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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: FATOS DA HISTÓRIA

out 12

12 DE OUTUBRO: NOSSA SENHORA DE APARECIDA, PADROEIRA DO BRASIL

APARECIDA - TREZENTOS ANOS

A SENHORA DE APARECIDA E AS MENSAGENS VINDAS DAS ÁGUAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Deus, na sua esplendorosa sabedoria, no processo de criação deixou ao nosso dispor, e em abundância, quatro elementos essenciais para o ciclo da vida: a água, o fogo, a terra e o ar. Criou-os sem qualquer espetacularidade e sem mesmo qualquer menção especial na narrativa do Livro do Gênesis, à exceção da separação das águas entre si, as de cima e as de baixo, e do elemento árido, terra.

Entretanto, ao longo da caminhada do homem sobre a terra, os quatro elementos têm se revelado vitais. Não apenas para a sobrevivência do ser humano, mas, e, sobretudo, para as diversas manifestações sobrenaturais do Criador e para o constante e infinito ciclo da vida. O homem vem do pó e ao pó retorna. O pó se transforma em húmus e em terra novamente. Na terra, banhada pela água e respirando o ar, germinam e crescem a erva, a verdura e a gramínea que alimentam homens e animais. E assim, sucessivamente, e em constante interdependência, os quatro elementos vão sendo entrelaçados entre si de tal forma, que a vida neles é permanente, sem ruptura e sem trégua. A vida, simplesmente, continua e se renova dia-a-dia, sem fim.

Da terra, os animais, as plantas e os homens. Da água, os peixes (alimento físico), a renovação (pelo dilúvio) e a reconciliação (por meio do batismo); do fogo, a provação (quanto à fidelidade) e a purificação (da alma) e; do ar, a respiração vital para os pulmões e para a força da alma (por meio do  Espírito Santo). Da conjunção destes quatro elementos, a vida, a luz, a força e o poder. Na essência de todos eles, a presença inconfundível de Deus.

Todo este prólogo é apenas para sublinhar que, no embalo das águas de um simples rio (o Paraíba) nasce a mensagem de Aparecida, pelas mãos de três pescadores que precisam de peixes para fazer agrado a gente de patente alta. Diante dos repetidos insucessos no lançamento das redes, que sempre retornam absolutamente vazias, recorrem à Virgem, Santa mãe de Deus, pedindo o auxílio precisado.

A resposta vem na rede, em forma de imagem destituída da cabeça. Causa assombro àqueles homens. No retorno das redes às águas, vem a cabeça que, espantosamente, encaixa-se perfeitamente na imagem deficiente. Era o primeiro milagre presenciado por aqueles pobres pescadores. Porém, o milagre maior estava a caminho: ao lançarem as redes novamente, sobem abarrotadas de peixes. Tantos, que tiveram que levar o barco até a margem para poderem retornar e continuar com o trabalho. Voltando para a cidade (Guaratinguetá), e contando o ocorrido, todo o povo presente compreende que alguma mensagem está sendo transmitida a partir daquela pescaria.

De fato, nasce ali uma devoção muito forte à Virgem que não vinha de cima, do ar, mas, das águas profundas do rio, como a comprovar que, dos elementos vem a vida e desta, mais vida, em vida e depois da vida. Na cor negra, a identificação com a massa de escravos que, então, sofria os horrores de um sistema rejeitado pelo resto do mundo, mas que, por aqui, adornava o colar de bens e de propriedades dos ricos, do clero e do império. Como nos dias de hoje, em relação à reforma agrária, naquele tempo, e em público, todos pareciam contra o sistema escravagista, na prática, porém, ninguém queria abrir mão do seu escravo, propriedade útil e dinâmica.

Pois bem, a Virgem surge como consoladora e intercessora daqueles pobres pescadores, não se sabe se eram escravos ou não, mas que tinham a missão de levar peixes para a festa de um tal Conde de Assumar, então governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro.

No sofrimento e na angústia dos pescadores, missionários a serviço de um Conde que alguns historiadores endeusam e outros demonizam, o sussurro da Virgem, como a dizer: “eis-me aqui, estou com vocês. Relancem suas redes”. A história relembra o Evangelho de São Lucas (Lc 5, 1-11) quando, diante de uma noite inteira de fracassos na pescaria de Simão Pedro, Jesus ordena-lhe avançar para águas mais profundas para conseguir sucesso. Pedro olha para o Mestre meio incrédulo e diz: “apesar de ter passado a noite toda aqui e de não ter conseguido nada, em respeito à tua palavra, vou fazer o que ordenas” e, lançando as redes novamente, agora, em águas mais profundas, quase não consegue chegar até à margem do rio, tamanha a quantidade de peixes apanhada.

A Virgem de Aparecida faz o mesmo, insufla no coração daqueles pescadores a decisão de lançar as redes novamente e... Peixes em abundância!

Das águas do rio, as mensagens para nós: somos todos iguais perante Deus, sem distinção de raças, de credos, de profissão ou de status social; aquele que ora com fé, é atendido sempre e em qualquer circunstância, tempo ou lugar, desde que seja para o bem, individual ou coletivo. E, por fim, é preciso sempre relançar as redes, de preferência em águas mais profundas, onde a vida é exuberante e frondosa, tal qual na própria árvore da vida.

Das águas, o batismo; das águas, a vida; das águas, as mensagens; das águas, a renovação. Estes são os grandes significados trazidos para todos nós, em outubro de 1717 pela Virgem de Aparecida e pelas mãos de Domingos Garcia, de Filipe Pedroso e de João Alves.

Aqueles pescadores trazem a voz das águas. Precisamos captá-la, entendê-la e praticá-la, sempre e em todo lugar, porque sempre somos enviados para buscar peixes para os poderosos (produção, tributação, cumprimento das leis, votos e aplausos) e, quando não obtemos sucesso, só Deus, pela intercessão da Virgem, pode vir em nosso socorro.

Mais de dois séculos depois, o Papa Pio XI proclama Nossa Senhora de Aparecida como Padroeira do Brasil em 1930 (existem divergências quanto à data exata). Padroeira deste País de tantas desigualdades, tantas indiferenças, exclusões e injustiças, mas, também, de tanta gente de fé que, de forma incessante, não deixa de rogar aos céus por sua gente e por seu povo simples, alegre, trabalhador, sofredor e humilde.

Que o Deus Todo-poderoso abençoe os nossos corações, guie os nossos passos e proteja as nossas almas contra todos os males, deixando Nossa Senhora de Aparecida, sempre ao nosso lado, como amiga, como conselheira e como excelente Padroeira. Nós precisamos dela. O Brasil, mais do que nunca, precisa dela. Tal qual os pescadores do século XVIII, façamos nossas orações. Seremos atendidos, e em abundância!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

           

mai 22

O RESGATE DA MEMÓRIA DE PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA – PARTE II

PADRE CÍCERO

PADRE CÍCERO: UM NOME DA NOSSA HISTÓRIA –

PARTE II –

            Estamos prosseguindo com a divulgação de alguns trechos do livro “PADRE CÍCERO – Poder, Fé e Guerra no Sertão[1]”, do jornalista e escritor Lira Neto, e editado pela Companhia das Letras, por meio do qual o autor revela aspectos bastante interessantes da vida e da história de Padre Cícero Romão Batista, inclusive, sobre o início dos trabalhos de revisão da pena imposta ao sacerdote cearense revelando, ainda, que tudo (re)começou sob a orientação do então Cardeal Joseph Ratzinger, então Prefeito da poderosa Congregação  para a Doutrina da Fé. A importância do relato, a induzir a aquisição do livro, é levar aos nosso leitores uma pequena contribuição acerca da riquíssima história devocional do nosso povo, em especial, do povo nordestino que, apesar de todos os pesares, jamais perdeu a fé e a esperança.

“Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito

 2001-2006

 - CONTINUAÇÃO –

             A discutida relação de Cícero Romão Batista com jagunços e cangaceiros tem sido outro entrave à possível anistia cogitada por Ratzinger. Como absolver das penas do Tribunal do Santo Ofício um padre sobre cujas costas os detratores jogam a responsabilida­de pela concessão da patente de capitão ao mais feroz de todos os bandoleiros nordestinos, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lam­pião, em troca do compromisso para que o "Rei dos Cangaceiros" enfrentasse, em 1926, a célebre Coluna Prestes em sua passagem pelo sertão? Como indultar um clérigo que mesmo antes disso, em 1914, teria benzido rifles, punhais e bacamartes, aparato bélico entregue à jagunçada para promover uma revolução armada, uma sedição que envolveu saques violentos a várias cidades interioranas, provocou a morte de centenas de inocentes e resultou na der­rubada de um governo legal? Como redimir as penalidades de um sacerdote que se transformou em líder político, fez-se o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, elegeu-se deputado federal, tornou- -se vice-presidente (cargo então equivalente ao de vice-governador) do Ceará e arquitetou um pacto histórico entre os poderosos coronéis do sertão? Como perdoar um padre que acumulou vasto patrimônio à custa das esmolas e das doações de fiéis? Para os algozes de Cícero, não faltariam argumentos contrários à suposta reabilitação canônica. 

            Entretanto, do mesmo modo, não são poucos os que definem a eterna tempestade de acusações contra Cícero como frutos de in- verdades históricas, interpretações distorcidas e preconceitos elitis­tas que foram se acumulando, ao longo do tempo, em torno de tão controvertida figura. A carta que o cardeal Joseph Ratzinger escreve nesta manhã de primavera europeia tem exatamente o objetivo de retomar — com a chancela do brasão da Santa Sé — uma questão sobre a qual se debatem, por décadas a fio, apologistas e difamado- res de Cícero Romão Batista. Quem foi esse homem misterioso que, mesmo tendo um decreto de excomunhão assinado contra si, arre­batou o coração das massas e passou à memória coletiva e ao pan­teão popular como o santo Padim Ciço? Era um apóstolo visionário que soube entender a língua do povo, converteu multidões com sua singela pastoral sertaneja, mas ainda assim foi injustiçado por um clero intransigente, etnocêntrico, refratário às diferenças? Ou foi um sujeito astuto que usou a batina em seu próprio benefício, amealhou fortunas em terras, imóveis e gado, alimentando a sede de poder com a miséria e a ignorância de seus devotos? 

            Não parece ter sido coincidência. Poucos meses depois de a carta de Joseph Ratzinger ter alcançado o devido destino na sede da CNBB, em Brasília, um novo bispo diocesano desembarca no pequeno terminal de passageiros do aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte. O homem nomeado por João Paulo n para administrar dali por diante a diocese do Crato, à qual está subordinada a forania de Juazeiro, é um italiano sorridente e de fala serena. Quando perguntado se vem com alguma missão específica — e se tal missão tem relação direta com a possível reabilitação de padre Cícero —, ele silencia. Em alguns casos, dependendo do interlocutor, vai além: esboça um de seus enigmáticos sorrisos. 

            O recém-chegado, dom Fernando Pânico, nascido em 1946 na cidade de Tricase, sul da Itália, exibe um currículo exemplar. Além de sobrinho de um cardeal com respeitáveis serviços prestados à Santa Sé — dom Giovanni Pânico, ex-núncio em Portugal —, traz na bagagem os diplomas de bacharel em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e em teologia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, ambos em Roma. Mestre em teologia litúrgica e doutor em liturgia, Pânico está desde 1974 no Brasil. Aqui, sempre trabalhou em dioceses nordestinas. Primeiro no Maranhão, onde foi reitor de seminário; depois no Piauí, como bispo de Oeiras e Floriano. Conhece bem, portanto, o universo e os matizes da religiosidade popular dos sertões. Está familiarizado com as singularidades das manifestações de fé do catolicismo caboclo, que tem em padre Cícero uma de suas maiores referências. 

            Tão logo toma posse no comando da diocese, em junho de 2001, dom Fernando Pânico demonstra, sem meias palavras, claramente a que veio. Do alto do púlpito, durante a homilia que faz na primeira missa como novo bispo do Crato, anuncia o propósito de encorajar e apoiar novos estudos críticos sobre a trajetória de Cícero Romão Batista. Em uma carta pastoral aos fiéis, datada de 20 de outubro, rea firma o mesmo propósito, dessa vez em letra de forma: "Ele merece nosso carinho, apesar de tudo o que contra ele aconteceu e se tem escrito", observa o bispo, a propósito do ambíguo sacerdote. Tais afirmações causam profundo mal-estar nos membros mais tradicio­nais do clero do Crato, que têm Cícero na conta de um embusteiro histórico, "padre Cícero chegou ao Juazeiro missionário, tomou-se visionário e acabou milionário", costumava dizer dom Newton Ho­landa Gurgel, o antecessor de dom Fernando, que se viu compelido a renunciar ao cargo ao completar 75 anos de idade e passar a mitra ao sucessor. 

            Contudo, não há dúvidas de que os ventos da Igreja pretendem soprar em outra direção. O que está em cena não é uma mera ques­tão paroquial, uma nova frente de batalha na eterna rivalidade entre cratenses e juazeirenses. Nesse mesmo mês de outubro de 2001, dom Fernando embarca para Roma, acompanhado dos demais bispos do Ceará e do Piauí, por ocasião da visita ad limina ao Vaticano — uma obrigação imposta pela Igreja a seus prelados a cada cinco anos, que devem ajoelhar-se diante dos túmulos dos apóstolos são Pedro e são Paulo; nessa ocasião, são recebidos pelo papa para reportar o estado pastoral de suas respectivas dioceses. Dom Fernando aproveita a viagem à Cidade Eterna e logo obtém uma audiência com o cardeal Joseph Ratzinger, no Palácio do Santo Ofício. Na pauta do encontro com o prestigioso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o assunto é um só: padre Cícero.”

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CONTINUA EM BREVE

_____________________________________________________________ PADRE CÍCERO - O LIVRO  

[1] NETO, Lira. PADRE CÍCERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO. São Paulo. Companhia das Letras: 2009. 557 páginas.

mar 21

A HISTÓRIA É CÍCLICA, PARA O BEM OU PARA O MAL

 IMAGEM DA HISTÓRIAO PASSADO DRIBLA O PRESENTE E AVANÇA PARA O FUTURO: É PRECISO ATENÇÃO, CAUTELA E BOM SENSO!

                    Não é meramente circunstancial a publicação de trechos da obra de René Armand Dreifuss, mas, sobretudo, uma chamada de atenção para fatos da história que, com algumas peculiaridades semelhantes às vividas nos dias de hoje em nosso país, trouxeram-nos anos e anos de sofrimentos, de angústias e de perdas irreparáveis.

                        É preciso, sempre, lembrar que o diálogo e o bom senso devem prevalecer acima de tudo e de todos, não podendo haver qualquer espécie de espaço para conflitos capazes de promoverem a abertura das portas do retrocesso, lançando, principalmente, as novas gerações no arcabouço escuro e tenebroso de uma dura realidade a qual muitos e muitos de nós conhecemos, infelizmente, na prática. Que a leitura destes trechos possam servir como alerta e, ao mesmo tempo, como convite ao diálogo e à convivência pacífica e harmônica entre todos os cidadãos, independentemente de raça, sexo, religião, ideologia político-partidária ou condição social.

“1964 – A CONQUISTA DO ESTADO

AÇÃO POLÍTICA, PODER E GOLPE DE CLASSE[1]

CAPITULO VI

A AÇÃO DE CLASSE DA ELITE ORGÂNICA: A CAMPANHA IDEOLÓGICA DA BURGUESIA

 Introdução

            O capítulo V descreveu a estrutura decisória da elite orgânica e sua organi­zação para a ação. Mostrou, de fato, a existência de um aparelho de classe que era capaz de desenvolver operações de natureza pública, bem como atividades vedadas ao alcance público.

            Os capítulos VI, VII e VIII tratam das atividades específicas, públicas e encobertas, tanto táticas quanto estratégicas, que eram desenvolvidas pela elite orgânica. Essas atividades objetivavam conter as forças populares, desagregar o bloco histórico-populista e levar os interesses multinacionais e associados ao governo político através de um golpe de Estado civil-militar.

            A conquista do poder político pela elite orgânica não foi simplesmente um resultado da crise político-econômica do período e o imediato colapso do regime, levando a uma subsequente queda do governo.1 Nessas críticas condições, já resumidas no capítulo IV, a elite orgânica tentou levar adiante uma campanha para dominar o sistema tanto em termos políticos, quanto ideológicos.2 A quebra da convergência de classe vigente e a ruptura da forma populista de dominação foram alcançadas pelo bloco de poder multinacional e associado através do exercício de sua influência em todos os níveis políticos.3

            O período de ação de classe organizada, que será visto neste capítulo, estendeu-se de 1962 a 1964. Politicamente, significou uma mobilização conjun­tural para o golpe, quando estratégia se converteu em política e atividades político-partidárias finalmente se transformaram em ação militar. Esse foi o estágio do “esforço positivo” em que vários escritórios de consultoria e anéis burocrático-empresariais, associações de classe e grupos de ação formaram um centro político estratégico, o complexo IPES/IBAD. Uma vez unificadas as várias oposições sob uma liderança sincronizada comum, formulando “um plano geral”, a elite orgânica lançava a campanha político-militar que mobilizaria o conjunto da burguesia, convenceria os segmentos relevantes das Forças Armadas da justiça de sua causa, neutralizaria a dissensão e obteria o apoio dos tradicionais setores empresariais, bem como a adesão ou passividade das camadas sociais subalternas. Mas antes de se iniciarem hostilidades a nível político-militar, desenvolveu uma campanha ideológica multifacetada contra o bloco histórico-populista. Tal ação compreendia a desagregação dos quadros populistas, assim como aqueles de imaturos grupos reformistas, adiando as ações do Executivo e tentando conter o desenvolvimento da organização nacional de classes trabalhadoras. O seu fracasso em reprimir a conscientização política das classes trabalhadoras e a surpreen­dente capacidade do Executivo de não apenas sobreviver, mas, na verdade, de consolidar e obter novas posições4 fortaleceu sua determinação de tomar de assalto a sociedade política estabelecida.

            A elite orgânica empresarial se fez defensora e porta-voz dos pontos de vista moderados do centro, ampliando as perspectivas elitistas e consumistas das classes médias e fomentando o temor às massas. Revigorava a percepção solipsista das classes médias quanto à realidade social brasileira e as influenciava contra o sistema político populista.

            Preparava-se para operar em toda área da vida social visando a competir com os predominantes interesses políticos, o trabalhismo e a esquerda pelo con­trole do Estado. Uma vez em ação, fazia uso de todo recurso disponível, legal ou ilegal.5 Segundo o líder ipesiano Glycon de Paiva, essas atividades que beira­vam a ilegalidade podiam ser resumidas como a preparação de civis para asse­gurar um clima político apropriado para a intervenção militar. Em sua opinião, a ação política tinha de ser sigilosa.6 Suas recomendações envolviam a “criação de um caos econômico e político, o fomento à insatisfação e profundo temor ao comunismo por patrões e empregados, o bloqueio de esforços da esquerda no Congresso, a organização de demonstrações de massa e comícios e até mesmo atos de terrorismo, se necessário”.7 As áreas alvo para a doutrinação específica e pressão política direta eram os sindicatos, o movimento estudantil e a classe camponesa mobilizada, as camadas sociais intermediárias e a hierarquia da Igreja o Legislativo e as Forças Armadas.

            A ação da elite orgânica empresarial deve ser considerada como a praxe de um bloco burguês de poder, premeditada e cuidadosamente amadurecida durante vários anos. Trazendo à tona a dimensão orgânica e a dinâmica envolvidas (situação, posição e ação de classe), pode-se perceber e revelar a evidência histórica do emergente bloco de poder multinacional e associado forjando a sua própria forma de Estado. O que ocorreu em abril de 1964 não foi um golpe militar conspirativo,8 mas sim o resultado de uma campanha política, ideológica e militar travada pela elite orgânica centrada no complexo IPES/IBAD. Tal campanha culminou em abril de 1964 com a ação militar, que se fez necessária para derrubar o Executivo e conter daí para a frente a participação da massa ;

            O IPES, por sua própria natureza e diretrizes e por ser um catalisador estratégico bem mais do que uma visível força motriz, não colheu os louros pela maioria das conquistas políticas da elite orgânica que foram atribuídas a outras organizações e agentes, presumindo-se serem independentes dele. Mesmo embora muitas organizações fossem na verdade sincronizadas pelo complexo IPES/IBAD não se deve desprezar as atividades de órgãos paralelos, cujos objetivos e meios de modo generalizado, coincidiam com os do complexo IPES/IBAD. Sempre que possível, o IPES procurava ser discreto em suas atividades e se manter fora da notoriedade política. Por exemplo, quando os seus líderes voltaram de uma das reuniões de Nassau em 1962, eles procuraram manter essa atitude, com i clara intenção de minimizar a significância da Instituição. A proposta de Glycon de Paiva, em abril de 1962, de publicar um trabalho elaborado pelo General Golbery do Couto e Silva, que propunha diretrizes contra o bloco nacional- reformista, foi vetada pelo líder ipesiano José Luiz Moreira de Souza. A sua oposição se baseava na hipótese de que o trabalho revelaria o que até então fora evitado, mais especificamente, um movimento político organizado: ao mesmo tempo, o General Heitor Herrera ressaltava o perigo de se expor a ação ilegal.1* Essa necessidade de manter a imagem inconspícua da elite orgânica foi enfatizada por Harold C. Polland no início de 1962. Ressaltava também à liderança do IPES que outros países tinham instituições similares à sua e que a expe­riência política provara que uma única organização não bastava. Dava o exemple da Colômbia, onde o IPES local consistia de um organismo com vários órgãos disseminados por todo o interior do país. Essas instituições eram constantemente atacadas, porém sempre servindo de escudo para o verdadeiro centro de ação. H. Polland reafirmava a necessidade de o IPES nunca aparecer direta e aberta­mente e de adotar uma posição de completa inatacabilidade11 durante a sua campanha política e agir “por trás dos bastidores”. Afinal, ponderava ele, dentro do IPES havia empresários.12 Os órgãos que apareciam publicamente ou se responsabilizariam pelo desenvolvimento da campanha da elite orgânica seriam, naturalmente, a ADEP, o IBAD, a ADP, a Promotion S.A. e o SEI, entre as mais significativas agências civis e civil-militares,13 bem como os conhecidos órgãos políticos que operavam lado a lado com o IPES, como a Associação dos Diri­gentes Cristãos de Empresa — ADCE.14 Além disso, a ação do IPES não se restringiria a organizações de classe e grupos políticos de ação, mas, ao contrário, alcançaria todo segmento organizado da sociedade. Suas táticas serviriam de modelo para os acontecimentos de quase dez anos depois no Chile.

Duas modalidades de ação

            As táticas da elite orgânica compreendiam desde atividades que objetivavam efeitos a longo prazo na orientação global das perspectivas sociais, econômicas e político-militares, até táticas defensivas planejadas objetivando ganhar tempo suficiente para a ação estratégica política e militar lograr efeito.15 Duas modali­dades de ação devem ser consideradas: 1) ação ideológica e social; e 2) ação político-militar.

Ação ideológica e social

            As atividades ideológicas e sociais combinadas da elite orgânica consistiam em doutrinação geral e doutrinação específica, ambas coordenadas com ativida­des político-ideológicas mais amplas no Congresso, sindicatos, movimento estu­dantil e clero.

            A doutrinação geral visava a apresentar as abordagens da elite orgânica aos responsáveis por tomadas de decisão políticas e ao público em geral, assim como causar um impacto ideológico em públicos selecionados e no aparelho do Estado. A doutrinação geral através da mídia era realizada pela ação encoberta e ostensiva, de forma defensiva e defensivo-ofensiva. Constituía-se basicamente numa medida neutralizadora. Visava infundir ou fortalecer atitudes e pontos de vista tradicionais de direita e estimular percepções negativas do bloco popular nacional-reformista.16

            A elite orgânica atacava o comunismo, o socialismo, a oligarquia rural e a corrupção do populismo. No aspecto positivo, argumentava que a prosperidade do país e a melhoria dos padrões de vida do povo se deviam à iniciativa privada e não se deviam, certamente, a métodos socialistas ou à intervenção do Estado na economia.17 Por outro lado, a sua abordagem negativa podia ser vista na sua utilização de uma mesclagem de técnicas sofisticadas e uma grosseira propaganda anticomunista, constituindo uma pressão ideológica, que explorava o “encurralamento pelo pânico organizado”.18

            Através da doutrinação específica, a elite orgânica tencionava moldar a consciência e a organização dos setores dominantes e envolvê-los na ação como uma “classe para si”, enquanto consolidava a liderança política das frações multinacionais e associadas dentro da classe dominante. Tomava tal atitude, objetivando unir o emergente bloco de poder em torno de um programa específico de moder­nização econômica e conservadorismo sócio-político. Um exemplo extremo de tais ações foi o Congresso pelas Reformas de Base, realizado em janeiro de 1963, e a campanha mantida através da mídia, que também tentava desarticular o tradicional bloco histórico oligárquico-industrial.19 A doutrinação específica (jun­tamente com a doutrinação geral) também lidava com a formação política e ideo­lógica, cooptação e mobilização de ativistas sindicais, líderes camponeses e mili­tantes rurais, estudantes e líderes militares. Além disso, o objetivo geral da dou­trinação específica era modelar as várias frações das classes dominantes e dife­rentes grupos sociais das classes médias em um movimento de opinião com objetivos a curto prazo amplamente compartilhados, qual seja, a destituição de João Goulart da presidência e a contenção da mobilização popular."

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[1] DREIFUSS, René Armand. 1964: A CONQUISTA DO ESTADO – Ação Política, poder e golpe de classe. Petrópolis. Vozes: 1981. 815 páginas.

__________________________________________________ NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. Quanto a essa argumentação, Finer faz uma observação ao afirmar que todo inte­resse econômico tem uma diretriz básica: “imobilizar o restante da economia, perma­necendo, ele próprio, tão livre quanto an­tes.” Samuel FINER. Private industry and political power. In: Ramsay Muir lecture. Grã-Bretanha. Pall Mall Pamphlet, 1958, p. 7-9.
  2. Em termos da regra de maximizar a sa­tisfação de uma classe, fração ou um blo­co, essa diretriz “é completamente racional e, além disso, somente será alcançada pela ação política”. F. G. CASTLES. Business and government: a typology of pressure group activity. Political Studies. Oxford, 77(2): 161, Oxford Univ. Press, June, 1969.
  3. Ê interessante ressaltar que se aplica a esse caso a observação feita por Richard Bissel, ex-diretor das Operações Secretas da CIA Americana. Ele mencionava a rede interdependente de meios e órgãos que le­vam a uma mudança social. Deixou esse fato bem claro em uma reunião do Council on Foreign Relations, quando enfatizou que “A intervenção secreta é... mais efi­caz em situações onde se empreende um esforço abrangente com um número de ope­rações isoladas, projetadas para apoiar e complementar umas às outras e obter um efeito cumulativamente significativo”. Ci­tado em Fred HIRSCH & Richard FLET- CHER. The labour movement: penetration point for US intelligence and transnationals. In: CIA and the labour movement. Grã-Bretanha, Spokesman Books, 1977. p. 10.
  4. O líder do IPES, Glycon de Paiva, es­tava cônscio do problema. Em uma reu­nião da Comissão Diretora do IPES, no dia 03 de abril de 1962, ele observou que: “a volta do Presidente, sem grande demora nos Estados Unidos, vai dar muito o que falar. O Presidente está aprendendo a go­vernar. Mesmo Tancredo Neves, apesar de ser um mau aluno, também aprende. Se João Goulart trouxer consigo alguma fór­mula, ele poderá gerar grandes coisas”. Ha­via avaliações similares de mais outras fon­tes, sobre a capacidade de João Goulart manobrar dentro do sistema. O embaixador Lincoln Gordon também acreditava que “João Goulart provou ser [um] político in­teligente, capaz e desejoso [de] vencer uma oposição a longo prazo com base [em] ob­jetivos moderados, de aparência respon­sável, enquanto ainda reivindicando leal­dade à sua base política popular... Por bem ou por mal, João Goulart está pro­vando ser [o] único líder no cenário atual, em torno do qual pode ser formada [uma] eficaz coalizão de forças políticas centristas...”. Telegrama de Brasília ao Depar­tamento de Estado, Lincoln Gordon, 27 de março de 1962, NSF, nos Arquivos JFK. Alguns meses depois, Lincoln Gordon re­conhecia que: “O Congresso [está] comple­tamente desmoralizado pela demonstração [da] habilidade de João Goulart [de] or­ganizar os trabalhadores em seu apoio [na] forma [de] greve geral.” Telegrama do Rio ao Departamento de Estado, Lincoln Gor­don, 06 de julho de 1962, NSF, nos Arqui­vos JFK. (No mesmo telegrama, Lincoln Gordon menciona a volta de Brasília ao Rio de um deputado do PSD que está che­gando para organizar os militares contra João Goulart). Em 1963, Lincoln Gordon voltava a afirmar que João Goulart se mos­trara “um estrategista político excepcional­mente perspicaz, cujo desempenho em re­conquistar o pleno poder atingiria a mais alta avaliação em termos de política pura.” Memorando de Lincoln Gordon a McGeorge Bundy, Casa Branca, Departamento de Estado, 07 de março de 1963.
  5. Sobre as atitudes políticas das classes empresariais em relação à elite dominante, quando esta é tomada como ilegítima, vide F. G. CASTLES. cit. p. 162-63.
  6. Para Glycon de Paiva “Ação Política é igual a ação discreta”. IPES CD, Rio, 22 de maio de 1962.
  7. Glycon de PAIVA, citado em Marlise SIMONS. Whose coup? Brazilian Informa­tion Bulletin, Estados Unidos, Califórnia, (12), Winter 1974. Vide também A. J. LANGGUTH. Hidden Terrors. New York, Pantheon Books, 1978. cap. 3.
  8. A percepção dos acontecimentos que le­varam ao golpe de 1964 como sendo uma conspiração militar pode ser encontrada de uma forma extrema em Albérico Barroso ALVES. O romance da revolução: como e por que aconteceu a revolução de mar­ço. Rio de Janeiro, Artenova, 1974. Tem- se dado considerável atenção ao complexo mecanismo militar do golpe e à interpreta­ção dos acontecimentos que levaram a ele em abril de 1964, como tendo sido o resul­tado da ação de um aparelho militar au­tônomo, ou um subsistema militar. Tal apa­relho militar autônomo, embora aliciado por civis e com eles interagindo, revelou- se como instado a intervir devido a sua “predisposição institucional para moderar o sistema, bem como a sua ideologia de construção de nação aprendida na Escola Superior de Guerra”. Sobre esse assunto, vide (a) Fernando PEDREIRA. Março 31: civis e militares no processo da crise bra­sileira. Rio de Janeiro, J. Álvaro, 1964. (b) Alfred STEPAN. The military in politics: changing patterns in Brazil. Princeton, Princeton Univ. Press, 1971 (Alfred Stepan ado- tou vastamente a análise de F. Pedreira). Dois trabalhos retificam a ênfase dada por esses referidos autores: (a) Eliezer Rizzo de OLIVEIRA. As Forças Armadas: polí­tica e ideologia no Brasil, 1964-1969. Petrópolis, Vozes, 1976. (b) Edmundo Coelho CAMPOS. Em busca de identidade: o Exército e a política na sociedade brasilei­ra. Rio, Forense Universitária, 1976. Se se acompanhar uma análise que destaca a ação burguesa de classe, pode-se ultrapas­sar a busca de causas imediatas isoladas, tais como os motins militares, as passeatas de classe média, discursos provocadores ou ações arbitrárias do Executivo instigando a ação da direita. Finalmente, pode-se pôr em perspectiva a contingente expansão de tro­pas estrangeiras na área, o apoio logístico por elas conferido e o envolvimento sigilo­so direto de agentes especializados e gover­nos estrangeiros. Vide (a) Moniz BANDEI­RA. Presença dos Estados Unidos no Bra­sil: dois séculos de história. Rio de Janei­ro, Civilização Brasileira, 1973. (b) J. Knippers BLACK. S. penetration of Brazil. Manchester, Manchester Univ. Press, 1971. (c) E. MOREL. O golpe começou em Washington. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965. (d) Phyllis PARKER. 1964: O papel dos Estados Unidos no golpe de 31 de março. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.
  9. Foi realizada a ação militar pelas clas­ses dominantes, precisamente devido à consciência por parte do Estado Maior da burguesia da necessidade de impedir a or­ganização política do bloco popular e ela­borar uma manobra preventiva ou, como foi descrita, um “golpe defensivo”, para conter e abafar a atividade das massas su­bordinadas e sua incipiente liderança or­gânica política.
  10. IPES CD Rio, 03 de abril de 1962. In­sistia-se muito na questão de agir encober­tamente, bem como colocava-se bastante ênfase na necessidade de ampla participação de classe. Em um telegrama enviado por Glycon de Paiva a João Baptista Leopoldo Figueiredo, este último foi relembrado de que “Confirmando telefonema hoje verbi gratia somos contrários ação ostensiva no­me IPES caso Congresso Cuba pt Relem­bro camarada necessidade fazer todas as associações de classe se manifestarem ca­tegoricamente ostensivamente positivamente contra.” Telegrama do IPES. 25 de iar- ço de 1963, Glycon de Paiva. Av. Rio Bno- co, 156, 27.° andar, Via Italcable, Ref. 400, Agência n. 4, Rio, João Baptista Leopoldo: Figueiredo, Rua Álvares Penteado, 65. São Paulo.
  11. O IPES teria de se resguardar de qual­quer prejuízo à sua capacidade para a ação eficaz. A identificação ou a suspeita de li­gações entre grupos ilegais paramilitares ou políticos deveriam forçosamente ser evita­das ou negadas a qualquer preço. Por exem­plo, em fevereiro de 1962, dois membros do IPES, Gilbert Huber Jr. e o General Golbery do Couto e Silva estavam sendo apontados como comprometidos com o Mo­vimento Anticomunista — MAC, uma or­ganização paramilitar de direita muito ati­va pela promoção de tumulto organizado e mensageira na conspiração contra o gover­no e tropas de choque contra a mobiliza­ção de estudantes e sindicatos. Seria alta­mente prejudicial ao IPES que essa ligação viesse ao conhecimento público. Para Gly­con de Paiva, “a equação IPES-MAC era letal” e Antônio Gallotti ressaltava que “Todo membro do IPES acusado de per­tencer ao MAC teria de se defender. Con­tudo, em sua defesa, nem de forma posi­tiva nem negativa, ele deveria fazer a mínima referência ao IPES.” Gilbert Huber Jr. acrescentava que Alfredo Nasser, por ser o Ministro da Justiça de João Goulart e ser responsável por contornar o problema, sen­tia-se “apavorado e embromado” pelas acu­sações. IPES CE Rio, 05 de fevereiro de 1962.
  12. “O IPES tem de adotar uma posição de completa inatacabilidade. Dou um exem­plo: um levante nos partos. O IPES jamais deve aparecer nesses assuntos ou simila­res. Temos que agir por trás dos bastido­res. Há empresários dentro do IPES.” O motivo para não aparecer diretamente se­ria que nas futuras tentativas por parte do IPES de reeleger deputados amigos para o Congresso, ele deveria se manter “fora da cena, com os outros organismos agindo com funções definidas.” Ata do IPES, 12 de fe­vereiro de W62.
  13. IPES Ch. Gr., 21 de agosto de 19
  14. 14 A ADCE era “uma entidade recém-fundada, modelada em um órgão francês simi­lar. Demonstrava impressionante ideologia social cristã que enfatizava o característico tema brasileiro de paz social com uma no­va roupagem e oferecia um programa abran­gente de cursos de treinamento gerencial. SCHMITTER. Interest, conflict and political change in Brazil. Califórnia, Stanford Univ. Press, 1971.
  15. Sobre as táticas de pressão e a ação direta pela elite orgânica e a necessidade de atividades a curto prazo para assegurar os objetivos a longo prazo, vide N. BAI- LEY. Organization and operation of neoliberalism in Latin America. In: Latin Ame­rica: politics, economics and hemispheric security. New York, Praeger, 1965.
  16. Como ficou destacado em uma dis­cussão entre a liderança do IPES de São Paulo e o General Moziul Moreira Lima: “O perigo no Brasil não é o comunismo, no momento, mas o movimento popular de subversão da ordem que será dirigido e encampado pelos extremistas. Os culpados do processo espoliativo aos olhos do povo são as classes produtoras, muito mais do que o governo.” IPES CD e CE, São Pau­lo, 27 de novembro de 1962.
  17. BÀILEY. op. cit. p. 215. A resis­tência ao populismo fora também o carro- chefe da ESG. John KOHL & J. LITT. Ur- ban guerrilla warfare in Latin America. Cambridge, Mass., MIT Press, 1974. p. 39.
  18. Vide (a) O Estado de São Paulo, 19 de julho de 1963. (b) O Estado de São Paulo, 20 de julho de 1963, sobre a ação do IPES e do IBAD.
  19. IPES CE Rio, 12 de junho de 1962. O líder do IPES Gilbert Huber jr. enfa­tizava que as reformas proporcionaram “a munição para o Grupo de Opinião Públi­ca”.

jan 31

O RESGATE DA MEMÓRIA DE PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

PADRE CÍCERO

PADRE CÍCERO: UM NOME DA NOSSA HISTÓRIA

PARTE I

            O povo do Ceará, especialmente o de Juazeiro do Norte, sabe muito bem, seja em qual idade for, quem foi Padre Cícero Romão Batista. O resto do Brasil, também, em grande parte, sabe, mas, para o cearense “Padim Ciço” é o Santo a ser buscado em qualquer dia ou hora, capaz de operar todos os milagres a ele pedidos. Pois bem, no ano de 1894 a Igreja de Roma suspendeu as ordens sacerdotais de Padre Cícero, vítima de inúmeras acusações, e assim o manteve até o ano de 2015 quando, no mês de dezembro, o Vaticano anunciou a reconciliação, abrindo caminho, até, para um implorado processo de beatificação.

            Em 14 de dezembro de 2015 o portal G1 publicava a notícia que milhares de cearenses aguardavam com grande ansiedade:

"Vaticano aceita reconciliação da Igreja Católica com Padre Cícero 

*Por Aline Oliveira – Fortaleza - CE 
Os devotos do Padre Cícero começam a semana com motivos para comemorar. O Vaticano aceitou o pedido para a reconciliação da Igreja Católica com o religioso. Para a CNBB, esse pode ser o primeiro passo para a beatificação.
A resposta do Vaticano veio nove anos depois do pedido feito pela Diocese do Crato, cidade onde Padre Cícero nasceu. O pedido foi que a igreja perdoasse o religioso cearense que morreu sem poder, por exemplo, celebrar missas.
A Igreja Católica suspendeu as ordens sacerdotais do Padre Cícero em 1894 por causa de um suposto milagre que se repetiu durante missas celebradas pelo religioso. Segundo historiadores, Padre Cícero dava hóstias que se transformavam em sangue na boca de uma beata. O episódio ficou conhecido como milagre de Juazeiro, mas foi negado pela Igreja Católica.
Agora, em carta ainda não divulgada na íntegra, o Vaticano reconheceu que "o afeto popular que cerca a figura do Padre Cícero pode constituir um alicerce forte para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino (...), e considerou que "é inegável que o Padre Cícero Romão Batista viveu uma fé simples, em sintonia com seu povo e, por isto mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo.
Todos os anos, Juazeiro do Norte, cidade que Padre Cícero fundou, no sul do Ceará, recebe dois milhões de fiéis. Romeiros sempre o consideraram santo.”

           A partir deste mês de janeiro/2016, vamos publicar, aqui neste espaço, alguns trechos do livro “PADRE CÍCERO – Poder, Fé e Guerra no Sertão[1]”, escrito pelo jornalista e escritor Lira Neto, e editado pela Companhia das Letras, por meio do qual o autor revela aspectos bastante interessantes da vida e da história de Padre Cícero Romão Batista, inclusive, sobre o início dos trabalhos de revisão da pena imposta ao sacerdote cearense revelando, ainda, que tudo (re)começou sob a orientação do então Cardeal Joseph Ratzinger, ainda Prefeito da poderosa Congregação  para a Doutrina da Fé. A importância do relato, a induzir a aquisição do livro, é levar aos nosso leitores uma pequena contribuição acerca da riquíssima história devocional do nosso povo, em especial, do povo nordestino que, apesar de todos os pesares, jamais perdeu a fé e a esperança.

“Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito 

2001-2006 

  São nove horas da manhã. Como faz todos os dias, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, 74 anos, atravessa a pé a praça de São Pedro, no coração da Santa Sé. De batina preta, boina de feltro escuro sobre os cabelos muito brancos, o proeminente teólogo ainda não atende pelo nome de Bento XVI. Mas já é reconhecido como o mais poderoso interlocutor de Sua Santidade, o papa João Paulo II, Ratzinger percorre com passos firmes o caminho de paralelepípedos e, diante do portão de ferro do palácio do Santo Ofício, recebe a habitual continência dos dois soldados da guarda suíça. Reverentes, estes lhe abrem passagem, com os característicos uniformes coloridos em azul, vermelho e amarelo. Aqui, visitantes ocasionais não são bem-vindos. Transposto o pórtico principal, chega-se às dependências da Congregação para a Doutrina da Fé — como desde 1967 passou a ser denominado o Santo Ofício, mais anteriormente conhecido pelo nome original, que fazia tremer a alma dos acusados de heresia: Inquisição Romana. No interior daquelas paredes de pedra, em pleno século XXI, ainda existe um tribunal religioso encarregado de julgar os que professam opiniões divergentes das consideradas oficiais pela Igreja. 

      Na condição de prefeito da Congregação, o equivalente contemporâneo ao cargo de inquisidor-geral, cabe a Joseph Ratzinger o papel de guardião da ortodoxia católica. Por isso, alguns dos segredos mais caros ao Vaticano são conduzidos na velha valise de couro negro que ele sempre leva à mão direita. Ali vão a agenda de despachos e os documentos para o expediente do dia. No escritório, em cima da vasta mesa de trabalho, a pilha de papéis oficiais com o timbre da Santa Sé divide espaço com um crucifixo de ouro, uma luminária, um porta-lápis e um pequeno calendário. Neste último, vê-se a indicação: é a primavera de 2001. O cardeal, sentado em sua cadeira estofada de espaldar alto, prepara à mão o esboço de uma carta que será enviada em caráter reservado à Nunciatura Apostólica do Brasil. A correspondência diz respeito a um delicado tema: a pertinência de uma possível reabilitação canônica de um sacerdote brasileiro falecido em 1934, aos noventa anos de idade. Alguém que levou para o túmulo o estigma de ter sido um proscrito da Igreja. Um clérigo julgado e condenado como insubmisso, contra o qual os inquisidores da época decretaram a pena de excomunhão. Um reverendo maldito, que a despeito disso continua a arrebanhar milhões de peregrinos e devotos, incansáveis perpetuadores de sua memória: o padre Cícero Romão Batista. 

       O diligente Joseph Ratzinger, é claro, tem notícia dos cerca de 2,5 milhões de fiéis que acorrem todos os anos a Juazeiro do Norte, cidade localizada a 520 quilômetros de Fortaleza, no interior do Ceará. O número de peregrinos que chegam ao local onde viveu padre Cícero, de fato, impressiona. É como se metade da população de uma metrópole como Roma se deslocasse em massa, anualmente, para reverenciar um sacerdote banido das hostes da Igreja. Em Juazeiro, a multidão compacta paga promessas, acende velas, renova a fé, faz novos pedidos e invoca a proteção de seu guia espiritual. No topo da serra que avizinha a cidade, foi erguida uma imagem gigantesca de padre Cícero, com 27 metros de altura, uma das dez maiores estátuas cristãs de concreto das Américas. Próximo à capela onde está enterrado o corpo do reverendo, na chamada Casa dos Milagres, o testemunho das centenas de milhares de graças alcançadas arrebatam o olhar de quem chega à porta. São os chamados ex-votos: fotografias e esculturas de madeira, cera ou barro, que reproduzem partes do corpo humano. Pernas, braços, mãos, cabeças. Muitas cabeças. Foram deixados ali por doentes terminais que juram ter recuperado a saúde, aleijados que afirmam ter voltado a andar, cegos que dizem enxergar de novo, loucos que asseguram ter recuperado o juízo. Para toda essa gente, padre Cícero é o santo milagreiro, devidamente canonizado pela devoção popular, embora proibido de entrar nos altares oficiais. 

    Difícil encontrar uma casa no sertão nordestino na qual não exista uma imagem de padre Cícero. Retratado sempre com o cajado, o chapéu e a batina, ele parece onipresente entre os sertanejos. Em Juazeiro, mais ainda. Ele está na fachada das lojas, dos supermercados, dos cartórios, das bodegas, dos comitês eleitorais. Estátuas de Cícero de gesso — e em tamanho natural — adornam até mesmo as agências das grandes redes bancárias instaladas na cidade. Ele só não está nas igrejas.

       Para o Vaticano, tal veneração tem se tornado ainda mais eloquente diante da constatação de que a cada ano o catolicismo perde milhares de adeptos no Brasil. Segundo cálculos insuspeitos da própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a sangria de fiéis é considerada alarmante. O país, na verdade, ainda continua sendo "a maior nação católica do mundo". Mas a última década assistiu à queda vertiginosa no percentual de católicos brasileiros, enquanto o contingente de evangélicos se multiplicou em idêntica proporção. Em última análise, deixar que o culto a padre Cícero permaneça à margem da liturgia significa negar o acolhimento pastoral a toda uma preciosa legião de devotos. Ratzinger sabe disso. Vigilante como sempre no desempenho de sua função, ele tem plena ciência da força do mito em torno do chamado Patriarca do Juazeiro.

   E óbvio que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não desconhece também as graves acusações históricas que recaem sobre o homem Cícero Romão Batista. Elas não são poucas. Quando reunidas, constituem notórios obstáculos à ideia de anistiar, post mortem, as penas que foram impostas ao padre, em vida, pelo Tribunal do Santo Ofício. A primeira incriminação que incide sobre Cícero é a de ter sido ele um mistificador, um aproveitador das crenças do povo mais simples, um semeador de fanatismos. Homem de ideias religiosas pouco ortodoxas, leitor de autores místicos, dado a ver almas do outro mundo e defensor de milagres não endossados pelo Vaticano, Cícero estaria mais próximo da superstição do que da fé, disseram dele os muitos adversários que colecionou no meio do próprio clero. Decorre daí outra incriminação, ainda mais incisiva: a de que nas vezes em que fora repreendido por seus superiores eclesiásticos agira como um rebelde e caíra em desobediência. Na rígida hierarquia clerical, desobedecer a um superior constitui pecado gravíssimo. Almas indóceis à autoridade de bispos e cardeais não vão para o Céu, assim determina a lei da Igreja.”

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CONTINUA EM BREVE

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PADRE CÍCERO - O LIVRO

[1] NETO, Lira. PADRE CÍCERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO. São Paulo. Companhia das Letras: 2009. 557 páginas.

nov 22

A MORTE DE CÉSAR NÃO INTERROMPE SUA OBRA

CÉSAR

CÉSAR, UM DOS PILARES DA HISTÓRIA – PARTE V –

            Hoje estamos prosseguindo com a publicação sobre a vida daquele que é considerado um dos maiores gênios do Império Romano, escritor, político, general e estrategista militar: Imperador César, ou, simplesmente, César. Uma personalidade que a história dos séculos insiste em manter sempre viva, tamanha sua importância. Conforme ressaltamos em publicações anteriores falar, porém, sobre César exige conhecer mais que o homem e seu momento contextual, exige conhecer a história, porque ele viveu em um período crucial da própria história romana, uma história de transição política e de personagens ímpares como, por exemplo, Cícero, Pompeu, Catilina, Crasso e outros que, não apenas viveram a história, mas, e sobretudo, que fizeram e entraram na história para sempre.

            O norte do nosso trabalho é o historiador português Domingos Monteiro[1] – O Livro de Todos os Tempos. História da Civilização. Vol. 5.  Rio de Janeiro. Lidador. 1963 – que fornece-nos o subsídio necessário para trazer ao público uma parte importante e interessante do período que que César esteve no centro das atenções, de Roma e do Mundo.

            Domingos  Monteiro afirma que César é, sem contestação, a imagem mais venerada daquilo que se pode denominar “iconografia política”, arrematando que “Formou-se, assim, uma tradição cesarista que, tendo-se conservado viva através dos séculos, foi sendo constantemente poluída por elementos interessados e adversos. Os exemplos de Carlos V, de Napoleão e, mais recentemente, de Benito Mussolini servem para justificar o nosso asserto. Mas isto, de maneira geral, sucede com todos os personagens históricos de alguma relevância, embora o caso de César – pela grandeza da figura – seja o mais expressivo e eloquente.”[2]

CÉSAR E SEU TEMPO – CONTINUAÇÃO

     “As suas reformas, democráticas nos seus intuitos, fica­ram assim diminuídas no seu alcance, embora produzissem os seus efeitos, isto é, embora por via delas se tivesse conseguido uma melhor justiça distributiva e social, o que corres­ponde a uma real democratização.

        O espírito da universalidade prática e de justiça social, que é a própria essência do cesarismo e o equivalente do universalismo e da justiça social teórica dos Gregos, encon­tra nelas a sua primeira realização.

        A extensão dos jus romanum à Itália Cisalpina (que mais tarde, sob a vigência de outros imperadores, será esten­dido a todo o império), o desenvolvimento do sistema mu­nicipal unificado num estatuto comum em que são aumen­tadas as suas condições de liberdade e de autonomia, as leis que estabelecem a diminuição dos encargos dos arrendatá­rios das propriedades do Estado e anulam as suas dívidas ou dão facilidades para o seu pagamento, a repressão legal da usura (um dos flagelos da vida econômica de Roma) e o novo regulamento para distribuição gratuita de trigo, que se principia a fazer com regularidade, mas que beneficia, como é justo, apenas os necessitados, são outras tantas pro­vas dessa intenção e dessa boa vontade.

   César, restabelecidos os fundamentos da ordem e da prosperidade econômica e social e garantida a ordem polí­tica com leis contra as associações demagógicas e contra a agitação, pretende também — o que em Roma é extrema­mente difícil — promover a ordem moral.

       O adultério passa a ser punido como também o são a corrupção e o próprio luxo exagerado. César desmente as­sim o seu passado e desintegra a sua personalidade de homem de Estado dos seus erros humanos.

       Mas não param aí as suas ambições. A multíplice e desordenada contagem dos tempos, além de prejudicar a vida econômica, também o preocupa. Daí nasce o novo ca­lendário — o Calendário Juliano — que, por sua ordem, o astrônomo alexandrino Sosígenes elabora e organiza. Uma nova era começa de fato, ao que este acontecimento imprime um valor determinativo e simbólico. Não é ainda a da bon­dade humana e da proteção aos fracos, que só o Cristianismo iniciará, mas já é — avanço considerável — a do início da igualização dos homens em face da mesma fôrça política e civil, e da mesma lei.

A MORTE DE CÉSAR

      A morte de César, vítima da última e esporádica reação do formalismo republicano, não foi o suficiente para des­truir a sua obra, que à parte o autocratismo que a invalidava democraticamente, correspondia, de fato, a uma ne­cessidade social.

         Por detrás do braço erguido dos assassinos estava o descontentamento da burguesia, gravemente atingida nos seus interesses. Era no fundo, ela que o tinha armado, embora os seus mandatários — por demasia limitados ou ingênuos — o não soubessem.

       César acabara com o sistema de arrendamento dos im­postos, instituição em que a grande burguesia apoiava a sua força econômica, substituindo-o por prestações fixas mas certas e, tal como os Gracos já o tinham tentado fazer, abolira os juros em atraso, passando os que já tinham sido pagos a constituir amortização das dívidas. Também o di­reito que tinha o credor de escravizar o devedor relapso desa­pareceu para benefício da ordem econômica e moral que, por todos os meios, pretendia assegurar.

        As arrematações de fornecimentos — especialmente as de fornecimentos de trigo — foram substituídas por presta­ções diretas, acabando-se assim com a praga sugadora dos intermediários e estancando-se — outro motivo de descon­tentamento dos capitalistas — uma das suas mais importantes fontes de receita.

         A reforma tributária viera completar a sua obra de re­cuperação econômica e financeira, e quando César morreu o tesouro público abarrotava de riquezas.

        O interregno que se abre entre a morte de César e o definitivo triunfo de Otávio, seu excelente continuador, dá-nos o mesmo espetáculo de perturbação social e política, e apresenta as mesmas contradições do período anterior à sua vitória. Um elemento porém havia a mais, e esse muito importante: o exemplo de César que tinha frutificado. A autocracia socializante que ele constituíra restabelecera a ordem e dera as suas benéficas provas.

     O povo de Roma não se esquecera disso, como não se esquecera das suscetibilidades que ele ferira e das tradições que violara. A alma das multidões é bipolar e, por isso, tanto o assassinato de César como a sua glorificação post mortem estão dentro da lógica natural.

      É, também, o que leva o Senado, no seio do qual a conspiração se elaborou, por um lado, a anistiar os autores do atentado e, por outro, a aprovar o testamento de César e a endeusar o mesmo Cesar.”

       Para se compreender bem estes acontecimentos é neces­sário colocarmo-nos dentro do espírito da época e não incorrermos no erro, tão frequente em alguns comentadores, que consiste em aplicar às sociedades modernas as conclu­sões extraídas das sociedades antigas.

           São justamente aqueles que, em face do reconhecimen­to — geralmente aceito — da necessidade de um regime autocrático para dominar a perturbação política, econômica e social de Roma e, também, a sua perturbação moral, ex­traem daí a conclusão — pela aparente similitude das si­tuações — que esse remédio é sempre aplicável em qual­quer sociedade e em qualquer época.

            São também os que concluem em face do sucesso da política de César e do relativo sucesso da política do império a que deu causa, pela falência de uma democracia que nunca existiu.

           Daí a noção falsa — que tem sido aproveitada através dos tempos — de que César combateu as forças da demo­cracia, quando o que ele combateu foi uma poderosa oligar­quia e as forças demagógicas que se opunham a ela.

        Aliás, — à parte o aspecto formal e institucional — em Roma nunca houve nada que, de longe ou de perto, se parecesse com uma democracia.

     Só a partir dos cidadãos, que até ao fim da República foram em número limitadíssimo (foi o Império quem uni­versalizou a ideia de cidadania), é que tal poderia ser considerado.

      A sociedade da república romana era constituída por camadas, a mais espessa das quais era a dos alienis juris. As outras vão sendo, à medida que se sobe na escala social, cada vez menos densas e menos representativas da popu­lação romana, considerada no seu conjunto.

     Não há, pois, que falar em democracia, nem se lhe pode contrapor o cesarismo como expressão antinômica.

       Não foi em Roma, nem mesmo na Grécia (onde quan­do muito se fez a sua formulação teórica e jurídica), que a democracia prestou as suas provas, mas é nos tempos mo­dernos que as está prestando. Esses juízos são, pois, por um lado, prematuros e, por outro, precipitados."

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[1] Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, Conselho de Mesão Frio, província de Alto Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1906, tendo publicado seu primeiro livro aos quinze\e anos de idade. No prefácio deste livro, o poeta Teixeira de Pascoais afirma que “a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira deste jovem poeta encantador. Poeta, escritor e advogado, Domingos Monteiro, aos trinta e quatro anos de idade, abandona a advocacia para dedicar-se integralmente à atividade literária, legando-nos, dentre outros, O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS – História da Civilização, livro único em língua portuguesa, tornando-se um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos.

[2] Op. cit. p. 97. 

out 18

CÉSAR E TRIUNVIRATO ROMANO

CESAR

UM DOS PILARES DA HISTÓRIA – PARTE IV –

                  Hoje estamos prosseguindo com a publicação sobre a vida daquele que é considerado um dos maiores gênios do Império Romano, escritor, político, general e estrategista militar: Imperador César, ou, simplesmente, César. Uma personalidade que a história dos séculos insiste em manter sempre viva, tamanha sua importância. Conforme ressaltamos na publicação anterior falar, porém, sobre César exige conhecer mais que o homem e seu momento contextual, exige conhecer a história, porque ele viveu em um período crucial da própria história romana, uma história de transição política e de personagens ímpares como, por exemplo, Cícero, Pompeu, Catilina, Crasso e outros que, não apenas viveram a história, mas, e sobretudo, que fizeram e que entraram para a história.

                      O norte do nosso trabalho é o historiador português Domingos Monteiro[1] – O Livro de Todos os Tempos. História da Civilização. Vol. 5.  Rio de Janeiro. Lidador. 1963 – que fornece-nos o subsídio necessário para trazer ao público uma parte importante e interessante do período que que César esteve no centro das atenções, de Roma e do Mundo.

                    Domingos  Monteiro afirma que César é, sem contestação, a imagem mais venerada daquilo que se pode denominar “iconografia política”, arrematando que “Formou-se, assim, uma tradição cesarista que, tendo-se conservado viva através dos séculos, foi sendo constantemente poluída por elementos interessados e adversos. Os exemplos de Carlos V, de Napoleão e, mais recentemente, de Benito Mussolini servem para justificar o nosso asserto. Mas isto, de maneira geral, sucede com todos os personagens históricos de alguma relevância, embora o caso de César – pela grandeza da figura – seja o mais expressivo e eloquente.”[2]

CÉSAR E SEU TEMPO

“O SEGUNDO TRIUNVIRATO

César tinha ainda em Roma a apoiá-lo a força dema­gógica que o levou ao poder e, sobretudo, a oculta influência de Crasso, que jogava em seu favor. Pompeu vê-se obrigado a desistir — embora temporariamente — do seu in­tento, e pelo convênio de Luca, pequena cidade do norte da Itália onde os três se reúnem, se estabelece aquilo que os historiadores denominam o segundo triunvirato.

Pompeu e Crasso são nomeados cônsules, e recebem a chefia da Espanha e da Síria. Quanto a César, vê con­firmada por mais cinco anos, como pretendia, a sua prefei­tura das Gálias, e assegurados os meios econômicos para manter as dez legiões que comanda.

Mas isto é sol de pouca duração. Pompeu, que a lei Gabínia tinha um dia tornado o senhor de Roma e que, não obstante os altos cargos que exerce, se vê — pelo menos no consenso dos seus concidadãos — relegado para se­gundo plano, não se conforma com essa situação e continua a manobrar, ocultamente, contra o seu colega no triunvirato.

Aproveitando-se da morte de Crasso, e rompidos entre os dois todos os laços familiares e sentimentais pelo fale­cimento de Júlia, filha de César, sua mulher (o que se dá no ano seguinte à entrevista de Luca), Pompeu resolve- se a dar o golpe final.

Aproxima-se o momento decisivo da carreira política de César. Pompeu, que em 52 (apoiado pela aristocracia, que agora via nele a única tábua de salvação) fora nomeado cônsul único, contra a letra da Constituição, assumira assim, ilegalmente, poderes ditatoriais. Pretendia, portanto, apro­veitar-se dessas condições que o favoreciam para abater de­finitivamente o poderio de César, que teria que esperar, segundo a lei que prescrevia dez anos de intervalo entre dois consulados, até 48 para se apresentar como candidato.

Era essa eleição que, antes de mais nada, Pompeu in­tentava evitar, pois não sendo nomeado cônsul, César não poderia cumprir a promessa de distribuições de terras feitas aos seus veteranos, nem levar a cabo as reformas iniciadas no seu primeiro consulado.

Para isso choviam sobre César as exigências de todas as ordens e as pressões mais variadas, todas elas tendentes a que dissolvesse o seu exército, isto é, que se desfizesse da força efetiva que assegurava o seu futuro político.

Mas César não estava disposto a praticar o mesmo erro que Pompeu cometera no seu regresso da Ásia, e embora contemporizando (do que é prova a sua entrega, em obe­diência às determinações do Senado, de duas legiões para combater os Partos e que mais tarde se haviam de voltar contra ele), recusava-se a fazê-lo, tentando ganhar tempo por meio de contrapropostas ou de petições respeitosas apresentadas por tribunos seus partidários.

Fora-lhe, contudo, permitido apresentar, mesmo ausen­te, a sua candidatura embora se mantivesse de pé a exi­gência de dissolver o seu exército e de se apresentar em Roma.

César que, pacificadas definitivamente as Gálias, se en­contrava então com o seu exército no norte da Itália, res­ponde a Pompeu, com a exigência, aliás perfeitamente legal, de que abandonasse o governo de Espanha (onde aquele não fora há mais de cinco anos) e de que, por seu turno, dissol­vesse o seu exército.

Recusada ela, a questão entre os dois tornara-se irre­dutível. César então, não de ânimo leve nem impulsiva­mente, como afirmam alguns historiadores, mas com medi­tada determinação, resolve-se a tomar uma atitude decisiva e a atravessar o Rubicão.

Isto se passava em janeiro de 49, e pode-se dizer que, nesse dia, foi dado o primeiro passo para a criação do im­pério romano.

  Arco de Tito em Roma.

Arco de Tito

AS REFORMAS DE CÉSAR

Depois da sua vitória militar sobre Pompeu, que morre assassinado no Egito, por traição de Ptolomeu, a quem an­teriormente protegera, depois da morte de Catão, — única força moral da república — que se suicidara em Útica para não cair vivo nas mãos de César, toda a resistência dos seus adversários se desagregou, com exceção de uma pequena parte da Espanha, onde Sexto, único filho de Pompeu, con­tinuava a manter, apoiado nos naturais, por sua índole irrequietos, um pequeno foco de rebelião. Mas isso não era o bastante para incomodar César, que ficava agora, praticamente, com as mãos livres para prosseguir na sua reforma.

Sem contrariar por inteiro o formalismo institucional tão querido dos Romanos, e reforçando-o por vezes, César que, na repressão contra os seus adversários, fora, por ín­dole e por inteligência, extraordinariamente benevolente, trata de concentrar nas suas mãos o poder efetivo, tendo sido nomeado cônsul por dez anos e assumido vitaliciamente as funções de censor, de tribuno e de sumo-sacerdote, isto é, todos os atributos que se consubstanciavam na antiga rea­leza. Só não deu a si próprio o nome de rei talvez para não ferir demasiadamente o sentimento republicano ou, pos­sivelmente, porque fosse mais consentâneo com o seu feitio assumir, à maneira grega, o papel de tirano instruído e benevolente.

Isso não impediu que adotasse todos os distintivos e in­sígnias reais e que aceitasse o título de imperator, que lhe fora concedido e que gostosamente usava.

A ampla anistia que outorgara logo após a sua subida ao poder apaziguara os ânimos e congregara, à sua volta, homens de todos os partidos, entre os quais o próprio Cícero que, versátil e ambicioso de honrarias, começara a gravitar, como um satélite, em redor do novo astro.

O que César antes de mais nada pretendia — e aquilo que era mais difícil em Roma — era organizar uma admi­nistração honesta e competente, não hesitando para isso, como o fez, em solicitar a colaboração de todos os adversá­rios da véspera, que não se mostrassem de todo irredutíveis.

As leis constitucionais da república foram, de maneira geral, respeitadas, e alargados os próprios quadros das an­tigas constituições, pelo que o número de pretores e de questores aumentou de 100% e o de senadores de 50%.

A lei eleitoral foi mantida no seu formalismo processual, mas César reservava para si o direito de petição, que corres­pondia à autorização prévia para a eleição e nomeação de candidatos. Foi este o golpe mais fundo que vibrou nas instituições democráticas, e que, destinado a assegurar e a garantir o seu poder pessoal, viria mais tarde, sob o domí­nio de outros imperadores, a tornar-se uma justificação de prepotências e numa fonte de despotismos.”

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[1] Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, Conselho de Mesão Frio, província de Alto Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1906, tendo publicado seu primeiro livro aos quinze\e anos de idade. No prefácio deste livro, o poeta Teixeira de Pascoais afirma que “a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira deste jovem poeta encantador. Poeta, escritor e advogado, Domingos Monteiro, aos trinta e quatro anos de idade, abandona a advocacia para dedicar-se integralmente à atividade literária, legando-nos, dentre outros, O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS – História da Civilização, livro único em língua portuguesa, tornando-se um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos.

[2] Op. cit. p. 97.  

set 20

CÉSAR E AS CONQUISTAS INICIAIS

CÉSAR

UM DOS PILARES DA HISTÓRIA – PARTE III –

                  Hoje estamos prosseguindo com a publicação sobre a vida daquele que é considerado um dos maiores gênios do Império Romano, escritor, político, general e estrategista militar: Imperador César, ou, simplesmente, César. Uma personalidade que a história dos séculos insiste em manter sempre viva, tamanha sua importância. Conforme ressaltamos na publicação anterior falar, porém, sobre César exige conhecer mais que o homem e seu momento contextual, exige conhecer a história, porque ele viveu em um período crucial da própria história romana, uma história de transição política e de personagens ímpares como, por exemplo, Cícero, Pompeu, Catilina, Crasso e outros que, não apenas viveram a história, mas, e sobretudo, que fizeram e que entraram para a história.

                      O norte do nosso trabalho é o historiador português Domingos Monteiro[1] – O Livro de Todos os Tempos. História da Civilização. Vol. 5.  Rio de Janeiro. Lidador. 1963 – que fornece-nos o subsídio necessário para trazer ao público uma parte importante e interessante do período que que César esteve no centro das atenções, de Roma e do Mundo.

                    Domingos  Monteiro afirma que César é, sem contestação, a imagem mais venerada daquilo que se pode denominar “iconografia política”, arrematando que “Formou-se, assim, uma tradição cesarista que, tendo-se conservado viva através dos séculos, foi sendo constantemente poluída por elementos interessados e adversos. Os exemplos de Carlos V, de Napoleão e, mais recentemente, de Benito Mussolini servem para justificar o nosso asserto. Mas isto, de maneira geral, sucede com todos os personagens históricos de alguma relevância, embora o caso de César – pela grandeza da figura – seja o mais expressivo e eloquente.”[2]

 CÉSAR E SEU TEMPO

A CARREIRA DE CÉSAR

A carreira política de César, não obstante o prestígio e influência de que gozava, como se pode depreender do que atrás fica dito, só começa a tomar relevo relativamente tarde , isto é, quando do regresso de Pompeu das campanhas da Ásia.

A sua intervenção até aí fora meramente acidental, e os cargos que ocupava, embora rendosos e prestigiantes, eram de importância política secundária.

Não obstante ter-se batido ainda muito novo no cerco de Mitilene, às ordens de Minúcio, e na Sicília sob o coman­do de Sulpício, a sua reputação militar não estava feita. Pode-se mesmo dizer que em Roma, onde a sua fama de devasso quase ultrapassava a de Clódio e onde os seus su­cessos amorosos, de índole suspeita, lhe tinham granjeado o apodo de efeminado, ninguém acreditava mesmo que ele a chegasse a conquistar.

E, contudo, aquele homem, de quem se afirmava pejo­rativamente “que era o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”, iria revelar-se mais tarde, com a campanha das Gálias, um dos maiores e mais hábeis generais de todos os tempos.

A sua nomeação para pro pretor da Espanha, onde con­segue triunfar sobre os Lusitanos, é a primeira surpresa e o primeiro passo nesse sentido. César consegue assim que­brar o círculo vicioso em que a sua vida se encerrava e tem agora aberto o caminho do consulado, sendo com o auxílio de Crasso e de Pompeu eleito cônsul em 59, etapa decisiva para o acesso aos grandes comandos que tanto ambicionava. Estes, por seu turno, serão, mais tarde, a confirmação e a garantia da sua vitória política.

O PRIMEIRO TRIUNVIRATO

De começo, para assegurar a simpatia dos seus aliados que com ele constituem o que é costume chamar-se o pri­meiro triunvirato, força a aprovação das leis democráticas apresentadas por Pompeu (aprovação que este não conse­guira obter) e — se bem que arrostando com a oposição do Senado, à frente do qual se encontram Cícero e Catão — apresenta o pedido, que também é satisfeito, de distribuição das terras de Cápua pelos veteranos pobres e pelos pais com muitos filhos.

Pompeu e Crasso são nomeados presidentes da comis­são encarregada da distribuição das terras, enquanto ele

- usando do velho expediente da petição apresentada por um tribuno — consegue obter, por cinco anos, a prefeitura da Gália Cisalpina, com o direito de recrutar legiões e de nomear generais.

O que César pretende é criar uma força organizada em que se possa apoiar para empreendimentos futuros, para o que só o exército, nessa Roma politicamente desagregada, pode servir.

E é o que ele, sem grande esforço, realmente consegue. Cícero, que se opõe, é exilado de Roma, sob o pretexto de ter executado sem as formalidades legais cidadãos romanos

- os cidadãos são os sicários de Catilina e o próprio Catilina! Quanto a Catão, esse é afastado com todas as hon­ras, para Chipre, em missão de soberania.

A conquista das Gálias, para onde César parte depois de ter assegurado em Roma o seu poder político, dão-nos a prova do seu talento militar. Depois de ter vencido os Helvéticos, os Germanos, os Belgas, César realiza a completa conquista da Gália, que, à parte algumas revoltas de caráter esporádico facilmente dominadas, se torna a mais fiel e a mais pacífica província romana. Mais porém do que a sua conquista militar, o trabalho de pacificação a que César procede — e que é uma obra-prima de tato e de inteligência política — nos revelam a sua capacidade de homem de Estado. Respeitando todos os elementos sentimentais que­ridos da população, — os seus costumes, a sua língua, a sua organização política e, inclusive, a própria religião druídica — César aproveita-se habilmente das dissensões la­tentes entre as tribos irrequietas, para proceder lenta, mas eficazmente, à romanização daquela vasta região. E a obra de César foi tão profunda, que ainda hoje se podem obser­var os seus efeitos, pois destacou definitivamente do germanismo para a latinidade povos que, como o belga e o francês, ainda conservam com aquele um estreito parentesco étnico.

Ao mesmo tempo que adquiria para Roma a mais fértil e a mais rica das províncias, — onde poderia proceder, em larga escala, ao consagrado sistema de colonização assimilatória — César afastava por quatro séculos — arvorando o Reno em fronteira do império e limite máximo da expan­são germânica — a ameaça latente que, depois das inva­sões dos Cimbros e Teutões (de que os Italianos conservam ainda aterrorizada recordação), impendia sobre Roma.

Mas toda a medalha tem o seu reverso. O merecido prestígio que adquirira com a sua vitória viera despertar a inveja e emulação de Pompeu, seu colega no triunvirato, que sentia o brilho da sua glória empanado por uma luz mais fulgurante.

Aproveitando-se da longa ausência de César, Pompeu tenta minar o seu poderio, pondo em movimento o compli­cado formalismo da Constituição romana, todo ele destinado a preservar os antigos privilégios e a evitar uma longa per­manência e continuidade no poder, tida e havida, apesar dos seus reconhecidos benefícios (aliás com alguma razão), como uma ameaça e um perigo para as liberdades essenciais dos cidadãos.

Mas esta primeira tentativa de Pompeu, que para granjear adeptos chama Cícero do exílio, não consegue obter sucesso.

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[1] Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, Conselho de Mesão Frio, província de Alto Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1906, tendo publicado seu primeiro livro aos quinze\e anos de idade. No prefácio deste livro, o poeta Teixeira de Pascoais afirma que “a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira deste jovem poeta encantador. Poeta, escritor e advogado, Domingos Monteiro, aos trinta e quatro anos de idade, abandona a advocacia para dedicar-se integralmente à atividade literária, legando-nos, dentre outros, O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS – História da Civilização, livro único em língua portuguesa, tornando-se um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos.

[2] Op. cit. p. 97.

 

ago 16

CÉSAR E O SEU TEMPO

CÉSAR

UM DOS PILARES DA HISTÓRIA -PARTE I I-

                  Hoje estamos prosseguindo com a publicação sobre a vida daquele que é considerado um dos maiores gênios do Império Romano: escritor, político, general e estrategista militar: Imperador César, ou, simplesmente, César. Uma personalidade que a história dos séculos insiste em manter sempre viva, tamanha sua importância. Conforme ressaltamos na publicação anterior falar, porém, sobre César exige conhecer mais que o homem e seu momento contextual, exige conhecer a história, porque ele viveu em um período crucial da própria história romana, uma história de transição política e de personagens ímpares como, por exemplo, Cícero, Pompeu, Catilina, Crasso e outros que, não apenas viveram a história, mas, e sobretudo, que fizeram e que entraram para a história.

                      O norte do nosso trabalho é o historiador português Domingos Monteiro[1] – O Livro de Todos os Tempos. História da Civilização. Vol. 5.  Rio de Janeiro. Lidador. 1963 – que fornece-nos o subsídio necessário para trazer ao público uma parte importante e interessante do período que que César esteve no centro das atenções, de Roma e do Mundo.

                            Domingos  Monteiro afirma que César é, sem contestação, a imagem mais venerada daquilo que se pode denominar “iconografia política”, arrematando que “Formou-se, assim, uma tradição cesarista que, tendo-se conservado viva através dos séculos, foi sendo constantemente poluída por elementos interessados e adversos. Os exemplos de Carlos V, de Napoleão e, mais recentemente, de Benito Mussolini servem para justificar o nosso asserto. Mas isto, de maneira geral, sucede com todos os personagens históricos de alguma relevância, embora o caso de César – pela grandeza da figura – seja o mais expressivo e eloquente.”[2]

CÉSAR E SEU TEMPO

CÉSAR E A DEVASSIDÃO ROMANA

                   César mergulha por inteiro na devassidão romana, mas não faz parte dela.

                   Essa mesma contradição aparente vamos encontrá-la na sua carreira política, em que ele, o céptico e o ateu convicto, nos aparece, a certa altura, como Pontifex maximus, isto é, como chefe da religião romana. É que no fundo só uma coisa lhe interessa: a grandeza de Roma e do seu povo. E para isso, embora o preceito ainda não tenha sido formu­lado, ele acha que todos os meios são bons para alcançar os fins. E procede em conformidade.

                   O seu grande defeito, aquele que historicamente o di­minuiu como a tantos outros, não está entre os que vulgar­mente lhe têm sido apontados, mas é o de antepor a ação rápida mas superficial dos homens à ação lenta, mas muito mais profunda e eficaz, das ideias e dos princípios. Foi exatamente isso que o levou erradamente, embora com tran­sitório êxito, a tentar realizar uma reforma popular com desprezo do formalismo democrático. E por isso, não obs­tante a confirmação enérgica de Otávio, ela se desvirtuou e se perdeu. Oliveira Martins dá-nos de César, da sua per­sonalidade e da sua vida uma imagem tão viva e tão exata, que não resistimos a transcrevê-la para melhor entendimen­to dos acontecimentos que se vão seguir e que são funda­mentais para a evolução posterior da civilização.

                   “César, — refere Oliveira Martins — acabada a sua pretura de 692, fora nomeado pro pretor para Espanha. Estava então no auge dos apuros. Devia duzentos e cinquenta milhões e os credores apertavam-no. Devia a todos: devia a Bíbula, seu antigo colega na edilidade de 689, devia sobretudo a Crasso, que achara em César o que não pudera ter no riquíssimo Pompeu — um homem a quem empres­tasse dinheiro e à sombra do qual subisse. Crasso — que toda a gente temia como se teme um elemento — era o senhorio de Roma quase inteira! Crasso que por isso tinha feno nos chifres, como os bois bravos de que se foge, Crasso acudiu aos apuros de César emprestando-lhe oitocentos e cinquenta talentos para que os credores mais importunos o deixassem partir para a Espanha. No ano de 693, durante esse governo, César juntou o bastante para pagar as dívidas e voltando a Roma em 694, ele que até aí se achara sempre com a corda no pescoço, não passando de uma espécie de Catilina, chefe de clube de demagogos arruinados, de janotas dissipadores e arruaceiros, compreendeu que tal ca­minho não conduzia a nada e que só com o poder' militar, só com um exército próprio, era possível reinar em Roma.

                   “Voltando, pois, de Espanha em 694 com a bolsa bem quente e seguro do apoio de Crasso, seu antigo e fiel aliado, decidiu propor-se ao consulado para 695. A democracia tinha afinal um chefe e da luta obscura do caos romano a seleção extraía um monarca. O papel que Pompeu não sabia representar, representá-lo-ia ele, César. Não era sem tempo, pois já levava quarenta anos vividos, e faltava-lhe ainda ganhar os louros de general, para depois empunhar o cetro de monarca.

                   “Achava-se no vigor da idade, educado por uma vida dissoluta que, sem o perverter, o tomara céptico e conhe­cedor dos homens e das suas fraquezas. Tinha desde muito uma ambição firme: reinar! — ambição que enchia todas as cabeças romanas, ambição própria das épocas em que uma sociedade se dissolve. Reinar, porém, não era para ele, como para todos os mais, nem satisfazer uma vaidade balofa como a de Pompeu, nem desenfastiar-se e vingar-se como fizera Sila, nem dar largas a um satanismo felino como o de Catilina, nem a um naturalismo báquico à maneira de Antônio.

                   “Reinar era a grande ambição de reconstituir o Estado sobre alicerces duráveis e terminar o período que se abrira, três quartos de século antes, com os Gracos. Por isso, dis­semos que a vida mundana não o corrompera, apesar de sabermos que não era um modelo de virtudes. Sem escrúpu­los nos meios, empregando ora a crueldade ora a clemência, mais vezes a segunda do que a primeira, como todos os céticos inteligentes, tinha porém um fim decidido e firme: restaurar Roma; e nesse pensamento consistia a sua força, que era servida incontestavelmente por uma variedade de aptidões incomparável.

                   “Político antes de tudo, quando viu, porém, que nem as conspirações nem as discussões do Foro podiam realizar o seu fim; assim que se convenceu de que no Estado, nas coisas havia uma única força positiva, a tropa, mudou de rumo e propôs-se ser general. Só por isso queria o consu­lado, e para o alcançar teve de desistir e desistiu do triunfo a que lhe dava direito o seu governo de Espanha.”

                   O quadro comparativo que Oliveira Martins traça so­bre o valor relativo das personalidades políticas da época não é menos elucidativo e põe bem em relevo a superiori­dade de César:

                   “Se muitos podiam medir-se ainda com ele em influên­cia — Crasso, Pompeu, Lúculo, Metelo, por exemplo — nenhum, entre os homens que vão figurar na tragédia final da república, nenhum, senão Catão, merece opor-se-lhe como tipo histórico.

                   “O antagonismo antigo de Cipião e do velho Catão reproduzia-se com a mesma nitidez, acentuada porém pela evolução rápida do organismo político romano durante o in­tervalo de século e meio. César é Cipião cabalmente defi­nido. Cipião fora um César embrionário.”

                   Na verdade, só Catão — não em méritos pessoais, que os tinha muito inferiores aos do seu antagonista, mas como representante de um formalismo decaído e de uma moral ineficiente — se lhe pode opor como tipo histórico, mas apenas como tipo histórico e símbolo de uma época passada.

                   Pessoalmente, como ser humano e direto antagonista, não é adversário, como os outros não o são, que se possa medir com César.

                   As grandes dificuldades encontra-as ele não nos homens, mas nas circunstâncias negativas — carência total de idea­lismo e ausência de forças organizadas — que, por outro lado, justificam o seu aparecimento. Exceto Catão, que era um medíocre, ninguém acreditava naquilo que defendia, e só os interesses materiais de cada um, ou um vago sentimentalismo, os obrigava a tomar partido. Perdera-se o an­tigo misticismo político e não havia também nenhuma crença racional ou qualquer corpo de doutrinas que susci­tasse a fria mas decisiva intervenção da inteligência. Ora, numa sociedade assim, politicamente descrente e moral e socialmente desagregada, não é fácil fincar os pés. Por isso César — embora imensamente superior — faz de começo, como os demais, figura de aventureiro.

                   Mas enquanto os outros — com exceção de Pompeu, honesto mas limitado — se satisfazem com essa mesma aventura, ele colhe nela os frutos de uma experiência que será decisiva para o seu sucesso de homem de Estado.”

 

CONTINUA

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[1] Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, Conselho de Mesão Frio, província de Alto Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1906, tendo publicado seu primeiro livro aos quinze\e anos de idade. No prefácio deste livro, o poeta Teixeira de Pascoais afirma que “a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira deste jovem poeta encantador. Poeta, escritor e advogado, Domingos Monteiro, aos trinta e quatro anos de idade, abandona a advocacia para dedicar-se integralmente à atividade literária, legando-nos, dentre outros, O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS – História da Civilização, livro único em língua portuguesa, tornando-se um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos.

[2] Op. cit. pp. 100/105.

 

jul 19

CÉSAR E O GÊNIO ROMANO

JÚLIO CÉSAR

UM DOS PILARES DA HISTÓRIA -PARTE I -

                  Um dos maiores gênios do Império Romano, escritor, político, general e estrategista militar, César é uma personalidade que a história dos séculos insiste em manter sempre viva, tamanha sua importância. Falar, porém, sobre César exige conhecer mais que o homem e seu momento contextual, exige conhecer a história, porque ele viveu em um período crucial da própria história romana, uma história de transição política e de personagens ímpares como, por exemplo, Cícero, Pompeu, Catilina, Crasso e outros que, não apenas viveram a história, mas, e sobretudo, fizeram e entraram para a história.

                      Fomos buscar no historiador português Domingos Monteiro[1] – O Livro de Todos os Tempos. História da Civilização. Vol. 5.  Rio de Janeiro. Lidador. 1963 – o subsídio necessário para trazer ao público uma parte importante e interessante do período que que César esteve no centro das atenções, de Roma e do Mundo.

                  Nossa apresentação será dividida em partes, devido à extensão de conteúdo, e apresentada aqui nesta página, como sempre, mensalmente.

                             Domingos  Monteiro afirma que César é, sem contestação, a imagem mais venerada daquilo que se pode denominar “iconografia política”, arrematando que “Formou-se, assim, uma tradição cesarista que, tendo-se conservado viva através dos séculos, foi sendo constantemente poluída por elementos interessados e adversos. Os exemplos de Carlos V, de Napoleão e, mais recentemente, de Benito Mussolini servem para justificar o nosso asserto. Mas isto, de maneira geral, sucede com todos os personagens históricos de alguma relevância, embora o caso de César – pela grandeza da figura – seja o mais expressivo e eloquente.”[2]

 CÉSAR

“A CONFUSÃO ROMANA

            Enorme confusão reinava em Roma na cena política, quando César apareceu. Contribuíam para ela, essencialmente, as contradições quer ideológicas quer formais que a atividade política revelava.

            E são elas que explicam que o protegido e herdeiro de Sila, Pompeu, o lídimo representante dos aristocratas, se apoiasse, afinal, sobre o partido democrático. Nelas, e também na insubsistência do seu caráter, se podem filiar as hesitações da conduta política de um Cícero que — genial como orador — se iria revelar um estadista medíocre. O aparecimento de Catilina veio continuar a tradição de bandoleirismo político que tanto Mário como Sila haviam favorecido, um para defender os seus interesses e o outro para satisfazer as suas ambições e a sua própria índole.

            Com isto a confusão aumentara. Mas a causa profunda do fenômeno devia-se buscar na inteira desagregação dos partidos, cuja ideologia anacrônica já se não coadunava com o espírito da época.

            A sua disciplina interior dissolvera-se, como se perdera também a definição exata dos seus intuitos. É, afinal, o que se observa em todas as épocas de crise, em que a acuidade dos problemas políticos já se não conforma com as soluções tradicionalmente consagradas.

            César, sobrinho de Mário e genro de Cina, seria o per­sonagem encarregado, pelo destino, de estabelecer a ordem em toda esta confusão.

            Herdeiro da tradição democrática (que como vimos es­tava inteiramente conspurcada e envilecida pelos seus maus servidores), vemo-lo aparecer pela primeira vez como perse­guido por Sila, mas mostrando desde logo aquela extraor­dinária maleabilidade de caráter que lhe havia de assegurar a vitória.

            Obrigado a ocultar-se para se esquivar à vingança do sanguinário ditador de quem não quisera aceitar a anistia, aproveita os seus forçados ócios para se instruir e cultivar aquela natural eloquência que mais tarde servirá de para­digma retórico aos seus imitadores, entre os quais Napoleão.

            Apoiado pelos democráticos, procura a amizade de Crasso que, imensamente rico, também nele se apoia, ao mesmo tempo que partilha com Pompeu as responsabilidades do poder.

Daí nascerá mais tarde o primeiro triunvirato, consti­tuído por personalidades tão díspares que só o gênio de César pode explicar a sua duração e a sua aparente coesão dos primeiros tempos.

C ATI LI NA

            O incidente de Catilina, em que aparece historicamente responsabilizado, só toma vulto na História pela repercussão que lhe dá a eloquência de Cícero. Não está inteiramente provado que César tenha colaborado na sua tentativa revo­lucionária, mas não é menos certo que tenha tentado apro­veitar-se da reação demagógica que ele representava. Vem a propósito dizer-se que Catilina — antigo sicário de Sila, que inexplicavelmente aparece a chefiar o partido contrário — é o produto estreme de uma sociedade inteiramente cor­rompida. Sem qualidades políticas reais, substancialmente um bandoleiro da pior espécie, que só tem a servi-lo a sua real coragem e a sua inteira falta de escrúpulos, aproveita- se da inexistência de adversários dignos desse nome para tentar dominar Roma pelo terror.

            De fato, na ausência de Pompeu, que continua na Ásia, e assegurada, senão a conivência de Crasso e de César, pelo menos a sua complacência, só tem a fazer-lhe frente Pórcio Catão e Cícero, cuja atuação, neste particular, nos parece historicamente menoscabada. Quanto ao primeiro, neto de Catão, o Antigo, a quem religiosamente imita, embora o seu prestígio moral seja enorme e indiscutível, a sua influência política é nula.

            O segundo, filho dum equite e moderado por ideologia e temperamento, — aquilo que hoje se chamaria um homem de centro — não tendo, pelo contrário, grande prestígio mo­ral, goza de enorme influência política e é sobre ele que convergem todas as esperanças da burguesia assustada.

            Eleito cônsul por enorme maioria quando em face da intimidação de Catilina, — todos e ele próprio esperavam a sua derrota — de alguma forma corresponde a essas es­peranças, mostrando neste passo um tato, uma habilidade política e até coragem física e moral que, contra a opinião de alguns ilustres historiadores, .não são em absoluto de depreciar.

            Catilina é derrotado e morto, e a eloquência de Cícero passará à historia recordando esta vitória, do que é exemplo a palavra Catilinária, que entrou na linguagem corrente. Embora extremamente vaidoso, sempre disposto a fazer a sua propaganda pessoal, Cícero não sabe explorar politica­mente os seus sucessos. Ambicioso, mas sem um plano estabelecido, no fundo sem o menor idealismo, falta-lhe em absoluto o espírito de continuidade e o gênio político que farão de César o personagem mais considerável da História política de Roma.

            Este, que não sente chegado ainda o seu momento, conserva-se aparentemente alheio aos acontecimentos, embora não desinteressado como o prova a sua intervenção indireta na questão de Catilina.

            Entretanto, evita responsabilizar-se, o que não impede que seja um dos indivíduos mais discutidos de Roma. Aliás, a sua vida — que está longe de ser um exemplo de virtudes — presta-se inteiramente a isso. As suas dívidas enormes, que alguns historiadores computam em cerca de duzentos mil contos da nossa moeda, as suas aventuras amorosas, os seus gastos de perdulário justificam, de fato, os comentários e as críticas.”

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[1] Domingos Monteiro nasceu em Barqueiros, Conselho de Mesão Frio, província de Alto Douro e Trás-os-Montes, em 6 de novembro de 1906, tendo publicado seu primeiro livro aos quinze\e anos de idade. No prefácio deste livro, o poeta Teixeira de Pascoais afirma que “a lira de Frei Agostinho e de Camões é também a lira deste jovem poeta encantador. Poeta, escritor e advogado, Domingos Monteiro, aos trinta e quatro anos de idade, abandona a advocacia para dedicar-se integralmente à atividade literária, legando-nos, dentre outros, O LIVRO DE TODOS OS TEMPOS – História da Civilização, livro único em língua portuguesa, tornando-se um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos.

[2] Op. cit. p. 97.

jun 21

A HISTÓRIA É SEMPRE VIVA – PARTE III

tiradentes - 2

TIRADENTES (1748-1792)  -

PARTE III -

                         Em um dos períodos mais cruciais da nossa história, quando, mais do que nunca, o povo está sendo espoliado por um alto nível tributário, sabendo e assistindo todos os dias notícias sobre os caminhos por onde seu sofrido dinheiro tem seguido, sem ser revertido para o bem da nação e, pior, com os culpados à solta e no comando supremo da política e dos assuntos estratégicos, é bastante fácil encontrar pessoas desanimadas e sem esperanças com o futuro da Pátria amada.

                        Falar assim, pode parecer ao estrangeiro, em visita às nossas terras, que o Brasil sempre foi assim: conivente com os malfeitores de plantão e, sempre em nome de um pretenso direito de ampla defesa, facilitando a fuga dos culpados por entre a floresta de larápios. Mas não, houve tempo entre nossa gente, que não existia democracia; não existia liberdade e a justiça era realmente cega, não livrava a cara de ninguém, fosse quem fosse, tivesse a patente que tivesse. Porque em tal época, éramos colonos. Plantávamos, criávamos e garimpávamos para nossos colonizadores. E ai daquele que ousasse se rebelar.

                        Em tal tempo, viveu em terras brasileiras, lá pelas Minas Gerais certo homem que desempenhava função na cavalaria, embora fosse de humilde cepa. Sobre ele não quero falar de voz própria, para não menosprezar o trabalho de ilustre historiador, um dos maiores na História do Brasil: Rocha Pombo que, em obra de cinco volumes, vai até as raízes do descobrimento e caminha páginas e páginas acima, trazendo para nós informações valiosíssimas. O homem da cavalaria e das Minas Gerais é Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, e sobre ele Rocha Pombo afirma ser cidadão de caráter, coragem e de grande valor, porém, disposto a pagar com a própria vida lutando contra a espoliação de um povo bom, honesto e trabalhador.

                            Estamos prosseguindo com a narrativa acerca do trágico destino que ceifou de entre nós criatura tão valiosa, que tanta falta nos faz ainda hoje. Eis o desenrolar dos planos libertários:

                   “Ideou-se logo a nova República, rendo como símbolo a figura de um gênio quebrando cadeias. A bandeira devia ser toda branca, e nela se inscreveria o lema -—- Libertas quae sera tamen. A capital seria S. João d' El-Rei, e em Vila-Rica se criaria uma Universidade. Impedir-se-ia a saída de todos os valores que estivessem no erário, declarando-se extintas as dívidas dos contribuintes em atraso. Declarar-se-ia livre a entrada nos distritos diamantinos, e isentos de direitos todos os produtos das lavras. Fundar-se-iam logo fábricas de todos os artigos que até ali se importavam da metrópole. Reconhecia-se o direito à proteção especial do Estado em favor dos pais que tivessem mais de cinco filhos. Abolir-se-ia a escravidão dentro de certos limites. Criar-se-iam escolas para instrução do povo.

                  Afinal, por princípios de 1789, na chácara do Cruzeiro, residência de Freire de Andrade, concertou-se o plano do levante fazendo-se o inventário das forças de que se dispunha, e distribuindo-se a cada um dos conjurados o seu papel. Não se marcou o dia para o rompimento, ficando entendido que seria aquele em que se começasse a efetuar a derrama. O aviso seria dado a todos por meio de uma senha. No dia em que a Junta de Fazenda lançasse a derrama, deviam acudir a Vila-Rica os conjurados que por ele esperariam nas vizinhanças; e à noite entrariam em tumulto pelas ruas, aos gritos de “Viva a liberdade!”. Sairia então o tenente-coronel Freire de Andrade com as suas tropas sob o pretexto de abafar o motim, dissimulando as suas intenções até receber notícia de estar preso o Governador. Estava Barbacena quase sempre no palácio da Cachoeira do Campo, distante umas três léguas de Vila-Rica. Ali iriam prendê-lo os que estavam dessa diligência encarregados. A menos que tentasse resistir com risco para a escolta, seria ele conduzido até a fronteira de Minas, dizendo-se-lhe que se retirasse para Portugal porque o povo mineiro já sabia governar-se. Se quisesse reagir, então pagaria com a cabeça semelhante veleidade. Qualquer que fosse a notícia que se recebesse da Cachoeira, proclamar-se-ia a República em Vila-Rica, decretando-se logo a pena de morte contra aqueles que à nova ordem de coisas não aderissem prontamente. Sem perda de tempo chamar-se-iam às armas todos os conjurados das diversas comarcas os quais, à frente das forças que tivessem reunido, prestariam juramento de fidelidade e obediência às novas instituições e ao governo provisório que se constituísse. O sargento-mor da cavalaria de S. João d’El-Rei, Luiz Vaz de Toledo Pisa, iria guardar a estrada do Rio e de S. Paulo, de modo a prevenir qualquer ataque contra Minas.

                   Estava tudo, portanto, bem previsto e ordenado no sentido de garantir o sucesso da conspiração. Tinham os conjurados uma tão segura confiança no triunfo completo da sua causa que não faziam mais mistério de coisa alguma. Tudo lhes indicava que não havia já mais meio de que pudesse dispor o governo para reprimir o movimento: o ânimo geral da população, o concurso de todos os chefes de prestígio da capitania, o apoio da tropa de linha, as condições de fácil defesa do país, a adesão de S. Paulo e do Rio, e a crença de que as demais capitanias não ficarão impassíveis, ainda mais quando virem a República de Minas aclamada na Europa e protegida diretamente por algumas grandes nações ... Por outro lado, o Governador não é homem capaz de aguentar-se num grande momento. A sua têmpera de déspota, vesânico e estúrdio como todos os áulicos, é a mais avessa possível ao sacrifício, isto é, a quanto dependa de legítimas qualidades de político e de homem. Não eram as da administração e do bem público as funções que estavam em correspondência nem com o seu caráter nem com os intuitos que o haviam trazido à América. Bem sabia ele o que é que se costumava buscar no Brasil; e não seria o exercício normal e tranquilo daquele cargo que havia de recomendá-lo perante a corte. É assim que logo de começo parece a todo mundo um homem fechado e misterioso, esquivo e quase sinistro, metendo-se, retruso, no palácio da Cachoeira. Se se não esquece que devia ter vindo bem informado quanto a certos fatos ocorridos aí na mesma terra das Minas, e muito prevenido contra a fama de sediciosos e turbulentos atribuída lá no reino aos povos da capitania; e si não se perde de vista aquela delicada e árdua tarefa de que viera especialmente incumbido — o que se pode suspeitar é que Barbacena ali estivesse à espera do seu dia... Aos olhos dos conjurados, porém, aquela circunstância de afastar-se da capital, e preferir a placidez daquele retiro, é antes um indício de desapercebimento e negligência, talvez de inépcia mesmo, e que lhes é favorável; pois ali, na Cachoeira, é muito mais fácil segurá-lo no primeiro instante e pô-lo fora.

                Era isso, pois, mais um motivo, no ânimo dos conjurados, daquela fé que os exalta, na vitória da causa que está lançada. Que mais, dali em diante, se poderia estranhar na alma daqueles homens, vencida do frenesi com que sentem a realizar-se aquele grande sonho? É agora que ainda os mais comedidos e discretos — e até aqueles mesmos que reconhecem como justas aquelas aspirações — os increpam de dementes, a falar da sedição por toda parte desassombrados de qualquer perigo, como se na terra das Minas nem mais vestígio houvesse de autoridade real.

                   O anseio de todos agora é pelo dia da derrama, sem a qual não seria tão fácil o caráter unânime de fraternização que se desejava dar ao movimento. Houve até quem procurasse, com toda tática e finura, apressar o lançamento, pois desta medida estava agora dependendo o ato formal e solene da libertação de Minas. Por esse dia suspiravam todos, e o plano do levante já está em toda a capitania, tão no domínio do povo que a demora em efetuá-lo não faz menos do que pôr em perigo a obra feita. Os chefes conspirados já estavam cada qual no seu posto, à espera do grito de alarme.

                   É neste momento que o Tiradentes não se contém nos seus delírios e resolve partir para o Rio. No seu grande coração, para onde parece que tinha refluído, a tumultuar, todo o sentimento da pátria futura — aquele sonho estava realizado; e deixar fora da ação decisiva as capitanias do Rio e de S. Paulo, seria reduzir as proporções do acontecimento com que ia a América assombrar de novo toda a Europa.”

 

Fonte: POMBO, Rocha. HISTÓRIA DO BRASIL. Vol. III. São Paulo: W.M. Jackson Inc. Editores. 1947. Págs. 219/221.

 

CONTINUA EM 19 DE JULHO

 

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