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fev 14

GEMA GALGANI: UMA LINDA ESTRELA NO FIRMAMENTO CELESTE – PARTE II

GEMA GALGANI

SANTA GEMA GALGANI

PARTE II

*Por Luiz Antonio de Moura

         Em continuação ao texto por nós encetado em 06 de dezembro de 2015, sobre Santa Gema Galgani, queremos recordar nosso destaque para a relação íntima que a Santa tinha com Jesus, de tal modo, e em tal profundidade, que os estigmas do divino Mestre começaram ser manifestos em todo o seu corpo – mãos, pés, lado e cabeça – pontos onde Jesus foi severamente ferido, além, é claro, das profundas marcas decorrentes dos açoites sofridos.

            Em Gema, tudo isso pareceu meio esquizofrênico, e alguns chegaram a pensar em loucura ou até em possessão. Entretanto, não foram poucos os sacerdotes que dela se aproximaram para uma investigação mais detalhada.

            Neste trabalho, Padre Caetano do Menino Jesus, missionário Passionista, fez questão de registrar suas impressões, afirmando:

“Eu, abaixo assinado, atesto ter visto no mês de julho do ano de 1899, sobre as mãos da jovem Gema Galgani, certas chagas que nada tinham de natural. Nas palmas, via-se como um pedaço de carne sobreposto, semelhante à cabeça de um prego do tamanho de um vintém; nas costas de ambas as mãos um rasgão bem profundo. A falta de carne nessas feridas ocasionada por um prego pontiagudo que tivesse sido encravado no lado oposto. E e a pessoa que comigo observou, não hesitamos em dizer que eram estigmas produzidos por uma causa toda sobrenatural. De fato, reparando nas mãos da jovem, na quinta-feira de noite, nada víamos; observando-as na manhã de sexta-feira, achamo-las do modo que descrevemos; e de novo examinando no sábado, só restava uma pequena cicatriz avermelhada. Na fé. (Padre Caetano do Menino Jesus, Passionista)”.[1]  

            Padre Germano de Santo Estanislau, biógrafo de Santa Gema que, como destacamos na primeira parte deste trabalho, conheceu-a desde a primeira infância, afirma que, além do Padre Caetano do Menino Jesus, no final de agosto de 1899, chegou em Lucca o provincial dos Passionistas e arcebispo de Camerino, Padre Pedro Paulo da Imaculada, depois de visitar Gema, na casa da família Giannini, com a qual vivia, fez questão de escrever extenso relatório, o qual, em testemunho da verdade, faço questão de reproduzir na íntegra:

            “Tendo ouvido falar desta jovem com quem se davam fatos extraordinários, desconfiei de que se tratasse de simples ilusões femininas e quis assegurar-me com meus próprios olhos. Dirigi-me àquela casa, numa terça-feira e vendo-a, tive a inspiração de suplicar ao Senhor que se dignasse dar-me um sinal palpável se era, com efeito, Ele o autor daqueles fatos maravilhosos; e interiormente, sem comunicá-lo a ninguém, pensei em dois - o suor de sangue e a aparição dos estigmas.

            Chegada a tarde, a piedosa donzela se retirou para fazer suas costumadas orações diante da Imagem de Jesus Crucificado. Depois de alguns minutos, estava arrebatada em êxtase. Entrei e vi com meus próprios olhos que estava toda transfigurada, à semelhança de um anjo, se bem que imersa em profunda dor.

                           Da cabeça, do rosto e das mãos, corria sangue vivo - e julgo que se dava o mesmo em todo o resto do corpo. Continuou assim, a derramar sangue, durante meia hora, embora não escorresse até o chão porque tão logo brotava, tão logo secava.

                      Retirei-me comovido e Gema, quando voltou a si do êxtase, achando-se só com a tia, disse-lhe: “O padre pediu dois sinais a Jesus. Jesus me disse que um já lhe deu; e o outro dar-lhe-á igualmente”.

                       À noite a dita senhora me interrogou com empenho: “Senhor Padre, outro sinal que Vossa Reverendíssima pediu, seriam as chagas?” Eu fiquei atônito, e ela continuou: ‘Digo isto porque, se foi assim, Gema já as têm abertas; caso raro até agora, ela só os têm tido nas quintas e sextas-feiras. Venha e veja!’

                      Fui e encontrei aquela bendita criatura em êxtase, como da primeira vez, com as mãos transpassadas (digo transpassadas!) de um lado a outro, com grandes chagas dentro da carne, donde corria sangue em abundância. Durou o tocante espetáculo uns cinco minutos... [do qual ele faz uma minuciosa e perfeita descrição, coincidindo exatamente com a que eu tinha feito]; e cessando o êxtase, desapareceram o sangue e as feridas, e a pele antes dilacerada, voltou repentinamente ao estado natural tão facilmente que foi suficiente mandar-lhe lavar as mãos para que tudo desaparecesse.

                      Jesus me tinha atendido, e eu agradecendo-Lhe, depus toda a dúvida desfavorável, ficando firme em crer que: digitus Dei est hic. (O dedo de Deus está aqui)"[2]. 

            Diante de tão incisivos relatos, Monsenhor Volpi, confessor de Gema, decidiu secretamente enviar um médico para examiná-la, com a missão de relatar suas impressões acerca dos estigmas já presenciados pelos dois sacerdotes citados acima. Gema, que produzia, também, sua autobiografia, faz uma anotação bastante interessante, por meio da qual revela a relação pessoal que mantinha com Jesus. Afirma ela:

                “Monsenhor julgou acertado mandar-me examinar por um médico sem me avisar, mas Jesus me preveniu com estas palavras: “Diga a teu confessor que em presença do médico nada farei do que ele deseja”. Por ordem de Jesus assim fiz: avisei ao confessor”.[3]

            Realmente, Gema fez chegar até Monsenhor Volpi a mensagem de Jesus, acrescentando que, se desejasse ver com os próprios olhos, e sozinho, tudo seria permitido, destacando no final da mensagem: “tenha certeza de que não se trata de uma doença como supõe”.

            Monsenhor Volpi não se deu por vencido e decidiu visitar a jovem Gema acompanhado por um médico porque, acreditava, se se tratasse de doença ou de, possível autossugestão, ele, sozinho, não poderia dissipar as dúvidas. Assim, de comum acordo com a dona da casa, senhora Cecília Giannini, na sexta-feira seguinte, compareceu à casa, acompanhado do médico.

            O Padre Germano conta que naquela sexta-feira, por volta das dez horas da manhã, Gema retirou-se para o seu quarto e, em seguida, entrou em êxtase, permanecendo neste estado por mais ou menos uma hora, após o que, voltando a si, escreveu ao Bispo Volpi lembrando que, caso quisesse ver os estigmas, que viesse sozinho pois, se viesse acompanhado por alguém, Jesus ficaria profundamente descontente e não lho permitiria ver coisa alguma.

            Por volta de uma hora da tarde, Gema retornou para o seu quarto e, novamente em êxtase, começou a expelir sangue na fronte e nas mãos, na presença de D. Cecília, do sr. Matheus Giannini acompanhado da esposa D. Justina e de outras pessoas da família.

            Por volta das duas horas da tarde, chegaram Monsenhor Volpi e o médico, recebidos por D. Cecília que, muito contente, afirma-lhes terem chegado num momento mais do que propício para os propósitos almejados. O médico, imediatamente, tomou um pano embebecido em água e passou-o sobre as mãos e sobre a fronte de Gema. Padre Germano conta que, de repente, o sangue desapareceu por completo e a pele mostrou-se totalmente sã, sem qualquer marca ou cicatriz, “como se nunca tivesse sido ferida”.[4]

            O médico ainda tentou examinar os pés e o lago de Gema, mas, qual não foi sua surpresa a constatar que estavam completamente sãos, sem qualquer marca ou sinal de ferimento.

            Gema, em sua autobiografia afirma que o médico agiu como entendeu ser correto, “mas tudo se realizou como Jesus tinha predito”. Naquela mesma noite, porém, escreveu para o Monsenhor Volpi afirmando:

“Se Vossa Reverendíssima tivesse vindo só, Jesus o teria satisfeito ontem à tarde. Jesus me avisou que hoje Vossa Reverendíssima devia vir...”

            Durante todo o tempo em que durou aquela visita indesejada, Gema esteve em êxtase e somente quando voltou a si, foi que notou que as pessoas ao seu redor pareciam desapontadas e confusas, ante a total ausência dos prodígios que, sempre, duravam até o dia seguinte, com grande profusão de sangue.

           D.Cecília Giannini, mãe adotiva de Gema, querendo distraí-la um pouco, convidou-a para um breve passeio. No caminho, Gema pede-lhe que a acompanhe até a Igreja de São Simão, alegando necessidade de estar com Jesus. Depois de mais de uma hora diante do sacrário, e já do lado de fora da igreja, Gema mostra à d. Cecília as mãos abertas, derramando sangue, como nas sextas-feiras anteriores. Com o seu consentimento, Gema foi levada à presença do Bispo Volpi, para que pudesse ver com os próprios olhos, não apenas o sangue, mas, também, as feridas de onde escorria.

            Padre Germano de Santo Estanislau afirma que:

“O prudente Prelado disfarçou a sua admiração para não dar à devota jovem o menor motivo de vaidade, contentando-se com observar-lhe as mãos, e despediu-a logo”[5]

            Pelo que dissemos até aqui, o que pode ser conferido na biografia de Santa Gema, escrita por Padre Germano de Santo Estanislau, podemos verificar, ao menos duas coisas: 1) Gema era muito especial e, de fato, mantinha um íntimo relacionamento com Jesus, o que iremos acentuar ainda mais nas próximas edições; 2) os estigmas sagrados a ela conferidos ocorriam com a absoluta permissão de Jesus, haja vista que, diante de uma pessoa estranha à fé e ao Clero, nada acontecia, conforme fora antecipado diretamente à Santa.

            Por tudo o que já foi exposto, é natural que as pessoas tenham curiosidade em conhecer ainda mais a vida desta Imaculada Santa, para o que, sugiro a leitura do livro: SANTA GEMA GALGANI. Padre Germano de Santo Estanislau, C.P. Campinas.  2ª Ed. Ecclesiae: 2014. 342 páginas.

            Porém, para os que não puderem, ou não quiserem adquirir o livro, sugiro que continuem acompanhando nossas publicações sobre Santa Gema, que ocorrem a cada dois meses, sempre no segundo domingo do mês.

_____________________________________________________ [1] ESTANISLAU, Padre Germano de Santo, C.P. SANTA GEMA GALGANI. Campinas.  2ª Ed. Ecclesiae: 2014. Págs. 89/90. [2] Idem págs. 90/91. [3] Ibidem [4] Idem pág. 92 [5] Idem pág. 93 ___________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.

dez 06

GEMA GALGANI: UMA LINDA ESTRELA NO FIRMAMENTO CELESTE

GEMA GALGANI

SANTA GEMA GALGANI

PARTE I

*Por Luiz Antonio de Moura

                   Um dos maiores desafios do nosso tempo é pensar a modernidade em compasso com a santidade. Quão diferentes são os parâmetros de uma e de outra, assim como os resultados decorrentes de tal análise. O século em que vivemos está plenamente em compasso com a modernidade, mas, está em relação à santidade?

                        A pergunta só pode ser respondida se fizermos uma análise profunda entre o nível de santidade verificada entre meados dos séculos XIX e XX, mais ou menos no curso de 100 anos. Se observarmos os santos nascidos, revelados e canonizados no espaço entre 1850 e 1950, mais ou menos, vamos perceber o alto nível da santidade então verificada, onde os santos realmente viviam na e da fé absolutas, além, dos sacrifícios pessoais oferecidos de forma voluntária, como a mortificação do corpo, o jejum, os sacramentos da penitência e da comunhão e a vida em clausura.

                       Não teríamos, hoje, mais nenhum santo, então? Claro que temos! Nossos santos estão aí, passando por nós em cada esquina, convivendo e conversando conosco, estendendo-nos as mãos etc. Mas, não podem ter suas vidas comparadas com as dos santos de antes.

                        Ainda que de forma bastante resumida, quero falar, aqui, neste texto, sobre uma das mais belas santas de que já tive notícia: Santa Gema Galgani. Que vida! Que história! Que exemplo! Que Santa!

                   Nascida em 12 de março de 1878, na localidade de Camigliano, uma pequena aldeia da Toscana, próxima à cidade de Lucca, e batizada com o nome de Gema Maria Humberta, era filha de Henrique Galgani e de Aurélia, cristãos fervorosos e abastados cidadãos.

                      Henrique e Aurélia foram pais de sete filhos, além de Gema.

                      Gema sempre foi uma menina maravilhosa. Ainda pequena, não gostava que o pai a acariciasse, mostrando, desde muito cedo, que protegeria seu corpo contra quaisquer mãos. Mais tarde, consciente de que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, ela chegará ao extremo de impedir ser tocada pelos médicos, quando teve avançado estado doentio que quase levou-a à morte.

                 Duas grandes relações familiares marcaram a vida da menina Gema: a relação com a mãe e com o irmão Gino, a quem acompanhou durante toda a sua vida, até os últimos suspiros deste, no leito de morte.

                    Aurélia, sua mãe, agradecia sempre a Deus por tê-la atendido concedendo-a uma filha, mas, ao mesmo tempo lamentava por ter acontecido tão tarde em sua vida, quando já estava doente e sentia que a morte já estava à espreita. Entretanto, os poucos anos de vida de Aurélia ao lado da pequena Gema foram de suma importância para formação espiritual da pequena futura santa. Aurélia sempre dizia à filha “aproveita as lições de tua mãe”[1], explicando-lhe as verdades da fé, o valor das almas, o horror devido ao pecado e a grande felicidade de se pertencer integralmente a Deus e da fuga das vaidades do mundo.

                        Mostrando para filha a imagem do Cristo crucificado, Aurélia dizia “Vês, Gema, como o nosso amantíssimo Jesus morreu por nós na cruz”[2], esforçando-se para introduzir a menina na compreensão do mistério do amor de Deus, ensinando-a, também, a rezar nas principais horas do dia: ao deitar à noite e ao se levantar de manhã, além de muitas outras horas no curso do dia.

                Apesar de todo o incômodo que as crianças sentem com os assuntos voltados para as orações e para os sermões, a pequena Gema ouvia-os com incrível atenção e gosto, deixando transparecer a grandeza e a luminosidade da sua alma. Jamais se cansava de ouvir ou de rezar, obrigando a mãe, muitas vezes fatigada com os afazeres domésticos, a reservar tempo para os primeiros exercícios espirituais da filha que sempre pedia: “Mamãe, fale-me um pouco mais de Jesus”[3].

                      A perda da mãe, vítima da tuberculose, colocou a pequena Gema em contato direto com a morte e, a partir de 17 de setembro de 1886, tornou-se órfã de mãe, ficando aos cuidados do pai. Embora tivesse deixado a filha na casa da tia, Helena, Henrique decidiu reunir toda a família em torno de si e, por esta razão, e também por pressão do filho Gino, não autorizou a permanência de Gema na casa da tia por mais tempo.

                       Gema, então, voltou para casa, para felicidade de todos. Henrique decidiu matriculá-la como aluna externa no Instituto das Irmãs de Santa Zita. Gema sempre muito atenciosa e dedicada com seus afazeres e, por esta razão, obteve excelentes resultados nos estudos.

                        Um acontecimento, porém, marcaria sua vida para sempre: a recepção da primeira eucaristia. Próxima de completar dez anos de idade, ela suplicava ao pai, ao confessor e à mestra que lhe dessem o seu Jesus, o que não era comum acontecer com meninas de tão pouca idade.

                        Depois de tanta insistência e de tantas lágrimas, o Padre e confessor da menina, João Volpi, de comum acordo com o Bispo de Arezo, decidiu conceder à pequena Gema o direito de receber a Sagrada Comunhão. Tamanha felicidade foi registrada pela própria menina:

“Obtive a permissão à noite, e no dia seguinte, pela manhã, fui logo ao convento, onde fiquei dez dias. Durante este tempo não vi ninguém de minha família; mas, como me sentia bem! Que paraíso! Logo que cheguei ao convento julguei-me tão feliz; corri para agradecer a Jesus na capela e rezei com fervor para preparar-me bem para a Sagrada Comunhão. Então nasceu em meu coração o grande desejo de conhecer toda a vida de Jesus e sua paixão.”[4]

                        Padre Germano de Santo Estanislau, autor da biografia de Santa Gema, fala do caráter da menina-adolescente atribuindo-lhe uma índole franca e sincera: “Para ela o sim era sim, e o não, não; o branco, branco, e o preto, preto. Não havia dobras naquele coração, assim como sentia, falava e procedia, sem procurar meios-termos, quer para começar, quer para terminar qualquer assunto. Ignorava o que, no mundo, chama-se cerimônia ou etiquetas. Satisfazia-se com a observância das regras essenciais da civilidade; não queria saber de mais nada; falava claramente com todos e não podia acreditar que levassem a mal a sua sinceridade. De fato, ninguém se ofendeu jamais com suas palavras e maneiras. Pelo contrário, se a interessante menina se resolvia a entreter-se por mais tempo conversando (o que não era fácil), de bom grado se detinha o ouvinte sem sentir o menor enfado”[5]

                        O ponto alto da vida de Santa Gema foi sua íntima relação com Jesus. Tão íntima que ela recebeu, de forma integral, todos os estigmas da Sagrada Paixão. A partir de 1899, às quintas e às sextas-feiras abriam-se-lhe profundas chagas nas mãos e nos pés, assim como o corte profundo no lado, com o sangue sendo derramado de forma intensa, muitas vezes, escorrendo até ao chão do quarto, onde ela ficava em profundo êxtase e contorcendo-se de fortíssimas dores. Todas as pessoas da família foram testemunhas destes fatos, assim como o confessor, Padre Germano de Santo Estanislau; o diretor espiritual, Bispo João Volpi, bem como os Religiosos Passionistas: Padre Caetano; Padre Pedro Paulo; Padre Inácio de Santa Teresa; Padre Francisco do Coração de Jesus; Padre Lucas de São José e diversos outros.[6] 

                     Na Parte II deste relato, vamos nos aprofundar um pouco mais sobre a vida desta maravilhosa Santa e, ao final, indicaremos a leitura integral de sua vida.

 CONTINUA

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[1] ESTANISLAU, Padre Germano de Santo, C.P. SANTA GEMA GALGANI. Campinas.  2ª Ed. Ecclesiae: 2014. 342 páginas

[2] Ibidem. [3] Ibidem. [4] Idem, pág. 27. [5] Idem, pág. 34. [6] Idem pág. 119.

out 11

TERESA DE LISIEUX: UMA ALMA COM HISTÓRIA

SANTA TERESA DE LISIEUX - 2

SANTA TERESA DE LISIEUX

 

                        Talvez o nome pomposo – Teresa de Lisieux – cause certa dúvida na cabeça dos fieis. Porém, diante da explicação de que estamos falando sobre Santa Teresinha do Menino Jesus, as coisas ficam mais claras e todos, certamente, conhecem ou já ouviram falar a respeito desta santa maravilhosa.

                        Filha de Luís Martin e de Zélia Guérin, Maria Francisca Teresa nasceu no dia 02 de janeiro de 1873, sendo a nona filha do casal. O nascimento de Teresa era esperado com muita ansiedade por Zélia que, ao ver a pequena criaturinha em seu leito, escreve para a cunhada dizendo: “Eu amo loucamente as crianças, nasci para tê-las”[1].

                        Teresa foi, desde o ventre materno, um ser todo especial. Em uma outra carta escrita à cunhada, Zélia afirma que “Durante a gravidez, observei uma coisa que nunca acontecera com meus outros filhos; quando eu cantava, ela cantava comigo... Confio isso a você, ninguém poderia acreditar nisso”[2].

                        Ao tempo em que Teresa era criança ainda não eram verificados os fantásticos progressos auferidos pela medicina dos séculos seguintes, razão da alta mortalidade infantil. Tal realidade levou, ainda na primeira infância, quatro de seus irmãos! E ela própria quase partiu de forma prematura, não fosse o esforço desmedido de Zélia que, com quarenta e dois anos de idade e lutando contra um câncer no seio, lutou bravamente para salvar a menininha do seu coração, confiando-a a uma ama-de-leite e tendo que separar-se dela, já que foi levada para a fazenda de Semallé.  

                       Teresa foi salva da morte. Zélia, no entanto, cinco anos depois, separava-se definitivamente da filha que tanto amava. O dia era 28 de agosto de 1877 e essa dor alcança a fundo a alma de Teresa que, mais tarde dirá: “A partir da morte de mamãe, meu caráter feliz mudou completamente, eu tão viva, tão expansiva, fiquei tímida e mansa, excessivamente sensível”[3].

                        A partir daquela separação, toda a família, ao lado do pai, muda-se para Lisieux, para morar próximo ao Tio Guérin, irmão de Zélia e tutor das crianças. Para Teresa, a irmã Paulina é tida como a “mamãe”, tão grande o amor, o carinho e a dedicação que esta irmã lhe oferece. Assim, ao lado de Paulina, de Maria, de Leônia, de Celina e de Luís, o pai, tentam continuar a vida sem a presença física de Zélia.

                        Aos nove anos Teresa é matriculada na escola das beneditinas como meio-pensionista, embora ainda estivesse preparada para este estilo de vida. Um ano mais tarde, nova separação: a irmã Paulina, sua “segunda mãe” decide entrar para o mosteiro do Carmelo, tendo que afastar-se de casa e, consequentemente, de Teresa. Mais tarde, Teresa dirá: “Como poderia descrever a angústia do meu coração. A vida apareceu-me em toda a sua realidade, vi que ela não era senão sofrimento e separação contínua”[4].

                        O Natal de 1886 foi decisivo na vida de Teresa e ela, na História de uma Alma,  conta que:

“Nessa noite de luz, começou o terceiro período da minha vida, o mais belo de todos, o mais cheio das graças do Céu... . Num instante a obra que eu não pudera fazer em 10 anos, Jesus fez contentando-se com a minha boa vontade que nunca me faltara. Como seus apóstolos eu podia dizer-lhe: ‘Senhor, pesquei a noite toda sem nada pegar’. Mais misericordioso ainda comigo do que foi para seus discípulos, o próprio Jesus pegou a rede, lançou-a e retirou-a cheia de peixes... . Fez de mim pescador de almas, senti um grande desejo de trabalhar para a conversão dos pecadores, desejo que não sentira tão vivamente.... Senti numa palavra a caridade entrar no meu coração, a necessidade de me esquecer para dar prazer e desde então fui feliz!”[5].

                        Em 09 de abril de 1888, na festa da Anunciação, Teresa, então com quinze anos de idade, entra para o Carmelo, a partir de onde seguiria de forma mais decisiva e incisiva, para a santidade. Quanto à data, ela recordaria mais tarde:

“O que eu vinha fazer no Carmelo, eu o declarei aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que precedeu à minha profissão: “Vim para salvar as almas e sobretudo a fim de rezar pelos sacerdotes”. Quando se quer atingir uma meta, é preciso tomar os meios; Jesus me fez compreender que era pela cruz que Ele queria dar-me as almas e min há atração pelo sofrimento cresceu à medida que o sofrimento aumentava.”

                        Menos de dez anos depois, na sexta-feira 30 de setembro de 1897, Teresa morria, por volta das 19:30 horas, deixando para nós a sua História de uma Alma onde, a pedido da Madre Superiora, escreve e descreve todos os momentos da sua vida, que ficaram vivos em sua lembrança.

                        As primeiras palavras escritas no livro são dirigidas à Madre Inês de Jesus:

“A vós, Madre querida, vós que sois duas vezes minha Mãe, venho confiar a história de minha alma... . No dia em que me mandou fazê-lo, pareceu-me que isso dissiparia o meu coração ao ocupa-lo com ele mesmo, mas depois Jesus me fez sentir que ao obedecer simplesmente eu lhe seria agradável; aliás não vou fazer senão uma só coisa: Começar a cantar o que devo repetir eternamente – “As misericórdias do Senhor!!!!”[6].

                        Já ao romper do tempo, na proximidade do fim de siua existência terrena, ela relata:

“Só o desejo de ser vítima basta, mas é preciso consentir em permanecer pobre e sem força e isto é o difícil porque “o verdadeiro pobre de espírito, onde encontrá-lo? É preciso busca-lo bem longe”, disse o salmista... . Ele não diz que é preciso buscar entre as grandes almas, mas “bem longe”, quer dizer na baixeza, no nada... Ah! Fiquemos pois bem longe de tudo o que brilha, amemos nossa pequenez, amemos não sentir nada, então seremos pobres de espírito e Jesus virá nos buscar, por longe que estivermos ele nos transformará em chamas de amor... Oh! Como gostaria de poder vos fazer compreender o que sinto!... É a confiança e nada senão a confiança que deve conduzir-nos ao Amor... O temor não conduz à justiça severa assim como é representada aos pecadores, mas não [é] essa Justiça que Jesus terá por aqueles que o amem. Visto que vemos o caminho, corramos juntos. Sim, eu o sinto, Jesus quer dar-nos as mesmas graças, quer dar-nos gratuitamente o seu Céu”[7].

                   Teresa foi canonizada pelo Papa Pio XI, em 17 de maio de 1925 e proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, em 19 de outubro de 1997, pouco depois da recordação do centenário de sua morte.

                        No livro “História de uma Alma”, edição crítica de Conrad De Meester, editado pela Paulinas, é possível obter uma profunda compreensão da vida de Teresa de Lisieux e da sua importância para a Igreja de Cristo. Indicamos a leitura deste livro aos nossos leitores, a fim de conhecerem melhor este maravilhoso exemplo de vida e de santidade.

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[1] MEESTER, Conrad de. HISTÓRIA DE UMA ALMA. Edição crítica. São Paulo. Paulinas: 2008. 360 páginas. Apud Martin, Z & L. Correspondance familiale. Paris. Cerf, 2004. CF 83, p. 119.
[2] Idem p. 29
[3] Ibidem.
[4]  MEESTER, Conrad de. HISTÓRIA DE UMA ALMA. Edição crítica. São Paulo. Paulinas: 2008, p. 30.
[5] Idem p. 125.
[6] Idem p. 47.
[7] Idem p. 324.

set 13

MAIS UM PRESENTE DA MÃE ÁFRICA

SANTA BAKHITA

SANTA JOSEFINA BAKHITA -

 *Por Luiz Antonio de Moura -

                        Falar sobre Josefina Bakhita é mergulhar na vida simples e humilde daquele africano escondido do mundo, que sobrevive graças à Deus e à sua autodeterminação, tamanhas as dificuldades encontradas. É pensar naquele africano, pobre, negro, trabalhador que mora, alimenta-se e veste-se da forma mais precária possível, tentando vencer as doenças, a desnutrição e a miséria no sentido mais amplo possível.

                        Pois, mesmo em um cenário como este, ainda é possível ter que viver escondendo-se das guerrilhas cruéis e assassinas que, com viés político-militaresco, grassam por toda a região menos desenvolvida do imenso continente.

                        Em um ambiente como este, vamos encontrar uma família sudanesa em especial – marido, mulher e filhos – vivendo e sobrevivendo como Deus permite, porém, com a felicidade de manterem-se unidos em todas as adversidades. Até que um dia, mercadores humanos roubam daquela família a menina mais velha, que tinha em torno de oito para nove anos de idade. Pegam aquela pobre menina esquálida, inocente e indefesa para quê? Para vendê-la como escrava. Para lucrarem com a carne humana. Ninguém viu, ninguém filmou, ninguém testemunhou. Quem contou a história foi Madre Josefina Bakhita, à Madre Superiora da Congregação das Filhas da Caridade, de Madalena de Canossa.

                        Irmã Bakhita contou algumas das muitas recordações daquela fatídica manhã, em que estava sentada com uma amiguinha de doze ou treze anos de idade, à beira de um córrego, conversando e atirando pedras na água, quando, de repente, apareceram-lhes dois homens armados. Um deles, conta Bakhita, mandou embora a amiguinha de doze ou treze anos e ordenou que Josefina caminhasse um pouco à frente, para buscar pequeno embrulho escondido entre os arbustos. A menina, amedrontada, tratou de cumprir rapidamente a ordem que recebera, achando que, em seguida, seria mandada de volta para casa. Ledo engano! Afastada a amiguinha, Josefina é seguida pelos homens que, agarrando-a pelos braços magros, transformam-na em prisioneira e, como tal, obrigam-na a caminhar durante todo aquele dia e a noite que o seguia. Preocupada com os pais, que nunca mais veria, sofrida com os maus tratos recebidos, pés descalços, feridos e sangrando, a menina segue aqueles dois contrabandistas de seres humanos, que não demonstravam qualquer sentimento de piedade.

                        Exausta da longa caminhada, ferida, suada, suja e faminta a menina é atirada numa espécie de esconderijo, recebendo um pedaço de pão e a ordem para ficar ali, quieta, até que decidissem o seu destino. Ali ela permaneceu por mais de um mês:

“Um pequeno furo no alto era a minha janela. A porta se abria por breves instantes para me darem alimento magro. O que sofri naquele lugar, não é possível descrever em palavras. Lembro-me ainda daquelas horas de angústia quando, cansada de chorar, caía quase desmaiada no chão em ligeiro torpor, enquanto a fantasia me levava para junto dos meus queridos lá longe, tão longe...”[1]

                        Depois de tanto tempo de angústia, lamento e sofrimento finalmente Bakhita compreende o destino que está reservado para si: ser vendida como escrava. Assim, ela conta que certa manhã foi entregue pelo patrão a um mercador de escravos que, depois de efetuar a compra, coloca-a junto com outros escravos, dentre os quais uma menina um pouco maior.

                        A longa caminhada fez com que aquela menina pobre, simples, humilde, inocente e indefesa enfrentasse dores que tiveram o dramático efeito de matar para sempre a sua infância, antecipando nela a chegada de uma mentalidade adulta, onde teria que aprender, a duras penas, como conviver, e mais, como sobreviver, num mundo cercado pelo dinheiro, pelo poder e pela servidão absoluta. Um mundo totalmente diferente daquele em que fora criada por seus pais, naquela humilde aldeia do Sudão.

                        Depois da primeira, Bakhita seria vendida, ainda, mais duas ou três vezes, sendo por fim, dada de presente a uma família nobre, de cuja filha Bakhita torna-se babá.

                        A partir desta doação e desta função como babá, a mão de Deus começa a se fazer visível.

                        Já estando longe da África, e sem esperança e sem vontade alguma de para lá retornar, Bakhita aproveita o longo período em que fica, com a filha pequena da senhora, sob os cuidados das irmãs da Congregação da Caridade de Veneza. As irmãs canossianas, responsáveis pelo Catecumenato, apresentaram Jesus Cristo a Josefina Bakhita. Falaram-lhe sobre o projeto de Deus para a Salvação dos homens; sobre o nascimento, a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ensinaram-lhe sobre o mistério da transubstanciação do pão e do vinho, em corpo e sangue de Cristo. Enfim, abriram para Bakhita as portas do céu, ainda em vida.

                        Quando, nove meses depois de estar ali, na Congregação, a senhora retorna para buscar Bakhita e a filha pequena, para um retorno à África, encontra uma resistência que não imaginara: Bakhita já estava com a alma totalmente entregue ao Senhor, e luta para permanecer na Congregação. É ela própria quem conta:

“Eu me recusei a segui-la para a África, porque não me sentia instruída para o batismo. Pensava também que, depois de batizada, não poderia professar a nova religião, e que por isso me era mais conveniente ficar com as irmãs. Ela ficou furiosa, tachando-me de ingrata ao deixá-la partir sozinha, depois de ela ter feito tanto bem a mim. Eu, porém, firme em meu pensamento. [...] Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque Ele queria tornar-me toda sua. Que bondade!”[2]

                        Finalmente, em 09 de janeiro de 1890, Bakhita recebe o batismo e, também, o novo nome – Josefina Margarida e Fortunata que, em árabe, quer dizer BAKHITA e, em 07 de dezembro de 1893 entrava para o noviciado pronunciando os santos votos em 08 de dezembro de 1896.

                        Quase um século depois, em 17 de maio de 1992, ocorre a beatificação, durante o pontificado de João Paulo II que, oito anos depois, em outubro de 2000 encerrava o processo de canonização de Santa Bakhita.

                        Durante o discurso de beatificação o Papa afirmou que: “Em nosso tempo, quando a corrida desenfreada pelo poder, pelo dinheiro e pelo prazer produz tanta desconfiança, violência e solidão, Bakhita nos é doada pelo Senhor como ‘Irmã universal’, para que nos revele o segredo da felicidade mais verdadeira: as bem-aventuranças”[3].

                        A Igreja Católica, em diversas oportunidades é acusada de promover a ascensão de santos e santas de forma indiscriminada, como se fosse uma verdadeira indústria de celebridades. Ocorre, no entanto, que os santos estão aqui, caminhando dia-após-dia ao nosso lado, convivendo conosco, falando conosco, estendendo as mãos para nós que, de forma insensível, insistimos em desconsiderá-los e em desprezá-los.

                Quando morrem, alguém se interessa por suas histórias de vida, de dedicação, de sofrimento, de doação e de abnegação totais e tão intensas que a única forma de reparar nosso erro, engano ou maldade, é reconhecê-los como seres tão superiores a nós e tão próximos de Deus, que realmente merecem o título de “Santos”.

                   A história de Santa Josefina Bakhita é uma dessas histórias que, a princípio, não interessa a ninguém. Quantos meninos e meninas são sequestrados todos os dias, não apenas na África, mas em diversos pontos do planeta, sem que ninguém se interesse por suas histórias de vida? Quantos, porém, escapam da escravidão e da servidão humana para, tornarem-se servos e servas de Deus, não mais servindo aos senhores do mundo, mas, diretamente aos filhos e às filhas do Deus único e verdadeiro, cuja face nos é revelada por Jesus Cristo?

                       A Igreja cumpre papel exclusivo nesse mister! Trazendo até nós aqueles e aquelas que, por suas histórias de vida e de santidade, reconhecidamente fazem parte do séquito divino, convidando-nos a imitá-los sempre e sempre, na busca por idêntica posição.

                        Essa é a nossa homenagem a Santa Josefina Bakhita, mulher, negra, pobre, humilde, escrava e aprisionada pelos homens, mas que, liberta pelas mãos poderosas do Senhor, tornou-se para nós, ícone de santidade, de doação, de dedicação e de abnegação por amor ao Filho de Deus.

 
Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.

Para saber mais:

LIVRO: ZANINI, Roberto Ítalo. JOSEFINA BAKHITA. O CORAÇÃO NOS MARTELAVA NO PEITO – DIÁRIO DE UMA ESCRAVA QUE SE TORNOU SANTA. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas. DVD: BAKHITA – Uma história Maravilhosa. Santa Josefina Bakhita. Paulinas. 2006. 74 minutos de duração, dublado. ----------------------------------------------------------- [1] ZANINI, Roberto Ítalo (Org.). JOSEFINA BAKHITA – O Coração nos Martelava no Peito – Diário de uma escrava que se tornou santa. São Paulo. Paulus: 2014. 94 páginas. [2] Op. cit. pág 31. [3] Op. cit. pág. 53.

ago 09

IDENTIDADE FEMININA

ISABEL DE HUNGRIA

SANTA ISABEL DE HUNGRIA

 *Por Patrícia de Moraes

                      Isabel (ou Elizabeth) nasceu na Hungria em 1207, filha do rei André II e de Gertrudes de Merânia. Com a idade de quatro anos é enviada como noiva do filho primogênito do conde Hermann I à corte da Turíngia - região situada na extremidade sudoeste da Alemanha. Este é então um dos centros emergentes da cultura dos trovadores alemães. Criada nessa atmosfera frívola e casando-se com Luís aos quatorze anos, Isabel entra em contato com os primeiros missionários franciscanos na Alemanha. No caso de Isabel não se pode falar de "conversão" mas o que ela encontra no ideal franciscano é o enriquecimento e aprofundamento de valores da fé. Os testemunhos de Francisco e Clara vão de encontro ao desejo que Isabel sempre conservou em seu coração.  

                   Essa influência franciscana faz com que Isabel adote uma prática ostensiva, denegando seu status, misturando-se aos pobres nas procissões religiosas, mostrando-se em vestimentas em frangalhos, de mendicante, diante de suas servas. Nos almoços festivos, ela causava escândalo ao recusar toda alimentação provinda de fonte "injusta", ou seja, da expropriação dos bens dos pobres ou da Igreja.  

              Das fontes dos testemunhos de personagens que passaram pela vida de Isabel, aflora uma figura de mulher completa como moça, mãe e viúva consagrada ao serviço dos pobres e dos doentes, rica de humanidade e com profunda vida interior. Seu ideal de santidade se caracteriza pelo equilíbrio entre as obrigações às quais estava vinculada como filha de rei e landgravina de um poderoso Estado e as práticas de uma vida religiosa pobre e austera. Nela, nunca a realeza esteve separada por uma profunda piedade; toda a sua vida, antes e depois da morte do marido, foi sempre marcada por fundamental unidade.  

                Tendo  contato com os primeiros franciscanos enviados à Alemanha, Isabel abraçou com entusiasmo a vida dos penitentes, no heroico exercício de todas as virtudes, a ponde de tornar-se a terceira figura do tríptico franciscano do século XIII, ao lado de São Francisco e de Santa Clara.  

               Isabel vence com muita espontaneidade as barreiras da nobreza, etiquetas e usos da corte para colocar-se ao lado dos humildes e necessitados, confundindo-se com eles. Tudo isso acontecia e provocava uma grande contrariedade na corte que não aceitava algumas de suas "liberdades". Em Isabel era admirável seu modo de proceder para com o próximo. Há nesta grande mulher uma profunda humanidade, uma sensibilidade de seus atos e suas palavras além de uma vontade de viver não para si, mas para os outros, que se traduz num amor sem limites pelo marido, pelos filhos e a mesma delicadeza e atenção para com os outros, especialmente os pobres e sofredores. Da classe nobre a que pertencia tinha o porte senhoril e a disponibilidade de recursos, mas não a vaidade e separação que costumeiramente criam distância e estabelecem submissão.  

               Desde os primeiros anos, Isabel foi sendo instruída a saber dominar-se e aceitar pequenos sacrifícios por amor do Senhor. A mãe, visando um bom casamento, estimulou a natural inclinação à compaixão, colocando a filha em contato com os pobres. André II e a rainha Gertrudes procuravam ir ao encontro das necessidades de seus súditos da melhor maneira que podiam. A pequena Isabel ia junto na distribuição de alimento e dinheiro por ocasião do Advento e da Quaresma. A intuição e a sensibilidade dos humildes logo começaram a designá-la como "a pequena santa" se referindo a princesinha por seu sempre presente sorriso nos lábios, por suas palavras e gestos afetuosos.  

                  Aos quatro anos e meio Isabel se torna noiva de Ludovico, na época com onze anos. Hermano e Sofia, os pais de Ludovico acolheram com muito carinho e pareciam amá-la como uma filha. Para ser a companheira dos brinquedos de Isabel foi escolhida a menina Guda, filha de dois modestos burgueses, que será sua estimada e fiel companheira até a idade adulta. Ela nos relata a profunda religiosidade da pequena Isabel. Frequentemente ela via Isabel se dirigir ocultamente à capela, abrir o saltério e rezar, como se soubesse ler. Outras vezes, se prostrava diante do altar em atitude de recolhimento e fazia repetidas genuflexões. Quando a capela estava fechada, beijava a porta e as paredes.  

                  Ao saber como o Senhor salvara o mundo, manifestou o desejo de ver as preciosas miniaturas representando cenas bíblicas. Os pais adotivos tinham tanta confiança na pequena que permitiram que tivesse em mãos um dos livros mais preciosos que artistas tinham feito para o ladgrave e sua família. Trata-se do, assim dito, Livro das orações de Santa Isabel da Hungria.  

               A adolescência de Isabel, como retrata Guda, é permeada pela presença de Cristo em todas as suas ações; invocava-o com doçura, orientando para Ele seus atos e pensamentos. Alma orante, permanecia longo tempo de joelhos diante da cama, imersa em orações a que se tinha obrigado. Todos os dias, se privava de alguma coisa para mortificar a vontade. Vestia-se como uma simples mulher do povo e somente quando as regras da etiqueta e as obrigações do seu estado impunham é que ela usava vestes preciosas.  

             Ludovico amava sua jovem noiva, com exclusivo amor, mas com manifestações menos visíveis do que ela, que era de temperamento mais passional. Com dezessete anos, Ludovico começou a reinar. Homem bom e puro de coração, generoso e benigno com os pobres, prestava socorro aos que viviam em dificuldade e encorajava os súditos para o trabalho e o comércio.  

                 Aos quatorze anos Isabel se torna finalmente esposa de Ludovico, tendo as bodas celebradas em maio de 1221. Em setembro já esperava seu primogênito com tremor, mas também com a máxima confiança em Deus. Não aproveitou de seu estado para entregar-se à indolência e ao nada fazer. Ao contrário, sentia uma força nova que a impulsionava a dedicar-se aos outros, particularmente às crianças mais pobres, como se o instinto materno se dilatasse ao infinito. Em março, Isabel deu à luz seu primeiro filho, Hermano.  

                 Embora amasse o marido com profundo amor, Isabel lamentava não ter merecido conservar a honra da virgindade pois na Idade Média, por errônea interpretação do pensamento de Paulo, o celibato era tido como superior ao casamento. Isabel, filha de seu tempo, não pensava diferente. Ainda assim, de maneira sublime, soube conciliar o amor a Deus e o amor ao marido. Muitas vezes, no meio da noite, levantava-se e rezava prolongadamente, ajoelhada diante do leito e, desta forma, nunca permitiu que o esposo ocupasse o lugar de Deus. Ocorria uma maravilhosa osmose entre o humano e o divino.  

                   Isabel dedica ao marido um amor terno, tem três filhos dele, seu casamento é pontuado pelo respeito das vontades e das preferências mútuas. Isabel dá passos definitivos para a reabilitação do casamento como sacramento na espiritualidade medieval.  

                  No início da primavera de 1224, Isabel torna-se mãe pela segunda vez, dando à luz uma menina, à qual deu o nome de Sofia. No dia 29 de setembro, festa de São Miguel Arcanjo, Isabel tornou-se mãe pela terceira vez, dando à luz uma menina que recebeu o nome de Gertrudes. Aos 20 anos de idade, Isabel fica viúva.  

                 O encontro com os franciscanos marca uma etapa fundamental na vida de Santa Isabel. Sua alma, já aberta à graça divina, em contato com a espiritualidade seráfica, recebeu nova seiva que a levaria à perfeição. Isabel aderiu ao movimento mendicante como penitente da Ordem de São Francisco (mais tarde Ordem Terceira da Penitência, atual Ordem Franciscana Secular) entendendo-se com isso uma pertença à Ordem seráfica de fato e com plena adesão.  

               Isabel era uma "religiosa" vivendo no mundo. O incentivo e o estímulo para esta escolha foram essencialmente franciscanos, ou seja, o mesmo que tinha motivado Francisco e Clara: a altíssima pobreza. Em 1228 faz um ato solene de consagração, na forma mais estrita da sequela Christi, que consistia em seguir o Cristo pobre e humilde, na capela de seu castelo.  

               Um aspecto interessante do franciscanismo de Isabel era seu empenho em fazer com que outros se interessassem por seu ideal. Deste modo, também fizeram profissão religiosa as fidelíssimas companheiras Guda e Isentrudes. Outra característica era a intensidade absolutamente surpreendente com que Isabel exerce a caridade: está pronta para distribuir os estoques do conde em tempos de fome e transforma seu palácio de Wartburg em hospital. Depois da morte do marido, funda em Marburgo um hospital para leprosos dedicado a São Francisco de Assis. Anda vestida de um hábito feito de pano áspero e todo remendado, usando uma corda rude na cintura e um manto também remendado e encompridado com tecidos de outras cores. Tinha os cabelos cortados e andava descalça. Parecia uma outra Clara, a mãe das pobres reclusas.  

               A marca de fogo do Espírito que a consagra como verdadeira filha de São Francisco é constituída pelo exercício constante das virtudes próprias da espiritualidade franciscana: a humildade, a pobreza e a mortificação. O carisma franciscano de Isabel configura-se na imitação alegre e amorosa de Jesus "pobre, desprezado e crucificado", com uma característica pessoal irrepetível: a extraordinária caridade para com o próximo. Seguindo o ensinamento de São Francisco, Isabel, quando o marido ainda era vivo, tecia lã juntamente com as servas para confeccionar roupas destinadas aos pobres. Tornando-se viúva, o trabalho manual e o esmolar tornaram-se suas ocupações habituais.  

                Os motivos que fizeram com que Isabel se dirigisse aos leprosos foram os mesmos de Francisco. Antes de tudo, era uma escolha teológica, cristocêntrica, decorrente do desejo de imitar Jesus Cristo em tudo. Nos irmãos atingidos pelo terrível mal ela via a imagem do Salvador atingido pelos pecados do mundo. Não podemos esquecer alguma coisa que em Isabel era muito forte: a participação humana nos sofrimentos dos outros.  

                  Uma certa vez, tendo tomado conhecimento de um mendigo enfermo de aspecto horrendo, que sofria de dificuldades mentais, tomou-o escondidamente, cortou-lhe os cabelos, mantendo-o amorosamente reclinado junto de seu seio. Depois de tê-lo lavado, deixou-o escondido num canto do jardim para evitar os olhares curiosos dos outros. Foi, no entanto, descoberta e repreendida. Justificou-se, mostrando o mais belo sorriso. Em todas as obras de misericórdia, chamava atenção de modo particular o sorriso sincero que enfeitava perenemente seu rosto. Estamos diante de uma mulher em que santidade e feminilidade se unem harmoniosamente, evidenciando uma simbiose perfeita entre natureza e graça 

                Várias vezes ao dia, Isabel descia de Wartburgo para ocupar-se de seus doentes. Logo que chegava, ia de leito em leito, contentando o desejo de cada um, falando do Senhor e da paciência que deve sempre alimentar a vida de todo bom cristão. Estas palavras calavam fundo no coração daquela gente pobre como um bálsamo salutar, porque davam o testemunho de uma caridade eficaz. Vendo-a, os pobres viam o Senhor.  

                Isabel transforma seu palácio em Wartburgo em hospital e em tempos de fome, chega, inclusive, a distribuir os estoques do conde. Depois da morte do marido em 1227, ela abandona a corte e funda em Marburgo um hospital para leprosos dedicado a São Francisco de Assis. Dedica-se aos cuidados para com os doentes e acaba sua vida em condições bastante humildes. Diante do impulso do novo evangelismo representado pelas ordens mendicantes, o exemplo de Isabel conta entre os sucessos mais espetaculares: as renúncias da filha de um rei, sua profissão pela fé pela pobreza voluntária e sua dedicação na assistência voltada para os pobres lhe valem um culto imediato, assim como a canonização em 1235.  

                  Isabel iniciou um verdadeiro movimento religioso nas cortes da Europa: um viveiro de santas-princesas seguiu-a: Inês da Boêmia (prima de Isabel e com quem Clara de Assis manteve um relacionamento epistolar), Edwiges da Silésia, Margarida da Hungria, Cunegunda da Cracóvia, Elizabeth de Töss, Isabelle da França, Sancha de Maiorca, Isabela de Portugal.  

                 O culto a Santa Isabel reuniu uma série de modelos da santidade feminina. Ele promoveu uma síntese entre a espiritualidade franciscana mediterrânea, a mística alemã e a santidade dinástica centro-europeia. Esta santa é ao mesmo tempo aquela das cortes e aquela das cidades, aquela das princesas e aquela dos pobres; santa como criança e virgem, mulier fortis como crítica dos modos dos que a cercavam, mas preservando o amor terno no casamento; comparada à Virgem quando esta segura seu filho recém-nascido nos braços, viúva exemplar, e de alguma forma também mártir de sua vocação, filha de rei morta aos 24 anos, cuidando dos leprosos. Uma mulher extraordinária!  

 

*PATRÍCIA DE MORAES, pertence à Ordem Franciscana Secular Fraternidade Santo Antonio – no Largo da Carioca – é graduada em Letras pela UFRJ e em Teologia pela Faculdade de São Bento, no Rio de Janeiro, atua como Terapeuta em Dependência Química e, atualmente cursa propedêutica em Teologia Bíblica, na PUC/RJ e, também, administra, com Luiz Antonio de Moura, o site www.lisaac.blog.br e a página www.facebook.com/lisaac.sementes 

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jul 12

IDENTIDADE FEMININA

 SANTA CLARA

CLARA, FRANCISCO E JESUS: TRÊS PESSOAS, UMA SÓ VIDA

*Por Patrícia de Moraes 

             Pensar Santa Clara como modelo é mergulhar na força dessa mulher, no vigor de sua postura frente aos desafios da vida, ao mesmo tempo na ternura de suas atitudes, no seu acolhimento do amor sem reservas. Clara é uma resposta de amor para a humanidade, pois, ninguém como ela para ensinar a amar o Cristo pobre e crucificado. Ter um encontro com Clara é acender no coração de quem esteja disposto o desejo de seguir esse Jesus. É encontrar a dimensão feminina da vida evangélica franciscana. 

         Marco Bartoli propõe um resumo da vida de Clara em poucos traços fundamentais: Clara nasceu no final do século XII, numa cidade marcada por contrastes sociais. Sua família era da aristocracia e fazia parte dos maiores da cidade. Clara era a primogênita do ramo mais jovem da família; era bela e tinha sido educada na perspectiva de um bom casamento. Sua formação teve duas referências culturais: a cultura cortês-cavalheiresca e a cultura hagiográfica e foi educada segundo os princípios da educação aristocrática. Conheceu ela também as tribulações e os problemas decorrentes da guerra entre Assis e Perugia e do exílio imposto aos aristocratas de Assis. Clara foi educada com valores, por sua mãe Hortolana, mulher representativa da nova religiosidade que eclodiu entre o final do século XII e início do XIII. 

         A convergência da vida de Clara para o Cristo já ocorre no ventre materno, através da voz profética que se dirige à Hortolana, proveniente do crucifixo. Essa experiência de Jesus se desenvolve durante toda a sua infância, como atesta o Processo de canonização, através das testemunhas que conviveram com Clara.  

         Confinada dentro de casa, como ditava os costumes da época, Clara demonstra que essa conformação ao Cristo pobre já aparece também em sua juventude. É a moça que age com extrema generosidade e está atenta ao que se passa fora das paredes de sua casa, mesmo não saindo dela. Dessa forma, pode-se supor que o episódio da restituição das vestes ao pai, realizado por Francisco, tenha chegado ao conhecimento de Clara e que ela tenha ficado impressionada com sua radical conversão e que esta tenha sido modelo para sua própria opção de vida. 

         Sendo assim, a própria vocação de Clara é conversão, pois, deixa-se moldar por Deus nos novos rumos que dá à sua vida. No tempo de Clara e Francisco a mulher só tinha duas escolhas: ou ser monja ou ter um marido. No entanto, Clara escolhe a medida da perfeição, que é o amor! Aqui também observa-se a centralidade cristocêntrica. Clara acolhe, com o coração aberto, o que Francisco lhe ensina sobre Jesus e se esforça por merecer “as núpcias do grande Rei”, ou seja, se entrega ao Esposo por amor, pois, reconhece esse amor naquele que, também por amor, se encarnou entre nós. O seguimento de Jesus é visto como matrimônio. 

         O Esposo de Clara é Jesus, pobre e crucificado, e o verdadeiro sentido de suas núpcias é tomar as vestes de penitente e desposar o Amado. Clara, no coração, é um irmão da vida de penitência, ela é um frade! Para Clara, a pobreza é uma condição de vida, é indispensável para a realização do seu projeto religioso que abraça por inspiração divina. Clara não abraça a pobreza em prol de uma causa mas assume um projeto de vida, ou seja, se torna pobre, assumindo uma condição servil e renuncia a situação de nobreza de sua família. Funda sua Ordem sobre a humildade e se faz serva de Cristo e de suas irmãs. 

         Portanto, de todos os benefícios que Deus a concede, a vocação é o maior deles e precisa ser cuidada, é necessário fazer um caminho e Clara assume essa convocação. Para ela, o objeto e conteúdo de sua vocação é a identificação da pobreza radical realizada através da união com Cristo. Ela é a verdadeira plantinha de Francisco, ela é muda, enxerto, e é ela que faz multiplicar o carisma franciscano.  

         Como conceber Clara como multiplicadora do carisma franciscano, vivendo em clausura? Clara fez da clausura o leito dos esponsais com Cristo. A mentalidade de Clara é da vida apostólica e o fato de estar no mosteiro não afasta, nem ela nem suas irmãs, do povo e elas vivem um apostolado sem sair da clausura.  

         O claustro que, segundo Clara, deve conter o Senhor, é o próprio corpo de cada irmã. A força do testemunho vivido em São Damião se torna um anúncio e, dessa forma, Clara é a esposa fecunda e gera na Igreja um grande número de discípulas e as forma para o serviço de Cristo. Sua reclusão é, na realidade, abertura para o mundo: seu isolamento é plenitude de comunhão espiritual. 

         Desta forma, espelhar-se em Jesus Cristo é, para Clara, atitude de vida. A pobreza e a penitência são imitação de Cristo e encontram sua inteireza na alegria e no regozijo espiritual. Daí a contemplação clariana, que consiste em olhar, considerar, refletir e, então, abraçar o Cristo, pobre como uma virgem pobre, consiste numa leve prática ascética de cuidar, orar, fazer e conviver.  A contemplação de Clara é uma presença agradecida, reconhecida, reverente, eucarística, olhos e ouvidos na Palavra, é uma pura restituição; dar ao Senhor o que lhe pertence. 

         Essa é a herança viva que hoje se apresenta para nós, como fonte de inspiração. Como Clara e Francisco, precisamos ser grandes sonhadores para sermos grandes realizadores de projetos que façam a diferença, que sejam caminhos de esperança. Como Clara e Francisco, estarmos no mundo sem perder nossa subjetividade, através da manutenção de uma força espiritual, da força da fraternidade. Nós somos continuadores desse projeto, precisamos ser um sinal de inquietação, buscar o melhor sem deixar nos aprisionar pelas estruturas, como fizeram Clara, Francisco, Jesus! 

 *PATRÍCIA DE MORAES, pertence à Ordem Franciscana Secular Fraternidade Santo Antonio – no Largo da Carioca – é graduada em Letras pela UFRJ e em Teologia pela Faculdade de São Bento, no Rio de Janeiro, atua como Terapeuta em Dependência Química e, atualmente cursa propedêutica em Teologia Bíblica, na PUC/RJ e, também, administra com Luiz Antonio de  Moura, o site www.lisaac.blog.br e a página www.facebook.com/lisaac.sementes 

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jun 16

Beata Albertina Berkembrock

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 *Por Patrícia de Moraes - 

Beata Albertina Berkembrock Tendo a festa litúrgica comemorada ontem, iniciaremos nossa página sobre a Identidade Feminina falando sobre uma Beata brasileira, da cidade de Tubarão, Santa Catarina. Uma menina, que foi assassinada aos 12 anos de idade porque quis preservar a sua pureza espiritual e corporal e defender a dignidade da mulher, por causa da fé e da fidelidade a Deus, como verdadeira mártir. Estamos falando de Albertina Berkenbrock, uma menina que sempre apresentou virtudes, ajudava os pais nos trabalhos de casa e da roça, era amável e caridosa para com todos ao seu redor. Não deixou de transparecer as virtudes cristãs, vivendo de maneira plena o Evangelho e praticando os Sacramentos. No dia 15 de junho de 1931 a menina, em obediência aos pais, foi procurar um boi que havia se perdido pelos pastos. Andando pela mata encontrou um conhecido e perguntou se ele havia visto o boi perdido. Já com instintos maliciosos, o homem dá a direção errada para a menina e em seguida vai ao seu encontro com o intuito de violentá-la. Percebendo a armadilha, Albertina luta bravamente com o homem e este, não conseguindo seu intento, degola a menina com um canivete. Eis o exemplo de uma jovem que não abriu mão dos seus princípios, mantendo-se fiel a eles, preferindo o martírio a ter que desagradar a Deus. Albertina é um modelo de mulher e de cristã! Primeira mártir brasileira e exemplo de vivência radical dos seus ideais.

 

ORAÇÃO À BEATA ALBERTINA BERKENBROCK Deus, Pai de todos nós! Vós nos destes vosso Filho Jesus, que derramou seu sangue na cruz por amor a cada um de nós. Vossa serva Albertina foi declarada bem-aventurada pela Igreja, porque, ainda jovem, também derramou seu sangue para ser fiel à vossa vontade e defender a vida em plenitude. Concedei-nos que, por seu testemunho, nos tornemos fortes na fé, no amor e na esperança, vivamos fielmente os compromissos do nosso Batismo, façamos da Eucaristia a fonte e o cume da nossa vida cristã, busquemos continuamente o perdão através da Confissão, sejamos plenos do Espírito Santo, vivenciando a Crisma, e cultivemos os valores do Evangelho. Por intercessão de Albertina, alcançai-nos a graça que neste momento imploramos de vós (expressar a graça que se deseja). Nós vo-lo pedimos por Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

*PATRÍCIA DE MORAES, pertence à Ordem Franciscana Secular Fraternidade Santo Antonio – no Largo da Carioca – é graduada em Letras pela UFRJ e em Teologia pela Faculdade de São Bento, no Rio de Janeiro, atua como Terapeuta em Dependência Química e, atualmente cursa propedêutica em Teologia Bíblica, na PUC/RJ e, também, administra o site www.lisaac.blog.br e a página www.facebook.com/lisaac.sementes

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jun 13

IDENTIDADE FEMININA

MULHERES

DESTAQUES FEMININOS NO PROJETO DIVINO

 

                       Com a criação desta página estamos iniciando um projeto extremamente ambicioso, do ponto de vista literário-biográfico, porque nosso objetivo é sublinhar o papel vital da mulher no projeto de Deus, a começar pelo que foi dito à própria Eva, ainda no Jardim do Éden, mas, também, e sobretudo, apresentar uma longa lista de mulheres que foram além da missão recebida no paraíso. Mulheres que se destacaram pelo radicalismo com que viveram o amor, a fé, a devoção, o seguimento à Palavra e com que doaram as próprias vidas.

                        Assim, a cada nova edição desta página, um novo destaque, uma nova história, um novo modelo! A respeito de muitas e muitas dessas verdadeiras missionárias existe uma vasta bibliografia a respaldar tudo o que sobre elas pensamos e/ou conhecemos de ouvir falar. No entanto, sobre muitas outras não existe fartura de material literário disponível, pelo menos ao nosso alcance, o que não quer dizer que vamos relegá-las ao esquecimento. Sempre que possível, e coerente com o texto apresentado, estaremos enumerando, além daquela que está sendo apresentada, outra(s) que possa(m) ter atuado de forma idêntica, sobre a(s) qual(is) não temos grande acervo bibliográfico.

                        Se formos à Bíblia, certamente vamos encontrar a história de grandes mulheres, com atuações decisivas na configuração do projeto divino para o homem. Não vamos, nesse momento, enumerá-las para não corrermos o risco de, de forma açodada, deixar uma ou outra de fora, mas, queremos culminar com um nome por excelência: Maria de Nazaré!. Em relação a ela, é preciso ressaltar que, se por um lado Eva tornou-se a primeira mulher vítima do mal no mundo, é em Maria, e por meio de Maria que o mal é derrotado, cedendo lugar à redenção, que é Jesus Cristo. É exatamente em Maria que pretendemos chegar e a partir dela caminhar por toda a era cristã, chegando até os dias atuais, com nossas inúmeras santas e beatas já reconhecidas pela Igreja e, possivelmente, com outras ainda não reconhecidas oficialmente mas que, sobre as quais, temos alguma biografia publicada.

                       Aqui, nesse momento, estamos, então, iniciando nosso trabalho e vamos visitar o Éden e fazer uma releitura do que foi dito e confiado à primeira mulher:

                      A história da mulher tem início quando o Criador de todas as coisas decide pôr fim à solidão do homem “Não é bom que o homem esteja só; façamos-lhe um adjutório semelhante a ele” (Gn 2,18). E, conduzindo o homem para um sono estático, dele retirou parte de sua essência para formar aquela que seria sua eterna companheira. Destacando que, aqui, quando falamos em homem e em eterna companheira, estamos nos referindo aos gêneros masculino e feminino e não ao primeiro homem e à primeira mulher propriamente ditos.

                     Não foi da vontade de Deus criar a mulher da forma simples como criou o homem, formando-a diretamente da argila umedecida, mas, decidiu buscar dentro do homem um quinhão da sua essência para, com ele, formar a fêmea, a parceira, a companheira, a auxiliar e colaboradora e, ao mesmo tempo, aquela que receberia a missão fundamental: a gestação dos novos seres humanos!

                    Embora a leitura da narrativa bíblica possa induzir à conclusão de que Deus teria castigado a mulher juntamente com o homem, ao prepará-la para as dores do parto e para a multiplicação dos seus trabalhos, na verdade, o que foi decidido naquele momento crucial da existência humana foi a assunção pelo ser humano, em conjunto – homem-mulher –, de todos os percalços da criação que, daquele momento em diante, estaria a cargo daqueles que foram feitos à imagem e à semelhança do Criador.

                     Não há, aqui, nenhuma forma direta de castigo! O que há, evidentemente, é o fim do trabalho de Deus em prol do homem paradisíaco. Enquanto Deus construía o jardim, o homem recebia apenas a incumbência de administrá-lo; enquanto todos os seres vivos eram ordenados sobre a terra e sob o céu e as águas, por mãos divinas, o ser humano recebia a cômoda tarefa de a tudo comandar e subjugar.

                     O que vale destacar é a tarefa primordial da mulher: mãe de todos os seres humanos que apareceram sobre a face da terra a partir de então, em união com o homem e, especialmente, por obra do Espírito Santo, como no caso de Maria, sem a participação direta do homem. Eva, a mãe de todos os viventes, recebeu do Senhor a honra de, ao lado do homem, dar prosseguimento à criação, trabalhando, criando, procriando, administrando, suando e sofrendo mas, acima de tudo, dando seu amor, seu carinho, sua presença, seu auxílio direto e, de dentro dela, brotando a seiva da vida que alimenta todo recém-nascido.

                   Eva foi a primeira mulher a sentir a dor do parto, mas, também, foi a primeira mulher a sofrer a perda de um filho, quando teve de suportar o assassinato cruel e covarde de Abel. Momento a partir do qual o mal, verdadeiramente, entra no mundo, pois, por meio de Caim, o sangue humano é derramado pela primeira vez, manchando toda a terra. Não faltam estudiosos (Donna Singles[1], por exemplo), a afirmarem que aquele ato criminoso configura, de fato, o pecado original. Ainda assim, Eva encontrou força e coragem suficientes para conceber novamente, trazendo ao mundo Set, para ocupar o lugar daquele que fora-lhe tirado de forma tão abrupta.

               Nossa primeira mãe não se deixou abater quando perdeu o conforto do paraíso e teve de enfrentar a dureza de um mundo totalmente obscuro e escuro – fornecendo ao homem tudo aquilo que ele jamais teria se continuasse sozinho: companhia, alguma forma de afeto, parceria, colaboração e disposição para seguir em frente. Daquela mulher, e a partir dela, chegamos até aqui e quantas outras mulheres exemplares existiram depois dela, por causa dela.

                 Filhos sem pai, sofrem muito. Porém, sem mãe, sofrem muito mais, a mulher, por excelência é a senhora da vida, e mais do que nunca precisa ter consciência disso sob pena de, aí sim, infringir tremendo castigo à primeira mulher que pisou sobre a terra.

                A partir daqui, vamos trilhar os caminhos bíblicos em busca das mulheres que realmente assumiram a missão divina com entusiasmo, força, coragem, fé, determinação e destemor sendo, fazendo e doando para o homem tudo aquilo que nenhum outro ser vivo conseguiu ser, fazer ou doar. A essência da mulher foi retirada de dentro do homem, que, a partir de então, passou a depender dela sempre, para tudo, ainda que, em diversas culturas, não admita.

_______________________________ [1] SINGLES, Donna. A Glória de Deus é o homem vivo – a profissão de fé de santo Irineu. São Paulo. Paulus: 2010. 202 páginas

jun 13

IDENTIDADE FEMININA

MULHERES

DESTAQUES FEMININOS NO PROJETO DIVINO

 

                       Com a criação desta página estamos iniciando um projeto extremamente ambicioso, do ponto de vista literário-biográfico, porque nosso objetivo é sublinhar o papel vital da mulher no projeto de Deus, a começar pelo que foi dito à própria Eva, ainda no Jardim do Éden, mas, também, e, sobretudo, apresentar uma longa lista de mulheres que foram além da missão recebida no paraíso. Mulheres que se destacaram pelo radicalismo com que viveram o amor, a fé, a devoção, o seguimento à Palavra e com que doaram as próprias vidas.

                        Assim, a cada nova edição desta página, um novo destaque, uma nova história, um novo modelo! A respeito de muitas e muitas dessas verdadeiras missionárias existe uma vasta bibliografia a respaldar tudo o que sobre elas pensamos e/ou conhecemos de ouvir falar. No entanto, sobre muitas outras não existe fartura de material literário disponível, pelo menos ao nosso alcance, o que não quer dizer que vamos relegá-las ao esquecimento. Sempre que possível, e coerente com o texto apresentado, estaremos enumerando, além daquela que está sendo apresentada, outra(s) que possa(m) ter atuado de forma idêntica, sobre a(s) qual(is) não temos grande acervo bibliográfico.

                        Se formos à Bíblia, certamente vamos encontrar a história de grandes mulheres, com atuações decisivas na configuração do projeto divino para o homem. Não vamos, nesse momento, enumerá-las para não corrermos o risco de, de forma açodada, deixar uma ou outra de fora, mas, queremos culminar com um nome por excelência: Maria de Nazaré!. Em relação a ela, é preciso ressaltar que, se por um lado Eva tornou-se a primeira mulher vítima do mal no mundo, é em Maria, e por meio de Maria que o mal é derrotado, cedendo lugar à redenção, que é Jesus Cristo. É exatamente em Maria que pretendemos chegar e a partir dela caminhar por toda a era cristã, chegando até os dias atuais, com nossas inúmeras santas e beatas já reconhecidas pela Igreja e, possivelmente, com outras ainda não reconhecidas oficialmente mas que, sobre as quais, temos alguma biografia publicada.

                       Aqui, nesse momento, estamos, então, iniciando nosso trabalho e vamos visitar o Éden e fazer uma releitura do que foi dito e confiado à primeira mulher:

                      A história da mulher tem início quando o Criador de todas as coisas decide pôr fim à solidão do homem “Não é bom que o homem esteja só; façamos-lhe um adjutório semelhante a ele” (Gn 2,18). E, conduzindo o homem para um sono estático, dele retirou parte de sua essência para formar aquela que seria sua eterna companheira. Destacando que, aqui, quando falamos em homem e em eterna companheira, estamos nos referindo aos gêneros masculino e feminino e não ao primeiro homem e à primeira mulher somente.

                     Não foi da vontade de Deus criar uma mulher da forma simples como criou o homem, formando-a diretamente do barro, mas, decidiu buscar dentro do homem um quinhão da sua essência para, com ele, formar a fêmea, a parceira, a companheira, a colaboradora e, ao mesmo tempo, aquela que receberia a missão fundamental: a gestação dos novos seres humanos!

                    Embora a leitura da narrativa bíblica possa induzir à conclusão de que Deus teria castigado a mulher juntamente com o homem, ao prepará-la para as dores do parto e para a multiplicação dos seus trabalhos, na verdade, o que foi decidido naquele momento crucial da existência humana foi a assunção pelo ser humano, em conjunto – homem-mulher –, de todos os percalços da criação que, daquele momento em diante, estaria a cargo daqueles que foram feitos à imagem e à semelhança do Criador.

                     Não há, aqui, nenhuma forma direta de castigo! O que há, evidentemente, é o fim do trabalho de Deus em prol do homem paradisíaco. Enquanto Deus construía o jardim, o homem recebeu apenas a incumbência de administrá-lo; enquanto todos os seres vivos eram ordenados sobre a terra e sob o céu e as águas, por mãos divinas, o ser humano recebia a cômoda tarefa de a tudo subjugar.

                     O que vale destacar é a tarefa primordial da mulher: mãe de todos os seres humanos que aparecerem sobre a face da terra a partir de então e, especialmente, por obra do Espírito Santo, como no caso de Maria, sem a participação direta do homem. Eva, a mãe de todos os viventes, recebeu do Senhor a honra de, ao lado do homem, dar prosseguimento à criação, trabalhando, criando, procriando, administrando, suando e sofrendo mas, acima de tudo, dando seu amor, seu carinho, sua presença e, de dentro dela, brotando a seiva da vida que alimenta todo recém-nascido.

                   Eva foi a primeira mulher a sentir a dor do parto, mas, também, foi a primeira mulher a sofrer a perda de um filho, quando teve de suportar o assassinato cruel e covarde de Abel. Momento a partir do qual o mal, verdadeiramente, entra no mundo, pois, por meio de Caim, o sangue humano é derramado pela primeira vez, manchando toda a terra. Não faltam estudiosos (Donna Singles[1], por exemplo), a afirmarem que aquele ato criminoso configurou, de fato, o pecado original. Ainda assim, Eva encontrou força e coragem suficientes para conceber novamente, trazendo ao mundo Set, para ocupar o lugar daquele que fora-lhe tirado de forma tão abrupta.

              Nossa primeira mãe não se deixou abater quando perdeu o conforto do paraíso e teve de enfrentar a dureza de um mundo totalmente obscuro, e escuro – fornecendo ao homem tudo aquilo que ele jamais teria se continuasse sozinho: companhia, alguma forma de afeto, parceria, colaboração e disposição para seguir em frente. Daquela mulher, e a partir dela, chegamos até aqui e quantas outras mulheres exemplares existiram depois dela, por causa dela.

                 Filhos sem pai, sofrem muito. Porém, sem mãe, sofrem muito mais, a mulher, por excelência é a senhora da vida, e mais do que nunca precisa ter consciência disso sob pena de, aí sim, infringir tremendo castigo à primeira mulher que pisou sobre a terra.

                A partir daqui, vamos trilhar os caminhos bíblicos em busca das mulheres que realmente assumiram a missão divina com entusiasmo, força, coragem, fé, determinação e destemor sendo, fazendo e doando para o homem tudo aquilo que nenhum outro ser vivo conseguiu ser, fazer ou doar. A essência da mulher foi retirada de dentro do homem, que, a partir de então, passou a depender dela sempre, para tudo, ainda que não admita.

___________________________________ [1] SINGLES, Donna. A Glória de Deus é o homem vivo – a profissão de fé de santo Irineu. São Paulo. Paulus: 2010. 202 páginas

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