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Sementes de vida, ������© tempo de semear

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dez 31

EDITORIAL DA SEMANA: O QUE MUDA DE HOJE PARA AMANHÃ?!

ANO DE 2019

O QUE ESPERAR DO ANO QUE ESTÁ CHEGANDO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Para nós é quase uma doença incurável: ao final de 365 dias ininterruptos, impreterivelmente, findamos um ciclo, que chamamos de “ano”, e iniciamos outro, que chamamos de “ano novo”, acreditando sinceramente que tudo poderá ser muito diferente do que foi até o último dia daquele ano pesado que acaba de ficar, definitivamente, no passado das nossas vidas. É assim na vida de todos nós, humanos, e, pelo visto, continuará sendo assim até que alguém, talvez de Marte, ensine fórmula mais sábia e mais inteligente para alterarmos nossas expectativas de vida. Enquanto nada muda em relação à fórmula, vamos caminhando e acreditando (viva a fé!) que o ano que chega é bastante promissor e que tudo o que de pior aconteceu no ano findo, não será repetido doravante. Desse modo, de esperança em esperança, vamos alimentando o sistema capitalista que, este sim, promete prosperar cada vez mais, enquanto assistimos, felizes até, a chegada dos cabelos brancos, das rugas, dos netos e bisnetos e vamos acompanhando, lenta e progressivamente, a partida dos parentes e amigos, percebendo que, à frente, a fila está cada vez menor, significando que, em breve, nosso número será chamado às contas finais.

Não havendo outra solução para o dilema da contagem do tempo, e não podendo ficar parados, boquiabertos, olhando para trás e para frente sem retrospectivas e sem novas expectativas, precisamos seguir em frente, acreditando (sempre a fé!) que a partir do primeiro dia do novo ano, tudo será encaminhado para a chegada de dias muito iluminados, cheios de vitórias, de sucessos, de saúde, paz, harmonia e tudo o mais que, quase que de forma automática, desejamos uns para os outros.

O ano de 2018 não foge à regra! Agora, olhando para trás, vemo-lo como um ano terrível, cheio de armadilhas, trapaças, mentiras, violências múltiplas, fome, doença, perda de empregos, perda de vidas, inocentes ou não, derrota em mais uma copa do mundo e, também, derrota de um sistema político impregnado de mazelas e de malfeitos. Tudo isso, com o acréscimo das decepções e das desilusões que, ao fim de tudo, cai sobre muitos de nós, em relação a tudo o que nos cerca.

Mas, o que temos, senão a fé (sempre a fé!), para acreditarmos que o ano de 2019 será bem diferente? Quem garante que o ano que se aproxima não trará as mesmas armadilhas, mentiras, violências múltiplas, fome, doença, perda de empregos e de vidas, inocentes ou não, ou mesmo as decepções e desilusões com o “novo sistema político” que se pretende solucionador de problemas estruturais? Nada ou ninguém pode garantir coisa alguma. Até porque, mudam-se os cenários e os palcos, mudam-se até os locais em que as peças são encenadas sem, no entanto, mudarem os atores e seus instintos que, por mais que se mostrem diferentes são, na essência, absolutamente iguais a todos os demais que, vez por outra, entram em cena como coadjuvantes ou como atores principais.

Assim, o que esperar do ano que se aproxima? Em tese, nada! Na prática, porém, há que se esperar que cada cidadão e cada cidadã (respeitados todos os gêneros), façam a necessária introspecção, a fim de apurar falhas no sistema operacional individual, a partir do qual corpo e alma agem isolada ou coletivamente, criando, recriando, renovando ou mesmo impedindo, novas formas de vida e de convivência, donde, certamente, resultados – positivos ou negativos – serão obtidos e, aí sim, poderão fazer a grande diferença em relação ao ano que escorregou pela ladeira do passado.

Não é de se esperar, nem é bom que assim seja, que governos criem condições melhores de vida; que façam justiça social; que acabem com a violência; que elaborem políticas solidárias capazes de suprirem as necessidades dos mais pobres e mais necessitados; que inviabilizem projetos contra a vida; que façam, enfim, o sol brilhar dia e noite sobre todos.

É preciso que a esperança nasça dentro de cada um de nós, fazendo-nos portadores das sementes das mudanças que queremos. É preciso entender que nós, seres humanos, somos capazes de, unidos em torno de um mesmo ideal, mudar tudo, em todos os lugares, independentemente, do grupo político que chega prometendo mundos e fundos e que todos nós, por experiência própria, sabemos que, o pouco que for feito será, com quase toda certeza, contra os interesses da maioria de nós todos.

Dessa forma, o ano que está chegando só será realmente bom e promissor, se cada um de nós conseguir mudar a si próprio, respeitando mais o próximo em qualquer lugar ou circunstância; sendo solidário com os necessitados de quaisquer bens – materiais, espirituais, pessoais, sanitários ou educacionais; cumprir rigorosamente as leis e exigir que todos façam a mesma coisa, denunciando fraudadores, corruptos e corruptores; agir de forma ética em todos os lugares por onde passar; e, por fim, praticar o mais simples dos atos: não jogar lixo (inclusive, guimba de cigarros) nas ruas, nas calçadas e nos rios e riachos de todos os lugares.

Com tais propósitos, poderemos esperar um ano novo cheio de novidades e de esperanças. Entretanto, se fizermos a passagem do ano, acreditando que os políticos serão ou agirão de forma diferente; que os ministros do governo atuarão com o pensamento voltado para o bem estar do povo; que a justiça punirá os culpados e que absolverá os inocentes na exata medida dos delitos praticados; que os patrões darão mais valor aos seus empregados ou que estes zelarão mais pelo patrimônio dos patrões, chegaremos ao final do ano com as mesmas sensações de sempre: que o ano não foi bom, mas que, o ano novo será bem melhor. E assim, permaneceremos nesta roda que gira, gira mas que não consegue fazer o carro sair do lugar, ao passo que nós, sim, com o girar da roda, estamos caminhando lentamente para o fim, sem nunca termos tido a sensação das mudanças pelas quais esperamos durante toda a nossa existência.

A sugestão é para que cada um faça um sincero e honesto exame de consciência do modo de agir perante tudo e todos e que, ao final, proponha-se o desafio da mudança íntima e pessoal, a partir do que, nova esperança brotará em cada coração, e aí sim, esperar que o ano novo seja muito diferente daquele que passou. Pense sobre isto, reflita e desafie-se. Tudo depende de você, não do governo, dos políticos, do sistema capitalista ou do socialista. Não da alta do dólar ou da bolsa de valores. Lembre-se: as rodas estão aí, e giram para o lado que for determinado por alguém. Enquanto este alguém for o outro, você assistirá as mudanças na vida dele. Quando você fizer as rodas girarem para o lado que desejar, então, suas expectativas e esperanças se tornarão realidades e, com o ano novo, chegará, também, uma nova forma de vida, mais feliz e muito mais promissora. Que 2019 surja na sua vida como um verdadeiro e excelente Ano Novo. Seja feliz, e boa sorte!.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

dez 24

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ

A LUZ INTERIOR

NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tema não é novo em nossos escritos, mas, decidimos voltar a ele porque parece-nos ser de grande importância o aprofundamento em torno de uma questão vital para o ser humano: a presença constante do Espírito de Deus, no templo sagrado da criatura humana.

É importante repetir a sentença divina proferida após a criação do homem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18), ainda que, na sequência, o narrador bíblico atribua ao Criador as palavras “façamos-lhe uma semelhante a ele” tendo, então, da costela do homem, formado a mulher.

A situação vivida por Adão e Eva, a questão do “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, assim como a ingestão do fruto proibido, até a expulsão do Paraíso, são suficientemente conhecidas por todos nós e, caso não, é só ler o final do capítulo 2 e o capítulo 3 do Livro do Gênesis para inteirar-se de tudo.

O que realmente chama a nossa atenção na frase: “Não é bom que o homem esteja só”, é o procedimento de Deus a partir de então, em relação àquele homem que, se no primeiro momento, encanta o Criador, em seguida decepciona-O ao ponto de expulsá-los (homem e mulher) do Paraíso Terrestre. Pois, já um pouco antes da expulsão, Deus tece “túnicas de peles” e veste-os, para que não saíam completamente nus, totalmente desamparados. Foram embora daquele oásis, mas, levaram consigo a preocupação, o carinho e, certamente, o Espírito de Deus.

De dois filhos – Caim e Abel – que nascem de Adão e Eva, o Senhor valoriza mais a produção de Abel, que é pastor, o que foi suficiente para atrair a ira de Caim, lavrador que, enciumado, arma uma trama e mata o irmão, manchando a terra, pela primeira vez, com o sangue inocente. Pois nem assim, Deus se afasta e, num gesto de extrema bondade, aproxima-se de Caim e, depois de ouvir-lhe a confissão do crime que acabara de cometer, coloca nele um sinal para que, “qualquer um que matar Caim será castigado sete vezes mais” (Gn 4, 15-16) e Caim sai do lugar e vai tocar sua vida.

E o narrador bíblico conta que o Senhor deu ao primeiro casal a graça de gerarem um outro filho, para o lugar de Abel. Ora, o que percebemos já nestas poucas linhas é que Deus expulsa o ser humano do Paraíso Terrestre, mas, vai atrás dele, para acudi-lo nos momentos mais difíceis, cumprindo o que havia pressentido desde o início: “Não é bom que o homem esteja só”.

Na narrativa sobre o dilúvio – real ou mito – Deus fala diretamente com o ancião Noé porque, preocupado em manter intacta aquela família abençoada e mais todas as espécies criadas, dá as coordenadas para a construção de uma enorme Arca na qual, de cada espécie, um casal, além da esposa e dos filhos e noras de Noé, todos ficariam abrigados da fúria das águas que caíram tenebrosamente durante quarenta dias e quarenta noites (Gn 6, 9-22.7, 1-12), levando o extermínio a tudo o que se movia sobre a terra, tanto homens quanto animais. Depois da devastação pelas águas, que cobriram toda a terra por cento e cinquenta dias (Gn 7,27), Deus coloca-se ao lado de Noé, da família e de todas as espécies salvas, abençoa-os e diz: “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 9,1).

A Bíblia não omite nenhuma passagem na qual o Senhor está presente ao lado dos seres humanos. Nós é que, para encurtar caminhos, damos aqui alguns saltos. Assim, bem mais tarde, vamos encontrar o Criador falando a Abraão (que no início tinha o nome de Abrão), com quem, a exemplo do ocorrido com Noé, faz aliança. Com Abraão é diferente. Primeiro Deus fala com ele e manda-o sair da terra, de perto do pai e dos parentes, para ir rumo a uma terra ainda a ser designada. De tanta confiança, Abraão segue a ordem do Criador. Mas, a vida de Abraão é marcada, principalmente, pela ausência de uma prole, que Deus insiste e assegurar-lhe, será mais extensa do que as estrelas do céu e do que os grãos de areia das praias. Para consolidar ainda mais a promessa, Deus envia três anjos a Abraão, no Vale de Mambré e ali, o Senhor assegura ao ancião que em um ano, Sara, a estéril, dará à luz um filho do Patriarca.

Aqui, ao custo da redução do texto, vale lembrar o quanto Abraão deve ter se sentido solitário, ouvindo a voz de Deus constantemente, fazendo-lhe promessas de uma posteridade incontável, mesmo sendo marido, e velho, de uma estéril. Mas, o Senhor não o deixa “só”, envia-lhe os três anjos com ordem e poder para assegurar-lhe que tudo seria cumprido a seu tempo.

Não bastasse a presença dos anjos, portadores de boas notícias, Abraão decide interceder pelo povo de Sodoma e de Gomorra (Gn 18,16-33), travando uma insistente intercessão por uma gente já marcada para ser dizimada. Deus é companheiro e é paciente!

Também por nós não é desconhecida a passagem em que Moisés, “solitário” na montanha, na condução do rebanho do sogro, pressente a presença do Criador, nas chamas inextinguíveis da sarça. Inebriado com o trabalho e, possivelmente, meditando sobre sua vida, Moisés aproxima-se da sarça ardente  e ouve a voz que chama-o pelo nome: “Moisés, Moisés” (Ex 3,4) e, a partir de então, ambos andarão juntos, na condução de todo um povo escolhido: na saída do Egito; na travessia do Mar Vermelho; no Maná no deserto; na água do rochedo; nas codornizes; a nuvem e a coluna de fogo; as tábuas da Lei. Sempre a presença de Deus, impedindo que o homem esteja só”.

O Profeta Samuel, ainda menino-adolescente, sozinho em seu ambiente de dormir, no templo do Senhor, ainda sob os cuidados do sacerdote Heli, tem o sono interrompido pela voz de Deus que, sucessivamente, chama-o pelo nome: “Samuel, Samuel” (ISm 3,3.6) e que, conforme pressentido por Heli, fará de Samuel um grande profeta e com ele andará por toda a vida, fazendo o mesmo com inúmeros outros profetas que, cada qual no seu tempo, são interpelados pelo Senhor que, não apenas se revela presente, mas, e, sobretudo, caminha com eles na direção, na condução e no ensinamento do povo escolhido.

Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor e, Ele mesmo, se faz presença na vida deste homem. Ele próprio se apresenta diante do ser humano como que para dizer: estou aqui, em ti e contigo. Vamos avante, sem medo!

Estes são apenas uns poucos exemplos. A Bíblia está repleta com muitos e muitos outros exemplos da presença, e da comunicação direta de Deus, junto ao ser humano, homens e mulheres, de forma indiscriminada.

Mesmo mais tarde, quando do mistério da encarnação, Deus se faz representar pelo anjo junto a Maria e, pela virtude do Espírito Santo, na concepção da Virgem.

Revelando-se, e revelado, como Pai, Deus se faz presente junto ao Filho que, na condição plenamente humana submete-se ao batismo, no Jordão. Mais tarde, o mesmo Deus se manifesta no monte Tabor, quando da transfiguração de Jesus. Sempre o mesmo Deus zeloso, presente, amoroso e paciente.

Ele jamais deixa o homem sozinho porque, como sempre, entende não ser bom que o homem esteja só. Confiantes nesta presença constante e permanente, em todas as nossas atribulações, podemos e devemos contar com o Deus que habita em nós, templos vivos do Espírito Santo. Não falamos isso apenas com respaldo na fé, que pode ser colocada em dúvida, mas, acima de tudo, na palavra de Jesus, que é Deus. É Ele quem fala da presença que temos em nós e assegura-nos que, diante dos nossos embaraços, nada devemos temer, “Porque o Espírito Santo vos ensinará, naquele momento, o que deveis dizer” (Lc 12,11-12); depois, declara que, quando o Pai enviar o Espírito Santo “ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26); adiante, Jesus afirma que o Espírito Santo “vos guiará no caminho da verdade integral” (Jo 16, 13), destacando que, ainda que o mundo não o conheça, “vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (Jo 14,17)

O Capítulo 2 do Livro dos Atos do Apóstolos narra a descida do Espírito Santo, no primeiro Pentecostes depois da Ressurreição de Jesus.

Paulo, o Apóstolo tardio, vai exortar os cristãos de Corinto a manterem-se íntegros porque, questiona-os Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá. Com efeito, é santo o templo de Deus, que vós sois” (ICor 3, 16-17).

A pergunta frequente quando tratamos sobre esta habitação divina no ser humano é se o Espírito habita em todos, de forma indiscriminada. O Apóstolo Paulo é quem elucida a questão, ao responder aos cristãos de Tessalônica: “Em verdade Deus não nos chamou para a imundície, mas para a santidade. Aquele, pois, que despreza isto, não despreza um homem, mas Deus, que também deu o seu Espírito Santo para habitar em nós” (Its 4, 7-8).

E, se ainda assim, alguma dúvida permanece, é bom confiar na mensagem do Evangelho de João, onde está escrito que Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, o templo do Espírito Santo deve estar conformado à Palavra e aos ensinamentos divinos, tendo no homem um fiel seguidor, a fim de que mais e mais possa sentir em si a divina presença, não apenas mediante sucessivas vitórias, mas, e, sobretudo, na portabilidade das virtudes espirituais, armas com as quais é possível enfrentar todas as intempéries. E assim, e de modo efusivo, dar cumprimento à vontade de Deus: Não é bom que o homem esteja só”.

Reflita sobre este texto e perceba que Deus não acha bom que estejas só. Ele quer estar contigo, quer caminhar ao teu lado, quer habitar em ti, quer ouvir tua voz e quer falar contigo e, então, somente Nele esperarás. E, os que Nele esperam, “adquirirão sempre novas forças, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão” (Is 40, 31). Pense sobre isto, creia e não permita que o seu templo interior fique ou permaneça desabitado. Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

dez 19

CONVITE À REFLEXÃO: VOCÊ USA MÁSCARAS?

MÁSCARAS

O DELIBERADO USO DE MÁSCARAS: PERDA DA ORIGINALIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura – 

Existem algumas questões envolvendo os seres humanos, nós todos, portanto, que chamam a atenção para a prática de atos, ou até mesmo para as formas de vida adotadas, parecendo-nos, em muitos casos, estarmos vivendo ao lado de seres de outros planetas, de outras galáxias!

Quantas vezes não nos interrogamos acerca dos porquês, das razões que levam estes ou aqueles a agirem da forma que agem ou a praticarem os atos que praticam? Em quantas oportunidades não nos decepcionamos com a forma com que pessoas conhecidas ou muito próximas, parentes mesmo, agem na vida e na relação com os demais semelhantes? E quanto a nós mesmos: quantas atitudes tomamos que, mais tarde, ao olharmos para trás, questionamos as razões que nos levaram a agir de tal ou qual forma?

Estas questões podem parecer simples, de fácil compreensão, quando nos valemos da vala comum do “somos humanos”, de “matéria frágil” ou mesmo do “todo mundo tem defeitos” ou, ainda, “o ser humano é complexo mesmo” e por aí vai. Na verdade, o que se percebe de forma bastante clara e evidente, é que, sabendo-nos propensos aos mesmos erros e acertos uns dos outros, procuramos adotar procedimentos defensivos que, a qualquer momento e em qualquer circunstância, podem socorrer também a nós.

Entretanto, algumas reflexões impõem-se pela necessidade de tentarmos compreender um pouco mais as razões que afastam-nos das nossas próprias origens. Somos nascidos em condições bastante favoráveis para uma vida simples, humilde e plenamente capaz de possibilitar-nos uma convivência humanizada com todos os nossos semelhantes. Temos, em acréscimo, e para os que creem, uma origem primitiva divina, donde trazemos em nosso DNA espiritual a imagem e a semelhança do Criador. Então, é de se questionar: o que ocorre conosco que, não muitos anos depois do jubiloso nascimento, estamos total, absolutamente, e muitas vezes absurdamente, mudados?

Não existem respostas fáceis e definitivas, quando assunto é o ser humano. Existem, no entanto, possibilidades. Umas, absurdas e sem qualquer conexão com a realidade e, outras, no entanto, mais razoáveis e, portanto, mais plausíveis.

Nossos irmãos gregos (os da antiguidade) criaram para si e para a cultura então vivida, o valioso instrumento da máscara. Peça utilizada nas celebrações devotadas ao deus grego do vinho, da festa e da fecundidade, Dionísio que, na mitologia romana é conhecido como Baco. Por meio de tais instrumentos, devidamente colocados à frente do rosto, transformando toda a aparência facial, eram produzidas peças teatrais envolvendo a tragédia ou a comédia. Por trás da máscara, uma pessoa comum, que nada tinha a ver com o representado. A máscara, no entanto, dava o tom daquele que estava sendo trazido a público para ser conhecido e traduzido em toda a sua pujança, para o bem, para o mal ou mesmo para a diversão e a alegria, sem revelar, de forma alguma, a verdadeira identidade da “persona” que a ostentava.

Se fizermos uma pequena, mas significativa, comparação com o que vivemos nos dias que correm, chegaremos à conclusão de que o ser humano de hoje vale-se do mesmo instrumento, com uma pequena diferença: hoje, a máscara é interna. Não mais esconde o rosto físico, mas, o psíquico. Assim, vamos encontrar pessoas, conhecidas nossas. Bastante conhecidas. Pessoas que conhecemos, às vezes, desde que nasceram, mas, que, infelizmente, pelas máscaras psíquicas que adotaram para as suas vidas, não conseguimos mais identifica-las com aquelas com as quais, no passado, tínhamos ou mantínhamos uma relação tão frutífera, tão saudável e tão promissora. Aqui, lamentavelmente, estamos falando da quase totalidade da humanidade.

Pessoas que, por razões diversas e muitas vezes desconhecidas, adotam as máscaras da seriedade. Uma seriedade que não ostentavam na juventude. Eram alegres, brincalhonas, acessíveis mas que, agora, são sérias, mal humoradas, fechadas em si e indispostas para o diálogo.

Pessoas que adotaram a máscara do poder. Em razão de um cargo ou de uma função pública de relevo, acreditam-se superiores a todos os demais seres humanos. Acreditam piamente serem dotadas de potencial decisório, com carga suficiente para explodir tudo à sua volta, num simples piscar d’olhos. A máscara do poder decorre, também, e em muitos casos, do acesso fácil ao dinheiro e à riqueza, assim como do acúmulo de patrimônio. Aquele ou aquela que detém os cofres bancários cheios de grana ou d’outra forma, possuem patrimônio vistoso, acreditam “poderem” absolutamente tudo e, por conseguinte, nada temem – nem a justiça divina, nem a dos homens!

Pessoas que adotam as máscaras do conhecimento, em razão do grau acadêmico que obtiveram, dos cursos dos quais participaram nas mais diversas universidades e centros acadêmicos do mundo contemporâneo. Outras, sem qualquer reconhecimento da realidade na qual estão mergulhadas, não têm muito o que ostentar, mas, ainda assim, querem aparecer para o mundo exterior como profundas conhecedoras de todo o universo científico que gira ao redor de si.

Há que  se recordar, ainda, das máscaras da santidade, da bondade e da caridade, da benevolência, da mansidão, da justiça social, da ética, do respeito aos direitos alheios, da humildade e da simplicidade. Das máscaras da democracia, do perdão, da fé, da vida em comunidade. Enfim, diversas máscaras adotadas pelos seres humanos, utilizadas com a finalidade de aparecerem diante dos mascarados da plateia, de uma forma totalmente falsa, farsante e fraudulenta, com o propósito de serem ao mesmo tempo, confusos e confundidos.

Máscaras que fazem-nos totalmente diferentes daquilo que, realmente, somos desde a origem, retirando de nós a capacidade de sermos simples, humildes, pacíficos, risonhos, abertos, alegres e espontâneos como as crianças. Máscaras que rasgam a nossa inocência espiritual, levando-nos à descrença em tudo e em todos; que rompem com o sentido do perdão, fazendo-nos buscadores da vingança, legal ou pessoal; que aniquilam o sentimento original do amor, dando lugar à paixão e ao ódio; que impedem o convívio com os nossos iguais sem qualquer forma de discriminação, levando-nos a segregar, a sectarizar ou mesmo ao mais profundo isolamento. Máscaras que adotamos a partir de certo momento da vida e que, depois, acreditamos delas não termos mais condições de libertar-nos, por causa da sobre máscara do orgulho, da arrogância e da prepotência. Máscaras, máscaras e máscaras que arrebatam-nos das nossas origens e que nos arremessam para o mundo irreal da imortalidade, da eterna juventude, da onipotência humana, da ilimitada capacidade de ação e do pior de tudo, da total desconsideração para com o infalível relógio do tempo.

Todas estas máscaras, e mais algumas que podem ter ficado de fora, são as responsáveis diretas pela maioria das angústias por nós vividas. São elas que nos afastam do colo de Jesus, que acolhia com amor indizível a todas as criancinhas, e que fazem de nós os algozes do próprio Filho de Deus que, no Calvário, viu-se diante de turba furiosa e sedenta de sangue e de dor que, pouco depois, percebeu o erro cometido – “na verdade este homem era justo” (Lc 23, 47).

Por fim, muitas e muitas histórias têm final feliz. São incontáveis os casos de queda ou de retirada das máscaras que, quando acontece, trazem paz, felicidade e completude para as, até então, vítimas de um teatro que, embora não sendo grego, é repleto de tragédia. Quando caem as máscaras que, como visto, hoje são psíquicas, sobressai o ser humano real, íntegro e plenamente capaz de ser reconhecido como imagem e semelhança do Criador. Um ser humano não mais parecido com o representado, mas, identificado com o realisticamente projetado por Deus para, no futuro, viver com e como Deus.

A sugestão é para que identifique a máscara que usa diante do mundo e das pessoas e, caso queira fazer uma experiência nova de vida, uma experiência promissora e avassaladora, retire e lance para longe de si tal máscara, e verá como tudo será muito diferente a partir de então. O tempo é sempre propício. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

dez 17

EDITORIAL DA SEMANA: SÃO JOÃO DE DEUS NÃO PODE SER CONFUNDIDO

SÃO JOÃO DE DEUSSÃO JOÃO DE DEUS NÃO PODE SER CONFUNDIDO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Nestes dias confusos e turbulentos pelos quais estamos passando é preciso, desde já, separar o joio do trigo, porque a fé das pessoas deve ser respeitada em toda a sua extensão, terrena e cósmica. Pessoas que adotam pseudônimos de santos(as) ou de quaisquer outros humanos que já tenham cumprido a missão terrena, precisam viver e agir em total conformidade com aqueles(as) dos quais adotaram o nome.

O caso da hora é o de alguém, contemporâneo nosso que, sabe-se lá por qual razão, decidiu usar o nome de “João de Deus” para, na sua lógica racional-espiritual, praticar o bem por meio de trabalhos mediúnicos. Até aí, nada demais! O problema surge quando, por trás do nome, existe uma personalidade que, verdade ou não, é envolvida em escândalos que, em termos nominais, mancha apenas o nome adotado. E o nome “João de Deus” é originário do Santo Português – São João de Deus – nascido a 08 de março de 1495, na Vila de Montemor-o-Novo, cidade portuguesa, no Distrito de Évora, região Alentejo. Santo que praticou o bem a partir do recolhimento, das ruas e praças, de pobres, abandonados e infestados por toda espécie de doença, do corpo e da alma.

A vida e a obra de São João de Deus não é contada apenas pelo povo de um lugarejo; nem ele vivia cercado de afagos de reis e de rainhas, ou mesmo de personalidades ricas e importantes de sua época. São João de Deus vivia e agia justamente nos locais onde a classe abastada fingia desconhecer; de  onde os sãos e remediados faziam questão de tomar distância. Não se podendo, portanto, confundir o São João de Deus português, que a todos acolhia com imenso carinho, preocupação e cuidado, com qualquer outra pessoa que decida adotar seu nome, ainda que para fazer o bem, porém, envolta em sérias suspeitas de desregramento e de desrespeito aos irmãos e irmãs que batem-lhe à porta.

João de Deus, o Santo, viveu na mais absoluta pobreza, fazendo da mendicância a profissão capaz de dar a ele e aos seus acolhidos, as condições básicas necessárias para a manutenção da vida e a busca pela cura do corpo e da alma.

Quem poderia imaginar, por exemplo, que o pequeno João de Deus, nascido em uma habitação modesta da Rua Verde, um dia diria para o mundo e para a história que “os doidos não devem ser tratados com pancadas e açoites, mas, sim, com brandura e boas palavras”?, ele mesmo, anos mais tarde, internado como louco, pelo simples fato de, no meio da praça de Bivarrambla, atirando-se de cara na lama, ter confessado diante de toda a gente, dizendo: “Tenho sido um pecador muito grande para com o meu Deus, e tenho-O ofendido nisto e naquilo. Ora, que merece um traidor que tal fez? – Que de todos seja ferido e maltratado, e tido pelo mais vil do mundo, e ser lançado na lama e no lodaçal, para onde se atiram as imundícies”[1].

Diante da gente irada com tais confissões, João sai correndo pelo lugarejo, perseguido pelo povaréu, até que, alguém dele se compadecendo, leva-o para o Hospital Real “onde recolhem e tratam os loucos da cidade”.

Na verdade, João Cidade não era louco; não estava louco, senão de amor por Deus e, por tal razão, profundamente arrependido por todos os pecados que a memória faziam-no recordar. Entretanto, ainda assim, os enfermeiros que lidavam com ele no período da internação, não apenas viam-no como louco, mas, pior ainda: como homem mau. Não que ele praticasse qualquer ato abominável, mas, somente porque, diante do tratamento que via ser dispensado aos demais internos, com açoites e outros castigos, rapidamente levantou a voz na defesa daqueles desvalidos, bradando em alto e bom som: “Oh! Traidores, inimigos da virtude! Por que tratais tão mal e com tanta crueldade a estes pobres miseráveis e meus irmãos, que estão nesta casa de Deus na minha companhia? Não seria melhor que vos compadecêsseis deles e dos seus sofrimentos, e os limpásseis e lhes désseis de comer com mais caridade e amor do que fazeis, já que os Reis Católicos deixaram para isso rendas suficientes?[2].

Ainda no recolhimento do hospital, João recebe um discípulo do Padre Mestre Ávila, enviado com a missão de semear naquele coração ferido a convicção de que, como valoroso soldado, deveria expor a própria vida ao seu Rei e Senhor, “e que aceitasse com humildade e paciência os sofrimentos que a divina Majestade lhe enviara”, conclamando-o a tudo aceitar como forma de treinamento da virtude para que, quando saísse daquela masmorra hospitalar, tivesse condições de pelejar contra os inimigos, sempre confiando do Senhor, “que nunca vos abandonará”.

Mas João, certamente confiando na Palavra do seu Rei e Senhor – “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”  –   pedia com insistência “Jesus Cristo me conceda tempo e me dê a graça de eu ter um hospital, onde possa recolher os pobres desamparados e faltos de juízo, e servi-los como desejo”[3]. Passado algum tempo, e mais calmo e conformado à vontade do Senhor, João sai daquele hospício e, finalmente, depois de alguma caminhada e de mais alguns sofrimentos, como a fome e a desnudez tendo que, no frio intenso e descalço, sair para pedir esmola para o sustento próprio, retorna a Granada e, nos arredores da mesma praça de Bivarrambla, consegue alugar uma casa, com a ajuda de algumas pessoas devotas e piedosas que o ajudavam em seus trabalhos.

É ali, e partir dali e de outras partes, que João começa a receber os pobres desamparados, doentes e entrevados, providenciando mantas usadas para dormirem e, também, a assistência espiritual por meio de qualquer sacerdote que se dispusesse a acompanhá-lo para ouvir as confissões dos pobres e desamparados sedentos, também, da paz de espírito.

Devoto apaixonado da Paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João queria que seus semelhantes, também, pudessem auferir todos os benefícios de tão caro sacrifício e, adotando a sexta-feira como dia especial da devoção, visitava às casas públicas das mulheres, para tentar “arrancar dali alguma alma das garras do demônio, em que estão metidas tais mulheres”[4]. A caridade do grande servo do Senhor era tanta, e ele vivia com tamanha consideração para com tudo o que recebera dos Céus, que sempre parecia-lhe ser muito pouco tudo o que fazia e dava, “julgando-se sempre em dívida para com os outros. Era assim que vivia, com aquela ânsia dos santos de se dar a si mesmo, de mil maneiras, por amor d’Aquele que tão magnífico e generoso tinha sido para com ele.”[5]

A fama de João aumentou tanto, diante do bem que fazia aos pobres, doentes e desamparados que, pessoas devotas e distintas resolveram comprar-lhe uma casa da Rua “De Los Gomeles” que tinha sido um mosteiro de religiosas, para onde foram transferidos todos aqueles socorridos pelo servo do Senhor. Era tanta gente que procurava por ele que, juntos, mal cabiam em pé. Pacientemente, João sentava-se no meio deles, para ouvir as necessidades de cada um e sempre dar alguma esmola ou aconselhamento, não deixando ninguém sair de mãos vazias.

João de Deus viveu a misericórdia de forma intensa e retributiva por tudo o que do Senhor recebia. Certa vez, alcançou do Senhor a cura de uma mulher que tinha uma enorme ferida na perna. João, visitando esta enferma, e sem ter o que fazer por ela, lançou a boca naquela chaga aberta e, por dias seguidos, chupava os excessos e toda a podridão de carne que ali existia, cuspindo fora todo aquele mal. Conta a Condessa de Nova Goa – Raquel Jardim de Castro – que, foi assim que “Nosso Senhor se dignou sarar completamente a enferma, cremos que para a livrar de tão horrível mal e a ele (João) de tão dificultosa prática”[6].

João de Deus não pensava  em alcançar salvação apenas para si. Andava pelas ruas da cidade exortando a todos a fazerem o bem a si mesmos. “Fazei o bem a vós mesmos!”, dizia ele, e muitos acolhiam o seu chamado.

Raquel Jardim de Castro declara não saber dizer com precisão, entre a caridade e a paciência, qual destas virtudes resplandecia mais em São João de Deus, reconhecendo nele o conhecimento da seguinte verdade: “Para se atingir a perfeição, não basta fazer o bem; é preciso saber suportar o mal”[7]

Falar sobre São João de Deus é tarefa para uma vida inteira, tendo em vista o tanto e o quanto que ele fez e ensinou. Entretanto, de todo o legado do santo, existe algo que pode santificar-nos a todos: a compreensão e a vivência da misericórdia ensinada e vivida por Jesus Cristo, conforme testemunhado nos Evangelhos. São João de Deus, na exata medida do santos e das santas, compreendeu e viveu a misericórdia e deixou para todas as gerações que o sucederam o exemplo. Cabe aos homens e às mulheres de cada tempo perseguirem a mesma compreensão e praticarem-na da forma mais adequada aos desafios de cada época, sempre mirando-se na parábola do bom samaritano, que enxerga-se a si próprio na pessoa do outro que carece de amparo, de socorro e de acolhimento. São João de Deus é modelo exemplar das virtudes evangélicas. Devemos conhecê-lo melhor e, dentro das nossas limitações, imitá-lo da forma mais perfeita possível por que ele, irmão de Cristo, aprendeu do próprio Senhor e deixou-nos uma herança de valor inestimável, conclamando-nos a fazermos o bem a nós mesmos!

Assim, é preciso, conforme dito no início, separar o joio do trigo, até para manter intacta, incólume e inatacável a vida e a obra de um Santo, cujo exemplo deixado remete-nos apenas para o bem e para o bom caminho. Caminho que leva à santidade e à vida eterna, e não, aos tribunais e às prisões, em decorrência de escândalos. Que a fé popular mantenha-se viva, porém, voltada para a direção correta.

É preciso que as pessoas saibam, e que não façam confusão, que a obra e os Lares de São João de Deus espalhados pelo Brasil e pelo mundo, nada têm a ver com obras de caridade praticadas por pessoas que adotam o nome do Santo português para darem uma aura de santidade àquilo que fazem, embora envolto em mistérios e em práticas suspeitas. Que os devotos de São João de Deus possam compreender a gigantesca diferença existente e manter a fé na obra e no exemplo deixados pelo nosso São João de Deus, santo português do século XVI.

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*Luiz Antonio de Moura, estudioso e pesquisador da vida de São João de Deus , é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

_____________________________________________ [1] CASTRO, Francisco de. História da Vida e Obras de São João de Deus. Editorial Franciscana. Évora: 1980. Pág. 62. [2] Idem, pág. 65 [3] Idem, pág. 68 [4] Idem, pág. 85 [5] Idem, pág. 93 [6] CASTRO, Raquel Jardim de. “S. João de Deus – Um Herói Português do Sec. XVI. Lisboa. Rei dos Livros: 1995. 295 págs. [7] Idem. pág. 145.

dez 10

EDITORIAL DA SEMANA: RESPEITO E TOLERÂNCIA É TUDO

RESPEITO E TOLERÂNCIA

VIVER E DEIXAR VIVER, A SAÍDA PARA A CONVIVÊNCIA SADIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A TV tem sido protagonista de uma chamada de consciência bastante interessante: artistas e celebridades conhecidas aparecem várias vezes durante o dia, em diversas inserções na quais pregam o respeito. Coisas do tipo “eu respeito a cor da sua pele”, “eu respeito a sua opção sexual” ou “eu respeito a sua religião” e, ao final de cada tirada, a frase lapidar: “respeite a minha também”.

De fato, e indubitavelmente, tudo passa pelo respeito, inclusive, no âmbito   audiovisual. Exibir programas, séries, novelas e outros tipos de “entretenimento” que a maioria do povo não aprova ou não gosta, também, deveria ser objeto de respeito. Assim, parece que o respeito pedido e incentivado tem endereço certo e que, ao contrário do que o veículo de comunicação pretende transmitir, não pratica a forma de vida saudável que defende.

Enfim, o fato é que, ainda que inobservado o respeito alardeado, o recado dado deve ser bem entendido e, como tal, amplificado para todos os setores da vida, comunitária ou social. É justamente a partir do respeito, que a vida e a convivência deixam de ser apenas uma imposição do destino para tornar-se uma atividade saudável. Uma atividade natural, que deve ser querida cada vez com intensidade ainda maior, porque viver é um direito natural assegurado a todos nós, seres vivos, racionais ou não.

Olhando sob este prisma, e cavando um pouco nas terras do subconsciente, certamente, vamos recordar e/ou reconhecer situações tais que, em decorrência da intransigência, da intolerância ou mesmo da já mencionada falta de respeito, pessoas vão se tornando insuportáveis umas às outras, justamente, por desejarem envolver-se de tal modo na vida alheia que, em determinado momento, e, a partir de certo ponto, comprometem a própria convivência. Daí para o estabelecimento do conflito e do consequente afastamento, é um pulo!

Para muitas pessoas, parece um verdadeiro tormento aceitar que o filho, a filha, o pai, o irmão ou mesmo o amigo tenham, de uma hora para outra, decidido seguir caminho diferente daquele que, para elas, é o mais justo, mais correto e mais acertado, quando não, o mais digno e moralmente aceitável. Parece faltar à sociedade pós-moderna um pouco mais de discernimento, para compreender que a vida do outro, enquanto não carimbada pela carência de auxílio direto e imediato, é patrimônio íntimo e pessoal, sobre o qual ninguém tem o direito de avançar, sem ser devidamente convocado ou autorizado.

Não são poucos os casos, até mesmo em família, em que as pessoas acabam se desentendendo umas com as outras, simplesmente porque, de uma hora para outra, alguém decide romper certos cordões, reais ou imaginários, ou desfazer alianças, promessas e juramentos, por convicção ou mesmo por loucura, mas, que, quase sempre, significa aquilo que todos, de uma certa forma, desejamos para as nossas próprias vidas: liberdade. E liberdade, como sabemos e espalhamos aos quatro ventos, não tem preço!

Entretanto, por mais que seja custoso, é preciso aceitar e compreender que os direitos são iguais e que todos têm-no, quando o assunto é restrito à própria vida e ao rumo a ser dado a ela. É verdade que a maioria de nós, quando tentamos demover um filho, filha, pai, irmãos ou amigo de determinada ideia, assim agimos com a mais reta e a melhor de todas as intenções querendo, apenas, e tão somente, impedir que aquele ente querido siga em uma direção que, para nós, por convicções ou por experiências adquiridas, será a pior possível.

E, quando contrariados, não poucas vezes, sentimos-nos desprestigiados, desprezados e abandonados mesmo, por aquele ou por aquela por quem nossa amizade e nosso amor é tão grande, que acabamos por confundir com o domínio e o controle que, sobre o outro, nenhum de nós tem, ou deve ter, justamente, em decorrência da liberdade, direito natural de todos os seres humanos. Assim, e nestas ocasiões, é necessário fazermos pequena pausa para a busca do equilíbrio capaz de recompor todas as coisas e de reconstruir todas as pontes.

Não podemos nos deixar levar apenas pelo impulso, muitas vezes venenoso, dos sentimentos meramente humanos, porque eles, na maioria das vezes, enganam-nos tanto o quanto julgamos estarem enganados aqueles a quem pretendemos ajudar com nossas intervenções.

A chegada a tais conclusões não decorre de leituras de livros de autoajuda ou de psicologia, mas, da longa caminhada pela espinhosa estrada da vida. Estrada que, não raro, lança a gente com a face na lama ou na poeira e faz com que a gente, como que num puxão para frente, se levante e continue caminhando,  correndo e tropeçando, engasgados, tossindo, soluçando e, muitas vezes, chorando mesmo, mas, sem tempo para se recompor. É assim que a vida nos prepara, nos molda e nos dá aquilo que, tempos depois, alguém intitula como “experiência de vida”. Seja lá o que for, o fato é que, quando vemos, descobrimos que aprendemos alguma coisa diferente.

Portanto, se durante a sua caminhada você consegue ouvir alguém, preste atenção: pare de tentar induzir o outro a seguir na direção que você julga ser a melhor, a mais correta, a mais acertada, a mais justa, a mais santa, a mais moralista ou a mais politicamente correta. Respeite a liberdade alheia. Respeite o direito que o outro tem de decidir, de forma absolutamente livre, o rumo que deve dar à própria vida. Aja assim, e, com toda certeza, se sentirá muito bem consigo mesmo(a) porque, talvez pela primeira vez na vida, consiga perceber que o seu respeito é muito mais importante do que o seu conselho.

A vida é feita de convivência e esta, de respeito e de tolerância. Sem isso, não se pode dizer que existe uma convivência, mas, um aprisionamento no qual as pessoas, sociais, comunitárias ou familiares, são obrigadas a estarem juntas, em razão de alguma pressão, interna ou externa.

Onde existe respeito e tolerância, a convivência se revela de forma natural e, eventuais afastamentos ou separações, acabam por causar mais pesar do que aquela satisfação que invade a alma do aprisionado que encontra a porta da liberdade aberta à sua frente.

E não é para ninguém pensar que estas palavrinhas tão simples – respeito e tolerância – podem ser adquiridas na lojinha da esquina, ou após assistir aos reclames da TV. Não! Respeito e tolerância são atributos da alma que, ensinados ainda na infância, acompanham-nos por toda a vida, e depende de nós regá-los diária, insistente e pacientemente, para que cresçam e produzam o excelente, saboroso, apetitoso e doce fruto da convivência.

Porque, da boa convivência, seja em que ambiente for, outros tesouros brotam e novos frutos são produzidos, em um interminável ciclo virtuoso que fará com que todos, nós e os outros, sintam, e sintamos, o prazer de viver. Portanto, respeite e seja tolerante. Viva e deixe viver. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

dez 03

EDITORIAL DA SEMANA: NA FORMA OU NO TEXTO, A ARTE DE ESCULPIR

SÃO MATEUS - MICHELANGELO - 3

O ESCULTOR LITERÁRIO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Certa feita, tomei conhecimento de uma obra esculpida por Michelangelo, que chamou minha atenção. Trata-se do “São Mateus inacabado”, formatando a ideia de que aquela figura humana está presa no interior do bloco de mármore e que, por meio da ação do artista, ela vai sendo lenta e expressivamente libertada. É exatamente como se a pessoa ganhasse vida e, de repente, surgisse como que rompendo o bloco de pedra, de dentro para fora. É trabalho e simbologia maravilhosos.

Fiz uma analogia comparativa entre a obra obtida pelo escultor, a partir do bloco sólido, e o texto produzido por um literato não identificado e percebi quanta semelhança existe entre ambas as construções, embora uma seja feita no bloco de mármore, de pedra, de gesso ou mesmo na madeira bruta e a outra, atualmente, na tela do computador, o que não desmerece ou desvaloriza, de forma alguma, o resultado obtido.

O homem da literatura, tal qual o escultor, apodera-se de um emaranhado espesso e bruto de palavras e vai entalhando parte por parte, detalhe por detalhe, até obter aquela forma por ele almejada. Depois, com um cinzel bem afiado, vai aparando as arestas, uma a uma, até poder olhar para aquele conjunto e identificar a obra gestada, inicialmente, apenas no seu departamento intelectual.

É interessante perceber, que daquele mesmo conjunto “espesso” de palavras são obtidas formas muito diferentes, a depender do “escultor” do momento. Cada um é capaz de produzir imagens muito diferentes e com significados bastante diversificados. Entretanto, assim como no caso do escultor da pedra ou do mármore, ou até mesmo o da madeira e do gesso, aquele que lida com as palavras precisa tomar um cuidado a mais: não permitir que o resultado da sua obra acabe por ferir, ofender, denegrir ou destruir a honra, a boa fama ou a moral de ninguém. Coisa que, muito dificilmente, ocorre com as esculturas sólidas, depois de prontas e acabadas.

O escultor literário precisa, além de dominar a arte da criação com perfeição, conhecer profundamente os significados de cada uma das partes por ele trabalhadas, para que, ao final, não acabe criando um verdadeiro monstro capaz de, inclusive, devorá-lo por meio das hábeis mãos dos que lidam com a justiça. Mas, com o devido cuidado, que a experiência acaba por amoldar o artista, ele cria obras maravilhosas.

Falando assim, de maneira tão simples, parece fácil, mas, não é não. Basta ler alguns dos textos que são hodiernamente publicados em jornais, revistas, internet e em outros meios de comunicação, para surpreender-se sobremaneira com o que é apresentado, não raro, com títulos pomposos. Algumas, são produções monstruosas, feias, mal definidas e mal direcionadas. Coisas que, quando acabamos de ler, deixam mais dúvidas do que convicções, a não ser a de que aquilo partiu de alguém que pega no cinzel pela parte cortante. Com certeza, tais “artistas” devem ser vítimas constantes de acidentes de trabalho, mas, estão aí e mais, são, em muitos casos, muito bem pagos para fazerem o que fazem, restando-nos, apenas, virar tais páginas ou mudarmos o veículo de informação.

O fato é que vejo semelhanças interessantes entre as obras produzidas tanto pelo escultor da matéria sólida, quanto o da matéria literária, apenas ressalvando os danos que uma obra e outra podem, eventualmente, causar a terceiros.

Para produzir um texto qualquer, e dizer exatamente o que eu quero dizer, preciso conhecer o significado, e até mesmo a origem, das palavras utilizadas afim de que, unidas umas às outras, com as devidas intermediações verbais e gramaticais, sem abrir mão das necessárias concordâncias e sem deixar de observar a coerência textual e contextual, poder apresentar ao leitor um produto capaz de, de alguma forma, interessá-lo, ou mesmo de auxiliá-lo, dependendo das circunstâncias por ele vividas naquele momento.

Para tanto, assim como o escultor do material sólido afia o cinzel na pedra de amolar, o literário deve afiar o seu instrumento de trabalho na grossa e sólida pedra, em cuja composição são encontrados elementos de definições, de informações sobre sinônimos e antônimos, de ortografia, de pronúncia, de classe gramatical, de etimologia etc., também conhecida como dicionário, evitando, assim, provocar sérios acidentes, dos quais saem feridos tanto o autor, quanto os seus queridos e estimados leitores. Com o instrumento devidamente afiado e com uma mente aguçada e vitaminada pela inspiração, produzem-se obras realmente muito boas. Tão boas que, muitas, perpassam as décadas e até mesmo os séculos.

Escultores, sejam lá quais forem os materiais por eles utilizados, revelam a extensão da genialidade do ser humano porque, enquanto não produzem, ninguém é capaz de conhecer-lhes em profundidade, apesar do quanto de sabedoria e de potencialidade carregam dentro de si.

Sugiro que, doravante, todas as leituras sejam feitas de modo a verificar se, ao final, o produto percebido, e recebido, é compreensível ou não; se diz, ou não, aquilo que afirma pretender dizer e mais, e melhor, se as arestas foram bem aparadas ou se existem pontas afiadas, capazes de cortar a carne interpretativa dos leitores, fazendo-os sangrar e sofrer desnecessariamente. Faça esta experiência, ela será bastante saudável e ajudará na identificação de bons artistas e de renomados impostores. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 26

EDITORIAL DA SEMANA: MEU PAI DEIXOU DE ME ENSINAR MUITAS COISAS

LIÇÕES DE UM PAI

AS COISAS QUE MEU PAI NÃO ME ENSINOU –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O avançar dos anos faz a gente dar voltas recreativas no passado da vida e, inevitavelmente, coloca-nos diante de um telão no qual são exibidas diversas imagens ou filmes – longos ou curtos – que trazem algumas recordações, umas boas, outras, nem tanto. A verdade é que, de cada viagem dessas a gente retorna com os pés mais fincados no chão da vida, muitas dúvidas são afastadas ou, quem sabe, muitas outras passam a existir,  sem chance, porém, de serem dissipadas.

Dei algumas voltas no passado da minha vida à procura de aprendizados que possam ter ficado caídos pela estrada e que hoje, com toda a modernidade e todas as consequências que dela advêm, parecem fazer alguma falta. Mais do que nunca é preciso muita ciência, e também paciência, além de boa dose de sabedoria para desvencilharmo-nos dos transeuntes do século em curso. Pessoas, grupos e instituições que, outrora, não demonstravam a força, a fúria e a intrepidez com que se expõem diante de tudo e de todos nós.

Recordei-me de alguns passos caminhados ao lado de um homem sem estudo e sem cultura, mas, com pós-doutorado na ciência do viver: meu pai. Pessoa simples, filho de uma época dura e difícil, mas que soube seguir por caminhos espinhosos e, mesmo ferido em diversas batalhas, chegou ileso do outro lado da margem do rio da vida, ostentando as marcas da idade, como rugas, dores e cansaço, mas, plenamente vitorioso pela forma digna, ética, moral e social de encarar a vida e, mesmo, de viver.

Algumas coisas ele me ensinou diretamente, outras, aprendi com os exemplos que ele jamais deixou de dar. Porém, do balanço de tudo o que ele me ensinou cheguei à conclusão de que deixou muito mais de ensinar. Ou seja, ensinou muito pouco, em vista do que hoje ensinamos aos nossos filhos, preocupados que somos com os detalhes de cada esquina por onde eles haverão de passar. Com tantas preocupações e precauções, ensinamos de tudo um pouco, na esperança de melhor prepará-los para uma vida e um mundo totalmente diferentes dos nossos tempos. Mesmo assim, ensinamos de tudo, sem nada deixar oculto, nem mesmo o jogo de cintura que, na boca popular, faz a gente se livrar de poucas e boas na vida.

Meu pai não me ensinou, por exemplo, a levar vantagem em tudo na vida! pelo contrário, em muitas oportunidades, pude vê-lo sendo prejudicado, para não prejudicar o outro. Vi que ele perdia, para não tirar vantagem de uma fraqueza ou mesmo de uma falta de conhecimento daqueles com quem lidava. Vi-o permanecer na pobreza, mesmo sendo convidado a conquistar algo mais, com um pouco mais de esperteza. Esperteza que sempre fez questão de recusar e de rejeitar porque, para ele, advinha de caminhos tortuosos e não tão bem definidos pela lógica da moral a ser vivida do jeito que ele entendia. Não me ensinou ser desonesto, desviando sempre alguma coisinha de quem tinha muito e que, com certeza, jamais daria falta do pouco que fosse tirado. Não me ensinou a desviar nada que pertencesse ao outro, acreditando ser muito melhor nada possuir, do que possuir algo marcado pela desonra ou pela desonestidade.

Meu pai não me ensinou e desrespeitar o outro, fosse ele quem fosse, santo ou pecador; bom ou mau; fiel ou infiel; temente a Deus ou ateu; branco ou negro; pobre ou rico; novo ou velho; homem ou mulher ou tivesse lá a opção que melhor entendesse para a sua vida. Não me ensinou a desprezar ou desrespeitar qualquer ser humano que trilhasse o meu caminho. Ele não me ensinou a desviar os olhos dos mais humildes, nem fazer-me de importante perante os menos favorecidos, ainda que culturalmente porque, no campo da pobreza, nós sempre disputávamos o primeiro lugar com os mais pobres.

Meu pai não me ensinou a ser ingrato, passando por cima dos menores favores recebidos, mesmo que fosse, como ele sempre dizia, ganhando um simples pente ou uma escova de dentes que, para ele, vindos de quem quer que fosse, era sempre um ótimo presente, já que ninguém, na sua concepção, estava obrigado a dar nada para ninguém. Não me ensinou a fazer pouco caso daquele que nada podia doar ou a desconsiderar a mínima coisa doada com amor e carinho por algum benfeitor de plantão. Ele não me ensinou a esquecer de dizer o “muito obrigado”, nem o “com licença” ou muito menos o “me desculpa”. Não me ensinou a tratar com desdém nada que viesse do outro, como tentativa de agradar-me ou mesmo de premiar-me por algum bem praticado, quando não, para suprir alguma suposta necessidade minha.

Meu pai não me ensinou a beber ou a fumar, como forma de transmitir hábitos que pudesse julgar serem saudáveis, ainda que os praticasse. Não me ensinou, porque assim não fazia, a dar uma passadinha no bar nos finais de tarde, nas noites ou mesmo nos finais de semana, para uma bebidinha com os amigos ou para um joguinho de cartas ou mesmo de sinuca. Não me ensinou, porque não praticava, a viver na embriaguez ou nos zigue-zagues causados pela bebida, durante as caminhadas pelas ruas, até chegar em casa. Não me ensinou a beber n’outro lugar, que não no cantinho sereno e harmônico do lar, como a celebrar qualquer coisa, boa ou má, que pudesse ter acontecido durante o dia ou no curso da semana.

Meu pai não me ensinou a ter orgulho, vaidade ou prepotência, deixando de viver contente com o muito ou com o pouco que eu tinha. Não me ensinou a contar vantagens ou mesmo a querer ser mais do que os outros, só para mostrar alguma diferença. Não me ensinou a andar em grupos, feito bando de andorinhas, confiando mais no coletivo do que no recato individual, mas, também, não ensinou a afastar-me das pessoas só por serem diferentes nem, tampouco, isolar-me por completo do mundo em evolução.

Meu pai não me ensinou a fazer da mentira a companheira de todas as horas, a amiga inseparável de todos os lugares, a companheira em todas as vitórias e a amante aguerrida na conquista de títulos e de menções honrosas. Não me ensinou a usar a mentira como arma nas batalhas da vida, fosse para afastar incômodos amigos, ou ainda para derrotar intrépidos inimigos. Não me ensinou a carregar a mentira sempre a tiracolo, para uma eventualidade qualquer, na suposição de que, dependendo da hora ou das circunstâncias, poderia ter utilidade. Não me ensinou a adotar o engano como forma de lidar com os meus semelhantes, na tentativa de ganhar deles a amizade ou a simpatia.

Meu pai não me ensinou a esconder a vingança como carta na manga, a ser sacada sempre que o outro de mim tirasse alguma coisa ou prejudicasse a minha trajetória. Não me ensinou a buscar na vingança o gosto mais refinado, que muitos afirmam dever ser saboreado quando frio, por ser mais palatável e apetitoso. Não me ensinou a tramar ciladas contra quem as vive tramando, nem a retribuir o mal com o mal. Meu pai deixou de me ensinar a fórmula para derrubar os que, durante a minha caminhada, pudessem servir de tropeço para mim. Não me mostrou como praticar o “olho por olho” ou o “dente por dente”, para que, ao menos enganando a mim mesmo, eu pudesse me sentir fazedor de justiça.

Meu pai não me ensinou a buscar a vitória a qualquer preço, ainda que fosse sobre o fracasso e a ruína alheios. Não me ensinou a puxar o tapete dos meus semelhantes ou mesmo a subir em seus ombros para alcançar um patamar mais elevado onde, para a sociedade, pudesse significar “vencer na vida”. Não me ensinou a passar à frente dos que caminham com dificuldade, nem mostrou como fazer para eliminar da competição os fracos e desvalidos. Não me ensinou a tirar proveito do despreparo do outro ou da sua incapacidade para permanecer nas disputas da vida.

Enfim, durante as minhas longas caminhadas recreativas pelo passado da vida, descobri quantas coisas meu pai deixou de me ensinar e, para o meu pesar, descobri, também, o quanto todas elas foram ensinadas à exaustão por diversos pais, com cujos filhos hoje somos obrigados a conviver. Quisera eu que todos os pais fossem omissos como o meu, deixando de ensinar, de incentivar e até mesmo de cobrar certas atitudes dos filhos que, nos dias que correm, tornam este nosso mundo tão marcado pelos horrores do desrespeito, da ingratidão, da desonestidade, da mentira, do orgulho e da prepotência, do vício, da sede de vingança pessoal ou social e de tantos outros males que contaminam a existência de todos nós, seres viventes. Digo “seres viventes” porque fauna, flora e humanos, tanto quanto a própria natureza, padecemos terrivelmente com todo o mal causado pela ausência de virtudes, de discernimento e de sabedoria.

Quisera eu que todos os pais deixassem de ensinar aos filhos todas as coisas que meu pai deixou de me ensinar. Não que eu tenha me tornado o melhor dos seres humanos, mas, certamente, eu poderia ter sido muito pior caso não tivesse passado pela escola pela qual passei e não tivesse tido o mestre que tive.

Faça algumas caminhadas recreativas na sua vida também. Elas poderão ajudar, e muito, na exata compreensão sobre onde você está, a que ponto chegou e sobre tudo o que se passa ao seu redor, inclusive, nas suas atividades profissionais, familiares e comunitárias. Caminhar sempre, dizem os sábios, é preciso! Mas, acrescento eu, com bom senso e com sabedoria. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

nov 19

EDITORIAL DA SEMANA: É PRECISO CORAGEM PARA MERGULHAR

CURSO DE FORMAÇÃO

ESCOLA DE CATEQUESE – É PRECISO AVANÇAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O papel mais importante a ser desempenhado por aquele ou aquela que trilha o caminho da teologia é o da reflexão. Cabe ao estudioso da teologia exercer, de forma constante e permanente, o sagrado exercício da reflexão à luz das Sagradas Escrituras, do Magistério e da Tradição, sim, mas, também, à luz do tempo presente, apresentando proposições que, de alguma forma, possam amalgamar a Palavra e a Ação.

Não é estranho para ninguém que o mundo está passando por dias bastante difíceis. Nada que já não tenha ocorrido de forma análoga em tempos passados. São desafios propostos, e muitas vezes impostos, pelo tempo e pelo suceder das gerações. A grande diferença entre o agora observado e os tempos mais antigos, está na formação do povo de Deus que, outrora, sem nenhuma tecnologia, era formado de um jeito mais eficaz, até por conta da boa vontade que existia da parte dos fiéis para com seus pastores e diretores espirituais. Hoje, esta relação está bastante dificultada, justamente, em decorrência do mau uso e do mau aproveitamento de uma tecnologia avançada que, ao invés de atuar como aliada, age como séria adversária, sobrepondo métodos absolutamente profanos e profanados sobre outros, sagrados e até mesmo consagrados, por meio da experiência religiosa.

O que temos presenciado hodiernamente faz-nos perceber que algo está falhando seriamente, haja vista que, também não é segredo para ninguém, muito menos falso, os templos estão cada dia menos ocupados. Ou seja, os fiéis de antigamente morreram, ou encontram-se fisicamente impossibilitados de locomoverem-se, e não conseguiram ser substituídos por seus sucessores que, filhos de uma sociedade de consumo midiático em evidente ascensão, veem na religião e na prática religiosa algo extremamente ultrapassado, e, porque não dizer, alienante, levando-se em consideração que o mundo midiático, com suas inúmeras redes sociais e propostas das mais diversas e diversificadas, oferece opções muito mais palatáveis e prazerosas, além de destilarem gigantescas torrentes de uma sensação percebida e recebida como “felicidade”.

Desta forma, como atrair um público que vivencia estas experiências, principalmente, as parcelas mais jovens, com métodos e pessoas tão antigas, quanto desatualizadas? E mais, e mais grave: um público que só é atraído para uma necessária catequese, nos períodos imediatamente antecedentes à administração dos sacramentos mais vistosos, como o Batismo, a 1ª comunhão, a confirmação do Batismo e/ou o matrimônio. Quer-se dizer: a catequese ofertada, principalmente, pela igreja Católica só ocorre, de fato, e, totalmente, direcionada, em momentos intrinsecamente vinculados com os sacramentos a serem recebidos pelo fiel. Passados estes períodos de “formação”, fiéis, pastores e catequistas seguem suas rotinas sem  se preocuparem uns com os outros. É óbvio que os pastores, na grande maioria, não se perdem nos descaminhos do mundo, podendo-se dizer mais ou menos o mesmo dos e das catequistas, mas, os jovens de todos os sexos, só Deus sabe onde vão parar.

A Igreja Católica é depositária de um imensurável acervo doutrinário e litúrgico, que permitem-na exercer com total eficiência o múnus de ensinar, conduzindo os fiéis seguidores de Cristo à necessária santificação. A riqueza trazida ao longo dos séculos, desde os Padres da Igreja, também chamados de “Pais da Igreja”, passando por inúmeros e insubstituíveis documentos e encíclicas papais, mais o advento do Concílio Vaticano II, com todos os documentos, Constituições, reformas e encíclicas daí decorrentes, sem falar no Código de Direito Canônico, promulgado pelo então Papa João Paulo II em 1983, permitem que a Igreja tenha plenas condições de influenciar, de forma bastante positiva, a geração que está em curso, assim como as vindouras.

Entretanto, parece ser chegado o momento de fazer-se uma séria revisão nos métodos adotados na formação dos leigos e leigas e, principalmente, na formação de catequistas, homens e mulheres que, amorosa e voluntariamente, dispõem-se ao trabalho em prol da assembleia de fiéis. E, para tanto, é preciso ampliar, melhor dizendo, é preciso qualificar a formação destes homens e destas mulheres para que eles, não apenas catequizem, mas, de forma imperiosa, urgente e extremamente necessária, contribuam na formação de cristãos e de cristãs verdadeiramente comprometidos com a doutrina de Cristo, cuja depositária por excelência é a Igreja.

A propósito, é saudável uma leitura acurada dos cânones 779 e 780, do Código de Direito Canônico, expressos que são acerca da necessidade premente de promoção da formação contínua e aprimorada dos catequistas, "com o emprego de todos os meios, subsídios didáticos e instrumentos de comunicação que pareçam mais eficientes", a evidenciar o quão urgente é a atualização do que hoje entende-se denominar por "catequese".

A proposta que se faz, fruto da reflexão a que nos referimos no inicio deste texto, é a criação, onde ainda não existe, de Escolas de Catequese voltadas com exclusividade para a formação atualizada e teologizada dos cristãos e das cristãs interessados no compromisso com uma catequese verdadeiramente evangélica que, por incrível que possa parecer, não compreendem muito bem, sequer, as Sagradas Escrituras e, ainda, desconhecem por completo o Magistério da Igreja. Tanto que, quando ouvem falar em justiça para o pobre, o oprimido e o trabalhador da terra confundem, com frequência, com as ideologias político-partidárias defendidas, difundidas, experimentadas e fracassadas ao longo dos dois últimos séculos, sem saberem que a justiça ao pobre, ao oprimido e aos trabalhadores, seja da terra ou, atualmente, dos novos meios de produção, é matéria amplamente tratada em todo o Antigo Testamento e que a Igreja, inclusive, e por meio de sua doutrina social, é portadora de inúmeros documentos e encíclicas papais que tratam com exclusividade do tema, não se podendo deixar de lado os frutos do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). É preciso ter coragem para uma séria e saudável autocrítica e, na mesma esteira, para elaborar e concretizar projetos inovadores e totalmente voltados para a formação dos fiéis cristãos e cristãs deste já avançado século XXI. É mais do que necessário trabalhar pela formação, incentivada e estimulada, dos fiéis dispostos à catequese.

Há que ser compreendido que o fiel precisa, além da necessária, oportuna e saudável formação bíblica, teológica, cristológica e eclesiológica, também, de acompanhamento de toda a sua vivência nos meios familiares e religiosos, a fim de que ele possa, não apenas frutificar, mas, e, sobretudo, frutificar com qualidade reprodutiva, com capacidade para, com o seu exemplo vivo na órbita familiar, comunitária e social, com mais ação e menos pose e discurso, revelar a presença do Cristo ressuscitado, ou seja, que ele se apresente, sempre como agente ativo, atuante e replicador, ao invés do simples, elegante e jovial frequentador de missas e de solenidades religiosas.

Pelo menos uma Escola de Catequese em cada Diocese, com um corpo docente formado por mestres e doutores em teologia, em liturgia, em exegese bíblica, em patrística e em direito canônico, com cursos regulares com previsão de, pelo menos, 360 horas, ao fim das quais o(a) catequista estará bastante habilitado(a) para a catequese familiar, paroquial e/ou comunitária, assim como para o acompanhamento permanente dos novos e dos já catequizados.

Pensamos não haver mais espaço para os métodos de catequese adotados e praticados nos dias que correm, sob pena de um brutal afundamento institucional, e, pior, do aniquilamento da própria prática religiosa, fenômeno regulador da vida em sociedade, cuja ausência trará ainda maiores prejuízos a toda a coletividade já incendiada pelo fogo colateral do progresso.

Os instrumentos estão aí: redes sociais das mais diversas (com a capacidade de alcance e de penetração que, agora, mais do antes, o Brasil todo conhece); cursos on line muito bem estruturados, cujo sucesso tem sido relativamente demonstrado; além do fenômeno acadêmico do EAD (Ensino A Distância) que, na impossibilidade de outra forma de aprendizado, tem se revelado opção bastante útil e de resultados bem satisfatórios. Portanto, se falta alguma coisa, com certeza, não são instrumentos. O Apóstolo Paulo ficaria assombrado se visse como as redes sociais são praticamente excluídas da evangelização e da catequese do povo de Deus.

Este texto é privado e, obviamente, protegido pelo direito autoral. Entretanto, pode ser utilizado na divulgação integral do seu conteúdo, desde que seja respeitada a autoria.

Trata-se de uma reflexão cujo único objetivo é fomentar no meio eclesial o desejo e a coragem para a promoção de uma profunda alteração na forma e no modo de habilitar os responsáveis pela catequese dos fiéis seguidores de Cristo que, atualmente, são cooptados por inúmeras outras atrações que, diferentemente da Palavra de Deus, em nada contribuem para a salvação das almas. Que, no mínimo, seja objeto de reflexão e de aprimoramento das ideias expostas. Sinceramente, é o que se espera. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura, Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 12

EDITORIAL DA SEMANA: EM NÓS, O SOPRO DA VIDA!

O SOPRO DA VIDA

O SOPRO DE DEUS: SEM ELE, NÃO TEMOS VIDA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Como a vida é simples e singela! Tão simples e tão singela, que a maioria absoluta das pessoas passam por ela, sem se dar conta da riqueza com a qual conviveram durante tantos e tantos anos. Muitas pessoas acreditam que a existência humana é uma peça teatral resumida em quatro atos: nascer, crescer, reproduzir e morrer, esquecendo-se de que, em cada uma destas etapas, existe uma força, uma chama, uma energia vital, um ânimo, um impulso, em resumo: um sopro. Sim, um simples sopro, porém, um sopro divino, que desperta o ser para a vida, para a existência e para uma caminhada sem fim, embora realizada em dois planos distintos: um, terreno e, outro, etéreo!

Mas, de onde vem esta energia, esta força vital e este ânimo que traz, principalmente, o ser humano à vida? esta questão perturbou a mente do homem antigo. Olhando para si e para os seus iguais, ele fazia incessantemente esta mesma pergunta. Pergunta que deixava-o ainda mais perplexo, quando percebia que seus semelhantes, vinham à vida mas, também, e de repente, caiam estatelados no chão, sem ela e, rapidamente, desapareciam em meio à decomposição fétida daquela matéria desconhecida. Olhar para si e para os demais sem entender nada, absolutamente nada, e, mais ainda, percebendo que aquela vida tinha um limite, um fim, deve ter sido um tormento muito grande para o ser humano, digamos, primitivo.

Entretanto, pela inspiração divina, o ser humano vislumbra o momento da Criação de todas as coisas e, no Livro do Gênesis, no capítulo segundo, narra que Deus formou o homem do barro da terra “e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2,7). Este “sopro de vida” é a irrupção do espírito. Um espírito que não é um qualquer, mas, um espírito procedente de Deus, uma parte do próprio Deus, cujo Espírito vive e abarca tudo, todos e todas as coisas existentes. Momento comparável ao do nascimento de um bebê que, imerso no líquido amniótico, no tempo certo, é trazido à luz.  Mesmo sem a famosa palmadinha dada pelo médico, o bebê solta o primeiro choro, ao experimentar o choque da primeira mudança na vida, quando os pulmões de forma exuberante, expulsam o líquido e recebem, pela primeira vez, o oxigênio puro e direto. A criança, como que acorda para a vida, para a existência. É alma vivente! Uma vida que jamais será extinta.

Assim aconteceu com o primeiro ser humano criado por Deus, deixando-se de lado, por enquanto, as discussões intermináveis sobre as teorias do criacionismo e do evolucionismo.

Uma vez levantado do solo, o ser humano caminha, fica admirado com tudo o que o cerca. Quanta beleza, quantas maravilhas. O criador acompanha-o de perto e percebe que aquele ser é perfeito e, por esta razão, ama-o desde o início, pois, é imagem e semelhança Sua. O Senhor Deus, porém, olha para aquele homem inebriado e desajeitado, tosco mesmo, podemos dizer, mas, feliz e repleto de "ânimo", e conclui: “Não é bom que o homem esteja só”. Na narrativa bíblica, em seguida a esta conclusão, o Senhor forma a mulher e, pela simples leitura do Livro do Gênesis, pode-se acompanhar tudo o que se passou com eles.

Mas, a questão que merece destaque aqui, é a sentença divina: “não é bom que o homem esteja só”, porque, embora o Senhor tenha-lhe providenciado uma companheira, hoje, para nós, parece bastante razoável a ideia de que a presença divina no ser humano era, e é, imprescindível. É justamente a partir desta presença que o ser humano consegue compreender o ambiente no qual é inserido desde o começo, com suas tramas e com os seus dramas. Começa a perceber as necessidades, as afinidades, os sentimentos, e, sobretudo, a capacidade interior para a superação. Uma superação que vai muito além dos embates físicos com os animais ferozes, com semelhantes tresloucados e, mais tarde, com sistemas políticos, ideológicos e de exploração. Uma superação de si mesmo, com seus medos, incertezas, inseguranças e fraquezas. É com a presença divina que o ser humano sente fervilhar dentro de si, mas que ainda não tem capacidade para compreender muito bem, que ele caminha, luta, vence, supera desafios e obstáculos e armazena no mais profundo do seu íntimo, sonhos e projetos. Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor que, providencialmente, coloca-se ao lado da sua principal criatura. Principal, porque fê-lo à própria imagem e semelhança. Principal, porque transforma-o no guardião de toda a Criação.

E esse Deus, como demonstrado inúmeras vezes, na Bíblia, caminha ao lado do ser humano. E mais do que caminhar, habita em cada um dos seres humanos, conforme testemunha o Apóstolo Paulo quando, escrevendo aos Coríntios, questiona “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (ICor 3,16).

Daí termos, hoje em dia, a convicção de que Deus, definitivamente, não quer que estejamos sós, mas, quer estar conosco e em nós, e só quem não consegue ter esta compreensão é que imagina ter o controle da própria vida nas mãos. Sem Ele, não temos a vida em toda a sua plenitude. Dele procede o sopro que faz de nós almas viventes e em nós constrói o templo sagrado no qual habita o seu divino Espírito, enquanto a Ele nos achegamos e com Ele aceitamos caminhar.

O mesmo raciocínio não se aplica àqueles que praticam, deliberadamente, o mal e a crueldade, descumprindo os preceitos divinos, porque é impensável que o Espírito de Deus habite no íntimo de tais criaturas que, certamente, caminham sozinhas ou movidas por forças contrárias à divindade e à santidade do Deus-Criador. Isso, para que não nos iludamos, acreditando que o Espírito de Deus está em absolutamente todos os seres humanos, é o que afirma a Primeira Carta de João: “O que observa os seus mandamentos, está em Deus, e Deus nele; pelo Espírito que nos deu, sabemos que ele permanece em nós” (IJo 3,24).

No mais, consolemo-nos em saber que não estamos e que não vivemos sós, porque Deus, ao sentenciar que não é bom o homem estar só, não se referiu apenas à companhia humana, mas, também, à divina que, do início ao fim, é quem nos assegura a vida, e vida em abundância. Creia nisto, respeite o Espírito de Deus que habita em você e em todos os seus semelhantes e mantenha sempre limpo e aberto o seu templo interior, para que o Sopro da vida jamais se afaste porque, sem Ele, não temos a vida plena. Os indianos e os nepaleses conhecem muito bem esta realidade, pois, não cessam de repetir o “Namastê” que, literalmente, significa “O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você”. É com esta consciência que precisamos olhar para os nossos semelhantes e, diante de cada um deles, prestar reverência ao Deus que é comum a todos nós – Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 05

EDITORIAL DA SEMANA: O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE

O HOMEM DA MONTANHA

O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Todos somos iguais perante a lei e perante Deus, mas, quanta diferença existe na forma de olhar o mundo e de viver, entre o homem da montanha e o que vive nos grandes centros urbanos, em meio à gente engomadinha, perfumada, bem maquiada e frequentadora dos lugares mais nobres. O homem da montanha tem um olhar simples para todas as coisas, a tudo enxerga com boa-fé: caminhando pelos grandes centros, ao presenciar alguém deitado em um canto da rua, logo se coloca no lugar daquele pobre coitado e quer aproximar-se para dar-lhe alguma coisa, enquanto o homem da cidade, olhando para o mesmo cenário, diz: “por que não trabalha? Por que vive às custas dos outros, fugindo do labor diário?”

O homem da montanha, acostumado com as grandes dificuldades da vida, sabe o valor de um prato de comida, tenha o conteúdo que tiver. O da cidade grande, não. O da cidade grande pensa primeiro na qualidade e na diversidade da salada, na textura do arroz, na maciez e na ausência de gordura da carne, no tomate “sem sementinhas” e, ao final das refeições, deixa sempre algumas sobras no prato, mesmo sabendo que irmãos seus passam fome pelo mundo afora. O homem da montanha só pensa em alimentar-se e ver o estômago satisfeito. Por isso, come em qualquer lugar, sem restrição a qualquer espécie comida. O homem da cidade, não. Ele escolhe lugares mais arejados, mais bonitos, bem localizados e melhor frequentados.

O homem da cidade é preocupado com a aparência: tem que estar bem barbeado, bem vestido, sapatos brilhosos, cabelo bem penteado, cortado e bem aparado, enquanto o homem da montanha pouco se lixa para esses detalhes pessoais, o que ele mais quer é conversar descontraidamente, dar gargalhadas quando sente vontade, contar piadas ao seu jeito, dar tapinhas no ombro do interlocutor, demonstrando intimidade. Uma intimidade que incomoda o homem fino da cidade que, de certa forma, fica até um pouco envergonhado quando está acompanhado do amigo da montanha.

Para o homem da montanha nada é mais rico, belo e querido do que passar as férias em casa, fazendo alguns trabalhos de melhoria para a família ou, quando muito, ir para a roça, para a casa de algum parente que há muito não vê, comer torresmo com couve e tomar uma cachacinha. Rachar lenha e pescar no pequeno lago, onde encontra tilápias graúdas que, fritas, farão a alegria de todos da casa. Para esse homem simples, faz parte das férias matar galinhas e porcos para os pratos roceiros de sempre. É da essência deste tipo de homem o andar descalço quando, de volta e meia, pisa de forma desajeitada em alguma pedra, machucando o centro do pé, ou, ainda, em um espinho de alguma fruteira, caído no solo pedregoso. É da essência deste homem visitar os porcos no chiqueiro, acariciando-os pelo lombo para verificar a solidez e a textura do toucinho que se afirma a cada dia, assim como está no seu ser sentir o cheiro do mato, das vacas e dos cavalos que, mesmo não sendo de sua propriedade, ele aprecia como se dono fosse.

Para o homem da cidade isso não é férias, é, como se diz “programa de índio”. Férias para o homem fino da cidade, é viajar para o estrangeiro. Quanto mais países ele visitar ao lado da família, quanto mais dólares gastar, quanto mais restaurantes grã-finos puder frequentar e quanto mais parques, jardins, museus e espaços públicos e privados puder adentrar e tirar fotos, muitas fotos, mais terão valido a pena as suas doces e inesquecíveis férias, que ele faz questão de repetir ano após ano, para o deleite próprio e dos seus amigos e familiares

O homem da montanha, quando passa diante de uma igreja, ainda que não faça nenhuma reverência física com as mãos, lembra-se do seu Deus e louva-O por todas as coisas que possui. Enquanto o homem da cidade, ao passar diante de uma igreja, fica admirado com a arquitetura, com os vitrais alemães ou italianos e, não raro, critica a falta de manutenção, esquecendo-se de que qualquer obra demanda dinheiro. O homem da montanha, de forma religiosa, enfia a mão no bolso e tira sempre um trocadinho para depositar na caixa de coleta da igreja, ou mesmo para doar o dízimo do seu pequeno ganho. O homem da cidade, na maioria das vezes, critica e condena a coleta de dinheiro nas igrejas, afirmando que os pregadores e os líderes religiosos abusam dos pobres fiéis, pedindo dinheiro de forma descarada. Este homem moderno, inteligente e esperto, bem arrumado e maquiado à altura, não dá uma moeda para ninguém, porque ele “não quer contribuir com o crime organizado!”.

O homem da montanha é simples e aberto, não desconfia de ninguém e, por esta razão, sempre que é solicitado estende a mão para o próximo. O homem da cidade, não. Ele que conhece tudo e todos os mecanismos de esperteza e de maldade, desconfia da própria sombra e evita estender a mão para qualquer desconhecido que o aborda na rua. Entretanto, volta e meia ele é abordado por alguém com uma arma e, necessariamente, tem que entregar, não apenas as moedas, mas, também, as notas e os diversos cartões de banco que carrega consigo e que faz questão de deixar à vista quando vai efetuar algum pagamento, para que todos vejam tratar-se de “pessoa de bem”. O homem da montanha nem carteira possui, carrega seu dinheirinho amassado em qualquer um dos bolsos da calça ou da camisa, sem chamar a atenção de ninguém.

O homem da montanha quando passa diante de um hospital ou de uma capela fúnebre, faz profundo silêncio e eleva o pensamento a Deus, porque sabe que alguém está sofrendo em qualquer daqueles lugares. O homem da cidade não liga para isso e, quando passa pelos mesmos lugares, não se importa em meter a mão na buzina do carro se alguém o ultrapassa de forma desajeitada, ou, então, passa com os alto-falantes do carro na último estágio do volume, pouco se lixando para o fato de alguém, naquelas imediações, está em profundo sofrimento.

O homem da cidade, quando morre é levado para o salão mais nobre de uma das instituições por ele frequentadas no curso da vida, onde amigos, vizinhos e parentes fazem filas para olhá-lo naquela última forma que, impreterivelmente, a família cuida para que demonstre boa aparência e feições parecidas com as dos santos, para que todos digam: “olha, parece que está dormindo”, porque a morte, para este tipo de homem, é a maior humilhação pela qual um ser humano pode passar. Ao passo que o homem da montanha, nas mesmas condições, é velado nas capelas mais simples e humildes do lugarejo, sem qualquer pompa e sem nenhuma glória.

Não queria, mas, é bom lembrar que o caixão do homem da cidade é de madeira boa, com alças cromadas e elegantemente projetadas, além de estar regiamente ornamentado e de ser depositado em urna especialmente preparada para ele, no mausoléu da família. Enquanto o homem simples da montanha tem o corpo deitado em um caixão bonito, sim, mas, feito com a pior madeira possível, porque a família não tem condições de dar-lhe um aconchego melhor e, na hora “H”, é depositado no primeiro gavetão público que estiver desocupado. Enquanto no mausoléu da família do homem da cidade a urna mortuária recebe placa de bronze ou de outro metal mais vistoso, com foto e tudo, o do homem da montanha, na maioria da vezes é identificado apenas com uma placa de latão que exibe números grandes, em preto, parecendo marcação de propriedade privada. Propriedade da terra!

São muitas as diferenças entre estes dois tipos humanos, embora feitos da mesma matéria: o pó da terra. De lá veem e para lá retornam, sem se darem conta de que, nesta vida, o que vale mesmo é o viver. Simplesmente viver. Viver da forma mais simples e humilde possível, sem máscaras, sem requintes, sem maquiagens e sem enfeites externos porque, no final, no mausoléu da família ou no gavetão público, tudo será reduzido a nada. Portanto, olhe para o homem da montanha com admiração e procure imitá-lo em tudo porque a ele foram revelados segredos espirituais que, certamente, farão toda a diferença quando o mausoléu da família ou o gavetão público forem lacrados. Dali por diante, tal qual em vida, a caminhada será muito diferente. Reflita sobre isto e ajuste-se enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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