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jun 01

O SANTO DO MÊS DE JUNHO

SANTO ANTONIO DE PÁDUA - 3

SANTO DO MÊS DE JUNHO –

*Enrico Pepe[1]

13 de junho

Santo Antônio de Pádua – sacerdote e doutor evangélico –

(1195-1231)

"A suprema origem, como diz Agostinho no livro De vera religione, é o Pai, do qual são todas as coisas e do qual procedem o Filho e o Espírito Santo. A perfeitíssima beleza é o Filho, que é a verdade do Pai, em nada dele diferente. A beatíssima alegria e o sumo bem é o Espírito Santo, que é o dom recíproco do mútuo amor entre o Pai e o Filho ”

Era esta a teologia que frei Antônio ensinava aos frades já nos tempos de São Francisco. Ele dava à ordem, que estava surgindo, uma preparação intelectual que a teria tornado capaz de levar o carisma franciscano a todos os ambientes sem perder o seu genuíno esplendor. Mas a figura de Antônio é pouco notada sob este aspecto, enquanto que é conhecidíssima na versão elaborada pela piedade popular.

Um santo universal

Em uma biblioteca de um bispo brasileiro encontrei um bonito livro com o título Antônio de Lisboa, santo e soldado. Eu já sabia bem que os países de tradição portuguesa sempre gostam de recordar suas origens lusitanas, mas que o amor dos brasileiros por este santo tivesse chegado até o ponto de colocá-lo na lista de pagamento do exército, isso eu jamais teria imaginado. Não só o escolheram para protetor dos seus soldados, mas fizeram-no percorrer toda a carreira militar desde simples soldado até capitão, pagando regularmente o estipêndio, não a ele, que está no paraíso onde não existe moeda corrente, mas ao convento de Santo Antônio.

Por sua vez também não é de maravilhar, porque a devoção para com este santo ultrapassou as soleiras da Igreja católica, suscitando o interesse também dos ortodoxos, budistas e muçulmanos. Onde tenham chegado os franciscanos, aí os povos, sem distinção de fé religiosa, o acolheram como um homem de Deus que com o seu poder taumatúrgico vai ao encontro das dores e das expectativas da humanidade de todos os tempos. Também por isso contam-se dele os seus milagres infindáveis, e às vezes até mesmo sem sentido crítico.

As primeiras etapas

Mas vamos olhar de bem perto a verdadeira história de Antônio. O seu nome de batismo é Fernando Martins; nasceu em Lisboa, Portugal, de uma família abastada, no ano de 1195. Até os 15 anos frequentou a escola da catedral. Nesse tempo, o livro de texto era o Saltério e os alunos mais inteligentes o aprendiam de memória. Servia para aprender a ler e a escrever, para cantar na igreja nas funções religiosas e também como catecismo para se instruir nas verdades da fé. Naturalmente era em latim, a língua de todas as escolas da Europa, que oferecia o privilégio muito grande de poder frequentar os mais prestigiosos centros de estudo desse continente. Junto com as verdades de fé, Fernando aprendeu também a gramática, a retórica, a música e a aritmética.

Aos 15 anos entrou para o mosteiro de São Vicente, dos monges regulares de Santo Agostinho, a poucos quilômetros de Lisboa. Era a única maneira de progredir nos estudos, mas foi também uma ocasião para descobrir a beleza da vida religiosa segundo a regra agostiniana: a vida comum tinha por modelo a primeira comunidade cristã, onde os monges procuravam ser um só coração e uma só alma e com este espírito se lançavam para fora do mosteiro, tendo como finalidade a edificação da Igreja.

Fernando teve ótimos mestres e tornou-se um fervoroso agostiniano. Tinha somente um desgosto: com muita frequência os seus parentes iam lá procurá-lo e isso o perturbava. Havia em Portugal o triste hábito de ir sempre aos mosteiros, não para fazer uma visita breve ou para se aprofundar na vida espiritual, mas para choramingar seus azares e com isso enganar os monges aparentados. Para o jovem Fernando isso não lhe melhorava o gênio, e não podendo se opor a esse abuso já inveterado, precisava num só golpe talhar o mal, e por isso pediu para ser transferido para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, distante 175 quilômetros de Lisboa.

Libertado da presença importuna dos parentes, pôde dedicar-se totalmente aos estudos e à oração. Orientado por ótimos mestres, ele aproveitou bem os estudos de teologia como de costume, começando pela leitura e meditação da Sagrada Escritura, depois a leitura dos escritos dos santos padres, com Agostinho em primeiro lugar, e os comentários mais prestigiosos como os de Pedro Lombardo.

Foi em Coimbra que ele encontrou a possibilidade de saciar a sua sede de sabedoria, mas foi aí também que encontrou uma grande cruz. Essa comunidade há muito tempo estava dividida em duas. Alguns observavam fielmente a regra sob a orientação do mestre João Nunonez, com o apoio até mesmo do papa, enquanto que outros bem consistentes seguiam os costumes dissolutos do prior, Dom João César, que se sentia forte pelo apoio do rei. O régio e pontifício mosteiro agostiniano de Coimbra, mais famoso pela santidade e pela ciência, tinha-se tornado motivo de escândalo em todo o reino.

Aí Fernando terminou os seus estudos e tornou-se sacerdote, sempre fiel ao seu ideal de monge e cultivando a esperança de que o seu mísero prior mudasse de vida, sobretudo depois que ele retornou do Concilio Lateranense IV, que havia chamado a atenção de todos para a necessidade da reforma da Igreja. Uma esperança que o prior de Coimbra logo fez que se tornasse vã, visto que acarretou para o rei e para o reino de Portugal a interdição.

O carisma do qual se enamorou

Nestas circunstâncias tão dolorosas, Fernando conheceu os frades de São Francisco. Eles moravam no cenóbio de Santo Antão das Oliveiras, não muito distante do mosteiro, e sempre vinham pedir esmola. O modo como eles se vestiam e a maneira como anunciavam a palavra de Deus tocaram profundamente o jovem monge agostiniano, mas o que ainda mais o fez pensar foi a chegada a Coimbra dos restos mortais de cinco frades franciscanos martirizados pelos muçulmanos em Marrocos. Esses filhos de Francisco de Assis não brincavam, tomavam o evangelho ao pé da letra e estavam sempre prontos para dar a vida pelo seu ideal.

Fernando procurou quem o aconselhasse e, tendo obtido a permissão do prior, pediu para se tornar franciscano. A passagem para a ordem e a vestição do rude hábito aconteceu no verão de 1220 de forma humilde e quase que escondida, pois Portugal estava sob a pena da interdição; e de fato não era a pompa das cerimônias o que atraía o apreço de Fernando.

A vida em Santo Antão das Oliveiras era aquela que ele, depois de se tornar frei Antônio, tinha sempre sonhado, porque aí a pobreza, a castidade e a obediência não eram dotes de dissertação, mas pérolas luminosas que resplandeciam no cotidiano, e o viver em fraternidade atingia plenamente o sonho evangélico de Agostinho: ser um só coração e uma só alma.

Antônio abraçava o carisma de São Francisco quando já havia adquirido com os agostinianos uma riquíssima bagagem cultural, sobretudo bíblica e patrística, que naqueles tempos ainda não teria encontrado entre os franciscanos. Ao mesmo tempo teve a felicidade de conhecer o franciscanismo no fervor da sua fundação.

Dirigido a Marrocos encontrou-se em Assis

Nesse período, o desejo de Francisco era o de evangelizar as terras onde habitavam os muçulmanos, e então também Antônio se preparou para partir para Marrocos, na esperança de que tal aventura terminasse com o martírio. Frei Antônio partiu no outono do mesmo ano ou na primavera do ano seguinte. Assim que chegou em terras de missões, nela permaneceu por bem pouco tempo, porque adoeceu e logo teve de retornar para a sua pátria. O navio que deveria levá-lo para Lisboa, devido a uma grande tempestade, mudou de rumo e teve de desembarcá-lo na Sicília. A essa altura dos acontecimentos achou melhor tomar o rumo para Assis, onde São Francisco estava preparando o famoso “Capítulo das esteiras”, acolhendo em torno de si os seus frades. Antônio participou desse capítulo como um simples fradinho português, sendo até mesmo desconhecido pelo próprio Francisco. Passou aqueles dias encantando-se na contemplação da humilde figura do fundador. Francisco quase sempre estava sentado aos pés de frei Elias, atento em escutar a palavra de quem ele considerava muito mais douto do que a si mesmo, mas muito decidido quando se tratava de defender o espírito da senhora Pobreza.

Quando terminou o capítulo, era preciso estabelecer a destinação de cada frade e com Antônio ninguém sabia o que fazer, mesmo porque ele só falava em latim e então não era útil para a pregação ao povo. Mas sendo ele sacerdote, tomou-o consigo frei Graciano da Romagna para celebrar a missa no eremitério de Montepaolo. Antônio, além de celebrar a eucaristia para os frades, lhes preparava o alimento enquanto eles repousavam, oravam ou se preparavam para descer novamente do monte para pregar.

Uma teologia que não extinga o Espírito

Em setembro de 1222 aconteceu, porém, um fato curioso. Em uma festa de ordenação sacerdotal de alguns frades, frei Graciano não conseguiu encontrar um bom pregador. Para o espanto de todos, ele foi pedir a Antônio que fizesse a pregação. Talvez já conhecesse o talento de Antônio. E quando Antônio começou a pregar foi uma revelação. Não se podia manter escondido sob o jacá um candeeiro assim tão luminoso. A notícia desse acontecimento chegou logo até os ouvidos de Francisco e com a notícia um insistente pedido: Antônio poderia ensinar a todos os frades a ciência divina das Escrituras.

O espanto foi maior ainda com a resposta de Francisco. Todos sabiam de sua aversão para com os estudos que adulteravam com a vangloria da ciência o vinho genuíno do Evangelho. Mas ele escreveu uma graciosa carta para Antônio, dizendo o seguinte: “A frei Antônio, meu bispo, frei Francisco, saúde! Tenho o prazer de que tu ensines a sagrada teologia aos frades, conquanto que em tal ocupação tu não extingas o espírito da santa oração e devoção, como está escrito na regra. Passar bem”.

Antônio foi chamado de bispo, porque naquela época somente os bispos tinham a tarefa e estavam à altura - se é que estavam! - de pregar e ensinar a verdadeira doutrina aos fiéis; outros só podiam fazê-lo mediante a autorização dos responsáveis das ordens ou do papa, como acontecia com os franciscanos e dominicanos. Francisco reconheceu no seu filho espiritual que a sabedoria genuína do evangelho não era ofuscada pela ciência, mas que foi colocada a seu serviço. São Francisco, confiando no douto frade vindo de Lisboa, aproveitava o seu carisma para iluminar a teologia. Mais tarde será São Boaventura que resplandecerá esta luz no seu máximo esplendor.

Mestre e orientador

No entanto, Antônio abria o caminho, ensinando teologia aos frades nos conventos de Bolonha até o ano de 1224; de Montpellier, talvez no ano de 1225; de Toulouse, no ano de 1225; e de Pádua, de 1229 até 1231. Contemporaneamente continuava a pregação ao povo em várias regiões da Itália setentrional até Rimini, onde se espalhavam as heresias cátara e patarina, depois na França e finalmente novamente nos arredores de Pádua.

Antônio foi também o responsável pelo governo de sua ordem como guardião em Limoges, na França, e como ministro provincial na Itália do norte.

Nos intervalos de tempo livre Antônio escrevia suas lições e suas pregações. Também neste campo ele vivia a pobreza franciscana de seu tempo. Habituado a utilizar-se da rica biblioteca agostiniana de Santa Cruz em Coimbra, agora se encontrava ora nos pequenos conventos ou nos eremitérios somente com o livro do seu Senhor crucificado. Mas, vinha em seu socorro sua magnífica memória, que se movia tranquilamente nas páginas da Sagrada Escritura e nos escritos patrísticos, sem deixar de recorrer aos famosos autores latinos, como Horácio, Cícero, Ovídio e Virgílio, mesmo que suas citações não pudessem ter todo o rigor científico pela falta de códices para consultar.

Aos frades, Antônio ensinava a teologia que ele havia aprendido, uma teologia bíblica que privilegiava a meditação da Palavra enriquecida pelos comentários dos santos padres, mas toda ela envolvida pela inspiração própria do carisma franciscano, que vê Deus como amor, do qual provém toda a criação.

O Filho de Deus é a revelação deste amor, uma revelação iniciada na encarnação no seio virginal de Maria e elevada à máxima expressão na paixão. Antônio e os seus ouvintes tinham bem vivo diante de seus olhos o que havia acontecido ao seráfico pai sobre o monte de Verna.

A lei trinitária: o amor

Segundo o ensinamento de Antônio, não só a vida dos frades, mas a de todo cristão, deve ser vivida de acordo com a lei trinitária do amor nas suas duas direções: amor para com Deus e amor para com o próximo. Repetindo o que disse santo Isidoro de Sevilha, ele também cita um exemplo dizendo que a águia, depois de ter posto três ovos no seu ninho, atira para fora um para poder chocar somente dois, de antemão sabendo muito bem que não poderá alimentar três filhotes. Assim também nós não podemos alimentar o amor de Deus, o amor ao próximo e o amor próprio; o cristão deve expulsar do seu íntimo o amor próprio para poder levar em frente o amadurecimento dos outros dois amores.

Antônio foi um mestre incomparável pela simplicidade da sua linguagem, pela vivacidade das imagens e pela síntese que permitia ao ouvinte guardar na memória tudo quanto havia escutado. “Jesus Cristo” - dizia Antônio - “nos alimenta cada dia com a doutrina evangélica e com os sacramentos da Igreja”. Ele partia sempre da palavra de Deus como um alimento indispensável, mas, consciente da fraqueza humana, logo acrescentava a graça dos sacramentos.

Mesmo em meio às ocupações, Antônio seguia as orientações de são Francisco, gostava de retirar-se por algum tempo nos pequenos eremitérios da ordem, ou até mesmo a pequenas grutas para se dedicar mais intensamente à oração, que ele não definia “uma elevação da mente”, mas sim “uma elevação do coração a Deus”, um relacionamento de amor entre a criatura e o Criador, um contemplar e um discorrer entre o amante e o amado. Por isso a primeira coisa que ele ensinava a respeito da oração era “pedir Deus a Deus”. Essa frase parece para nós fazer eco à resposta de santa Clara a são Francisco.

Essas coisas Antônio as vivia, ensinava-as aos frades e as pregava ao povo e, para ajudar uns e outros, as escrevia. Assim é que nasceram os Discursos dominicais e os Discursos festivos, que lhe valeram o título de doutor evangélico. Os Discursos festivos ficaram incompletos por causa de seu falecimento.

Reformador da Igreja

No imaginário popular, Antônio apresenta um aspecto delicado e juvenil, um caráter paciente e submisso e uma palavra doce e persuasiva. Frequentemente traz nos braços a imagem de Jesus menino. A realidade histórica é um pouco diversa.

Dos exames feitos em seus restos mortais se sabe que ele possuía um rosto com traços decididos ou - como se costuma dizer - uma face que parecia talhada a machado. A aparência física espelhava bem o seu caráter. Conseguiu dominar a si mesmo e tornou-se um homem pacífico, mas no momento oportuno também sabia colocar para fora suas garras, não para defender a sua pessoa mas para afirmar com clareza as verdades evangélicas.

Aquilo que ele havia visto quando jovem no mosteiro de Coimbra percebia-o também em muitos outros lugares, porque a vida dos eclesiásticos daqueles tempos não era nada edificante. Se lhe pediam para combater a heresia cátara, primeiro deviam permitir-lhe corrigir os costumes daqueles que eram a causa mais profunda da heresia.

Em um de seus discursos ele escreveu: “Os prelados e os clérigos usurpam a ciência do Antigo e do Novo Testamento... quando não a aprendem para a edificação dos outros, mas para receber louvores e honras. Para eles eis o que vem dito nos Provérbios: Um anel de ouro no focinho de um porco, tal é a mulher bonita, mas sem juízo. A mulher bonita e insensata são os clérigos que são indolentes e bem adornados como as mulheres que se entregam por dinheiro: belos pelo luxo das vestes, pelas filas de sobrinhos e talvez até de filhos e pelos muitos rendimentos; insensatos porque o que dizem, nem eles mesmos nem os outros o fazem. Todos os dias gritam nas igrejas e uivam como cães, mas sem se fazerem entender, porque o corpo está no coro, mas a alma está na praça... Eles que possuem o anel de ouro da ciência e da eloquência não se envergonham de, como verdadeiros porcos, deixá-lo cair no estrume do luxo e da avareza... Não procuram a verdade do Evangelho, não vivem segundo as prescrições dos fundadores, mas vivem de maneira dissoluta e falsa”.

Antes de tudo recomendava aos religiosos a humildade como virtude fundamental para entrar em comunhão com Deus e empreender um caminho evangélico. Fazia também uma observação muito apropriada a respeito dos pequenos defeitos que acompanham sempre a vida também das pessoas virtuosas que, “junto com as boas coisas que produz, julga serem para a sua humilhação os defeitos. O não sabê-los vencer, não obstante a pequenez deles, é para a pessoa uma advertência contínua a viver na humildade”.

Referindo-se aos sábios que entravam no convento e que mais facilmente eram tentados a serem soberbos, recordava: “Se em uma comunidade temos sábios, Deus para convocá-los serviu-se dos simples. Por isso ele escolheu o que no mundo é estulto e ínfimo, fraco e desprezível, para associar a si os sábios, os fortes e os nobres, para que ninguém possa se gloriar de si mesmo, mas naquele que em Nazaré estava submisso a eles”. No fundo era esta a sua experiência.

É interessante também o que ele dizia sobre a obediência: “Não conseguirás jamais ver se não fores obediente... Se fores surdo à voz de quem comanda, serás também cego. Obedece, pois, com todo o afeto do teu coração, para poderes ver com o olho da contemplação... Deus coloca um olho no coração, quando em quem obedece infunde a luz da contemplação”.

Antônio faz notar aos leigos, que normalmente vivem no matrimônio, que Deus lhes pede a pureza da mente, e aos religiosos a castidade perfeita. Mas a pregação mais eficaz sobre a castidade era a sua própria presença da qual transparecia o divino.

Estes três pilares da vida cristã e religiosa, a pobreza, a obediência e a castidade, não possuem nenhuma consistência e são abatidas facilmente pelos primeiros sintomas de luta, se não forem animados sempre pelo amor. Ele gostava de recordar: “Duas coisas, o amor a Deus e ao próximo, tornam perfeito o ser humano”.

Defensor dos pobres

Na última etapa de sua vida (1229-1231) percorreu várias cidades e vilas do Vêneto, pregando e repacificando os ânimos, tomando a peito a defesa dos mais fracos, mas nem sempre alcançando o fim desejado. O cronista Rolandino de Pádua, contemporâneo do santo, conta que Antônio “quer porque colocasse a sua confiança no Senhor, quer porque lhe fosse pedido pelos amigos do conde Rizzardo, foi a Verona e aí esconjurou os dirigentes da liga lombarda e a suprema autoridade municipal de Verona, senhor Ezzelino, e os seus conselheiros, para que libertassem o conde e os seus amigos. Mas de nada valeram as orações, mesmo que fossem justas, para o coração daqueles que não possuem a caridade. Sem ter sido atendido, o santo retornou para Pádua”.

Uma das pragas mais tremendas daquele tempo eram as leis injustas que permitiam não só a usura, mas também a prisão para aqueles que não podiam pagar as próprias dívidas. Sua pregação contra essas injustiças convenceu a cidade de Pádua a emanar uma lei que no dia 15 de março de 1231 conseguiu eliminar essa praga social. “A pedido do reverendo e piedoso frade Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, nenhum devedor ou fiador poderá ser privado no futuro da sua liberdade, quando estiver impossibilitado de pagar. Em tal caso poderá responder com a sua propriedade, mas não com a sua pessoa e a sua liberdade.”

Dos ramos da nogueira à casa do Pai

No mês de maio do ano de 1231, no calor da primavera que estava em andamento, Antônio se transferiu da ermida de Camposampiero, próximo de Pádua, para hospedar-se no castelo do conde Tiso. Aí podia tranquilamente dedicar-se à oração e continuar a redação dos Discursos festivos. Porém não aceitou viver em um quarto do castelo, mas construiu para si uma pequena cela em cima de uma nogueira para viver imerso em Deus e na natureza. Pouco tempo depois ele adoeceu e precisou descer e ir novamente para Pádua. Em viagem foi forçado a parar na localidade chamada Arcella, onde os frades haviam aberto um asilo. No dia 13 de junho de 1231, Antônio partia deste mundo e o seu corpo era sepultado na igrejinha de Santa Maria Mater Domini (Santa Maria Mãe do Senhor), onde hoje está a famosa basílica em Pádua.

O povo que ele instruiu na fé e defendeu contra as injustiças logo o escolheu como seu padroeiro e um ano depois o papa Gregório IX o proclamou santo. Em 1263, são Boaventura fez o reconhecimento dos restos mortais e encontrou incorrupta a língua do santo frade. No ano de 1946, Pio XII o declarou doutor da Igreja.

______________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

mai 01

O SANTO DO MÊS DE MAIO

SANTO ATANÁSIO

SANTO DO MÊS DE MAIO –

*Enrico Pepe[1]

02 de maio

Santo Atanásio – bispo e doutor –

(295-373)

“Além do estudo e do verdadeiro conhecimento das Escrituras temos necessidade de uma vida correta e de uma alma pura, bem como das virtudes segundo Cristo, a fim de que, caminhando na virtude, o intelecto possa alcançar e compreender o que deseja, de tudo o que a natureza humana possa compreender de Deus Verbo. Efetivamente, sem um intelecto puro e uma vida modelada sobre a vida dos santos, não podem ser compreendidas as palavras dos santos... Assim quem quer compreender o pensamento dos teólogos deve purificar e lavar a alma com a sua vida e se aproximar dos santos através da imitação de suas ações, a fim de que unindo-se a eles mediante a conduta da vida, compreenda o que Deus lhes revelou. ”[2]

Para Atanásio, o verdadeiro teólogo deve ser um santo, de outra forma ser-lhe-á impedimento para a compreensão da verdadeira fé. Por isso, desde a juventude ele uniu o estudo à ascética, a contemplação da palavra à sua encarnação. Os seus contatos com Antão, patriarca do monaquismo, não cessavam de o encantar, pois constatava que aquele pobre monge compreendia as verdades da fé muito mais e melhor que tantos outros homens mergulhados nas bibliotecas de Alexandria.

Atanásio viveu em um período histórico muito difícil para a Igreja que, tendo saído das perseguições, enfrentava dois graves problemas: os relacionamentos com a autoridade imperial e a formulação da verdadeira doutrina dentro da cultura greco-romana. Dois problemas que, se não fossem bem resolvidos, poderiam assinalar também a degeneração e o fim do cristianismo.

Constantino havia dado a liberdade à fé cristã, mas, precisando conservar a paz entre os súditos como chefe supremo da sociedade imperial, continuava a se comportar também como “sumo pontífice”, como haviam feito todos os imperadores do passado, e convocava concílios, destituía bispos, apoiava e até mesmo impunha determinadas doutrinas. Como compreender o seu desempenho dentro dos justos limites? E quais eram esses justos limites segundo o cristianismo?

A outra espinhosa tarefa prendia-se mais de perto à vida interna da Igreja e se tratava antes de tudo da formulação da doutrina trinitária. A cultura grega na qual se movia o mundo mediterrâneo havia chegado ao monoteísmo e não encontrava dificuldade em aceitar um cristianismo filho do judaísmo, mas para abraçar a fé em um Deus uno e trino era enorme o passo que deveria dar. Daqui provinha a interrogação sobre quem eram exatamente Cristo e o Espírito Santo.

Ario dava uma resposta simples e bastante compreensível para a mentalidade helenística, mas destruía a peculiaridade do cristianismo. Para ele, Jesus era um homem que Deus elevou à dignidade de seu filho, para fazê-lo nosso mestre: um homem extraordinário sem dúvida alguma, mas não obstante sempre um homem. E se Jesus era um homem, também o seu Espírito não poderia ser senão uma criatura. Deus permanecia na sua grandeza solitária e a mente humana não deveria, pois, fazer grandes esforços para aceitá-lo. Neste contexto doutrinai, o cristianismo, inspirando-se nos ensinamentos do mestre Jesus, alcançava a salvação com suas próprias forças.

Atanásio percebeu logo os dois grandes perigos e lutou durante toda a sua vida, até mesmo quando o mundo inteiro parecia que se tinha tornado irremediavelmente ariano, dando uma contribuição determinante para o triunfo da verdadeira fé. Mas esta luta lhe tornou a vida particularmente uma grande tribulação.

No turbilhão em Alexandria

Nasceu em Alexandria no ano de 293-296 de uma família cristã, recebendo juntamente com a fé uma boa formação literária. Conhecia bem a cultura helênica e a copta, a filosofia e a teologia como eram ensinadas no prestigioso didaskaleion da cidade, a mais famosa escola daquela metrópole. Viveu sua infância e sua adolescência no tempo em que se enfurecia a perseguição contra os cristãos, decretada por Diocleciano, e admirou a coragem dos mártires. Assistiu também à controvérsia dos assim chamados lapsi, cristãos que nas perseguições não tinham tido coragem suficiente de enfrentar a morte, e que em tempos de paz pediam para serem readmitidos na comunhão eclesial. Os bispos mais severos, como Melécio de Licópolis, opuseram-se, dando origem ao partido dos melecianos.

Na juventude Atanásio conheceu Antão e entre os dois nasceu uma profunda amizade espiritual. Não sabemos se passou um período no deserto, mas certamente foi influenciado pelos valores do carisma de Antão e procurou encarná-los na sua vida cotidiana, vivendo como um asceta.

Quando estalou a heresia ariana, ele já era diácono ao lado do bispo Alexandre, bispo que ele acompanhou ao Concílio de Nicéia no ano 325. Uma experiência inesquecível, na qual os padres puderam exprimir claramente e livremente quanto o Espírito queria dizer à Igreja, proclamando que o Filho é “consubstanciai ao Pai”. O imperador soube manter-se no seu lugar, limitando-se a respeitar e a fazer respeitar as decisões do Concilio. Ario não quis se submeter a tal decisão e foi excluído da comunhão eclesial. Atanásio tornou-se conhecido e respeitado por muitos bispos, mesmo sendo um simples diácono. Ele já se impunha pela doutrina e santidade de vida.

Três anos depois, tendo morrido Alexandre, Atanásio foi aclamado seu sucessor e os bispos, que acorreram para consagrá-lo, aprovaram a escolha reconhecendo que ele era “um autêntico cristão, um asceta, um verdadeiro bispo”.

Sempre em perigo

Depois da sua eleição, Atanásio dirigiu-se em visita pastoral à Tebaida entre os monges de São Pacômio. Era importante consolidar a unidade com os monges, pois eles tinham uma grande influência sobre o povo e sua fidelidade à fé nicena podia ser determinante para o bem da Igreja, sem esquecer que seu coração batia muito forte pelo mundo dos ascetas. Pois todos sabiam de sua amizade com Pacômio, que não obstante procurou se esconder temendo que o amigo bispo quisesse ordená-lo sacerdote e envolvê-lo no ministério. Atanásio o compreendeu e lhe perdoou esta fuga.

Enquanto visitava aquele imenso território ao redor de Assuan, os melecianos, guiados por um certo João Arkaf, acusaram-no diante do imperador de ter sido ordenado bispo ainda muito jovem, de ter imposto tributos injustos aos cristãos, de ter quebrado o cálice sagrado de um bispo meleciano e - coisa inaudita - de ter tramado contra a vida do próprio imperador. Não foi difícil, para ele, se defender dessas grandes falsidades. No final do ano de 332, uma nova infamante acusação: ele teria mandado matar o bispo Arsênio de Ipsele. Também dessa vez foi grande a vergonha pela qual passaram os inimigos. Atanásio tinha ao seu lado os monges e Arsênio, que estava escondido em um mosteiro, compareceu vivo e vigoroso no tribunal.

Mas além dos melecianos havia também os arianos para lhe tornar a vida penosa. Estes conseguiram que Ario subscrevesse uma fórmula de fé que poderia, talvez, ser interpretada no sentido ortodoxo, mas sem a palavra “consubstanciai”. O imperador pediu a Atanásio readmiti-lo em sua igreja, mas ele não aceitou. Os bispos arianos e melecianos obrigaram-no a convocar um concilio em Tiro no ano 335. Atanásio partiu acompanhado de mais ou menos cinquenta bispos egípcios, todos fiéis a Nicéia, mas eles foram excluídos da participação nas reuniões conciliares onde se decretou a readmissão de Ario na comunhão eclesial e a condenação de Atanásio. Durante o concilio, Atanásio foi insultado, coberto de injúrias e obrigado a fugir escondido em uma jangada, dirigindo-se a Constantinopla para falar pessoalmente com Constantino.

O exilado

Durante um passeio a cavalo, o imperador ouviu as razões de Atanásio e parecia que havia aceitado, mas no dia seguinte decretou o seu exílio para Treviri nas Gálias (hoje Trier na Alemanha). Era o primeiro exílio, durou dois anos e Atanásio aproveitou-os para tornar conhecido naquelas terras o veneno escondido na falsa doutrina ariana e a fantástica experiência dos monges do Egito.

Enquanto isso, em Alexandria, os melecianos colocavam como bispo João Arkaf que encontrava uma fortíssima oposição da parte dos católicos e pouco depois era expulso. Depois de sua morte ninguém ousou colocar outro bispo na sede de Alexandria, que como seu verdadeiro pastor reconhecia somente Atanásio. E ele, de onde estava, sustentava a comunidade com as suas cartas, enquanto Santo Antão enviava muitas cartas ao imperador pedindo-lhe que restituísse Atanásio à sua sede.

Por ocasião da morte de Constantino em 337, Atanásio, com o consentimento dos imperadores do Ocidente e do Oriente, pôde retornar a Alexandria e foi acolhido com grandes festividades; no ano seguinte convocou um concilio, no qual foi reafirmada a fé nicena e os bispos egípcios proclamaram sua plena confiança em seu patriarca, informando tanto ao papa quanto aos outros bispos. Os arianos protestaram e escolheram outro bispo, um certo Gregório da Capadócia, e entre tumultos populares empossaram-no em Alexandria, pedindo ao papa um concilio geral para examinar o caso de Atanásio. 

A confusão atingiu o seu auge e Atanásio achou oportuno distanciar-se da sua cidade, refugiando-se entre os monges. Em vão a polícia imperial procurou encontrá-lo, porque os monges sabiam escondê-lo, continuamente mudando-o de lugar.

A convite do papa de então, Júlio I, Atanásio dirigiu-se para Roma para participar do concilio convocado por esse pontífice, enquanto os arianos, que o haviam solicitado, recusaram-se a fazer parte dele. O Concilio romano reconheceu a inocência de Atanásio, mas ele não pôde retornar à sua sede. Foi o segundo exílio.

A longa permanência em Roma, do ano 339 a 346, foi - como aquela de Treviri - importante para toda a Igreja, porque Atanásio com a sua presença e a sua palavra fazia todos se conscientizarem do perigo do arianismo que esvaziava a fé cristã do seu conteúdo, reduzindo-a a uma pura doutrina humana, ao mesmo tempo em que ele propagava a experiência do monaquismo egípcio, tanto masculino quanto feminino.

Atanásio, um homem de fé

Na primeira das Cartas a Serapião ele escrevia: “A nossa fé é esta: a Trindade santíssima e perfeita é aquela que é distinta no Pai e no Filho e no Espírito Santo, e não tem nada de estranho ou acrescentado de fora, nem é constituída por Criador e por realidades criadas, mas é inteiramente potência criadora e força operativa. Uma é a sua natureza, idêntica a si mesma. Um é o princípio ativo e outro, a operação. De fato, o Pai realiza cada coisa por meio do Verbo no Espírito Santo e, deste modo, é mantida intacta a unidade da Santíssima Trindade. Por isso na Igreja é anunciado um só Deus que está acima de todas as coisas, atua por tudo e está em todas as coisas (cf. Ef 4,6). Está acima de cada coisa obviamente como Pai, como princípio e origem. Atua por tudo, certamente por meio do Verbo. Finalmente atua em todas as coisas no Espírito Santo... E Trindade não só de nome ou por puro som verbal, mas pela sua existência verdadeira. Como, de fato, o Pai é aquele que é, assim também o seu Verbo é aquele que é Deus acima de tudo. E o Espírito Santo não é insubsistente, mas existe e subsiste verdadeiramente”.[3]

Qual é a relação entre Deus uno e trino e a criação? Atanásio a isso nos responde no nº 42 do Discurso contra os pagãos’.

“Depois de ter feito todas as coisas por meio do Verbo eterno e de ter dado existência à criação, Deus Pai não deixa ir à deriva aquilo que criou, nem o abandona a um cego impulso natural que o faça cair no nada. Mas, bom como é, com o seu Verbo, que é também Deus, guia e sustenta o mundo inteiro, para que a criação, iluminada por sua orientação, pela sua providência e pela sua ordem, possa persistir no ser. Ao invés, o mundo torna-se participante do Verbo do Pai, para ser por este sustentado e não deixar de existir. Isso certamente aconteceria se não fosse conservado pelo Verbo, porque ele é a imagem do Deus invisível gerado antes de toda criatura (Colossenses 1,15); pois por meio dele e nele têm consistência todas as coisas, tanto as visíveis quanto as invisíveis, pois ele é a cabeça da Igreja, como nas Sagradas Escrituras ensinam os ministros da verdade” (cf. Colossenses 1,16-18).

Entre as criaturas há uma na qual Deus quis resplandecer de modo especial: é o ser humano. Atanásio vê nisso a imagem do Verbo, desfigurada pelo pecado, que o Filho de Deus quis restituir à sua originária perfeição, deificando o ser humano. Mas para fazer isso o Verbo deve ser consubstanciai ao Pai.

“Se Cristo não fosse propriamente a imagem substancial do Pai, se não fosse Deus senão pelo modo de dizer, por participação, não teria podido nunca deificar ninguém; porque ele mesmo seria apenas um ser deificado. Quem possui uma coisa unicamente por empréstimo não pode, efetivamente, fazer os outros participantes dela, enquanto que aquilo que possui não é algo seu, mas propriedade do doador, e a esmola que recebeu não serve senão para cobrir a sua indigência e a sua nudez”.[4]

Entre fugas e triunfos

No ano 343, seguindo sugestão do papa e de outros bispos ocidentais, os dois imperadores [do Império Romano, o do Oriente e o do Ocidente] permitiram a convocação de um Concilio em Sárdica (a atual Sofia) para voltar a trazer a paz para Alexandria. Os bispos arianos não queriam iniciar o concilio se antes não fosse confirmada a condenação de Atanásio. Presidia a assembleia, em nome do papa, o bispo Osio de Córdoba. Este, pro bono pacis [por amor à paz], prometeu que, caso Atanásio fosse considerado inocente, não retornaria para a sua sede, mas ele [Ósio] o levaria consigo para a Espanha. Na noite seguinte os bispos arianos abandonaram Sárdica, deixando um escrito no qual reafirmavam suas posições.

O Concilio se manteve, o bispo que havia sido instalado ilegitimamente em Alexandria foi declarado deposto e Atanásio foi convidado a retornar. Todavia, o imperador Constâncio não lhe deu livre passagem até o ano 346. E mesmo quando consentiu, Atanásio mostrou-se muito prudente e só depois de ter consultado o Papa retomou o caminho de volta para a sua igreja. Foi um verdadeiro triunfo: em Antioquia o imperador o recebeu com todas as honras; na Palestina, dezesseis bispos festejaram-no com um sínodo e no dia 21 de outubro de 346 chegou a Alexandria, que o aguardava com grandes festividades.

Gregório Nazianzeno narra que, ao ingressar Atanásio na cidade, fizeram-no montar em um cavalo enquanto diante dele estendiam tapetes multicores e agitavam ramos; era “um caudal de gente, quase um Nilo de vagas douradas, que percorria todo o caminho ao redor do próprio pastor”.

A paz voltou à grande metrópole; Atanásio podia dedicar todas as suas forças à difusão do Evangelho no vasto território; recebeu são Frumêncio, apóstolo da Abissínia, e o consagrou bispo para toda a região da Etiópia; e mais de quatrocentos bispos sentiam-se ditosos por lhe declarar fidelidade.

Infelizmente a paz não durou por muito tempo, porque depois da morte de Constante, o imperador católico, o poder passou para as mãos de Constâncio que não escondia suas simpatias pelos arianos. Recomeçaram as intrigas com acusações junto ao imperador e junto ao papa Libério. O papa tomou a sua defesa, mas Constâncio reuniu um concilio em Aries no ano 352 e o fez novamente condenar.

Depois do pedido do papa, que não aceitou a condenação, reuniu-se um outro concilio em Milão, mas também aí Atanásio foi condenado e Santo Eusébio de Vercelli, São Dionísio de Milão e Lucífero de Cagliari foram exilados. Mais tarde o imperador, decidido a levar ao triunfo definitivamente o arianismo em todo o império, mandou para o exílio também o papa Libério e Hilário de Poitiers.

Quando os enviados do império chegaram a Alexandria para eliminar também Atanásio, não conseguiram encontrá-lo. Nesta terceira vez, exilado desde o ano 356 ao ano 362, ele precisou deslocar-se continuamente de um lugar para outro, mas nenhum dos seus filhos o traiu, ao contrário, ele podia em qualquer lugar que estivesse reafirmar a fé com a palavra e os escritos e fazer que sua voz fosse ouvida em um mundo que, no modo de dizer de são Jerônimo, parecia que tinha se tornado totalmente ariano. Neste período, Atanásio escreveu várias obras, entre as quais a famosíssima Vida de Santo Antão.

No ano 360, Constâncio morreu e o seu sucessor Juliano, que depois se tornou o Apóstata, permitiu a todos os bispos exilados retornarem às suas sedes. Atanásio, em 362, retornou para Alexandria e juntamente com Eusébio de Vercelli, Lucífero de Cagliari e mais cerca de cinquenta bispos vindos da Arábia, da Líbia e do Egito, reafirmou a fé nicena e preparou um plano para trazer a paz às igrejas, sobretudo no Oriente.

Sua obra de pacificação não agradou a Juliano, que pensava reconduzir o império ao seu antigo esplendor restaurando o paganismo, e por duas outras vezes Atanásio teve de retomar o caminho do exílio. O imperador escreveu ao governador do Egito: “Por todos os deuses, coisa alguma eu veria e nada ouviria com maior prazer, feita por ti, do que a expulsão de Atanásio para fora dos confins do Egito, este infame que ousou batizar mulheres gregas insignes sob o meu governo! Seja mandado embora”.

Conquistador de corações

Juliano tinha razão, porque Atanásio não só tinha batizado senhoras da alta aristocracia, mas continuava a conquistar para o cristianismo e para a ascese muitíssimas pessoas. Ele mesmo na História dos arianos narrada aos monges tinha escrito:

“Muitas jovens que se preparavam para o casamento, prontas para as núpcias, se tornaram virgens por Cristo! Muitos jovens, vendo o exemplo delas, abraçaram a vida monástica! Muitos pais persuadiram os seus próprios filhos e muitos convenceram os próprios pais a não abandonar a ascética cristã. Eram muitíssimas as mulheres que convenceram os seus maridos e outros tantos os maridos que persuadiram as próprias esposas a entregarem-se à oração segundo o preceito do Apóstolo. E quantas viúvas, e quantos órfãos, que viviam na fome e na nudez, foram vestidos e saciados pelo amor vivo do povo!”.

Em 363 morria Juliano e Atanásio pôde retornar. O novo imperador Joviano, sinceramente católico, lhe pediu para pacificar a igreja de Antioquia, mas ele não o conseguiu. Joviano em pouco tempo faleceu e o seu sucessor, Valente, retomou a triste política religiosa de Constâncio, e Atanásio espontaneamente deixou a sua cidade. Deflagraram-se conflitos e o imperador foi obrigado a chamá-lo.

A coragem e a persistência de batalhador aos poucos ia se esgotando; o bispo que sabia governar a diocese, mesmo estando no exílio, era na sua sede amado pelos seus diocesanos e até mesmo respeitado pelos seus inimigos. Agora ele podia dedicar os últimos anos de sua vida ao atendimento direto de seu rebanho, sem deixar de escrever livros e cartas e não deixando de dar os seus conselhos ao papa Dâmaso, de Roma, e aos outros irmãos no episcopado, entre os quais gozava da mais elevada estima. São Basílio, que iniciava o ministério episcopal, o considerava como o único com capacidade de dialogar com todos, porque nenhum como ele “tinha a solicitude com todas as igrejas”.

Morreu a 3 de maio de 373. Foi definido por Basílio como “alma grande e apostólica”.

_________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas. [2] Atanásio. A encarnação do Verbo, nº 57. [3] Id. Cartas a Serapião nº 28. [4] Id., De Synodis nº 51.

abr 01

O SANTO DO MÊS – SÃO MARCOS EVANGELISTA

SÃO MARCOS - 2018

SANTO DO MÊS DE ABRIL –

*Enrico Pepe[1]

25 de abril

São Marcos evangelista (século I)

“Tu quiseste que os santos mistérios de Cristo, teu Filho, princípio de redenção e de vida, fossem conhecidos mediante a Sagrada Escritura por obra de homens iluminados pelo Espírito Santo. Assim, as palavras e os gestos do Salvador, encontrados nas páginas imortais dos evangelhos, são confiados à Igreja e se tornam semente fecunda que nos séculos faz germinar frutos de graça e de glória.”

Marcos, como os outros evangelistas, ouviu e nos transmitiu a pregação apostólica, para nos encorajar no seguimento de Cristo. Seu interesse não foi o de simplesmente passar uma doutrina, como faziam os filósofos, falando a respeito de Jesus, queria nos ajudar no início do caminho da fé para que nos encontrássemos pessoalmente com ele na comunidade eclesial.

SUA VIDA

Ele possuía dois nomes: um hebraico, João, que usava entre os seus conterrâneos; outro, grego, Marcos, para se apresentar no mundo greco-romano. Para aqueles que tinham frequentes contatos com aquele meio ambiente, o uso de dois nomes era comum.

Segundo uma tradição antiquíssima, sua mãe, Maria, no tempo da paixão do Senhor, muito provavelmente já era viúva. Sua família era abastada, tinha um relacionamento íntimo com o Mestre, pois colocava à sua disposição a casa em Jerusalém e o jardim próximo, na colina das oliveiras.

Na grande sala de sua casa foi celebrada a última ceia e naquele mesmo local reuniram-se os apóstolos, da paixão até pentecostes, para se tornar depois a igreja doméstica da primeira comunidade de Jerusalém. Depois da última ceia, quando Jesus e os apóstolos se deslocaram para o monte das oliveiras, João Marcos foi com eles e dormiu nas dependências do pequeno sítio. Inesperadamente foi acordado pela agitação dos guardas que tinham vindo para prender Jesus. Levantou-se e, ainda enrolado em um lençol, foi ver o que estava acontecendo. Os soldados prenderam-no, “mas lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes, despido”.

Marcos acompanhou todos os acontecimentos dolorosos da paixão, e depois os gloriosos da ressurreição e de pentecostes, e passou a fazer parte na comunidade cristã juntamente com sua mãe e Barnabé, seu parente.

Quando este em 44, procedente de Antioquia, aonde tinha sido enviado pelos apóstolos, veio a Jerusalém juntamente com Paulo, Marcos escutou a narração dos acontecimentos que os dois fizeram sobre a difusão do Evangelho naquela cidade cosmopolita e, quando retornaram, quis segui-los.

Uniu-se a eles na primeira viagem apostólica até Cipro, mas quando eles se dirigiram a Perge para atravessar os terrenos pantanosos e escalar as montanhas de Tauro para chegar à Antioquia, Marcos não teve coragem para enfrentar tantas dificuldades e retornou a Jerusalém.

Novamente, em 49, encontrou-se com Barnabé e Paulo, que retornavam a Jerusalém para resolver com os apóstolos a espinhosa questão dos cristãos vindos do paganismo sem se submeter às práticas da Lei mosaica, e soube de quantas maravilhas aconteceram naquelas regiões, de que tanto tinha medo.

Tomou coragem de novo e foi com eles para Antioquia. Quando Paulo e Barnabé prepararam uma outra viagem apostólica para visitar e confirmar as jovens comunidades cristãs, Marcos se ofereceu de novo para acompanhá-los, mas encontrou a rejeição determinada e absoluta de Paulo, que não queria levá-lo, pois ele poderia se tornar um impedimento para a realização de seu programa. Finalmente, ficou decidido que Paulo partiria para a Ásia Menor acompanhado de um outro discípulo, Silas, mais habituado às canseiras, enquanto Barnabé iria a Cipro com Marcos.

Sabemos pelas cartas paulinas que mais tarde Marcos se tornou um fidelíssimo colaborador de Paulo e não teve medo de segui-lo até Roma. Em 61, de fato, estava junto com o Apóstolo que estava preso esperando para ser julgado. Naquela ocasião, Paulo escrevendo aos colossenses, mandou saudações de “Marcos, primo de Barnabé”, e acrescentou: “Se este for ter convosco, acolhei-o bem”.

Paulo ainda falou a respeito de Marcos na segunda vez que foi preso em Roma. Escrevendo a Timóteo, que se encontrava em Éfeso e lhe pedindo que viesse a Roma para ajudá-lo, pediu: “Toma contigo Marcos e traze-o, porque me é útil para o ministério”.

Talvez tenha chegado a tempo de rever o apóstolo dos pagãos e para assistir a seu martírio, mas certamente permaneceu na cidade dos Césares e se colocou a serviço de Pedro, que naquela época também estava na capital do império, e foi-lhe particularmente “útil no ministério”, como seu intérprete.

Segundo uma tradição antiquíssima, Pedro, quando viu que a comunidade estava bem consolidada na fé, enviou o seu caríssimo discípulo à Alexandria do Egito. Lá Marcos teria fundado a igreja e encontrado o martírio. Suas relíquias foram guardadas cuidadosamente pelos cristãos do Egito até o ano de 1419, quando os venezianos, com o pretexto de protegê-las contra o perigo de cair nas mãos dos muçulmanos e de se perderem, acabaram trazendo-as para sua cidade. Hoje elas se encontram na belíssima basílica que traz exatamente o mesmo título de São Marcos.

SEU EVANGELHO

Mas a obra mais bela que Marcos nos deixou é sem dúvida alguma o seu evangelho, considerado atualmente o mais antigo. Ele não viveu com Jesus desde o início como os outros apóstolos, “mas” - escreve Vaccari - “como foi colaborador de Pedro na pregação do Evangelho, assim também foi intérprete e porta-voz autorizado na composição do mesmo e por meio deste nos transmitiu a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele pregava aos primeiros cristãos, especialmente na Igreja de Roma”.

Seu estilo não é absolutamente refinado, mas simples e imediato. Marcos escreve quanto escutou ou viu sem se preocupar com a ordem cronológica dos fatos e sem esconder as fraquezas dos apóstolos, nem mesmo as de Pedro, a quem amava com um amor filial. Por isso o seu evangelho é particularmente agradável.

Não só ele teve a coragem de descrever até o que o Crucificado, antes de morrer, “gritou com voz forte: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, quase como se houvesse uma ruptura entre ele e o Pai, mas logo depois há uma alegria em demonstrar a conversão do centurião aos pés da cruz. Este, de fato, contemplando aquele que no momento não demonstrava nenhum sinal triunfal da sua divindade, antes tinha morrido, esquecido pelo céu e desprezado pela terra, havia exclamado: “Este homem era realmente o filho de Deus!”

Não seria aquela a profissão de fé que daquela hora em diante afloraria frequentemente aos lábios de muitos na Roma dos Césares pela pregação de Pedro e Paulo? Valia a pena registrá-la em seu evangelho, não só por seu profundo significado, mas também porque o primeiro a pronunciá-la foi, de fato, um soldado romano.

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[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

mar 01

SANTAS DO MÊS: PERPÉTUA E FELICIDADE

SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE

AS SANTAS DO MÊS DE MARÇO –

*Frei Alberto Beckhäuser, ofm –

7 de março

Santas Perpétua e Felicidademártires

Com outros companheiros, Perpétua e Felicidade sofreram o martírio em Cartago, atual Tunísia, no ano de 202. Um decreto do imperador Setímio Se­vero, que atingia, sobretudo, os que se preparavam para o batismo, levou à prisão vários catecúmenos do norte da África. Entre eles se achavam a escrava Felicidade e sua nobre senhora Víbia Perpétua. Felicidade estava no oitavo mês de gravidez e Perpétua tinha um filho de colo. Todos foram levados a Cartago, onde foram martirizados.

Possuímos uma peça literária de comovente beleza, denominada Paixão de Santa Perpétua, que conta a história dos últimos dias das jovens mártires, bem como o martírio junto com os demais catecúmenos de um diácono que batizou os catecúmenos na eminência do martírio. Estas Atas do martírio constituem um dos documentos mais realistas e emocionantes do cristianismo primitivo. Elas englobam notas autobiográficas que Perpétua escreveu na prisão. Comovente, sobretudo, o duelo entre o amor filial e o paterno e as exigências da fé em Cristo, quando o pai pagão fez de tudo para demovê-la do martírio.

Os homens catecúmenos com o diácono Sáturo foram atirados às feras e estraçalhados por elas até a morte. Perpétua e Felicidade, que dera à luz uma menina na prisão, foram atiradas à arena para serem atacadas por uma vaca furiosa que as devia levar à morte. Perpétua, lançada aos ares pela vaca brava, caiu de costas. Levantou-se logo e, vendo Felicidade caída, aproximou-se e deu-lhe a mão para erguê-la. Ficaram então de pé, rezando, até o momento em que foram degoladas.

As Atas das mártires terminam com estas palavras: “Os que foram testemunhas destes fatos lembrar-se-ão da glória do Senhor, e aqueles que deles tiverem conhecimento por esta narrativa estarão em comunhão com os santos mártires e por intermédio deles com Jesus Cristo, Nosso Senhor, para quem são a honra e a glória pelos séculos”.

O registro da paixão de Santa Perpétua e de Santa Felicidade e seus companheiros constitui um dos maiores tesouros hagiológicos que chegaram até nós. No século IV, essas Atas eram lidas publicamente nas igrejas da África.

As santas Perpétua e Felicidade figuram no Cânon romano (I Oração eucarística). O que indica a alta veneração de que gozaram na Antiguidade.

Podemos realçar vários aspectos do testemunho dessas mártires. A dignidade e a importância em que eram tidos os catecúmenos na Igreja primitiva. Quem está a caminho dos sacramentos da Iniciação cristã já são considerados membros da Igreja. Diz a Introdução Geral do Ritual do Batismo de Adultos: “Desde então (isto é, desde o rito de instituição) os catecúmenos, cercados pelo amor e a proteção da Mãe Igreja como pertencendo aos seus e unidos a ela, já fazem parte da família de Cristo; são alimentados pela Igreja com a Palavra de Deus e incentivados por atos litúrgicos. Tenham a peito, portanto, participar da liturgia da Palavra e receber as bênçãos e os sacramentais. Quando se casam, se o noivo e a noiva forem catecúmenos, ou apenas um deles e a outra parte não foi batizada, será usado o rito próprio. Se falecerem durante o catecumenato, realizam-se exéquias cristãs” (n. 18). Podemos dizer que eles já estão justificados pela fé.

Um segundo ponto a realçar é o combate da paixão. O martírio constitui um combate com Cristo contra os inimigos da fé, contra todas as forças do mal. Quando se fala da paixão dos mártires, ela compreende todos os sofrimentos suportados por causa da fé em Cristo Jesus. Ela inclui a própria morte. Os sofrimentos da paixão constituem a confessio, a confissão da fé. Se os catecúmenos ainda não forem batizados, eles são batizados pela paixão, isto é, pelo batismo de sangue.

Uma terceira observação. O batismo de sangue, o martírio não se apresenta como privilégio dos homens considerados fortes no combate. No martírio, particularmente das mulheres, manifesta-se a força do testemunho no poder do Espírito Santo. Esta força vem expressa na Oração coleta: Ó Deus, pelo vosso amor, as mártires Perpétua e Felicidade resistiram aos perseguidores e superaram as torturas do martírio. Pelo amor a Deus, a exemplo das mártires, possamos crescer constantemente na caridade.

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*BECKHÄUSER, Frei Alberto, ofm. OS SANTOS NA LITURGIA – Testemunhas de Cristo. Petrópolis. Vozes: 2013. 391 págs.

dez 04

O SANTO DO MÊS

imaculada-conceicao

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA –

O mês de DEZEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 8, celebramos a Imaculada Conceição. Para tanto, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão sempre vivos e vivas no devocionário popular. No caso, Maria Santíssima, com o Mistério da Sagrada Conceição, tornou-se para todos nós, assim como o foi para todos os Santos, modelo de humildade, de serviço, de obediência e de fidelidade ao Pai, cumprindo com a missão recebida por intermédio do anjo Gabriel. Diz Dom Servílio Conti:

“Hoje não ocorre a memória de nenhum santo, mas a solenidade mais alta e mais preciosa daquela que é chamada a Rainha de Todos os Santos, Maria Santíssima, no mistério de sua Imaculada Conceição. Esta verdade foi proclamada solenemente em 1854, mas a história da devoção a Maria Imaculada é muito mais antiga. Precede de séculos, antes de quase dois milênios, à proclamação do dogma, que, como sempre, não introduziu novidade alguma, mas simplesmente reconheceu uma antiquíssima tradição.

Muitos padres e doutores da Igreja oriental ao exaltar a grandeza de Maria, Mãe de Deus, tinham usado expressões que a colocavam acima do pecado original. Chamavam-na de intemerata, toda bela e formosa, a cheia de graças, o lírio da inocência, a mais pura que os anjos, mais esplendorosa do que o sol. Na Igreja ocidental, a doutrina da Imaculada Conceição encontrava certa resistência, não por aversão a Nossa Senhora, que sempre foi exaltada como a mais sublime de todas as criaturas, mas para salvaguardar a doutrina da redenção operada por Cristo em favor de todas as criaturas.

Duns Scoto, grande teólogo do século XIII, encontrou um silogismo que solucionava a dificuldade de admitir que também Nossa Senhora, como filha de Adão e Eva, devia estar sujeita ao pecado original, mas que foi dele preservada, em previsão dos méritos de Cristo, com antecipada aplicação da redenção universal de Jesus. Era sumamente conveniente que Deus preservasse Maria do pecado original, pois ela era destinada a ser mãe do seu filho. Isso era possível para a onipotência de Deus; portanto, Deus, de fato, a preservou, antecipando-lhe os frutos da redenção de Cristo.

Perante esta sutil, mas irretorquível argumentação, os teólogos concordaram em aceitar esta doutrina. De fato, desde 1300 a doutrina da Imaculada Conceição de Maria no seio materno fez rápidos progressos na consciência dos fiéis, induzindo a Igreja a introduzir no calendário romano já no século XV a festa da Conceição Imaculada de Maria.

José de Anchieta foi o apóstolo desta doutrina no Brasil, que desde o início da colonização dedicou a este mistério inúmeras igrejas, inclusive 35 catedrais.

Em 1830 Nossa Senhora apareceu a Catarina Labouré mandando cunhar uma medalha com a efígie da Imaculada e as palavras: “Maria concebida sem pecado, rogai por nós”. Esta medalha, difundida aos milhões em todo o mundo, suscitou grande devoção a Maria Imaculada, induzindo muitíssimos bispos a solicitar ao papa a definição do dogma que já estava sendo vivido nos corações dos fiéis. Assim, no dia 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou Maria isenta do pecado original, desde o primeiro instante de sua existência no seio de sua mãe, e isso por força de uma antecipada aplicação dos frutos da redenção de Cristo.

Quatro anos mais tarde, as aparições de Lourdes foram prodigiosa confirmação do dogma. De fato, Maria proclamou-se explicitamente com a prova de incontáveis milagres: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Deus quis preparar ao seu Filho uma digna habitação. Cheia de graça, ainda no seio materno, Maria foi concebida sem a mancha do orgulho e do desamor que é o pecado. Em vista disso, a Imaculada foi a primeira a receber a plenitude da bênção de Deus que se manifestou na morte e na ressurreição de Cristo.

Maria, na sua fidelidade ao projeto de Deus, na sua vocação de mãe do Salvador, nos ensina o caminho da santidade; por isso a Igreja hoje nos manda rezar: “Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão”.

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.
 

nov 03

O SANTO DO MÊS

sao-leao-magno

SÃO LEÃO MAGNO

            O mês de NOVEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 10, festejamos São Leão Magno, um dos maiores e mais importantes Papas da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo. Por esta razão, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão muito vivos e vivas no devocionário popular.

            “Célebre na história da Igreja pelo seu profundo saber, pelas extraordinárias virtudes e brilhante governo, São Leão foi, sem dúvida, o maior papa dos primeiros séculos da era cristã.

            Pouco se sabe de sua vida anterior ao pontificado. Nasceu por volta do ano 395 em Roma e ingressou, jovem ainda, no clero romano. Após ter desempenhado delicadas missões sob o pontificado do Papa Sisto III, foi escolhido para sucedê-lo, em agosto de 440. Os tempos eram então muito conturbados. O Império Romano esfacelava-se progressivamente perante as hordas de invasores bárbaros, ávidos de saques. Também a Igreja vivia agitada por questões internas, sobretudo de cunho doutrinai. Num século sentiu-se sacudida por quatro grandes heresias: O arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo e o monofisismo, que deixaram feridas profundas. O nome do Papa Leão está intimamente ligado à luta contra o monofisismo, heresia propalada pelo Monge Eutiques, que sustentava haver em Cristo não duas naturezas, mas uma só, a divina, que teria absorvido em si a natureza humana. Negavam-se assim as características da humanidade de Cristo.

            Estando a par das agitações doutrinárias do Oriente, Leão dirigiu ao patriarca de Constantinopla a célebre Carta dogmática a Flaviano, na qual expunha a doutrina ortodoxa sobre as duas naturezas, divina e humana, existentes na única pessoa de Cristo, Filho de Deus.

            No Concilio de Calcedônia, em 451, onde foi condenado o monofisismo, os padres conciliares ouviram a carta do Papa Leão e exclamaram: “Pedro falou pela boca de Leão”. Era uma confissão de fé por parte dos 600 bispos, no primado do papa, em matéria doutrinai.

            “Marcante ficou também na história da Itália a atitude do Papa Leão frente aos invasores hunos guiados pelo terrível Atila, chamado o flagelo de Deus. Vencidas todas as resistências do Império Romano e as defesas naturais dos Alpes, Átila invadira o norte da Itália destruindo tudo a ferro e fogo. O papa saiu-lhe ao encontro, e tanto foi seu prestígio e eloquência, que Átila desistiu de sua ameaça de destruir a Itália e Roma. Três anos depois, em 455, outro chefe bárbaro, Genserico, à frente dos vândalos, depois de devastar o norte da África, desembarcou na Itália e entrou em Roma. Desta vez o papa conseguiu apenas que se poupassem as vidas e não se ateasse fogo à Cidade Eterna. Nesta emergência, o bispo de Roma já surgia praticamente como suprema autoridade, até no campo social”.

            Grande foi a atuação do Papa Leão como chefe espiritual da cristandade. Pela oração, pelo exemplo e, sobretudo, por seus sábios escritos, concorreu para consolidar a disciplina eclesiástica, elevar os costumes do povo, conservar a ortodoxia da fé e aperfeiçoar o culto litúrgico em todo o Ocidente. Célebres ficaram seus sermões, pronunciados em latim clássico, proferidos nas solenidades do ano litúrgico. Destes sermões, verdadeiros modelos de eloquência cristã, se conservam mais de 100 que, junto com as 143 cartas, são documentos preciosos para a história e o dogma.

            Num dos seus sermões natalinos o Papa Leão comentava: “Nosso Senhor, amados filhos, nasceu hoje como Salvador: alegremo-nos. Não pode haver tristeza quando nasce a vida... O Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu Criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que ele antes vencera. Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo”.

            O Papa Leão faleceu no ano 461, e a posteridade brindou-o com o título de Magno, pois por justas razões foi ele o mais insigne papa anterior à queda do Império Romano Ocidental e, inclusive, o que por mais tempo dirigiu a Igreja Romana até aquele período."

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.

out 05

O SANTO DO MÊS – APARECIDA

NOSSA SENHORA DE APARECIDA

NOSSA SENHORA APARECIDA –

            O mês de outubro é marcante para o catolicismo brasileiro, porque, neste mês, mais precisamente no dia 12, celebramos o dia de Nossa Senhora Aparecida – A Padroeira do Brasil. A data dispensa maiores comentário. Por esta razão, estamos falando sobre a nossa Padroeira, valendo-nos das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão muito vivos e vivas no devocionário popular.

   “Nosso dever, hoje, é prestar devota homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Desde o descobrimento do Brasil, cultiva-se na América Latina e, sobretudo, em nossa pátria, terna devoção a Nossa Senhora, devoção trazida pelos colonizadores e missionários de Portugal à terra de Santa Maria. Contudo, Nossa Senhora quis estabelecer, com sinais inconfundíveis, um centro de devoção que fosse um trono de graça. Surgiu então o Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

        Em 1717, três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, moradores nas margens do Rio Paraíba do município de Guaratinguetá, cansados e desanimados por não terem apanhado peixe algum, depois de várias horas de trabalho, já estavam decididos a voltar para casa, quando, lançando mais uma vez a rede, retiraram das águas o corpo de uma imagem sem cabeça e, num segundo arremesso, encontraram também a cabeça da imagem de terra cozida. Impressionados pelo evento, experimentaram mais um lance da rede; e naquele momento foi tão abundante a pescaria que encheram as canoas.

       A pesca, quase milagrosa, despertou neles grande curiosidade em relação à imagem que limparam com muito cuidado e verificaram que se tratava duma imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura. Colocaram-na no oratório de sua pobre morada e diante dela começaram a fazer suas orações diárias. Não tardou a Virgem Santíssima a mostrar por novos sinais que tinha escolhido esta imagem para distribuir favores especiais a seus devotos.

          A devoção e a afluência do povo crescia todos os dias e por isso impunha-se a construção duma capela em lugar apropriado a fim de facilitar a devoção dos fiéis. Estava aí o morro dos coqueiros, o mais vistoso de todos que margeiam o Paraíba. No alto deste morro foi construída a primeira capela em 1745 e foi celebrada a primeira missa. A imagem de Nossa Senhora da Conceição, já então chamada pelo carinhoso nome de Aparecida, estava em seu lugar definitivo, dando origem à cidade do mesmo nome.

            As etapas ascensionais que incrementaram a devoção a Nossa Senhora Aparecida são as seguintes:

             A primeira capela, várias vezes reformada e aumentada, era pequena demais e foi substituída em 1888 por outra muito maior e mais artística. Feita a construção material, o bispo diocesano quis prover o santuário com adequado serviço religioso. Para isso, convidou os Padres Redentoristas, que desde o ano 1894 exercem com admirável zelo a direção e assistência espiritual do santuário.

              No dia 8 de setembro de 1904, por especial privilégio concedido pelo papa, procedeu-se à solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, na presença de grande número de bispos. Em 1908 o papa elevou o santuário à dignidade de basílica.

             Em 1930 Pio XI, acolhendo favoravelmente o pedido dos bispos do Brasil, proclamou solenemente Nossa Senhora Aparecida padroeira principal do Brasil.

      Em 1967, completando-se 250 anos da devoção, o Papa Paulo VI ofereceu ao Santuário de Aparecida a Rosa de Ouro, querendo com tal gesto reconhecer a importância do santuário e estimular o culto mariano.

     Com o crescer contínuo das romarias, somando vários milhões os romeiros de cada ano, notou-se que o santuário se tomara demasiadamente pequeno. Desde o ano 1950 pensou-se na construção de um novo e mais majestoso templo mariano. A ciclópica construção com suas dependências durou mais de vinte e cinco anos e, finalmente, foi solenemente consagrada na histórica visita do Papa João Paulo II ao Brasil, no dia 4 de julho de 1980. A presença do “Papa Mariano”, suas maravilhosas exortações, ficaram como um marco indelével na história da devoção a Nossa Senhora Aparecida.”

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.

set 04

TERESA DE CALCUTÁ: MAIS UMA ESTRELA A BRILHAR NO FIRMAMENTO CELESTE!

TERESA DE CALCUTÁ - SANTA

SANTA TERESA DE CALCUTÁ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quanto mais atribulada uma época, mais santos e santas revela. Todos os grandes santos e santas reconhecidos e declarados pela Igreja, ao longo dos séculos, viveram em momentos de muita tensão social, política, sanitária ou econômica, quando não, com todas juntas. Eis o nosso atribulado século XXI fazendo história, com a revelação e a consagração de homens e mulheres que, em suas humildes passagens, deixaram-nos enorme herança como filhos e filhas de Deus.

                Quem já ouviu falar em Anjezë Gonxhe Bojaxhiu ou em Agnes Bojaxhiu? Certamente que muito poucas pessoas sabem de quem se trata. Porém, se dissermos o nome “Teresa de Calcutá”, todo mundo sabe sobre quem estamos falando. Madre Teresa de Calcutá! Agora, Santa Teresa de Calcutá.

                Todos os meses temos escolhido parte da história de determinado santo ou santa, para trazermos ao povo de Deus o trabalho, a mensagem e o exemplo daqueles que, em vida e na caminhada por este mundo souberam, acima de tudo, manter a fé, o amor ao próximo e o seguimento a Jesus, de forma incondicional. Sem bens materiais, sem dinheiro, sem casa e sem família fixa, estas criaturas deixaram uma marca indelével no mundo e, por meio delas, podemos perceber a verdadeira missão que Deus deu a cada um de nós que, por desvios de conduta, adotamos as práticas, os costumes e os apegos do mundo, esquecendo-nos do cumprimento da verdadeira e real missão.

                Santa Teresa de Calcutá, melhor que ninguém, deixa esta herança para todos nós. Dispensa maiores comentários. A seguir, transcrevo parte do texto de Gloria Germani[1], apenas para prestar singela homenagem a quem tanto homenageou o ser humano:

“Outro aspecto da auto renúncia sobre o qual Madre Teresa insiste é a renúncia a uma pulsão fundamental, her­dada por cada indivíduo determinado: o impulso da vontade que nos faz considerar que somos nós os artífices do nosso destino.

A negação da capacidade de autodeterminação por parte do ser humano é um tema central sobre o qual Madre Teresa fundamenta a consecução da salvação; ao redor dele giram muitíssimas reflexões que recolhi sobretudo no terceiro e sexto capítulos. Na linguagem de Madre Teresa, o desapego da própria vontade ou da própria ilusão de autodeterminação desemboca no grande tema do abandono total (total surrender), que pode ser considerado como fulcro da mensagem de Madre Teresa e que fornece o título à presente antologia.

Num primeiro grupo de textos (3.6-3.12), esse tema se expressa como abandono à vontade de Deus. Retomando a belíssima passagem evangélica (Mt 6,25-30) sobre Deus, que alimenta as pequenas gralhas que crocitam e os pássaros que não semeiam nem colhem, esse mesmo Deus que veste os lírios do campo tão esplendidamente (3.6), Madre Teresa desloca o conceito de providência divina para fazer dele um pilar da nossa atitude para com Deus.[2]

[...]

Com o tema do sofrimento, Madre Teresa nos leva a dar outro passo por meio do qual se realiza o completo desapego, após a experiência da castidade, da renúncia ao fruto dos atos, da obediência e da pobreza. Trata-se ainda de realizar uma pars destruens * que conduzirá a um profundo momento de renascimento e desembocará no tema do amor e do serviço (capítulo 5).

O grande modelo do sofrimento, para Madre Teresa, é Jesus Cristo. A imagem que ela tem dele está extremamente presente, é vivíssima, de tal modo forte que há poucas iguais na própria tradição cristã.

[...] o homem-Deus nu na cruz, choroso, desprezado por todos, o homem do sofrimento esmagado como um verme pela flagelação e pela crucificação (4.2), [...] sem qualquer consolação, abandonado por todos e desprezado, alquebrado no corpo e na alma (4.1).

É um sofrimento que se condensa nas palavras de Cristo: “Tenho sede”, e mais ainda no inglês: “/’m thirsty” que expressa melhor a essência de Cristo enquanto ser sedento, ser necessitado. Estas palavras — /’m thirsty — golpeiam como pedras a nossa sensibilidade entorpecida, quando as vemos suspensas sobre toda imagem de Cristo crucificado, nas casas das Missionárias da Caridade. Essas palavras estão no centro da experiência espiritual de Madre Teresa, tanto que ela expressa com lucidez a íntima correlação delas com outro tema evangélico fundamental, dentro do seu itinerário: “Nunca separem estas palavras: ‘Tenho sede’ e ‘Foi a mim que o fizestes’” (4.3).

A identidade de Cristo com aqueles que sofrem

Durante toda a sua vida, Madre Teresa nunca deixou de insistir na passagem de Mateus:

[...] eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes [...] todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,35ss).

Simplesmente ligando as duas passagens evangélicas, ela consegue tomar extraordinariamente viva e vibrante a fé na não-alteridade de Deus, a certeza da sua imanência em nosso mundo por meio do sofrimento de milhões de nossos irmãos. A sede de Cristo está aqui, presente agora, é a mesma sede sofrida continuamente ao nosso redor, ao nosso lado.

Desse modo, entramos ininterruptamente em contato com Cristo, e não somente por meio do sacramento eucarístico; Madre Teresa chega a afirmar a completa identidade existente entre Cristo e aqueles que sofrem: “[...] no mundo dos miseráveis, dos corpos em pedaços, das crianças, é Cristo que vemos, que tocamos” (4.4).

Ela adota uma expressão bem precisa e recorrente para expressar a presença de Cristo naquele que sofre. In the distressing disguise é a fórmula que Madre Teresa usa sempre para conotar a efetiva presença de Cristo nas “dolorosas aparências” do nosso próximo, na máscara de sofrimento e de dor do meu irmão e da minha irmã (cf. 1.22; 1.28; 4.4; 4.18; 4.19; 5.8; 5.24; 5.30). Em outros trechos, sobretudo naqueles coletados no capítulo 5, Teresa sintetiza o mesmo conceito, referindo-se simplesmente aos “Pobres”; mas devemos notar que o significado desse termo é, para ela, sempre muito amplo. Todo Pobre é o meu próximo, porque em cada próximo está aquele que sofre e é Pobre. Madre Teresa diz: “No Pobre está verdadeiramente Cristo” (5.5.); “[...] não é simplesmente algo para provocar a nossa imaginação. Jesus o disse de fato. Portanto, ele é o Pobre que nós encontramos em todos os lugares” (5.6).

[...]

Madre Teresa nos relembra que o sofrimento nunca desaparecerá inteiramente da nossa vida, mas é consubstancial ao nosso ser (4.16). Conseguir aceitar o sofrimento, abandonar o medo, vencendo a repugnância, é condição indispensável para transformar o sofrimento num dom que gera redenção (4.17; 4,22).

Madre Teresa traz o exemplo de são Francisco que, após ter encontrado um leproso completamente desfigurado, teve uma sensação de repulsa e se afastou, “mas quando, ao superar a si mesmo, quis beijar aquele rosto [...] desfigurado [...], tomou-se completamente senhor de si mesmo; e o leproso foi embora louvando o Senhor pela cura” (4.20).

Superar a si mesmo, não permanecer sob as normais pulsações da auto conservação, sacrificar o nosso eu, conduz ao autodomínio, à redenção da qual Cristo é o símbolo supremo.

Para Madre Teresa, portanto, entrar em contato com Cristo, alcançando a identidade com o sentir de Deus — que é a santidade —, só é possível se aceitarmos a possibilidade que nos é oferecida, todos os dias, de servir os mais Pobres, os que mais sofrem, identificando o sofrimento deles com o nosso sofrimento. E isso não é possível sem o nosso auto- sacrifício.

Toda a grande ação de caridade exercida por Madre Teresa e pelas Missionárias não teria um sentido espiritual se não se realizasse como ação sacrifical por meio do sofrimento (4.21; 4.22; 4.23; 4.24). É o aspecto redentor do sofrimento, como auto sacrifício, que distancia profundamente a obra de Madre Teresa de qualquer ação caritativa de fundo social e laico.

Esse essencial acento sobre o valor redentor do sofrimento talvez seja aquilo que liga mais o itinerário de Madre Teresa à especificidade da revelação cristã. O sofrimento de Cristo crucificado é, de fato, o conteúdo fundamental do cristianismo, embora Madre Teresa infunda a esse conteúdo uma nova e extraordinária vitalidade.

Cristo não foi crucificado somente há dois mil anos, mas continua sendo crucificado hoje, ao nosso lado, e é por meio dessa cotidiana presença da dor e do sofrimento que podemos ter acesso a um sentir idêntico ao sentir divino. As palavras de Madre Teresa passam continuamente do tempo passado da história evangélica ao presente do encontro com ele “nos obscuros tugúrios dos favelados, nas misérias mais lastimosas dos Pobres”; é nessa vital fé na não-alteridade do divino, em seu não-ser-outro em relação ao mundo, que consiste — é bom repeti-lo — o mais radical e fecundo aspecto do cristianismo de Madre Teresa.”

Por estas e por tantas outras razões que envolvem a magnífica vida terrena de Teresa de Calcutá, é que estamos prestando esta humilde homenagem à mais nova Santa deste atribulado século XXI. É mais um estímulo para que todos queiramos descobrir muito mais sobre a vida de Teresa e, na medida das nossas humanas possibilidades, imitá-la no amor incondicional ao próximo e no total seguimento a Jesus, de quem alardeamos sermos fieis seguidores.

Neste domingo, 04 de setembro do ano 2016, o Papa Francisco, diante de mais de 100 mil fieis, dirigiu-se ao mundo dizendo:

"Proclamamos a beata Teresa de Calcutá como santa e a inscrevemos entre os santos, decretando que seja venerada como tal por toda a Igreja – declarou Francisco, que pronunciou em latim a frase de canonização ritual.

– Que nos ajude a entender que nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia (...) e oferecido a todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião."

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*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.
______________________________   [1] GERMANI, Gloria. Teresa de Calcutá – Uma mística entre o Oriente e o Ocidente – seu pensamento sobre a Índia r Gandhi. São Paulo. Paulinas: 2013. 285 páginas. [2] Op. cit. págs. 110, 141/143 e 146/147

ago 12

SANTO AGOSTINHO: O SANTO DO MÊS

         Santo Agostinho

                 Este mês de agosto é riquíssimo em matéria de santos e de santas cujas vidas deixaram marcas profundas na cristandade: iniciando com Santo Afonso Maria de Ligório (04/08); Santo Eusébio (02/08); São João Maria Vianney, o Santo Cura D’Ars, patrono dos sacerdotes, (04/08); São Lourenço (10/08); Santa Clara (11/08); Santo Estevão (16/08); Santa Helena (18/08); São Bartolomeu (24/08); Santa Mônica (27/08) e Santo Agostinho (28/08), para quem reservamos um espaço destacado para falarmos um pouco, socorrendo-nos do nosso saudoso Dom Servílio Conti, autor do livro “O Santo do dia”, editado pela Vozes, com 711 páginas. Sobre Santo Antônio, diz Dom Servílio: 

“Ontem a mãe Mônica, hoje o filho Agostinho: dois santos! Não existiria o segundo se sua mãe não tivesse sido santa, gerando o filho para a fé pelas orações e pelas lágrimas!

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, hoje região da Argélia, norte da África, em 354, filho de Mônica e Patrício: ela, santa esposa e mãe, ele pagão rude e violento. Agostinho teve uma mocidade inquieta, agitada pelas paixões e desvios doutrinais. Inteligência eleita, aguda, penetrante, depois dos desmandos da juventude, procurou a verdade e a redenção do seu espírito irrequieto através das filosofias, mas debalde. Formou-se brilhantemente em retórica e, ainda jovem, escrevia ensaios de poesia e filosofia. Procurando maior glória, deixou Cartago, cidade de seus estudos e foi para a capital do Império Romano, abrindo uma escola de retórica, mas ficou por pouco tempo, porque teve a nomeação oficial de professor de retórica e gramática em Milão. Aí, atraído pela fama do grande Bispo Ambrósio, poeta e orador, começou a assistir seus sermões. Do apreço à forma literária da pregação, Agostinho passa ao apreço pelo conteúdo. Converte-se, recebe a instrução e é batizado por Santo Ambrósio, na Páscoa de 387. Tinha 33 anos e chegara ao término de um longo e laborioso processo de conversão, para o qual, além de sua sede de verdade, tiveram um papel importante as preces e lágrimas de sua santa mãe. O próprio Agostinho descreve o toque final da graça de Deus que o levou à conversão: “Enquanto, chorando debaixo de uma figueira, debatia-me entre sentimentos e forças opostas... de súbito, ouço uma voz que cantava e repetia muitas vezes: ‘Toma e lê, toma e lê...’ Agarrei o livro (Carta aos Romanos) e li para mim aquele capítulo que primeiro se apresentou aos meus olhos e eram estas as palavras: ‘Caminhemos como de dia; nada de desonestidades, nem dissoluções; nada de contendas nem de ciúmes; ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não procureis satisfazer os desejos da carne’ (Rm 13,13s). Não quis ler mais nem era necessário; pois me penetrou no coração uma espécie de luz serena e todas as trevas de minhas dúvidas fugiram” (Confissões, cap. X).

Com ele foi batizado também o filho Adeodato; jovem inteligentíssimo, que faleceu aos 15 anos, com grande dor de Agostinho. Decidiu então voltar para sua pátria, a África, com a mãe Mônica, que faleceu na viagem perto de Roma. Na África, com alguns amigos, iniciou uma vida comunitária entregue à meditação, ao estudo da Bíblia, à oração e obras de caridade.

Mas, no dizer do Evangelho, a luz não pode ficar oculta. Agostinho foi procurado pelo bispo de Hipona, a fim de que o ajudasse na pregação, pois o bispo era velho e doente. Foi ordenado sacerdote e, pouco depois, com a morte do bispo, Agostinho foi aclamado pelo povo como sucessor.

Como pastor da diocese por 34 anos, revelou-se bispo zeloso, vigilante, iluminado, pai dos pobres, mestre insuperável de espiritualidade, escritor fecundíssimo em todos os assuntos teológicos, defensor infatigável da ortodoxia. Sua ação e influência pastoral não se limitou à pequena cidade portuária de que era bispo, mas rompeu as fronteiras, tomando-se uma espécie de oráculo de sabedoria teológica que a civilização antiga presenteou ao cristianismo. Foi definido o mais profundo pensador entre os escritores do mundo antigo e, talvez, o gênio metafísico mais portentoso que o mundo viu! Sua linguagem apaixonada e cálida, expressiva e pessoal, seduz, convence, comove. Seu pensamento iluminou quase todos os pensadores dos séculos posteriores. Entre suas obras imortais, emerge a autobiografia Confissões e A cidade de Deus, que é uma filosofia da história vista à luz da mensagem cristã.

Santo Agostinho morreu aos 28 de agosto de 430 com 76 anos, amargurado ao ver os bárbaros sitiarem sua cidade episcopal.”

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CONTI, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. 10ª edição. Petrópolis: Vozes. 2006. 711 páginas

jul 12

SANTO INÁCIO DE LOIOLA – O SANTO DO MÊS

santo inácio de loiola

SANTO INÁCIO DE LOIOLA - 

            Para este mês de julho reservamos um espaço destacado para falarmos um pouco sobre Santo Inácio de Loiola e, para tanto, socorremo-nos do nosso saudoso Dom Servílio Conti, autor do livro “O Santo do dia”, editado pela Vozes, com 711 páginas. Sobre Santo Antônio, diz Dom Servílio: 

            Poucos santos tiveram uma influência tão vasta e profunda na história da Igreja como Santo Inácio: ele marca uma época! Aqui, brevíssimos tra­ços de sua gigantesca figura.

            Iñigo, ou Inácio, nasceu em Loiola, região basca da Espanha, em 1491. Como pajem na corte, aprendeu as maneiras gentis que sempre o distinguiram. De porte elegante, adestrado em todos os exercícios equestres, era Iná­cio, em sua mocidade, o tipo acabado de cavalheiro, fidalgo espanhol, va­lente, espirituoso, dado ao jogo, à poesia, às aventuras de militar e no amor.

            Prestava o serviço de armas junto ao vice-rei de Navarra, quando, no cerco da fortaleza de Pamplona, foi gravemente atingido numa perna. No longo tratamento a que teve de se sujeitar, procurou ocupar o tempo lendo a vida dos santos. Começou, então, a fazer sérias comparações entre a vida fútil dedicada ao mundo e os grandes ideais do serviço de Deus. Movido pela graça, tomou a firme resolução de trocar a carreira militar para o servi­ço da construção do Reino de Deus.

            Tinha então 30 anos. Pendurou sua espada no Santuário de Montserrat e entregou-se à meditação mais profunda dos mistérios divinos. Na solidão de Manresa, em meio a privações, ânsias, angústias e arrebatamentos da vida eremítica, traçou as linhas gerais de seu célebre livro Exercícios espi­rituais, que se tomou verdadeiro código de ascese cristã em todo o mundo.

            Em espírito de penitência, fez uma peregrinação à Terra Santa e de vol­ta à Espanha percebeu que para ser útil na construção do Reino de Cristo, na sociedade, devia cursar os estudos de filosofia e teologia, dando embasa­mento de cultura ao seu zelo. Já mais adulto, entregou-se ao estudo das lín­guas, da filosofia e teologia, antes na Espanha, depois no maior centro cul­tural do tempo: na Universidade da Sorbona, em Paris.

            Foi em Paris que, exercendo grande liderança de exemplo e de palavra, Inácio conseguiu ganhar à sua causa os primeiros seis companheiros, que sob sua direção fizeram os exercícios espirituais e com eles lançaram os fundamentos da Companhia de Jesus em 15 de agosto de 1534.

            Sua instituição era um tipo novo e original de vida religiosa que unia espiritualidade profunda à disciplina e obediência quase militar, com a finali­dade de coordenar o máximo de atividade na construção do Reino de Cris­to, na sociedade conturbada daquele tempo. De fato, um dos traços mais marcantes da obra de Inácio é o sentido da organização, a espiritualidade entendida como ação e o culto à eficácia: daqui enfatizou o valor normativo da obediência; na vida espiritual dava muita importância ao esforço pessoal ascético, usando como meios a introspecção contínua e a repressão dos ins­tintos. A Ordem por ele fundada, por sua atividade educadora e pastoral, foi uma das alavancas mais fortes da restauração católica e da Contrarreforma. Não havia atividade pastoral que fugisse ao seu zelo. Abriu novos caminhos ao espírito missionário, levando o Evangelho às mais longínquas I regiões da terra. Ainda em vida, dezenas de missionários trabalhavam no Brasil, e os jesuítas, sem dúvida, foram os que mais se destacaram na evangelização dos índios.

            Inácio fundou em Roma o Colégio Romano e o Colégio Germânico, afim de preparar apóstolos de Cristo para o mundo. Faleceu em Roma, aos 1 de julho de 1556, com 65 anos.

            A Companhia de Jesus, apesar das perseguições sofridas no século CVIII, floresceu cada vez mais e hoje conta com um verdadeiro exército de religiosos e apóstolos: 27 mil! Este, de fato, era o sonho de Inácio: ter um exército de apóstolos a serviço de Cristo, da Igreja e do papa. Seu lema era: Tudo para a maior glória de Deus!”

_______________________________________________ CONTI, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. 10ª edição. Petrópolis: Vozes. 2006. 711 páginas

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