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Arquivo por categoria: O SANTO DO MÊS

out 04

O SANTO MÊS – SÃO FRANCISCO DE ASSIS

FRANCISCO - O POBRE DE ASSIS

O SANTO DO MÊS DE OUTUBRO

4 DE OUTUBRO SÃO FRANCISCO DE ASSIS. MEMÓRIA OBRIGATÓRIA –

*Por Frei Alberto Beckhäuser, ofm –

É significativo que o santo não é caracterizado, não é colocado em nenhum grupo de santos. Não é apresentado como religioso nem como diácono. Talvez, qualquer caracterização reduzisse a grandeza deste santo universal, “o homem de Deus”. A Liturgia das Horas remete para o Comum dos Santos Homens: para religiosos. Tem hino próprio para Laudes e Vésperas, bem como antífonas para estas Horas. A Missa tem formulário todo próprio.

Toda a Liturgia realça no “homem de Deus” Francisco de Assis a pobreza e a humildade. Esta compreensão vem belamente expressa na Antífona da entrada: Francisco de Assis, homem de Deus, deixou sua casa e sua herança e se fez pobre e desvalido. O Senhor, porém, o acolheu com amor. Sim, Francisco de Assis foi o santo apaixonado pelo amor, o amor de Deus e o amor do próximo, tanto que exclamava, chorando: “O Amor não é amado, o Amor não é amado!”

São Francisco nasceu em Assis, cidade medieval da Umbria, no centro da Itália, em 1282. O pai, notável comerciante, ambicionava que seu filho continuasse na mesma carreira, mas Francisco não possuía o perfil de comerciante. De gênio alegre e folgazão, sentia em si um forte pendor para os prazeres do mundo.

Quando jovem, sonhou com as glórias militares. Participou de uma guerra entre a cidade de Assis e a vizinha cidade de Perusa, mas não foi feliz. Acabou sendo preso e colocado em dura prisão, onde ficou sofrendo por um ano. Quando dava início a outra aventura militar, sentiu repentina crise de consciência que lhe questionava a validade das ações militares. Voltou logo para sua cidade natal e, aos poucos, foi amadurecendo nele uma radical conversão: Deus o chamava, não às vaidades do mundo, não à glória militar, nem à ambição do comércio, mas à imitação radical do Cristo pobre e crucificado. Depois de usar de misericórdia para com os leprosos (Testamento), converteu-se ao Evangelho e viveu-o com extrema coerência, em pobreza e grande alegria, seguindo o Cristo humilde, pobre e casto, conforme as bem-aventuranças.

A partir de 1208 começou a ser imitado por alguns seguidores e, quando no ano seguinte Inocêncio III aprovava oralmente seu novo estilo de vida cristã, nascia a Ordem dos Frades Menores. A Regra ou Forma de Vida que ele deixou era simples: Vida de oração e contemplação, pobreza, como imitação do Cristo pobre e humilde, no mistério da Encarnação, da Cruz e da Eucaristia, a fraternidade universal, a vida de penitência ou de conversão evangélica permanente e a pregação do Evangelho, tendo como centro o Amor a Deus . ao próximo.

Com a jovem conterrânea Clara, que quis seguir seu ideal, lançou os fundamentos da Ordem II, a das Damas Pobres ou Clarissas. Em 1221 nascia também, à sua sombra, o movimento de leigos denominado Ordem Terceira hoje, Ordem Franciscana Secular. Dois anos antes da morte selou, por assim dizer, sua ânsia de semelhança com Jesus Cristo através dos estigmas. Seu-últimos anos de vida foram atormentados por várias doenças que culminaram na cegueira quase total. Faleceu na tarde do dia 3 de outubro de 1226 com 44 anos de idade.

São Francisco é, sem dúvida, uma das mais atraentes personalidades d: história, um patrimônio de toda a humanidade, homem sem fronteiras que ter atraído a simpatia de todos indistintamente. Já os contemporâneos se impressionaram profundamente com ele. Nos primeiros decênios depois de sua mortos escritores se empenharam em descrever o mistério de sua vida tão rica. Hoje ainda ele continua a entusiasmar os estudiosos. E difícil dizer o que mais fase na em São Francisco. Foi, sem dúvida, o homem apaixonado pelo Deus-Amor, a quem quis corresponder com uma resposta de Amor. E visto como Evangelho vivo. Multidões o contemplam como o “Pobrezinho”, o irmão universal. O historiador alemão Joseph Lortz deu-lhe o título de “Santo Incomparável”.

Como é que o apresenta a Liturgia? Homem de Deus, pobre e desvalido Antífona da Entrada). Homem semelhante a Cristo por uma vida de humildade e pobreza, seguidor de Jesus Cristo na perfeita alegria (Oração coleta). A Oração sobre as oferendas lança Francisco no mistério da Cruz, abraçado com intenso amor. A Antífona da Comunhão volta à bem-aventurança da pobreza vivida por Francisco. A Oração depois da Comunhão volta a realçar o grande amor de São Francisco, chamado na Ordem o Serafim de Assis, e o seu zelo apostólico no empenho pela salvação de todos.

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*BECKHÄUSER, Frei Alberto, ofm. Os Santos na Liturgia – Testemunhas de Cristo. Petrópolis. VOZES: 2013. 391 páginas.

set 01

O SANTO DO MÊS: SÃO MATEUS, EVANGELISTA

SÃO MATEUS - APÓSTOLO

SANTO DO MÊS DE SETEMBRO –

*Enrico Pepe[1]

21 de setembro

São Mateus –  Apóstolo e evangelista (século I) –

“Na missão do teu Filho unigênito, tu nos revelaste o teu amor pelos homens e, misericordioso, chamaste os pecadores para se assentarem no convite do reino. Mateus respondeu generosamente, acolhendo feliz o Mestre em sua casa e, renovado por este encontro de graça, tornou-se anunciador das tuas maravilhas.

Jesus havia se estabelecido em Cafarnaum e com sua pregação e seus milagres suscitava a admiração e o assombro das pessoas. Mateus, chamado também Levi, ouvia-o falar e era tocado por sua mensagem, mas ele era um pecador público e, portanto, um excluído dessas coisas de Deus que exigem certa pureza de espírito.

Exercia um ofício considerado infamante como o das prostitutas: com efeito, era coletor de impostos em Cafarnaum.

Por sua posição geográfica, a cidade era um ponto de passagem para a Síria, pelo mar, e havia, portanto, um posto de alfândega. Ninguém jamais teve prazer em pagar os impostos, mesmo quando justos, e menos ainda aqueles muitas vezes extorquidos com todos os meios por esses cobradores hebreus que trabalhavam por conta dos dominadores estrangeiros, os romanos. Eles eram odiados e desprezados como pessoas vendidas ao estrangeiro opressor.

O CHAMADO INESPERADO

Mas um dia aconteceu para Mateus um fato inesperado e espantoso para as pessoas. Jesus de Nazaré em pessoa, passando próximo do posto do pagamento das taxas, onde o cobrador das taxas estava sentado, voltando-se para ele, disse-lhe: “Segue-me”. Bastou essa única palavra e Mateus “levantou- se e o seguiu” (Mateus 9,9).

Compreendia muito bem que devia mudar radicalmente de vida. Até aquele dia havia pensado em acumular tesouros para esta terra, de então em diante seguirá o Filho do Homem que “não tem onde repousar a cabeça” (Mateus 8,20), mas valia a pena, porque experimentava tal alegria no profundo do seu ser que convidou Jesus e os seus primeiros apóstolos a fazerem festa em sua casa.

O jantar solene devia servir para saudar seus numerosos amigos, todas as pessoas da sua classe, socialmente um pouco rica, religiosamente distante, politicamente comprometida com os romanos e desprezada e temida pelo povo. Os bem-pensantes entre os hebreus da cidadezinha escandalizaram-se com isso e o fizeram notar aos apóstolos: “Por que come vosso Mestre com os publicanos e com os pecadores?” (Mateus 9,11).

O murmúrio chegou aos ouvidos do próprio Mestre, que respondeu: “Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (cf. Oséias 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mateus 9,12-13).

Segundo santo Ambrósio, neste episódio devemos admirar, de um lado a bondade do Senhor, que vai além dos esquemas puritanos do seu tempo e, de outro, a generosidade da resposta pronta e decidida de Mateus. O santo bispo escreve: “Imediatamente depois, vem a mística chamada do publicano, a quem o Senhor ordena segui-lo, não com o corpo, mas com a alma. Assim, esse homem, que até esse momento recolhia com avidez os seus proventos dos pagamentos cruelmente e perigosamente arrecadados dos pescadores, chamado com uma única palavra, abandona, ele que roubava os bens dos outros, os seus próprios bens. E deixando o banco vil do coletor, caminha no seguimento do Senhor com todo o ardor da sua alma. E não somente isso, mas prepara um grande banquete: de fato, quem recebe Cristo em sua morada interior é saciado por imensas delícias e por alegrias superabundantes. E o Senhor entra com prazer e senta-se por amor daquele que acreditou”.

O EVANGELISTA

Não sabemos mais notícias acerca da vida de Mateus, mas seu nome está ligado ao primeiro dos quatro evangelhos. Mesmo que a redação em língua grega chegada até nós não seja a original escrita por Mateus, é convicção comum que ele o tenha escrito em língua aramaica. Disso nos dá testemunho Eusébio de Cesaréia, referindo-se a uma tradição mais antiga: “Mateus, que pregou em primeiro lugar aos hebreus, presenteou-lhes seu evangelho, composto no idioma pátrio”.

Interessante também o testemunho de Orígenes, referido por Eusébio: “Em torno dos quatro evangelhos, que são os únicos admitidos sem contestação na Igreja de Deus que está sob o céu, aprendi da tradição que o primeiro foi escrito por Mateus, antes publicano, depois apóstolo de Jesus Cristo; que foi composto em língua hebraica (aramaica) e destinado aos convertidos do judaísmo para a fé (cristã)”.

O original aramaico foi perdido, ao passo que a versão ou, talvez melhor, a recomposição em língua grega tornou-se o texto oficial da Igreja.

O autor escreve claramente para um público que conhece as tradições hebraicas e se esforça por demonstrar que Jesus de Nazaré é o messias prometido nas Escrituras. A Antiga Aliança encontra, pois, o seu completamento na Nova e ao povo eleito sucede a Igreja de Deus que abrange todos os povos.

O APÓSTOLO

Não sabemos ao certo quais regiões foram evangelizadas por Mateus. Segundo uma antiga tradição, ele teria percorrido o Ponto, a Pérsia, a Síria e a Macedônia. Uma outra tradição pretende que seja apóstolo da Etiópia, onde teria convertido a filha do rei, a virgem Efigênia, e por isso teria sofrido o martírio.

Deste país, as relíquias tidas como suas teriam sido transportadas para Pesto e, portanto, para a catedral de Salerno no sul da Itália, onde são ainda hoje veneradas. Como evangelista, ele é representado como um homem alado ou um anjo.

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[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

ago 01

O SANTO DO MÊS – SÃO JOÃO MARIA VIANNEY

SÃO JOÃO MARIA VIANNEY

SANTO DO MÊS DE AGOSTO –

*Enrico Pepe[1]

04 de agosto

São João Maria Vianney – Sacerdote e padroeiro dos párocos (1786-1859) –

“Esta é a nossa mais bela tarefa: orar e amar. Se rezarmos e amarmos, eis que esta é a nossa felicidade sobre a terra. A oração nada mais é do que a união com Deus. Quando uma pessoa tem o coração puro e unido a Deus, é tomada por uma certa suavidade e doçura que a inebria; é purificada por uma luz que se difunde ao derredor dela misteriosamente. ”

Esse texto, extraído de uma catequese do santo, exprime muito bem a elevação espiritual a que ele chegou e explica por que eram numerosos os peregrinos em Ars, chegando a alcançar aproximadamente a cifra dos cem mil nos últimos anos da vida de Vianney.

UM IGNORANTE OU UM SÁBIO?

João Maria nasceu em Dardilly, uma cidadezinha da diocese de Lyon, a 8 de maio de 1786, de uma família de camponeses muito pobre de bens materiais, mas rica na fé. Foram anos sombrios para a religião na França. Durante o segundo Terror também a igreja paroquial de Dardilly foi fechada, e toda atividade de culto foi impedida.

O futuro cura d’Ars recebeu a primeira comunhão escondido em uma casa de campo durante a missa clandestina e o contato com aquele padre lhe fez nascer no coração o primeiro desejo de se tornar sacerdote. Uma ideia que parecia utópica para a situação política do país e pela impossibilidade de frequentar a escola.

Em 1806, não distante de Dardilly, um corajoso sacerdote, Charles Balley, então mestre de noviços do famoso convento de Santa Genoveva, havia aceitado a nomeação para pároco de Écully e tinha aberto uma escola paroquial para preparar os futuros candidatos ao sacerdócio, antes de os mandar para o seminário. João também se apresentou: um caso humanamente quase desesperador, porque tinha mais de 20 anos e conhecia mal e mal os primeiros rudimentos da leitura e de escrita.

O padre Balley ouviu-o, apreciou-lhe o candor da alma e a persistência de camponês e o admitiu em sua escola. Não foi fácil para o jovem acompanhar as lições do mestre, sobretudo em se tratando da língua latina, que não entrava na cabeça, enquanto se saía muito bem na aprendizagem das verdades da fé e na prática das virtudes cristãs.

Entre os dois nasceu uma profunda amizade espiritual e depois de alguns anos de preparação o abade Balley o apresentou ao seminário. Os professores reconheceram os dotes morais do jovem, mas não quiseram tomá-lo como aluno, porque ele não sabia latim e, portanto, não conseguia acompanhar as lições. O padre Balley tomou-o consigo para continuar o ensinamento da teologia em francês. Acompanhou-o ao seminário para fazer os exames e foi uma outra decepção, pois ele não conseguia nem mesmo compreender as perguntas formuladas em latim pelos professores.

Nova humilhação, e outra vez retornou a Ecully, mas o seu protetor não desanimou; pediu e conseguiu que ele fizesse o exame na sua presença, por um professor escolhido pelo bispo. Obteve o que pretendia e Vianney conseguiu realizar os exames. Foi ordenado padre, a 13 de agosto de 1815, na condição de que ficasse sob a orientação de Balley e que não exercesse o ministério das confissões.

TRÊS ANOS DE PARAÍSO

Entre os dois sacerdotes passaram-se três anos de convivência maravilhosa. O jovem sacerdote amava sinceramente o seu pai e mestre e, apesar de ele ter uma leve influência de jansenismo, estimava-o pela sua fé inabalável e por seu espírito de penitência e procurava imitá-lo; o pároco, por sua vez, alegrava-se por ter um discípulo tão unido a Deus e tão dócil. Pôde, muitas vezes, afirmar ao bispo que ele estava à altura dos trabalhos ministeriais, que as suas pregações eram sem erros, e que conhecia e aplicava corretamente a moral nos casos de consciência.

Mas, quando o pároco morreu, em 16 de dezembro de 1817, a cúria não considerou oportuno deixar nas mãos do padre Vianney o cuidado daquela paróquia importante e, em 11 de fevereiro de 1818, nomeou-o capelão de uma pequena vila com 40 casas e 270 habitantes: Ars-en-Dombes, que foi elevada a paróquia somente depois de três anos, quando o capelão já havia dado prova de ser capaz de guiar aquela pequena comunidade cristã.

A aldeia de Ars, como todos os pequenos aglomerados de camponeses da região, não brilhava pela santidade. Ainda havia fé em Deus, mas escondida sob a cinza de grande ignorância religiosa e de uma prática moral tradicional que deixava muito a desejar.

O MILAGRE DE ARS

O jovem sacerdote iniciou o seu trabalho pastoral limpando e estabelecendo uma certa ordem na igrejinha, mantendo contato com os seus paroquianos. Ia encontrá-los em suas casas e nos campos, conversava sobre como estava andando a colheita e sobre a saúde dos animais, desse modo quebrava o gelo e construía amizades. Em pouco tempo, conheceu os vícios e as virtudes de todos e se convenceu de que, no fundo, as pessoas a ele confiadas eram boas, mesmo que apresentassem algum ponto fraco na prática da moral.

Os homens, por exemplo, obrigados pela necessidade mais do que pela ideologia da revolução, nas manhãs de domingo, preferiam ir trabalhar nos campos abandonando as missas, e à tarde, em vez de ir a alguma função religiosa, lotavam as quatro tavernas do lugarejo - vejam só! - todas situadas exatamente bem atrás da igrejinha, nelas gastando o pouco dinheiro que possuíam, sem levar em conta as brigas e as blasfêmias proferidas, cujo clamor chegava até mesmo aos ouvidos das poucas mulheres que iam à igreja. As jovens não tinham o necessário para casar-se e, o que era pior, não se preparavam para aprender uma profissão: sabiam só pastorear as poucas ovelhas da família e recolher feno para o inverno.

Também nos dias mais solenes, o ponto de encontro não era a celebração litúrgica, mas as festas e bailes, que se prolongavam até altas horas da noite, à luz de vela e - segundo o parecer do jovem padre - sempre terminavam em lugares onde não havia nem mesmo essa luz fraca, permitindo ao demônio a destruição da moral familiar, até mesmo levando à prostituição alguma pobre moça. A situação, às vezes, lhe parecia desesperadora, foi então que ele cunhou aquela famosa frase: “Deixai por vinte anos uma paróquia sem padre e aí adorareis os animais!”.

Nesta situação o rigorismo moral aprendido com seu mestre não o ajudava muito. Por felicidade ele havia conservado o equilíbrio e o bom senso herdados de sua família, baseados na sabedoria do evangelho. Mesmo que as pregações dos primeiros tempos em Ars, tiradas dos pregadores da época, fossem repletas de ameaças de perdição eterna, no contato pessoal com os seus paroquianos ele procurava ser o bom pai de família e logo se apercebeu dos tesouros escondidos em toda alma: bastava aquecer os corações com um pouco do amor de Deus e Ars teria encontrado o seu rosto cristão.

Um dia apercebeu-se disso, tendo observado um camponês que toda noite voltando do trabalho, deixava seus apetrechos fora da igreja, entrava e permanecia sentado por muito tempo em silêncio; aproximou-se dele e perguntou: “O que fazes tu aqui, bom homem, em silêncio?”. O camponês, surpreso pela pergunta, lhe respondeu: “Estou diante do meu Senhor: ele me olha e eu olho para ele!”. Em Ars havia também o bem: o que precisava só fomentar-lhe o crescimento.

Não bastava pregar às poucas pessoas que vinham à igreja, assustando-as com sermões ameaçadores. Era necessário guiar-se pelo Espírito Santo. Para isso era necessário antes de tudo orar. O tempo sobrava-lhe. Se os homens estavam nas tavernas blasfemando, ele estava ajoelhado diante do Santíssimo adorando, preparando o catecismo para as crianças e para os adultos. O Senhor lhe inspiraria as palavras certas, muito mais fáceis de recordar do que aquelas que lia nos livros e, sobretudo, - como lhe ensinará a experiência -, mais compreensíveis aos seus ouvintes.

Além do mais, precisava fazer penitência. Isso para ele não era difícil por dois motivos: já estava habituado a isso pelo seu mestre, o padre Balley, e também porque em Ars a vida era muito miseranda e quando podia contar com um pouco de batatas cozidas e uma pitada de sal ele era um homem venturoso. Acrescentou, porém, algumas práticas um tanto exageradas, como jejuns muito prolongados e noites deitado sobre a terra nua, que prejudicaram a sua saúde, apesar de impressionar bem os paroquianos. Ele próprio, mais tarde, irá dizer que foram “excessos da juventude”.

ORAÇÃO E PENITÊNCIA, MAS TAMBÉM OBRAS SOCIAIS

Não se limitou somente a orar e a mortificar-se pelos pecados do seu rebanho. Vendo a miséria material e moral na qual se encontravam muitas jovens sem futuro, criou para elas uma escola, onde encontravam alimento, instrução humana e cristã e onde aprendiam um ofício. Chamou-a de “Providência” e levou-a adiante com muito empenho sendo ajudado por outras duas valentes senhoras.

Para os adultos criou duas associações: a irmandade do Rosário para as mulheres e a do Santíssimo Sacramento para os homens, envolvendo todos em atividades de culto e caritativas.

Lentamente a fisionomia da paróquia começou a mudar e a fama deste padre bem conhecida nos ambientes eclesiásticos pela sua pouca capacidade intelectual, ultrapassando os confins de Ars, começou a se espalhar pelos arredores. Até mesmo nos mercados se ouviam camponeses que diziam: “Nenhum padre jamais nos falou como o nosso pároco!”. Ele próprio num momento de entusiasmo deixou escapar esta frase durante uma homilia: “Meus irmãos, Ars não é mais Ars!”, acrescentando que o pequeno cemitério local estava cheio de santos.

Por fim, espalhou-se a notícia de que em Ars estavam acontecendo fatos milagrosos e — pelo menos no tocante às conversões que se verificavam no confessionário do pobre cura - não eram ignorados. O padre Vianney atribuía- os a santa Filomena, mas no entanto os fiéis dos arredores acorriam em grande número à igrejinha de Ars para ouvir o “santo cura” e para depositar no seu coração o fardo dos próprios pecados. Não eram poucos os que iam à procura de cura para os males que afligem aquele pobre povo e, mesmo que nem todos fossem curados no corpo, todos retornavam para suas casas fortalecidos no espírito.

“VÓS ME ENSINASTES A CONHECER O ESPÍRITO SANTO!”

Com a fama de santidade espalharam-se também notícias difamantes, aceitas pelos párocos da região que não conseguiam entender que um colega bom para nada pudesse operar prodígios. As más línguas por fim chegaram ao bispo, o qual ordenou que se fizesse uma inquirição canônica que trouxe à luz a falta de fundamento das acusações e serviu para aumentar o afluxo dos peregrinos a Ars.

Até mesmo o famoso Lacordaire, em 1845, depois de ter ouvido a pregação do cura, disse-lhe: “Vós me ensinastes a conhecer o Espírito Santo!”. E o padre Vianney, depois de ter falado na igreja ao seu povo, no dia seguinte comentava com argúcia: “Costuma-se dizer que às vezes os extremos se tocam. Isso, sem dúvida, verificou-se ontem no púlpito de Ars. Viu-se a extrema ciência e a elevada ignorância!”. Àqueles que perguntavam a Lacordaire sobre o que ele achou da pregação do padre considerado um ignorante, ele respondia: “Seria bom desejar-se que todos os párocos dos campos pregassem tão bem como ele”.

O CAMINHO DA CRUZ

Enquanto Deus abençoava a obra pastoral deste humilde padre com frutos que ultrapassavam muito as suas capacidades humanas, ao mesmo tempo purificava-o da crosta do rigorismo adquirido nos anos de formação com o abade de Ecully.

De fato o padre Vianney, mesmo que infundisse nos pecadores a confiança sem fim na bondade misericordiosa de Deus, passava por momentos terríveis de terror pela própria salvação. A esta dor pungente que, às vezes, parecia que chegava à raia do desespero, ajuntava-se a consciência exagerada da incapacidade de levar em frente a sua missão de pároco. E como se tudo isso não bastasse, de noite muitas vezes sentia-se atormentado por uma presença diabólica.

Por três vezes tentou fugir de Ars para se refugiar na vida contemplativa e pensar na própria salvação, mas inutilmente. Tanto o povo quanto o próprio bispo queriam-no em Ars. Era no confessionário e no púlpito daquela pobre igrejinha camponesa que multidões de peregrinos o procuravam. Ele não podia abandonar esse trabalho mesmo que fosse difícil, porque lhe permitia anunciar o amor de Deus a todos, também aos pecadores mais empedernidos que diante dele caíam de joelhos e se debulhavam em lágrimas.

O fenômeno das peregrinações era tamanho que o bispo primeiramente lhe deu um vigário coadjutor que se ocupasse de toda a administração da paróquia e da organização dos visitantes, deixando o padre Vianney livre para as pregações e confissões; depois, no lugar do vigário enviou para Ars uma ajuda mais consistente; um grupo de sacerdotes “missionários diocesanos” que não só ajudassem o padre Vianney, mas se preparassem para um dia recolher dele a herança espiritual.

Também as duas obras sociais que surgiram na paróquia foram organizadas. A escola para as moças, a Providência, foi confiada às irmãs, e a escola para os rapazes foi entregue aos Irmãos da Santa Família de Belley.

Quando o padre Vianney viu que tudo já estava organizado, pensou que os missionários poderiam fazer melhor que ele e pela última vez ele tentou ir para a solidão preparar-se - como costumava dizer - para a boa morte. Deixou uma carta para o bispo e desapareceu. Tudo inútil, porque assim que a carta foi descoberta, um grupo de paroquianos e de peregrinos encontrou-o e o reconduziu para casa. Ainda precisava orar, confessar e pregar outros dez anos, antes que Deus o chamasse para si a 4 de agosto de 1859.

Até mesmo depois de sua morte continuará a anunciar o amor misericordioso de Deus através dos escritos que, mesmo sendo de estilo sóbrio, difundiram-se por todos os cantos junto com numerosas biografias. São Pio X o proclamou beato em 1905, Pio XI canonizou-o em 1925 e declarou-o padroeiro dos párocos.

Mesmo que na vida desse humilde pároco existam alguns aspectos que não se adaptam à sensibilidade moderna, a sua figura permanecerá como um modelo sempre válido pela sua união com Deus e pela caridade pastoral para com a humanidade.

_______________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

jul 01

O SANTO DO MÊS – INÁCIO DE LOYOLA

SANTO INÁCIO DE LOYOLA

SANTO DO MÊS DE JULHO –

*Enrico Pepe[1]

31 de julho

Santo Inácio de Loyola – Fundador dos Jesuítas –

“Sentado lá (junto ao rio de Manresa), começaram a abrir-se os olhos da inteligência: não que tivesse uma visão; não obstante isso compreendia e conhecia muitas coisas, tanto espirituais quanto de fé e de ciência, com uma luz tão grande que tudo lhe parecia novo. Nem se podem descrever todas as particularidades que agora compreendia, pois eram muitas; pode-se somente dizer que experimentou uma grande luz na inteligência. Tal que em toda a duração da sua vida, até os 62 anos passados, embora desejando colocar juntas todas as ajudas recebidas de Deus e todas as coisas aprendidas, somando tudo, não lhe parece ter obtido tanto quanto naquela única vez”

Aos 62 anos, Inácio recorda, com estas palavras, a extraordinária luz com a qual Deus o havia transformado, em Manresa, para torná-lo capaz de cumprir sua missão.

Nascera em Azpeitia, Países Bascos, em 1491, décimo terceiro e último filho. Aos 14 anos, foi enviado à carreira eclesiástica, mas depois de um breve tempo renunciou decididamente a ela e escolheu a carreira militar, mais cheia de aventuras e mais de acordo com seu caráter. Na juventude, não foi nenhum santo, ao contrário, uma vez acabou indo ao tribunal e só a posição social de sua família evitou sua condenação à prisão. 

Deixou seu país para servir à corte dos grandes daquela época. Feito cavaleiro, desejava ardentemente ir à guerra para conquistar fama e ganhar a mão de uma nobre dama da mais alta sociedade de sua época.

Na guerra entre Filipe I da França e Carlos V foi destinado com seus soldados à defesa da cidade de Pamplona. No dia, antes da batalha decisiva, foi à procura de um sacerdote para se confessar e, não tendo encontrado nenhum, acabou contando seus pecados a um companheiro de armas: um ato de humildade este que entrava na tradição cristã, aprovada e recomendada por teólogos como são Tomás e são Boaventura.

UMA PERNA QUEBRADA

A batalha foi muito difícil e as forças inimigas derrubaram os muros da cidade. Inácio resistiu até quando “um projétil o atingiu na perna, quebrando-a”, como ele mesmo relata. Em um primeiro momento, parecia que iria morrer, mas depois conseguiram levá-lo de maca para sua terra natal a fim de ser tratado.

Quando Inácio percebeu que os ossos da perna já estavam soldados, mas deixando um osso exposto que o tornava não só manco, mas também defeituoso para sempre, não sossegou. Consultou os médicos e, quando encontrou uma solução, submeteu-se a uma dolorosíssima operação: mandou serrar o osso exposto e endireitar a perna.

Não havia anestesia naquele tempo e a operação não era sem perigo, mas mostrou-se irredutível. Os médicos começaram a trabalhar com o bisturi e com a serra. Ele cerrou os dentes e mandou continuar. A operação teve êxito. Depois, começaram os intermináveis e enfadonhos dias preso no leito sem fazer nada. As vezes, passava o tempo compondo poesias para sua namorada, mas poesia não era o seu forte. Então, pediu um livro sobre cavalaria para se distrair, ou melhor, para se preparar para aquilo que ele considerava sua vocação. Mas livros daquele gênero não existiam na casa dos Loyola e a bondosa cunhada conseguiu encontrar somente uma Vida de Cristo e uma Leggenda áurea. Esta última era uma coletânea de vidas de santos.

Não havendo outro, Inácio começou a ler e sua mente, habituada a desenfrear-se nas fantasias cavalheirescas e mundanas, foi atraída, pela primeira vez, pela vida de Jesus e pelos feitos dos santos. As vezes inflamava-se e sentia o desejo de segui-los. Percebeu com surpresa que naqueles momentos experimentava uma paz e uma alegria jamais sentidas antes, enquanto depois de ter divagado atrás das fantasias mundanas permanecia-lhe na alma uma profunda tristeza.

Começou a entender, por experiência própria, o que depois chamaria de discernimento dos espíritos. Após longa e madura reflexão, tomou a decisão de servir não mais ao rei deste mundo, mas ao próprio Cristo, como tinham feito são Francisco e são Domingos. Se eles tinham empregado toda sua vida para a glória de Deus, ele teria que superá-los, dando a Deus uma glória maior: Para a maior glória de Deus passou de fato a ser o seu lema.

A VISITA DE MARIA

Naquele período, teve uma visão que o confirmou definitivamente na sua escolha. Ele mesmo, na Autobiografia, chamando-se de “o peregrino”, relata em terceira pessoa: “Aconteceu que, numa noite, enquanto ainda estava acordado, vi claramente uma imagem de Maria com o menino Jesus. Depois daquela visão, experimentou longa e grandíssima consolação; e sentiu um desgosto enorme por toda a vida passada, especialmente pelas coisas sensuais, parecendo-lhe que tinham desaparecido da alma todas as imaginações que antes ali estavam impressas”.

Daquele momento em diante, Inácio tornou-se uma outra pessoa. Se a busca da glória do mundo substituiu a da maior glória de Deus, o morrer de amores por aquela dama da corte foi substituído agora pelo amor mais sincero e o serviço mais devoto pela Dama do céu. Mas como seguir Jesus? Segundo o autor da Vida de Cristo, o mais importante era ir em peregrinação à Terra Santa. Inácio, assim que ficou curado, colocou-se a caminho, embora os familiares inutilmente procurassem dissuadi-lo.

Antes, foi visitar o santuário de Nossa Senhora de Montserrat. Lá, depois de uma confissão geral, dependurou a espada e o punhal no altar de Nossa Senhora, encarregou o confessor de vender sua mula, desfez-se das roupas de cavaleiro dando-as a um pobre e vestiu o hábito de peregrino: uma longa túnica de pano grosseiro, um grande chapéu, um cantil, um par de sandálias e os bolsos vazios, porque daquele momento em diante viveria de esmolas. Passou a noite inteira acordado, como os antigos cavaleiros antes da investidura, e de seu coração saiu esta oração que mais tarde ele transcreveria:

Toma, Senhor, e aceita toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência e toda a minha vontade, tudo aquilo que eu sou e possuo. Tu me deste, a ti, Senhor, o restituo; tudo é teu. Dispõe de mim segundo tua vontade; dá-me teu amor e tua graça, pois esta me basta.

DEUS O ESPERAVA EM MANRESA

Era a noite entre 24 e 25 de março de 1522. De Montserrat, passou a Manresa. Lá, os primeiros quatro meses foram de grande tranquilidade interior e de muitas alegrias espirituais; depois, sobreveio um período duríssimo, cheio de escrúpulos e tentações com sofrimentos interiores tão fortes que o levaram ao desejo de suicídio. Naqueles momentos, Inácio se defendia, bradando a Deus: “Senhor, jamais farei algo que possa te ofender”. Por fim foi inundado de particularíssimas revelações divinas.

Em um período da vida da Igreja caracterizado pelas incertezas na doutrina e da divisão que minavam suas estruturas vitais, Deus quis infundir na mente de Inácio, de maneira forte e indelével, as verdades fundamentais do cristianismo: contemplou a Trindade, o Verbo encarnado, a mãe de Deus e a santa eucaristia... “E, este fato de permanecer com a inteligência iluminada” - ele mesmo confirmava — “foi tão grande, que lhe parecia ser um outro homem e que tivesse uma inteligência diferente da primeira”

Com tal realidade na alma, Inácio visitou a Terra Santa e lá permaneceria para sempre, se o superior dos franciscanos não o tivesse reexpedido para a Europa. Então, compreendeu que, para poder falar ao mundo de seu tempo, sobretudo aos eclesiásticos e aos sábios, deveria estudar, não tanto para aprender as coisas de Deus, mas para aprender a linguagem dos homens para que eles o pudessem compreender.

Inácio, com a idade de 33 anos, foi para Barcelona e, como um menino, retornou à escola e estudou com persistência. Assim que terminou, passou para a Universidade de Alcalá e lá acabou na prisão, pois, tendo pregado em particular os Exercícios para algumas pessoas, mudando a vida de cada uma, suscitou a suspeita de heresia. Um professor universitário de Sagrada Escritura foi visitá-lo e fez o seguinte comentário: “Eu vi Paulo na prisão!”

Libertaram-no, mas lhe proibiram “pregar os Exercícios”. Era a morte de seu ideal. Mudou de cidade e foi para Salamanca, mas também lá foi perseguido e preso. Foi novamente solto, mas agora já pensava em Paris, então capital intelectual da Europa.

EM PARIS, OS PRIMEIROS COMPANHEIROS

Em Paris, Inácio obteve o título de “doutor nas artes” ou “mestre”, mas, sobretudo, conquistou seus primeiros companheiros entre os estudantes, pessoas particularmente dotadas e aptas para encarnar o ideal que Deus lhe havia colocado no coração, o de realizar uma reforma profunda dentro da própria Igreja com o exemplo de uma vida apostólica e com a pregação do Evangelho. Inácio cuidou um a um, separadamente, dos que Deus colocava em seu caminho, fazendo a cada um pessoalmente os Exercícios e, quando estes já estavam de acordo com seu mesmo ideal, reuniu-os.

Famosa é a data de 15 de agosto 1534 quando Inácio e outros seis estudantes se reencontraram em Montmartre na cripta de são Dionísio, e durante a missa celebrada por um deles, já sacerdote, Pedro Fabro, fizeram voto de se “dedicarem em pobreza ao serviço de Deus..., pregando e ajudando nos hospitais; de ir, se fosse possível, até aos pés do Papa, vigário de Cristo, para pedir a permissão de ir a Jerusalém” e, se isso não fosse possível, iriam para onde ele os mandasse. Certamente, Inácio e os primeiros companheiros não imaginavam que estavam iniciando aquela que seria a Companhia de Jesus; eles tinham sido conquistados pela luz de Manresa que Inácio transmitia e sonhavam em reevangelizar o mundo.

Enquanto o famoso humanista Erasmo de Roterdã havia abandonado Paris, queixando-se porque, depois de ter aberto novos horizontes às ciências e ter conclamado para a oportunidade de uma profunda reforma da Igreja, não tinha sido escutado; e, enquanto Martinho Lutero na Alemanha e Zwinglio e Calvino na Suíça levavam adiante sua reforma pessoal, em oposição ao Papa; Inácio, sem pensar em contrapor-se aos reformadores, sentia-se impelido por Deus a empreender também ele a reforma da Igreja, mas de acordo com o carisma de Pedro.

Por conselho dos médicos, Inácio saiu de Paris e foi para a terra natal para cuidar da saúde. Lá, em três meses acabou com litígios, iniciou a reforma do clero, organizou de modo estável a assistência aos pobres, mas sobretudo com suas pregações converteu muita gente de todas as classes sociais.

Quem o tinha visto como um jovem um pouco desmiolado, livre quase por milagre da prisão, não conseguia acreditar no que estava vendo. De Azpeitia, depois de um breve giro pela Espanha, Inácio foi para Veneza e lá retomou os estudos teológicos, interrompidos em Paris, enquanto esperava a vinda dos companheiros, deixados na França, para empreender com eles a peregrinação à Palestina.

EM VENEZA À ESPERA DA TERRA SANTA

Em Veneza conheceu João Pedro Carafa, que tinha renunciado ao bispado de Chieti em Abruzzos, e, junto com são Caetano de Thiene, tinha fundado a Ordem dos Teatinos. Carafa era um homem enérgico e também desejava a reforma da Igreja. Quando conheceu Inácio pressentiu nele um elemento precioso para os seus planos se entrasse na sua ordem, mas Inácio, depois de ter conhecido os teatinos, disse com franqueza a Carafa que aquela nova ordem não lhe parecia muito adaptada à finalidade que ele se prefixara.

Quando seus companheiros chegaram a Veneza, Inácio já tinha sido ordenado sacerdote, embora, segundo o costume daquela época, ainda não celebrasse a missa. Enviou os companheiros ao papa Paulo III e mesmo tendo eles obtido a permissão de ir à Terra Santa, não conseguiram mais partir por causa de guerras. Inácio compreendeu que não valeria a pena perder tempo com esperas inúteis e enviou alguns companheiros a várias cidades da Itália, a pedido dos bispos, para pregar, enquanto ele e mais dois dirigiram-se a Roma.

Foi naquele período que nasceu o nome de Companhia de Jesus: Polanco, primeiro secretário de Inácio, relata: “Falando-lhes como deveriam se chamar se alguém perguntasse qual era a congregação deles (composta de nove ou dez pessoas), começaram a orar e a pensar qual o nome que podia ser mais conveniente. Visto que não havia entre eles um chefe, nem um outro superior, exceto Jesus Cristo, ao qual somente desejavam servir, pareceu-lhes oportuno tomar o nome daquele que tinham como chefe, chamando-se Companhia de Jesus”.

A VISÃO EM STORTA

A escolha feita de comum acordo foi confirmada logo por Deus mediante um fato extraordinário acontecido com santo Inácio, nas proximidades de Roma, em um local chamado La Storta, onde em uma visão o Pai Eterno entregava-o a Jesus como seu discípulo e “Jesus o tomava e dizia: ‘Eu quero que tu nos sirvas’. Foi por isto que, tomando a grande devoção a este santíssimo nome (Jesus), resolveu chamar a congregação de Companhia de Jesus”.

Assim que chegaram a Roma, o papa Paulo III, que já havia percebido o valor daqueles homens, colocou-os logo a trabalhar: Pedro Fabro e Diego Lainez, como professores na università delia Sapienza, e Inácio, para pregar os Exercícios a quem lhos pedisse. Este primeiro período romano deu muitos frutos, mas, em um certo momento, alguns acusaram falsamente Inácio de ter fugido da Espanha e de Paris por ser herege. Embora o Papa o tivesse em grande estima, foi instaurado um processo regular.

Providencialmente, os juízes dos processos precedentes encontravam-se em Roma e unanimemente testemunharam em seu favor. Foi um verdadeiro triunfo, com grande satisfação do Papa e do povo romano. Em sinal de reconhecimento, Inácio e seus companheiros se apresentaram ao Papa e colocaram suas vidas à disposição do vigário de Cristo, dando cumprimento ao voto já feito em Montmartre, anos atrás.

Em 27 de setembro de 1540, a Companhia de Jesus foi aprovada por bula pontifícia e, daquele momento em diante, Inácio, eleito superior, permaneceu definitivamente em Roma para governar a Companhia. Começou a elaborar a redação das Constituições e trabalhou com persistência por longo tempo, fazendo-as reler e corrigir pelos colaboradores mais chegados e, quando lhe pareceu que estavam em perfeita sintonia com as luzes que Deus lhe tinha dado em Manresa e em outros momentos especiais da vida, enviou os colaboradores às várias províncias para explicar o sentido genuíno a todos os seus filhos.

UM EXTRAORDINÁRIO FLORESCIMENTO

Nos últimos anos, Inácio assistiu a um extraordinário florescimento da Companhia na Europa (Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Áustria, Bélgica), na América Latina, na índia até o Japão e na Etiópia. Aonde quer que chegavam, seus filhos levavam seu carisma e, com isso, renovavam a Igreja ou procuravam novos filhos em terras de missão. O carisma inaciano se revelava de uma atualidade impressionante.

Inácio, bem enraizado no passado sem ser escravo, era aberto ao futuro, sabia harmonizar admiravelmente tradição e profecia. Daí então o fascínio que sua pessoa e sua Companhia exerciam nos eclesiásticos e leigos da sua época.

Foi intuição sua fundar Colégios, onde se estudava gratuitamente, abrindo assim o mundo das ciências às inteligências de todas as classes sociais. Dos Colégios nasceram numerosas e conceituadas universidades na Europa e no mundo a começar pelo Colégio Romano, por ele fundado, que se tornaria a famosa Universidade Gregoriana.

Um outro fator importante para a renovação da Igreja foi a fundação dos seminários, começando lá também pelo Colégio Alemão que acolhia seminaristas das dioceses de língua alemã. Sob a espiritualidade inaciana, foram-se formando, pouco a pouco, todos os seminários católicos do mundo até os nossos dias.

Inácio tinha tido uma boa intuição ao escolher os primeiros companheiros em Paris e seus filhos continuaram nesta linha. Quem queria entrar na Companhia deveria, antes de tudo, estar decidido a viver em tudo segundo o Evangelho, depois deveria ser inteligente e ter bom aspecto para poder desenvolver o apostolado em todos os ambientes, desde o mais humilde, dos mais pobres até o da universidade e das cortes. Por isso, os jesuítas procuravam vocações também entre personalidades da alta classe social.

Assim, na Espanha, Francisco de Bórgia, já vice-rei, ficou viúvo e tendo encaminhado os filhos colocou-se nas mãos de Inácio. Este soube apreciar seus dons espirituais e humanos, chamou-o a Roma e percebeu sua capacidade extraordinária de governo e foi como se já tivesse assimilado o genuíno carisma inaciano. Seria o seu primeiro sucessor, o homem mais adequado para cuidar da jovem da Companhia.

Nos últimos anos de sua vida Inácio, sentindo que suas forças diminuíam, quando até assinar um documento já lhe era difícil, quis renunciar ao cargo de superior-geral, mas seus filhos não lho permitiram. Então nomeou um substituto, com plenos poderes, e se preparou para entrar definitivamente naquele céu que várias vezes já havia pregustado sobre a terra. Morreu em Roma em 31 de julho de 1556.

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[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

jun 01

O SANTO DO MÊS DE JUNHO

SANTO ANTONIO DE PÁDUA - 3

SANTO DO MÊS DE JUNHO –

*Enrico Pepe[1]

13 de junho

Santo Antônio de Pádua – sacerdote e doutor evangélico –

(1195-1231)

"A suprema origem, como diz Agostinho no livro De vera religione, é o Pai, do qual são todas as coisas e do qual procedem o Filho e o Espírito Santo. A perfeitíssima beleza é o Filho, que é a verdade do Pai, em nada dele diferente. A beatíssima alegria e o sumo bem é o Espírito Santo, que é o dom recíproco do mútuo amor entre o Pai e o Filho ”

Era esta a teologia que frei Antônio ensinava aos frades já nos tempos de São Francisco. Ele dava à ordem, que estava surgindo, uma preparação intelectual que a teria tornado capaz de levar o carisma franciscano a todos os ambientes sem perder o seu genuíno esplendor. Mas a figura de Antônio é pouco notada sob este aspecto, enquanto que é conhecidíssima na versão elaborada pela piedade popular.

Um santo universal

Em uma biblioteca de um bispo brasileiro encontrei um bonito livro com o título Antônio de Lisboa, santo e soldado. Eu já sabia bem que os países de tradição portuguesa sempre gostam de recordar suas origens lusitanas, mas que o amor dos brasileiros por este santo tivesse chegado até o ponto de colocá-lo na lista de pagamento do exército, isso eu jamais teria imaginado. Não só o escolheram para protetor dos seus soldados, mas fizeram-no percorrer toda a carreira militar desde simples soldado até capitão, pagando regularmente o estipêndio, não a ele, que está no paraíso onde não existe moeda corrente, mas ao convento de Santo Antônio.

Por sua vez também não é de maravilhar, porque a devoção para com este santo ultrapassou as soleiras da Igreja católica, suscitando o interesse também dos ortodoxos, budistas e muçulmanos. Onde tenham chegado os franciscanos, aí os povos, sem distinção de fé religiosa, o acolheram como um homem de Deus que com o seu poder taumatúrgico vai ao encontro das dores e das expectativas da humanidade de todos os tempos. Também por isso contam-se dele os seus milagres infindáveis, e às vezes até mesmo sem sentido crítico.

As primeiras etapas

Mas vamos olhar de bem perto a verdadeira história de Antônio. O seu nome de batismo é Fernando Martins; nasceu em Lisboa, Portugal, de uma família abastada, no ano de 1195. Até os 15 anos frequentou a escola da catedral. Nesse tempo, o livro de texto era o Saltério e os alunos mais inteligentes o aprendiam de memória. Servia para aprender a ler e a escrever, para cantar na igreja nas funções religiosas e também como catecismo para se instruir nas verdades da fé. Naturalmente era em latim, a língua de todas as escolas da Europa, que oferecia o privilégio muito grande de poder frequentar os mais prestigiosos centros de estudo desse continente. Junto com as verdades de fé, Fernando aprendeu também a gramática, a retórica, a música e a aritmética.

Aos 15 anos entrou para o mosteiro de São Vicente, dos monges regulares de Santo Agostinho, a poucos quilômetros de Lisboa. Era a única maneira de progredir nos estudos, mas foi também uma ocasião para descobrir a beleza da vida religiosa segundo a regra agostiniana: a vida comum tinha por modelo a primeira comunidade cristã, onde os monges procuravam ser um só coração e uma só alma e com este espírito se lançavam para fora do mosteiro, tendo como finalidade a edificação da Igreja.

Fernando teve ótimos mestres e tornou-se um fervoroso agostiniano. Tinha somente um desgosto: com muita frequência os seus parentes iam lá procurá-lo e isso o perturbava. Havia em Portugal o triste hábito de ir sempre aos mosteiros, não para fazer uma visita breve ou para se aprofundar na vida espiritual, mas para choramingar seus azares e com isso enganar os monges aparentados. Para o jovem Fernando isso não lhe melhorava o gênio, e não podendo se opor a esse abuso já inveterado, precisava num só golpe talhar o mal, e por isso pediu para ser transferido para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, distante 175 quilômetros de Lisboa.

Libertado da presença importuna dos parentes, pôde dedicar-se totalmente aos estudos e à oração. Orientado por ótimos mestres, ele aproveitou bem os estudos de teologia como de costume, começando pela leitura e meditação da Sagrada Escritura, depois a leitura dos escritos dos santos padres, com Agostinho em primeiro lugar, e os comentários mais prestigiosos como os de Pedro Lombardo.

Foi em Coimbra que ele encontrou a possibilidade de saciar a sua sede de sabedoria, mas foi aí também que encontrou uma grande cruz. Essa comunidade há muito tempo estava dividida em duas. Alguns observavam fielmente a regra sob a orientação do mestre João Nunonez, com o apoio até mesmo do papa, enquanto que outros bem consistentes seguiam os costumes dissolutos do prior, Dom João César, que se sentia forte pelo apoio do rei. O régio e pontifício mosteiro agostiniano de Coimbra, mais famoso pela santidade e pela ciência, tinha-se tornado motivo de escândalo em todo o reino.

Aí Fernando terminou os seus estudos e tornou-se sacerdote, sempre fiel ao seu ideal de monge e cultivando a esperança de que o seu mísero prior mudasse de vida, sobretudo depois que ele retornou do Concilio Lateranense IV, que havia chamado a atenção de todos para a necessidade da reforma da Igreja. Uma esperança que o prior de Coimbra logo fez que se tornasse vã, visto que acarretou para o rei e para o reino de Portugal a interdição.

O carisma do qual se enamorou

Nestas circunstâncias tão dolorosas, Fernando conheceu os frades de São Francisco. Eles moravam no cenóbio de Santo Antão das Oliveiras, não muito distante do mosteiro, e sempre vinham pedir esmola. O modo como eles se vestiam e a maneira como anunciavam a palavra de Deus tocaram profundamente o jovem monge agostiniano, mas o que ainda mais o fez pensar foi a chegada a Coimbra dos restos mortais de cinco frades franciscanos martirizados pelos muçulmanos em Marrocos. Esses filhos de Francisco de Assis não brincavam, tomavam o evangelho ao pé da letra e estavam sempre prontos para dar a vida pelo seu ideal.

Fernando procurou quem o aconselhasse e, tendo obtido a permissão do prior, pediu para se tornar franciscano. A passagem para a ordem e a vestição do rude hábito aconteceu no verão de 1220 de forma humilde e quase que escondida, pois Portugal estava sob a pena da interdição; e de fato não era a pompa das cerimônias o que atraía o apreço de Fernando.

A vida em Santo Antão das Oliveiras era aquela que ele, depois de se tornar frei Antônio, tinha sempre sonhado, porque aí a pobreza, a castidade e a obediência não eram dotes de dissertação, mas pérolas luminosas que resplandeciam no cotidiano, e o viver em fraternidade atingia plenamente o sonho evangélico de Agostinho: ser um só coração e uma só alma.

Antônio abraçava o carisma de São Francisco quando já havia adquirido com os agostinianos uma riquíssima bagagem cultural, sobretudo bíblica e patrística, que naqueles tempos ainda não teria encontrado entre os franciscanos. Ao mesmo tempo teve a felicidade de conhecer o franciscanismo no fervor da sua fundação.

Dirigido a Marrocos encontrou-se em Assis

Nesse período, o desejo de Francisco era o de evangelizar as terras onde habitavam os muçulmanos, e então também Antônio se preparou para partir para Marrocos, na esperança de que tal aventura terminasse com o martírio. Frei Antônio partiu no outono do mesmo ano ou na primavera do ano seguinte. Assim que chegou em terras de missões, nela permaneceu por bem pouco tempo, porque adoeceu e logo teve de retornar para a sua pátria. O navio que deveria levá-lo para Lisboa, devido a uma grande tempestade, mudou de rumo e teve de desembarcá-lo na Sicília. A essa altura dos acontecimentos achou melhor tomar o rumo para Assis, onde São Francisco estava preparando o famoso “Capítulo das esteiras”, acolhendo em torno de si os seus frades. Antônio participou desse capítulo como um simples fradinho português, sendo até mesmo desconhecido pelo próprio Francisco. Passou aqueles dias encantando-se na contemplação da humilde figura do fundador. Francisco quase sempre estava sentado aos pés de frei Elias, atento em escutar a palavra de quem ele considerava muito mais douto do que a si mesmo, mas muito decidido quando se tratava de defender o espírito da senhora Pobreza.

Quando terminou o capítulo, era preciso estabelecer a destinação de cada frade e com Antônio ninguém sabia o que fazer, mesmo porque ele só falava em latim e então não era útil para a pregação ao povo. Mas sendo ele sacerdote, tomou-o consigo frei Graciano da Romagna para celebrar a missa no eremitério de Montepaolo. Antônio, além de celebrar a eucaristia para os frades, lhes preparava o alimento enquanto eles repousavam, oravam ou se preparavam para descer novamente do monte para pregar.

Uma teologia que não extinga o Espírito

Em setembro de 1222 aconteceu, porém, um fato curioso. Em uma festa de ordenação sacerdotal de alguns frades, frei Graciano não conseguiu encontrar um bom pregador. Para o espanto de todos, ele foi pedir a Antônio que fizesse a pregação. Talvez já conhecesse o talento de Antônio. E quando Antônio começou a pregar foi uma revelação. Não se podia manter escondido sob o jacá um candeeiro assim tão luminoso. A notícia desse acontecimento chegou logo até os ouvidos de Francisco e com a notícia um insistente pedido: Antônio poderia ensinar a todos os frades a ciência divina das Escrituras.

O espanto foi maior ainda com a resposta de Francisco. Todos sabiam de sua aversão para com os estudos que adulteravam com a vangloria da ciência o vinho genuíno do Evangelho. Mas ele escreveu uma graciosa carta para Antônio, dizendo o seguinte: “A frei Antônio, meu bispo, frei Francisco, saúde! Tenho o prazer de que tu ensines a sagrada teologia aos frades, conquanto que em tal ocupação tu não extingas o espírito da santa oração e devoção, como está escrito na regra. Passar bem”.

Antônio foi chamado de bispo, porque naquela época somente os bispos tinham a tarefa e estavam à altura - se é que estavam! - de pregar e ensinar a verdadeira doutrina aos fiéis; outros só podiam fazê-lo mediante a autorização dos responsáveis das ordens ou do papa, como acontecia com os franciscanos e dominicanos. Francisco reconheceu no seu filho espiritual que a sabedoria genuína do evangelho não era ofuscada pela ciência, mas que foi colocada a seu serviço. São Francisco, confiando no douto frade vindo de Lisboa, aproveitava o seu carisma para iluminar a teologia. Mais tarde será São Boaventura que resplandecerá esta luz no seu máximo esplendor.

Mestre e orientador

No entanto, Antônio abria o caminho, ensinando teologia aos frades nos conventos de Bolonha até o ano de 1224; de Montpellier, talvez no ano de 1225; de Toulouse, no ano de 1225; e de Pádua, de 1229 até 1231. Contemporaneamente continuava a pregação ao povo em várias regiões da Itália setentrional até Rimini, onde se espalhavam as heresias cátara e patarina, depois na França e finalmente novamente nos arredores de Pádua.

Antônio foi também o responsável pelo governo de sua ordem como guardião em Limoges, na França, e como ministro provincial na Itália do norte.

Nos intervalos de tempo livre Antônio escrevia suas lições e suas pregações. Também neste campo ele vivia a pobreza franciscana de seu tempo. Habituado a utilizar-se da rica biblioteca agostiniana de Santa Cruz em Coimbra, agora se encontrava ora nos pequenos conventos ou nos eremitérios somente com o livro do seu Senhor crucificado. Mas, vinha em seu socorro sua magnífica memória, que se movia tranquilamente nas páginas da Sagrada Escritura e nos escritos patrísticos, sem deixar de recorrer aos famosos autores latinos, como Horácio, Cícero, Ovídio e Virgílio, mesmo que suas citações não pudessem ter todo o rigor científico pela falta de códices para consultar.

Aos frades, Antônio ensinava a teologia que ele havia aprendido, uma teologia bíblica que privilegiava a meditação da Palavra enriquecida pelos comentários dos santos padres, mas toda ela envolvida pela inspiração própria do carisma franciscano, que vê Deus como amor, do qual provém toda a criação.

O Filho de Deus é a revelação deste amor, uma revelação iniciada na encarnação no seio virginal de Maria e elevada à máxima expressão na paixão. Antônio e os seus ouvintes tinham bem vivo diante de seus olhos o que havia acontecido ao seráfico pai sobre o monte de Verna.

A lei trinitária: o amor

Segundo o ensinamento de Antônio, não só a vida dos frades, mas a de todo cristão, deve ser vivida de acordo com a lei trinitária do amor nas suas duas direções: amor para com Deus e amor para com o próximo. Repetindo o que disse santo Isidoro de Sevilha, ele também cita um exemplo dizendo que a águia, depois de ter posto três ovos no seu ninho, atira para fora um para poder chocar somente dois, de antemão sabendo muito bem que não poderá alimentar três filhotes. Assim também nós não podemos alimentar o amor de Deus, o amor ao próximo e o amor próprio; o cristão deve expulsar do seu íntimo o amor próprio para poder levar em frente o amadurecimento dos outros dois amores.

Antônio foi um mestre incomparável pela simplicidade da sua linguagem, pela vivacidade das imagens e pela síntese que permitia ao ouvinte guardar na memória tudo quanto havia escutado. “Jesus Cristo” - dizia Antônio - “nos alimenta cada dia com a doutrina evangélica e com os sacramentos da Igreja”. Ele partia sempre da palavra de Deus como um alimento indispensável, mas, consciente da fraqueza humana, logo acrescentava a graça dos sacramentos.

Mesmo em meio às ocupações, Antônio seguia as orientações de são Francisco, gostava de retirar-se por algum tempo nos pequenos eremitérios da ordem, ou até mesmo a pequenas grutas para se dedicar mais intensamente à oração, que ele não definia “uma elevação da mente”, mas sim “uma elevação do coração a Deus”, um relacionamento de amor entre a criatura e o Criador, um contemplar e um discorrer entre o amante e o amado. Por isso a primeira coisa que ele ensinava a respeito da oração era “pedir Deus a Deus”. Essa frase parece para nós fazer eco à resposta de santa Clara a são Francisco.

Essas coisas Antônio as vivia, ensinava-as aos frades e as pregava ao povo e, para ajudar uns e outros, as escrevia. Assim é que nasceram os Discursos dominicais e os Discursos festivos, que lhe valeram o título de doutor evangélico. Os Discursos festivos ficaram incompletos por causa de seu falecimento.

Reformador da Igreja

No imaginário popular, Antônio apresenta um aspecto delicado e juvenil, um caráter paciente e submisso e uma palavra doce e persuasiva. Frequentemente traz nos braços a imagem de Jesus menino. A realidade histórica é um pouco diversa.

Dos exames feitos em seus restos mortais se sabe que ele possuía um rosto com traços decididos ou - como se costuma dizer - uma face que parecia talhada a machado. A aparência física espelhava bem o seu caráter. Conseguiu dominar a si mesmo e tornou-se um homem pacífico, mas no momento oportuno também sabia colocar para fora suas garras, não para defender a sua pessoa mas para afirmar com clareza as verdades evangélicas.

Aquilo que ele havia visto quando jovem no mosteiro de Coimbra percebia-o também em muitos outros lugares, porque a vida dos eclesiásticos daqueles tempos não era nada edificante. Se lhe pediam para combater a heresia cátara, primeiro deviam permitir-lhe corrigir os costumes daqueles que eram a causa mais profunda da heresia.

Em um de seus discursos ele escreveu: “Os prelados e os clérigos usurpam a ciência do Antigo e do Novo Testamento... quando não a aprendem para a edificação dos outros, mas para receber louvores e honras. Para eles eis o que vem dito nos Provérbios: Um anel de ouro no focinho de um porco, tal é a mulher bonita, mas sem juízo. A mulher bonita e insensata são os clérigos que são indolentes e bem adornados como as mulheres que se entregam por dinheiro: belos pelo luxo das vestes, pelas filas de sobrinhos e talvez até de filhos e pelos muitos rendimentos; insensatos porque o que dizem, nem eles mesmos nem os outros o fazem. Todos os dias gritam nas igrejas e uivam como cães, mas sem se fazerem entender, porque o corpo está no coro, mas a alma está na praça... Eles que possuem o anel de ouro da ciência e da eloquência não se envergonham de, como verdadeiros porcos, deixá-lo cair no estrume do luxo e da avareza... Não procuram a verdade do Evangelho, não vivem segundo as prescrições dos fundadores, mas vivem de maneira dissoluta e falsa”.

Antes de tudo recomendava aos religiosos a humildade como virtude fundamental para entrar em comunhão com Deus e empreender um caminho evangélico. Fazia também uma observação muito apropriada a respeito dos pequenos defeitos que acompanham sempre a vida também das pessoas virtuosas que, “junto com as boas coisas que produz, julga serem para a sua humilhação os defeitos. O não sabê-los vencer, não obstante a pequenez deles, é para a pessoa uma advertência contínua a viver na humildade”.

Referindo-se aos sábios que entravam no convento e que mais facilmente eram tentados a serem soberbos, recordava: “Se em uma comunidade temos sábios, Deus para convocá-los serviu-se dos simples. Por isso ele escolheu o que no mundo é estulto e ínfimo, fraco e desprezível, para associar a si os sábios, os fortes e os nobres, para que ninguém possa se gloriar de si mesmo, mas naquele que em Nazaré estava submisso a eles”. No fundo era esta a sua experiência.

É interessante também o que ele dizia sobre a obediência: “Não conseguirás jamais ver se não fores obediente... Se fores surdo à voz de quem comanda, serás também cego. Obedece, pois, com todo o afeto do teu coração, para poderes ver com o olho da contemplação... Deus coloca um olho no coração, quando em quem obedece infunde a luz da contemplação”.

Antônio faz notar aos leigos, que normalmente vivem no matrimônio, que Deus lhes pede a pureza da mente, e aos religiosos a castidade perfeita. Mas a pregação mais eficaz sobre a castidade era a sua própria presença da qual transparecia o divino.

Estes três pilares da vida cristã e religiosa, a pobreza, a obediência e a castidade, não possuem nenhuma consistência e são abatidas facilmente pelos primeiros sintomas de luta, se não forem animados sempre pelo amor. Ele gostava de recordar: “Duas coisas, o amor a Deus e ao próximo, tornam perfeito o ser humano”.

Defensor dos pobres

Na última etapa de sua vida (1229-1231) percorreu várias cidades e vilas do Vêneto, pregando e repacificando os ânimos, tomando a peito a defesa dos mais fracos, mas nem sempre alcançando o fim desejado. O cronista Rolandino de Pádua, contemporâneo do santo, conta que Antônio “quer porque colocasse a sua confiança no Senhor, quer porque lhe fosse pedido pelos amigos do conde Rizzardo, foi a Verona e aí esconjurou os dirigentes da liga lombarda e a suprema autoridade municipal de Verona, senhor Ezzelino, e os seus conselheiros, para que libertassem o conde e os seus amigos. Mas de nada valeram as orações, mesmo que fossem justas, para o coração daqueles que não possuem a caridade. Sem ter sido atendido, o santo retornou para Pádua”.

Uma das pragas mais tremendas daquele tempo eram as leis injustas que permitiam não só a usura, mas também a prisão para aqueles que não podiam pagar as próprias dívidas. Sua pregação contra essas injustiças convenceu a cidade de Pádua a emanar uma lei que no dia 15 de março de 1231 conseguiu eliminar essa praga social. “A pedido do reverendo e piedoso frade Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, nenhum devedor ou fiador poderá ser privado no futuro da sua liberdade, quando estiver impossibilitado de pagar. Em tal caso poderá responder com a sua propriedade, mas não com a sua pessoa e a sua liberdade.”

Dos ramos da nogueira à casa do Pai

No mês de maio do ano de 1231, no calor da primavera que estava em andamento, Antônio se transferiu da ermida de Camposampiero, próximo de Pádua, para hospedar-se no castelo do conde Tiso. Aí podia tranquilamente dedicar-se à oração e continuar a redação dos Discursos festivos. Porém não aceitou viver em um quarto do castelo, mas construiu para si uma pequena cela em cima de uma nogueira para viver imerso em Deus e na natureza. Pouco tempo depois ele adoeceu e precisou descer e ir novamente para Pádua. Em viagem foi forçado a parar na localidade chamada Arcella, onde os frades haviam aberto um asilo. No dia 13 de junho de 1231, Antônio partia deste mundo e o seu corpo era sepultado na igrejinha de Santa Maria Mater Domini (Santa Maria Mãe do Senhor), onde hoje está a famosa basílica em Pádua.

O povo que ele instruiu na fé e defendeu contra as injustiças logo o escolheu como seu padroeiro e um ano depois o papa Gregório IX o proclamou santo. Em 1263, são Boaventura fez o reconhecimento dos restos mortais e encontrou incorrupta a língua do santo frade. No ano de 1946, Pio XII o declarou doutor da Igreja.

______________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

mai 01

O SANTO DO MÊS DE MAIO

SANTO ATANÁSIO

SANTO DO MÊS DE MAIO –

*Enrico Pepe[1]

02 de maio

Santo Atanásio – bispo e doutor –

(295-373)

“Além do estudo e do verdadeiro conhecimento das Escrituras temos necessidade de uma vida correta e de uma alma pura, bem como das virtudes segundo Cristo, a fim de que, caminhando na virtude, o intelecto possa alcançar e compreender o que deseja, de tudo o que a natureza humana possa compreender de Deus Verbo. Efetivamente, sem um intelecto puro e uma vida modelada sobre a vida dos santos, não podem ser compreendidas as palavras dos santos... Assim quem quer compreender o pensamento dos teólogos deve purificar e lavar a alma com a sua vida e se aproximar dos santos através da imitação de suas ações, a fim de que unindo-se a eles mediante a conduta da vida, compreenda o que Deus lhes revelou. ”[2]

Para Atanásio, o verdadeiro teólogo deve ser um santo, de outra forma ser-lhe-á impedimento para a compreensão da verdadeira fé. Por isso, desde a juventude ele uniu o estudo à ascética, a contemplação da palavra à sua encarnação. Os seus contatos com Antão, patriarca do monaquismo, não cessavam de o encantar, pois constatava que aquele pobre monge compreendia as verdades da fé muito mais e melhor que tantos outros homens mergulhados nas bibliotecas de Alexandria.

Atanásio viveu em um período histórico muito difícil para a Igreja que, tendo saído das perseguições, enfrentava dois graves problemas: os relacionamentos com a autoridade imperial e a formulação da verdadeira doutrina dentro da cultura greco-romana. Dois problemas que, se não fossem bem resolvidos, poderiam assinalar também a degeneração e o fim do cristianismo.

Constantino havia dado a liberdade à fé cristã, mas, precisando conservar a paz entre os súditos como chefe supremo da sociedade imperial, continuava a se comportar também como “sumo pontífice”, como haviam feito todos os imperadores do passado, e convocava concílios, destituía bispos, apoiava e até mesmo impunha determinadas doutrinas. Como compreender o seu desempenho dentro dos justos limites? E quais eram esses justos limites segundo o cristianismo?

A outra espinhosa tarefa prendia-se mais de perto à vida interna da Igreja e se tratava antes de tudo da formulação da doutrina trinitária. A cultura grega na qual se movia o mundo mediterrâneo havia chegado ao monoteísmo e não encontrava dificuldade em aceitar um cristianismo filho do judaísmo, mas para abraçar a fé em um Deus uno e trino era enorme o passo que deveria dar. Daqui provinha a interrogação sobre quem eram exatamente Cristo e o Espírito Santo.

Ario dava uma resposta simples e bastante compreensível para a mentalidade helenística, mas destruía a peculiaridade do cristianismo. Para ele, Jesus era um homem que Deus elevou à dignidade de seu filho, para fazê-lo nosso mestre: um homem extraordinário sem dúvida alguma, mas não obstante sempre um homem. E se Jesus era um homem, também o seu Espírito não poderia ser senão uma criatura. Deus permanecia na sua grandeza solitária e a mente humana não deveria, pois, fazer grandes esforços para aceitá-lo. Neste contexto doutrinai, o cristianismo, inspirando-se nos ensinamentos do mestre Jesus, alcançava a salvação com suas próprias forças.

Atanásio percebeu logo os dois grandes perigos e lutou durante toda a sua vida, até mesmo quando o mundo inteiro parecia que se tinha tornado irremediavelmente ariano, dando uma contribuição determinante para o triunfo da verdadeira fé. Mas esta luta lhe tornou a vida particularmente uma grande tribulação.

No turbilhão em Alexandria

Nasceu em Alexandria no ano de 293-296 de uma família cristã, recebendo juntamente com a fé uma boa formação literária. Conhecia bem a cultura helênica e a copta, a filosofia e a teologia como eram ensinadas no prestigioso didaskaleion da cidade, a mais famosa escola daquela metrópole. Viveu sua infância e sua adolescência no tempo em que se enfurecia a perseguição contra os cristãos, decretada por Diocleciano, e admirou a coragem dos mártires. Assistiu também à controvérsia dos assim chamados lapsi, cristãos que nas perseguições não tinham tido coragem suficiente de enfrentar a morte, e que em tempos de paz pediam para serem readmitidos na comunhão eclesial. Os bispos mais severos, como Melécio de Licópolis, opuseram-se, dando origem ao partido dos melecianos.

Na juventude Atanásio conheceu Antão e entre os dois nasceu uma profunda amizade espiritual. Não sabemos se passou um período no deserto, mas certamente foi influenciado pelos valores do carisma de Antão e procurou encarná-los na sua vida cotidiana, vivendo como um asceta.

Quando estalou a heresia ariana, ele já era diácono ao lado do bispo Alexandre, bispo que ele acompanhou ao Concílio de Nicéia no ano 325. Uma experiência inesquecível, na qual os padres puderam exprimir claramente e livremente quanto o Espírito queria dizer à Igreja, proclamando que o Filho é “consubstanciai ao Pai”. O imperador soube manter-se no seu lugar, limitando-se a respeitar e a fazer respeitar as decisões do Concilio. Ario não quis se submeter a tal decisão e foi excluído da comunhão eclesial. Atanásio tornou-se conhecido e respeitado por muitos bispos, mesmo sendo um simples diácono. Ele já se impunha pela doutrina e santidade de vida.

Três anos depois, tendo morrido Alexandre, Atanásio foi aclamado seu sucessor e os bispos, que acorreram para consagrá-lo, aprovaram a escolha reconhecendo que ele era “um autêntico cristão, um asceta, um verdadeiro bispo”.

Sempre em perigo

Depois da sua eleição, Atanásio dirigiu-se em visita pastoral à Tebaida entre os monges de São Pacômio. Era importante consolidar a unidade com os monges, pois eles tinham uma grande influência sobre o povo e sua fidelidade à fé nicena podia ser determinante para o bem da Igreja, sem esquecer que seu coração batia muito forte pelo mundo dos ascetas. Pois todos sabiam de sua amizade com Pacômio, que não obstante procurou se esconder temendo que o amigo bispo quisesse ordená-lo sacerdote e envolvê-lo no ministério. Atanásio o compreendeu e lhe perdoou esta fuga.

Enquanto visitava aquele imenso território ao redor de Assuan, os melecianos, guiados por um certo João Arkaf, acusaram-no diante do imperador de ter sido ordenado bispo ainda muito jovem, de ter imposto tributos injustos aos cristãos, de ter quebrado o cálice sagrado de um bispo meleciano e - coisa inaudita - de ter tramado contra a vida do próprio imperador. Não foi difícil, para ele, se defender dessas grandes falsidades. No final do ano de 332, uma nova infamante acusação: ele teria mandado matar o bispo Arsênio de Ipsele. Também dessa vez foi grande a vergonha pela qual passaram os inimigos. Atanásio tinha ao seu lado os monges e Arsênio, que estava escondido em um mosteiro, compareceu vivo e vigoroso no tribunal.

Mas além dos melecianos havia também os arianos para lhe tornar a vida penosa. Estes conseguiram que Ario subscrevesse uma fórmula de fé que poderia, talvez, ser interpretada no sentido ortodoxo, mas sem a palavra “consubstanciai”. O imperador pediu a Atanásio readmiti-lo em sua igreja, mas ele não aceitou. Os bispos arianos e melecianos obrigaram-no a convocar um concilio em Tiro no ano 335. Atanásio partiu acompanhado de mais ou menos cinquenta bispos egípcios, todos fiéis a Nicéia, mas eles foram excluídos da participação nas reuniões conciliares onde se decretou a readmissão de Ario na comunhão eclesial e a condenação de Atanásio. Durante o concilio, Atanásio foi insultado, coberto de injúrias e obrigado a fugir escondido em uma jangada, dirigindo-se a Constantinopla para falar pessoalmente com Constantino.

O exilado

Durante um passeio a cavalo, o imperador ouviu as razões de Atanásio e parecia que havia aceitado, mas no dia seguinte decretou o seu exílio para Treviri nas Gálias (hoje Trier na Alemanha). Era o primeiro exílio, durou dois anos e Atanásio aproveitou-os para tornar conhecido naquelas terras o veneno escondido na falsa doutrina ariana e a fantástica experiência dos monges do Egito.

Enquanto isso, em Alexandria, os melecianos colocavam como bispo João Arkaf que encontrava uma fortíssima oposição da parte dos católicos e pouco depois era expulso. Depois de sua morte ninguém ousou colocar outro bispo na sede de Alexandria, que como seu verdadeiro pastor reconhecia somente Atanásio. E ele, de onde estava, sustentava a comunidade com as suas cartas, enquanto Santo Antão enviava muitas cartas ao imperador pedindo-lhe que restituísse Atanásio à sua sede.

Por ocasião da morte de Constantino em 337, Atanásio, com o consentimento dos imperadores do Ocidente e do Oriente, pôde retornar a Alexandria e foi acolhido com grandes festividades; no ano seguinte convocou um concilio, no qual foi reafirmada a fé nicena e os bispos egípcios proclamaram sua plena confiança em seu patriarca, informando tanto ao papa quanto aos outros bispos. Os arianos protestaram e escolheram outro bispo, um certo Gregório da Capadócia, e entre tumultos populares empossaram-no em Alexandria, pedindo ao papa um concilio geral para examinar o caso de Atanásio. 

A confusão atingiu o seu auge e Atanásio achou oportuno distanciar-se da sua cidade, refugiando-se entre os monges. Em vão a polícia imperial procurou encontrá-lo, porque os monges sabiam escondê-lo, continuamente mudando-o de lugar.

A convite do papa de então, Júlio I, Atanásio dirigiu-se para Roma para participar do concilio convocado por esse pontífice, enquanto os arianos, que o haviam solicitado, recusaram-se a fazer parte dele. O Concilio romano reconheceu a inocência de Atanásio, mas ele não pôde retornar à sua sede. Foi o segundo exílio.

A longa permanência em Roma, do ano 339 a 346, foi - como aquela de Treviri - importante para toda a Igreja, porque Atanásio com a sua presença e a sua palavra fazia todos se conscientizarem do perigo do arianismo que esvaziava a fé cristã do seu conteúdo, reduzindo-a a uma pura doutrina humana, ao mesmo tempo em que ele propagava a experiência do monaquismo egípcio, tanto masculino quanto feminino.

Atanásio, um homem de fé

Na primeira das Cartas a Serapião ele escrevia: “A nossa fé é esta: a Trindade santíssima e perfeita é aquela que é distinta no Pai e no Filho e no Espírito Santo, e não tem nada de estranho ou acrescentado de fora, nem é constituída por Criador e por realidades criadas, mas é inteiramente potência criadora e força operativa. Uma é a sua natureza, idêntica a si mesma. Um é o princípio ativo e outro, a operação. De fato, o Pai realiza cada coisa por meio do Verbo no Espírito Santo e, deste modo, é mantida intacta a unidade da Santíssima Trindade. Por isso na Igreja é anunciado um só Deus que está acima de todas as coisas, atua por tudo e está em todas as coisas (cf. Ef 4,6). Está acima de cada coisa obviamente como Pai, como princípio e origem. Atua por tudo, certamente por meio do Verbo. Finalmente atua em todas as coisas no Espírito Santo... E Trindade não só de nome ou por puro som verbal, mas pela sua existência verdadeira. Como, de fato, o Pai é aquele que é, assim também o seu Verbo é aquele que é Deus acima de tudo. E o Espírito Santo não é insubsistente, mas existe e subsiste verdadeiramente”.[3]

Qual é a relação entre Deus uno e trino e a criação? Atanásio a isso nos responde no nº 42 do Discurso contra os pagãos’.

“Depois de ter feito todas as coisas por meio do Verbo eterno e de ter dado existência à criação, Deus Pai não deixa ir à deriva aquilo que criou, nem o abandona a um cego impulso natural que o faça cair no nada. Mas, bom como é, com o seu Verbo, que é também Deus, guia e sustenta o mundo inteiro, para que a criação, iluminada por sua orientação, pela sua providência e pela sua ordem, possa persistir no ser. Ao invés, o mundo torna-se participante do Verbo do Pai, para ser por este sustentado e não deixar de existir. Isso certamente aconteceria se não fosse conservado pelo Verbo, porque ele é a imagem do Deus invisível gerado antes de toda criatura (Colossenses 1,15); pois por meio dele e nele têm consistência todas as coisas, tanto as visíveis quanto as invisíveis, pois ele é a cabeça da Igreja, como nas Sagradas Escrituras ensinam os ministros da verdade” (cf. Colossenses 1,16-18).

Entre as criaturas há uma na qual Deus quis resplandecer de modo especial: é o ser humano. Atanásio vê nisso a imagem do Verbo, desfigurada pelo pecado, que o Filho de Deus quis restituir à sua originária perfeição, deificando o ser humano. Mas para fazer isso o Verbo deve ser consubstanciai ao Pai.

“Se Cristo não fosse propriamente a imagem substancial do Pai, se não fosse Deus senão pelo modo de dizer, por participação, não teria podido nunca deificar ninguém; porque ele mesmo seria apenas um ser deificado. Quem possui uma coisa unicamente por empréstimo não pode, efetivamente, fazer os outros participantes dela, enquanto que aquilo que possui não é algo seu, mas propriedade do doador, e a esmola que recebeu não serve senão para cobrir a sua indigência e a sua nudez”.[4]

Entre fugas e triunfos

No ano 343, seguindo sugestão do papa e de outros bispos ocidentais, os dois imperadores [do Império Romano, o do Oriente e o do Ocidente] permitiram a convocação de um Concilio em Sárdica (a atual Sofia) para voltar a trazer a paz para Alexandria. Os bispos arianos não queriam iniciar o concilio se antes não fosse confirmada a condenação de Atanásio. Presidia a assembleia, em nome do papa, o bispo Osio de Córdoba. Este, pro bono pacis [por amor à paz], prometeu que, caso Atanásio fosse considerado inocente, não retornaria para a sua sede, mas ele [Ósio] o levaria consigo para a Espanha. Na noite seguinte os bispos arianos abandonaram Sárdica, deixando um escrito no qual reafirmavam suas posições.

O Concilio se manteve, o bispo que havia sido instalado ilegitimamente em Alexandria foi declarado deposto e Atanásio foi convidado a retornar. Todavia, o imperador Constâncio não lhe deu livre passagem até o ano 346. E mesmo quando consentiu, Atanásio mostrou-se muito prudente e só depois de ter consultado o Papa retomou o caminho de volta para a sua igreja. Foi um verdadeiro triunfo: em Antioquia o imperador o recebeu com todas as honras; na Palestina, dezesseis bispos festejaram-no com um sínodo e no dia 21 de outubro de 346 chegou a Alexandria, que o aguardava com grandes festividades.

Gregório Nazianzeno narra que, ao ingressar Atanásio na cidade, fizeram-no montar em um cavalo enquanto diante dele estendiam tapetes multicores e agitavam ramos; era “um caudal de gente, quase um Nilo de vagas douradas, que percorria todo o caminho ao redor do próprio pastor”.

A paz voltou à grande metrópole; Atanásio podia dedicar todas as suas forças à difusão do Evangelho no vasto território; recebeu são Frumêncio, apóstolo da Abissínia, e o consagrou bispo para toda a região da Etiópia; e mais de quatrocentos bispos sentiam-se ditosos por lhe declarar fidelidade.

Infelizmente a paz não durou por muito tempo, porque depois da morte de Constante, o imperador católico, o poder passou para as mãos de Constâncio que não escondia suas simpatias pelos arianos. Recomeçaram as intrigas com acusações junto ao imperador e junto ao papa Libério. O papa tomou a sua defesa, mas Constâncio reuniu um concilio em Aries no ano 352 e o fez novamente condenar.

Depois do pedido do papa, que não aceitou a condenação, reuniu-se um outro concilio em Milão, mas também aí Atanásio foi condenado e Santo Eusébio de Vercelli, São Dionísio de Milão e Lucífero de Cagliari foram exilados. Mais tarde o imperador, decidido a levar ao triunfo definitivamente o arianismo em todo o império, mandou para o exílio também o papa Libério e Hilário de Poitiers.

Quando os enviados do império chegaram a Alexandria para eliminar também Atanásio, não conseguiram encontrá-lo. Nesta terceira vez, exilado desde o ano 356 ao ano 362, ele precisou deslocar-se continuamente de um lugar para outro, mas nenhum dos seus filhos o traiu, ao contrário, ele podia em qualquer lugar que estivesse reafirmar a fé com a palavra e os escritos e fazer que sua voz fosse ouvida em um mundo que, no modo de dizer de são Jerônimo, parecia que tinha se tornado totalmente ariano. Neste período, Atanásio escreveu várias obras, entre as quais a famosíssima Vida de Santo Antão.

No ano 360, Constâncio morreu e o seu sucessor Juliano, que depois se tornou o Apóstata, permitiu a todos os bispos exilados retornarem às suas sedes. Atanásio, em 362, retornou para Alexandria e juntamente com Eusébio de Vercelli, Lucífero de Cagliari e mais cerca de cinquenta bispos vindos da Arábia, da Líbia e do Egito, reafirmou a fé nicena e preparou um plano para trazer a paz às igrejas, sobretudo no Oriente.

Sua obra de pacificação não agradou a Juliano, que pensava reconduzir o império ao seu antigo esplendor restaurando o paganismo, e por duas outras vezes Atanásio teve de retomar o caminho do exílio. O imperador escreveu ao governador do Egito: “Por todos os deuses, coisa alguma eu veria e nada ouviria com maior prazer, feita por ti, do que a expulsão de Atanásio para fora dos confins do Egito, este infame que ousou batizar mulheres gregas insignes sob o meu governo! Seja mandado embora”.

Conquistador de corações

Juliano tinha razão, porque Atanásio não só tinha batizado senhoras da alta aristocracia, mas continuava a conquistar para o cristianismo e para a ascese muitíssimas pessoas. Ele mesmo na História dos arianos narrada aos monges tinha escrito:

“Muitas jovens que se preparavam para o casamento, prontas para as núpcias, se tornaram virgens por Cristo! Muitos jovens, vendo o exemplo delas, abraçaram a vida monástica! Muitos pais persuadiram os seus próprios filhos e muitos convenceram os próprios pais a não abandonar a ascética cristã. Eram muitíssimas as mulheres que convenceram os seus maridos e outros tantos os maridos que persuadiram as próprias esposas a entregarem-se à oração segundo o preceito do Apóstolo. E quantas viúvas, e quantos órfãos, que viviam na fome e na nudez, foram vestidos e saciados pelo amor vivo do povo!”.

Em 363 morria Juliano e Atanásio pôde retornar. O novo imperador Joviano, sinceramente católico, lhe pediu para pacificar a igreja de Antioquia, mas ele não o conseguiu. Joviano em pouco tempo faleceu e o seu sucessor, Valente, retomou a triste política religiosa de Constâncio, e Atanásio espontaneamente deixou a sua cidade. Deflagraram-se conflitos e o imperador foi obrigado a chamá-lo.

A coragem e a persistência de batalhador aos poucos ia se esgotando; o bispo que sabia governar a diocese, mesmo estando no exílio, era na sua sede amado pelos seus diocesanos e até mesmo respeitado pelos seus inimigos. Agora ele podia dedicar os últimos anos de sua vida ao atendimento direto de seu rebanho, sem deixar de escrever livros e cartas e não deixando de dar os seus conselhos ao papa Dâmaso, de Roma, e aos outros irmãos no episcopado, entre os quais gozava da mais elevada estima. São Basílio, que iniciava o ministério episcopal, o considerava como o único com capacidade de dialogar com todos, porque nenhum como ele “tinha a solicitude com todas as igrejas”.

Morreu a 3 de maio de 373. Foi definido por Basílio como “alma grande e apostólica”.

_________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas. [2] Atanásio. A encarnação do Verbo, nº 57. [3] Id. Cartas a Serapião nº 28. [4] Id., De Synodis nº 51.

abr 01

O SANTO DO MÊS – SÃO MARCOS EVANGELISTA

SÃO MARCOS - 2018

SANTO DO MÊS DE ABRIL –

*Enrico Pepe[1]

25 de abril

São Marcos evangelista (século I)

“Tu quiseste que os santos mistérios de Cristo, teu Filho, princípio de redenção e de vida, fossem conhecidos mediante a Sagrada Escritura por obra de homens iluminados pelo Espírito Santo. Assim, as palavras e os gestos do Salvador, encontrados nas páginas imortais dos evangelhos, são confiados à Igreja e se tornam semente fecunda que nos séculos faz germinar frutos de graça e de glória.”

Marcos, como os outros evangelistas, ouviu e nos transmitiu a pregação apostólica, para nos encorajar no seguimento de Cristo. Seu interesse não foi o de simplesmente passar uma doutrina, como faziam os filósofos, falando a respeito de Jesus, queria nos ajudar no início do caminho da fé para que nos encontrássemos pessoalmente com ele na comunidade eclesial.

SUA VIDA

Ele possuía dois nomes: um hebraico, João, que usava entre os seus conterrâneos; outro, grego, Marcos, para se apresentar no mundo greco-romano. Para aqueles que tinham frequentes contatos com aquele meio ambiente, o uso de dois nomes era comum.

Segundo uma tradição antiquíssima, sua mãe, Maria, no tempo da paixão do Senhor, muito provavelmente já era viúva. Sua família era abastada, tinha um relacionamento íntimo com o Mestre, pois colocava à sua disposição a casa em Jerusalém e o jardim próximo, na colina das oliveiras.

Na grande sala de sua casa foi celebrada a última ceia e naquele mesmo local reuniram-se os apóstolos, da paixão até pentecostes, para se tornar depois a igreja doméstica da primeira comunidade de Jerusalém. Depois da última ceia, quando Jesus e os apóstolos se deslocaram para o monte das oliveiras, João Marcos foi com eles e dormiu nas dependências do pequeno sítio. Inesperadamente foi acordado pela agitação dos guardas que tinham vindo para prender Jesus. Levantou-se e, ainda enrolado em um lençol, foi ver o que estava acontecendo. Os soldados prenderam-no, “mas lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes, despido”.

Marcos acompanhou todos os acontecimentos dolorosos da paixão, e depois os gloriosos da ressurreição e de pentecostes, e passou a fazer parte na comunidade cristã juntamente com sua mãe e Barnabé, seu parente.

Quando este em 44, procedente de Antioquia, aonde tinha sido enviado pelos apóstolos, veio a Jerusalém juntamente com Paulo, Marcos escutou a narração dos acontecimentos que os dois fizeram sobre a difusão do Evangelho naquela cidade cosmopolita e, quando retornaram, quis segui-los.

Uniu-se a eles na primeira viagem apostólica até Cipro, mas quando eles se dirigiram a Perge para atravessar os terrenos pantanosos e escalar as montanhas de Tauro para chegar à Antioquia, Marcos não teve coragem para enfrentar tantas dificuldades e retornou a Jerusalém.

Novamente, em 49, encontrou-se com Barnabé e Paulo, que retornavam a Jerusalém para resolver com os apóstolos a espinhosa questão dos cristãos vindos do paganismo sem se submeter às práticas da Lei mosaica, e soube de quantas maravilhas aconteceram naquelas regiões, de que tanto tinha medo.

Tomou coragem de novo e foi com eles para Antioquia. Quando Paulo e Barnabé prepararam uma outra viagem apostólica para visitar e confirmar as jovens comunidades cristãs, Marcos se ofereceu de novo para acompanhá-los, mas encontrou a rejeição determinada e absoluta de Paulo, que não queria levá-lo, pois ele poderia se tornar um impedimento para a realização de seu programa. Finalmente, ficou decidido que Paulo partiria para a Ásia Menor acompanhado de um outro discípulo, Silas, mais habituado às canseiras, enquanto Barnabé iria a Cipro com Marcos.

Sabemos pelas cartas paulinas que mais tarde Marcos se tornou um fidelíssimo colaborador de Paulo e não teve medo de segui-lo até Roma. Em 61, de fato, estava junto com o Apóstolo que estava preso esperando para ser julgado. Naquela ocasião, Paulo escrevendo aos colossenses, mandou saudações de “Marcos, primo de Barnabé”, e acrescentou: “Se este for ter convosco, acolhei-o bem”.

Paulo ainda falou a respeito de Marcos na segunda vez que foi preso em Roma. Escrevendo a Timóteo, que se encontrava em Éfeso e lhe pedindo que viesse a Roma para ajudá-lo, pediu: “Toma contigo Marcos e traze-o, porque me é útil para o ministério”.

Talvez tenha chegado a tempo de rever o apóstolo dos pagãos e para assistir a seu martírio, mas certamente permaneceu na cidade dos Césares e se colocou a serviço de Pedro, que naquela época também estava na capital do império, e foi-lhe particularmente “útil no ministério”, como seu intérprete.

Segundo uma tradição antiquíssima, Pedro, quando viu que a comunidade estava bem consolidada na fé, enviou o seu caríssimo discípulo à Alexandria do Egito. Lá Marcos teria fundado a igreja e encontrado o martírio. Suas relíquias foram guardadas cuidadosamente pelos cristãos do Egito até o ano de 1419, quando os venezianos, com o pretexto de protegê-las contra o perigo de cair nas mãos dos muçulmanos e de se perderem, acabaram trazendo-as para sua cidade. Hoje elas se encontram na belíssima basílica que traz exatamente o mesmo título de São Marcos.

SEU EVANGELHO

Mas a obra mais bela que Marcos nos deixou é sem dúvida alguma o seu evangelho, considerado atualmente o mais antigo. Ele não viveu com Jesus desde o início como os outros apóstolos, “mas” - escreve Vaccari - “como foi colaborador de Pedro na pregação do Evangelho, assim também foi intérprete e porta-voz autorizado na composição do mesmo e por meio deste nos transmitiu a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele pregava aos primeiros cristãos, especialmente na Igreja de Roma”.

Seu estilo não é absolutamente refinado, mas simples e imediato. Marcos escreve quanto escutou ou viu sem se preocupar com a ordem cronológica dos fatos e sem esconder as fraquezas dos apóstolos, nem mesmo as de Pedro, a quem amava com um amor filial. Por isso o seu evangelho é particularmente agradável.

Não só ele teve a coragem de descrever até o que o Crucificado, antes de morrer, “gritou com voz forte: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, quase como se houvesse uma ruptura entre ele e o Pai, mas logo depois há uma alegria em demonstrar a conversão do centurião aos pés da cruz. Este, de fato, contemplando aquele que no momento não demonstrava nenhum sinal triunfal da sua divindade, antes tinha morrido, esquecido pelo céu e desprezado pela terra, havia exclamado: “Este homem era realmente o filho de Deus!”

Não seria aquela a profissão de fé que daquela hora em diante afloraria frequentemente aos lábios de muitos na Roma dos Césares pela pregação de Pedro e Paulo? Valia a pena registrá-la em seu evangelho, não só por seu profundo significado, mas também porque o primeiro a pronunciá-la foi, de fato, um soldado romano.

_________________________________________

[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

mar 01

SANTAS DO MÊS: PERPÉTUA E FELICIDADE

SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE

AS SANTAS DO MÊS DE MARÇO –

*Frei Alberto Beckhäuser, ofm –

7 de março

Santas Perpétua e Felicidademártires

Com outros companheiros, Perpétua e Felicidade sofreram o martírio em Cartago, atual Tunísia, no ano de 202. Um decreto do imperador Setímio Se­vero, que atingia, sobretudo, os que se preparavam para o batismo, levou à prisão vários catecúmenos do norte da África. Entre eles se achavam a escrava Felicidade e sua nobre senhora Víbia Perpétua. Felicidade estava no oitavo mês de gravidez e Perpétua tinha um filho de colo. Todos foram levados a Cartago, onde foram martirizados.

Possuímos uma peça literária de comovente beleza, denominada Paixão de Santa Perpétua, que conta a história dos últimos dias das jovens mártires, bem como o martírio junto com os demais catecúmenos de um diácono que batizou os catecúmenos na eminência do martírio. Estas Atas do martírio constituem um dos documentos mais realistas e emocionantes do cristianismo primitivo. Elas englobam notas autobiográficas que Perpétua escreveu na prisão. Comovente, sobretudo, o duelo entre o amor filial e o paterno e as exigências da fé em Cristo, quando o pai pagão fez de tudo para demovê-la do martírio.

Os homens catecúmenos com o diácono Sáturo foram atirados às feras e estraçalhados por elas até a morte. Perpétua e Felicidade, que dera à luz uma menina na prisão, foram atiradas à arena para serem atacadas por uma vaca furiosa que as devia levar à morte. Perpétua, lançada aos ares pela vaca brava, caiu de costas. Levantou-se logo e, vendo Felicidade caída, aproximou-se e deu-lhe a mão para erguê-la. Ficaram então de pé, rezando, até o momento em que foram degoladas.

As Atas das mártires terminam com estas palavras: “Os que foram testemunhas destes fatos lembrar-se-ão da glória do Senhor, e aqueles que deles tiverem conhecimento por esta narrativa estarão em comunhão com os santos mártires e por intermédio deles com Jesus Cristo, Nosso Senhor, para quem são a honra e a glória pelos séculos”.

O registro da paixão de Santa Perpétua e de Santa Felicidade e seus companheiros constitui um dos maiores tesouros hagiológicos que chegaram até nós. No século IV, essas Atas eram lidas publicamente nas igrejas da África.

As santas Perpétua e Felicidade figuram no Cânon romano (I Oração eucarística). O que indica a alta veneração de que gozaram na Antiguidade.

Podemos realçar vários aspectos do testemunho dessas mártires. A dignidade e a importância em que eram tidos os catecúmenos na Igreja primitiva. Quem está a caminho dos sacramentos da Iniciação cristã já são considerados membros da Igreja. Diz a Introdução Geral do Ritual do Batismo de Adultos: “Desde então (isto é, desde o rito de instituição) os catecúmenos, cercados pelo amor e a proteção da Mãe Igreja como pertencendo aos seus e unidos a ela, já fazem parte da família de Cristo; são alimentados pela Igreja com a Palavra de Deus e incentivados por atos litúrgicos. Tenham a peito, portanto, participar da liturgia da Palavra e receber as bênçãos e os sacramentais. Quando se casam, se o noivo e a noiva forem catecúmenos, ou apenas um deles e a outra parte não foi batizada, será usado o rito próprio. Se falecerem durante o catecumenato, realizam-se exéquias cristãs” (n. 18). Podemos dizer que eles já estão justificados pela fé.

Um segundo ponto a realçar é o combate da paixão. O martírio constitui um combate com Cristo contra os inimigos da fé, contra todas as forças do mal. Quando se fala da paixão dos mártires, ela compreende todos os sofrimentos suportados por causa da fé em Cristo Jesus. Ela inclui a própria morte. Os sofrimentos da paixão constituem a confessio, a confissão da fé. Se os catecúmenos ainda não forem batizados, eles são batizados pela paixão, isto é, pelo batismo de sangue.

Uma terceira observação. O batismo de sangue, o martírio não se apresenta como privilégio dos homens considerados fortes no combate. No martírio, particularmente das mulheres, manifesta-se a força do testemunho no poder do Espírito Santo. Esta força vem expressa na Oração coleta: Ó Deus, pelo vosso amor, as mártires Perpétua e Felicidade resistiram aos perseguidores e superaram as torturas do martírio. Pelo amor a Deus, a exemplo das mártires, possamos crescer constantemente na caridade.

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*BECKHÄUSER, Frei Alberto, ofm. OS SANTOS NA LITURGIA – Testemunhas de Cristo. Petrópolis. Vozes: 2013. 391 págs.

dez 04

O SANTO DO MÊS

imaculada-conceicao

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA –

O mês de DEZEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 8, celebramos a Imaculada Conceição. Para tanto, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão sempre vivos e vivas no devocionário popular. No caso, Maria Santíssima, com o Mistério da Sagrada Conceição, tornou-se para todos nós, assim como o foi para todos os Santos, modelo de humildade, de serviço, de obediência e de fidelidade ao Pai, cumprindo com a missão recebida por intermédio do anjo Gabriel. Diz Dom Servílio Conti:

“Hoje não ocorre a memória de nenhum santo, mas a solenidade mais alta e mais preciosa daquela que é chamada a Rainha de Todos os Santos, Maria Santíssima, no mistério de sua Imaculada Conceição. Esta verdade foi proclamada solenemente em 1854, mas a história da devoção a Maria Imaculada é muito mais antiga. Precede de séculos, antes de quase dois milênios, à proclamação do dogma, que, como sempre, não introduziu novidade alguma, mas simplesmente reconheceu uma antiquíssima tradição.

Muitos padres e doutores da Igreja oriental ao exaltar a grandeza de Maria, Mãe de Deus, tinham usado expressões que a colocavam acima do pecado original. Chamavam-na de intemerata, toda bela e formosa, a cheia de graças, o lírio da inocência, a mais pura que os anjos, mais esplendorosa do que o sol. Na Igreja ocidental, a doutrina da Imaculada Conceição encontrava certa resistência, não por aversão a Nossa Senhora, que sempre foi exaltada como a mais sublime de todas as criaturas, mas para salvaguardar a doutrina da redenção operada por Cristo em favor de todas as criaturas.

Duns Scoto, grande teólogo do século XIII, encontrou um silogismo que solucionava a dificuldade de admitir que também Nossa Senhora, como filha de Adão e Eva, devia estar sujeita ao pecado original, mas que foi dele preservada, em previsão dos méritos de Cristo, com antecipada aplicação da redenção universal de Jesus. Era sumamente conveniente que Deus preservasse Maria do pecado original, pois ela era destinada a ser mãe do seu filho. Isso era possível para a onipotência de Deus; portanto, Deus, de fato, a preservou, antecipando-lhe os frutos da redenção de Cristo.

Perante esta sutil, mas irretorquível argumentação, os teólogos concordaram em aceitar esta doutrina. De fato, desde 1300 a doutrina da Imaculada Conceição de Maria no seio materno fez rápidos progressos na consciência dos fiéis, induzindo a Igreja a introduzir no calendário romano já no século XV a festa da Conceição Imaculada de Maria.

José de Anchieta foi o apóstolo desta doutrina no Brasil, que desde o início da colonização dedicou a este mistério inúmeras igrejas, inclusive 35 catedrais.

Em 1830 Nossa Senhora apareceu a Catarina Labouré mandando cunhar uma medalha com a efígie da Imaculada e as palavras: “Maria concebida sem pecado, rogai por nós”. Esta medalha, difundida aos milhões em todo o mundo, suscitou grande devoção a Maria Imaculada, induzindo muitíssimos bispos a solicitar ao papa a definição do dogma que já estava sendo vivido nos corações dos fiéis. Assim, no dia 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou Maria isenta do pecado original, desde o primeiro instante de sua existência no seio de sua mãe, e isso por força de uma antecipada aplicação dos frutos da redenção de Cristo.

Quatro anos mais tarde, as aparições de Lourdes foram prodigiosa confirmação do dogma. De fato, Maria proclamou-se explicitamente com a prova de incontáveis milagres: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Deus quis preparar ao seu Filho uma digna habitação. Cheia de graça, ainda no seio materno, Maria foi concebida sem a mancha do orgulho e do desamor que é o pecado. Em vista disso, a Imaculada foi a primeira a receber a plenitude da bênção de Deus que se manifestou na morte e na ressurreição de Cristo.

Maria, na sua fidelidade ao projeto de Deus, na sua vocação de mãe do Salvador, nos ensina o caminho da santidade; por isso a Igreja hoje nos manda rezar: “Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão”.

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.
 

nov 03

O SANTO DO MÊS

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SÃO LEÃO MAGNO

            O mês de NOVEMBRO é marcante para a história do catolicismo porque, neste mês, mais precisamente no dia 10, festejamos São Leão Magno, um dos maiores e mais importantes Papas da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo. Por esta razão, mais uma vez, estamos nos valendo das santas e sábias palavras do saudoso Dom Servílio Conti[1] a quem, no decurso de todo o ano, recorremos para trazer para nossos assíduos leitores um pouco do conhecimento acerca da vida, da trajetória e da obra dos santos e das santas que, não apenas marcaram época, mas, que estão muito vivos e vivas no devocionário popular.

            “Célebre na história da Igreja pelo seu profundo saber, pelas extraordinárias virtudes e brilhante governo, São Leão foi, sem dúvida, o maior papa dos primeiros séculos da era cristã.

            Pouco se sabe de sua vida anterior ao pontificado. Nasceu por volta do ano 395 em Roma e ingressou, jovem ainda, no clero romano. Após ter desempenhado delicadas missões sob o pontificado do Papa Sisto III, foi escolhido para sucedê-lo, em agosto de 440. Os tempos eram então muito conturbados. O Império Romano esfacelava-se progressivamente perante as hordas de invasores bárbaros, ávidos de saques. Também a Igreja vivia agitada por questões internas, sobretudo de cunho doutrinai. Num século sentiu-se sacudida por quatro grandes heresias: O arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo e o monofisismo, que deixaram feridas profundas. O nome do Papa Leão está intimamente ligado à luta contra o monofisismo, heresia propalada pelo Monge Eutiques, que sustentava haver em Cristo não duas naturezas, mas uma só, a divina, que teria absorvido em si a natureza humana. Negavam-se assim as características da humanidade de Cristo.

            Estando a par das agitações doutrinárias do Oriente, Leão dirigiu ao patriarca de Constantinopla a célebre Carta dogmática a Flaviano, na qual expunha a doutrina ortodoxa sobre as duas naturezas, divina e humana, existentes na única pessoa de Cristo, Filho de Deus.

            No Concilio de Calcedônia, em 451, onde foi condenado o monofisismo, os padres conciliares ouviram a carta do Papa Leão e exclamaram: “Pedro falou pela boca de Leão”. Era uma confissão de fé por parte dos 600 bispos, no primado do papa, em matéria doutrinai.

            “Marcante ficou também na história da Itália a atitude do Papa Leão frente aos invasores hunos guiados pelo terrível Atila, chamado o flagelo de Deus. Vencidas todas as resistências do Império Romano e as defesas naturais dos Alpes, Átila invadira o norte da Itália destruindo tudo a ferro e fogo. O papa saiu-lhe ao encontro, e tanto foi seu prestígio e eloquência, que Átila desistiu de sua ameaça de destruir a Itália e Roma. Três anos depois, em 455, outro chefe bárbaro, Genserico, à frente dos vândalos, depois de devastar o norte da África, desembarcou na Itália e entrou em Roma. Desta vez o papa conseguiu apenas que se poupassem as vidas e não se ateasse fogo à Cidade Eterna. Nesta emergência, o bispo de Roma já surgia praticamente como suprema autoridade, até no campo social”.

            Grande foi a atuação do Papa Leão como chefe espiritual da cristandade. Pela oração, pelo exemplo e, sobretudo, por seus sábios escritos, concorreu para consolidar a disciplina eclesiástica, elevar os costumes do povo, conservar a ortodoxia da fé e aperfeiçoar o culto litúrgico em todo o Ocidente. Célebres ficaram seus sermões, pronunciados em latim clássico, proferidos nas solenidades do ano litúrgico. Destes sermões, verdadeiros modelos de eloquência cristã, se conservam mais de 100 que, junto com as 143 cartas, são documentos preciosos para a história e o dogma.

            Num dos seus sermões natalinos o Papa Leão comentava: “Nosso Senhor, amados filhos, nasceu hoje como Salvador: alegremo-nos. Não pode haver tristeza quando nasce a vida... O Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu Criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que ele antes vencera. Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo”.

            O Papa Leão faleceu no ano 461, e a posteridade brindou-o com o título de Magno, pois por justas razões foi ele o mais insigne papa anterior à queda do Império Romano Ocidental e, inclusive, o que por mais tempo dirigiu a Igreja Romana até aquele período."

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[1] CONTI, Dom Servílio, I.C.M. – O Santo do Dia – 10ª Edição. Petrópolis. Vozes: 2006. 711 páginas.

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