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Arquivo por categoria: FATOS DO CRISTIANISMO

jun 28

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO -

                              Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

                              Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo a 1ª parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

                              Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

                         Hoje, em prosseguimento com o relato sobre a vida e a obra de Orígenes, vamos buscar refúgio nos ensinamentos de Berthold Altaner e Alfred Stuiber que, no Livro “Patrologia, editado pelas Edições Paulinas. São Paulo: 1972. 540 páginas”, traz potente material biográfico acerca desse ícone da Igreja dos primeiros séculos:

55 . ORÍGENES

Escólios, homílias e comentários.

 “Orígenes redigiu comentários sobre quase todos os livros bíblicos, muitos deles em duas, alguns mesmo em três diferentes formas literárias: em parte, na forma de escólios (schólia), a saber, breves notas acerca das passagens ou termos difíceis, à imitação dos gramáticos alexandrinos; ou, em parte homílias (homilíai, tractatus), isto é, preleções ou sermões, de cunho popular e edificante, amiúde improvisados, transcritos por estenógrafos e mais tarde, depois de revistos, publicados (alguns só póstumos); em parte ainda comentários eruditos, na acepção de hoje (tómoi, “volumina”), cujas explicações eram, às vezes, entremeadas de longas dissertações teológicas.

 a) Não resta escólio algum, na íntegra. Algumas notas encontram-se dispersas na “Philocalia” e em “catenae”. Os Escólios sobre o Apocalipse de João, publicados por Diobouniotis-Harnack, devem ser considerados, com boas razões, como parte de uma “catena”, baseada em Orígenes.

b) As seguintes homílias subsistem no original grego: 20 sobre Jr 1; 1 sobre lSm 28,3-25 (a pitonisa de Endor); — na tradução latina de Rufino (cf. adiante p. 392): 16 homílias sobre Gn; 13 sobre Ex; 16 sobre Lv; 28 sobre Nm; 26 sobre Js; 9 sobre Jz; 9 sobre Sl; na tradução de são Jerônimo; 2 sobre Ct; 8 (9?) sobre Is; 14 sobre Jr; 14 sobre Ez; 39 sobre Lc; — na tradução de santo Hilário de Poitiers: fragmentos de 22 homílias sobre Jó; — na tradução de um anônimo latino: 1 homilia sobre lSm 1-2 (o tradutor seria Rufino). Além desses, foram publicados fragmen­tos de homílias sobre Jó, Sm 1-2, Rs 1-2; lCor, Hb etc. 

Das 574 homílias (aproximadamente) de autoria de Orígenes não existem hoje senão 21 no original grego; das homílias vertidas ao latim perderam-se 388. Estas pregações proferidas a serviço das almas e com a finalidade de edificar exerceram grande influência sobre a piedade e a mística ulteriores.

c) Nenhum de seus comentários, em geral muito extensos, se conservou na íntegra. Dos 25 livros do Comentário de Mt possuímos 8 livros: 10-17 em grego e uma parte relativamente grande em versão latina anônima (citada como Commentariorum in Mt. series) de Mt 13 e 27,63; — em grego também 8 livros sobre Jo (dos 32); — o livro 1-4 do Comentário do Cântico dos Cânticos, na tradução de Rufino, para o latim; e uma recomposi­ção do Comentário sobre Rm (10 em vez dos 15 livros do ori­ginal). Existe ainda grande número de fragmentos, transmitidos pela Philocalia e sobretudo por “Catenae”. — Um comentário de Jó, em 3 livros, conservados em latim, não é autêntico; cf. p. 273. 

3. Contra Celso  (8 livros), é a mais importante apologia pré-nicena, embora, às vezes, um tanto superficial.

Orígenes a escreveu com mais de 60 anos, a pedido de seu amigo Ambrósio, para refutar o Alethès lógos do filósofo platô­nico Celso (cf. p. 70). Este apresentara Cristo como impostor vulgar e atribuía os aspectos extraordinários de sua vida a uma invenção poética de seus primeiros discípulos, assim como a rápida propagação do cristianismo à impressão que produziram os qua­dros aterradores do juízo final e do fogo do inferno na plebe.

A refutação de Orígenes segue, frase por frase, o escrito de Celso. Às vezes, a argumentação é fraca; mas mesmo assim, im­pressiona pelo tom sereno e digno e pela elevada erudição. Orí­genes, para comprovar a verdade do cristianismo, alega as curas de possessos e de enfermos que ainda, continuamente, Cristo ope­ra; apela, outrossim, para a pureza dos costumes dos fiéis, que brilham no mundo quais luzeiros celestes (phosteres).

4. Dos princípios (Peri archon, De principiis). Esta obra, composta entre 220-30, procura apresentar os problemas mais importantes da fé cristã, sem pretender dar soluções definitivas, em explicação sistemática. Apesar de todas as falhas, acentuadas pelos adversários de Orígenes, no curso das controvérsias origenistas, a obra é tanto mais apreciada quanto se pensa nas dificuldades e perigos que implicava o mero aproveitamento para a exposição da fé cristã, de elementos da filosofia platônica. A obra completa encontra-se somente na versão livre de Rufino, expurgada, o mais possível, de seus erros; a “Philocalia” e duas cartas do imperador Justiniano I encerram fragmentos gregos. A tradução feita por são Jerônimo, durante sua controvérsia com Rufino, não nos foi conservada. A obra consta de, aproximada­mente, 15 tratados bastante independentes; a divisão dos livros não é a original. O 1? livro versa sobre Deus Uno e Trino, os anjos e sua queda; o 25 6 7 * 9 livro trata da criação do mundo, do homem, consi­derado como anjo decaído, aprisionado em um corpo; do pecado original e da redenção por Jesus Cristo, e dos novíssimos. O 3° livro se ocupa do livre arbítrio, do pecado e da restauração de todas as coisas de Deus; o 49 livro trata da Sagrada Escritura como fonte da fé e do tríplice sentido da Bíblia. 

5. Da oração (Perì euches, De oratione): instrui sobre a oração em geral e explana o Pai-nosso; é um belo testemunho da profunda piedade do autor.

6. A Exortação ao martírio foi escrita em Cesareia, em 235, no início da perseguição aos cristãos por Maximino, o Trácio. Orígenes dirigiu-o a dois amigos, o diácono Ambrósio e o presbítero Protocteto — ambos já haviam passado por tribulações — esti­mulando-os a perseverarem com firmeza.

7.  Das numerosas discussões de Orígenes não chegou até nós senão a Disputa com Heráclides que se realizou, provavelmente, entre 244 e 249, na Arábia, tendo sido estenografada (Pap. de Tura). Tema da discussão é a relação do Pai ao Filho, e o modo de traduzi-la na oração eucarística. Além disso, Orígenes respon­de à questão, se a alma está no sangue e em que sentido a alma pode ser dita imortal.

8. Os papiros encontrados em Tura comportam dois tratados ou homílias Sobre a Páscoa, porém, incompletas e em péssimo estado de conservação.

9. Das numerosas Cartas, reunidas em quatro séries diferentes, uma das quais conta mais de cem, restam apenas duas cartas: a primeira dirigida a Gregório, o Taumaturgo, a segunda, a Júlio, o Africano (cf. p. 215)”.

  

jun 14

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria

OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO -

                 Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

               Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo a 1ª parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

              Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

             É, ainda, amparados por Eusébio de Cesareia que estamos dando continuidade à divulgação dos principais fatos que envolvem Orígenes seguindo, exatamente, do ponto onde interrompemos a última exposição. Eusébio, com toda a sua retórica literária continua o seu relato afirmando que: 

55. Orígenes (f 253-54) 

              “Orígenes, o sábio mais fecundo da Antiguidade cristã, é o primeiro escritor eclesiástico de cuja vida possuímos notícias mais exatas: por Eusébio (h. e. 6), pelo 1º livro da Apologia do presbítero Pânfilo, preservado em latim; pelo discurso de agradecimento que lhe dirigira são Gregório, o Taumaturgo; por Jerônimo (vir. ill. 54;62; ep. 33;44,1) e por Fócio (bibl. cod. 188). É de lamentar não ser o panegírico de Eusébio suficientemente fidedigno, do ponto de vista histórico. 

              Orígenes nasceu, cerca de 185, provavelmente em Alexandria. Por causa do martírio de seu pai Leônidas, em 201-2, a família chegou a passar grande necessidade. Orígenes foi acolhido em casa de uma herege abastada e tratou de prover a seu próprio sustento, ao de sua mãe e de seus irmãos, ensinando gramática.

               Nesta época era discípulo do neoplatônico Amônio Sakkas e condiscípulo de Porfírio. Orígenes, sendo cristão e verificando que o procuravam pagãos e hereges cultos, sentiu-se impelido a encetar um ensino mais filosófico e teológico. Viveu de maneira rigorosa­mente ascética e, por errônea e literal interpretação do trecho de Mt 19,12, mutilou-se a si mesmo. Em 212, Orígenes empreendeu uma viagem a Roma, “para ver a antiquíssima Igreja de Roma” (Eus. h. e. 6,14,10). Supõe-se com boas razões que nesta oca­sião haja conhecido o presbítero Hipólito. Quando, em 215, as tropas do imperador Caracala assolaram Alexandria, causando hor­rível mortandade e perseguindo de preferência os filósofos e suas escolas, Orígenes logrou fugir e foi para Cesareia, na Palestina, onde, a pedido do bispo Teotito e de Alexandre, bispo de Jerusa­lém, pregou nas assembléias cristãs. Em 217, o bispo Demétrio chamou-o novamente a Alexandria, confiando-lhe a escola dos catecúmenos. Decorrido breve lapso de tempo, Orígenes entregou a catequese elementar desta escola eclesiástica a seu auxiliar Héraclas, dedicando-se ele próprio a auditório mais seleto e culto, no ensino da filosofia, da teologia e, em particular, da exegese bíbli­ca. Em 230, empreendeu uma viagem à Grécia e, passando pela Palestina, os dois bispos, seus amigos, ordenaram-no presbítero, em Cesareia, apesar de sua mutilação voluntária; talvez para apoiá-lo contra Demétrio. Este, porém, se indignou de tal maneira que, em dois sínodos, em 230-31, expulsou Orígenes de Alexandria, destituiu-o do magistério e da dignidade de presbítero, por causa da ordenação ilegítima, e chegou até a excomungá-lo. Outras gran­des comunidades cristãs corroboraram esta sentença, exceto as da Palestina, Arábia, Fenícia e Acaia. Foi só mais tarde que o cen­suraram de doutrinas heterodoxas (Heron. ep. 33,5; Eus. h. e. 6,36,4). Orígenes se domiciliou definitivamente em Cesareia, onde permaneceu até o reinado de Décio. Aí fundou uma escola, seme­lhante à de Alexandria. Gregório, o Taumaturgo, foi seu discípulo. Havia muito que seus trabalhos científicos lhe haviam granjeado fama, mesmo nos círculos pagãos. Júlia Mameia, mãe do impera­dor Alexandre Severo, chamou-o a Antioquia (ao que parece entre 218 e 222), para ouvir seus discursos. Pelo ano 244, Oríge­nes viajou à Arábia e converteu Berilo, bispo de Bostra, imbuído de patripassianismo. Sob Décio — conjetura-se que em Cesareia — foi lançado na prisão e sofreu cruéis torturas, de cujas consequências morreu, no seu 709 ano, provavelmente em 253-54, em Tiro, onde, durante muito tempo, via-se seu túmulo. 

              Já em vida, Orígenes foi considerado o mais insigne teólogo da Igreja grega. Ninguém, amigo ou inimigo, pôde subtrair-se à sua influência. Não houve nome, na Antiguidade cristã, mais dis­cutido que o de Orígenes; nenhum foi pronunciado com tão apai­xonado entusiasmo ou tão profunda indignação. Homens nobres e doutos aderiram a ele. Não poucos heréticos alegaram sua auto­ridade, mas também mestres ortodoxos dele aprenderam. Oríge­nes tinha a intenção de ser cristão ortodoxo e o queria ser, o que se pode deduzir do simples fato de ter ele em grande estima o magistério da Igreja e de considerar um erro de doutrina mais per­nicioso do que um desvio moral.

              Sem embargo, devido a sua preferência pela exegese alegórica e sob a influência da filosofia platônica, Orígenes incidiu em gra­ves erros dogmáticos. Imediatamente após sua morte, surgiram disputas concernentes à sua ortodoxia, que, por volta do ano 400, agitaram violentamente os espíritos, em particular, sendo Epifânio e Teófilo, patriarca de Alexandria, seus principais opositores; as disputas se acalmaram somente no séc. VI, quando o imperador Justiniano I, pelo edito de 543, condenou, de início, 9 proposições de Orígenes. Em breve, todos os bispos do Império Romano aquiesceram a este veredito, em primeiro lugar Menas, patriarca de Constantinopla, e o papa de então, Vigílio (537-555).

           Em fecundidade literária, Orígenes ultrapassou a todos os Pa­dres da Antiguidade cristã. Informa Jerônimo que o elenco de suas obras feito por Eusébio e infelizmente perdido, contava nada menos que 2000 “livros” (adv. Ruf. 2,22). O de Jerônimo (ep. 33), incompleto — é verdade — apresenta a cifra de apenas 800 “libri”. Eusébio (h. e. 6,14,10) apelida-o Adamántios (Homem de aço) e narra que certo Ambrósio, rico discípulo seu, convertido por seu intermédio da gnose valentiniana ao cristianismo católico, pôs à sua inteira disposição sete taquígrafos, outros tantos copistas e ainda algumas calígrafas (Eus. h. e. 6,23).

               Numerosos escritos, todavia, são produções de improviso, isto é, sermões e discursos que foram estenografados; somente assim se explica o copioso acervo de obras, e também não poucas excen­tricidades na linguagem e no estilo. Orígenes não foi escritor de exímio talento.

       Suas obras, na maior parte escriturísticas (crítica textual e exegese) reduziram-se a pequeno número, e mesmo assim, na maio­ria, não de textos originais gregos, mas em tradução latina. Além disso, possuímos a Philocalia, antologia de seus escritos, graças ao trabalho comum de são Basílio Magno e são Gregório Nazianzeno.

              A descoberta dos papiros de Tura (1941) deu a lume dois textos de Orígenes, até então desconhecidos: a Disputa com Heráclides e os escritos Sobre a Páscoa. Os outros escritos de Orígenes encontrados em Tura são também de destacado valor para os estudos da história textual (fragmentos do comentário da Epístola aos romanos, do “adv. Celsum” e da homilia sobre a pitonisa de Endor).

              1. Os Hexapla. Este empreendimento, magnificamente ideado, pôde realizar-se unicamente graças aos opulentos subsídios de Ambrósio, amigo que se convertera. O projeto de Orígenes era recuperar o texto exato dos LXX, considerado, então, literalmente inspirado, e ilustrar suas relações com o original hebraico. 

               Para esse fim, Orígenes justapôs, em 6 colunas paralelas: o texto hebraico em caracteres hebraicos; o hebraico, em caracteres gregos; a tradução grega de Áquila, de Símaco, dos LXX e de Teodocião. No texto dos LXX, todas as palavras e passagens que faltavam no hebraico, foram assinaladas com um óbelo ( -4- ); todas as lacunas, preenchidas por meio de uma das restantes traduções, as mais das vezes de Teodocião, e marcadas com um asterisco (*). Quando uma passagem dos LXX fora mal traduzida, colocou ele a variante exata, ou sozinha, ou no seguimento da falsa, marcada com um óbelo. O saltério apresenta além das seis colunas — donde o nome de Hexapla, isto é, Bíblia de seis colunas 

—           ainda mais espaços para uma quinta, sexta e parcialmente mesmo uma sétima versão. 

             Desta obra gigantesca de Orígenes, só o texto revisto dos LXX foi frequentemente copiado. Os Tetrapla, ou seja, excertos copiados das versões de Áquila, Símaco, dos LXX e de Teodo-cião, tiveram menos difusão. A obra completa foi conservada em Cesareia, sendo aí consultada por sábios, por ela interessados, como, por ex., Pânfilo e Jerônimo. As traduções da Bíblia feitas por Jerônimo são uma verdadeira mina, ainda quase inexplorada, de textos hexaplares, em língua latina. 

              Nosso compromisso é promover a publicação dessas matérias sempre no 2º e no 4º domingo de cada mês e assim pretendemos continuar. Portanto, continuaremos com a história de Orígenes no 4º domingo deste mês, dia 28 de junho, ainda sob a ótica de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber. Até lá!

mai 24

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE – CONTINUAÇÃO -

                               Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, assim como dos escritores eclesiásticos, cujo conteúdo e essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

                          Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo a 1ª parte da vida e da obra de um dos grandes personagens do período analisado: Orígenes.

                              Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, bem como a dos escritores eclesiásticos, é conhecer os primeiros passos do cristianismo por intermédio daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir. 

                              É, ainda, amparados por Eusébio de Cesareia que estamos dando continuidade à divulgação dos principais fatos que envolvem Orígenes seguindo, exatamente, do ponto onde interrompemos a última exposição. Eusébio, com toda a sua retórica literária continua o seu relato afirmando que:

“5. A mesma graça divina e celeste o protegeu em milhares de circunstâncias e é impossível dizer quantas vezes, quando ele se expunha às ciladas por seu ardor e ousadia excessivos em prol da doutrina de Cristo. E tão grande era a guerra que os infiéis lhe faziam, que se reuniam e punham guardas em volta da casa onde ele estava por causa da multidão daqueles aos quais ensinava as questões pertinentes à sagrada fé.

6. Desta forma, cada dia, a perseguição contra ele se inflamava tanto que a cidade toda não lhe oferecia mais refúgio seguro. Ia de casa em casa, expulso de todos os lugares, por causa dos que procuravam a doutrina divina. De fato, suas ações continham lições espantosas, da mais autêntica filosofia.

7. Dele se dizia: Sua palavra é tal qual sua vida; e sua vida corresponde a sua palavra. Por esta razão, sobretudo, pelo poder de Deus que o sustentava, ele conduzia milhares a idêntico zelo. 

8. Ao verificar que os discípulos já se aproximavam mais numerosos, e ele era o único a quem Demétrio, o chefe da igreja, tinha confiado a escola da catequese, julgou inconciliáveis o ensino das ciências gramaticais e o exercício das disciplinas divinas, e, sem delongas, rompeu com a escola das ciências gramaticais, como inútil e oposta às disciplinas sagradas.

9. Em seguida, por um motivo conveniente, a fim de não necessitar do auxílio de outrem, cedeu tudo o que tinha até então de obras antigas, transcritas com grande cuidado e contentou-se com quatro óbolos cotidianos que lhe pagava o comprador. Durante muitos anos, observou este modo de filosofar, renunciando a tudo o que pudesse alimentar as paixões juvenis. Durante o dia inteiro, fazia grandes trabalhos de ascese e, a maior parte da noite, dava-se ao estudo das Escrituras divinas, entregando-se assim a uma vida tão filosófica quanto possível, ora pelo exercício de jejuns, ora por estrita medida no tempo de sono, e cuidando de dormir não sobre uma esteira, mas estendido no chão.

10. Pensava, acima de tudo, que deviam ser observadas as palavras evangélicas do Salvador que recomendam não possuir duas vestes, não usar sandálias (Mt 10,10; Lc 10,4), e também aquelas que ordenam não viver preocupado com o futuro (Mt 6,34).

11. Além disso, com ardor acima de sua idade, persistia em viver no frio e na nudez (2Cor 11,27), atingindo o termo da extrema pobreza. Impressionava vivamente os que o cercavam; entristecia mesmo a muitos deles que o suplicavam consentisse em participar de seus bens, por causa das fadigas que o viam suportar em vista do divino ensinamento; mas ele em nada relaxava a sua austeridade.

12. Conta-se até que, durante vários anos, andou descalço, sem jamais usar sandálias; que, durante longos anos, absteve-se de vinho e de tudo que não fosse indispensável para se nutrir, de sorte que incorreu no risco de cair doente e de moléstia do peito.

13. Dava tais exemplos de vida filosófica a testemunhas oculares e estimulava com justeza tão grande número de discípulos a zelo semelhante ao seu que atraía até mesmo pagãos infiéis, não vulgares, mas importantes, cultos, filósofos ao ensino que ministrava. Aconteceu até que estes, após terem recebido dele verdadeiramente, no intimo da alma, a fé na palavra divina, distinguiram-se, por ocasião da perseguição que houve então, de sorte que alguns deles foram presos e receberam a consumação do martírio. 

Muitos de seus catequizados foram promovidos ao martírio 

1. O primeiro dentre eles foi, portanto, Plutarco, de quem se falou mais acima. Ao ser levado para a morte, pouco faltou para que Orígenes, que o assistiu até o fim último, não fosse massacrado por seus concidadãos, como sendo a causa manifesta de sua morte; a vontade de Deus, ainda desta vez, o preservou.

2. Após Plutarco, o segundo dos discípulos de Orígenes que se tornou mártir, foi Sereno que deu pelo fogo provas da fé que havia recebido.

3. O terceiro mártir da mesma escola foi Heráclides, e depois dele, o quarto é Herão. O primeiro era ainda catecúmeno e o segundo neófito; ambos foram decapitados. Além destes, o quinto da mesma escola proclamado atleta da piedade é Sereno, diferente do primeiro, o qual, depois de ter suportado inúmeros tormentos, narra-se que teve a cabeça cortada. Das mulheres, Heraís, ainda catecúmena, deixou a vida, conforme ele próprio diz em determinado lugar, por meio do batismo de fogo. 

Potamiena 

1. Enumera-se Basílides como o sétimo dos mártires. Ele levava ao martírio a célebre Potamiena, cuja fama até hoje é decantada entre os seus compatriotas[1]. Depois de mil combates contra homens corruptos para defender a pureza do corpo e a virgindade pela qual ela se distinguia (pois, sem falar de sua alma, a beleza do corpo era nela qual flor que desabrocha), após mil tormentos e torturas terríveis, cuja narrativa é de arrepiar, foi, com sua mãe Marcela, consumida pelo fogo.

2. Narra-se que o juiz, chamado Áquila, depois de ter submetido seu corpo inteiro a duros tormentos, por fim ameaçou-a de entregá-la aos gladiadores para desonrá-la. Mas ela refletiu por vim instante e foi-lhe pedida uma decisão. Deu tal resposta que pareceu-lhes algo de ímpio.

3. Enquanto ela falava, foi proferida a sentença e Basílides, um dos soldados a tomou e conduziu à morte. E como a multidão se esforçava por incomodá-la e insultá-la com palavras inconvenientes, ele afastava com ameaças os injuriadores e manifestava para com ela muita piedade e humanidade. Ela, porém, acolhendo a simpatia que lhe era demonstrada, exortava-o a ser corajoso, dizendo-lhe que o reclamaria, quando tivesse voltado para junto de seu Senhor e que, em pouco tempo, lhe retribuiria o que havia feito em seu favor.

4. Tendo assim falado, sofreu corajosamente a morte. Derramaram pez fervente sobre as diferentes partes do corpo desde a extremidade dos pés ao alto da cabeça devagar, pouco a pouco.

5. Assim foi o combate da ilustre jovem. Basílides, porém, não esperou muito tempo. Os companheiros de armas, por um motivo qualquer, exigiram dele um juramento. Ele declarou com energia que não lhe era permitido absolutamente jurar, porque era cristão e confessava-o abertamente. No princípio, acharam que ele estava gracejando; mas como perseverasse obstinadamente, levaram-no ao juiz, a quem ele confessou sua resistência; e ele mandou algemá-lo.

6. Seus irmãos segundo Deus visitaram-no e perguntaram-lhe a causa deste ardor repentino e extraordinário. Narra-se ter ele respondido que três dias após seu martírio, Potamiena lhe aparecera durante a noite, pusera-lhe uma coroa na cabeça e havia pedido uma graça ao Senhor, obtivera o objeto de seu pedido e que ele o receberia dentro de pequeno prazo. Então, os irmãos lhe deram o sigilo do Senhor e no dia seguinte, após ter brilhado no testemunho pelo Senhor, foi-lhe decepada a cabeça.

7. Nota-se que muitos outros, dentre os habitantes de Alexandria vieram em grande número à doutrina de Cristo, na época a que nos referimos, porque, durante o sono, Potamiena lhes aparecera e os chamara. Do assunto, agora, basta.[2] 

                          Nosso compromisso é promover a publicação dessas matérias sempre no 2º e no 4º domingos de cada mês e assim pretendemos continuar. Portanto, continuaremos com a história de Orígenes no 2º domingo deste mês, dia 14 de junho, já sob a ótica de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber. Até lá!

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[1] Eusébio narra uma história já contaminada pela lenda, a história de Potamiena, jovem mártir de Alexandria: enquanto era preparada para o suplí­cio, conseguiu converter o soldado Basílides que a escoltava e que já tinha sido ouvinte das lições de Orígenes. Com sua mãe, Potamiena é besuntada de pixe fervente e queimada viva. Poucos dias depois, Basílides se proclama cristão. É preso por sua vez. Em sonho vê pousar-lhe sobre a cabeça a coroa do martírio, faz-se batizar na prisão e no dia seguinte é decapitado. No Martirológio jeronimiano os três mártires são comemorados em 28 de junho. No martirológio romano, em 30 de junho. 
[2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Coleção Patrística. Vol. 15. 2ª. Ed. São Paulo. Paulus:2008. Pp. 284/288
 

mai 10

AS APARIÇÕES DE FÁTIMA

Nossa Senhora de Fátima - 3

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA -

UM SÉCULO DEPOIS -

 

            Pelas histórias contadas por algumas gerações, por livros escritos e editados em diversas línguas e pelo testemunho ocular de alguém que viveu até recentemente, nossa geração tomou conhecimento das aparições da Virgem Maria em Fátima, Portugal, ainda no final da primeira década do século passado.

         Ninguém poderia imaginar que a visão concedida a três pequenas crianças (Lúcia, Francisco e Jacinta) tivesse o potencial de atravessar um século inteiro e de manter viva a chama da devoção à Santa Mãe de Jesus.

            A partir de 13 de maio de 1917, e em mais outras seis ocasiões, sempre no dia 13, sendo a última em 13 de outubro, a Virgem apareceu aos três pequenos pastorinhos que, depois da missa, saíram guiando suas ovelhas caminhando até uma pequena elevação. Lá chegando, tiraram de suas sacolinhas pedaços de queijo, azeitonas e algumas fatias de broa de milho. Comeram um pouco e, de posse de seus terços, começaram a rezar. Eis que um relâmpago risca o céu como que anunciando a iminente chegada de uma tempestade. Assustadas, as crianças pensaram em tomar o caminho de suas casas, instigados por Lúcia e, tão logo dão poucos passos, outro relâmpago mais forte e ainda mais brilhante explode no ar, causando-lhes tanto espanto que quase não conseguem caminhar. Olham para um lado e para o outro e, de repente, eis que surge uma pessoa. Quem narrou esse fato foi irmã Lúcia de Jesus: “Uma senhora vestida de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo uma luz mais clara e intensa do que um copo de cristal atravessado pelos raios ardentes do Sol”[1].

               Lúcia, talvez a mais corajosa dentre os três, iniciou um pequeno diálogo com a Senhora, que pediu para que não tivessem medo, pois não lhes faria mal algum. Perguntada de onde era, Ela responde e faz um pedido: “Sou do céu. Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos no dia 13, a esta hora, depois direi quem sou e o que quero... e voltarei ainda uma sétima vez”.

               As crianças, no meio da inocência, fizeram perguntas simples à Senhora, que não deixou de responder a nenhuma delas.

                Novamente, a 13 de junho, a Senhora aparece aos três, no mesmo lugar e na mesma hora, pedindo-lhes para que continuassem a rezar o terço, acrescentando uma oração e fazendo uma promessa: “Ó meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem.”  Após, Ela promete que em breve levaria para o céu os irmãos Jacinta e Francisco, assegurando a Lúcia a permanência mais prolongada, a fim de fazer conhecer e amar o Imaculado Coração de Maria.

                A notícia já havia se espalhado e, provavelmente, já dividia opiniões entre os que acreditavam e os que negavam as aparições. Porém, no dia 13 de julho, aproximadamente cinco mil pessoas estavam na Cova da Iría aguardando a manifestação daquela Senhora Iluminada. Na hora certa, Ela se mostra aos três pequenos que, diante daquela pequena multidão, conversam com Ela. Naquela data, a Senhora concede aos três uma visão do inferno e lhes diz “Vistes o Inferno e as almas que lá caem porque não há quem por elas reze e se sacrifique...”, revelando-lhes, em seguida, um segredo que só veio a ser revelado ao mundo pelo então Papa João Paulo II, já quase no final da vida.

                A quarta aparição da Virgem foi cercada por um incidente politiqueiro, no qual o prefeito mandou aprisionar os três pequenos, a fim de que revelassem o segredo recebido na visita anterior. Eles, porém, preferiram o silêncio e a oração. Nesse ínterim, a multidão que se ajuntara na Cova da Iría, demonstrando revolta, ouviu uma “forte trovoada seguida por um relâmpago mais uma nuvem branca que foi pousar sobre a azinheira[2]”. Em 19 de agosto, no sítio dos Valinhos, a Virgem apareceu às três crianças, mostrando-se sentida com a violência que tinham sofrido, pedindo que continuassem a rezar o terço e que voltassem no dia 13 do mês seguinte.

            A quinta aparição foi acompanhada por cerca de 20.000 (vinte mil) pessoas. “Ao meio dia, o sol começou a perder o brilho. Mais uma vez Nossa Senhora pede-lhes que rezem o terço prometendo mais uma vez o grande milagre e ao ouvir da Lúcia que tinha duas cartas e um frasco de água de colônia para Lhe entregar, responde que isso de nada adianta para o céu[3]”.

       A última aparição ocorreu em 13 de outubro, quando uma multidão de aproximadamente 70.000 (setenta mil) pessoas havia se deslocado para a Cova da Iría que, em decorrência de muita chuva, estava um verdadeiro lamaçal. Segundo o relato, as três crianças chegaram cerca de meia hora antes da chegada da Virgem e Lúcia, ao meio dia em ponto, pede que todos fechem seus guarda-chuvas e, ao mesmo tempo, exclama “Já lá vem Nossa Senhora e fica extática ouvindo a Senhora que lhe diz: “Eu sou Nossa Senhora do Rosário. Quero que façam aqui uma Capela. Não ofendam mais a Nosso Senhor que está muito ofendido[4]

            No mesmo instante, e junto ao Sol, aparece São José com o Menino Jesus e Nossa Senhora das Dores, com o Escapulário.

“De repente parou a chuva, apareceu o Sol sem nuvens, sem mancha. Assemelha-se a um disco de prata. Podia fitar-se afoitamente. A multidão rompe num grito e clamor: Milagre! Milagre! – Qual roda de fogo girava sobre si mesmo com incrível rapidez. Parecia que se precipitava sobre a terra. Feixes de luz espalhavam-se sobre a multidão que já gritava perdidamente fazendo até confissões públicas e rezando o Creio... Este fenômeno foi visto a cinco e mais quilômetros de distância. Foram tomadas fotografias e ainda existem muitas pessoas que presenciaram o milagre que no dizer da Senhora, teria sido maior se não violentassem os pequenos. Os fatos pouco antes encharcados estavam agora completamente enxutos. – Assim terminou a série de aparições de Nossa Senhora em Fátima cuja veracidade e culto foram aprovados pela Igreja ao fim de 13 anos de porfiadas investigações, a 13 de Outubro de 1930, apesar do governador de Santarém, que mandou até dinamitar a Capela das aparições”[5].

            Tudo isso aconteceu há quase um século – 13 de maio de 1917.

            Francisco Marto, nasceu em 11 de junho de 1908 e, depois de fazer a primeira comunhão, falece quase um ano depois das aparições, em 5 de abril de 1918, antes de completar dez anos de vida.

            Jacinta Marto – irmã de Francisco – nasceu em 11 de março de 1910 e faleceu em 20 de fevereiro de 1920, também, antes de completar dez anos de idade.  Tanto o corpo dela quanto o do irmão, Francisco, estão sepultados no Santuário de Fátima.

            Lúcia de Jesus, nasceu em 28 de março de 1907, tornou-se freira da Ordem das Carmelitas Descalças e, depois de quase cem anos de idade (98), faleceu no dia 13 de fevereiro de 2005 no Carmelo, em Coimbra, sendo sepultada ao lado dos primos Francisco e Jacinta.

            Não se trata apenas de um fato religioso, mas, também, de um fato histórico, com registros documentais, inclusive. Fátima é uma realidade do nosso tempo e tudo o que Ela pediu foi que os homens rezassem o terço e pedissem pela conversão dos pecadores. O mal no mundo não é causado pelos convertidos, mas, e sobretudo, pelos que ainda não foram convertidos. É por esses que Nossa Senhora de Fátima pede que rezemos sem cessar.

 

...................................................................................................................................... [1] Fátima – Peregrina e Missionária. Caxias do Sul. Editora São Miguel. 1951. Pág. 6. [2] Id. Pág. 8. [3] Id. Pág. 9. [4] Ibidem. [5] Fátima – Peregrina e Missionária. Caxias do Sul. Editora São Miguel. 1951. Págs. 9/10.  

abr 26

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol de alexandria

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE -

   

                               Estamos dando continuidade ao ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo, apresentando a vida e a obra dos Pais da Igreja, cujo conteúdo e a essência são estudados e conservados pela ciência da Patrologia que, devido à enorme importância para a história da Igreja de Cristo, decidimos cognominá-la como o “Farol do Cristianismo”.

                               Hoje, amparados no magistério de homens do escol de Bento XVI, de Jacques Liébaert, de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, além da historiografia de Eusébio de Cesareia, estamos trazendo um pouco da trajetória de Clemente de Alexandria.

                               Ao leitor, devemos informar que: conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja é conhecer os primeiros passos do cristianismo nas pessoas daqueles que, ou conviveram e foram discípulos de alguns dos discípulos de Jesus, ou foram discípulos de mestres que com eles conviveram e aprenderam, e apreenderam, muito sobre a estada e a missão do Cristo aqui na terra. Portanto, a leitura dessas matérias só fará engrandecer a caminhada do cristão deste início de século XXI, fornecendo suporte para que a tocha do Evangelho seja passada às mãos das próximas gerações, de modo a perpetuar-se no tempo, enquanto o Senhor permitir.

 

                               Sobre Clemente de Alexandria, Eusébio de Cesareia destaca que:

 

“Nas Hypotyposes por ele elaboradas, relembra nominalmente Panteno, na qualidade de seu mestre, e parece-me que ainda alude a ele no primeiro livro dos Stromata, quando, ao designar os membros mais importantes da sucessão apostólica, conforme lhe foi comunicada, afirma o seguinte:

               ‘Esta obra não é um escrito composto segundo as regras da arte, por ostentação, mas um tesouro de notas para minha velhice, remédios contra o esquecimento, imagem sem artifícios, simples esboço de ensinamentos claros e espirituais que mereci ouvir da boca de homens felizes e eméritos. 

               Um deles, Jônico, morava na Grécia, outros na grande Grécia — um deles era da Celessíria, o segundo do Egito —, outros residentes no Oriente: um era da Assíria, outro da Palestina, hebreu de nascença; junto do último que encontrei — o mais instruído! — me detive. Persegui suas pegadas no Egito, onde ele se escondia. 

                Esses mestres, que guardaram a verdadeira tradição da feliz doutrina recebida, como que transmitida de pai a filho, oriunda imediatamente dos santos Apóstolos Pedro e Tiago, João e Paulo (poucos são, contudo, os filhos semelhantes aos pais), chegaram até nossos dias, por dom de Deus, a fim de lançar as sementes de seus antepassados e dos apóstolos em nossos corações.’”[1] 

                               Altaner e Stuiber afirmam que Clemente era filho de pais pagãos e que, muito provavelmente, nasceu em Atenas, sendo convertido ao cristianismo depois de longas viagens ao sul da Itália e para nações como a Síria e a Palestina. Afirmam, ainda, que Clemente merece ser reconhecido como o primeiro sábio cristão, por conta do seu profundo conhecimento, não apenas da Sagrada Escritura, mas, também, da literatura grega, tanto filosófica como clássica, destacando que:

 

“Clemente ensinava a harmonizar a revelação cristã com os conhecimentos autênticos em especial com a filosofia pré-cristã; desta coligiu elementos da verdade para demonstrar que todos eles encontram no cristianismo sua unidade, assim como sua transfiguração e seu coroamento. Fazia-o com um santo entusiasmo, que elevava sua linguagem às alturas da poesia. Em seu esforço de conciliar o conteúdo da fé cristã com a filosofia então predominante, não escapou, contudo, a alguns erros. Clemente era bom observador e bom crítico dos estilos de vida.”[2] 

                               É, porém, o Papa Emérito Bento XVI, quem vai apresentar-nos o retrato mais fiel e de mais fácil compreensão sobre Clemente, e, depois de destacar sua origem – Atenas – afirma que:

 

              “De Atenas herdou aquele acentuado interesse pela filosofia, que fez dele um dos pioneiros do diálogo entre fé e razão na tradição cristã. Jovem ainda, aportou a Alexandria, a “cidade-símbolo” daquele fecundo cruzamento entre diferentes culturas que caracterizou a época helenística. Lá, foi discípulo de Panteno, até sucedê-lo na direção da escola catequética. Numerosas fontes confirmam que foi ordenado presbítero. Durante a perseguição de 202-203, deixou Alexandria para se refugiar em Cesareia, na Capadócia, onde morreu por volta de 215. São três as suas obras mais importantes que restaram: o Protréptico, o Pedagogo e o Estrômata. Embora não pareça ser esta a intenção original do autor, a verdade é que esses escritos constituem uma verdadeira trilogia, destinada a acompanhar com eficácia o amadurecimento espiritual do cristão. O Protréptico, conforme o próprio termo indica, é uma “exortação” dirigida a quem inicia e busca o caminho da fé. Ainda melhor, o Protréptico coincide com uma Pessoa: o Filho de Deus, Jesus Cristo, que se faz “exortador” dos seres humanos, para que empreendam com firmeza o caminho rumo à Verdade. O próprio Jesus Cristo se torna, pois, Pedagogo, isto é, “educador” daqueles que, em virtude do batismo, já se tornaram filhos de Deus. E o mesmo Jesus Cristo, finalmente, é também Didascalo, ou seja, “Mestre” que propõe os ensinamentos mais profundos. Estes foram reunidos na terceira obra de Clemente, o Estrômata, palavra grega que significa “tapeçaria”: trata-se de uma composição não sistemática, de assuntos variados, fruto direto do ensinamento habitual de Clemente. 

                  Em seu conjunto, a catequese clementina acompanha passo a passo o caminho do catecúmeno e do batizado para que, com as duas “asas” da fé e da razão, eles alcancem um conhecimento íntimo da Verdade, que é Jesus Cristo, o Verbo de Deus. Somente esse conhecimento da Pessoa que é a Verdade é a “autêntica gnose”, expressão grega que corresponde a “conhecimento”, “inteligência”. E o edifício construído pela razão sob o impulso de um princípio sobrenatural. A fé constrói a verdadeira filosofia, isto é, a verdadeira conversão no caminho a ser empreendido na vida. Portanto, a autêntica “gnose” é um desenvolvimento da fé, suscitado por Jesus Cristo na alma unida a Ele. Clemente distingue, pois, dois níveis da vida cristã. O primeiro: os cristãos crentes que vivem a fé de modo comum, mas sempre aberta aos horizontes da santidade. E o segundo: os “gnósticos”, os que já conduzem uma vida de perfeição espiritual. Contudo, o cristão deve partir da base comum da fé, e através de um caminho de busca deixar-se guiar por Cristo para, dessa forma, chegar ao conhecimento da Verdade e das verdades que formam o conteúdo da fé. Esse conhecimento, afirma Clemente, torna-se a alma de uma realidade vivente: não é só uma teoria, é uma força de vida, uma união de amor transformador. O conhecimento de Cristo não é só pensamento, mas é amor que abre os olhos, transforma o ser humano e gera comunhão com o Logos, com o Verbo divino que é Verdade e Vida. Nessa comunhão, que é o perfeito conhecimento e é amor, o cristão alcança a contemplação, a unificação com Deus. 

                     Clemente retoma, no final, a doutrina segundo a qual o fim último do homem é tornar-se semelhante a Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus, mas isso ainda é um desafio, um caminho; de fato, a finalidade da vida, o destino último é verdadeiramente tornar-se semelhante a Deus. Isso é possível graças à conaturalidade com Ele, que o ser humano recebeu no momento da criação, pela qual ele já é em si a imagem de Deus. Tal conaturalidade permite conhecer as realidades divinas, às quais o homem adere antes de tudo pela fé e, através da fé vivida, da prática da virtude, pode crescer até a contemplação de Deus. Assim, no caminho da perfeição Clemente atribui à exigência moral a mesma importância que atribui ao requisito intelectual. Os dois caminham juntos, porque não se pode conhecer sem viver, e não se pode viver sem conhecer. A semelhança com Deus e a contemplação não podem ser alcançadas unicamente com o conhecimento racional: para isso é necessária uma vida segundo o Logos, uma vida segundo a Verdade. Consequentemente, as boas obras devem acompanhar o conhecimento intelectual como a sombra acompanha o corpo. 

                    Duas virtudes principalmente ornamentam a alma do “verdadeiro gnóstico”. A primeira é a liberdade das paixões (apátheia); a outra é o amor, a verdadeira paixão, que garante a união íntima com Deus. O amor dá a paz perfeita, e torna o “verdadeiro gnóstico” capaz de enfrentar os maiores sacrifícios, até mesmo o sacrifício supremo no seguimento de Cristo, e o faz subir, degrau a degrau, ao vértice das virtudes. Assim, o ideal ético da filosofia antiga, isto é, a libertação das paixões, é redefinido e conjugado por Clemente com o amor, no processo incessante de assimilação com Deus. 

                   Desse modo, o Alexandrino constrói a segunda grande ocasião de diálogo entre o anúncio cristão e a filosofia grega. Sabemos que São Paulo, no Areópago em Atenas, onde Clemente nasceu, fez a primeira tentativa de diálogo com a filosofia grega, e em grande parte falhara, mas lhe disseram: “Ouviremos novamente”. Agora Clemente retoma esse diálogo, e o eleva ao mais alto nível na tradição filosófica grega. Conforme escreveu o meu venerado predecessor, João Paulo II, na Encíclica Vides et ratio, o Alexandrino interpreta a filosofia como “uma instrução propedêutica à fé cristã” (n. 38). E, de fato, Clemente chega ao ponto de afirmar que Deus dera a filosofia aos gregos “como um Testamento seu” (Estrom. 6,8,67,1). Para ele, a tradição filosófica grega, quase ao nível da Lei para os Judeus, é âmbito de “revelação”, são duas correntes que, em síntese, se dirigem para o Logos. Assim, Clemente continua a indicar com firmeza o caminho de quem pretende “justificar” a sua fé em Jesus Cristo. Ele serve de exemplo aos cristãos, catequistas e teólogos de nosso tempo, aos quais João Paulo II, na mesma encíclica, recomendava que “recuperassem e evidenciassem do melhor modo a dimensão metafísica da Verdade, para, assim, entrar num diálogo crítico e exigente... com o pensamento filosófico contemporâneo” (n. 105). 

                 Concluímos assumindo algumas expressões da célebre “oração a Cristo Logos”, com a qual Clemente encerra o seu Pedagogo. Suplica: “Sê propício aos teus filhos”; “Concede que vivamos na tua paz, que sejamos transferidos para a tua cidade, que atravessemos sem submergir as ondas do pecado, que sejamos transportados com tranquilidade pelo Espírito Santo e pela Sabedoria inefável: nós, que, noite e dia, até o último dia, cantamos um cântico de ação de graças ao único Pai, [...] ao Filho Pedagogo e Mestre, juntamente com o Espírito Santo. Amém!” (Ped. 3, 12, 101).” Audiência geral, 18 de abril de 2007, Praça de São Pedro[3]

_____________________________________________  
[1] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Coleção Patrística. Vol. 15. 2ª. Ed. São Paulo. Paulus:2008. Pp. 248/249. [2] ALTANER, Berthold e STUIBER, Alfred. Patrologia. São Paulo. Edições Paulinas. 1972. P. 197. [3] BENTO XVI. Os Padres da Igreja. De Clemente Romano a Santo Agostinho. Paulus. São Paulo. 2012. Pp. 31/35.
 

abr 21

O PAPA EM DEFESA DOS FILHOS DE DEUS

                  PAPA FRANCISCO-5   

Papa Francisco condena antissemitismo na Europa -

Pontífice considera tendência preocupante e defendeu o diálogo. 'Cristãos têm de ser firmes na condenação de todas as formas', afirmou. -

                        O Papa Francisco condenou nesta segunda-feira (20) o antissemitismo na Europa, uma tendência que considera "preocupante", defendendo ante os rabinos europeus "o diálogo" entre os cristãos e judeus há mais de 50 anos.

              "As tendências antissemitas e alguns atos de ódio e violência são preocupantes na Europa. Os cristãos têm de ser firmes na condenação de todas as formas de antissemitismo", declarou Jorge Bergoglio, que tem mostrado repetidamente seu bom relacionamento com os judeus.

                     O pontífice argentino recebeu os responsáveis da Conferência dos Rabinos Europeus (CRE), pela primeira vez desde a fundação da organização em 1956.

                             Francisco destacou que o diálogo entre cristãos e judeus avança "há quase meio século de maneira sistemática", referindo-se ao documento do Concílio Vaticano II, "Nostra Aetate", que, em 1965, expressou a necessidade de respeitar as outras religiões.

                         "Os judeus e os cristãos têm a responsabilidade de manter vivo o sentido religioso dos homem e da sociedade, que atestam a santidade da vida humana", declarou Francisco.

                                O papa fez uma homenagem ao rabino Elio Toaff de Roma, "homem de paz e de diálogo", falecido no domingo na capital italiana, que desempenhou um papel fundamental na aproximação judaico-cristã, ao receber o papa João Paulo II de 1986.

                         Por sua vez, o grande rabino de Moscou, Pinchas Goldshmidt, presidente da CRE, assegurou ante o papa que os judeus são as "vítimas colaterais" de uma ofensiva antimuçulmana instrumentalizada pela extrema-direita na Europa.

                              Os judeus são "como um homem de pé sobre uma via férrea, entre dois trens que se aproximam em grande velocidade um contra o outro, e que não sabe qual dos dois o atingirá primeiro", afirmou.

                           A CRE é uma das principais vozes do judaísmo na Europa e reúne cerca de 600 rabinos ortodoxos de cerca de 40 países.

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/04/papa-francisco-condena-antissemitismo-na-europa.html

abr 12

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

farol

– OS PADRES DA IGREJA NASCENTE -

                 Não é de hoje que ressaltamos a importância da patrologia na vida de todos nós, cristãos. O contato, ainda que perfunctório, com a vida e a obra dos Pais da Igreja é fundamental para que conheçamos nossas origens, assim como a origem da Igreja e da fé que hoje professamos, muitas vezes, sem muita convicção. Conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, é ter acesso a um período da história no qual o simples fato de aceitar ser batizado importava assumir e aceitar a pena capital. Ser cristão, era crime contra o Estado, porque, ser cristão significava prestar culto ao Deus Único, que não era o mesmo Deus dos governantes nem dos pagãos. E, por esta razão, os cristãos eram odiados, caluniados, presos e torturados até a morte. E hoje, o que significa ser cristão?

         O ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo está tendo continuidade hoje – 12 de abril de 2015. Embora tenhamos iniciado a série com as magistrais aulas do Papa Emérito Bento XVI, hoje, na sequência, além da visão de Sua Santidade, estaremos envolvendo também,  Jacques Liébaert e Berthold Altaner e Alfred Stuiber.

            Hoje, dando continuidade à divulgação sobre a vida e a obra de São Justino – Filósofo e Mártir – nascido nos inícios do século II, vamos apresentar a visão de Berthold Altaner e de Alfred Stuiber, que veem em Justino o mais insigne apologista do século II, nas palavras de Tertuliano de Cartago. E iniciaremos o trabalho exatamente a partir das apologias:

"1. As apologias. Eusébio informa (h. e. 4,18), que Justino redigiu duas apologias, uma das quais foi apresentada ao imperador Antonino Pio, a outra a seus sucessores Marco Aurélio e Lúcio Vero. Possuímos, na realidade, duas apologias de Justino; a mais extensa do manuscrito (68 caps. é dirigida a Antonino Pio, a mais breve (15 caps.) ao Senado romano. A crítica mais recente procura, com frequência, demonstrar que ambas as apologias foram dirigidas, em realidade, a Antonino Pio (138-161).

 a) Na 1ª Apologia (redigida cerca de 150-155) podem-se distinguir duas partes; a primeira (1-12), de caráter peculiarmente negativo, refuta as acusações lançadas contra os cristãos; a segunda, mais positiva e extensa, apresenta e justifica a doutrina da religião cristã; a parte mais longa é consagrada a provar a divindade de Cristo, baseando-se nas profecias do AT (30-53). Anexa à primeira Apologia encontra-se, à guisa de apêndice, uma missiva do imperador Adriano e Minúcio Fundano, procônsul da Ásia, que exige processos legais contra os cristãos (cap. 68).

 b) A 2ª Apologia é habitualmente designada como apêndice ou suplemento da primeira, mais extensa. Na opinião de E. Schwartz, ela constituía originariamente a conclusão da primeira Apologia; sob a influência das informações de Eusébio relativamente a duas Apologias de Justino, teria sido apresentada a 2ª, arbitrariamente, nos manuscritos, como escrito independente. K. Hubik a considera réplica independente ao ataque do retor Frontão, durante os anos de 164-65. G. Bardy fixa, de modo semelhante, a data de composição como posterior ao ano 161; A. Ehrhardt opta pela tese de duas Apologias independentes, sendo a data da primeira o ano 150.”

               Ambos os autores destacam, ainda, o diálogo com Trifão, como que revestida de forma literária, cuja redação teria sido precedida de discussões realizadas em Éfeso, durante a revolta de Bar-Kochba, destacando, porém, que a crítica moderna contesta a autenticidade do Diálogo. Relativamente à doutrina defendida por Justino, destacam que:

"1. Conforme Justino e outros apologistas, Deus não tem nome, nem origem. Negam sua onipresença substancial no universo. Deus habita em regiões supra celestes, não pode deixar seu lugar e, portanto, tampouco, aparecer no mundo (Dial. 60; 127). Deus se chama “Pai” pela principal razão de ser patèr tou pánton (2. Ap. 6).

2. Com sua teoria do lógos spermátikos Justino lança uma ponte entre a filosofia antiga e o cristianismo. Em Cristo, o Logos divino apareceu em toda a sua plenitude; mas cada homem possui, em seu intelecto, um germe (spérma) do Logos. Esta participação no Logos, que contém a aptidão para aprender a verdade, era particularmente intensa em alguns; entre os judeus, por exemplo, nos profetas, e entre os gregos, em Heráclito e Sócrates. Justino opina que certos elementos da verdade em poetas e filósofos gregos, derivavam da antiga literatura judaica, uma vez que Moisés foi o mais antigo dos escritores. Enquanto os filósofos ensinaram e viveram de acordo com a razão, já eram, em certo sentido, cristãos, antes de Cristo; depois da vinda de Cristo ao mundo, os cristãos possuem a verdade íntegra e plena (1. Ap. 46; 2. Ap. 8; 13). As ideias teológicas de Justino sofreram fortes influência da filosofia platônica e estoica.

3. Quanto à relação entre o Logos e o Pai, Justino é subordinacionista. O Logos-Filho foi proferido “ad extra”, isto é, tornou-se uma Pessoa divina, mas subordinado ao Pai, unicamente com a finalidade de assistir à criação e ao governo do mundo (2. Ap. 6; Dial. 61).

4. Os anjos possuem um corpo sutil e tomam um verdadeiro alimento, o maná (Dial. 57). Os demônios têm corpos materiais um tanto grosseiros; Satã, seu chefe, caiu quando, em forma de serpente, seduziu Eva (Dial. 100; 124); outros anjos pecaram com mulheres e geraram demônios (2. Ap. 5). Os demônios estão condenados ao fogo eterno, mas descerão só depois do último juízo ao inferno, em companhia dos homens perversos (1. Ap. 28); por enquanto habitam em camadas inferiores da atmosfera, tentando seduzir os homens ao mal e impedir de todos os modos a difusão do cristianismo (1. Ap. 26;54;57s;62).

5. A alma humana possui também certa corporeidade; vive ela, não por ser vida (como Deus), mas por participar da Vida (Dial. 6). Depois da morte, as almas todas, excetuando-se as dos mártires, vão ao Hades, onde permanecerão até o fim do mundo; todavia, os bons já estão separados dos maus e cada uma das categorias, na previsão de seu futuro destino, é feliz ou infeliz (Dial. 5). Segundo a teoria expressa de Justino, a crença de que as almas entram no céu imediatamente depois da morte, equivale à negação da ressurreição dos mortos (Dial. 80). Cristo, depois de sua morte, desceu ao Hades, ou seja, para junto das almas dos justos da Antiga Aliança (Dial. 45;72,4;99). Justino era, como Pápias, milenarista; confessa, contudo, que certos cristãos ortodoxos não aderem a esta doutrina, tendo-os, porém, “por cristãos não integrais, sob todos os pontos de vista” (Dial. 80s).

6. Na 1ª Ap. 66 e no Dial. 100, Justino atesta a existência das “memórias dos apóstolos” (apomnemoneúmata ), a saber, dos Evangelhos canônicos. No Dial. 100, Maria é comparada, pela primeira vez na antiga literatura cristã, a Eva.

7. De inestimável valor são suas informações sobre o batismo (1ª Ap. 61) e a celebração litúrgica (1ª Ap. 65-67), chamada por Justino “o sacrifício eucarístico do pão e do cálice” (Dial. 117). A fé na presença real de Cristo na eucaristia é professada claramente, e na 1ª Ap. 66 encontramos o primeiro esboço de formulação do dogma da transubstanciação. Diz Justino que no alimento eucarístico não recebemos um pão comum, nem uma bebida comum, para nutrir e transformar nossa carne e nosso sangue; é a carne e o sangue de Jesus Cristo encarnado, e devemo-lo a uma fórmula instituída por ele. Este logos litúrgico da oração, proveniente de Cristo, Logos humanado, participa de sua virtude divina e de sua eficácia em criar e transformar (grifo nosso).

8. A questão de saber se Justino conheceu ou não, o caráter sacrifical da eucaristia é objeto de discussão. No Dial. 117, assentindo a uma palavra de Trifão, declara serem as orações e ações de graças os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus. No Dial. 41, porém, menciona expressamente que a oblação da farinha de trigo é uma prefiguração do pão eucarístico; Deus predissera, por Malaquias, os sacrifícios (thusíai), que os gentios haveriam de oferecer em todo lugar, isto é, o pão eucarístico e o cálice da eucaristia. Justino atesta nitidamente as palavras da consagração (1ª Ap. 66). O alimento é abençoado di’ eukes tou par’ autou. Algumas linhas depois diz quais são estas palavras, qual este lógos: “Em memória de mim o fareis... Pois isto é o meu corpo...”

           Finalizaremos o trabalho sobre Justino em 26 de abril de 2015, já que nossa atualização desta página ocorre sempre no 2º e no 4º domingos de cada mês, apresentando a visão mais moderna e didática do Papa Emérito Bento XVI.

 

Fontes: BENTO XVI. Os Padres da Igreja.  De Clemente Romano a Santo Agostinho.  Paulus. São Paulo.  2012; LIÉBAERT, Jacques. Os Padres da Igreja(séculos I – IV). São Paulo. Edições Loyola. 3ª Ed. 2013 e BERTHOLD, Altaner e STUIBER, Alfred. Patrologia. São Paulo. Edições Paulinas. 1972.

     

mar 22

PATROLOGIA: O FAROL DO CRISTIANISMO

        farol   

 - OS PADRES DA IGREJA NASCENTE -

 

                Não é de hoje que ressaltamos a importância da patrologia na vida de todos nós, cristãos. O contato, ainda que perfunctório, com a vida e a obra dos Pais da Igreja é fundamental para que conheçamos nossas origens, assim como a origem da Igreja e da fé que hoje professamos, muitas vezes, sem muita convicção. Conhecer a vida e a obra dos Pais da Igreja, é ter acesso a um período da história no qual o simples fato de aceitar ser batizado importava assumir e aceitar a pena capital. Ser cristão, era crime contra o Estado, porque, ser cristão significava prestar culto ao Deus Único, que não era o mesmo Deus dos governantes nem dos pagãos. E, por esta razão, os cristãos eram odiados, caluniados, presos e torturados até a morte. E hoje, o que significa ser cristão?

         O ciclo de matérias sobre os primeiros séculos do cristianismo está tendo continuidade hoje – 22 de março de 2015. Embora tenhamos iniciado a série com as magistrais aulas do Papa Emérito Bento XVI, hoje, na sequência, além da visão de Sua Santidade, estaremos envolvendo também,  Jacques Liébaert e Berthold Altaner e Alfred Stuiber.

            A personagem de hoje é São Justino – Filósofo e Mártir – nascido nos inícios do século II, tendo sofrido o martírio por volta do ano 165 da nossa era, a quem Altaner afirma ter recebido de Tertuliano o título de “mais insigne apologista do séc. II”.

        Jacques Liébaert, por sua vez,  enxerga em Justino o elo de ligação entre o cristianismo e o helenismo, justamente por ser ele teólogo leigo, filósofo cristão e conhecedor do grego, língua tão falada e tão difundida na época, esclarecendo que:

“Com Justino estamos na metade do século II. No decurso do tempo, a Igreja afasta-se das origens e entra em uma nova época de sua história. As Igrejas judeu-cristãs já veem sua influência diminuir diante da expansão do cristianismo cultivado por São Paulo. Daí em diante a maioria dos cristãos origina-se do paganismo; muitos, ainda, convertem-se em idade adulta, como é o caso de Justino. As questões nas quais há oposição à fé se transferem para outros terrenos. 

O cristianismo encontra-se, de maneira cada vez mais ampla, com o mundo greco-romano, um mundo consciente de seus valores, orgulhoso de um sucesso político (a “paz romana”) e sobretudo cultural. O homem antigo tem consciência de que é herdeiro de todo um patrimônio intelectual, artístico, religioso (pois o paganismo antigo é um paganismo religioso). Tem orgulho da própria sabedoria, da própria tradição intelectual.

Ele conseguiu, sobretudo, elaborar uma cultura que tem valor de universalidade. Isso aparece particularmente nas proximidades imediatas da era cristã, marcada por uma real unificação da cultura na bacia mediterrânea: o grego é falado por toda a parte; é a “língua comum” (o Koinè), língua do comércio, da filosofia, da ciência. As próprias religiões interpenetram-se consideravelmente, vulgarizam-se. A cultura latina do Ocidente é penetrada pelo helenismo (o imperador romano Marco Aurélio escreve seus Pensamentos em grego). O helenismo desenvolveu um espírito universal; para a época, ele é “a cultura”, ainda que seu êxito contenha falhas em si mesmo. 

Desse modo, saindo de seu meio original, a Igreja encontra-se com o mundo cultural do helenismo. O confronto era inevitável e indispensável. Dois homens, um cristão e um pagão, vão marcar uma fase significativa desse fato: do lado cristão, Justino, o primeiro dos “Padres” em contato direto com o pensamento grego, pioneiro que abre o caminho, inspirador dos ' Padres Apologistas”; e do lado pagão, o filósofo Celso, que escreve um pouco mais tarde (por volta de 178) a primeira crítica racionalista do cristianismo (e do judaísmo ao mesmo tempo). 

Justino, por sua vez, publica pouco depois de 150 sua 1ª Apologia, defesa do cristianismo e dos cristãos, dirigida ao imperador Antonino. Em seguida vem o Diálogo com Trifão, que ele teria encontrado em Éfeso na época da segunda revolta judaica. A discussão entre cristãos e judeus se prolongará por muito tempo entre os Padres; a obra de Justino procura, sobretudo, fundamentar a leitura cristã do Antigo Testamento; ele utiliza grande número de argumentos exegéticos judeu-cristãos. Depois, Justino acrescenta um complemento à sua primeira obra: a 2ª Apologia, quando da execução de três cristãos em Roma. Não foram conservadas as suas obras propriamente teológicas contra a gnose, o marcionismo; portanto, não conhecemos todos os aspectos de seu pensamento e de sua obra. 

Quem é Justino? É natural da Palestina (de Flávia Neápolis ou Nablus). É grego de formação, mas a origem palestina talvez tenha contribuído de algum modo para o seu conhecimento das tradições exegéticas judeu-cristãs. 

Por volta de 132-135 ele é cristão, mas é um convertido, vindo para o cristianismo depois de todo um itinerário intelectual e espiritual, que ele descreve no início do Diálogo. 

Justino era uma alma religiosa, ansiosa por descobrir a verdade sobre Deus e o caminho para chegar a ele. Procurou no campo das grandes filosofias, pois, diz ele, o objetivo da filosofia é precisamente essa busca de Deus e da união com ele. Sobre isso, o pagão Celso exprime-se de maneira bem análoga, em consonância com as acentuadas preocupações religiosas da filosofia da época. 

Em sua busca, Justino dirigiu-se a mestres que representavam as principais tradições filosóficas, viajando, sem dúvida, de cidade em cidade, à maneira dos filósofos desse tempo. Finalmente, tornou-se discípulo entusiasta do platonismo (II, 6), conquistado pela ideia altíssima de Deus, pela mística da contemplação que deve libertar o espírito e conduzir à semelhança com Deus e à união com ele. Mas, um dia, encontra um cristão idoso, também filósofo, que o faz tomar consciência da insuficiência fundamental da filosofia na sua pretensão de levar à união com Deus, em um diálogo tipicamente “socrático”. Ele revela a Justino os profetas e Cristo: a acolhida dessa revelação que Deus fez de si mesmo é a via de acesso a ele. Justino descobre que “ninguém pode ver nem compreender, se Deus e seu Cristo não lhe concedem que compreenda” (VII, 3); descoberta que é para ele uma iluminação. Daí em diante adere com entusiasmo à fé cristã, única “filosofia” verdadeira. Estabelece como objetivo levar seus contemporâneos, judeus ou pagãos, a partilhar de sua descoberta e de sua convicção. A fórmula na qual resume esta descoberta — a fé cristã é “a única filosofia segura e proveitosa” — evidentemente exige explicação. Continua-se a discutir a posição de Justino a respeito das relações do cristianismo com a filosofia grega, da fé com a razão. Por vezes ele foi apresentado simplesmente como um filósofo com tintura de cristianismo, mais platônico que cristão — ou, ao contrário, como um filósofo que renunciou à filosofia, passando para a fé cristã, única “filosofia” válida a seu ver. A realidade é certamente menos categórica.” 

            Altaner/Stuiber vão nos trazer um pouco da doutrina de Justino e, por fim, Bento XVI encerra apresentando um Justino palpável à nossa compreensão para que, ao final da leitura do conjunto, possamos conhecer bem este Apologista do século II que figura entre os gigantes da defesa da fé e da doutrina cristãs. 

            Continuaremos com a vida e a obra de Justino em 12 de abril de 2015, já que nossa atualização desta página ocorre sempre no 2º e no 4º domingo de cada mês.

 

Fontes: BENTO XVI. Os Padres da Igreja.  De Clemente Romano a Santo Agostinho.  Paulus. São Paulo.  2012; LIÉBAERT, Jacques. Os Padres da Igreja (séculos I – IV). São Paulo. Edições Loyola. 3ª Ed. 2013 e BERTHOLD, Altaner e STUIBER, Alfred. Patrologia. São Paulo. Edições Paulinas. 1972.

   

mar 08

OS PADRES DA IGREJA NASCENTE

BENTO XVI-2

SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA – ÚLTIMA PARTE

                   Dando continuidade ao Magistério do Papa Emérito Bento XVI, hoje vamos iniciar o ciclo de catequeses, durante o qual Sua Santidade expõe um pouco da vida e da obra das principais personalidades da Igreja Nascente, com ênfase para Santo Inácio de Antioquia

A fonte é:  BENTO XVI. Os Padres da Igreja.  De Clemente Romano a Santo Agostinho.  Paulus. São Paulo.  2012. Págs. 17-20

 

             "Dessa forma Inácio chega a elaborar uma visão da Igreja que se aproxima de algumas expressões da Carta aos Coríntios de Clemente Romano. 

É bom para vós, escreve aos cristãos de Éfeso, proceder em conformidade com o pensamento do bispo, coisa que já fazeis. De fato, o vosso colégio dos presbíteros, justamente famoso, digno de Deus, está assim harmoniosamente unido ao bispo como as cordas à citara. Por isso, em vossa concórdia, e em vosso amor sinfônico Jesus Cristo é cantado. E assim vós, um por um, vos tornais coro, para que na sinfonia da concórdia, após ter assumido o tom de Deus na unidade, possais cantar a uma só voz (4, 1-2).

             E depois de recomendar aos Esmirnenses que “nada empreendam no que diz respeito à Igreja sem o bispo” (8,1), diz a Policarpo: 

Eu ofereço a minha vida por aqueles que são submissos ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Que eu possa, juntamente com eles, ter parte com Deus. Trabalhai juntos uns pelos outros, lutai juntos, correi juntos, sofrei juntos, dormi e vigiai juntos como administradores de Deus, seus assessores e servos. Procurai agradar Aquele pelo qual militais e do qual recebeis os favores. Que nenhum de vós seja desertor. O vosso batismo permaneça como um escudo, a fé como um elmo, a caridade como uma lança, a paciência como uma armadura (6,1-2). 

           No conjunto, podemos ver nas Cartas de Inácio uma espécie de dialética constante e fecunda entre dois aspectos característicos da vida cristã: por um lado, a estrutura hierárquica da comunidade eclesial, e por outro, a unidade fundamental que liga entre si todos os fiéis em Cristo. Consequentemente, os papéis não se podem contrapor. Ao contrário, a insistência sobre a comunhão dos crentes entre si e com os próprios pastores é continuamente reformulada através de eloquentes imagens e analogias: a citara, as cordas, a afinação, o concerto, a sinfonia. É evidente a responsabilidade peculiar dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos na edificação da comunidade. Vale, para eles, antes de tudo, o convite ao amor e à unidade. “Sede uma só coisa”, escreve Inácio aos Magnésios, retomando a oração de Jesus na Ultima Ceia: “Uma só súplica, uma única mente, uma só esperança no amor... Acorrei todos a Jesus Cristo como ao único templo de Deus, como ao único altar: Ele é um, e procedendo do único Pai permaneceu unido a Ele, e a Ele voltou na unidade” (7,1-2). Inácio é o primeiro na literatura cristã a atribuir à Igreja o adjetivo de “católica”, isto é, “universal”: “Onde está Jesus Cristo”, afirma ele, “ali está a Igreja” (Aos Esmirnenses 8,2). E exatamente no serviço de unidade à Igreja católica, a comunidade cristã de Roma exerce uma espécie de primado no amor: “Em Roma ela preside digna de Deus, venerável, digna de ser chamada bem-aventurada... Preside à caridade, que possui a lei de Cristo e o nome de Pai” (Aos Romanos, Prólogo). 

           Como se vê, Inácio é verdadeiramente o “doutor da unidade”: unidade de Deus e unidade de Cristo (apesar das várias heresias que começavam a circular e dividiam o homem e Deus em Cristo), unidade da Igreja, unidade dos fiéis “na fé e na caridade, das quais não há nada mais excelente” (Aos Esmirnenses 6,1). Finalmente, o “realismo” de Inácio convida os fiéis de ontem e de hoje, convida a todos nós a uma síntese progressiva entre configuração com Cristo (união com Ele, vida nele) e dedicação à sua Igreja (unidade com o bispo, serviço generoso à comunidade e ao mundo). Em suma, é necessário alcançar uma síntese entre comunhão da Igreja em seu interior e missão-proclamação do Evangelho para os outros, para que através de uma dimensão se manifeste a outra, e os crentes “possuam” cada vez mais “aquele espírito indiviso, que é o próprio Jesus Cristo” {Aos Magnésios 15). 

           Implorando do Senhor essa “graça de unidade”, e na convicção de presidir à caridade de toda a Igreja (cf. Aos Romanos, Prólogo), dirijo a vós os mesmos votos que concluem a carta de Inácio aos cristãos de Tralli: “Amai-vos uns aos outros com um coração indiviso. O meu espírito se oferece em sacrifício por vós, não só agora, mas também quando tiver alcançado a Deus... Que possais ser encontrados em Cristo sem mancha” (13). Rezemos para que o Senhor nos ajude a alcançar essa unidade, e a sermos encontrados finalmente sem mancha, porque é o amor que purifica as almas.”

 

Audiência geral, 14 de março de 2007, Praça de São Pedro

     

fev 22

OS PADRES DA IGREJA NASCENTE

BENTO XVI-2

SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA – PRIMEIRA PARTE

                   Dando continuidade ao Magistério do Papa Emérito Bento XVI, hoje vamos iniciar o ciclo de catequeses, durante o qual Sua Santidade expõe um pouco da vida e da obra das principais personalidades da Igreja Nascente, com ênfase para Santo Inácio de Antioquia

A fonte é:  BENTO XVI. Os Padres da Igreja.  De Clemente Romano a Santo Agostinho.  Paulus. São Paulo.  2012. Págs. 15-17

 

"Caros irmãos e irmãs, 

Em nosso novo ciclo de catequeses que ora iniciamos, estamos revendo as principais personalidades da Igreja nascente. 

Na semana passada falamos sobre o Papa Clemente I,       terceiro Sucessor de São Pedro. Hoje falamos de Santo Inácio, que foi o terceiro bispo de Antioquia, entre os anos 70 e 107, data do seu martírio. 

Naquele tempo, Roma, Alexandria e Antioquia eram as três grandes metrópoles do império romano. O Concilio de Niceia fala de três “primados”: obviamente o de Roma, mas também havia Alexandria e Antioquia que, em certo sentido, se orgulhavam de seu “primado”. Santo Inácio era bispo de Antioquia, que hoje se situa na Turquia. Aqui, em Antioquia, como sabemos pelos Atos dos Apóstolos, surgiu uma comunidade cristã florescente: o primeiro bispo foi o apóstolo Pedro, assim diz a tradição, e ali, “pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de cristãos” (At II,26). Eusébio de Cesareia, historiador do século IV, dedica um capítulo inteiro de sua História Eclesiástica à vida e à obra literária de Inácio (3,36). “Da Síria - escreve - Inácio foi enviado a Roma para ser lançado às feras, por causa do seu testemunho a Cristo. Em sua viagem através da Ásia, sob a vigilância severa dos guardas” (que ele batiza de “dez leopardos” em sua Carta aos Romanos 5,1), “nas várias cidades por onde passava, com pregações e admoestações, ia consolidando as Igrejas; sobretudo exortava, com muito fervor, a evitar as heresias, que então começavam a se espalhar, e recomendava que não se desvinculassem da tradição apostólica”. A primeira etapa da viagem de Inácio rumo ao martírio foi a cidade de Esmirna, onde era bispo São Policarpo, discípulo de São João. Ali Inácio escreveu quatro cartas, respectivamente às Igrejas de Éfeso, de Magnésia, de Tralli e de Roma. “Tendo partido de Esmirna”, prossegue Eusébio, “Inácio chega a Trôade, e de lá enviou novas cartas”: duas às Igrejas de Filadélfia e de Esmirna, e uma ao bispo Policarpo. Eusébio completa, assim, a lista das cartas que chegaram até nós como um precioso tesouro. Lendo esses textos percebe-se o vigor da fé da geração que conheceu os apóstolos. Sente-se também nessas cartas o amor ardente de um santo. Finalmente, de Trôade o mártir chegou a Roma, onde, no Anfiteatro Flávio, foi lançado às feras. 

Nenhum Padre da Igreja expressou com a intensidade de Inácio o anseio pela união com Cristo e pela vida nele. Por isso, lemos o trecho do Evangelho sobre a vinha, que, segundo o Evangelho de João, é Jesus. Na realidade, afluem em Inácio duas “correntes” espirituais: a de Paulo, que tende totalmente para a união com Cristo, e a de João, concentrada na vida nele. Por sua vez, essas duas correntes desembocam na imitação de Cristo, várias vezes proclamado por Inácio como “o meu” e “o nosso Deus”. Assim, Inácio suplica aos cristãos de Roma para que não impeçam o seu martírio, porque está impaciente por “unir-se a Jesus Cristo”. E explica: “É bom para mim morrer indo para (eis) Jesus Cristo, em vez de reinar até os confins da terra. Procuro a Ele, que morreu por mim, quero a Ele, que ressuscitou por nós... Deixai que eu seja imitador da Paixão do meu Deus! ” (Aos Romanos 5-6). Pode-se captar nessas expressões fervorosas de amor o elevado “realismo” cristológico típico da Igreja de Antioquia, como nunca atento à encarnação do Filho de Deus e à sua verdadeira e concreta humanidade: Jesus Cristo, escreve Inácio aos Esmirnenses, “pertence realmente à estirpe de Davi”, “realmente nasceu de uma virgem” e “realmente foi crucificado por nós” (1,1). 

A propensão irresistível de Inácio para a união com Cristo funda uma verdadeira “mística da unidade”. Ele próprio se define como “um homem ao qual foi confiada a tarefa da unidade” (Aos Filadelfenses 8,1). Para Inácio, a unidade é, antes de tudo, uma prerrogativa de Deus, que existindo em três Pessoas é Uno em absoluta unidade. Ele repete muitas vezes que Deus é unidade, e que só em Deus ela se encontra no estado puro e original. A unidade a ser realizada nesta terra pelos cristãos é apenas uma imitação, o mais possível conforme com o arquétipo divino. Dessa forma Inácio chega a elaborar uma visão da Igreja que se aproxima de algumas expressões da Carta aos Coríntios de Clemente Romano. 

“É bom para vós, escreve aos cristãos de Éfeso, proceder (...)"

 CONTINUA EM BREVE!

   

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