Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: IDENTIDADE FRANCISCANA: A HERANÇA DE ASSIS

nov 19

IDENTIDADE FRANCISCANA – UMA BUSCA CONSTANTE

francisco-o-pobre-de-assisO QUE SABEMOS SOBRE FRANCISCO - 

PARTE II - 

             Estamos, neste mês de novembro, prosseguindo com a apresentação de mais uma série de dados e informações sobre a vida, a obra e a história de Francisco de Assis. Nesta etapa do trabalho, vamos encontrar apoio em Martino Conti , que apresenta o resultado de estudos e pesquisas sobre o Franciscanismo das origens, como o próprio nome da obra sugere.

      O objetivo, como sempre, é levar aos fieis cristãos mais subsídios para o aprofundamento da vida cristã, tendo como exemplo o Pobre de Assis que, com sua vida, obra e exemplos, deixou-nos um legado capaz de tornar-nos cada vez mais ricos, tamanhos os tesouros colocados ao nosso dispor. Vale a pena conferir:

“I - São Francisco e o seu tempo

O auto testemunho de Francisco no Testamento é plenamente confirmado pelos primeiros documentos de vida franciscana, sejam internos (Tomás de Celano, Juliano de Espira) sejam externos à Ordem (Jacques de Vitry). Nele se encontram elementos válidos para reconstruir em grandes linhas uma biografia sua e para individuar algumas das realidades sócio religiosas que caracterizaram o contexto histórico no qual ele viveu e operou.

No Testamento, de fato, distinguem-se nitidamente dois períodos da vida de São Francisco, um anterior ao seu facere poenitentiam (fazer penitência), que ele identifica com o estar em pecados (cum essem in peccatis), e o outro posterior ao mesmo, expresso por ele com as palavras “demorei só bem pouco e abandonei o mundo” (et postea parum steti et exivi de saeculo) (Test 1-3).

Indicações sócio religiosas, próprias daquele período, encontram-se no Testamento, mas muito mais nas Regras (RNB, RB) e nas Cartas.

7.7. Síntese biográfica de Francisco de Assis

Francisco nasce em Assis no fim de 1181 ou no início de 1182, filho de Pedro Bernardone, um rico proprietário e comerciante de tecidos , e de Joana, chamada senhora Pica, durante uma ausência do pai da Itália, que frequentemente transpunha os Alpes para negócios.

No batismo, a mãe dá-lhe o nome de João. Voltando de sua viagem à França, o pai começa a chamá-lo de Francisco, nome que continuará e com o qual será conhecido e que tornará conhecida Assis, sua cidade natal, em todo o mundo. E a mãe que cuida de sua formação religiosa, enquanto que para aprender a ler e a escrever o envia à escola da igreja de São Jorge, em Assis. Francisco tinha também algum conhecimento da língua francesa (provençal), à qual recorria de boa vontade nos momentos de alegria. Quanto ao latim, podemos considerar que o conhecia bem, mesmo se, como afirmam os seus biógrafos, não o dominasse tão perfeitamente para poder exprimir-se e escrever corretamente naquela língua. Segundo os testemunhos de Hugo de Digne e de São Boaventura, no início, Francisco sabia ler pouco (paucas litteras sciret), mas em se¬guida, na Ordem, realizou notáveis progressos, non solum orando (não só rezando), isto é, celebrando a liturgia das Horas, sed etiam legendo (mas também lendo), isto é, me¬diante as leituras apropriadas. Foi introduzido pelo pai na arte dos comerciantes, arte que ele exercitará com habilidade (cautus mercator) por uma dezena de anos. Com a condescendência dos pais, condivide os ideais dos jovens do seu tempo, e isto até à idade de 25 anos, quando “a mão do Senhor pousou sobre ele e a destra do Altíssimo o transformou”.

Aos vinte anos, Francisco toma parte ativa na guerra comunal entre Assis e Perúgia. Na batalha de Ponte San Giovanni, em novembro de 1202, os assisenses são derrotados, e também Francisco, juntamente com muitos outros, é feito prisioneiro. Permanece no cárcere por um período aproximadamente de um ano (1203/4). De volta a Assis, é atingido por uma longa doença (1204), durante a qual o seu mundo interior começa efetivamente a mudar.

A visão do castelo e das armas reacende em Francisco o ideal de cavaleiro. Na primavera de 1205 decide associar-se a um nobre de Assis que estava fazendo os preparativos para encontrar na Apúlia um certo Gualter de Brienne, na esperança de ser logo condecorado com o cobiçado “grau de cavaleiro”. A quem o interrogava sobre a causa de tanta alegria, ele respondia: “Tenho a certeza de que me tornarei um grande príncipe”.

No caminho de Espoleto, como Paulo no caminho de Damasco (At 9), Francisco é parado pela mão do Senhor que o interpela e o convida a deixar o servo para seguir o senhor. Invertido o caminho, Francisco volta a Assis, onde fica na expectativa de que o Senhor lhe manifeste a sua vontade e o plano que tem sobre ele .

Tendo voltado a Assis, Francisco dá adeus às velhas amizades. Entretém-se de bom grado em uma gruta solitária na periferia da cidade, onde com insistentes orações pede ao Senhor que o faça conhecer a sua via e que o ensine a realizar a sua vontade. A resposta não se faz esperar. Superada a natural repugnância para com os leprosos (Tcst 1-3), Francisco é gratificado por uma primeira aparição de Cristo crucificado que lhe imprime no coração o amor pela sua paixão e, por meio daquela mesma visão, o faz sentir como dirigidas a ele as palavras do evangelho: “Se queres vir após mim, renega-te a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me” (Mt 16,24)”

set 17

IDENTIDADE FRANCISCANA – UMA BUSCA CONSTANTE

francisco-o-pobre-de-assis

O QUE SABEMOS SOBRE FRANCISCO

PARTE I

            Estamos iniciando a apresentação de mais uma série de dados e informações sobre a vida, a obra e a história de Francisco de Assis. Nesta etapa do trabalho, vamos encontrar apoio em Martino Conti[1], que apresenta o resultado de estudos e pesquisas sobre o Franciscanismo das origens, como o próprio nome da obra sugere.

            O objetivo, como sempre, é levar aos fieis cristãos mais subsídios para o aprofundamento da vida cristã, tendo como exemplo o Pobre de Assis que, com sua vida, obra e exemplos, deixou-nos um legado capaz de tornar-nos cada vez mais ricos, tamanhos os tesouros colocados ao nosso dispor. Vale a pena conferir:

“A mensagem espiritual de São Francisco de Assis

*Por Martino Conti - 

          Francisco de Assis, fundador e pai dos Frades Meno­res, das Senhoras Pobres e da Ordem dos Irmãos da Penitência , é comumente reconhecido como “um dos santos mais conhecidos e amados” e, entre todos os santos, “o mais evangélico”. Dele, homem novo suscitado pelo Espírito Santo em resposta às exigências dos tempos para renovar a Igreja e o mundo, Tomás de Celano traça o se­guinte perfil físico e moral:

       Tinha maneiras simples, era sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava conselhos, sempre fiel nas suas obrigações, prudente nos julgamentos, eficiente no trabalho e em tudo cheio de elegância. Sereno na inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na oração e fervoroso em todas as coisas. Firme nas resoluções, equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memória luminosa, era sutil ao falar, sério em suas opções e sempre simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros, discreto com todos.

            Muito eloquente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era diligente e incapaz de ser arrogante. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e fino, testa plana e curta, olhos nem grandes nem pequenos, negros e simples, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional, delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas chatas, língua apaziguante, fogosa e aguda, voz forte, doce, clara e sonora, dentes unidos, iguais e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço fino, ombros retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas compridas, pernas finas, pés pequenos, pele fina, descarnado, roupa rude, sono muito curto, trabalho contínuo.

            E como era muito humilde, mostrava toda a mansidão para com todas as pessoas, adaptan­do-se a todos com facilidade. Embora fosse o mais santo de todos, sabia estar entre os peca­dores como se fosse um deles.

         De Francisco possuímos uma coletânea de Escritos (Opuscula) reeditados recentemente por K. Esser (1978) Estes, além da rica e poliédrica personalidade - magistral­mente descrita pelo primeiro biógrafo Tomás de Celano -, colocam à luz a específica vocação contemplativa e apostó­lica do Assisense.

          Segundo uma divisão comumente aceita, os Escritos de São Francisco podem ser distribuídos em três grupos. Um primeiro grupo é atribuído a Francisco como Fundador e Pai (Regra não Bulada, Regra Bulada, Regra de Vida para os Eremitérios, Testamento, Testamento de Sena, Admoestações, Forma de Vida, Última Vontade); um se­gundo é atribuído a ele como evangelizador e conselheiro espiritual (as Cartas); um terceiro grupo é-lhe atribuído como cantor e orante (Louvores e Orações). 

           Entre todos os Escritos de São Francisco, somente o Testamento contém dados autobiográficos. Pertencendo ao gênero literário dos discursos de adeus ou discursos de despedida, o Testamento de Francisco, como os discur­sos de adeus bíblicos (Gn 48-49; Dt 31,28-33,29; lMc 2,49-69; Jo 13-17; At 20,17-35), compõe-se de recorda­ções, de exortações-admoestações e conclui-se com uma “bênção”. As recordações são pessoais e comunitárias. As recordações pessoais reevocam o passado de Francisco.

            Trata-se de alguns quadrinhos que lançam luz sobre os primeiros anos do seu caminho vocacional: história da sua conversão, encontro com o leproso (Test 1-3). A nova es­colha de vida leva Francisco a ver com os olhos da fé as re­alidades que o circundam, tais como as igrejas, os sacerdo­tes que vivem segundo a forma da Igreja Romana propter ordinem ipsorum (por causa da ordem deles), a eucaristia, a palavra de Deus e os que a anunciam (Test 4-13).

            Nas recordações comunitárias, Francisco reevoca os inícios da Ordem até a aprovação da Forma vitae (Forma de vida) por parte do Papa Inocêncio III. Esta segunda parte das recordações termina com a menção da saudação de paz que ele e os seus dirigem indistintamente a quantos encontravam pelo caminho, quando andavam pelo mundo a anunciar o evangelho do reino (Test 14-23). 

            Na segunda parte do Testamento, composta de exortações, Francisco faz referência ao período em que não era mais ministro geral da Ordem e ao seu estado de enfermi­dade (Test 24-39).”

_____________________________________________

[1] CONTI, Martino. Estudos e Pesquisas sobre o FRANCISCANISMO das origens. Petrópolis. Vozes: 2004. 367 páginas.

mai 21

AS PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – IDENTIDADE FRANCISCANA

SANTA CLARA-2

VIDA RELIGIOSA FEMININA E SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL COLONIAL: AS PRIMEIRAS CLARISSAS –

ÚLTIMA PARTE –

 *Frei Sandro Roberto da Costa, OFM  - 

 6.2 A busca da santidade

 Apesar das ambiguidades que marcaram o modo como a vida reli­giosas feminina se instaurou no Brasil, não poucas foram as mulheres que encontraram, dentro dos muros do convento, o caminho da santida­de. A rigor, a história se ocupa dos acontecimentos e fatos extraordiná­rios, das polêmicas, dos grandes feitos e dos grandes personagens. O cotidiano, o dia-a-dia das pessoas discretas e humildes, que não deixa­ram documentos escritos, dificilmente são alcançados pelos pesquisa­dores. Também no convento do Desterro, da Lapa e da Ajuda, em que pese o imaginário criado pela literatura folhetinesca colonial, podemos destacar espíritos profundamente piedosos, dedicados à busca da perfei­ção, à vivência dos ideais do espírito, no cultivo discreto e diário da vocação religiosa no silêncio das celas. A imagem de mulheres forçadas à clausura, infelizes, buscando todos os meios para preencher a frustração de uma vocação não escolhida, contrapõe-se o testemunho de mulheres que optaram livremente pela clausura, que buscaram e encontraram, nos claustros, o caminho da realização. A historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva relata alguns casos de mulheres que declararam categoricamen­te, diante das autoridades, sua livre opção pela vida no claustro, inde­pendente de pressões familiares.39

 Rocha Pita anotava nas primeiras décadas de 1700, sobre as religio­sas do convento do Desterro: “Foi crescendo com o amor de Deus a pu­reza das religiosas em tal grau, que se competiam em santidade, e falece­ram algumas admiráveis em prodigiosa penitência e com notável opinião...”.40 O mesmo autor destaca, quando fala das primeiras que ingres­saram no convento do Desterro, que, ao lado daquelas que ali foram co­locadas pelos pais, também entraram outras que “pretendendo conserva­rem o estado virginal e florescerem em santas virtudes, desejavam servir a Deus nos votos e claustros da religião”.41 Frei João da Apresentação notava, também falando do Desterro em 1739: “Tem várias religiosas de vida exemplar...”.42

 No convento da Lapa ficou célebre madre Joana Angélica de Jesus, que ali ingressou em 1782. Em 1822, no turbilhão dos tumultos que se seguiram à declaração da independência, a então abadessa, opondo-se tenazmente à invasão da clausura pelos soldados, foi morta a golpes de baioneta. Tombou defendendo a clausura e as irmãs de hábito.43

 6.2.1 Madre Vitória da Encarnação

 Entre os “perfis de virtude” do convento do Desterro, destaca-se uma personagem pouco conhecida, mas que marcou seu tempo pelo tes­temunho de fé e experiências místicas: irmã Vitória da Encarnação. Tal foi a fama desta religiosa, que o ilustre arcebispo da Bahia, D. Sebastião Monteiro da Vide, escreveu um livrinho relatando sua vida.44 Nascida no dia 6 de março de 1661, filha de Bartolomeu Correia e de Luiza Bixarxe, uma abastada família de Salvador, dizia quando criança que, ante a possibilidade de entrar num convento, preferia que lhe cortassem a cabeça. Após “visões terrificantes”, que continuaram na clausura, entrou, juntamente com a única irmã, para o convento de Santa Clara do Dester­ro, no dia 29 de setembro de 1686, aos 25 anos. Lá, tomou-se modelo de religiosa, segundo os parâmetros de então: “Madre Vitória só comia sentada no chão, jamais consumia came, estragava o sabor da comida com água e cinza. Todas as noites, carregava pesada cruz às costas, movendo-se de joelhos e trazendo coroa de espinhos à cabeça. Esbofeteava-se e usava cilícios para flagelar o corpo. Certa vez, pôs na boca, para flagelar-se, a canela de um defunto em avançado estado de decomposi­ção, o que lhe causou uma crise de salivação por oito dias seguidos”.45

 Madre Vitória se sobressaía às irmãs de hábito também no espírito de oração: “Passava noites inteiras diante do tabernáculo eucarístico, de joelhos, ou prostrada por terra, ou com os braços em cruz. Pontualíssima em todos os exercícios obrigatórios, ia além das exigências da regra. Acabava a comunidade a reza das matinas e saíam as religiosas; ela fica­va, e prostrava-se então, e chorava rezando, pedindo a Deus perdão para si, e para todas a vida eterna”.46

 As “visões” que tinham começado antes de ingressar no claustro, a acompanharam por toda a vida. Nestas experiências místicas, fazia visi­tas às almas do purgatório, e até o diabo lhe aparecia, em forma de um “molequinho negro”. Crescendo sua fama não só entre as irmãs de hábi­to, mas entre os moradores da cidade, foram-lhe atribuídos poderes taumatúrgicos, como o de, a exemplo de Santo Antônio, encontrar coisas perdidas. Faleceu em “odor de santidade”, no convento do Desterro, no dia 19 de julho de 1715.

 Segundo Pedro Calmon, madre Vitória “encarnava... a austeridade intransigente das grandes místicas: serve de contraste à tradição que fi­cou, do amável convento do século XVIII”.47 Rocha Pita, por sua vez, falando da obra de D. Sebastião Monteiro da Vide, afirma que o mesmo “com voos de águia, soube registrar as luzes daquele extático sol”. Ainda sobre a vida de madre Vitória, escreve o historiador Pedro Calmon que “guarda-se no convento do Desterro, da Bahia, a piedosa memória de Sóror Vitória da Encarnação, ali falecida em 1715, e em cuja honra o arcebispo Dom Sebastião Monteiro da vide escreveu o livrinho famoso (1722). Na cela que foi de sóror Vitória, ainda se vê a ‘vera-effigie’, ali mandada colocar pelo prelado, que a conheceu, testemunhando-lhe as virtudes, com a biografia, e a fama, com o retrato”. E conclui, categóri­co, Pedro Calmon: “É necessário incluir no hagiológio brasileiro essa heroica figura de mulher...”.48

 Rocha Pita ressalta que, além de madre Vitória da Encarnação, ou­tras religiosas se destacavam pela virtude e piedade: “Porém não foram só a madre Vitória e as outras falecidas as que resplandeceram em prodí­gios no seu convento, porque ainda naquela grande esfera de virtudes há mais estrelas da mesma constelação”.49

Conclusão

 O estudo da história da vida religiosa nos ajuda a compreender as ambiguidades e tensões que sempre existiram entre a busca da vivência dos ideais preconizados pelos fundadores, e a realidade concreta onde se dá essa vivência, mediada pelos fatores econômicos, políticos, sociais, e religiosos. Nesse sentido, o estudo do contexto em que se instalaram no Brasil as primeiras religiosas clarissas nos mostra que as religiosas do convento do Desterro foram religiosas do seu tempo. Apesar de viverem enclausuradas, estavam inteiramente inseridas na realidade sócio-política que as cercava, determinadas, na sua organização, nas estruturas e modo de conceber a vida religiosa, pelos fatores e mecanismos externos de uma sociedade ainda em formação, de uma sociedade em ebulição, que tateava em busca de respostas aos desafios que a cada momento sur­giam. Nesta busca, os “recolhimentos” e “beatérios” foram uma respos­ta brasileira, dada com a criatividade e o dinamismo que, na história da vida religiosa, sempre caracterizou os espíritos que decidem dedicar-se totalmente ao serviço de Deus. 

Os consagrados hoje, mulheres e homens, estão buscando, mais do que nunca, meios de corresponder com fidelidade ao carisma. “Volta às fontes”, “refundação”, têm sido alguns dos temas recorrentes nos últi­mos tempos. A história das instituições religiosas nos mostra que nem sempre foi assim. Não obstante tudo, mesmo num ambiente marcado pelo preconceito, pela segregação racial, pela hierarquização e pela dominação do mais forte sobre o mais fraco, houve mulheres e homens que conseguiram encontrar o caminho da realização e da santificação. Se, em nome da manutenção do status quo, muitas vezes os valores evangé­licos foram ofuscados, na prática, no dia-dia, muitos religiosos e religio­sas conseguiram, numa vida de devoção, de piedade e de experiência de Deus, manter acesa a chama da busca de uma vida coerente com os vo­tos que um dia tinham professado. 

Os mais tradicionais conventos de vida religiosa da colônia, passada sua fase de esplendor, entraram em decadência. A sociedade estava mu­dando, bem como seus valores e parâmetros. A própria imagem e posi­ção da mulher na sociedade estava se modificando. Também a imagem da mulher religiosa. Com o advento do iluminismo, a vida religiosa so­fre as mais duras críticas. No dia 19 de maio de 1855 o Ministro da Justiça assina um decreto imperial proibindo, em absoluto, a entrada de novi­ços nas ordens religiosas masculinas e femininas. Chegando quase à ex­tinção no fim do século, algumas entidades conseguem como que renas­cer das cinzas. O mesmo não aconteceu com o convento de Santa Clara do Desterro. Em 1915 morria a última religiosa. Encerrava-se assim a primeira fase da história das religiosas clarissas no Brasil. Uma nova fase estava para começar. No dia 25 de setembro de 1928, sob a media­ção do franciscano frei Rogério Neuhaus, chegavam de Düsseldorf, na Alemanha, oito religiosas clarissas. A partir da fundação do mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula, no Rio de Janeiro, as irmãs clarissas se espalham de novo pelo Brasil. Sua presença silenciosa e dis­creta, na oração, na contemplação e no testemunho da pobreza evangéli­ca, lembra a todos os franciscanos e franciscanas sua missão: fazer pre­sente no Brasil a mensagem sempre necessária e atual da Paz e do Bem.

___________________________________________
  1. História da família..., o.c., 230.
  2. História da América Portuguesa, o.c., 186.
  3. Idem, 185.
  4. REB 642.
  5. Sobre irmã Joana Angélica veja-se o artigo de irmã Lindinalva de Maria, Madre Joana Angélica de Jesus, in Brasil Franciscano, FFB, Petrópolis 1998, 101-111.
  6. A obra, à qual não tivemos acesso, intitula-se: História da vida e morte de madre soror Vitó­ria da Encarnação, religiosa do Convento de Santa Clara do Desterro da Cidade da Bahia, e foi impressa em Roma, em 1720. O autor, Dom Sebastião Monteiro da Vide, português, foi o quinto arcebispo da Bahia (1701-1722), e tomou-se célebre, entre outras coisas, pela realização do sí- nodo diocesano que teve lugar em Salvador, entre 12 e 14 de junho de 1707. Como resultado deste sínodo saíram as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, publicadas em Portu­gal em 1719 e 1720. NEVES, G. P., D. Sebastião Monteiro da Vide, in Dicionário de História do Brasil Colonial, o.c., 180. O insigne historiador professor Riolando Azzi informa que foi publi­cada, em 1934, pela escritora baiana Amélia Rodrigues, uma versão atualizada da obra de D. Se­bastião sobre madre Vitória. Cfr. AZZI, R., A Sé Primacial de Salvador. A Igreja Católica na Ba­hia (1551-2001), vol. I, Vozes -Ucsal, Petrópolis - Salvador 2001, 391.
  1. VAINFAS, R., Madre Vitória da Encarnação, in Dicionário de História do Brasil Colonial, o.c., 362-363.
  2. RODRIGUES, A., Uma flor do Desterro, Escolas Profissionais Salesianas, Niterói 1934, cita­do em AZZI, R., A Sé Primacial de Salvador..., o.c., 392. Por passar longo tempo ajoelhada, “se lhe formaram nos joelhos empolas de sangue, as quais cortava com a tesoura, e depois de feitas em chagas as esfregava com sal e limão para sararem, como dizia às que a viam impossibilitada para as adorações externas”. Idem, 393.
  3. História social do Brasil, o.c., 188.
  4. Idem.
  5. História da América Portuguesa, o.c., 186.
____________________________________________

*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.

 Endereço do autor: Convento Sagrado Coração de Jesus  Caixa Postal: 90023  25689-900 - Petrópolis – RJ  E-mail: sdacosta@itf.org.br

abr 16

AS PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – IDENTIDADE FRANCISCANA

 

SANTA CLARA-2

VIDA RELIGIOSA FEMININA E SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL COLONIAL: AS PRIMEIRAS CLARISSAS –

 PARTE IV –

 *Frei Sandro Roberto da Costa, OFM  - 

5 - Conventos oficiais: para mulheres brancas e da elite colonial 

Embora a história da colônia nos tenha legado vários testemunhos de moças que optaram livre e conscientemente pelo caminho da vida religiosa, os fatos nos mostram que, na maioria das vezes, o ingresso num convento era motivado mais por fatores econômicos e sociais do que religiosos. Além de preservar a castidade, a honra e os “bons costumes”, os conventos “...funcionavam como instrumentos eficazes de regulação de casamentos. Quando se tomava difícil casar ‘bem’ todas as filhas, atraindo jovens ricos, a solução era casar apenas uma e encerrar as outras num convento... Assim a riqueza e o poder político de um pequeno grupo de famílias eram preservados”.28 

O que foi dito acima pode ser corroborado pela afirmação do sargento-mor de Infantaria Francisco Machado Peçanha, que em 1709 dirigiu uma petição ao rei para que suas três filhas fossem recebidas no convento do Desterro. Como sabia que não havia vagas, pedia que as meninas fossem admitidas no noviciado de véu branco, e, assim que houvesse vagas, passassem a professas de véu preto. O sargento justificava seu pedido alegando que tinha sete filhos, e que se via impossibilitado de os acomodar.29 Outro exemplo é o do citado benfeitor João de Miranda Ribeiro, que investiu grandes somas na construção do convento da Lapa. No dia seguinte à inauguração colocava suas cinco filhas no mosteiro, com idade de 29, 27, 21, 16 e 15 anos. Também o já mencionado caso de Manuel de Oliveira Porto, um dos maiores benfeitores do convento do Desterro, que nele colocou suas quatro filhas. Um autor contemporâneo aos fatos notava que, assim que o convento do Desterro foi fundado, “uma multidão de donzelas nobres e ricas abandonaram tudo” e ingressaram nele.30 

Outro problema que dificultava o casamento das filhas da elite era o fato de que, sobre muitos dos pretendentes pairava a incerteza sobre a “pureza de sangue”. Somente se o homem fosse declaradamente filho de pai e mãe portugueses tinha-se a absoluta certeza de suas origens. Do contrário, sempre existia a suspeita da “mestiçagem”, da ilegitimidade, ou de ser “cristão novo” (judeu), que poderia manchar o nome da família. Mas também para ingressar num convento, além do dote, era exigida a prova da “limpeza de sangue”. No Desterro, por exemplo, as candidataras tinham que apresentar prova de que não tinham vínculos sanguíneos com mouros, judeus, ou qualquer outra “raça infecta”.31 “As Claras Pobres do Convento do Desterro ficaram célebres pela sua pureza racial, prosperidade, esplendor dos serviços religiosos... A exigência da ‘pureza de sangue’ para a entrada nessa casa era tão conhecida na Baía (sic) que um pai, cujas filhas eram mulatas claras, pediu à coroa autorização para as enviar para Portugal, onde as possibilidades de entrarem num convento seriam melhores”.32 

Assim, a vida religiosa na colônia ajudou a legitimar o princípio da suposta superioridade da nobreza branca. As mulheres pobres, negras e mulatas principalmente, estavam excluídas deste “estado de perfeição” oferecido às fidalgas brancas. A diferença entre os “recolhimentos” e conventos espelhava a própria diferença social vigente na colônia: os conventos oficiais só aceitavam moças brancas, de provada “pureza de sangue”, que tivessem um dote. As moças pobres, negras, restava a opção do “recolhimento” ou “beatério”, ou então o consolo de ingressarem num destes conventos “oficiais” como “freiras de véu branco” (servas), a serviço das “freiras de véu preto” (religiosas professas).33 

6 - A vida das religiosas nos conventos 

A princípio, o estilo de vida a que normalmente estavam destinadas as mulheres, no casamento, não era muito diferente da vida no claustro. Em ambos os casos, estavam privadas de toda a liberdade de movimento, dentro da clausura patriarcal ou do convento, em ambos os casos reduzida a uma vida de ócio, dedicando-se apenas aos trabalhos manuais, cuidado da casa e dos filhos, entregue às suas orações. Para muitas mulheres, a possibilidade de ingressar em um convento, independentemente do discurso da “vocação”, era garantia de maior liberdade, autonomia e realização do que se seguisse os caminhos traçados pelo pai, que escolhia, à revelia, seu futuro marido. Nas clausuras elas podiam até exercer funções de direção e comando, geralmente negadas na sociedade civil. Além disso, os conventos eram o único espaço que permitia às mulheres o acesso à cultura, onde aprendiam a ler e escrever.34 

Era natural que nos conventos as mulheres que professavam, oriundas da fidalguia, estivessem impregnadas dos valores típicos de uma sociedade escravista. Considerando que boa parte delas entrava não por decisão pessoal, não por “conversão”, mas por imposição dos pais, não é de se estranhar que reproduzissem dentro dos claustros o estilo de vida a que estavam acostumadas fora dele. Daí é comum que houvesse abusos, preocupações com bens, com o luxo, com a vaidade, tolerados pelos próprios parentes.35 

6.1 Os escravos nos conventos 

É sabido que no Brasil colonial o trabalho manual era visto com desprezo, reservado aos escravos. Seguindo essa mentalidade, também nos claustros os trabalhos manuais e domésticos eram realizados pelos servos e servas, que eram ordinariamente admitidos nos conventos.36 Os quase 400 anos em que vigorou a escravidão no Brasil fizeram com que a mentalidade escravista estivesse de tal modo enraizada na cultura brasileira, que nem mesmo o mundo religioso ficou isento de suas consequências. Escravos, homens e mulheres, eram presença comum nas instituições religiosas, fossem eles simples recolhimentos, fossem conventos canonicamente eleitos. Desse modo também nos conventos se reproduzia a estratificação e a segregação hierárquica, típicas da sociedade escravista brasileira.37 

O papa Clemente IX (1667-1669) limitou a 15 o número de servas por convento, para o serviço doméstico, proibindo às religiosas terem servas particulares. Em 1716 D. Pedro II de Portugal proibia os conventos de terem escravos. Em Salvador no entanto, por causa dos longos períodos sem a presença dos bispos, as autoridades nem sempre conseguiram coibir os abusos nesta área. “No final do século XVIII, em 1775, no total de Conventos e Recolhimentos, em Salvador, havia 564 escravas e servas, e 32 escravos, para 300 religiosas e outras moradoras”.38

_______________________________
FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.
  _______________________________
  1. História das Mulheres no Brasil, o.c., 486.
  2. Citado em SILVA, M. B. Nizza da, História da Família no Brasil colonial, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1998, 230.
  3. Rocha Pita, ao discorrer sobre a insistência dos moradores de Salvador na fundação de um mosteiro, fala com naturalidade que a nova fundação serviria “... para acomodar as mulheres principais, que não tinham dotes equivalentes para casarem conforme o seu nascimento”. Histó­ria da América Portuguesa, o.c., 185.
  4. Essa exigência era comum a todas as ordens religiosas, masculinas ou femininas. Nas “inqui­rições de Vita, Genere et Moribus” (interrogatório a respeito dos candidatos à vida religiosa) fei­tas sobre os candidatos da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, nos séculos XVIII e XIX, no quesito 10 se perguntava: “Se conhece a seus pais, e avós paternos e matemos, declarando como os conhece, e donde foram naturais. Se sabe serem limpos de toda a raça, e grau, por remoto que seja, de Judeus, ainda que seu corpo e estátuas não fossem condena­das pelo Santo Oficio; ou se são Mouros ou hereges, ou gentios dentro do quarto grau inclusive”. Arquivo da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Documentos Antigos, Caixa 3.1.21., Pasta I.
  5. BOXER, C. R., A Mulher na Expansão Ultramarina Ibérica (1415-1815). Alguns factos, ideias e personalidades, Livros Horizonte, Lisboa 1977, 72.
  6. “A luta por um lugar no convento era grande, e muitas vezes as jovens de véu branco espera­vam anos antes de professarem... Conforme a informação do arcebispo da Bahia, em 1710, no con­vento de Nossa Senhora do Desterro havia então 51 lugares de véu preto e 17 de véu branco e ape­nas quatro religiosas supranumerárias”. História da Família..., o.c., 230. Merece destaque a peti­ção de Ana Joaquina do Coração de Jesus, parda educada no convento do Desterro. Em fins do sé­culo XVIII Ana Joaquina se dirigiu às autoridades eclesiásticas pleiteando a fundação de um con­vento segundo a regra do instituto da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, onde pudessem ser admitidas apenas moças pardas. As autoridades enviaram o pedido a Lisboa, e a resposta foi nega­tiva: que fundasse um recolhimento para mulheres pardas, como tantos que já existiam no Brasil. Idem, 234-235. Será que Ana Joaquina sabia da existência, no México, dos conventos de clarissas só para as mulheres indígenas? Neste Pais foram fundados 3 conventos destinados exclusivamente às filhas dos caciques: Corpus Christi de México (1724); Nuestra Senora de Cosamaloapan de Morelia (1737) e de Nuestra Senõra de los Ángeles de Oaxaca o Antequera (1782). Cfr. BORGES, P., Religiosos en Hispanoamérica, Editorial Mapfre, Madrid 1992, 294-296.
  7. “Não poucas [mulheres] perceberam que ali [nos conventos] se desenhava a possibilidade de uma vida autônoma, frente aos rigores da família e da sociedade, inclusive permitindo o exercí­cio do poder. Inúmeras foram aquelas que, a fim de expressar sua devoção, enfrentavam a oposi­ção da política metropolitana ao enclausuramento de mulheres, preocupada com a questão do povoamento”. SOIHET, R., História das Mulheres, 284, in CARDOSO, C. F., VAINFAS, R. (orgs.), Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia, Ed. Campus, São Paulo 1997,275-296.
  8. “Proibidas de abandonar os claustros, sujeitas aos votos solenes que professaram, pouco restava às mulheres sem vocação, a não ser reproduzir na clausura costumes e práticas que vivenciaram fora das muralhas dos conventos”. ALGRANTI, L. M., Honradas e devotas: mulheres da colônia, Edunb - José Olímpio, Rio de Janeiro 1993, 232.
  9. Isso não era “privilégio” do Brasil: as 4 primeiras que vieram de Portugal para o Desterro trouxeram consigo 2 servas, como vimos. Também na América espanhola era comum a presença de servas nos conventos.
  10. “Em 1745 o convento [do Desterro] contava cem professas, duas conversas, 30 noviças e postulantes, algumas viúvas e solteiras recoletas, além de 28 criadas, perfazendo com as escra­vas domésticas um total de 300 mulheres! Um dos graves problemas da comunidade... estava re­lacionado às escravas particulares das religiosas”. Cf. MATOS, H. C. J., Nossa História, Tomo I, Paulinas, São Paulo 2001, 245.
  11. História das Mulheres no Brasil..., o.c., 489.
 

mar 19

AS PRIMEIRAS CLARISSAS NO BRASIL – IDENTIDADE FRANCISCANA

SANTA CLARA-2

VIDA RELIGIOSA FEMININA E SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL COLONIAL: AS PRIMEIRAS CLARISSAS –

 PARTE III –

 *Frei Sandro Roberto da Costa, OFM  - 

4.1 Primeiras clarissas brasileiras

 Diz o biógrafo de D. José Fialho que assim que se instalaram em Salvador as primeiras irmãs clarissas “uma multidão de donzelas nobres e ricas abandonaram tudo para se alistarem em a nova milícia seráfi­ca”.20 Estilo literário à parte, o fato é que muitas moças, por inspiração ou por imposição, logo povoaram os muros do novo claustro. Manuel de Oliveira Porto, que durante 3 anos contribuiu com mais de 20 mil cruza­dos para a construção do convento, colocou aí suas 5 filhas, 4 delas to­mando imediatamente o hábito, e a mais nova, ainda sem idade para ini­ciar o noviciado, tomou-se “pupila”.21 

A primeira brasileira que ingressou no noviciado, tornando-se por­tanto a primeira religiosa clarissa brasileira foi irmã Marta de Cristo. Sua irmã, Leonor de Jesus, muito nova, teve que esperar para começar o noviciado. A mestra de noviças era irmã Maria de São Raimundo. Tam­bém o limite fixado de 50 religiosas professas logo foi superado, conse­guindo-se para isso permissões especiais da Metrópole. 

As irmãs vindas de Portugal ficaram em Salvador durante nove anos, até 1686, quando voltaram ao convento de Évora, deixando como abadessa a primeira religiosa brasileira, irmã Marta de Cristo. Novamente recor­remos ao testemunho do historiador Rocha Pita: “Deixando a casa mate­rial muito aumentada, e a espiritual subida a grande altura de virtudes, elei­ta no lugar de abadessa, como mais antiga, a madre Sóror Marta de Cristo, voltaram para Portugal as fundadoras no ano de mil e setecentos e oitenta e seis, depois de se empregarem nove anos no estabelecimento da comu­nidade, dos institutos da religião e do seu espírito...”.22 

As abadessas eram eleitas por três anos. A madre Marta de Cristo sucederam as irmãs mais antigas, e ela mesma foi reconduzida várias ve­zes ao cargo, “porque o seu grande talento e religioso exemplo as obri­gava a ocupá-la no lugar repetidas vezes”.23 

Em 1739 a situação do convento do Desterro parecia deste modo a um contemporâneo: “Há um convento de religiosas de Santa Clara, que fica quase fora da cidade; é magnífico e mais amplo e maior da cidade... É dedicado a Santa Clara, com o título do Desterro. Terá ele o número mais ou menos de noventa religiosas, com várias fâmulas que, conforme o estilo da terra, são pretas. Tem várias religiosas de vida exemplar e rendas suficientes. Ainda que o descuido de alguns procuradores, en­quanto a sua arrecadação, tenham produzido os efeitos próprios e natu­rais de uma omissão muito culpável, hoje se vê emendado este erro com muita conveniência do convento. É sujeito ao Ordinário, e os Prelados cuidam muito na sua subsistência e regularidade. Tem um capelão com renda mui suficiente.”24 

4.2 Fundações derivadas do convento de Santa Clara do Desterro 

4.2.1 O convento de Nossa Senhora da Lapa 

No ano de 1733 os moradores de Salvador conseguiram, através de um alvará régio, a fundação de mais um convento em terras soteropolitanas. Trata-se do convento da Lapa, que leva esse nome por causa de um azulejo localizado próximo ao altar-mor da capela, com um desenho re­presentando o presépio (Lapa). Em 1734 o papa Clemente XII enviou um breve dando instruções sobre a nova fundação: os fundadores-benfeitores, citados principalmente os senhores João de Miranda Ribeiro e Manuel Antunes de Lima, deveriam custear as obras, cujas dependências poderiam abrigar trezentas religiosas. Em 1739 o convento ainda estava em obras, portanto sem religiosas: “Há também nesta freguesia um convento novo com a invocação de Nossa Senhora da Lapa, o qual ainda que de pa­redes esteja acabado, não está ainda na sua perfeição, e por alguns emba­raços e dúvidas que se tem movido, está sem religiosas”.25 

O Breve de 1734 determinava também que duas religiosas do con­vento de Santa Clara do Desterro assumissem a nova fundação. Assim, no dia 7 de dezembro de 1744, irmã Caetana da Assunção e irmã Josefa Clara de Jesus deixavam o Desterro e se mudavam para o novo conven­to. O Breve determinava também que a nova fundação deveria seguir a Regra da Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas). Madre Caetana e madre Josefa, trocando o hábito negro das filhas de Santa Cla­ra, pelo branco das seguidoras de Santa Beatriz da Silva, assumiram como abadessa e mestra de noviças, respectivamente. As primeiras no­viças foram quatro das cinco filhas do benfeitor João de Miranda, que no dia seguinte colocou aí as moças com idade entre 15 e 29 anos. A mais nova teve que esperar um ano para começar o noviciado. 

4.2.2 O Convento de Nossa Senhora da Ajuda26 

A história da fundação do convento de Nossa Senhora da Ajuda está diretamente ligada à pessoa de frei Cristóvão da Mãe de Deus Luz, reli­gioso franciscano da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, guardião do convento Santo Antônio do Rio de Janeiro e por dois triênios provincial da neo-ereta Província (1681-1684/ 1694-1697).27 Retornando de Lisboa em junho de 1677, depois de ter ido tratar de ne­gócios da Província, além de ter acompanhado quatro sobrinhas que in­gressaram em conventos em Portugal, frei Cristóvão veio com a ideia de fundar um convento para moças no Brasil. No dia 26 de julho de 1678, dia de Sant’Anna, foi fundado um recolhimento junto à ermida de Nossa Senhora da Ajuda, nos arredores da cidade, onde ingressaram várias moças. Deu-se início a todo o processo para se conseguir a fundação de um convento canonicamente ereto, obtendo-se a licença régia em feve­reiro de 1705. 

O anseio da população e fiéis em ter um convento para suas filhas não foi correspondido pelas autoridades, de modo que nos anos seguin­tes, pouco se fez. Em 1741 foi escolhido um novo terreno (correspon­dente à atual Cinelândia, no centro do Rio). Aos poucos as obras foram avançando, e em 1748 foi obtida da Santa Sé a ereção canônica, devendo seguir a Regra de Santa Clara. Por intervenção do bispo D. Antônio do Desterro junto à Santa Sé, em 1750 foi introduzida a Regra da Ordem da Imaculada Conceição, das Concepcionistas. O convento não podia ter mais que 33 postulantes, além de algumas leigas. Deviam também ado­tar as Constituições do Mosteiro da Luz, de Lisboa. 

No dia 21 de novembro de 1749 chegavam ao Rio de Janeiro quatro religiosas professas e duas leigas vindas do convento do Desterro, fican­do hospedadas no hospício da Terra Santa. No dia 30 de maio de 1750, em solene procissão, seguida de festa, as irmãs do Desterro foram conduzidas do Mosteiro de São Bento ao novo convento. Doze postulantes iniciaram aí, sob a direção das irmãs, seu caminho na vida religiosa. Dez anos depois foi eleita a primeira abadessa concepcionista, madre Maria Isabel da Cruz. As irmãs clarissas, cumprida a sua missão, retomaram, depois de onze anos, em 1761, ao seu convento de origem. 

___________________________
FREI SANDRO*Frei Sandro Roberto da Costa é doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Itália. Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Atua também na área da História Franciscana, franciscanismo no Brasil, e história da Vida Religiosa. É autor de inúmeros artigos, além de assessorar cursos pelo Brasil.
 
_______________________________________
  1. REB, 642, nota 20.
  2. Pupilos ou pupilas eram crianças que, pelos mais variados motivos, viviam nos conventos (órfãos, educandos, filhos de pais desconhecidos [os “expostos”], etc.). Não eram obrigados a as­sumir a vida religiosa quando atingissem a idade legal (16 anos) mas era o que se esperava da maioria deles, e muitos de fato não tinham outra opção. Falando da vida religiosa feminina no Brasil, comentava o historiador Pedro Calmon: “Internaram-se raparigas em idade tenra, aos 8 e 10 anos, antes que a vocação se lhes definisse, ao contato das emoções sociais. O mosteiro era definitivo, variado, independente. Quem lá se acolhia, em sociedade que só a morte extinguia, com tantas outras companheiras igualmente sacrificadas ao mesmo ideal, se não forçadas ao mesmo destino, perdia a noção de que o resto do mundo se fizesse de lutas e sofrimentos, habituava-se indústria, ao ritmo, à rotina dos claustros, e atingia comumente a longevidade num am­biente de progressiva exaltação religiosa”. História social do Brasil, o.c., 54-55.
  3. Continua o autor: “...não podendo detê-las as lágrimas das suas filhas, nem os rogos dos mo­radores da Bahia; e satisfeitos ainda mais das vontades que das suas ofertas, fazendo-lhes uma ostentosa despedida com honras militares, políticas e religiosas, se embarcaram na frota do refe­rido ano, e chegaram com viagem feliz a Lisboa, donde passaram ao seu convento de Évora”. História da América Portuguesa, o.c., 186.
  4. Idem.
  5. REB, 642.
  6. Idem.
  7. Sobre o mosteiro da Ajuda fazemos aqui uma breve síntese. Remetemos, para maiores escla­recimentos, ao artigo da irmã Maria Auxiliadora do Preciosíssimo Sangue: Jubileu do Mosteiro da Ajuda, in Revista Franciscana, vol. I, nos. 1 e 2 (2001), 49-55.
  8. Maiores informações sobre frei Cristóvão da Madre de Deus e seu papel na fundação do re­colhimento da Ajuda: RÕWER, B., História da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Vozes, Petrópolis 1951, 24-29; 39-41.
 

mar 05

REVENDO FRANCISCO – ÚLTIMO TEXTO

FARN-11

AGRADECIMENTO AO SENHOR -  

*Por Viviane Gonçalves Noel - 

                 “Louvai e bendizei o meu Senhor, agradecei-Lhe e servi-O com grande humildade.” 

A Deus, todo agradecimento

A tudo que nos foi dado por amor, não por merecimento!

A Deus, toda nossa servidão

Que se revela na compaixão!

Compaixão por toda criatura e pela natureza,

Fontes da real beleza!

A Deus, toda nossa humildade

Que se apresenta na simplicidade!

Simplicidade em nos reconhecermos como criaturas e cocriadores,

A Deus, nossos louvores!

Agradeçamos mais do que peçamos

Ao Deus que nós amamos!

  ___________________________________________________________
*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 

mar 02

REVENDO FRANCISCO – DÉCIMO TEXTO

FRAN-10

IRMÃ MORTE CORPORAL -  

*Por Viviane Gonçalves Noel - 

                    “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar; ai daqueles que morrem em pecado mortal; felizes aqueles que a morte encontrar na Tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal.” 

Oh, Irmã Morte Corporal,

Que, na vida, cais feito temporal!

Por que te tememos tanto?

Tu, que nos levas por encanto?

És viva como a própria vida!

Não deveríamos temer a partida!

De Deus, tu és a mensageira

Que nos retorna à casa primeira!

Oh, Irmã Morte Corporal,

Criatura, como tu, não tem igual!

Antes de chegares fulminante,

Peço que nos ensines a morrer doravante!

A morrer para o pecado de uma vida contida,

Sem nenhuma brisa de amor sentida!

Oh, Irmã Morte Corporal,

De todas as criaturas, não levarás mais que o material!

Somos chamados à vida!

Portanto, te consideres vencida! 

 

No próximo e último encontro sobre o Cântico das Criaturas, refletiremos sobre o “Agradecimento ao Senhor”!

  ___________________________________________________________
*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 

fev 27

REVENDO FRANCISCO – NONO TEXTO

FRAN-9

IRMÃO SER HUMANO -  

*Por Viviane Gonçalves Noel - 

                    “Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulação; bem-aventurados os que guardam a paz, pois serão coroados por ti, Altíssimo.” 

Ofensas, enfermidades, tribulações,

Riscos que correm todos os corações!

A vida é um desafio diário,

O perdão e a calma na dor, um comportamento necessário!

Busquemos guardar a paz verdadeira,

Ainda que estejamos sem eira, nem beira!

Para todo o mal, o perdão!

Para toda enfermidade, uma canção!

O bem e a saúde estão no profundo do ser

E não no que parecemos ter!

A verdadeira paz, a única paz

É a própria vida que traz!

Para quem se permite ir além das tribulações, da dor, da vingança!

Para quem se permite ser criança!

Continuamente errante,

Porém, sempre seguindo adiante! 

 

No próximo encontro, refletiremos sobre a “Irmã Morte Corporal”!

  ___________________________________________________________
*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 

fev 24

REVENDO FRANCISCO – OITAVO TEXTO

FRAN-8

IRMÃ TERRA -  

*Por Viviane Gonçalves Noel - 

                     “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a Mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz diversos frutos e coloridas flores e ervas.” 

Oh, irmã Terra querida,

Tu és a nossa fonte de vida!

Em ti, fazemos morada.

Pecar contra ti é maldade transfigurada!

 

Tu nos acolhes em teu chão

E, de teu solo, retiramos o pão!

Tu nos ofereces todo tipo de alimento.

Em teu colo, nosso eterno acalento!

 

Em ti, a diversidade habita.

És a origem da vida que grita!

São diferentes seres, formas e cores,

Vários frutos, sementes e flores!

 

O que fazemos contigo,

De fato, merece castigo!

A ti, manchamos com as cores da destruição,

Com todos os tipos de poluição!

 

Oh, irmã Terra abençoada,

Já é hora de lutarmos contra essa crueldade desenfreada!

E acabarmos com essa pobreza espiritual,

Em busca de um novo ritual!

 

Tu és não só uma irmã, mas uma mãe acolhedora.

Tu és nossa rica provedora!

Em ti, diversas lindas paisagens e seres coloridos:

Oceanos, matas, montanhas, bichos, homens e campos floridos!

 

A ti, poluímos, agredimos, devastamos.

Com todos os tipos de maus-tratos, te apunhalamos!

Brigamos, entre nós, por teu território,

Esquecendo que tu és, de todos, um oratório!

Poluição dos solos, desertificação, extinção de espécies, desmatamento...

Nossa destruição e exploração não cabem no pensamento!

Gaia, lugar sagrado de nossa trajetória,

Tu és o ventre com o início, o meio e o fim de nossa história!

Que Deus proteja sua filha querida

Da nossa cruel vaidade erguida!

 

No próximo encontro, refletiremos sobre o “Irmão Ser Humano”!

  ______________________________________________________________
*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 

fev 20

REVENDO FRANCISCO – SÉTIMO TEXTO

FRAN-7

IRMÃO FOGO -  

*Por Viviane Gonçalves Noel - 

                   “Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual iluminas a noite: ele é belo, alegre, robusto e forte.” 

Oh, irmão Fogo, que ardes,

Iluminando o fim das nossas tardes!

A luz nasce em tuas chamas coloridas,

E nós a usamos para destruir diversas vidas!

 

Sempre presente na marcha da humanidade,

Com teu calor, acalentas a diversidade!

Como tu és belo, vívido e forte!

Tua luz, na vida, nos dá o norte!

 

Tu liberas energia,

Fonte de toda alegria!

És radiante de chamas! O coração do nosso planeta Terra!

E há tempos te usamos para fazer guerra!

 

O que fazemos contigo,

De fato, merece castigo!

A ti, manchamos com as cores da destruição,

Com todos os tipos de poluição!

 

Oh, irmão Fogo, tão luminoso,

Já é hora de pararmos com esse jeito ardiloso!

E acabarmos com essa pobreza espiritual,

Em busca de um novo ritual!

 

Tu, que te dás e te consomes, para a nossa trilha clarear!

Símbolo da vida que aprendemos a domar!

És chama encarcerada nas mãos de quem te faz submisso,

Queimadas, balões, armas! Com a vida, nenhum compromisso!

 

Irmão que podes construir ou destruir,

Irradiar a luz ou demolir!

Só depende do homem dar o tom

E revelar a liberdade que lhe é dada como dom!

 

Acendamos uma vela para orações

E queimemos na fogueira das paixões!

É, no singelo e quente entrelaçar de mãos,

Que nos tornamos mais irmãos!

Sintamos as línguas de fogo do Espírito Santo que edifica,

É a presença do Criador que santifica!

 

No próximo encontro, refletiremos sobre a “Irmã Terra”!

_____________________________________________________________
*Viviane Gonçalves Noel, é formada em Pedagogia, pela Universidade Católica de Petrópolis e pós-graduada em Espiritualidade, Ecologia e Educação - uma abordagem transdisciplinar, pelo Instituto Teológico Franciscano. Trabalha com a criação de poesias e crônicas personalizadas para as mais diversas ocasiões. Em dezembro de 2014, lançou seu primeiro livro: Francisco de Assis e a Profunda Poesia de Ser Parte da Natureza, pela Editora Chiado. Em maio de 2015, lançou, de forma independente, seu segundo livro, o infantil: O Travesseiro Mágico. 

Posts mais antigos «

Apoio: