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Arquivo por categoria: PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

abr 18

JESUS EXISTIU OU É FRUTO DA MITOLOGIA?

JESUS EXISTIUEXISTÊNCIA HISTÓRICA DE JESUS: UMA DÚVIDA SEM FUNDAMENTO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

           Nestes últimos tempos – e de tempos em tempos – surgem pessoas com intimidade nos compêndios da história, que gostam de alardear pesquisas e estudos que colocam em cheque a real existência de Jesus Cristo, tal como é conhecido e reverenciado pelos devotos cristãos. Estas pessoas, talvez bem intencionadas e, talvez também, portadoras de diplomas e de títulos acadêmicos, vêm a público apresentar um debate que não é novo, porém, reiteradamente fracassado graças, não ao trabalho deste ou daquele cristão ou historiador, mas, graças à própria história que, como que tendo alma própria, desfaz, durante o seu percurso, todos os mal-entendidos e desmonta todas as ciladas armadas por aqueles que, repito, talvez bem intencionados, querem apresentar “algo novo”, ante a ausência de fatos mais importantes para debaterem.

     A questão envolvendo Jesus e sua existência histórica é, apesar de tudo, bastante interessante. Interessante porque quem a coloca viaja no tempo com uma velocidade tão impressionante e desenfreada, que cai tresloucadamente na Galileia do tempo que a presença de Jesus é atestada pelos Evangelistas. Estes viajantes do tempo caem de cara na estrada empoeirada e, por não encontrarem ninguém, afirmam que ninguém existia naquela época.

          Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que Jesus nasceu numa época e numa região onde a pobreza absoluta imperava, seja em razão do domínio romano, seja em decorrência da escassez de recursos mesmo. O fato é que, afora a elite militar e eclesiástica, o restante sofria mais do que vivia. Jesus, naquele contexto, era um personagem insignificante, pois não pertencia a qualquer dos ramos bem sucedidos. Jesus, também, não exerceu qualquer cargo; não construiu nenhum monumento; não escreveu nenhum livro ou tratado teológico, nem mandou ninguém escrever; não documentou nenhum dos seus discursos e, para piorar ainda mais sua situação, viveu no meio do povo por, apenas, três anos. De repente, é preso, acusado de blasfêmia, de impostura e de charlatanice, é açoitado e, pregado numa infame cruz ao lado de criminosos comuns, morre diante de plateia conivente com seus algozes! Ora, se esse homem tivesse a vida retratada nos compêndios da história das civilizações estaríamos realmente diante de um estupendo milagre!

         Pois bem. Nossos geniais viajantes do tempo da história caem na Galileia daquele tempo, não encontram nenhum Jesus e, o que fazem? Retornam para o século atual afirmando de forma empolgada: “Não existe prova da existência de Jesus”. E tudo o que encontram a respeito do homem de Nazaré atribuem a relatos dos primeiros cristãos que, diante da necessidade, criaram um mito para fundamentar uma fé que pretendia firmar-se como sucessora do judaísmo.

      Entretanto, na ânsia de retornar ao presente e com medo de ficarem presos nas garras terríveis da história com “H” maiúsculo, deixam de ler as primeiras palavras de São Lucas que, ao iniciar a narrativa acerca de tudo o que se passou naquele período afirma ter “diligentemente investigado tudo desde o princípio” (Lc 1, 3). Ora, Lucas não era um homem iletrado. Ao contrário, era médico. Portanto, não se pode afirmar que o testemunho desse homem não merece crédito. O mesmo pode ser dito acerca de Paulo, um notório doutor da lei judaica, estudioso da Torá, perseguidor dos cristãos, e que só foi contido depois de ter sido enfrentado de forma contundente na estrada para Damasco, quando teve a visão fulminante de Jesus que o interpela acerca da razão de tanta perseguição e que, a partir de então, intima-o a pregar a Boa Nova do Reino a todo o mundo então conhecido. Ninguém nega a existência de Paulo, até porque existem diversos fragmentos das cartas por ele escritas às primeiras comunidades de fé cristã.

         Não bastassem, como não bastam apenas estes dois personagens reais, vamos encontrar na patrologia o retrato fiel dos movimentos das primeiras comunidades cristãs. Os Padres Apostólicos, assim chamados em decorrência do contato direto com os Apóstolos de Jesus, no caso, com Pedro e com João, ou indireto, por meio do contato com os discípulos desses Apóstolos, atestam e transmitem tudo o que ouviram destas fontes primitivas, que conheceram e conviveram com o Mestre de Nazaré.

         Clemente de Roma (um dos Padres Apostólicos), não apenas conheceu e conviveu com o Apóstolo Pedro, como foi o terceiro sucessor do Pescador na chefia e na condução dos passos da Igreja iniciante.

          Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna tiveram, ambos, contato com o Apóstolo João, que conheceu e que conviveu com Jesus de perto, ouvindo-O e vendo Sua atuação no dia-a-dia daqueles parcos três anos. Tanto Santo Inácio quanto São Policarpo transmitiram às primeiras gerações de cristãos tudo o que ouviram e aprenderam sobre Jesus, da boca daquele que era considerado como “o discípulo que Jesus amava”. Esses homens foram os pilares da fé cristã, que não existe sem a figura presencial de Jesus Cristo.

        O próprio Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios afirma ensinar o que recebeu do Senhor (ICor 11,23). Ora, se Paulo é merecedor de crédito e se afirma ter recebido algo do Senhor, poderia estar falando de um mito? Logo ele que tem sua conversão atribuída justamente ao encontro relâmpago e fulminante com este mesmo Senhor?

       Por fim, e sem de forma alguma esgotar o tema, podemos falar sobre Agostinho que, depois de procurar respostas entre as filosofias e as heresias da sua época, e estamos falando de fins do século IV d.C., descobriu em Jesus toda a razão da sua existência e, deixando-se batizar por Santo Ambrósio, mais velho e que bebera nas primeiras fontes do cristianismo, tornou-se modelo ímpar de conversão. Agostinho que, diga-se de passagem, enfrentou os maniqueus com os quais conviveu intimamente por mais de dez anos sendo, inclusive, cotado para ascender a grau superior na hierarquia maniqueia. Será que Agostinho, tão sábio, tão perspicaz e tão inteligente, seria capaz de jogar fora toda a filosofia platônica, assim como a dos maniqueus que tão bem conhecia, para seguir Jesus Cristo, um mito criado pelos primeiros cristãos, como afirmam certos “historiadores”?

       Parece que as pessoas que colocam a existência de Jesus em dúvida, das duas uma: definitivamente não sabem o que falam, ou, acreditam estarem falando para iletrados e ignorantes, capazes de aceitarem qualquer argumento apresentado como fundamento para as suas teses estapafúrdias.

          Recomendo a todos os cristãos, sejam da profissão de fé que forem, que leiam os Pais da Igreja, estudem a Patrologia e tomem conhecimento acerca da obra patrística, para não serem presas fáceis de pessoas que, talvez bem intencionadas, ferem o Sagrado Coração de Jesus que, depois de tudo o que passou no Calvário e na cruz, não merece mais tanta ingratidão. Ingratidão porque o que dizem estas pessoas não encontra fundamento científico, acadêmico, literário ou histórico e acabam representando, ao final de tudo, o papel de iletrados e de ignorantes atribuídos àqueles a quem falam.

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*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é estudante de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra, ainda, o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.

 

out 17

OS PAIS DA IGREJA

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PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

                A Patrologia, para nós, é representada pela figura do farol que, mesmo a milhas e milhas de distância do mar, é o ponto de referência para os navegantes de todos os tempos. Ao avistar o farol, quem está em alto-mar logo, logo consegue identificar o exato ponto de sua localização, assim como consegue traçar a rota a ser seguida dali por diante.

                   A Patrologia, da mesma forma, é o ponto referencial ao qual sempre devemos nos reportar para a exata compreensão de nossa localização, tendo como referencial o cristianismo primitivo, dando-nos todas as condições para traçarmos a rota a ser trilhada em direção ao futuro. A conceituação é extensa e, por ora, dispensa maiores detalhamentos.

                Da Patrologia, e do manancial de tesouros literários de que dispomos, temos acesso à vida, à obra e, em muitos casos, até à morte dos chamados Pais da Igreja, aqueles homens que, segundo as características necessárias, demonstraram a ortodoxia na doutrina, a vida de santidade, a aprovação eclesiástica e a antiguidade, trazendo até nós tudo o que receberam dos sucessores dos Apóstolos de Jesus Cristo no pós-ressurreição, e dos sucessores desses sucessores, em uma sequência que, respeitado o pontilhamento da história, chega ao Papa Francisco.

              Em algumas oportunidades anteriores, apresentamos, aqui, neste blog, a vida de alguns destes ícones da patrística, com grande proveito para os que tiveram acesso a tais informações. Entretanto, a lista é por demais extensa e, quem perdeu alguma parte, certamente sentir-se-á compensado com o que ainda está por vir. É o caso, por exemplo, do pouco que vamos apresentar a partir de hoje, da vida e da obra de Eusébio de Cesareia que, para sermos fidedignos às fontes, preferimos transcrever o que sobre ele escreveram Berthold Altaner e Alfred Stuiber, na obra “PATROLOGIA – Vida, Obras e Doutrina dos PAIS DA IGREJA” – São Paulo. Edições Paulinas. 2ª edição: 1972 – 540 páginas.

                Sobre Eusébio de Cesareia, afirmam:

“Eusébio de Cesaréia (+ 339) – discípulos e sucessores

Eusébio encontra-se no ponto crucial de duas idades. Por sua formação cultural, pelo âmbito de seus interesses e por suas obras, que recolhem a herança do passado, pertence ainda à época pré-nicena; como bispo e homem da Igreja, implicado na política do Estado, situa-se, de cheio, na nova era constantiniana, agitada por tantas lutas. Eusébio nasceu, cerca de 263, na Palestina, tal¬vez em Cesaréia, e aperfeiçoou sua formação intelectual na própria sede da escola fundada por Orígenes e da célebre biblioteca, tendo por mestre Pânfilo. Sua atividade literária, logo iniciada, foi interrompida pela violenta perseguição dos cristãos, desencadeada em 303. Depois da morte de seu mestre, cuja memória honrou por uma biografia (cf. p. 219) refugiou-se sucessivamente em Tiro e no Egito, onde foi lançado na prisão. Boas razões permitem conjeturar que, talvez, já em 313, se tornou bispo de Cesaréia e granjeou grande influência sobre o imperador Constantino, tanto por causa, de sua sabedoria, quanto por sua atitude conciliadora na controvérsia ariana, sendo, como era, adepto do subordinacionismo de Orígenes e, antes que lutador, sábio.

O Sínodo de Antioquia (325) excomungou Eusébio por sua recusa em subscrever a profissão de fé redigida contra Ário. No Concilio de Nicéia (325), apresentou uma fórmula equívoca e subscreveu, com restrição mental, as decisões do Concilio; não obstante, participou, pouco depois, nas medidas tomadas contra o partido de Nicéia, como se verifica por sua atitude no Sínodo de Tiro (335), que depôs Atanásio. Por ocasião da dedicação da igreja do Santo Sepulcro, construída pelo imperador, em Jerusalém (335), ofereceu a Constantino uma Introdução apologética ao cristianismo, e no mesmo ano, pronunciou o discurso oficial, em Constantinopla, ao ensejo do 30* aniversário de governo do imperador.

Eusébio encara a história universal e a eclesiástica com otimismo de cortesão; como bispo político, apoiado pelo Estado e devotíssimo ao imperador, desenvolve o ideal de um império e estado cristãos, que repercutirá vigorosamente e por longo tempo, mesmo no Ocidente.

1. Obras históricas.

Embora não fosse grande teólogo, Eusébio era notável historiador. Graças à sua hábil utilização das fontes, em geral, e a seu discernimento e critério, lançou as bases da historiografia eclesiástica da Antiguidade.

a) A Crônica (Chronikoì kanónes kaí epitomè pantodapes his¬torías Hellénon te kaí barbárou). Na introdução ou na primeira par¬te apresenta breves sínteses da história dos povos antigos (caldeus, assírios, hebreus, egípcios, gregos, romanos), em forma de excertos, que estavam a seu alcance, dos mais antigos escritos de cada um deles. A parte principal consta de tabelas sincrônicas, dispostas em colunas. Indicam os acontecimentos históricos mais importantes, a começar com o ano do nascimento de Abraão (2016- 15 a.C.).

A obra, publicada em cerca de 303, existe completa em tradução armênia do séc. VI; em grego apenas fragmentariamente. Subsiste ainda a 2* parte, que prossegue até o ano 378, em uma recomposição latina, muito livre, de são Jerônimo. Sob esta forma, a obra predominou na cronologia da Idade Média, preservando de perda muitos dados históricos preciosos. Eusébio quer mostrar, como Júlio Africano (cf. p. 215), ser a tradição judaico-cristã mais antiga do que a de qualquer outro povo.”

         Proximamente, continuaremos com a transcrição de alguns detalhes sobre a famosa “História Eclesiástica” que, certamente, será de bastante proveito para nossos leitores e leitoras. Até breve!

fev 15

O SÉCULO XXI À LUZ DA PATROLOGIA – PARTE IV

Santo Agostinho

CAMINHOS DA PATROLOGIA – PARTE IV –

                                Apraz-nos falar sobre cada um dos assim chamados “Pais da Igreja”, porque, conforme ressaltamos alhures, são eles que, juntos, mantêm aceso o grande farol do cristianismo. Neste espaço reservado, já foram expostas as vidas e as obras de muitos deles, sem qualquer indicação de quem tenha sido o maior ou o menor, haja vista que todos, sem exceção, cumpriram papel de vital importância para que a Igreja de Cristo tomasse impulso e percorresse os séculos que se avizinhavam.

                        Em prosseguimento ao trabalho iniciado em setembro/2015, quando publicamos a primeira parte, continuamos expondo a vida e a obra de Santo Agostinho, um dos grandes ícones sagrados da história do cristianismo. Nas palavras e na obra de Hubertus R. Drobner, em seu Manual de Patrologia, buscamos o máximo possível sobre a biografia de Aurelius Augustinus, historicamente conhecido como “Santo Agostinho”. Falar mais, neste momento, é atropelar o autor que nos auxilia. Portanto, vamos ao trabalho:

“AGOSTINHO DE HIPONA [1]

I. Biografia, atividade literária e traços fundamentais de seu pensamento

A. Até a conversão

CONTINUAÇÃO

4. Filosofia e cristianismo

Os estudiosos muito se preocuparam com a questão de saber que livros platônicos Agostinho chegou a conhecer em detalhes, que influência eles exerceram sobre seu pensamento e se ele se converteu primeiro para o platonismo ou para a Igreja católica. O estado atual da pesquisa parte de que Agostinho foi influenciado principalmente pelas obras de Plotino, e não - como é proposto antes de tudo por Willy Theiler (1933) - de Porfírio, e do pressuposto de que a alternativa platonismo ou cristianismo pressupõe uma falsa compreensão da situação eclesial e teológica do séc. IV. O cristianismo do séc. IV já possuía de antemão um cunho platônico, e para Agostinho, como se observou acima, na busca da sabedoria, que sempre incluía também a busca de Cristo, filosofia e cristianismo nunca eram apresentados como duas alternativas mas sempre como uma unidade. Um e outro, de certo, não se identificavam para ele, pois nos livros platônicos sentia a falta de Cristo. Mas para Agostinho, assim como para a Igreja como um todo, o platonismo permaneceu como a base filosófica para a compreensão e a explicação da fé, que precisava ser completada e corrigida pela mensagem bíblica, porque continha “grandes erros” (retr I 1,4), ou mesmo “disparates” (sermo 241,6): a eternidade do mundo, a preexistência da alma, a antinatural e por isso violenta união da alma com o corpo material, a visão cíclica da história, e outras coisas mais.

B. Do batismo à ordenação sacerdotal

1. Christianae vitae otium em Cassicíaco e catecumenato

Da mesma forma que para Basílio, Jerônimo e muitos outros contemporâneos, a decisão de Agostinho pelo cristianismo significou abraçar uma vida ascética. Juntamente com sua mãe, seu filho e mais outros parentes e amigos ele retirou-se no início das férias de outono (23 de agosto a 15 de outubro) para a propriedade de seu amigo Verecundo, Cassicíaco, que não ficava longe (talvez se trate da atual Cassago di Brianza, 30 km a norte de Milão, ao sopé dos Alpes). Já antes de sua conversão, Agostinho havia planejado uma vida retirada assim, de ócio culto (cf. conf 14,24), mas agora isto passou a ser um christianae vitae otium (retr I 1,1), marcado pela oração, os diálogos, a leitura da Bíblia, e pela atividade literária. Das conversas surgiram diálogos literários de gênero platônico sobre os problemas que interessavam a Agostinho e a seus companheiros: Contra Academicos contra o ceticismo, De beata vita baseada no conhecimento de Deus, De ordine sobre a questão do mal na providência divina, e os Soliloquia, sobre a busca de Deus e a imortalidade da alma.

No final das férias, ele pediu demissão de seu cargo de retor e regressou no início de 387 para Milão, para juntamente com seu filho Adeodato e seu amigo Alípio inscrever-se na lista dos postulantes do batismo para a Páscoa de 387. Durante o período do catecumenato surgiram outros escritos, entre eles um amplo ciclo de manuais de todas as sete artes liberales, de que porém só completou o De grammatica (hoje perdido) e mais tarde o De musica. Na noite de Páscoa de 24 de abril de 387, em presença de sua mãe exultante de alegria, e juntamente com seu filho e seu amigo recebeu o batismo no batistério da catedral de Milão, das mãos do bispo Ambrósio.

2. Comunidade monástica em Tagaste

Pouco depois do batismo Agostinho, juntamente com sua mãe, dirigiu-se ao porto romano de Óstia para empreender a viagem de volta para a África, a fim de - como Basílio o Grande em Annesi - fundar nas propriedades paternas em Tagaste uma comunidade monástica do otium cristão. Porém Mônica adoeceu em Óstia e morreu antes de 13 de novembro de 387, depois de passar seus últimos dias em diálogos espirituais com seu filho - como Macrina com seu irmão Gregório de Nissa - e de haver experimentado como ponto culminante da mística a célebre “visão de Óstia”. Como além disso o inverno e o ataque do usurpador Máximo na Itália retardassem a travessia para a África, Agostinho permaneceu em Roma durante o inverno ocupando-se com a refutação literária dos maniqueus. No verão ou outono de 388 chegou finalmente à África com seus companheiros, executou seu propósito de uma comunidade monástica nas propriedades da família em Tagaste, em favor da qual pôs todas as suas posses à disposição, e durante três anos viveu com seus companheiros num otium christianum extremamente fecundo do ponto de vista espiritual e literário.

3. Ordenação sacerdotal em Hipona

Como Agostinho, já como um velho bispo (425/426), conta aos seus fiéis no sermo 355, logo a comunidade foi perturbada pelo fato de sempre de novo membros da elite de formação cristã que nela se reuniam serem escolhidos como bispos, sobretudo quando se dirigiam a cidades que tinham a sede episcopal vacante. Por isso, na medida do possível, Agostinho evitava ir a uma cidade sem bispo. Mas em janeiro de 391, ele dirigiu-se a Hippo Regius, para aí fundar outra comunidade claustral; considerava-se a salvo, porque o bispo Valério continuava no exercício do cargo. Mas durante o culto divino o bispo apresentou à comunidade reunida seu desejo de ter um sacerdote, e esta, per acclamationem, escolheu Agostinho para este ofício. Seu biógrafo Possídio (v Aug 4,2-3) relata que Agostinho teria caído em pranto por causa dos grandes perigos do múnus episcopal, mas as pessoas não o entenderam e o procuravam consolar, dizendo-lhe que uma vez sendo sacerdote haveria ainda de tornar-se bispo. Agostinho, entretanto, solicitou de Valério a possibilidade de realizar seu plano original, e recebeu dele de presente um jardim próximo à catedral, onde fundou seu convento, no qual viveu e para o qual certamente compôs sua regra monástica (cf. cap. VIII.I.C.1).

Como razão principal para Agostinho receber a ordenação sacerdotal Possídio (v Aug 5,3-5) menciona a insegurança na pregação latina do bispo Valério, que procedia de uma família grega. Apesar de o ofício da pregação fazer parte tradicionalmente das prerrogativas exclusivas do bispo, de modo que o fato de Agostinho ser encarregado disto despertou de início alguma crítica, logo outros bispos da África do Norte imitaram o exemplo de Valério. Mas como Agostinho não se considerasse ainda bastante preparado do ponto de vista teológico, solicitou um breve período de estudos para a leitura da Bíblia, com o que Valério concordou. Finalmente sua primeira pregação foi feita aos catecúmenos de Hipona em 15 de março de 391; portanto a ordenação sacerdotal, cuja data exata não nos é conhecida, deve ter ocorrido pelo final de 390 ou início de 391.

C. Presbítero e bispo de Hipona

1. Pastor, político eclesiástico, teólogo e asceta

Para fazer plena justiça à pessoa de Agostinho e aos quase quarenta anos de sua atividade como sacerdote e bispo de Hipona (sagração episcopal entre maio de 395 e agosto de 397, inicialmente como coadjutor de Valério), teríamos que considerá-lo sempre e simultaneamente como zeloso pastor, como influente político da Igreja, como eminente teólogo e como homem espiritual. Já na comunidade monástica de Tagaste ele renunciou a toda propriedade particular, e como sacerdote em Hipona viveu no “mosteiro do jardim”. Como bispo, por razões de ordem prática, mudou-se para a casa episcopal, mas seu estilo de vida permaneceu inteiramente ascético, como também esperava de seu clero diocesano uma vida monástica no claustro da catedral. Os sermones 355 e 356, pelo fim de sua vida (425/426), bem como a Vita de Possídio [22-26], dão disto um testemunho eloquente. 

Todo o agir de Agostinho, sem excluir seus escritos, suas controvérsias e sua teologia, estiveram a serviço da atividade pastoral. Nenhuma de suas obras surgiu como construção teórica de um sábio de gabinete, mas sempre em vista das atuais necessidades práticas e pastorais de sua diocese e de sua época, muitas vezes em resposta a perguntas concretas que vinham de todo o mundo. Isto ocorre em medida especial para suas amplas coleções de sermões e de cartas. Ao lado das Enarrationes in Psalmos e dos In Iohannis evangelium tractatus (cf. II.B) conservaram-se 559 Sermones ad populum hoje reconhecidos como autênticos, que normalmente eram escritos por estenógrafos na própria ocasião e que foram reunidos na biblioteca particular de Agostinho. Não obstante trata-se aqui apenas de uma pequena fração dos cerca de três ou quatro mil sermões efetivamente proferidos por ele durante os quase quarenta anos, em todos os períodos do ano eclesiástico, nas festas dos santos, sobre a Sagrada Escritura, a doutrina cristã e a reta conduta cristã. Só em 1990 foram identificadas por François Dolbeau na biblioteca municipal de Mogúncia treze pregações até então inteira ou parcialmente desaparecidas, porém comprovadas como autênticas pelo Indiculus de Possídio. No corpo de suas pregações Agostinho se demonstra não apenas como brilhante orador, que sabe formular de maneira entusiástica e compreensível, mas também como um mestre claro e muito compreensivo. Muita coisa que nas obras polêmicas, a bem da força de persuasão, é expresso de uma forma aguçada, até mesmo com risco de ser mal entendido ou entendido de maneira unilateral, em suas pregações e nos escritos catequéticos é encontrado com uma apresentação muito mais equilibrada. Portanto, para chegarmos a uma adequada visão da teologia de Agostinho, nunca devemos buscá-la unicamente em suas obras polêmicas, mas completá-la sempre com os escritos pastorais.

Um dos grandes conhecedores de Agostinho no séc. XX, Agostino Trapè, resume assim as múltiplas atividades de Agostinho (Quasten III 33ls e DPAC 55): “(1) para a igreja de Hipona: pregações, pelo menos aos sábados e domingos, muitas vezes também por vários dias seguidos ou duas vezes no mesmo dia; audiências para o clero e o povo, bem como para resolver casos e queixas jurídicas, que frequentemente duravam o dia inteiro; o cuidado pelos pobres e os órfãos, a formação do clero, a organização dos mosteiros masculinos e femininos, a administração dos bens eclesiásticos, visitas a enfermos, intervenções junto a autoridades oficiais em favor de membros da comunidade; (2) para a igreja da África: frequentes viagens para tomar parte em sínodos anuais, para visitar os confrades e para tarefas da Igreja; (3) para a Igreja universal: controvérsias dogmáticas, respostas a numerosas consultas, livros e mais livros a respeito das mais diversas questões que lhe eram apresentadas.” E sobretudo o corpo epistolar, abrangendo 299 itens, reflete a variedade da atuação pastoral, social, política e pessoal de Agostinho durante mais de 40 anos (386 até sua morte em 430). Só em 1981 Johannes Divjak editou 29 importantes cartas por ele recém-descobertas, que de lá para cá já foram também estudadas a fundo.

Mesmo quando disputava com adversários, Agostinho primeiro tentava conquistá-los e só depois vencê-los, com a preocupação de impedir que alguém fosse induzido em erro. As quatro grandes controvérsias travadas servem não apenas para melhor organizar seus quase quarenta anos de atividade pastoral, mas trouxeram contribuições essenciais para o desenvolvimento de sua teologia".

*   *   *

CONTINUA

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[1] DROBNER, Hubertus R. – Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes. 2008. 653 páginas.

nov 16

O SÉCULO XXI À LUZ DA PATROLOGIA – PARTE III

Santo Agostinho

CAMINHOS DA PATROLOGIA – PARTE III – 

                                Apraz-nos falar sobre cada um dos assim chamados “Pais da Igreja”, porque, conforme ressaltamos alhures, são eles que, juntos, mantêm aceso o grande farol do cristianismo. Neste espaço reservado, já foram expostas as vidas e as obras de muitos deles, sem qualquer indicação de quem tenha sido o maior ou o menor, haja vista que todos, sem exceção, cumpriram papel de vital importância para que a Igreja de Cristo tomasse impulso e percorresse os séculos que se avizinhavam.

                        A partir desta edição, e talvez por mais umas duas ou três, estaremos falando sobre a vida e a obra de mais um desses ícones sagrados da história do cristianismo. Nas palavras e na obra de Hubertus R. Drobner, em seu Manual de Patrologia, vamos buscar tudo isso, sobre a biografia de Aurelius Augustinus, historicamente conhecido como “Santo Agostinho”. Falar mais, neste momento, é atropelar o autor que nos auxilia. Portanto, vamos ao trabalho:

“AGOSTINHO DE HIPONA[1]

1. Biografia, atividade literária e traços fundamentais de seu pensamento

A. Até a conversão 1. Juventude e formação

CONTINUAÇÃO

3. Retor em Roma e Milão: cético e platônico

         A permanência de Agostinho em Roma, aonde chegou em 383, não durou muito tempo. Por um lado também aqui seus alunos o decepcionaram; embora fossem mais disciplinados, gostavam de calotear os honorários do professor Por outro lado, já no primeiro ano surgiu a extraordinária oportunidade de um grande salto em sua carreira. A corte imperial em Milão havia encarregado c prefeito da cidade de Roma, Símaco (o mesmo que em 383, contra a resistência de Ambrósio, tentou conseguir a restauração do altar da Vitória; cf. cap. VII.II1 de procurar um magister rhetoricae para Milão, cuja tarefa consistia sobretudo em fazer publicamente discursos elogiosos ao imperador e a outras personalidades, além de dar aulas de retórica. Com a ajuda de seus amigos maniqueu; Agostinho conseguiu a indicação, de modo que já no outono de 384 se encontrava em Milão a fim de assumir seu novo ofício.

        Milão haveria de tornar-se o último estágio na rota a caminho da conversão de Agostinho, embora ele próprio ainda não o pudesse prever, e nos dois ano; seguintes uma série de eventos contribuiu para que chegasse ao ponto culminante de sua evolução. Em primeiro lugar, havia o bispo da cidade, Ambrósio. A essa altura, já no seu íntimo inteiramente distanciado do maniqueísmo, ma; sempre em busca da verdade, isto é, de Cristo, Agostinho frequentou os ofício; divinos do bispo, menos porque esperasse - como mais tarde confessou abertamente (conf V 13,23) - escutar dele enfim a verdade que o haveria de convencer, mas por ele o haver cumprimentado amavelmente à sua chegada, e porque Agostinho queria verificar se ele realmente merecia a grande fama de pregador Ambrósio justificou sua fama de uma maneira ainda melhor do que Agostinho esperava: pois com suas pregações ele ganhou não somente o aplauso do experimentado retor, mas com sua interpretação do Antigo Testamento, espiritual; de tendência platônica, conquistou também seu coração, ao abrir pela primeira vez para Agostinho, contrariamente à sua primeira impressão de barbarismo das histórias veterotestamentárias, e contrariamente à crítica maniqueia do AT um sentido aceitável para a Bíblia.

          Isto o levou à definitiva ruptura com o maniqueísmo, o que Mônica percebeu com alegria quando chegou a Milão na primavera de 385. É verdade que Agostinho, “à maneira dos acadêmicos”, encontrava-se agora num estado de dúvida metódica em relação a todas as convicções, mas para Mônica o distanciar-se do erro já significava o primeiro e esperançoso passo em direção à verdade da Igreja, de modo que de imediato ela procurou energicamente favorecer o maior progresso de seu filho. Disto fazia parte em primeiro lugar um casamento de acordo com sua posição social, não só por causa da carreira profissional, mas sobretudo na esperança de que Agostinho, uma vez chegado ao porto seguro do matrimônio, pudesse também decidir-se pelo batismo (conf VI 13,23). Mônica, por isso, arranjou o noivado de Agostinho com uma jovem e nobre menina de Milão, à qual, no entanto, ainda faltavam dois anos para a idade legal do casamento (doze anos). Sua companheira, porém, ele teve que despedir logo, o que doeu-lhe profundamente. Ela voltou para a África sem o filho Adeodato, que permaneceu com o pai.

        O processo de decisão de Agostinho e a divisão interior entre o anseio por uma vida segundo a sabedoria, isto é, na ascese, e sua necessidade de realização sexual, a que ainda lhe parecia impossível renunciar, aguçou-se no início de 386, quando através de um grupo de amigos teve conhecimento dos escritos dos neoplatônicos, provavelmente na tradução do célebre retor Mário Vitorino, o qual, em 355, depois de já lhe ter sido concedida a extraordinária honra de uma estátua no Fórum Romano, convertera-se espetacularmente ao cristianismo, e cujo exemplo foi mostrado a Agostinho pelo sacerdote Simpliciano, que há tempos já convertera ao cristianismo o célebre retórico Mário Vitorino (conf VIII 2,3-4). O platonismo convenceu-o primeiramente de um conceito puramente espiritual de Deus como o ser e o bem, e respondeu à sua pergunta pela origem do mal como a ausência (sem substância) do bem. Mas faltava ainda Cristo como o Salvador, e não apenas como o mais sábio dos homens e como autoridade doutrinai. Por isso Agostinho voltou-se agora novamente para as cartas de Paulo e descobriu-o como o doutor da graça em síntese platônica: “entendi que toda a verdade que eu havia lido com os platônicos era dita aqui com a permanente menção de tua graça” (conf\II 21,27). Reconheceu agora pela primeira vez que não tinha que escolher entre a razão ou a fé, como alternativas, mas que fé e razão estavam interligadas como unidades complementares. Mais tarde resumiu a mútua função de uma em relação à outra na dupla fórmula: “intellege ut credas, crede ut intellegas” (sermo 43,9).

        A crise decisiva foi provocada, enfim, pelo exemplo do pai do monaquismo egípcio, Antão, de quem seu amigo Ponticiano lhe falava. “Ouviste isto?”, gritava ele ao seu amigo Alípio, “os incultos se erguem e arrebatam o céu para si, e nós, com nossas frias ciências, ficamos nos revolvendo na carne e no sangue!” (con/VIII 8,19), e saiu apressadamente para o jardim. Ali se desenrolou então a célebre cena da conversão. Enquanto, perturbado, andava de um lado para outro, Agostinho ouviu de uma casa vizinha uma voz de criança que dizia: “Tolle, lege, tolle, lege” (toma e lê), e como não conseguisse lembrar-se de uma brincadeira de criança com estas palavras, entendeu-o - como antes o fizera Antão -como um sinal de Deus para que abrisse a Bíblia. Abriu as cartas de Paulo na passagem Rm 13,13s: “não em orgias e bebedeiras, em concubinato e libertinagem, em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne para lhe satisfazer os apetites”. “Logo que chegou ao fim desta frase desvaneceram-se todas as sombras da dúvida, como se em meu coração se tivesse despejado a luz de uma certeza” (con/VIII 12,29). Sobre a historicidade desta cena de conversão muito se discutiu; mas apesar de tudo ela pode haver-se desenrolado exatamente assim, por volta de 1º de agosto de 386.”

 

*  *  *

CONTINUA

____________________________ [1] DROBNER, Hubertus R. – Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes. 2008. 653 páginas.

out 11

O SÉCULO XXI À LUZ DA PATROLOGIA – PARTE II

Santo Agostinho

CAMINHOS DA PATROLOGIA – PARTE II –

                        Apraz-nos falar sobre cada um dos assim chamados “Pais da Igreja”, porque, conforme ressaltamos alhures, são eles que, juntos, mantém aceso o grande farol do cristianismo. Neste espaço reservado, já foram expostas as vidas e as obras de muitos deles, sem qualquer indicação de quem tenha sido o maior ou o menor, haja vista que todos, sem exceção, cumpriram papel de vital importância para que a Igreja de Cristo tomasse impulso e percorresse os séculos que se avizinhavam.

                        A partir desta edição, e talvez por mais umas duas ou três, estaremos falando sobre a vida e a obra de mais um desses ícones sagrados da história do cristianismo. Nas palavras e na obra de Hubertus R. Drobner, em seu Manual de Patrologia, vamos buscar tudo isso, sobre a biografia de Aurelius Augustinus, historicamente conhecido como “Santo Agostinho”. Falar mais, neste momento, é atropelar o autor que nos auxilia. Portanto, vamos ao trabalho:

AGOSTINHO DE HIPONA[1]

Biografia, atividade literária e traços fundamentais de seu pensamento

Até a conversão 1. Juventude e formação

[...] CONTINUAÇÃO

                        Os pais de Agostinho, apesar de seus limitados recursos financeiros, ambi­cionavam proporcionar ao filho bem dotado, como condição indispensável para exercer qualquer carreira profissional, quer como professor, quer como advoga­do ou político, a melhor formação escolar possível. Depois do ensino na escola elementar, que incluía leitura, escrita e cálculo, esta consistia em dois estágios: o estudo da língua e da literatura com o Grammaticus, que Agostinho concluiu em sua cidade natal de Tagaste, e o estudo da Dialética e Retórica, bem como das demais artes liberales (Aritmética, Música, Geometria, Astronomia, Filoso­fia) com o Rhetor, para o que ele primeiramente mudou-se para a vizinha Madauro, e em 370 para a capital da província, Cartago, que era o centro político e cul­tural da África do Norte. Nas Confissões Agostinho pinta uma viva imagem de seu tempo de escola. Depois de haver, quando criança, aprendido inconsciente­mente e em liberdade sua língua materna, repugnava-lhe o ensino forçado por meio de castigos e açoites na escola elementar, aceito pelos pais como coisa natural, e que lhe criou aversão também ao estudo do grego, de tal forma que nun­ca dominou fluentemente esta língua, embora muito se discuta sobre a exata extensão de seus conhecimentos. Só se entusiasmou pelo ensino do latim, desta­cando-se aqui também de maneira particular.

                        Pelo fim do seu décimo sexto ano de vida Agostinho teve que voltar de Madauro para casa e passar aí um ano inteiro de ócio forçado, porque seus pais tinham primeiro que reunir os meios financeiros para a temporada mais longa de estudos prevista para Cartago. Ocorreu por esta época o despertar sexual de Agostinho, que, como ele mesmo refere nas Confissões (II 3,6), seu pai observava com ale­gria na esperança de brevemente ter netos. (Mas o nascimento do neto Adeodato ele não haveria mais de presenciar.) O fato de neste período de inatividade e ao mesmo tempo de tempestuoso desenvolvimento pessoal ele juntar-se com um bando de jovens com as mesmas intenções e praticar toda sorte de travessuras parece uma consequência quase inevitável. Mas quando escreveu as Confissões, já como bispo, ele só olhava para esta época com extrema aversão, sobretudo para o roubo das peras que se tornou célebre, cometido por ele e seus comparsas não pelas frutas em si mas apenas por causa da comum traquinagem.

2. Em busca da “verdadeira filosofia”: pai de família e maniqueu

               Durante os anos de estudo em Cartago Agostinho não apenas completou com êxito sua formação retórica, mas teve também três encontros decisivos que haveriam de marcar durante anos os rumos de sua vida. Depois de uma série de aventuras sexuais manifestamente sem grande seriedade, já em Tagaste e depois em Cartago, o mais tardar a partir de 372, o ano do nascimento de seu filho Adeodato, ele cultivou uma constante e fiel comunhão quase-matrimonial com uma mulher (cujo nome nunca menciona), com a qual um casamento oficial não era possível em vista da diferença de classe social, ou não era desejável para sua carreira. Pois só a despediu em Milão (depois de 384), exatamente para contrair um matrimonium oficial que lhe favorecesse a carreira. Durante o seu 19° ano de vida ele leu o diálogo de Cícero Hortensius, do qual hoje só se conservaram os fragmentos citados em suas Confissões. Este despertou nele o “amor à sabe­doria” (philosophia) e serviu de base para sua perseverante busca, embora até a conversão isto o levasse a muitos descaminhos. Pois para o homem da Anti­guidade a palavra “filosofia” jamais significava unicamente uma estrutura teóri­ca de pensamento, mas sempre também o reto conhecimento e a reta conduta da vida (ética), o que aliás já havia possibilitado aos apologetas anunciar de ma­neira atraente o cristianismo como a “verdadeira filosofia”. Com base na sua educação, Agostinho associou naturalmente seu recém-descoberto “amor à sabedoria” com a questão de Cristo, voltando-se por isso para a leitura da Bíblia, que, no entanto, por causa das bárbaras histórias do Antigo Testamento e sobretudo por seu estilo inteiramente inculto em comparação com Cícero, o dei­xou profundamente decepcionado.

                        Nesta situação deparou-se com o maniqueísmo, que parecia oferecer-lhe tudo quanto ele procurava: o nome de Cristo, a racionalidade e formação em lu­gar de uma fé baseada simplesmente na autoridade da Igreja, a rejeição do Anti­go Testamento, bem como uma resposta plausível à questão que há muito já o atormentava: “unde malum?”, com base numa imagem materialista de Deus e numa imagem dualista do mundo: Bem e mal existiriam como dois princípios (reinos) antagônicos e coeternos, o reino da luz e o reino das trevas, cujo campo de batalha estava no interior do homem, por ser ele composto de espírito e ma­téria. A esta doutrina Agostinho aderiu por nove anos1, no estágio inferior dos auditores, que não exigia dele as normas extremamente rigorosas de ética e de ascese dos electi, embora fossem estas que no essencial foram determinantes para a grande força que o maniqueísmo exerceu sobre ele. Mônica, como fervo­rosa católica, ficou horrorizada com a conversão de seu filho ao maniqueísmo. Com um herege ela não queria ter nada a ver, de modo que por algum tempo proibiu-o de entrar em casa, quando em 374/375 ele voltou para Tagaste a fim de trabalhar aí como professor. Só depois da visão descrita mais acima foi que ela voltou a ter contato com ele, com o fim de salvá-lo. Nesse meio tempo Agostinho encontrou abrigo e apoio junto a um maniqueu rico de Tagaste, Romaniano, o qual, quando um ano mais tarde ele retornou para Cartago por causa da morte de um amigo íntimo, lhe deu recomendações para lá.

                        Mas os anos seguintes de ensino em Cartago decepcionaram cada vez mais Agostinho; seus alunos eram mal-educados, e do maniqueísmo, que a princípio tão convincente lhe parecera, ele foi mais e mais se alienando, porque seus adeptos não sabiam responder a suas perguntas críticas sobre as incoerências de seu sistema, que ele percebia em medida crescente. Consolavam-no dizendo que aguardasse a chegada de seu líder espiritual, o bispo Fausto. Mas quando este enfim chegou a Cartago, no 29° ano da vida de Agostinho, revelou-se como um lisonjeador sem substância, que também não tinha respostas para as per­guntas de Agostinho. Não obstante Agostinho não rompeu ainda publicamente com o maniqueísmo, mas fez-se recomendar por seus amigos para Roma, onde esperava um melhor progresso e sobretudo encontrar alunos mais obedientes.

 

*  *  *

 CONTINUA

  ______________________________________   [1] DROBNER, Hubertus R. – Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes. 2008 653 páginas.

set 27

O SÉCULO XXI À LUZ DA PATROLOGIA

Santo Agostinho

CAMINHOS DA PATROLOGIA – PARTE I –

                          Apraz-nos falar sobre cada um dos assim chamados “Pais da Igreja”, porque, conforme ressaltamos alhures, são eles que, juntos, mantém aceso o grande farol do cristianismo. Neste espaço a eles reservado, já foram expostas as vidas e as obras de muitos deles, sem qualquer indicação de quem tenha maior ou menor, haja vista que todos, sem exceção, cumpriram papel de vital importância para que a Igreja de Cristo tomasse impulso e percorresse os séculos que se avizinhavam.

                        A partir desta edição, e talvez por mais umas duas ou três, estaremos falando sobre a vida e a obra de mais um desses ícones sagrados da história do cristianismo. Nas palavras e na obra de Hubertus R. Drobner, em seu Manual de Patrologia, vamos buscar tudo isso, sobre a biografia de Aurelius Augustinus, historicamente conhecido como “Santo Agostinho”. Falar mais, neste momento, é atropelar o autor que nos auxilia. Portanto, vamos ao trabalho:

AGOSTINHO DE HIPONA[1]

"Embora não ostente o honroso título de “o Grande”, como os papas Leão e Gregório, Agostinho não deixa de ser incontestavelmente o mais importante dos Santos Padres e o que maior influência exerceu sobre a Igreja ocidental. Não somente suas “Confissões” fascinaram através dos séculos, mas todo seu sistema teológico, até Tomás de Aquino, não foi objeto de contestação ou de concorrência. Mesmo depois sua popularidade não sofreu queda, como o demonstram as publicações que se ocupam com sua pessoa, sua obra e seu pensamento, e cujo número, ano após ano, conta-se às centenas, o que faz com que se torne cada vez mais trabalhoso dominar esta área especial da Patrologia. Enquanto todos os outros Santos Padres podem ser classificados dentro de contextos mais amplos, na Igreja ocidental a própria pessoa de Agostinho representa a força que reuniu em si e que conferiu rumo a todos os anseios eclesiásticos e teológicos do seu tempo. Tudo isso justifica e exige que a ele seja dedicado um capítulo especial.

Como é do conhecimento de todos, as três primeiras décadas da vida de Agostinho já deixaram perceber seus elevados dotes, mas não uma dimensão que viesse a se tornar determinante para a história do mundo. Pois quando na noite de Páscoa de 387, aos 32 anos de idade, ele recebia o batismo em Milão, deixava para trás os variados e movimentados anos de sua vida, que mais tarde foram literariamente elaborados em suas mais que célebres “Confissões” (Confessiones). Suas outras obras, entre elas, de maneira especial, os diálogos compostos em Cassicíaco, as cartas e as pregações, completam estes apontamentos para os anos que se seguiram à sua conversão. Acrescente-se a isto a Vita, surgida poucos anos depois de sua morte (432-439), escrita por seu discípulo e amigo Possídio, que viveu com ele em Hipona, e depois, a partir de 397, residiu como bispo em Calama, mas que, fugindo dos vândalos, esteve presente em Hipona por ocasião da morte de Agostinho (430).

Para os escritos de Agostinho existem na literatura dois catálogos de valor incalculável. Pelo fim de sua vida (426/427), ele próprio discutiu suas obras num catálogo que chamou de “Retractationes” (reelaborações), porque aí fixou brevemente não apenas sua gênese e conteúdo, mas também correções críticas e acréscimos. Assim propunha-se ele no prólogo: “Quero com certo rigor fazer uma revisão de minhas obras, tanto em livros quanto em cartas ou tratados, e assinalar como se fosse com o buril do crítico o que nelas não me agradar.” Embora Agostinho, de fato, só chegasse a se ocupar com seus 93 livros, não chegando mais às cartas nem aos tratados (discursos/pregações), as Retractationes possuem um valor sem precedentes, que consiste em testemunhar seu desenvolvimento espiritual de uma forma que do contrário seria totalmente impossível. Possídio, o biógrafo de Agostinho, acrescentou à sua Vida uma lista de suas obras (Indiculus), baseada na ampla, se bem que incompleta, coleção da biblioteca particular de Agostinho, lista essa que também se revelou até o presente como de inestimável valor, sobretudo para o conhecimento de suas obras que se perderam e para determinar a autenticidade de novos escritos descobertos, como, por ex., as pregações encontradas em 1990 em Mogúncia.

Biografia, atividade literária e traços fundamentais de seu pensamento 

A. Até a conversão

1. Juventude e formação

Agostinho veio ao mundo a 13 de novembro de 354 na cidade de Tagaste (hoje: Souk-Ahras na Argélia), situada na província norte-africana da Numídia, como filho de um funcionário não cristão do Império Romano, Patrício, que só recebeu o batismo pouco antes de sua morte (371), e da piedosa cristã Mônica (Monnica). Embora por via de regra quase não se ouça falar em irmãos e irmãs de Agostinho, ele não era filho único, mas tinha pelo menos um irmão chamado Navígio, que o acompanhou mais tarde para Milão, Cassicíaco e na comunidade claustral de Tagaste, bem como uma irmã, cujo nome não conhecemos. Uma observação nas Confissões, de que Mônica teria “criado filhos” (IX 9,22: nutrierat filios), bem como mais tarde a menção de alguns sobrinhos e sobrinhas, permitem-nos suspeitar mesmo que a família ainda tenha sido mais numerosa. Segundo o costume da época de adiar o batismo até à idade adulta, Agostinho, embora não tenha recebido o batismo, foi no entanto já como recém-nascido inscrito normalmente entre os catecúmenos e educado pela mãe na fé cristã. Por isso, em todos os erros e confusões até sua conversão ele sempre se considerou como cristão e em busca de Cristo, embora não como católico, e sua mãe Mônica não desistiu de o levar e acompanhar para a Igreja católica. Mesmo quando quase aos trinta anos (383) subtraiu-se ao amor materno, que certamente lhe parecia importuno, e secretamente viajou para Roma - por mais que devamos ser cuidadosos com as categorias psicológicas modernas, que precisamente no caso de Agostinho são com tanta frequência aplicadas com não pouca leviandade -, ela não hesitou em resolver seus assuntos domésticos e ir atrás dele até Milão. O próprio Agostinho relata nas Confissões (III 11,19) a respeito de uma visão de sua mãe que se tornou célebre e que manifesta as motivações que a animavam: “Ela via-se em pé sobre uma prancha de madeira e um jovem radiante vindo em sua direção, alegre e sorridente, enquanto ela sentia-se inteiramente esgotada de tristeza. Depois de ele haver perguntado pelas razões de sua tristeza e das lágrimas diárias, ... e de ela ter respondido que chorava minha perdição, ... o jovem lhe disse que olhasse e prestasse atenção: onde ela estava, eu estava também. Logo que ela prestou atenção, viu-me a seu lado em pé sobre a mesma prancha.” E um pouco mais tarde ela foi consolada por um bispo, que não é identificado mais detalhadamente, com estas palavras proféticas que também adquiriram celebridade: “Um filho destas lágrimas é impossível que se perca” (conf III 12,21).

 

CONTINUA

_____________________________________________ [1] DROBNER, Hubertus R. – Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes. 2008. 653 páginas.

set 13

PATROLOGIA: A OBRA DE ORÍGENES

farol de alexandria - 2 PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO – ORÍGENES – ÚLTIMA PARTE –

*Por Luiz Antonio de Moura -

            Nesta edição estamos finalizando o trabalho sobre um pouco da vida e da obra de Orígenes. É óbvio que não esgotamos o manancial de informações que sobre ele chegaram até os nosso dias. Entretanto, por óbvio também, não temos condições de reproduzir absolutamente tudo aqui, neste espaço limitado. Por esta razão, e confiantes de que já expusemos informações valiosíssimas acerca deste de foi um dos maiores escritores eclesiásticos, estamos apresentando a parte final, valendo-nos, ainda da doutrina de Hubertus R. Drobner em seu Manual de Patrologia, 2ª edição. Petrópolis. Vozes: 2008.

                      Ao leitor, devemos informar que, conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

“3. De principiis

De principiis (a base, o princípio) foi como acertadamente Orígenes sobrescreveu sua mais importante obra teológica, onde nos anos 220-230 lançou em quatro livros as teses essenciais de sua teologia. Livro I: O mundo antes da criação, Trindade e criação espiritual (anjos); Livro II: A identidade entre o Deus criador e Deus Pai, a criação e redenção do mundo e do homem; Livro III: A livre vontade do homem, tentação, pecado e a restauração temporal de todas as coisas em Deus; Livro IV: inspiração e interpretação da Sagrada Escritura como fonte de fé. A base de toda teologia, como Orígenes destaca no prefácio, é dada pela Sagrada Escritura e a regula fidei. Com isto ele deseja esclarecer que sua teologia pretende ser ortodoxa e enraizar-se na tradição da Igreja. Isto se mostra também em suas tomadas de posição contra as heresias de seu tempo: contra os marcionitas ele enfatiza a bondade do Criador e sua identidade com o Pai de Jesus, assim como a unidade dos dois testamentos; contra os valentinianos, a livre vontade e a responsabilidade pessoal pelo pecado; contra o docetismo, a verdadeira encarnação de Cristo como pressuposto para a redenção; contra os moda-listas, a autonomia de cada pessoa divina; e contra os adocionistas a eterna geração do Filho.

Por outro lado, a obra contém teologúmenos que mais tarde deixaram de ser considerados ortodoxos, e que provocaram as controvérsias origenistas:

1) Sua doutrina trinitária é subordinacionista na medida em que, embora distinga claramente entre o Pai e o Filho, vê a diferença no poder subordinado do Filho.

2) A doutrina da preexistência das almas: As almas dos homens teriam sido criadas antes do mundo. Mas como se teriam desviado de Deus com os anjos decaídos, teriam sido banidas para um corpo.

3) A doutrina da restauração ou renovação: no final o ato de redenção do Filho, segundo ICor 15,23-26, levaria todos os seres, mesmo Satã, ao primitivo estado de bem-aventurança.

Com exceção de uns poucos fragmentos gregos, De principiis só se conservou integralmente na tradução latina de Rufino, mas que só com cuidado deve ser interpretada como a verdadeira teologia de Orígenes. Pois surgiu em 397, por causa da primeira grande controvérsia em torno da teologia de Orígenes, e retoca as passagens mais polêmicas. Já a tradução literal de Jerônimo, dirigida contra Rufino, infelizmente perdeu-se.

4. Contra Celsum

Como já se descreveu na introdução, uma forma de discussão entre o cristianismo e o paganismo consistia, na época pré-constantiniana, na controvérsia literária dos eruditos. Nem mesmo Orígenes conseguiu subtrair-se a isto, embora a rigor ele não desejasse envolver-se. Por volta de 178 o filósofo pagão Celso havia escrito um livro intitulado “O verdadeiro Logos” contra os cristãos, que estava longe de simplesmente repetir os usuais preconceitos populares. Pelo contrário, ele havia obtido muito boas informações sobre o cristianismo, e agora, na sua opinião, estava em condições de lançar um ataque partindo de um flanco filosoficamente mais elevado. Reconhecia perfeitamente a doutrina dos cristãos sobre o Logos, que podia facilmente se harmonizar com a filosofia platônica ou sincretista da época, assim como sua moral elevada e conduta modelar de vida, o que também seria um objetivo da verdadeira filosofia. Mas a figura judeu-cristã de um messias, e sua personificação em Cristo, parecia-lhe por demais ridícula. Cristo seria apenas um embusteiro e feiticeiro, e seus apóstolos apenas teriam inventado o mito de sua ressurreição. Em comparação com isto, a fé filosófica dos gregos em Deus parecia-lhe, em racionalidade, muito superior ao cristianismo.

5. As controvérsias origenistas

É difícil avaliar em sua justa medida a difusão e a influência da teologia de Orígenes nos séculos seguintes até à Idade Média. Mas pelo final do séc. IV tiveram início controvérsias que duraram séculos e que foram iniciadas pelo bispo Epifânio de Constância (Salamina). Já havendo incluído Orígenes em sua obra Panarion (composta em 374-377), que apresentava todas as heresias surgidas até então, em pregações para a festa da consagração da igreja em Jerusalém, em 393, ele acusou o bispo João de Jerusalém de origenismo, exigindo que ele condenasse Orígenes. Pouco tempo depois um certo Atárbio visitou os conventos da Palestina a fim de conseguir apoio para isto. Rufino o rejeitou, mas Jerônimo recebeu-o com benevolência. A partir daí desenvolveu-se a primeira grande controvérsia origenista entre Epifânio, Jerônimo e Teófilo de Alexandria, por um lado, e Rufino e João de Jerusalém, por outro, sobretudo em torno da teologia do De principiis.

O ponto culminante e encerramento das controvérsias origenistas foi atingido no séc. VI, quando monges dos dois conventos (Laura) sobre o monte Sinai se dividiram por causa de sua teologia. Em 543 o imperador Justiniano promulgou um edito antiorigenista, que não encontrou objeção nem por parte do papa nem dos patriarcas. A seguir a polícia imperial confiscou e destruiu todos os escritos de Orígenes em que pôde deitar a mão, o que ocasionou as lacunas hoje existentes nas fontes. É verdade que o II Concilio de Constantinopla (553), no cânon 11, incluiu Orígenes entre os hereges, mas nem no esboço do imperador nem na carta com que o papa Vigílio aprovou o concilio seu nome é mencionado. Devemos, pois, admitir que este concilio não condenou Orígenes, e por conseguinte também não considerou sua teologia como herética.”

Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página www.facebook.com/lisaac.sementes

ago 23

PATROLOGIA: OS ESCRITOS DE ORÍGENES

farol de alexandria - 2

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO –

*Por Luiz Antonio de Moura -

                            Embora já tenhamos falado muito sobre Orígenes, é óbvio que não esgotamos o manancial de informações que sobre ele chegaram até os nosso dias. Entretanto, por óbvio também, não temos condições de reproduzir absolutamente tudo aqui, neste espaço limitado. Por esta razão, e sem deixar de expor a grande obra de Orígenes estamos, hoje, auxiliados por Hubertus R. Drobner em seu Manual de Patrologia, 2ª edição. Petrópolis. Vozes: 2008, trazendo para os nossos leitores um pouco dos assim chamados “Escritos exegéticos”, de Orígenes. Um trabalho que certamente demandará algumas edições.

                              Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.                         

Os inícios das escolas cristãs

1. Os escritos exegéticos

A maior parte das obras de Orígenes são comentários à Bíblia. Embora sua fama o apresente como mestre da interpretação alegórica, Orígenes também partia em primeiríssimo lugar do sentido literal do texto bíblico, que ele estabelecia por meio da crítica filológica. Para tanto compôs por volta de 230 uma si­nopse de seis versões do Antigo Testamento: o texto original hebraico, o mesmo em versão grega, assim como as traduções gregas de Áquila, de Símaco, da Septuaginta e de Teodocião. Esta sinopse recebeu o nome de “Hexapla” (= a sêxtupla), embora, p. ex., para os salmos ele consultasse ainda até mais três outras traduções gregas. A meta era a reprodução mais exata possível do texto da Septuaginta, que para os Padres era considerado como verbalmente inspirado.

Os princípios exegéticos de Orígenes são apresentados em De principiis IV 2,4-5: “De três maneiras devemos gravar na alma os sentidos das Santas Escrituras: O simples deve edificar-se com a carne da Escritura - assim chamamos a concepção imediata -, o que progrediu um pouco edifica-se mais com sua alma, e o perfeito ... se edifica com a lei espiritual, que contém a sombra dos bens fu­turos (Cl 2,17; Hb 10,1). Pois como o homem se compõe de corpo, alma e espíri­to, assim também a Escritura... Mas como existem certos textos da Escritura que... não contêm de maneira alguma o corporal, em muitas passagens devemos buscar unicamente a alma e o espírito da Escritura.” Orígenes parte, pois, de três sentidos da Escritura, o sentido corporal ou literal, o sentido psíquico ou moral e o sentido espiritual ou místico. O sentido literal refere-se exclusivamen­te ao significado direto e objetivo das palavras, não ao seu emprego simbólico ou figurativo, como frequentemente ocorre na Bíblia. Por isso tais passagens da Bíblia não têm para Orígenes um sentido literal. Mas como, em virtude da inspi­ração verbal pelo Espírito Santo, toda palavra do texto bíblico deve ter um sen­tido digno e adequado a Deus, este deve ser buscado nos planos mais elevados. O sentido moral tira da Bíblia, além dos mandamentos e prescrições verbais nela contidos, as orientações de ação para a vida cristã, como é esperado pela comunidade sobretudo na pregação. O sentido místico, enfim, cumpre três fun­ções: abre tipologicamente o Antigo Testamento como profecia para Cristo; in­terpreta as declarações de fé da história da salvação; e explica a esperança escatológica dos cristãos. Pois centro e chave do sentido místico é o próprio Cristo, que em sua vida realiza as promessas do Antigo Testamento, ao mesmo tempo que aponta para sua volta. O Evangelho, desta forma, reflete a realidade (cf. ICor 13,12 e a parábola da caverna de Platão). Mas como o evangelho terreno é idêntico ao evangelho eterno, nele e nos sacramentos da Igreja os cristãos já têm participação na verdade de Cristo.

Daqui João Cassiano deduziu (conlatio 14,8) coerentemente um quádruplo sentido da Escritura, que por Agostinho da Dinamarca (t 1282) foi resumido no célebre hexâmetro:

"Littera gesta docet, quid credas allegoria,

moralis quid agas, quo tendas anagogia."

(A letra ensina os fatos, a alegoria o que deves crer, / o sentido moral o que deves fazer, e a anagogia o que hás de buscar).

Posta em prática, esta exegese levou muitas vezes a interpretações curiosas e estranhas à compreensão moderna. Mas a validade de seus princípios não sofre contestação, uma vez que já é empregada pelo Novo Testamento (p. ex. na aplicação da figura de Jonas a Cristo em Mt 12,39s, ou no sentido espiritual da circuncisão em Rm 2,29), e nenhum leitor e intérprete da Bíblia pode até hoje passar sem ela.

Baseado na produção filológico-crítica do texto correto da Bíblia, e empre­gando suas regras exegéticas, Orígenes compôs uma grande quantidade de obras exegéticas sobre quase todos os livros da Bíblia, em três gêneros literários: 

eruditos comentários teológicos,

explicações isoladas, notas marginais sobre o texto bíblico, e

pregações públicas anotadas por estenógrafos e que mais tarde, em parte passando por uma revisão, foram publicadas.

Porém nenhum dos comentários foi conservado integralmente; no original grego apenas oito livros do comentário de Mateus e nove do de João, em tradução latina quatro livros sobre o Cântico dos Cânticos, a segunda metade do comentário de Mateus e dez livros sobre a epístola aos Romanos. Os escólios são encontrados apenas entre os fragmentos, e das homílias foram transmitidas ao todo 279, mas destas apenas 21 no original grego.

2. A teologia espiritual

Em todos os escritos exegéticos, mas sobretudo nas homilias, se manifesta a teologia espiritual de Orígenes. No comentário ao Cântico dos Cânticos, por um lado ele interpreta a esposa como a Igreja, e por outro como a alma do homem que se une a Deus - as duas interpretações básicas de toda a patrística. O verdadeiro gnóstico (e aqui podemos perceber as íntimas conexões com Fílon e Clemente) sobe espiritualmente a Deus, assim como os apóstolos subiram com Cristo ao monte da Transfiguração para ali o contemplarem. Para isto deve ele, pela oração e o exercício das virtudes, libertar-se das paixões (...) e, enquanto caminha, desenvolver espiritualmente seus sentidos. Assim como possui cinco sentidos corporais, ele deve alcançar sentidos interiores, para ver a Deus, ouvi-lo etc. Com isto o homem alcança novamente sua plena semelhança com Deus (segundo Gn l,26s), obscurecida pela queda no pecado.

 

Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página www.facebook.com/lisaac.sementes

jul 26

PATROLOGIA: A DOUTRINA DE ORÍGENES

farol de alexandria– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO -

                     Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.                   Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo a 1ª parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.                       Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.                       Hoje, em prosseguimento com o relato sobre a vida e a obra de Orígenes, vamos buscar refúgio nos ensinamentos de Berthold Altaner e Alfred Stuiber que, no Livro “Patrologia, editado pelas Edições Paulinas. São Paulo: 1972. 540 páginas”, traz potente material biográfico acerca desse ícone da Igreja dos primeiros séculos:

A Doutrina de Orígenes

1. À semelhança da tricotomia platônica, Orígenes distingue um tríplice sentido na Escritura: o somático (literal, histórico-gramatical), o psíquico (moral) e o pneumático (alegórico-místico). Seu conceito de inspiração — detende uma estrita inspiração verbal — obrigou-o a recorrer, na exegese, ao método alegórico, a fim de investigar, assim, o “sentido superior e espiritual” da Sagrada Escritura, visto que a interpretação histórica dos textos parecia-lhe muitas vezes ser impossível, escandalosa e até blasfematória. Daí provém sua opinião de que, nas Sagradas Escrituras, tudo tem um sentido “espiritual” mas nem tudo possui sempre um sentido histórico. Esta sua doutrina do sentido espiritual aplica-a tanto ao AT quanto ao NT que, para ele, é “letra” (princ. 4,16ss). O fato de ter sido o gênio de Orígenes, em sua solicitude e escrupulosidade científicas, impelido a essa investigação unilateral do “sentido espiritual” dos livros bíblicos, é tanto mais compreensível, quanto a interpretação antiga dos textos, bem como a judaico-helenística (Fílon) já empregaram este mesmo método; por outro lado, Orígenes não dispunha de conhecimento subsidiário da época histórica e do ambiente cultural, para uma adequada exegese das Sagradas Escrituras. O exemplo de Orígenes se tornou, direta ou indiretamente, para os séculos subsequentes, até nossos dias, paradigma e sinal dos numerosos excessos da exegese posterior alegórica e tipológica que não sabe reconhecer, ser o “sentido literal”, primariamente, o “sentido espiritual” querido pelo Espírito de Deus, ao inspirar os escritores sagrados.

2. Orígenes concebe a criação como um ato eterno. A onipotência e a bondade de Deus nunca podem ficar sem um objeto para sua atividade. Numa eterna emanação, o Filho sai do Pai, e do Filho procede o Espírito Santo (in Jo 2,6). Ao atual mundo visível precedeu outro mundo de espíritos, inteiramente perfeitos. Parte deles apostatou de Deus — entre os quais também as almas humanas preexistentes; — por isso passaram a viver como exilados, dentro da matéria; as diversidades dos homens na terra e a medida das graças dadas por Deus a cada um são proporcionais à sua culpabilidade num mundo anterior. (Cels. 1,32-33; princ. 2,8s).

3. Orígenes aderiu ao subordinacionismo, quanto às relações das três Pessoas em Deus. Apesar de acentuar a eternidade do Filho de Deus, e de o chamar homooúsios, só o Pai é autótheos; o Logos, denominado deúteros theós, não é, como o Pai haplos agathós, mas eikòn agathótetos (Cels. 3,39; princ. 1,2,13). O Espírito Santo é inferior ao Filho (princ. praef. 4).

4. O Logos assumiu um corpo verdadeiro e é Homem-Deus (theánthropos). Orígenes foi quem plasmou esta expressão (hom. in Ez. 3,3). A união das duas naturezas em Cristo é extremamente íntima (Cels. 2,9); por isso Orígenes professa também a comunicação dos idiomas (princ. 2,6,3). Como Sócrates (h. e. 7,32,17), chamou a Maria, Mãe de Deus; cf. hom. in Lc 6,7 (Rauer 44,10;50,9). Em todo o caso, o termo theotókos se originou na escola alexandrina e é completamente familiar a santo Atanásio.

5. Orígenes afirma a fé e a doutrina do pecado original; toda alma, infundida na carne, está contaminada pelo pecado; o batismo das crianças remonta à própria tradição apostólica.

6. Orígenes pensa que a carne e o sangue na eucaristia se formam por influência do Logos de Deus e da epiclese dos homens sobre os elementos naturais. Denomina o corpo eucarístico “munus consecratum”, do qual nada se deve desperdiçar (Hom. in Ex 13,3). Em várias passagens interpreta alegoricamente “o corpo e o sangue de Cristo”. Em sua homilia in Nm 16,9, por ex., afirma a possibilidade de beber o sangue de Cristo de dois modos, ou seja “sacramentalmente” (“sacramentorum ritu”), ou “quando recebemos suas palavras que contêm a vida”. Observa que a fé na presença real de Cristo é a “mais comum entre os cristãos” (koinotéra), como fé dos “parvuli”, preferindo os “prudentiores” a concepção simbólica (in Mt ser. 86; in Mt 11,14). Orígenes atesta inequivocamente o caráter sacrifical e expiatório da celebração eucarística (in Jes Nave 2,1; Lv 13,3).

7. Orígenes designa os pecados capitais, ou “pecados mortais”, como “incuráveis” (or. 28,8.10), sem que o sejam de modo absoluto, por não se subtraírem inteiramente ao poder das chaves que possui a Igreja. Somente não podem ser perdoados como os pecados menos graves por um simples ato de misericórdia; devem ser expiados por penitência pública, de longa duração, e que inclui a excomunhão (Cels. 3,51). Não encontramos nas obras de Orígenes referências à penitência privada.

8. Um dos pontos capitais de sua doutrina é a apokatástasis pánton: as almas que pecaram na terra, irão, depois da morte, para um fogo purificador; pouco a pouco, porém, todos, inclusive os demônios, subirão, de grau em grau, até que, por fim, inteiramente purificados, ressuscitarão com corpos etéreos e, novamente, Deus será tudo. em todos. No entanto, esta restauração (apokatástasis) não significa o fim do mundo e, sim, um fim provisório. Antes de nosso mundo atual existiram outros mundos e, depois dele, ainda outros seguirão. De acordo com Platão, Orígenes ensinava sucederem-se os mundos, em mutação interminável. Portanto, Orígenes negava a eternidade do inferno.

9. Orígenes chegou a ser, para os séculos seguintes, o mestre mais influente da vida ascética e, como tal, o pioneiro do monaquismo. A exigência primordial para a sequela de Cristo e a aspiração à perfeição é conhecer-se a si mesmo. O cristão há de saber o que deve fazer e o que omitir, a fim de progredir no caminho da união com Deus e com Cristo (in Ct. 2,143-45). As condições e disposições principais para a união com Deus são o combate contínuo contra as paixões (páthe) e contra o espírito do mundo*. A mortificação da carne é o caminho seguro para dominar, enfim, todas as paixões (apátheia). Razão pela qual Orígenes recomenda a renúncia ao matrimônio, exaltando o celibato e o voto de virgindade, ambos ensinados pelo próprio Cristo (hom. in Nm 24,2). A ambição de obter honras e a posse de bens terrenos são empecilhos para o “vacare Deo” (hom. in Ex 8,4). Entre as práticas ascéticas, Orígenes aprecia altamente as frequentes vigílias, a meditação, jejuns rigorosos (hom. in Ex 13,5; hom. in Ps 34,13), bem como a leitura cotidiana das Sagradas Escrituras (hom. in Gn 10,3).

jun 28

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO -

                              Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

                              Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo a 1ª parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

                              Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

                         Hoje, em prosseguimento com o relato sobre a vida e a obra de Orígenes, vamos buscar refúgio nos ensinamentos de Berthold Altaner e Alfred Stuiber que, no Livro “Patrologia, editado pelas Edições Paulinas. São Paulo: 1972. 540 páginas”, traz potente material biográfico acerca desse ícone da Igreja dos primeiros séculos:

55 . ORÍGENES

Escólios, homílias e comentários.

 “Orígenes redigiu comentários sobre quase todos os livros bíblicos, muitos deles em duas, alguns mesmo em três diferentes formas literárias: em parte, na forma de escólios (schólia), a saber, breves notas acerca das passagens ou termos difíceis, à imitação dos gramáticos alexandrinos; ou, em parte homílias (homilíai, tractatus), isto é, preleções ou sermões, de cunho popular e edificante, amiúde improvisados, transcritos por estenógrafos e mais tarde, depois de revistos, publicados (alguns só póstumos); em parte ainda comentários eruditos, na acepção de hoje (tómoi, “volumina”), cujas explicações eram, às vezes, entremeadas de longas dissertações teológicas.

 a) Não resta escólio algum, na íntegra. Algumas notas encontram-se dispersas na “Philocalia” e em “catenae”. Os Escólios sobre o Apocalipse de João, publicados por Diobouniotis-Harnack, devem ser considerados, com boas razões, como parte de uma “catena”, baseada em Orígenes.

b) As seguintes homílias subsistem no original grego: 20 sobre Jr 1; 1 sobre lSm 28,3-25 (a pitonisa de Endor); — na tradução latina de Rufino (cf. adiante p. 392): 16 homílias sobre Gn; 13 sobre Ex; 16 sobre Lv; 28 sobre Nm; 26 sobre Js; 9 sobre Jz; 9 sobre Sl; na tradução de são Jerônimo; 2 sobre Ct; 8 (9?) sobre Is; 14 sobre Jr; 14 sobre Ez; 39 sobre Lc; — na tradução de santo Hilário de Poitiers: fragmentos de 22 homílias sobre Jó; — na tradução de um anônimo latino: 1 homilia sobre lSm 1-2 (o tradutor seria Rufino). Além desses, foram publicados fragmen­tos de homílias sobre Jó, Sm 1-2, Rs 1-2; lCor, Hb etc. 

Das 574 homílias (aproximadamente) de autoria de Orígenes não existem hoje senão 21 no original grego; das homílias vertidas ao latim perderam-se 388. Estas pregações proferidas a serviço das almas e com a finalidade de edificar exerceram grande influência sobre a piedade e a mística ulteriores.

c) Nenhum de seus comentários, em geral muito extensos, se conservou na íntegra. Dos 25 livros do Comentário de Mt possuímos 8 livros: 10-17 em grego e uma parte relativamente grande em versão latina anônima (citada como Commentariorum in Mt. series) de Mt 13 e 27,63; — em grego também 8 livros sobre Jo (dos 32); — o livro 1-4 do Comentário do Cântico dos Cânticos, na tradução de Rufino, para o latim; e uma recomposi­ção do Comentário sobre Rm (10 em vez dos 15 livros do ori­ginal). Existe ainda grande número de fragmentos, transmitidos pela Philocalia e sobretudo por “Catenae”. — Um comentário de Jó, em 3 livros, conservados em latim, não é autêntico; cf. p. 273. 

3. Contra Celso  (8 livros), é a mais importante apologia pré-nicena, embora, às vezes, um tanto superficial.

Orígenes a escreveu com mais de 60 anos, a pedido de seu amigo Ambrósio, para refutar o Alethès lógos do filósofo platô­nico Celso (cf. p. 70). Este apresentara Cristo como impostor vulgar e atribuía os aspectos extraordinários de sua vida a uma invenção poética de seus primeiros discípulos, assim como a rápida propagação do cristianismo à impressão que produziram os qua­dros aterradores do juízo final e do fogo do inferno na plebe.

A refutação de Orígenes segue, frase por frase, o escrito de Celso. Às vezes, a argumentação é fraca; mas mesmo assim, im­pressiona pelo tom sereno e digno e pela elevada erudição. Orí­genes, para comprovar a verdade do cristianismo, alega as curas de possessos e de enfermos que ainda, continuamente, Cristo ope­ra; apela, outrossim, para a pureza dos costumes dos fiéis, que brilham no mundo quais luzeiros celestes (phosteres).

4. Dos princípios (Peri archon, De principiis). Esta obra, composta entre 220-30, procura apresentar os problemas mais importantes da fé cristã, sem pretender dar soluções definitivas, em explicação sistemática. Apesar de todas as falhas, acentuadas pelos adversários de Orígenes, no curso das controvérsias origenistas, a obra é tanto mais apreciada quanto se pensa nas dificuldades e perigos que implicava o mero aproveitamento para a exposição da fé cristã, de elementos da filosofia platônica. A obra completa encontra-se somente na versão livre de Rufino, expurgada, o mais possível, de seus erros; a “Philocalia” e duas cartas do imperador Justiniano I encerram fragmentos gregos. A tradução feita por são Jerônimo, durante sua controvérsia com Rufino, não nos foi conservada. A obra consta de, aproximada­mente, 15 tratados bastante independentes; a divisão dos livros não é a original. O 1? livro versa sobre Deus Uno e Trino, os anjos e sua queda; o 25 6 7 * 9 livro trata da criação do mundo, do homem, consi­derado como anjo decaído, aprisionado em um corpo; do pecado original e da redenção por Jesus Cristo, e dos novíssimos. O 3° livro se ocupa do livre arbítrio, do pecado e da restauração de todas as coisas de Deus; o 49 livro trata da Sagrada Escritura como fonte da fé e do tríplice sentido da Bíblia. 

5. Da oração (Perì euches, De oratione): instrui sobre a oração em geral e explana o Pai-nosso; é um belo testemunho da profunda piedade do autor.

6. A Exortação ao martírio foi escrita em Cesareia, em 235, no início da perseguição aos cristãos por Maximino, o Trácio. Orígenes dirigiu-o a dois amigos, o diácono Ambrósio e o presbítero Protocteto — ambos já haviam passado por tribulações — esti­mulando-os a perseverarem com firmeza.

7.  Das numerosas discussões de Orígenes não chegou até nós senão a Disputa com Heráclides que se realizou, provavelmente, entre 244 e 249, na Arábia, tendo sido estenografada (Pap. de Tura). Tema da discussão é a relação do Pai ao Filho, e o modo de traduzi-la na oração eucarística. Além disso, Orígenes respon­de à questão, se a alma está no sangue e em que sentido a alma pode ser dita imortal.

8. Os papiros encontrados em Tura comportam dois tratados ou homílias Sobre a Páscoa, porém, incompletas e em péssimo estado de conservação.

9. Das numerosas Cartas, reunidas em quatro séries diferentes, uma das quais conta mais de cem, restam apenas duas cartas: a primeira dirigida a Gregório, o Taumaturgo, a segunda, a Júlio, o Africano (cf. p. 215)”.

  

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