportamentos não condiziam com a fé em Jesus Cristo. Como exemplo cita a acepção ou discriminação de pessoas na comunidade. Fiéis ricos e bem vestidos recebiam um lugar de destaque, enquanto os pobres deviam ficar de pé ou sentar-se no chão. Todo ser humano possui a mesma dignidade, tem os mesmos direitos e merece ser tratado com igual respeito (Dt 16,19). Tanto mais o cristão, seguidor de Cristo, que revela a face amorosa do Pai, deve evitar a discriminação no trato com os irmãos de fé. O modelo é o próprio Deus, que “escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam”. O critério último no relacionamento com os irmãos de fé é o amor de Deus.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Jesus Cristo pregava o Evangelho, a boa notícia do Reino

e curava seu povo doente de todos os males, sua gente!

3. EVANGELHO: Mc 7,31-37

Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar.

O Evangelho que ouvimos conta-nos o milagre da cura de um surdo-mudo. Antes deste episódio, Jesus havia curado numerosos enfermos que eram trazidos até o caminho por onde ele passaria. Era tanta a fé das pessoas que lhe pediam que, ao menos, as deixasse tocar suas vestes. Depois discutiu com os fariseus e mestres da lei sobre a questão da pureza. Em seguida, a pedido de uma mulher cananeia curou sua filha. Segue, então, o evangelho que acabamos de ouvir. Jesus acabava de voltar à terra dos judeus, vindo da terra pagã de Tiro e Sidônia. Imediatamente trouxeram um surdo-mudo para que lhe impusesse as mãos. Sabiam que Jesus curava as pessoas tocando-as com as mãos, deixando-se tocar por elas ou, simplesmente, porque tinham fé. Jesus não cura para dar um espetáculo. Por isso, afasta-se da multidão, para dar atenção pessoal ao necessitado. Jesus não olha para nós como multidão. Olha para cada um de nós como pessoa, com as suas necessidades e limitações. Olha para cada um de nós com os olhos de Deus. Toca com os dedos os ouvidos e a língua do surdo-mudo com saliva, olha para o céu, suspira, e diz: “Abre-te!” Jesus repete os gestos do Criador, quando modela com os seus dedos o barro para formar o ser humano. O suspiro de Jesus lembra o sopro divino da criação (cf. Gn 2,7; Sl 8; 104,29-30). É também o suspiro de alguém solidário com os deficientes e sofredores. Por isso o povo exclama: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”. Jesus devolve à sociedade um homem novo, capaz de comunicar-se, de ouvir e ser ouvido, condição básica para conviver com os outros, para acolher e proclamar a fé. O toque nos ouvidos e na boca do recém-batizado lembra que a fé é comunicada pela palavra, para ser professada pela palavra. Jesus também queria “abrir” os ouvidos de seus discípulos e provocar neles a profissão de fé (cf. 8,14-38), preparando-os para a missão evangelizadora. O que Jesus quer dizer para mim com este milagre? Jesus nos tocou os ouvidos pela sua palavra e, agora, quer tocar a cada um de nós com a celebração da eucaristia, para curar nossos males.

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

set 02

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Dt 4,1-2.6-8

Nada acrescenteis à palavra que vos digo,

mas guardai os mandamentos do Senhor. O texto que ouvimos foi escrito quando Israel estava no exílio da Babilônia. O povo havia perdido a terra prometida, não tinha mais o culto no templo de Jerusalém. Apesar de viverem no meio de “um povo de fala estranha e língua pesada” (Ez 3,5), era grande a tentação de adorar os deuses locais e abandonar o Deus libertador do Egito. Mas havia a lei da Aliança (Ex 20,1–23,19), reapresentada no livro do Deuteronômio, que, mesmo no exílio, podia conservar a unidade e identidade de Israel. Israel deve cumprir as leis e decretos que Moisés ensina para ser abençoado e poder viver em paz na sua terra. Por isso, a exaltação da Lei de Moisés. Se os babilônios e outros povos têm sua sabedoria e suas leis, Israel tem uma sabedoria superior, porque vem de Deus. São leis que garantem a liberdade, a unidade e a paz para o povo. A Lei do Senhor é como o sol, que “ilumina os olhos” e mostra o caminho a seguir para ser feliz (cf. Sl 19).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 14

Senhor, quem morará em vossa casa

e no vosso monte santo habitará?

2. SEGUNDA LEITURA: Tg 1,17-18.21b-22.27

Sede praticantes da Palavra.

Tiago faz uma bela exortação aos cristãos de seu tempo, que continua válida em nossos dias. Lembra que tudo é graça, é dom de Deus, o “Pai das luzes”. Pela Palavra da verdade ele nos gerou, pelo batismo, para a vida de filhos e filhas de Deus. Esta Palavra é a fé em Jesus Cristo e a mensagem do Evangelho, que em nós “foi implantada”. A Palavra foi implantada para ser cultivada, colocada em prática e produzir frutos. Por isso, o Apóstolo nos convida: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”. A religião cristã autêntica, que agrada a Deus Pai, são os bons frutos que ela produz: evitar a contaminação pelo mundo e cuidar com amor dos pobres e sofredores, expressado no amor aos órfãos e viúvas.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Deus, nosso Pai, nesse seu imenso amor,

foi quem gerou-nos com a palavra da verdade,

nós, as primícias do seu gesto criador!

3. EVANGELHO: Mc 7,1-8.14-15.21-23

Vós abandonais o mandamento de Deus

para seguir a tradição dos homens.

Deus deu os mandamentos e as leis para um povo libertado da escravidão do Egito. Praticando o que as leis prescreviam Israel mostrava a fidelidade e o amor ao Deus que o escolheu como seu povo: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. E trarás no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno” (Dt 6,5-6). No tempo de Jesus, porém, os mestres da lei multiplicaram as interpretações da lei, chegando a formular 613 preceitos, muitos deles relacionados com “pureza” e “impureza”, sobretudo, de caráter cultual. Os fariseus consideravam-se modelos da fiel observância destes preceitos. Eles eram os “puros” e desprezavam os trabalhadores da roça, os saduceus, os samaritanos e os pagãos, considerados todos impuros. Os fariseus e mestres da Lei vieram de Jerusalém para fiscalizar a não observância da ”tradição dos antigos”, por parte de Jesus e seus discípulos: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” Na resposta Jesus os acusa de praticarem uma falsa religião, baseada em preceitos humanos, que os afasta de Deus. Eles abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens. Para Jesus, a pureza vem do coração humano sincero: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Estes, sim, estão próximos de Deus. Longe de Deus estão os que planejam todo tipo de maldade em seu coração e a põem em prática. É por isso que Jesus cita Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Este princípio valia na antiga aliança e vale para quem segue a Jesus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos Céus, mas quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 26

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – PALAVRAS DE VIDA ETERNA –

*Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

1. PRIMEIRA LEITURA Js 24,1-2a.15-17.18b

Serviremos ao Senhor porque ele é o nosso Deus.

Terminada a conquista da Terra Prometida, Josué convoca uma grande assembleia no Santuário de Siquém. Na presença das doze tribos de Israel, dos anciãos, dos chefes e dos juízes do povo, faz um longo discurso no qual exorta o povo a servir fielmente a Deus. Provoca o povo a uma decisão: servir aos deuses dos outros povos ou servir ao Senhor que os libertou do Egito. Ele e sua família já decidiram servir unicamente ao Senhor. O povo, lembrado da maravilhosa libertação do Egito, da proteção divina recebida no deserto, da Aliança selada com Deus no Sinai e do dom da terra, também decide servir ao Senhor: “Longe de nós abandonarmos o Senhor, para servir a deuses estranhos... Nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”. É uma decisão de fé, de fidelidade e amor ao único Deus, que liberta da escravidão. Assim Josué renovou a aliança do povo com Deus. Discursos comovem, exemplos de fé e amor a Deus, como o de Josué e sua família, arrastam.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 33,2-3.16-23

Provai e vede quão suave é o Senhor!

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 5,21-32

Este mistério é grande, em relação a Cristo e à Igreja.

A leitura que ouvimos choca nossa sensibilidade, sobretudo, das mulheres, quando Paulo diz: “As mulheres sejam submissas aos seus maridos”. Fixando nossa atenção apenas nessa frase que choca os ouvidos modernos, estamos sujeitos a perder a mensagem mais profunda do texto. Basta ouvir a conclusão da frase: “como ao Senhor” – isto é, a Cristo Jesus, o ponto de comparação. Submissão não significa dominação do marido sobre a mulher. Todo o texto é iluminado pela frase inicial: “Vós que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros”. Todos nós que seguimos e amamos a Cristo devemos amar (ser solícito com) uns aos outros. Ser solícito é sinônimo de amar. Esta solicitude/amor começa na família, da qual nos fala Paulo. Na cultura de então o homem era “a cabeça” da família. Hoje os maridos dizem: “Quem manda lá em casa é a mulher”... A comparação é com Cristo, “cabeça da Igreja e o Salvador de seu Corpo”, aquele que dá a vida por nós. Cristo é o modelo de amor/solicitude para a mulher e para o marido. A Igreja ama a Cristo, porque “cabeça” e corpo estão unidos. Assim, a mulher é solícita em tudo (ama) pelo seu marido. O marido, por sua vez, sendo “a cabeça da mulher”, deve amá-la como Cristo ama a Igreja; isto é, deve ser capaz de dar sua vida por ela. E o Apóstolo argumenta: Amar a sua mulher é amar a si mesmo, porque “o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Por isso, conclui Paulo, a união de amor entre homem e mulher é um grande “mistério”, um “sacramento” do amor que nos une a Deus. Eles se tornam uma só carne e ninguém odeia sua própria carne, mas ama sua esposa como a si mesmo, a exemplo de Cristo que ama sua Igreja.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Ó Senhor, vossas palavras são espírito e vida;

as palavras que dizeis, bem que são de eterna vida.

3. EVANGELHO: Jo 6,60-69

A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna.

No texto do domingo anterior Jesus se apresentava como o pão descido do céu. Para ter a vida eterna é necessário alimentar-se deste pão celestial, comer a sua carne e beber o seu sangue. Cristo nos sustenta na caminhada da vida cristã com a doação de sua própria vida. No evangelho de hoje temos a reação dos judeus a estas palavras de Jesus, consideradas “duras”, difíceis de escutar. Jesus insiste que veio de Deus e para Deus vai “subir”. Os judeus estão entendendo suas palavras segundo a carne e não segundo o Espírito, por isso não acreditavam nele. E explica: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que eu vos falei são espírito e vida”. E o evangelista comenta: Jesus sabia... quem eram os que não tinham fé”. Diante de Jesus não dá para ficar neutro. Deve escolher entre seguir a Cristo com fé ou abandoná-lo, como muitos que o fizeram. Quando Jesus pergunta aos que ainda ficaram com ele, se também queriam ir embora, Pedro confessa sua fé: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Mt 16,13-16). A fé que professamos em Cristo é que nos une, num só corpo, como Igreja (segunda leitura).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 19

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA AO CÉU – O SENHOR FEZ GRANDES COISAS EM MEU FAVOR –

*Frei Ludovico Garmus, ofm

ORAÇÃO: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab

Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés.

O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios. Segundo a lenda, a arca foi escondida numa caverna pelo profeta Jeremias, para ser reapresentada “quando de novo Deus for propício e reunir a comunidade” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a arca da aliança reaparecerá no Templo da nova Jerusalém, substituindo a antiga aliança pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão, representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15) e, de fato, esmagou por Maria Mãe de Jesus, o qual nos trouxe a salvação (Ap 12,10).

Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 44(45)

À vossa direita se encontra a rainha,

com veste esplendente de ouro de Ofir.

2. SEGUNDA LEITURA: 1Cor 15,20-27ª

Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo.

Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Maria é elevada ao céu,

alegram-se os coros dos anjos.

3. EVANGELHO: Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor:

elevou os humildes.

O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também as crianças, João Batista (o Precursor) e Jesus (o Salvador prometido). Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus; por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída/assumida por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, é o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (L. Boff).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

ago 05

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – QUEM CRÊ EM MIM NUNCA MAIS TERÁ SEDE –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os vossos filhos e filhas que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação, e conservando-a renovada”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ex 16,2-4.12-15

Eu farei chover para vós o pão do céu.

O livro do Êxodo ocupa-se da libertação dos hebreus do Egito (Ez 1–15), descreve as dificuldades da caminhada do povo no deserto (Ex 15,24–18,27); por fim, aos pés do monte Sinai, fala como Deus escolhe Israel como seu povo, faz aliança com ele e estipula as leis que deve observar (Ex 19–40). Na caminhada pelo deserto Deus testa a fidelidade de seu povo eleito. O deserto, por um lado, é visto como o tempo ideal das relações de Deus com Israel (cf. Os 11,1-4; 2,16-17; Jr 2,1-3). Por outro lado, é o lugar das tentações e murmurações onde a fé é provada. No texto que ouvimos a reclamação se dirige contra Moisés e Aarão, mas põe em dúvida a bondade do projeto divino de libertação. O povo acusa Moisés e Aarão de os terem enganado. Em vez da “terra onde corre leite e mel” (Ex 3,8) encontraram apenas um deserto inóspito. Moisés e Aarão se defendem dizendo que o projeto de libertação não é deles, mas de Deus. Quando Deus atender às reclamações do povo, providenciando carne e pão, todos saberão que foi o Senhor que os libertou do Egito. E assim aconteceu: De tarde um bando de codornas pousou em torno do acampamento e pela manhã o povo encontrou “uma coisa miúda”, provavelmente resina de tamareira, de alto valor nutritivo. “Este é pão que o Senhor vos deu como alimento” – explica Moisés. A tradição posterior refere-se ao maná como o pão descido do céu (Sl 105,40). No evangelho de hoje Jesus se apresenta como o verdadeiro pão do céu, enviado pelo Pai para dar vida ao mundo (Evangelho). Os hebreus no deserto duvidaram do plano divino de libertação. Jesus, porém, vence as tentações porque confia no Pai: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 72

O Senhor deu a comer o pão do céu.

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 4,17.20-24

Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus.

A comunidade de Éfeso era formada, sobretudo, por pagãos convertidos. Paulo lhes lembra a necessidade de uma mudança radical no estilo de vida: despir o homem velho (pagão) para vestir o homem novo (cristão). Deviam converter-se dos ídolos “para servir ao Deus vivo e verdadeiro” (cf. 1Ts 1,9). O Cristão deve aprender de Cristo, que morreu por nós e ressuscitou. Deve ouvir o que dele falam os pregadores, acolher o que lhe é ensinado “porque a verdade está em Jesus”. O cristão deve identificar-se com Cristo, vestindo “o homem novo, criado à imagem de Deus”. Assim o cristão poderá dizer como Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

O homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus, e não só de pão.

3. EVANGELHO: Jo 6,24-35

Quem vem a mim não terá mais fome

E quem crê em mim nunca mais terá sede.

O evangelho de hoje explica o significado do “sinal do pão” (domingo passado). Após o milagre da divisão do pão Jesus se retira a sós para a montanha e os discípulos se dirigiram de barco para Cafarnaum. A noite já ia adiantada quando Jesus os alcança, caminhando sobre as águas agitadas. Ao encontrá-lo na cidade, os judeus se admiram que tenha partido sem que percebessem. Jesus responde que eles o procuram apenas porque comeram pão e ficaram satisfeitos e não porque entenderam o sinal da divisão do pão. Não deveriam procurá-lo por causa de um alimento perecível, mas “pelo alimento que permanece até a vida eterna” e que Ele, o Filho do Homem, lhes poderia dar. A obra que eles deveriam fazer não é apenas observar a Lei, mas crer em Cristo: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”. Não é Moisés que dá o pão que vem do céu. O maná e a Lei apontam apenas para o verdadeiro pão que vem do Pai; Jesus é o pão que “desce do céu e dá a vida ao mundo”. A samaritana pede a Jesus água viva (Jo 4,15); os judeus pedem o pão que dá vida. E Jesus responde: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 22

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – CONHEÇO AS MINHAS OVELHAS –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Jr 23,1-6

Reunirei o resto de minhas ovelhas.

Suscitarei para elas pastores.

No Oriente Médio Antigo o pastoreio de ovelhas e cabras era quase tão importante como a agricultura. Os rebanhos exigiam do pastor cuidados especiais. Era ele quem conduzia o rebanho nas regiões áridas, em busca de pastagens e de água. Devia proteger as ovelhas contra ladrões ou animais ferozes. Por isso os reis costumavam ser chamados pastores de seu povo. Mas, em Jeremias e Ezequiel, o termo “pastores” não se refere exclusivamente aos reis. Inclui também juízes, sacerdotes e, enfim, todos os detêm o poder civil, econômico e religioso, com a obrigação de cuidar do povo. O profeta critica explicitamente o rei Joaquim. Dominado pelo Egito, o reino de Judá foi obrigado a pagar ao faraó Necao um tributo de trinta e quatro mil e quatrocentos kg de prata e 34 de ouro. Enquanto obrigava todos os proprietários de terra a saldar a dívida (2Rs 23,33-35), o rei construía um luxuoso apartamento de cobertura no seu palácio, sem pagar o salário aos trabalhadores (Jr 22,13). Os sacerdotes e os juízes fecharam os olhos e omitiram-se em denunciar as injustiças, dando assim apoio ao rei de Joaquim. Diante disso, Jeremias acusa os maus “pastores” (rei, sacerdotes e juízes) como os responsáveis pela invasão estrangeira e pelo sofrimento do povo: “Dispersastes minhas ovelhas [...] e não cuidastes delas”. Por isso – diz Jeremias – Deus vai cassar o ofício destes pastores e Ele mesmo vai reunir as ovelhas dispersas (no exílio?) e tomar conta do rebanho. Escolherá novos pastores que cuidem das ovelhas, na paz e na tranquilidade. Fará surgir um novo Davi, o qual reinará com sabedoria e “fará valer a justiça e a retidão”. Para nós cristãos, este novo rei é Jesus, filho de Davi, que se compadece do povo (Evangelho). Ele é o bom Pastor. Alimenta e protege seu rebanho; é capaz de dar sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10,11).

SALMO RESPONSORIAL: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz:

felicidade e todo bem hão de seguir-me!

2. SEGUNDA LEITURA: Ef 2,13-18

Ele é a nossa paz; do que era dividido, fez uma unidade.

Domingo passado ouvimos o início da Carta aos Efésios, um hino de “bendição” a Deus pela bênção recebida “do seu Espírito, em virtude de nossa união com Cristo”. Os motivos do louvor e ação de graças eram nossa eleição e predestinação em Cristo, a redenção pelo seu sangue, a adoção como filhos de Deus, o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. O texto que acabamos de ouvir se concentra no dom principal da morte redentora de Cristo: por Ele nos veio a paz, paz com Deus e a paz entre os homens. Em Jo 20,19-23 a paz que o Ressuscitado deseja aos apóstolos é fruto do perdão recebido de Deus e dado reciprocamente aos irmãos de fé em Cristo. O perdão é fruto do Espírito Santo e gera a paz: “Recebei o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, serão perdoados...” (Jo 20,23). No texto de hoje, o Apóstolo fala quatro vezes da paz. Esta paz é proposta para “os que estão perto”, isto é, para judeus convertidos, e “para os que estão longe”, pagãos convertidos. Pela sua morte Jesus derrubou o muro de separação entre judeus e pagãos, “para formar um só homem novo, estabelecendo a paz”. Dando sua vida por nós, destruiu em seu corpo a inimizade, reconciliou-nos com Deus e fez de nós um só corpo. É isso que nos diz a fé. Mas a realidade em que vivemos é bem outra. Muros de separação dividem a humanidade entre países do Norte (ricos) e países do Sul (pobres). Muros de caráter político, ideológico e religioso que nos dividem; muros de intolerância às minorias, por motivo de raça. Muito ainda temos que caminhar para que nasça este homem novo e se estabeleça a paz.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Minhas ovelhas escutam minha voz, minha voz estão elas a escutar.

Eu conheço, então, então minhas ovelhas, que me seguem comigo a caminhar.

3. EVANGELHO: Mc 6,30-34

Eram como ovelhas sem pastor.

Depois de ser expulso da sinagoga de Nazaré, Jesus enviou os discípulos em missão, para cuidarem da alma e do corpo do povo, curando enfermos e expulsando demônios. No evangelho de hoje ouvimos a continuação da narrativa do envio. Os discípulos voltam muito animados de seu estágio pastoral e contam a Jesus “tudo o que tinham feito e ensinado”. No envio Jesus lhes tinha dado apenas o poder de expulsar demônios e curar os doentes, mas eles começam também a ensinar. No retorno devem ter trazido muita gente até Jesus. Jesus percebe que estavam cansados e que precisava fazer com eles uma revisão. Convida-os, então, a tomarem um barco para descansarem num lugar deserto e afastado. De fato, Marcos comenta que era tanta gente que procurava a Jesus que “não tinham tempo nem para comer”. Porém, nada de descanso! Quando chagam ao lugar, encontram uma multidão que os esperava. Muitos, percebendo para onde Jesus se dirigia, “correram a pé e chegaram lá antes deles”. Ao ver aquela multidão, Jesus se compadece “porque eram como ovelhas sem pastor” e põe-se a ensinar-lhes “muitas coisas”. Para ensinar, Jesus já não espera encontrar o povo na sinagoga, mas vai ao encontro das pessoas e elas também o procuram. Cuida da alma, ensinando, e cuida do corpo, curando. Sacia primeiro o coração, mas em seguida cuidará do corpo, com o milagre da divisão dos pães (próximo domingo).

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*Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 08

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

1. PRIMEIRA LEITURA: Ez 2,2-5

São um bando de rebeldes,

e ficarão sabendo que houve entre eles um profeta.

Ezequiel conta em primeira pessoa sua experiência de ser chamado por Deus como profeta. Outros profetas como Amós (7,15), Jeremias (1,7) e Isaías (6,8-11) também contam sua vocação profética. Ezequiel narra como foi arrebatado pelo espírito divino. Deus como que invade sua pessoa (3,12.24; 8,3) e toma conta de sua fala (3,1-3). E o profeta torna-se assim o porta-voz de Deus, mas continua livre em acolher, ou não, o chamado divino. Por outro lado, o profeta tem consciência de estar falando em nome de Deus. Os ouvintes têm a liberdade de acreditar, ou não, que Ezequiel fala em nome de Deus. Por isso Deus adverte Ezequiel sobre as dificuldades da missão: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim... filhos de cabeça dura e coração de pedra”. O profeta tinha que falar em nome de Deus a um povo rebelde e agressivo, que o cercava como se fossem espinhos e escorpiões (v. 6-7). Não obstante a rebeldia, Deus misericordioso continua falando a Israel porque são seus filhos. Mas, se persistirem endurecendo o coração, sobrevirá o silêncio de Deus, como diz o profeta Amós: “Enviarei fome ao país, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Andarão cambaleando de um mar a outro, do norte até o oriente, procurando a palavra do Senhor, mas não a encontrarão” (8,11-12). – Ouçamos hoje a voz do Senhor!

SALMO RESPONSORIAL: Sl 122

Os nossos olhos estão fitos no Senhor;

tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

2. SEGUNDA LEITURA: 2Cor 12,7-10

Gloriar-me-ei das minhas fraquezas,

para que a força de Cristo habite em mim.

Ezequiel teve que enfrentar a dureza de coração de seus opositores. Deus o anima a não temê-los, “mesmo que espinhos te cerquem e estejas assentado sobre escorpiões” (Ez 2,6). Jesus foi expulso pelos doutores da Lei e fariseus não só de Nazaré, mas também da sinagoga (evangelho). Da mesma forma o apóstolo Paulo teve que enfrentar tanto inimigos externos, como adversários dentro do próprio cristianismo. Eram cristãos de linha judaica, que contestavam seu apostolado porque Paulo defendia a liberdade frente à Lei de Moisés. Na Segunda Carta aos Coríntios (cap. 10–12) Paulo defende seu modo de pregar o Evangelho e a autoridade de seu apostolado, do qual tinha orgulho. No texto que ouvimos reconhece, porém, suas fraquezas. Paulo fala de um “espinho na carne” que o atormentava (doença, prisões, tentações, oposição de judeu-cristãos ou remorso de seu passado?), para que não se orgulhasse dos dons e das revelações recebidas de Cristo. Reconhece que a força de seu ministério vem de Cristo: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO: Lc 4,18

O Espírito do Senhor, sobre mim fez a sua unção;

enviou-me aos empobrecidos a fazer feliz proclamação.

3. EVANGELHO: Mc 6,1-6

Um profeta só não é estimado em sua pátria.

Depois de ser batizado por João e tentado pelo demônio no deserto, Jesus iniciou sua atividade nas aldeias em torno do lago de Genesaré. A fama de seus milagres e de sua pregação já havia chegado até Nazaré. De fato, seus parentes o haviam procurado em Cafarnaum para tirá-lo de circulação, pois pensavam que estava ficando louco (3,21.31-35). Mas a pregação de Jesus sobre a boa-nova do Reino de Deus nem sempre tinha sucesso. Sua mensagem dividia o auditório. Havia os que o seguiam na esperança de serem beneficiados por algum milagre. Outros o seguiam para ouvir sua mensagem; outros, ainda, o seguiam apenas para contestar suas palavras e criticar suas ações. Jesus exemplifica as diferentes respostas dos ouvintes na parábola do semeador (Mc 4,1-20). No entanto, diante dos aparentes fracassos Jesus continuava confiante na semente da Palavra que semeava. As parábolas da “semente que cresce sozinha” e do “grão de mostarda” (4,26-32) no-lo demonstram claramente. Com esta confiança Jesus chega à aldeia de Nazaré, onde fora criado. Quando Jesus entra na sinagoga podemos imaginar que a expectativa em ouvi-lo era enorme. Logo, porém, da admiração pelos milagres e sabedoria de seu ensinamento os ouvintes passam para a desconfiança e o desdém. Desautorizaram a Jesus porque não estudou a Lei junto aos mestres da Lei em Jerusalém. Jesus não passava de um carpinteiro, um trabalhador braçal. Todo mundo conhecia sua mãe e seus familiares. Jesus ficou admirado da falta de fé de sua gente: “Um profeta só não é estimado em sua pátria entre seus parentes e familiares”. Diante da incredulidade dos conterrâneos, Jesus “curou apenas alguns doentes”. A primeira vez que Jesus entra numa sinagoga de Cafarnaum para ensinar todos reconhecem sua autoridade: “O que é isso? Uma doutrina nova dada com autoridade!” (1,27). A última vez que Jesus ensina numa sinagoga é na sua terra natal e dela sai desautorizado (6,29). Mesmo assim, continua ensinando nos povoados dos arredores e curando os doentes. O evangelho deve ser anunciado “quer te escutem, quer não” (1ª leitura). João Batista já dizia: “quem tem ouvidos [para ouvir Jesus], que ouça” (Mt 11,15).

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jul 01

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA

LUDOVICO GARMUS

SÃO PEDRO E SÃO PAULO – PILARES DA IGREJA –

*Por Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Senhor nosso Deus, concedei-nos os auxílios necessários à salvação, pela intercessão dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, pelos quis destes à vossa Igreja os primeiros benefícios da fé”.

1. PRIMEIRA LEITURA: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo

para me libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes... Mas Jesus rezou por Pedro: “... eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5). Pedro foi libertado das correntes porque a palavra do Evangelho não podia ser acorrentada. Havia ainda uma longa missão a cumprir. Sabemos através de Paulo que Pedro esteve pregando em Antioquia da Síria e em Corinto. Segundo a tradição, Pedro e Paulo sofreram o martírio em Roma durante a perseguição aos cristãos promovida pelo Imperador Nero.

O Papa Francisco pede que continuemos rezando por ele, para que Deus o proteja de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;

E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. EVANGELHO: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo”. Os outros discípulos haviam trazido as opiniões colhidas entre o povo: Jesus seria um novo João Batista, ou Elias, ou Jeremias, ou mesmo, algum dos antigos profetas. Pedro deu a resposta mais precisa. Mas não era uma simples opinião pessoal (carne e sangue). Era o próprio Pai do céu que revelou isso a Pedro. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Nesta Igreja de Cristo Pedro recebe as chaves do Reino dos Céus (= Deus); isto é, o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes. Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu e prometeu rezar por ele para que confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu. Que o Espírito Santo ilumine o Papa Francisco a fim de que confirme nossa fé e nos conduza com segurança na construção do Reino de Deus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

jun 10

REFLETINDO SOBRE A PALAVRA – SATANÁS SERÁ DESTRUÍDO

LUDOVICO GARMUS

10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – SATANÁS SERÁ DESTRUÍDO –

* Frei Ludovico Garmus, ofm –

ORAÇÃO: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”.

1. LEITURA: Gn 3,9-15

Porei inimizade entre a tua descendência

e a descendência da mulher.

Em Gn 2–3, Deus cria o ser humano como um ser comunitário; homem e mulher são “auxílio necessário”, um para o outro, a fim de viverem na comunhão de amor, planejada pelo Criador. Havia harmonia entre homem e mulher, harmonia entre o ser humano e as demais criaturas da terra (jardim de Éden) e harmonia com o Criador. Este é o projeto de Deus. Em Gn 2, porém, Deus não diz que “tudo que havia feito era muito bom”, como em Gn 1,31, pois esta harmonia é algo por ser ainda buscado. Na realidade ela é quebrada quando homem e mulher, por sugestão da “serpente” (símbolo do mistério do mal, satanás, adversário), comem do fruto proibido, que os faria “como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Em vez de se tornarem “como deuses”, percebem que estão nus; essa nudez significa não tanto o pudor, mas a limitação e carência do ser humano diante de Deus. Por isso se escondem. Deus, porém, visita o jardim, não apenas para punir a desobediência do ser humano, mas para socorrê-lo em sua carência e limitação. No interrogatório, Deus pergunta ao homem por que está se escondendo e ele responde que estava com medo porque estava nu. Deus o acusa de ter desobedecido ao comer do fruto proibido e ele responde, de certo modo, acusando a Deus: “Foi a mulher que me deste por companheira”. E a mulher ao ser interrogada joga a culpa na serpente, também uma criatura de Deus, como os outros animais (Gn 2,18-20). No fundo, a explicação da origem do mal recai sobre Deus. No livro da Sabedoria (2,24) o diabo é identificado com a serpente. Assim também em Jo 8,44; Ap 12,9; 20,2). Tiago, porém, adverte: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘É Deus que me tenta’. Pois Deus não pode ser tentado para o mal, nem tenta ninguém. Cada um é tentado pelo próprio mau desejo que alicia e seduz” (Tg 1,13-14). A serpente é punida e deverá arrastar-se pelo chão; a mulher é punida pela dominação que o marido sobre ela exerce e pelos sofrimentos de sua gravidez; o homem é punido pela dureza do trabalho na produção de alimentos. Começa a desarmonia entre Deus e o ser humano, entre homem e mulher e entre o homem e a terra. Deus nos deu a liberdade para podermos amá-lo. Seremos sempre atraídos pelo Sumo Bem e tentados para o Mal. Mas os descentes de “Eva” sempre poderão esmagar a cabeça da serpente, com Maria, a “Nova Eva”, e com Jesus Cristo, seu grande descendente.

SALMO RESPONSORIAL: Sl 129

No Senhor toda graça e redenção.

2. SEGUNDA LEITURA: 2Cor 4,13–5,1

Nós também cremos e, por isso, falamos.

Paulo está engajado, de corpo e alma, na luta da pregação do Evangelho. A pregação do Evangelho e a vida cristã são sustentadas pela fé no Cristo Ressuscitado. Paulo tem consciência de sua limitação humana e que tudo é graça, é dom de Deus. É movido pela esperança da vitória final sobre o mal e sobre a morte: “Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”. Porque “o último inimigo a ser reduzido a nada será a morte” (1Cor 15,26). Pois, como diz Paulo, à medida que nosso “homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior... vai se renovando”. É da fé em Jesus Cristo que brota a esperança da ressurreição.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:

O príncipe deste mundo agora será expulso;

e eu, da terra levantado, atrairei todos a mim mesmo.

3. EVANGELHO: Mc 3,20-35

Satanás será destruído.

A luta permanente entre a Humanidade e a Serpente, entre o Bem e o Mal, da qual fala a primeira leitura, concretiza-se na vida pública de Jesus. A intensa atividade de Jesus, andando pelas aldeias, anunciado a boa nova do Reino de Deus, curando os enfermos e aleijados, expulsando os demônios deixava seus parentes e adversários preocupados. Os parentes de Jesus, preocupados com sua saúde física e psíquica, queriam tirá-lo do meio do povo, pensando que ele “estava fora de si”; isto é, possuído por um espírito, ou que estava “estressado” – diríamos nós. De fato, Jesus e os discípulos “não tinham nem tempo para comer”. De Jerusalém vem os mestres da Lei para examinar o caso e desautorizam Jesus, acusando-o de expulsar demônios em nome de Belzebu, o chefe dos demônios. Aos mestres da Lei Jesus responde que, ao expulsar os demônios, está combatendo o Satanás; por isso, o Reino de Deus que anuncia vai acabar com o reino do Mal. Aos seus familiares Jesus responde que agora tem uma nova família, isto é, seus discípulos e o povo que o acompanham. Olhando para eles, Jesus diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A urgência de anunciar a boa-nova do Reino de Deus exigiu de Jesus a opção radical de deixar sua própria mãe. O mesmo, Jesus exige daqueles que desejam abraçar sua missão: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Assumir a vida em família também tem suas exigências: “Por isso o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne” (Gn 2,24). Fazer a vontade de Deus é assumir as práticas de Jesus.

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* Frei Ludovico Garmus é Doutor em Exegese Bíblica, Professor de Exegese no Instituto Teológico Franciscano-ITF, em Petrópolis, escritor, conferencista e colabora com o nosso Blog, autorizando a reprodução de textos e de reflexões de sua autoria.

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