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Arquivo por categoria: O SANTO DO MÊS

dez 04

O SANTO DO MÊS

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IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA –

O mês de DEZEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 8, celebramos a Imaculada Conceição. Para tanto, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão sempre vivos e vivas no devocionário popular. No caso, Maria Santíssima, com o Mistério da Sagrada Conceição, tornou-se para todos nós, assim como o foi para todos os Santos, modelo de humildade, de serviço, de obediência e de fidelidade ao Pai, cumprindo com a missão recebida por intermédio do anjo Gabriel. Diz Dom Servílio Conti:

“Hoje não ocorre a memória de nenhum santo, mas a solenidade mais alta e mais preciosa daquela que é chamada a Rainha de Todos os Santos, Maria Santíssima, no mistério de sua Imaculada Conceição. Esta verdade foi proclamada solenemente em 1854, mas a história da devoção a Maria Imaculada é muito mais antiga. Precede de séculos, antes de quase dois milênios, à proclamação do dogma, que, como sempre, não introduziu novidade alguma, mas simplesmente reconheceu uma antiquíssima tradição.

Muitos padres e doutores da Igreja oriental ao exaltar a grandeza de Maria, Mãe de Deus, tinham usado expressões que a colocavam acima do pecado original. Chamavam-na de intemerata, toda bela e formosa, a cheia de graças, o lírio da inocência, a mais pura que os anjos, mais esplendorosa do que o sol. Na Igreja ocidental, a doutrina da Imaculada Conceição encontrava certa resistência, não por aversão a Nossa Senhora, que sempre foi exaltada como a mais sublime de todas as criaturas, mas para salvaguardar a doutrina da redenção operada por Cristo em favor de todas as criaturas.

Duns Scoto, grande teólogo do século XIII, encontrou um silogismo que solucionava a dificuldade de admitir que também Nossa Senhora, como filha de Adão e Eva, devia estar sujeita ao pecado original, mas que foi dele preservada, em previsão dos méritos de Cristo, com antecipada aplicação da redenção universal de Jesus. Era sumamente conveniente que Deus preservasse Maria do pecado original, pois ela era destinada a ser mãe do seu filho. Isso era possível para a onipotência de Deus; portanto, Deus, de fato, a preservou, antecipando-lhe os frutos da redenção de Cristo.

Perante esta sutil, mas irretorquível argumentação, os teólogos concordaram em aceitar esta doutrina. De fato, desde 1300 a doutrina da Imaculada Conceição de Maria no seio materno fez rápidos progressos na consciência dos fiéis, induzindo a Igreja a introduzir no calendário romano já no século XV a festa da Conceição Imaculada de Maria.

José de Anchieta foi o apóstolo desta doutrina no Brasil, que desde o início da colonização dedicou a este mistério inúmeras igrejas, inclusive 35 catedrais.

Em 1830 Nossa Senhora apareceu a Catarina Labouré mandando cunhar uma medalha com a efígie da Imaculada e as palavras: “Maria concebida sem pecado, rogai por nós”. Esta medalha, difundida aos milhões em todo o mundo, suscitou grande devoção a Maria Imaculada, induzindo muitíssimos bispos a solicitar ao papa a definição do dogma que já estava sendo vivido nos corações dos fiéis. Assim, no dia 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou Maria isenta do pecado original, desde o primeiro instante de sua existência no seio de sua mãe, e isso por força de uma antecipada aplicação dos frutos da redenção de Cristo.

Quatro anos mais tarde, as aparições de Lourdes foram prodigiosa confirmação do dogma. De fato, Maria proclamou-se explicitamente com a prova de incontáveis milagres: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Deus quis preparar ao seu Filho uma digna habitação. Cheia de graça, ainda no seio materno, Maria foi concebida sem a mancha do orgulho e do desamor que é o pecado. Em vista disso, a Imaculada foi a primeira a receber a plenitude da bênção de Deus que se manifestou na morte e na ressurreição de Cristo.

Maria, na sua fidelidade ao projeto de Deus, na sua vocação de mãe do Salvador, nos ensina o caminho da santidade; por isso a Igreja hoje nos manda rezar: “Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão”.

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.
 

nov 03

O SANTO DO MÊS

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SÃO LEÃO MAGNO

            O mês de NOVEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 10, festejamos São Leão Magno, um dos maiores e mais importantes Papas da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo. Por esta razão, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão muito vivos e vivas no devocionário popular.

            “Célebre na história da Igreja pelo seu profundo saber, pelas extraordinárias virtudes e brilhante governo, São Leão foi, sem dúvida, o maior papa dos primeiros séculos da era cristã.

            Pouco se sabe de sua vida anterior ao pontificado. Nasceu por volta do ano 395 em Roma e ingressou, jovem ainda, no clero romano. Após ter desempenhado delicadas missões sob o pontificado do Papa Sisto III, foi escolhido para sucedê-lo, em agosto de 440. Os tempos eram então muito conturbados. O Império Romano esfacelava-se progressivamente perante as hordas de invasores bárbaros, ávidos de saques. Também a Igreja vivia agitada por questões internas, sobretudo de cunho doutrinai. Num século sentiu-se sacudida por quatro grandes heresias: O arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo e o monofisismo, que deixaram feridas profundas. O nome do Papa Leão está intimamente ligado à luta contra o monofisismo, heresia propalada pelo Monge Eutiques, que sustentava haver em Cristo não duas naturezas, mas uma só, a divina, que teria absorvido em si a natureza humana. Negavam-se assim as características da humanidade de Cristo.

            Estando a par das agitações doutrinárias do Oriente, Leão dirigiu ao patriarca de Constantinopla a célebre Carta dogmática a Flaviano, na qual expunha a doutrina ortodoxa sobre as duas naturezas, divina e humana, existentes na única pessoa de Cristo, Filho de Deus.

            No Concilio de Calcedônia, em 451, onde foi condenado o monofisismo, os padres conciliares ouviram a carta do Papa Leão e exclamaram: “Pedro falou pela boca de Leão”. Era uma confissão de fé por parte dos 600 bispos, no primado do papa, em matéria doutrinai.

            “Marcante ficou também na história da Itália a atitude do Papa Leão frente aos invasores hunos guiados pelo terrível Atila, chamado o flagelo de Deus. Vencidas todas as resistências do Império Romano e as defesas naturais dos Alpes, Átila invadira o norte da Itália destruindo tudo a ferro e fogo. O papa saiu-lhe ao encontro, e tanto foi seu prestígio e eloquência, que Átila desistiu de sua ameaça de destruir a Itália e Roma. Três anos depois, em 455, outro chefe bárbaro, Genserico, à frente dos vândalos, depois de devastar o norte da África, desembarcou na Itália e entrou em Roma. Desta vez o papa conseguiu apenas que se poupassem as vidas e não se ateasse fogo à Cidade Eterna. Nesta emergência, o bispo de Roma já surgia praticamente como suprema autoridade, até no campo social”.

            Grande foi a atuação do Papa Leão como chefe espiritual da cristandade. Pela oração, pelo exemplo e, sobretudo, por seus sábios escritos, concorreu para consolidar a disciplina eclesiástica, elevar os costumes do povo, conservar a ortodoxia da fé e aperfeiçoar o culto litúrgico em todo o Ocidente. Célebres ficaram seus sermões, pronunciados em latim clássico, proferidos nas solenidades do ano litúrgico. Destes sermões, verdadeiros modelos de eloquência cristã, se conservam mais de 100 que, junto com as 143 cartas, são documentos preciosos para a história e o dogma.

            Num dos seus sermões natalinos o Papa Leão comentava: “Nosso Senhor, amados filhos, nasceu hoje como Salvador: alegremo-nos. Não pode haver tristeza quando nasce a vida... O Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu Criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que ele antes vencera. Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo”.

            O Papa Leão faleceu no ano 461, e a posteridade brindou-o com o título de Magno, pois por justas razões foi ele o mais insigne papa anterior à queda do Império Romano Ocidental e, inclusive, o que por mais tempo dirigiu a Igreja Romana até aquele período."

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.

out 05

O SANTO DO MÊS – APARECIDA

NOSSA SENHORA DE APARECIDA

NOSSA SENHORA APARECIDA –

            O mês de outubro é marcante para o catolicismo brasileiro, porque, neste mês, mais precisamente no dia 12, celebramos o dia de Nossa Senhora Aparecida – A Padroeira do Brasil. A data dispensa maiores comentário. Por esta razão, estamos falando sobre a nossa Padroeira, valendo-nos das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão muito vivos e vivas no devocionário popular.

   “Nosso dever, hoje, é prestar devota homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Desde o descobrimento do Brasil, cultiva-se na América Latina e, sobretudo, em nossa pátria, terna devoção a Nossa Senhora, devoção trazida pelos colonizadores e missionários de Portugal à terra de Santa Maria. Contudo, Nossa Senhora quis estabelecer, com sinais inconfundíveis, um centro de devoção que fosse um trono de graça. Surgiu então o Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

        Em 1717, três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, moradores nas margens do Rio Paraíba do município de Guaratinguetá, cansados e desanimados por não terem apanhado peixe algum, depois de várias horas de trabalho, já estavam decididos a voltar para casa, quando, lançando mais uma vez a rede, retiraram das águas o corpo de uma imagem sem cabeça e, num segundo arremesso, encontraram também a cabeça da imagem de terra cozida. Impressionados pelo evento, experimentaram mais um lance da rede; e naquele momento foi tão abundante a pescaria que encheram as canoas.

       A pesca, quase milagrosa, despertou neles grande curiosidade em relação à imagem que limparam com muito cuidado e verificaram que se tratava duma imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura. Colocaram-na no oratório de sua pobre morada e diante dela começaram a fazer suas orações diárias. Não tardou a Virgem Santíssima a mostrar por novos sinais que tinha escolhido esta imagem para distribuir favores especiais a seus devotos.

          A devoção e a afluência do povo crescia todos os dias e por isso impunha-se a construção duma capela em lugar apropriado a fim de facilitar a devoção dos fiéis. Estava aí o morro dos coqueiros, o mais vistoso de todos que margeiam o Paraíba. No alto deste morro foi construída a primeira capela em 1745 e foi celebrada a primeira missa. A imagem de Nossa Senhora da Conceição, já então chamada pelo carinhoso nome de Aparecida, estava em seu lugar definitivo, dando origem à cidade do mesmo nome.

            As etapas ascensionais que incrementaram a devoção a Nossa Senhora Aparecida são as seguintes:

             A primeira capela, várias vezes reformada e aumentada, era pequena demais e foi substituída em 1888 por outra muito maior e mais artística. Feita a construção material, o bispo diocesano quis prover o santuário com adequado serviço religioso. Para isso, convidou os Padres Redentoristas, que desde o ano 1894 exercem com admirável zelo a direção e assistência espiritual do santuário.

              No dia 8 de setembro de 1904, por especial privilégio concedido pelo papa, procedeu-se à solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, na presença de grande número de bispos. Em 1908 o papa elevou o santuário à dignidade de basílica.

             Em 1930 Pio XI, acolhendo favoravelmente o pedido dos bispos do Brasil, proclamou solenemente Nossa Senhora Aparecida padroeira principal do Brasil.

      Em 1967, completando-se 250 anos da devoção, o Papa Paulo VI ofereceu ao Santuário de Aparecida a Rosa de Ouro, querendo com tal gesto reconhecer a importância do santuário e estimular o culto mariano.

     Com o crescer contínuo das romarias, somando vários milhões os romeiros de cada ano, notou-se que o santuário se tomara demasiadamente pequeno. Desde o ano 1950 pensou-se na construção de um novo e mais majestoso templo mariano. A ciclópica construção com suas dependências durou mais de vinte e cinco anos e, finalmente, foi solenemente consagrada na histórica visita do Papa João Paulo II ao Brasil, no dia 4 de julho de 1980. A presença do “Papa Mariano”, suas maravilhosas exortações, ficaram como um marco indelével na história da devoção a Nossa Senhora Aparecida.”

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.

set 04

TERESA DE CALCUTÁ: MAIS UMA ESTRELA A BRILHAR NO FIRMAMENTO CELESTE!

TERESA DE CALCUTÁ - SANTA

SANTA TERESA DE CALCUTÁ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quanto mais atribulada uma época, mais santos e santas revela. Todos os grandes santos e santas reconhecidos e declarados pela Igreja, ao longo dos séculos, viveram em momentos de muita tensão social, política, sanitária ou econômica, quando não, com todas juntas. Eis o nosso atribulado século XXI fazendo história, com a revelação e a consagração de homens e mulheres que, em suas humildes passagens, deixaram-nos enorme herança como filhos e filhas de Deus.

                Quem já ouviu falar em Anjezë Gonxhe Bojaxhiu ou em Agnes Bojaxhiu? Certamente que muito poucas pessoas sabem de quem se trata. Porém, se dissermos o nome “Teresa de Calcutá”, todo mundo sabe sobre quem estamos falando. Madre Teresa de Calcutá! Agora, Santa Teresa de Calcutá.

                Todos os meses temos escolhido parte da história de determinado santo ou santa, para trazermos ao povo de Deus o trabalho, a mensagem e o exemplo daqueles que, em vida e na caminhada por este mundo souberam, acima de tudo, manter a fé, o amor ao próximo e o seguimento a Jesus, de forma incondicional. Sem bens materiais, sem dinheiro, sem casa e sem família fixa, estas criaturas deixaram uma marca indelével no mundo e, por meio delas, podemos perceber a verdadeira missão que Deus deu a cada um de nós que, por desvios de conduta, adotamos as práticas, os costumes e os apegos do mundo, esquecendo-nos do cumprimento da verdadeira e real missão.

                Santa Teresa de Calcutá, melhor que ninguém, deixa esta herança para todos nós. Dispensa maiores comentários. A seguir, transcrevo parte do texto de Gloria Germani[1], apenas para prestar singela homenagem a quem tanto homenageou o ser humano:

“Outro aspecto da auto renúncia sobre o qual Madre Teresa insiste é a renúncia a uma pulsão fundamental, her­dada por cada indivíduo determinado: o impulso da vontade que nos faz considerar que somos nós os artífices do nosso destino.

A negação da capacidade de autodeterminação por parte do ser humano é um tema central sobre o qual Madre Teresa fundamenta a consecução da salvação; ao redor dele giram muitíssimas reflexões que recolhi sobretudo no terceiro e sexto capítulos. Na linguagem de Madre Teresa, o desapego da própria vontade ou da própria ilusão de autodeterminação desemboca no grande tema do abandono total (total surrender), que pode ser considerado como fulcro da mensagem de Madre Teresa e que fornece o título à presente antologia.

Num primeiro grupo de textos (3.6-3.12), esse tema se expressa como abandono à vontade de Deus. Retomando a belíssima passagem evangélica (Mt 6,25-30) sobre Deus, que alimenta as pequenas gralhas que crocitam e os pássaros que não semeiam nem colhem, esse mesmo Deus que veste os lírios do campo tão esplendidamente (3.6), Madre Teresa desloca o conceito de providência divina para fazer dele um pilar da nossa atitude para com Deus.[2]

[...]

Com o tema do sofrimento, Madre Teresa nos leva a dar outro passo por meio do qual se realiza o completo desapego, após a experiência da castidade, da renúncia ao fruto dos atos, da obediência e da pobreza. Trata-se ainda de realizar uma pars destruens * que conduzirá a um profundo momento de renascimento e desembocará no tema do amor e do serviço (capítulo 5).

O grande modelo do sofrimento, para Madre Teresa, é Jesus Cristo. A imagem que ela tem dele está extremamente presente, é vivíssima, de tal modo forte que há poucas iguais na própria tradição cristã.

[...] o homem-Deus nu na cruz, choroso, desprezado por todos, o homem do sofrimento esmagado como um verme pela flagelação e pela crucificação (4.2), [...] sem qualquer consolação, abandonado por todos e desprezado, alquebrado no corpo e na alma (4.1).

É um sofrimento que se condensa nas palavras de Cristo: “Tenho sede”, e mais ainda no inglês: “/’m thirsty” que expressa melhor a essência de Cristo enquanto ser sedento, ser necessitado. Estas palavras — /’m thirsty — golpeiam como pedras a nossa sensibilidade entorpecida, quando as vemos suspensas sobre toda imagem de Cristo crucificado, nas casas das Missionárias da Caridade. Essas palavras estão no centro da experiência espiritual de Madre Teresa, tanto que ela expressa com lucidez a íntima correlação delas com outro tema evangélico fundamental, dentro do seu itinerário: “Nunca separem estas palavras: ‘Tenho sede’ e ‘Foi a mim que o fizestes’” (4.3).

A identidade de Cristo com aqueles que sofrem

Durante toda a sua vida, Madre Teresa nunca deixou de insistir na passagem de Mateus:

[...] eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes [...] todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,35ss).

Simplesmente ligando as duas passagens evangélicas, ela consegue tomar extraordinariamente viva e vibrante a fé na não-alteridade de Deus, a certeza da sua imanência em nosso mundo por meio do sofrimento de milhões de nossos irmãos. A sede de Cristo está aqui, presente agora, é a mesma sede sofrida continuamente ao nosso redor, ao nosso lado.

Desse modo, entramos ininterruptamente em contato com Cristo, e não somente por meio do sacramento eucarístico; Madre Teresa chega a afirmar a completa identidade existente entre Cristo e aqueles que sofrem: “[...] no mundo dos miseráveis, dos corpos em pedaços, das crianças, é Cristo que vemos, que tocamos” (4.4).

Ela adota uma expressão bem precisa e recorrente para expressar a presença de Cristo naquele que sofre. In the distressing disguise é a fórmula que Madre Teresa usa sempre para conotar a efetiva presença de Cristo nas “dolorosas aparências” do nosso próximo, na máscara de sofrimento e de dor do meu irmão e da minha irmã (cf. 1.22; 1.28; 4.4; 4.18; 4.19; 5.8; 5.24; 5.30). Em outros trechos, sobretudo naqueles coletados no capítulo 5, Teresa sintetiza o mesmo conceito, referindo-se simplesmente aos “Pobres”; mas devemos notar que o significado desse termo é, para ela, sempre muito amplo. Todo Pobre é o meu próximo, porque em cada próximo está aquele que sofre e é Pobre. Madre Teresa diz: “No Pobre está verdadeiramente Cristo” (5.5.); “[...] não é simplesmente algo para provocar a nossa imaginação. Jesus o disse de fato. Portanto, ele é o Pobre que nós encontramos em todos os lugares” (5.6).

[...]

Madre Teresa nos relembra que o sofrimento nunca desaparecerá inteiramente da nossa vida, mas é consubstancial ao nosso ser (4.16). Conseguir aceitar o sofrimento, abandonar o medo, vencendo a repugnância, é condição indispensável para transformar o sofrimento num dom que gera redenção (4.17; 4,22).

Madre Teresa traz o exemplo de são Francisco que, após ter encontrado um leproso completamente desfigurado, teve uma sensação de repulsa e se afastou, “mas quando, ao superar a si mesmo, quis beijar aquele rosto [...] desfigurado [...], tomou-se completamente senhor de si mesmo; e o leproso foi embora louvando o Senhor pela cura” (4.20).

Superar a si mesmo, não permanecer sob as normais pulsações da auto conservação, sacrificar o nosso eu, conduz ao autodomínio, à redenção da qual Cristo é o símbolo supremo.

Para Madre Teresa, portanto, entrar em contato com Cristo, alcançando a identidade com o sentir de Deus — que é a santidade —, só é possível se aceitarmos a possibilidade que nos é oferecida, todos os dias, de servir os mais Pobres, os que mais sofrem, identificando o sofrimento deles com o nosso sofrimento. E isso não é possível sem o nosso auto- sacrifício.

Toda a grande ação de caridade exercida por Madre Teresa e pelas Missionárias não teria um sentido espiritual se não se realizasse como ação sacrifical por meio do sofrimento (4.21; 4.22; 4.23; 4.24). É o aspecto redentor do sofrimento, como auto sacrifício, que distancia profundamente a obra de Madre Teresa de qualquer ação caritativa de fundo social e laico.

Esse essencial acento sobre o valor redentor do sofrimento talvez seja aquilo que liga mais o itinerário de Madre Teresa à especificidade da revelação cristã. O sofrimento de Cristo crucificado é, de fato, o conteúdo fundamental do cristianismo, embora Madre Teresa infunda a esse conteúdo uma nova e extraordinária vitalidade.

Cristo não foi crucificado somente há dois mil anos, mas continua sendo crucificado hoje, ao nosso lado, e é por meio dessa cotidiana presença da dor e do sofrimento que podemos ter acesso a um sentir idêntico ao sentir divino. As palavras de Madre Teresa passam continuamente do tempo passado da história evangélica ao presente do encontro com ele “nos obscuros tugúrios dos favelados, nas misérias mais lastimosas dos Pobres”; é nessa vital fé na não-alteridade do divino, em seu não-ser-outro em relação ao mundo, que consiste — é bom repeti-lo — o mais radical e fecundo aspecto do cristianismo de Madre Teresa.”

Por estas e por tantas outras razões que envolvem a magnífica vida terrena de Teresa de Calcutá, é que estamos prestando esta humilde homenagem à mais nova Santa deste atribulado século XXI. É mais um estímulo para que todos queiramos descobrir muito mais sobre a vida de Teresa e, na medida das nossas humanas possibilidades, imitá-la no amor incondicional ao próximo e no total seguimento a Jesus, de quem alardeamos sermos fieis seguidores.

Neste domingo, 04 de setembro do ano 2016, o Papa Francisco, diante de mais de 100 mil fieis, dirigiu-se ao mundo dizendo:

"Proclamamos a beata Teresa de Calcutá como santa e a inscrevemos entre os santos, decretando que seja venerada como tal por toda a Igreja – declarou Francisco, que pronunciou em latim a frase de canonização ritual.

– Que nos ajude a entender que nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia (...) e oferecido a todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião."

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*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.
______________________________   [1] GERMANI, Gloria. Teresa de Calcutá – Uma mística entre o Oriente e o Ocidente – seu pensamento sobre a Índia r Gandhi. São Paulo. Paulinas: 2013. 285 páginas. [2] Op. cit. págs. 110, 141/143 e 146/147

ago 12

SANTO AGOSTINHO: O SANTO DO MÊS

         Santo Agostinho

                 Este mês de agosto é riquíssimo em matéria de santos e de santas cujas vidas deixaram marcas profundas na cristandade: iniciando com Santo Afonso Maria de Ligório (04/08); Santo Eusébio (02/08); São João Maria Vianney, o Santo Cura D’Ars, patrono dos sacerdotes, (04/08); São Lourenço (10/08); Santa Clara (11/08); Santo Estevão (16/08); Santa Helena (18/08); São Bartolomeu (24/08); Santa Mônica (27/08) e Santo Agostinho (28/08), para quem reservamos um espaço destacado para falarmos um pouco, socorrendo-nos do nosso saudoso Dom Servílio Conti, autor do livro “O Santo do dia”, editado pela Vozes, com 711 páginas. Sobre Santo Antônio, diz Dom Servílio: 

“Ontem a mãe Mônica, hoje o filho Agostinho: dois santos! Não existiria o segundo se sua mãe não tivesse sido santa, gerando o filho para a fé pelas orações e pelas lágrimas!

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, hoje região da Argélia, norte da África, em 354, filho de Mônica e Patrício: ela, santa esposa e mãe, ele pagão rude e violento. Agostinho teve uma mocidade inquieta, agitada pelas paixões e desvios doutrinais. Inteligência eleita, aguda, penetrante, depois dos desmandos da juventude, procurou a verdade e a redenção do seu espírito irrequieto através das filosofias, mas debalde. Formou-se brilhantemente em retórica e, ainda jovem, escrevia ensaios de poesia e filosofia. Procurando maior glória, deixou Cartago, cidade de seus estudos e foi para a capital do Império Romano, abrindo uma escola de retórica, mas ficou por pouco tempo, porque teve a nomeação oficial de professor de retórica e gramática em Milão. Aí, atraído pela fama do grande Bispo Ambrósio, poeta e orador, começou a assistir seus sermões. Do apreço à forma literária da pregação, Agostinho passa ao apreço pelo conteúdo. Converte-se, recebe a instrução e é batizado por Santo Ambrósio, na Páscoa de 387. Tinha 33 anos e chegara ao término de um longo e laborioso processo de conversão, para o qual, além de sua sede de verdade, tiveram um papel importante as preces e lágrimas de sua santa mãe. O próprio Agostinho descreve o toque final da graça de Deus que o levou à conversão: “Enquanto, chorando debaixo de uma figueira, debatia-me entre sentimentos e forças opostas... de súbito, ouço uma voz que cantava e repetia muitas vezes: ‘Toma e lê, toma e lê...’ Agarrei o livro (Carta aos Romanos) e li para mim aquele capítulo que primeiro se apresentou aos meus olhos e eram estas as palavras: ‘Caminhemos como de dia; nada de desonestidades, nem dissoluções; nada de contendas nem de ciúmes; ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não procureis satisfazer os desejos da carne’ (Rm 13,13s). Não quis ler mais nem era necessário; pois me penetrou no coração uma espécie de luz serena e todas as trevas de minhas dúvidas fugiram” (Confissões, cap. X).

Com ele foi batizado também o filho Adeodato; jovem inteligentíssimo, que faleceu aos 15 anos, com grande dor de Agostinho. Decidiu então voltar para sua pátria, a África, com a mãe Mônica, que faleceu na viagem perto de Roma. Na África, com alguns amigos, iniciou uma vida comunitária entregue à meditação, ao estudo da Bíblia, à oração e obras de caridade.

Mas, no dizer do Evangelho, a luz não pode ficar oculta. Agostinho foi procurado pelo bispo de Hipona, a fim de que o ajudasse na pregação, pois o bispo era velho e doente. Foi ordenado sacerdote e, pouco depois, com a morte do bispo, Agostinho foi aclamado pelo povo como sucessor.

Como pastor da diocese por 34 anos, revelou-se bispo zeloso, vigilante, iluminado, pai dos pobres, mestre insuperável de espiritualidade, escritor fecundíssimo em todos os assuntos teológicos, defensor infatigável da ortodoxia. Sua ação e influência pastoral não se limitou à pequena cidade portuária de que era bispo, mas rompeu as fronteiras, tomando-se uma espécie de oráculo de sabedoria teológica que a civilização antiga presenteou ao cristianismo. Foi definido o mais profundo pensador entre os escritores do mundo antigo e, talvez, o gênio metafísico mais portentoso que o mundo viu! Sua linguagem apaixonada e cálida, expressiva e pessoal, seduz, convence, comove. Seu pensamento iluminou quase todos os pensadores dos séculos posteriores. Entre suas obras imortais, emerge a autobiografia Confissões e A cidade de Deus, que é uma filosofia da história vista à luz da mensagem cristã.

Santo Agostinho morreu aos 28 de agosto de 430 com 76 anos, amargurado ao ver os bárbaros sitiarem sua cidade episcopal.”

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CONTI, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. 10ª edição. Petrópolis: Vozes. 2006. 711 páginas

jul 12

SANTO INÁCIO DE LOIOLA – O SANTO DO MÊS

santo inácio de loiola

SANTO INÁCIO DE LOIOLA - 

            Para este mês de julho reservamos um espaço destacado para falarmos um pouco sobre Santo Inácio de Loiola e, para tanto, socorremo-nos do nosso saudoso Dom Servílio Conti, autor do livro “O Santo do dia”, editado pela Vozes, com 711 páginas. Sobre Santo Antônio, diz Dom Servílio: 

            Poucos santos tiveram uma influência tão vasta e profunda na história da Igreja como Santo Inácio: ele marca uma época! Aqui, brevíssimos tra­ços de sua gigantesca figura.

            Iñigo, ou Inácio, nasceu em Loiola, região basca da Espanha, em 1491. Como pajem na corte, aprendeu as maneiras gentis que sempre o distinguiram. De porte elegante, adestrado em todos os exercícios equestres, era Iná­cio, em sua mocidade, o tipo acabado de cavalheiro, fidalgo espanhol, va­lente, espirituoso, dado ao jogo, à poesia, às aventuras de militar e no amor.

            Prestava o serviço de armas junto ao vice-rei de Navarra, quando, no cerco da fortaleza de Pamplona, foi gravemente atingido numa perna. No longo tratamento a que teve de se sujeitar, procurou ocupar o tempo lendo a vida dos santos. Começou, então, a fazer sérias comparações entre a vida fútil dedicada ao mundo e os grandes ideais do serviço de Deus. Movido pela graça, tomou a firme resolução de trocar a carreira militar para o servi­ço da construção do Reino de Deus.

            Tinha então 30 anos. Pendurou sua espada no Santuário de Montserrat e entregou-se à meditação mais profunda dos mistérios divinos. Na solidão de Manresa, em meio a privações, ânsias, angústias e arrebatamentos da vida eremítica, traçou as linhas gerais de seu célebre livro Exercícios espi­rituais, que se tomou verdadeiro código de ascese cristã em todo o mundo.

            Em espírito de penitência, fez uma peregrinação à Terra Santa e de vol­ta à Espanha percebeu que para ser útil na construção do Reino de Cristo, na sociedade, devia cursar os estudos de filosofia e teologia, dando embasa­mento de cultura ao seu zelo. Já mais adulto, entregou-se ao estudo das lín­guas, da filosofia e teologia, antes na Espanha, depois no maior centro cul­tural do tempo: na Universidade da Sorbona, em Paris.

            Foi em Paris que, exercendo grande liderança de exemplo e de palavra, Inácio conseguiu ganhar à sua causa os primeiros seis companheiros, que sob sua direção fizeram os exercícios espirituais e com eles lançaram os fundamentos da Companhia de Jesus em 15 de agosto de 1534.

            Sua instituição era um tipo novo e original de vida religiosa que unia espiritualidade profunda à disciplina e obediência quase militar, com a finali­dade de coordenar o máximo de atividade na construção do Reino de Cris­to, na sociedade conturbada daquele tempo. De fato, um dos traços mais marcantes da obra de Inácio é o sentido da organização, a espiritualidade entendida como ação e o culto à eficácia: daqui enfatizou o valor normativo da obediência; na vida espiritual dava muita importância ao esforço pessoal ascético, usando como meios a introspecção contínua e a repressão dos ins­tintos. A Ordem por ele fundada, por sua atividade educadora e pastoral, foi uma das alavancas mais fortes da restauração católica e da Contrarreforma. Não havia atividade pastoral que fugisse ao seu zelo. Abriu novos caminhos ao espírito missionário, levando o Evangelho às mais longínquas I regiões da terra. Ainda em vida, dezenas de missionários trabalhavam no Brasil, e os jesuítas, sem dúvida, foram os que mais se destacaram na evangelização dos índios.

            Inácio fundou em Roma o Colégio Romano e o Colégio Germânico, afim de preparar apóstolos de Cristo para o mundo. Faleceu em Roma, aos 1 de julho de 1556, com 65 anos.

            A Companhia de Jesus, apesar das perseguições sofridas no século CVIII, floresceu cada vez mais e hoje conta com um verdadeiro exército de religiosos e apóstolos: 27 mil! Este, de fato, era o sonho de Inácio: ter um exército de apóstolos a serviço de Cristo, da Igreja e do papa. Seu lema era: Tudo para a maior glória de Deus!”

_______________________________________________ CONTI, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. 10ª edição. Petrópolis: Vozes. 2006. 711 páginas

jun 01

SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA: O SANTO DO MÊS

SANTO ANTONIO DE PÁDUA

SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA –

               O mês de junho apresenta no devocionário católico uma boa quantidade de santos e de santas que, ao longo das nossas vidas, aprendemos a admirar e até a eles recorrer nas horas aflitivas das nossas vidas.

                Tanto uns quanto as outras, foram pessoas de carne e osso como nós, que, também em suas épocas viveram com dificuldades e experimentaram, acima de tudo, a perseguição, a prisão, a tortura e, não raro, a própria morte violenta, tornando-se mártires.

           Alguns, no entanto, viveram distantes dos açoites e dos castigos severos impostos pelos poderosos, e puderam deixar valiosos testemunhos de fé e de ação em nome de Jesus, a quem dedicaram suas vidas.

                Para este mês de junho reservamos um espaço destacado para falarmos um pouco sobre Santo Antônio de Pádua e, para tanto, socorremo-nos do nosso saudoso Dom Servílio Conti, autor do livro “O Santo do dia”, editado pela Vozes, com 711 páginas. Sobre Santo Antônio, diz Dom Servílio: 

 

"Santo Antônio nasceu em Lisboa em 1195 e morreu nas vizinhanças da cidade de Pádua, Itália, em 1231; daí o chamar-se Antônio de Lisboa ou de Pádua. No batismo recebeu o nome de Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Jovem, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares e fez os estudos filosóficos e teológicos em Coimbra, onde também foi ordenado sacerdote. Tinha inteligência aberta, coração ardente de zelo, desejando se engajar em algo de empolgante.

Apareceram naqueles anos, em Portugal, os primeiros frades franciscanos que abriram um convento. Estava ainda vivo São Francisco de Assis, que em seu anseio apostólico de converter os infiéis já enviara frades a Marrocos, alguns dos quais tinham sido martirizados pelos muçulmanos e cujos corpos foram levados para Portugal.

Antônio, sentindo arder no coração grande desejo de imitar os gestos dos mártires na pregação do Evangelho aos mouros, decidiu entrar para as fileiras dos franciscanos. Estes religiosos, junto com os dominicanos, levavam uma vida religiosa diversa da tradicional: uniam à vida do claustro as exigências de apostolado pelos povoados e cidades. Eram, portanto, considerados frades itinerantes. Em total pobreza, vestindo austero hábito, viajando a pé, percorriam as estradas do mundo levando uma mensagem viva e evangelicamente questionadora.

Antônio pediu para pregar o Evangelho em Marrocos, mas, chegando lá, uma enfermidade o obrigou a voltar para a pátria. O navio, de volta para Portugal, foi açoitado furiosamente pelos ventos, que o empurraram em direção à Itália. Desembarcou na Ilha de Sicília e daí tomou o rumo para Assis, a fim de se encontrar com São Francisco. O santo fundador, reconhecendo em Antônio uma profunda ciência teológica, encarregou-o de lecionar esta disciplina aos frades em Bolonha.

Ficou pouco tempo no cargo, pois se revelou exímio pregador e conhecedor das Sagradas Escrituras e da teologia, e assim a pregação tornou-se seu principal campo de ação.

Os franciscanos eram pregadores populares; em geral, severos moralistas que alertavam contra as novas formas de corrupção que o luxo e a competição da vida citadina vinham inoculando nos costumes. Havia também perigosa infiltração de doutrinas heréticas, como a dos cátaros e albigenses, em relação aos quais era necessário prevenir e catequizar o povo simples.

Viajou em muitas regiões da Itália Setentrional e, por três anos, andou pelo sul da França, onde se encontrava o foco das heresias.

Em 1121 participou da assembleia geral dos franciscanos, chamada Capítulo das Esteiras, pois os frades, em cinco mil, dormiam em esteiras ao relento.

Neste capítulo, Antônio foi eleito provincial dos franciscanos do norte da Itália: tinha só 26 anos. Continuou o apostolado da palavra até a morte, que o atingiu no dia 13 de junho de 1231, com 36 anos.

Mas era tanta sua celebridade, sua fama de pregador milagroso que, dez meses depois da morte, foi levado às honras dos altares e, mais tarde, recebeu da Igreja o glorioso título de Doutor.

O sepulcro de Santo Antônio de Pádua, com sua magnífica basílica românica, converteu-se imediatamente em centro de peregrinações, até os nossos dias.

De fato, com o decorrer do tempo. Santo Antônio foi alvo de devoção surpreendente. O folclore brasileiro e italiano é rico em alusões a seus poderes milagrosos, em questão de casamento, de encontro de coisas perdidas, etc. Mais importante que tudo isso é a caridade para com os necessitados, feita em honra de Santo Antônio, através da instituição conhecida como “Pão de Santo Antônio”, gesto este que perpetua o espírito de caridade para com os pobres, tão generosamente vivido pelo nosso santo."

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CONTI, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. 10ª edição. Petrópolis: Vozes. 2006. 711 páginas
 

mai 01

UMA HOMENAGEM A NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Nossa Senhora de Fátima - 4

MAIO: MÊS DE MARIA, MÊS DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA - 

            Como viver o mês de Maio sem falar sobre Maria? Como pensar e falar em Maria, e deixar de falar em Fátima, cidade-palco das aparições que estão tão próximas de nós? Neste maio de 2016, como temos procurado fazer nos dois últimos anos e existência de nosso blog, estamos dedicando algumas páginas, não apenas à figura gloriosa de Maria, mas, e sobretudo, à cidade de Fátima, que, há noventa e nove anos recebeu a visita de Maria, Mãe do Senhor, que fez questão de prestigiar a pureza e a inocência de três pobres e humildes criancinhas: Lúcia, Francisco e Jacinta.

            Aquelas três pequenas e simples crianças, sequer, podiam imaginar que o que os seus olhos estavam vendo e o que os seus ouvidos estavam ouvindo, alimentariam milhões e milhões de almas a partir daquelas datas em que estiveram em contato com a Santa Mãe de Deus. São quase cem anos de amor, de fé e de profunda devoção de homens, mulheres, jovens e idosos, padres, leigos e Papas, pessoas vindas de todos os lugares do mundo. E mais: quis a Providência Divina que o século XXI conhecesse Lúcia que, faleceu em 13 de fevereiro de 2005, poucos meses antes da partida do Santo Padre João Paulo II, que agora é Santo João Paulo II.

            Portanto, neste mundo mais que agitado por todo tipo de ondas, capazes de sacudir e até de exterminar toda a civilização, a lembrança dos fatos ocorridos em Fátima, a partir de 13 de maio de 1917, deve reacender em todos nós a esperança, a fé e a devoção no e ao Sagrado Coração de Maria. O texto a seguir é transcrito do Livro “O Santo do Dia”, de Dom Servílio Conti, publicado pela Editora Vozes em 2006, já em sua 10ª edição. Vale a pena conferir, sempre sabendo tratar-se de apenas uma pequena parte de tudo o que se refere a Maria, sobre quem sempre teremos muito o que falar e de quem sempre temos muito a aprender:

 

ANIVERSÁRIO DA PRIMEIRA APARIÇÃO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

*Por Dom Servílio Conti, IMC

Nosso pensamento vai hoje a um dos fatos mais marcantes da vida religiosa do século XX: a aparição de Nossa Senhora, em Fátima. Aos 13 de maio de 1917, a Virgem apareceu numa pequena aldeia de Portugal, chamada Fátima. Era domingo. Três crianças costumavam todos os dias levar a pastar as poucas ovelhas da família. Crianças inocentes, pobres, analfabetas, mas já iniciadas na fé e devoção a Nossa Senhora.

Alternando seu tempo com folguedos e orações, enquanto davam umas olhadelas às ovelhas para que não invadissem terrenos cultivados, eis que, pelo meio-dia, num céu sem nuvens foram assustadas por relâmpagos e depois notaram uma forte luz. Sobre uma arvorezinha de azinheira aparecia uma Senhora mais brilhante que o sol, branca no vestido, mãos postas ao peito donde pendia um rosário. Seu rosto era levemente triste. E a Senhora lhe diz: “Não tenhais medo, não quero fazer-vos nenhum mal”.

Lúcia, a maior das videntes, de dez anos de idade, se atreve a fazer umas perguntas: quem ela era, o que queria, etc. e assim travou-se um pequeno diálogo entre a Virgem e ela.

A Mensagem de Nossa Senhora iria se completar progressivamente nas aparições posteriores, no dia 13 de cada mês, até outubro, e pode ser resumida nas seguintes palavras:

1)        Maria sente-se preocupada com o crescer do mal, dos pecados da. sociedade, sobretudo da imoralidade e indiferença religiosa que levam tantos pecadores ao inferno e são causa de tantos males sociais, inclusive, guerras, perseguições etc.

2)        Maria pede nossa colaboração para a paz do mundo (pois era o tempo da Primeira Guerra Mundial) e para conversão dos pecadores. Para isso: exige de nós conversão autêntica de nossa vida a Cristo; sugere a oração fervorosa como poderoso meio de obter o perdão de Deus e recomenda, sobretudo, a reza do terço todos os dias, possivelmente nas famílias; Nossa Senhora sugere a famosa jaculatória a ser intercalada nos mistérios do Terço: “O Jesus, perdoai nossos pecados, preservai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, particularmente as que mais precisarem de vossa misericórdia”.

Nossa Senhora exorta à penitência, à mortificação e aos sacrifícios, a fim de obter a conversão dos pecadores e a paz do mundo; enfim, pede a consagração de cada um de nós e da própria sociedade ao seu Coração Imaculado, aconselhando a comunhão reparadora todos os primeiros sábados do mês.

As aparições de Nossa Senhora em Fátima, após diligente e rigoroso exame dos fatos, tiveram o reconhecimento oficial da Igreja. Os Papas Paulo VI e João Paulo II afiançaram a Mensagem de Nossa Senhora com a própria visita solene a Fátima. O primeiro em 1967, por ocasião do Jubileu de Ouro das Aparições, o segundo em maio de 1982, renovando, após 40 anos, a consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria.

Lúcia passa seus dias no silêncio do claustro, entregue à oração, à penitência e ao trabalho. As outras duas crianças: Jacinta e Francisco, faleceram poucos anos depois das aparições, passando pela purificação dos sofrimentos, conforme a predição de Nossa Senhora.

Fátima é e ficará sendo um dos maiores centros de espiritualidade mariana, continuando a pregar ao mundo a necessidade da conversão interior e da oração.

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CONTI, Dom Servílio, I.C.M. (2006). O Santo do Dia. Petrópolis: Vozes. Pp. 256/258

 

abr 06

SANTA GEMA GALGANI – APAIXONADA PELO CRUCIFICADO

SANTA GEMA GALGANI - COM ROSAS

                        A vida dos Santos e das Santas representa verdadeira fonte onde todos nós, cristãos e cristãs, independentemente da profissão religiosa, sempre buscamos para saciar nossa inesgotável sede de Deus. Eles, mais do que ninguém, souberam passar por esta vida, acima de tudo, crendo absolutamente na promessa de Jesus “estarei convosco até o final dos tempos”, desconsiderando todos os bens materiais e, inclusive, suas próprias vidas. A Igreja cultua-os diariamente. Nós, entretanto, a partir deste ano de 2016, estamos relembrando-os mensalmente, escolhendo aleatoriamente a vida daquele ou daquela sobre quem tivermos maiores e mais fidedignas informações. Para este mês de abril, estamos apresentando um pouco sobre Santa Gema Galgani, uma jovem nascida na cidade de Lucca, na Itália, que desde a infância apaixonou-se por Jesus de tal forma que, a partir de certo momento de sua vida, recebeu a graça de poder experimentar na própria carne todos os estigmas da paixão de Nosso Senhor. É uma Santa jovem na história da Igreja, haja vista ter falecido em 11 de abril de 1903, sendo canonizada em 02 de maio de 1940, sob o pontificado do Papa Pio XII.

SANTA GEMA GALGANI[1]

(11 DE ABRIL) 

GEMA GALGANI

             É uma santa dos nossos dias. Faleceu no início século XX, mesmo as­sim viveu em contraste com o materialismo desta época, pois foi uma das maiores místicas da Igreja. Embora seja santa mística, sua vida não se perde nos elementos lendários da Idade Média, mas é rigorosamente documenta­da conforme critérios históricos.

            Gema nasceu na cidade de Lucca, no centro da Itália, em 1878. Seu nome foi uma profecia, pois significa pérola, diamante e de fato foi uma alma altamente predestinada à santidade sublime.

            Ficou sem pais antes de completar 10 anos e foi acolhida por uma famí­lia amiga que continuou a educação esmeradamente cristã dos pais. Mas não precisou de tanto, pois o Espírito Santo guiava visivelmente esta alma nos caminhos da santidade.

            Sua modelar conduta, recolhimento espiritual no meio dos trabalhos domésticos, o amor à oração, os atos de abnegação e mortificação lhe conferiram um aspecto celestial; no entanto, era visível nela o esforço de se corrigir dos defeitos e de crescer em perfeição.

        Desde cedo, sentiu-se tocada por amor temíssimo a Jesus Crucificado, sua especial devoção, de tal modo que, crescida nos anos, insistiu para ser admitida entre as Irmãs Passionistas, que cultuam de modo especial a pai­xão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

            Mas seu ardente pedido não foi atendido, o que lhe causou imensa dor e tristeza. “As irmãs passionistas não me quiseram em sua comunidade, disse Gema, pois com elas eu quero estar espiritualmente!” Emitiu os votos de consagração total a Cristo crucificado, em espírito de vítima de expiação dos pecados do mundo.

            Ela podia repetir com São Paulo: “Quanto a mim, jamais suceda que eu me glorie a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mun­do está para mim crucificado, como eu para o mundo” (G1 6,14).

            Gema foi favorecida por numerosas visões de Cristo, que, querendo associá-la à sua Paixão e Morte, gravou-lhe no corpo seus sagrados estigmas, isto é, os sinais sangrentos dos pregos nas mãos e nos pés, além da ferida no peito, privilégio este concedido a poucos santos, como a São Francisco de Assis, Santa Catarina de Sena e ultimamente a São Pio de Pietralcina. Assim foi destinada a experimentar todas as sextas-feiras as dolorosas sensações do suor de sangue, da flagelação, da coroação de espinhos, da crucifixão com toda a agonia de Jesus na Cruz.

            Sua constituição física, por muito tempo, não podia opor adequada re­sistência aos ardores do Divino Amor. Consumida mais por este amor do que por enfermidade, faleceu em Lucca, aos 11 de abril de 1903, na idade de 25 anos. Admirável é Deus em seus santos! Gema foi, deveras, uma pé­rola admirável, uma rosa perfumada crescida nos espinhos dos sofrimentos já vividos pelo seu Divino Esposo: Cristo.

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APÊNDICE I[2]

A CANONIZAÇÃO DE SANTA GEMA

            Santa Gema morreu muito jovem, desconhecida e oculta. Parecia que tudo iria acabar aí, mas foi aí que tudo começou. Do Céu, devia ela cantar as maravilhas que o Senhor operou nela; de lá devia conti­nuar a chamar os pecadores.

            O Padre Germano, já sem as reticências do passado, consegue ver claramente a obra de Deus na alma da sua filha espiritual.

            Durante meses, trabalhou para ocultá-la completamente, e para guardar esta flor que a Providência lhe deu como filha. Agora, o tem­po do escondimento acabou.

            É tempo de cumprir os desígnios de Deus. É tempo de fundar este mosteiro, que Nosso Senhor queria em Lucca.

            Eram os anos de ouro do pontificado de São Pio X, se por um lado a Igreja era atacada pelo racionalismo delirante, pelo modernismo galopante, por outro, o Santo Padre convidava a Igreja ao combate espiritual. Era tempo de dizer ao mundo, racionalista, positivista, o amor de Deus, manifesto na Paixão de seu Filho, vivido na carne da virgem de Lucca.

            Com a publicação da biografia escrita pelo Padre Germano, em 1907, houve uma verdadeira comoção acerca da sua vida e espiritua­lidade. E sobre a espiritualidade passionista.

            Uma vez, São Pio X perguntou ao Venerável Padre Germano: “Mas está certo tudo que está escrito na biografia?”. E este respondeu: “O que escrevi é só uma parte do que poderia escrever”.

            O Processo Informativo foi aberto em Lucca. No dia 3 de outubro de 1907, o bispo nomeou os membros de uma comissão especial para tomar os primeiros testemunhos.

            Em 28 de abril de 1920, Bento XV firmou o Decreto de introdu­ção da causa da beatificação. Em 20 de janeiro de 1922, abre-se em Pisa o Processo Apostólico. Em 1928, o processo é interrompido por razões de prudência. Trata-se de um processo de uma pessoa cercada de fatos extraordinários. Mas, em 29 de novembro de 1931, Pio XI assinou o Decreto de Virtudes Heroicas, tornando-a Venerável. 

         Conforme as normas canônicas então vigentes, eram necessários dois milagres para beatificação, e outros dois para canonização.

            No dia 14 de maio de 1933, Ano Santo da Redenção, é beatificada. A tia Cecília havia morrido havia dois anos, conforme lhe tinha pre­dito Santa Gema. Estavam presentes o senhor Mateus Giannini e sua esposa Justina, um grupo das Oblatas do Espírito Santo, entre elas Irmã Julia Sestini, sua mestra.

            E em 2 de maio de 1940, festa da Ascensão do Senhor, teve sua solene canonização. Estavam presentes sua irmã Angelina Galgani, os Giannini, ressaltando a presença de Eufêmia, sua grande amiga e confidente, então Madre Gema de Jesus.

            Se ainda viva, Santa Gema teria acabado de comemorar seus 62 anos. Mas a Santíssima Virgem como tinha lhe dito, veio lhe buscar na juventude.

            Se nesta Terra jamais pode ser monja passionista, no Céu, tem a honra de estar entre as Filhas de São Paulo da Cruz.

            Sua devoção se espalhou rapidamente. Logo, sua biografia come­çou a ser traduzida em outras línguas. Surgiram outras biografias, como a da Irmã Gesualda do Espírito Santo, carmelita da antiga ob­servância.

            E muitas graças foram sendo derramadas. E sua voz continuou a chamar os pecadores de volta para Deus, chamar as almas para Escola do Amor, que é Paixão de Nosso Senhor.

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PADRE GERMANO DE SANTO ESTANISLAU – AUTOR DA BIOGRAFIA DE GEMA GALGANI

  PADRE GERMANO

            Nasceu em 17 de janeiro de 1850, em Vico Equense, na península de Sorrento, Itália. Ingressou em 1855 no noviciado da Escada Santa, em Roma, tendo como mestre de no­viços o Bem-aventurado Bernardo Maria Silvestrelli (1831-1911).           De­pois da profissão dos votos, ingres­sou como estudante no Retiro dos Santos João e Paulo, também em Roma, em 1866.

            Em 29 de junho de 1867, presen­ciou a grande solenidade da canoni­zação do fundador dos Passionistas, São Paulo da Cruz.

            Vai à Bélgica, onde é ordenado em Tornai, em 1872. Na casa de estudos de Ere, teve a chance de ser aluno do famoso Padre Serafim do Sagrado Coração, diretor espiritual da Serva de Deus Louise Lateau (1850-1883), cuja repercussão da vida se estendeu por toda a Europa, sendo estudados os seus dons mís­ticos por médicos famosíssimos. Esses fatos teriam grande influência na maneira com que ele lidou com os fatos extraordinários relativos à Santa Gema.

            Em 1876, retornou a Roma para lecionar na Escada Santa, onde pôde realizar trabalhos filosóficos, graças ao impulso dado pelo Papa Leão XIII aos estudos tomistas através da Encíclica Aeterni Patris, em 1879.

          Foi reconhecido por seus estudos em Arqueologia Sacra, sendo mem­bro da Academia Romana de Ar­queologia entre 1887-1895. Foi dele o achado arqueológico da Casa do Santos João e Paulo, mártires roma­nos, sob a casa geral dos Passionitas.

            Postulador da beatificação de São Gabriel da Virgem Dolorosa, cuja biografia escreveu, foi também bas­tante famoso como confessor, exor­cista e diretor espiritual.

            Faleceu no dia 11 de dezembro de 1909, após revisar a sexta edição da biografia de Santa Gema, que aqui apresentamos. Seu processo de beatificação está avançado, sendo publicado, em 11 de julho de 1995, o decreto de suas virtudes heroicas.

___________________________________________________________ [1] Conti, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. Petrópolis. Vozes: 2006 712 páginas. [2] ESTANISLAU, Padre Germano de Santo, C.P. - SANTA GEMA GALGANI – Campinas. Ecclesiae: 2014. 342 páginas.

mar 02

SÃO JOSÉ: 0 SANTO DO MÊS DE MARÇO

SÃO JOSÉ - 3

                        A vida dos Santos e das Santas representa verdadeira fonte onde todos nós, cristãos e cristãs, independentemente da profissão religiosa, sempre buscamos para saciar nossa inesgotável sede de Deus. Eles, mais do que ninguém, souberam passar por esta vida, acima de tudo, crendo absolutamente na promessa de Jesus “estarei convosco até o final dos tempos”, desconsiderando todos os bens materiais e, inclusive, suas próprias vidas. A Igreja cultua-os diariamente. Nós, entretanto, a partir deste ano de 2016, estamos relembrando-os mensalmente, escolhendo aleatoriamente a vida daquele ou daquela sobre quem tivermos maiores e mais fidedignas informações. Para este mês de março, estamos apresentando um pouco sobre São José, pai adotivo de Jesus, Padroeiro da Igreja, e defensor das famílias.

SÃO JOSÉ[1]

(19 DE MARÇO)  

            Grande festividade hoje na Igreja universal que celebra este seu padroeiro, embora em alguns países este dia não seja mais dia santo de guarda!

            Muitos fiéis festejam o próprio onomástico, pois este nome é dos mais populares em toda a cristandade, de tal modo que se contam dezenas de santos com o nome de José. Porém, o protótipo é o José do Evangelho, o Pai legal de Cristo, o esposo puríssimo da mais nobre e alta de todas as criaturas, a Santíssima Virgem Maria.

            O nome José em hebraico significa: “Deus acrescenta ou cumula de bens” e de fato José, o carpinteiro de Nazaré, teve um crescimento contínuo de graças e de privilégios. Pouco conhecemos sobre sua vida; unicamente as rápidas referências transmitidas pelos Evangelhos. Este pouco, contudo, é o suficiente para destacar seu papel primordial na história da salvação, pois José é o elo de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento e o último dos patriarcas.

            Sua missão na história da salvação é dar a Jesus um nome, fazê-lo descendente da linhagem de Davi, como era necessário para cumprir as promessas.

            A primeira vez que José é nomeado no Evangelho é na cena da Anunciação em que Maria é chamada noiva de um homem da casa de Davi de nome José. Depois aparece quando Maria aparentava os sinais de sua divina maternidade e José lhe desconhecia a origem. Ele foi tomado de terrível dúvida, na incerteza de como agir, mas o evangelista diz que, sendo ele “homem justo”, não quis denunciar Maria de infidelidade, mas preferiu tomar uma solução que, salvando a honra de Maria, teria provocado certa aversão sobre sua própria pessoa. Decidiu sumir do lugar; foi então que, em sonho, um anjo lhe disse: “Não tenhas medo, José, de receber Maria por tua esposa, pois o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo, e o que nascer dela será o Filho do Altíssimo, e tu lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados”. José, acordando, fez como o anjo do Senhor havia mandado: casou com Maria, sem ter relações com ela.

            Depois deste fato, ainda se fala dele, quando outra vez o anjo lhe apareceu em sonho avisando-o das intenções diabólicas de Herodes que pretendia matar o Menino Jesus, e o manda fugir para o Egito. Pela última vez é nomeado quando recebeu ordem de voltar do Egito porque já tinha falecido o Rei Herodes. Depois disso só se fala dele indiretamente.

            Os evangelistas não citam uma só palavra de José que aparece como o homem do silêncio, escondido e humilde. Mas em compensação ele é o homem do trabalho para sustentar sua família, é o homem reto, obediente, de fé profunda, inteiramente disponível à vontade de Deus; alguém que amou, creu e esperou em Deus e no Messias contra toda a esperança. José profissionalmente era um simples e modesto artesão, um prático na fabricação e conserto das coisas mais necessárias para uma pequena aldeia antiga. No entanto, este pobre trabalhador, pela sua fé, honestidade e retidão, foi escolhido entre todos os homens para ser o Pai oficial de Cristo, o esposo fiel e puro da Virgem Imaculada.

            Este é o santo incomparavelmente grande e simpático que veneramos hoje. “Sua figura quase desaparece” nos primórdios do cristianismo, para que se firme melhor a origem divina de Jesus. Mas já na Idade Média, São Bernardo, Santo Alberto e Santo Tomás de Aquino lhe dedicaram tratados cheios de devoção e entusiasmo. Desde então seu culto cresceu continuamente. O Papa Pio IX declarou-o Padroeiro da Igreja e Leão XIII propunha-o como advogado dos lares cristãos. Em nossos dias foi proposto como “modelo dos operários”.

            Sobre São José, Leonardo Boff[2] afirma que:

“Como homem, noivo e marido de Maria, irradiou o princípio antropológico do pai. Isso aparece em vários momentos de sua atuação. Em primeiro lugar, mostrou uma virtude importante de todo pai: determinação de, diante de um problema complexo como a gravidez misteriosa de Maria, tomar uma decisão e criar o novo: levar Maria para sua casa.
Como pai, mostrou senso forte do dever: foi com ela a Belém, em função do recenseamento romano, acompanhou-a no parto na gruta de Belém, com todos os cuidados que o fato encerrava. Depois, com ela cumpriu o dever religioso de ir ao Templo para a purificação, para a apresentação do Menino e para as romarias anuais a Jerusalém por ocasião da Páscoa.
Como pai mostrou coragem ao enfrentar os riscos da perseguição mortal de Herodes, as angústias e apertos de uma fuga apressada para o exílio egípcio, a volta e a decisão de esconder a família em Nazaré, ao norte do país.
Como pai exerceu autoridade e impôs limites, coisa que apareceu no caso da perda de Jesus no Templo. Ao não encontrá-lo na caravana, pai e mãe regressaram, aflitos, a Jerusalém e recriminaram o filho: “Por que agiste assim conosco?" (Lc 2,48). Impuseram limites a Ele, porque o texto é claro ao dizer que Jesus “lhes era submisso” (Lc 2,51), quer dizer, obedecia a eles. Obedecer é acolher a autoridade do pai, aceitar os limites que este lhe impõe. A epístola aos Hebreus irá mais tarde recordar que “Jesus, embora fosse Filho
de Deus, aprendeu a obedecer no sofrimento” (5,8). Nos Apócrifos, como vimos, José, por várias vezes, repreende Jesus e chega a lhe puxar as orelhas. Quer dizer, exercia sua autoridade paterna e sabia impor limites ao filho peralta.
Pertence à função do pai ser a ponte entre a família e a sociedade. Para a mentalidade semita, o rito de imposição do nome à criança por parte do pai era a forma de assumir, publicamente, a paternidade e ser reconhecida pela patenteia e pela sociedade. José, mesmo sabendo que não podia ser o pai biológico-genético de Jesus, assume essa função. Impõe o nome e se faz pai no sentido semita (cf. Mt 1,21). Jesus publicamente pode chamar de pai a José, como os evangelhos atestam.
Pertence também à sua função de ponte social passar ao filho sua experiência profissional. Jesus se torna artesão- carpinteiro e assim era conhecido pela sociedade de então (cf. Mt 13,54-56; Lc4,22;Jo 1,45; 6,42).
Por fim, a paternidade sadia e vigorosa de José serviu de base para a experiência espiritual de Jesus, ao chamar a Deus de Abbá. Se Jesus, em sua vida pública, mostrou extrema intimidade com Deus, chamando-o na linguagem infantil de “Paizinho” (Abbá), significa que viveu uma experiência similar, de extrema intimidade, com seu pai José.
Os comportamentos de José como pai, analisados com as categorias disponíveis em nossa cultura*  permitem, sem pietismo e apelos moralistas, apresentar São José como uma figura exemplar da qual podemos aprender e tirar sábias lições também pata os pais do século XXI, que vivem dentro de um modelo civilizatório muito diferente e que estão em busca de uma identidade adequada a este tempo.
São José nos ajuda na volta do pai. Seu modo de viver a paternidade pode enriquecer os pais em sua identidade e suscitar-lhes ousadia no enfrentamento dos desafios da moderna sociedade, especialmente na fase globalizada da humanidade”.
__________________________________________________________ [1] Conti, Dom Servílio, IMC. O SANTO DO DIA. Petrópolis. Vozes: 2006 712 páginas. [2] BOFF, Leonardo. São José. Petrópolis. Vozes: 2012. 255 páginas.

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