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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 05

NOS CAMINHOS DA BÍBLIA – PARTE V

ESTUDOS BIBLICOS

ESTUDOS BÍBLICOS – PARTE V - 

Neste mês – dezembro – continuamos levando aos nossos leitores todas as melhores condições para o aprimoramento na leitura, compreensão e interpretação das Sagradas Escrituras, a partir do quê, nasce o verdadeiro fiel. Ninguém pode ser verdadeiramente fiel a Deus, sem conhecer profundamente e sem compreender de fato Sua Palavra, ensinamentos e mandamentos.

Com este objetivo, e tentando alcançá-lo da forma mais perfeita possível, estamos, prosseguimos com a publicação de diversos trechos do livro “Para Entender o Antigo Testamento” , de Dom Estevão Bettencourt , editado pela Santuário em 2013, sendo a primeira edição datada de 1956.

Esperamos que o leitor, não apenas aprove nosso trabalho mas, e acima de tudo, decida-se pelo maior aprofundamento do tema, não apenas adquirindo o Livro indicado, mas, também, procurando aprimorar cada vez mais o conhecimento desta verdadeira fonte de vida, que a Bíblia Sagrada.

Estamos, neste mês, prosseguindo com o quanto iniciamos no mês passado (novembro), relativamente ao Capítulo V do Livro de Dom Estevão, sob o título O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO, onde o autor prossegue afirmando que:

“CAPÍTULO V

O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO

CONTINUAÇÃO

2. O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.

Já que, após o primeiro pecado, a corrupção se alastrava entre os homens, Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração; desse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. Em vista disto, por volta de 1800 a.C., Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldeia, terra idólatra, para Canaã (Palestina atual), a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão; Israel (Gn 12, 1-3).

A Abraão, Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para todas as nações. Daí chamar-se este segundo marco da história “A PROMESSA”.

3. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.

O surto do povo de Deus foi confirmado por cerca de 1240 a.C.; tendo Israel caído cativo do Egito, Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã, dando-lhe, por meio de Moisés, uma constituição teocrática.

A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA, aliança, sim, provisória e nacional, travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

4. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.

Por volta de 1020 a.C., Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos, ou seja, a MONARQUIA. Este desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fora governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes), queria um governo menos dependente da Providência insondável do Criador, humanamente mais “garantido”, mais fundado sobre bases que o bom senso pode apreciar (tal é, sem dúvida, a monarquia).

Instaurou-se então o REINO de Israel, que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930).

A própria monarquia, porém, acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte, dito da Samaria, e reino do Sul, dito de Judá. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. Os dois pequenos Estados irmãos, Samaria e Judá, politicamente insignificantes, sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Samaria em 722 se tornou presa dos assírios, ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios.

A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política, que sua missão religiosa não estava necessariamente ligada com sua missão nacional. Israel deveria esperar o REINO... DE DEUS, com tudo que este reino implica de transcendente, de desconcertante para o “filósofo”, um reino tal que “quem não o recebe como uma criancinha, nele não pode entrar” (cf. Mc 10, 15).

5. Deportados para a Babilônia em 587, os habitantes de Judá sofreram o EXÍLIO. Também este foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Privado de todo o aparato exterior (templo, sacrifícios, ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém, os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica da Divindade e da religião, passando a conceber o Criador de modo muito mais puro; a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente...

Em 538 Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus; Javé assim lhes mandou uma “redenção”, que ainda era etapa em demanda da Redenção plena, messiânica. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita, a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa; era o chamado RESTO DE ISRAEL. Note-se bem: esse resto se constituía de judeus pobres, humanamente falando, quase malogrados, mas fervorosos adeptos de sua fé; a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio, pois lá haviam adquirido certo bem-estar material, prosperidade humana, que lhes sufocava o fervor teocrático!

6. Após o exílio, Judá passou a viver como COMUNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro, comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias; infelizmente, porém, oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas, gregos, egípcios, sírios e romanos sucessivamente), os israelitas facilmente confundiam a figura do Messias, Restaurador da ordem religiosa, com a de um Libertador político.

Muito digna de nota é a epopeia dos irmãos Macabeus (165- 134), os quais, vibrando de autêntica piedade, moveram a resistência contra os sírios, que queriam paganizar o povo de Deus.

O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus, contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de pensar; Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus, dos espíritos, a sorte póstuma do homem; foi admitindo, outrossim, certo universalismo religioso, ou seja, a noção de que os bens messiânicos não se destinam a um povo apenas, mas a todas as nações da terra.

7. Finalmente na plenitude dos tempos veio o Messias, segundo Adão, que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada.

Da vinda de Cristo em diante, a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus, ou seja, em Pentecostes; prolonga-se já por vinte séculos, não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento, mas unicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Uma vez completo o número dos que entrarão na bem-aventurança, Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história, induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sobre a morte e as demais consequências do pecado). Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo são tempos de máxima tensão, em que o cristão experimenta o que é “ser” e, ao mesmo tempo, “não ser” filho de Deus, “ter” e, ao mesmo tempo, “não ter” a vida eterna.

Esquematicamente, poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada:

 

ACONTECIMENTOS CAPITAIS

FIGURAS PRINCIPAIS

DATAS

TEXTOS

A ALIANÇA NO PARAÍSO PACTUADA E VIOLADA

O primeiro Adão

-

Gn 2-3

A ESCOLHA GRATUITA

A PROMESSA

Abraão

1800

Gn 12, 1-3; 18, 18; cf. Gl 3,8

LEI E ALIANÇA PROVISÓRIAS

Moisés

1240

Ex 20, 1-24, 8

A MONARQUIA

Davi e Salomão

1000-930

2Sm 16, 1Rs 2,11; 1Rs 2, 12 – 11,43

O EXÍLIO

Ezequiel

587-538

Ez

A COMUNIDADE RELIGIOSA

Neemias e Esdras

445 e 398

Es-Ne

 

Os Macabeus

165-134

1-2Mc

A NOVA E DEFINITIVA ALIANÇA O REINO MESSIÂNICO

O segundo Adão

Jesus Cristo

A plenitude dos tempos do séc. I à consumação da história

Mt 26, 26-29

O Novo Testamento

CONTINUA, EXCEPCIONALMENTE, EM 06/02/2017

nov 14

NOS CAMINHOS DA BÍBLIA – PARTE IV

ESTUDOS BIBLICOS

ESTUDOS BÍBLICOS – PARTE IV

            Neste mês – novembro – continuamos levando aos nossos leitores todas as melhores condições para o aprimoramento na leitura, compreensão e interpretação das Sagradas Escrituras, a partir do quê, nasce o verdadeiro fiel. Ninguém pode ser verdadeiramente fiel a Deus, sem conhecer profundamente e sem compreender de fato Sua Palavra, ensinamentos e mandamentos.

          Com este objetivo, e tentando alcançá-lo da forma mais perfeita possível, estamos, prosseguimos com a publicação de diversos trechos do livro “Para Entender o Antigo Testamento” , de Dom Estevão Bettencourt , editado pela Santuário em 2013, sendo a primeira edição datada de 1956.

              Esperamos que o leitor, não apenas aprove nosso trabalho mas, e acima de tudo, decida-se pelo maior aprofundamento do tema, não apenas adquirindo o Livro indicado, mas, também, procurando aprimorar cada vez mais o conhecimento desta verdadeira fonte de vida, que a Bíblia Sagrada.

              Estamos, neste mês, reportando-nos ao Capítulo V do Livro de Dom Estevão, sob o título O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO, onde o autor afirma que:

“CAPÍTULO V

O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO

Não é raro ouvir-se a pergunta: “Qual o valor que, para o cristão ou, mais largamente, para o homem moderno, possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?” Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara; suas histórias e afirmações, à primeira vista, entram em conflito com as normas do Evangelho, da honestidade ou da ciência moderna, provocando “escândalos” de ordem moral ou científica; não se vê, por conseguinte, o proveito que possa acarretar tal leitura.

A questão não é nova. Surgiu mesmo no início da era cristã, quando os homens perceberam que Jesus, o Messias, consumara a Revelação do Antigo Testamento. Assim Marcion, herege do séc. II, rejeitava categoricamente os livros sagrados dos israelitas, julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompatível com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento.

Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. Adolf von Harnack (†1930), por exemplo, escrevia:

“No séc. II, rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha, que a Grande Igreja fez bem de evitar; no séc. XVI, guardá-lo era uma necessidade fatal, à qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Mas, após o séc. XIX, conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo, como se fosse um documento canônico, é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica”

A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo, fascismo etc.). Na Alemanha, Rosenberg afirmava que a antiga Bíblia não é mais do que uma “coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros”.

Não obstante as objeções, de aparência por vezes sólida, a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é Palavra de Deus imperecível, significativa, portanto, também para os nossos tempos. Sendo assim, interessa-nos, antes do mais, examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. V e VI); a-seguir, consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura.

§ 1º - DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META

Quem abre o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história, tradições populares, profecias, máximas de sabedoria, cânticos religiosos etc. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. Com efeito, as variadas páginas do Antigo Testamento — diríamos mesmo: de toda a Sagrada Escritura — não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. A aliança é, conforme as páginas iniciais da Bíblia, travada com o primeiro homem logo depois da criação; este, porém, não a soube observar, violou-a; mas Deus, que não se deixa vencer em bondade, prometeu, após a ruptura, restaurar o pacto mediante novo homem dito “o Messias”. Isto faz com que toda a história, de então por diante, tome, do ponto de vista de Deus, o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida, etapas que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. Por conseguinte também, todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história, sejam crônicas, sejam leis, sejam profecias, direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. E isto o que, em última análise, nos leva a dizer que toda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora, ora preparada e anunciada (Antigo Testamento), ora efetuada (Novo Testamento); é, sim, para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual.

Esta afirmação, ainda assaz genérica, pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. Inegavelmente a história que ele nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Tal aspecto, porém, não constitui senão a periferia do Antigo Testamento; o olho da fé pode e deve discernir, sob a face externa, o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários; deve, em outros termos, procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios, pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fez com que tanta coisa fosse escrita sob o carisma da inspiração. Percorreremos, pois, abaixo, as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico, procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus.

1. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gn 1-3) caracterizada por três acontecimentos:

a) a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem;

b) violada, porém, pela criatura;

Deus a promete restaurar, estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente, a descendência da mulher e a da serpente (cf. Gn 3, 15). Isto implica que, após a queda original, a história, considerada à luz de Deus, tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado, a serpente e sua linhagem, isto é, todos aqueles que lhe aderem (anjos maus e homens prevarica¬dores); de outro lado, a mulher e sua posteridade, isto é, Eva penitente e todos aqueles que, por graça de Deus, não pactuam com a serpente.7 São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos, quando se consumará a vitória do Bem sobre o mal; é o jogo destes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos indivíduos. Eis o aspecto muito simples, mas, ao mesmo tempo, muito dramático, que a história universal tem aos olhos de Deus.

Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história, por mais explicável que pareça à luz de fatores naturais ou mecânicos, carece de caráter religioso; guerras, fomes, doenças foram, sim, introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão; são, pois, manifestações do reino do pecado ou de Satanás; doutro lado, os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor, manifestações ora mais claras, ora menos evidentes do reino de Cristo, tanto no indivíduo como na sociedade.

 

CONTINUA EM 05/12/2016

out 10

NOS CAMINHOS DA BÍBLIA – PARTE III

ESTUDOS BIBLICOS

ESTUDOS BÍBLICOS – PARTE III

            Neste mês  – outubro – continuamos levando aos nossos leitores todas as melhores condições para o aprimoramento na leitura, compreensão e interpretação das Sagradas Escrituras, a partir do quê, nasce o verdadeiro fiel. Ninguém pode ser verdadeiramente fiel a Deus, sem conhecer profundamente e sem compreender de fato Sua Palavra, ensinamentos e mandamentos.

            Com este objetivo, e tentando alcançá-lo da forma mais perfeita possível, estamos, prosseguimos com a publicação de diversos trechos do livro “Para Entender o Antigo Testamento”[1], de Dom Estevão Bettencourt[2], editado pela Santuário em 2013, sendo a primeira edição datada de 1956.

            Esperamos que o leitor, não apenas aprove nosso trabalho mas, e acima de tudo, decida-se pelo maior aprofundamento do tema, não apenas adquirindo o Livro indicado, mas, também, procurando aprimorar cada vez mais o conhecimento desta verdadeira fonte de vida, que a Bíblia Sagrada.

           Por se tratar de um capítulo extenso, continuamos com a transcrição do § 3º do Capítulo II do Livro, sob o título LIVRO INSPIRADO POR DEUS, onde o autor afirma que:

“§ 3.° COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA

(CONTINUAÇÃO)

            Com efeito, na literatura dos hebreus, que coincide com os escritos bíblicos, é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes, a transcrição de documentos dos arquivos orientais... Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos, aqueles se comprovam fiéis à verdade e condizentes com o que referem outras fontes. A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente, sob a influência de uma crença mono- teísta assaz forte para superar crises, aberrações, suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos.

            E como se explica que os rudes judeus, ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente, tenham com tanto esmero cultivado a historiografia?

            A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel, inconfundível com a das outras nações do Oriente. Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido, os hebreus julgavam-na toda perpassada por um plano divino, que nela se vai desdobrando e tende à consumação no fim dos séculos: viam, pois, nos grandes acontecimentos da história comunicações, ora mais claras ora mais veladas, de Deus; o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar realizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida. Entende-se, pois, que. movidos portal concepção, os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicas, dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce.

            Não seria justo, porém, afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. Outras observações se devem acrescentar à precedente, a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. Tenham-se em vista, portanto, ainda os seguintes itens:

a) a historiografia israelita é toda pragmática-religiosa, ou seja, procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos: sempre que possível, o historiador deduz a lição contida nos fatos. Aliás, entre os próprios pagãos, a história era geralmente considerada qual ‘'mestra da vida”, devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva deste princípio, pois, por revelação divina, sabiam que, de fato. Deus fala e age pelos acontecimentos.

   Em consequência, ninguém estranhará, em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura, a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana, valiosos, sim, para o erudito, mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis.

            Muito interessante a este propósito é confrontar os livros de Samuel e dos Reis com os das Crônicas. São, em grande parte, paralelos entre si; nota-se. porém, justamente nas seções paralelas que o autor de Cr, posterior aos de Sm e Rs, selecionou os dados da história, omitindo uns. acrescentando outros na trama anteriormente redigida, a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios. Por exemplo, a história do reino cismático do Norte (Samaria). referida em Rs, é silenciada em Cr, pois não interessa à linhagem messiânica, que passa pela Casa de Davi no reino meridional; quanto a Davi, é exaltado em Cr com títulos que até então só eram atribuídos a Moisés  (‘homem de Deus"; cf. 2Cr8, 14; “servo de Deus", cf. 1Cr 17, 4); o reino de Judá é dito "o reino de Javé” (cf. 2Cr 13. 8). o trono de Salomão é chamado "o trono de Javé” (cf, 1Cr 29. 23: 2Cr 9, 8). Em 2Cr 35. 21s, o cronista, ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias. de Judá, faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência; o relato paralelo falta em 2Rs 23, 28-30 (onde se poderia esperar).

            Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus. No segundo, as intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais frequentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mc 6, 1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antíoco Epifanes, perseguidor do povo de Deus) e 2Mc 9, 1-28 (descrição muito mais longa e calorosa, cheia de entusiasmo religioso); 1Mc 5, 31-43 e 2Mc 10,29. O autor de 2Mc não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tomo deste ou daquele episódio (cf. 2Mc 3, 1; 4, 15-17; 5, 17-20; 6, 12-17; 9, 5; 12,43; 13, 7; 15, 7-10).

            Chama-se midraxe a narração de fatos históricos à luz do plano de Deus ou evidenciando o sentido religioso desses fatos. Midraxe, portanto, não é ficção, mas a proposição do valor teológico de acontecimentos reais.

            Em consequência do seu pragmatismo, a cronografia bíblica é por exegetas modernos chamada “história profética”. Esta designação talvez pareça paradoxal, pois a história se refere ao passado, enquanto a profecia ao futuro. Note-se, porém, que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido atrás exposto), homens que tudo viam à luz de Deus; ora o Altíssimo não permitiu que fizessem a descrição do pretérito como se fosse algo de fechado em si; ao contrário, fez que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro, constituindo o esquema ou prenuncio de realidades maiores vindouras — o que justamente é profecia. O que interessava aos autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado, nem perscrutar o porvir, mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que, imutável em si. se vai desdobrando em fases simétricas, adaptadas ao desenvolvimento moral e intelectual do gênero humano;

b) o senso de propriedade literária, de “direitos autorais”, era muito exíguo no Oriente antigo; ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor, quando comparados com o magistério de viva voz. Em consequência, os historiadores semitas, os nossos hagiógrafos inclusive, se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes; praticavam assim o que se chama “citações implícitas”. É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagens assim transcritas, embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos.

 

CONTINUA EM 14/11/2016

____________________________________________

[1] BETTENCOURT,  Dom Estevão. Para Entender o Antigo Testamento. São Paulo. Santuário: 2013.  286 páginas.

[2] Dom Estevão Bettencourt nascido no Rio de Janeiro no dia 16 de setembro de 1919, foi batizado com o nome de Flávio Tavares Bittencourt e tornou-se um dos maiores teólogos brasileiros do século XX, foi monge beneditino. Entrou para o Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, em 1936, sendo ordenado em 18 de julho de 1943. Como professor, a partir de 1945, atuou na Casa de Estudos dos Beneditinos; na Universidade Santa Úrsula; na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; na Universidade Católica de Petrópolis; no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro; na Escola Superior de Fé e Catequese Mater Ecclesiae; na Escola Luz e Vida de Catequese. Faleceu em 14 de abril de 2008, aos 88 anos de idade.

 

set 05

NOS CAMINHOS DA BÍBLIA – PARTE II

ESTUDOS BIBLICOS

ESTUDOS BÍBLICOS – PARTE II

            Neste mês  – setembro – no qual comemoramos o dia da Bíblia, queremos levar aos nossos leitores todas as melhores condições para o aprimoramento na leitura, compreensão e interpretação das Sagradas Escrituras, a partir do quê, nasce o verdadeiro fiel. Ninguém pode ser verdadeiramente fiel a Deus, sem conhecer profundamente e sem compreender de fato Sua Palavra, ensinamentos e mandamentos.

            Com este objetivo, e tentando alcançá-lo da forma mais perfeita possível, estamos, a partir deste mês, destacando diversos trechos do livro “Para Entender o Antigo Testamento”[1], de Dom Estevão Bettencourt[2], editado pela Santuário em 2013, sendo a primeira edição datada de 1956.

            Esperamos que o leitor, não apenas aprove nosso trabalho mas, e acima de tudo, decida-se pelo maior aprofundamento do tema, não apenas adquirindo o Livro indicado, mas, também, procurando aprimorar cada vez mais o conhecimento desta verdadeira fonte de vida, que a Bíblia Sagrada.

            Prosseguimos, transcrevendo o § 2º do Capítulo II do Livro, sob o título LIVRO INSPIRADO POR DEUS, onde o autor afirma que:

“§ 2.° A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS 

Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado, a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus, entra por vezes em aparente conflito com as ciências da natureza.

Como será isto possível?

Antes do mais, observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever, era estritamente religiosa: o Espírito Santo, pelos autores bíblicos, quis ensinar aos homens unicamente verdades que importem à salvação eterna, de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. Contudo, já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza, a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física, astronômica, biológica etc.). Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo; não são visadas em si, mas em função de proposições religiosas. Desta afirmação decorrem importantes consequências:

às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veraci­dade absoluta;

quanto às referências de outra ordem, podem exprimir veraci­dade relativa, popular, pré-científica, a qual se distingue da veracidade científica, refletida, técnica. Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que “o sol nasce e se põe”; fala-se da baleia como “peixe”, do morcego como “ave” etc. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo, pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam. Mesmo quando o homem de ciências se refere ao “nascer” e ao “pôr” do sol, todos sabem que não quer ensinar astronomia, mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos, sem os induzirem erro científico. Ora o Espírito de Deus, ao inspirar os hagiógrafos, não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos seres vivos; permitiu, pois, que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. Tais noções, embora imperfeitas aos olhos do homem moderno, eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus, como se propunha o hagiógrafo; servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos.

O leitor contemporâneo, portanto, não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas, cosmológicas, biológicas... Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor, não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se referem às criaturas materiais. Procedem, sim, de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos, refere-os as suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo; não lhe interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia). A Bíblia, ao contrário, tudo contempla a partir de um plano superior; só lhe interessa, por assim dizer, a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa, enquanto a da Bíblia, versando sobre os mesmos temas, pode ser assaz livre, impregnada unicamente de veracidade popular.

Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Gn 1, 1-2, 4a. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é, aos olhos da ciência moderna, insustentável (a luz seria anterior às estrelas; haveria uma abóbada cristalina, o firmamento, sobre a terra); todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos. Ora bastava ao hagiógrafo esta veracidade relativa, pois ele não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou, mas, sim, inculcar que todos os seres designados mediante “tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador, destinadas a refletir, com o homem, a perfeição do Altíssimo (no caso. como se vê, pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas, desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem).

Outro texto significativo é o de Lv 11,6, onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. A classificação é, sem dúvida, deficiente; não carece, porém, de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os maxilares e os lábios); e tal veracidade era suficiente para que o Espírito Santo, mencionando-a na Lei, despertasse no israelita uma atitude religiosa, ou seja, fidelidade e amor a Deus.

A luz destes princípios e exemplos, mostra-se inconsistente a suspeita de desacordo entre a Sagrada Escritura genuinamente entendida e os genuínos dados da ciência.7

3.° COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA

Os antigos povos do Oriente, por muito elevado que fosse o seu grau de cultura, pouco prezavam a história... Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados, os quais se repetem regularmente; acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura; a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada, cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto; todo o movimento que se registra entre os dois termos nada de novo acarreta!). Este circular contínuo e monótono da história era dito “o ritmo do yin e do yang", “a aspiração e a expiração de Brama", “a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos”. ”a incessante alternância da Discórdia e da Amizade”.*

Em consequência, a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos ciclos do mundo presente mediante a ascese. o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo, a fim de passarem a viver num mundo transcendente.

Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia, ou seja, com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana. Quando o faziam, visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias, mitológicas, de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos, mas eram, em grau maior ou menor, a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta, exuberante (nos diversos acervos de ruínas escavados no Oriente até hoje, não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos; apenas se descobriram elementos — inscrições, documentos parciais — para se reconstituir a história da Assíria, do Egito etc.).

Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história, e o ter feito com esmero tal que só foi superado pelos gregos, mestres da historiografia ocidental. É o que reconhecem, não sem admiração, os críticos modernos racionalistas:

"Dentre todos os povos asiático-europeus. somente Israel e a Grécia possuem autêntica historiografia. Em Israel, que ocupa lugar privilegiado entre todos os povos civilizados do Oriente, a historiografia se originou em época tão remota que causa surpresa, e produziu logo de início obras de importância ... Na Grécia surgiu mais tarde”.

CONTINUA EM 03/10/2016

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[1] BETTENCOURT,  Dom Estevão. Para Entender o Antigo Testamento. São Paulo. Santuário: 2013.  286 páginas.

[2] Dom Estevão Bettencourt nascido no Rio de Janeiro no dia 16 de setembro de 1919, foi batizado com o nome de Flávio Tavares Bittencourt e tornou-se um dos maiores teólogos brasileiros do século XX, foi monge beneditino. Entrou para o Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, em 1936, sendo ordenado em 18 de julho de 1943. Como professor, a partir de 1945, atuou na Casa de Estudos dos Beneditinos; na Universidade Santa Úrsula; na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; na Universidade Católica de Petrópolis; no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro; na Escola Superior de Fé e Catequese Mater Ecclesiae; na Escola Luz e Vida de Catequese. Faleceu em 14 de abril de 2008, aos 88 anos de idade.

 

ago 15

NOS CAMINHOS DA BÍBLIA – PARTE I

ESTUDOS BIBLICOS

ESTUDOS BÍBLICOS –

                 Ao nos aproximarmos do mês da Bíblia – setembro - queremos levar aos nossos leitores todas as melhores condições para o aprimoramento na leitura, compreensão e interpretação das Sagradas Escrituras, a partir do quê, nasce o verdadeiro fiel. Ninguém pode ser verdadeiramente fiel a Deus, sem conhecer profundamente e sem compreender de fato Sua Palavra, ensinamentos e mandamentos.

                  Com este objetivo, e tentando alcançá-lo da forma mais perfeita possível, estamos, a partir deste mês, destacando diversos trechos do livro “Para Entender o Antigo Testamento”[1] , de Dom Estevão Bettencourt [2] , editado pela Santuário em 2013, sendo a primeira edição datada de 1956.

                    Esperamos que o leitor, não apenas aprove nosso trabalho mas, e acima de tudo, decida-se pelo maior aprofundamento do tema, não apenas adquirindo o Livro indicado, mas, também, procurando aprimorar cada vez mais o conhecimento desta verdadeira fonte de vida, que a Bíblia Sagrada.

                  Iniciamos pelo Capítulo II do Livro, sob o título LIVRO INSPIRADO POR DEUS, onde o autor afirma que:

“Capítulo II

LIVRO INSPIRADO POR DEUS

Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus, Livro inspirado pelo Altíssimo; goza, pois, de autoridade única.

O conceito, porém, de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. Não poucos se surpreendem ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas, a documentos da literatura antiga; também não vêm como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico, com a crítica literária e paleográfica do texto, com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc. “Livro inspirado por Deus” parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano.

Ao estudo deste problema, que é capital em toda iniciação bíblica, se dedicará o presente capítulo, abordando primeiramente o conceito de inspiração em si (§ l.°), depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2.°) e da história profana (§ 3.°).

§ l.° QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BÍBLICA?

Na procura da resposta autêntica à pergunta, faz-se necessário remover logo duas opiniões errôneas:

a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação, comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor. A inspiração pode, sim, estar associada a este outro dom divino, ou seja, ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. Isto, porém, não ocorre necessariamente; verificou-se, por exemplo, quando os profetas de Israel, séculos antes de Cristo, consignaram por escrito pormenores da vida do Messias, tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Mq 5, 1), sua Paixão expiatória (Is 50, 4-10; 52, 13-53, 12), sua transfixão na cruz (Zc 12, 10)... Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica, visto que deviam fazer parte da Escritura, e o da revelação, pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana. Quando, porém, os evangelistas, a seu turno, consignáramos mesmos episódios (cf. Mt2,6; 8,17; Jo 19,37; At 8,32s.),já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica, não por revelação divina, pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas.

De resto, os autores bíblicos apelam frequente mente para a sua experiência; atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. Jo 19, 35; 21, 24; lJo 1, 1-3), ter investigado documentos, consultado testemunhas (cf. Lc 1,1-4; 2Mc 2, 24-32; 11, 16-38); citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel, por exemplo, em iCr27,24;29,29;2Cr9,29; lRs 14,19.29; 15,7.23.31.,.). Isto tudo quer dizer que, na Bíblia redigida sob a inspiração divina, vamos encontrar noções que diríamos “humanas” (não falsas, porém), ou seja, proposições verídicas, formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade;

b) se a inspiração bíblica não é necessariamente revelação, também não consiste em ditado meramente mecânico, tal como se dá entre o autor de uma carta e seu datilografo. Esse ditado dispensaria toda a ciência pessoal do hagiógrafo, bem como o seu esforço de composição literária; o livro estaria, por assim dizer, emancipado de vestígios da personalidade do autor humano.

Em termos positivos, que é, pois, a inspiração bíblica?

Supondo no homem um cabedal de cultura, Deus, pela inspiração, ilumina a inteligência do hagiógrafo, de sorte que este, com a lucidez do próprio Deus, perceba tais e tais verdades, previamente adquiridas, serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores. Essa iluminação faz com que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas, enquanto as proposições aptas a este fim lhe são apresentadas como tais. Em outros termos: a inspiração faz com que, com a clarividência de Deus, o hagiógrafo examine a veracidade das noções que ele tem na mente, as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo. Como se vê, este processo não implica comunicação de novos conhecimentos, mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiri¬das. Além de iluminação da inteligência, a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo, a fim de que este resolva escrever e de fato, sem o mínimo erro. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada.” (CONTINUA).

CONTINUA EM 05/09/2016

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[1] BETTENCOURT,  Dom Estevão. Para Entender o Antigo Testamento. São Paulo. Santuário: 2013.  286 páginas.
[2] Dom Estevão Bettencourt nascido no Rio de Janeiro no dia 16 de setembro de 1919, foi batizado com o nome de Flávio Tavares Bettencourt e tornou-se um dos maiores teólogos brasileiros do século XX, foi monge beneditino. Entrou para o Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, em 1936, sendo ordenado em 18 de julho de 1943. Como professor, a partir de 1945, atuou na Casa de Estudos dos Beneditinos; na Universidade Santa Úrsula; na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; na Universidade Católica de Petrópolis; no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro; na Escola Superior de Fé e Catequese Mater Ecclesiae; na Escola Luz e Vida de Catequese. Faleceu em 14 de abril de 2008, aos 88 anos de idade.

jul 01

DA BÍBLIA, A VIDA!

LER A BÍBLIA

BÍBLIA SAGRADA: LUZES E CAMINHOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

            Uma das leituras que mais aprecio fazer é a da Bíblia Sagrada! A razão é simples: ao contrário do que muitos afirmam, a leitura da Bíblia não é uma atividade fácil. Ela exige de tudo um pouco: conhecimento, paciência, disciplina, dedicação, persistência, raciocínio e, o básico, a fé. Sem ter um pouco de tudo isso, e de forma cumulativa, a pessoa não consegue extrair da Bíblia a mensagem pura e cristalina que está escondida nas suas entrelinhas, passando ao largo dos segredos e das revelações que estão ali, bem à frente dos olhos de quem lê.

           A Bíblia é, sem nenhum exagero, um verdadeiro labirinto, e quem quiser caminhar por ele, precisará estar bem equipado, se não quiser correr o risco de perder-se num fabuloso emaranhado de palavras, fatos, histórias, profecias, promessas, castigos e recompensas, tudo isso, com a adição de reis, rainhas, profetas, patriarcas e enviados de Deus. E, o risco maior: chegar à conclusão de que Deus é vingativo e que aprecia ver o sofrimento humano, sem importar-se com o seu destino, além de ser extremamente personalista e ciumento, buscando o culto único para si próprio. A tudo isso está sujeito aquele que inicia o percurso pelo cenário bíblico, sem estar equipado com uma bússola possante, que possa indicar-lhe os pontos cardeais do Livro Santo.

           O labirinto central, e mais amplo, conduz a outros menores e assim, de tal forma que, em dado momento, a pessoa desiste da leitura por um bom e longo período e, quando decide retornar, refaz o mesmo percurso e comete os mesmos equívocos, num ir e vir sem destino certo e sem chegar a lugar algum.

      Entretanto, o conjunto de labirintos é ladeado por saídas emergenciais que permitem uma visão mais acurada de todo o conjunto literário. Ou seja, algumas portas estão, naturalmente, abertas para facilitar a entrada em outros patamares, de onde possam ser vistos pontos de proximidade e de chegada nos planos divinos.

        A leitura dos (des)caminhos percorridos pelo povo, levará à entronização do primeiro rei de Israel, exigido pelo povo e aceito por Deus (ISm 8, 4-9) e introduzirá o leitor na seara dos profetas e, por sua vez, na atuação dos reis, primeiro de Israel e, depois, de Judá levando-o a conhecer, inclusive, as razões pelas quais Deus, mesmo tendo prometido um reinado eterno ao rei Davi, dividiu o reino de Israel em dois: norte e sul, decidindo pela destruição de ambos, não sem, antes, valer-se dos profetas, para levarem ao povo as exortações, as críticas, os castigos e a esperança. 

           A leitura do Pentateuco, por exemplo, que é composto pelos cinco primeiros Livros da Bíblia – Gêneses, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio –  tem como portas principais a compreensão da origem do ser humano e da expulsão do paraíso, as razões que levaram Deus a escolher a oferta do justo Abel, em detrimento de Caim, o nascimento, a vida e a escolha de Moisés para libertar o povo da escravidão do Egito e a condução deste mesmo povo rumo à terra prometida. Deste conjunto, tem-se a Aliança entre Javé e seu povo. A compreensão do significado desta Aliança, que está fundamentada nas promessas divinas e na exigência de fidelidade do povo, levará ao entendimento do que mais tarde ocorrerá com a deportação para a Babilônia, sob o jugo de Nabucodonosor, com a destruição do Templo e o desmantelamento de Jerusalém. Ver-se-á, aqui, o quanto o povo se distanciou do culto e da reverência ao Deus Único e Verdadeiro, para adorar e prestar culto aos deuses estrangeiros que, aos poucos foram sendo infiltrados no meio do povo hebreu. Este culto idólatra adicionado à prática do mal e dos costumes contrários à Lei ditada por Moisés, levou o ser humano a um novo estágio de desobediência, semelhante àquele vivido por nossos primeiros pais, ainda no jardim do Éden.

       A pesquisa sobre o antes, o durante e o pós-exílio com, inclusive, o restabelecimento do culto e a reconstrução do Templo por Zorobabel e outros ex-cativos, assim como as reformas promovidas por Esdras e Neemias, fará com o que o leitor atento perceba de forma bastante clara as conexões que levam ao nascimento e ao reinado eterno do Messias, configurados no Novo Testamento, e daí aos Livros posteriores aos Evangelhos (Atos dos Apóstolos e Cartas Apostólicas) e, tudo somado, ao Livro do Apocalipse.

            O que foi dito até aqui não é sequencial, ou seja, não obedece a uma  sequência lógica dos Livros bíblicos, apenas apontamos alguns pequenos exemplos do quão intrincados são o estudo e a pesquisa da Bíblia Sagrada, a dificultarem a compreensão daqueles que não estejam sendo guiados por companheiros de viagem que já trilharam inúmeras vezes pelas Estradas Sagradas.

            Por estas razões, e para auxiliar os leitores (leigos) da Bíblia, é que procede a sugestão para que, antes de qualquer iniciativa de leitura ou do estudo, procure cercar-se da companhia de pessoas mais instruídas no campo da exegese, a fim de que a atividade ultrapasse a linha da simples e mera leitura, atingindo o estudo propriamente dito, de modo a que o leitor/pesquisador possa extrair da sua atividade o maior proveito possível, adquirindo uma compreensão tal, que terá a sensação de que segredos e mistérios estão sendo-lhe realmente revelados, e em abundância, tamanha a importância do estudo/pesquisa acompanhado e direcionado por quem realmente possui domínio sobre os textos bíblicos.

      Ao assim proceder, o leitor/pesquisador da Bíblia sentir-se-á amplamente recompensado, pois, como dito acima, passará a compreender o Texto Sagrado na sua verdadeira dimensão e significado, deixando de ser uma questão restrita a certos meios intelectualizados, para tornar-se um vasto e aberto campo do conhecimento disponível a todos os filhos de Deus para os quais a Palavra foi escrita.

            É preciso, apenas e por último, prestar atenção e tomar os devidos cuidados, para não cair nas mãos dos “falsos pastores”, aqueles que, vestidos com peles de ovelhas, conduzem o rebanho para a toca dos lobos. Aí, a ruína será grande e avassaladora.

         Caso não conheça, ou não confie em alguém apto a prestar-lhe o auxílio sugerido, matricule-se em um curso de Teologia reconhecido pelas autoridades educacionais e vá, você mesmo, desbravar estes caminhos. Ao final, verá a riqueza que terá adquirido para a sua vida podendo, inclusive, prestar auxílio a outros irmãos que ainda estejam “meio perdidos”, sem saberem como iniciar um estudo aprofundado das Sagradas Escrituras. Vale a pena e incendeia o espírito ávido por conhecer a Palavra, os ensinamentos e as promessas que o Senhor reservou para o seu povo. Faça a experiência, você não se arrependerá!

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*Luiz Antonio de Moura é graduado em Direito (Universidade Católica de Petrópolis), pós-graduado em Direito do Trabalho (Universidade Estácio de Sá) e em Administração Pública (Fundação Getúlio Vargas-RJ), trabalha no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região - RJ e, atualmente, é aluno de Teologia no Instituto Teológico Franciscano - ITF, em Petrópolis-RJ. Administra o site www.lisaac.blog.br e a página Sementes de vida: É tempo de semear, no Facebook.
 

jun 05

CÍRCULO BÍBLICO – PARTE I

CÍRCULOS BÍBLICOS

OS CÍRCULOS BÍBLICOS –

 *Por Carlos Frederico Schlaepfer –

            Os Círculos Bíblicos nasceram e se desenvolveram a partir da necessidade da leitura e aprofundamento da Palavra de Deus, junto às comunidades católicas. Sua finalidade não é apenas estudo, mas também um momento importante de convivência e oração. Partindo da reflexão sobre a vida de cada um dos participantes, mesmo com suas diferenças, a Palavra de Deus se torna uma luz para poder melhor enxergar os caminhos a serem trilhados por todos. A fé, a Bíblia e a vida tornam-se elementos fundamentais nesta fantástica experiência de caminhar à Luz da Palavra de Deus.

            Entre os primeiros cristãos era comum a prática de reunir-se em torno da Palavra de Deus e da Eucaristia nas casas, as igrejas domésticas (Cf At 2,42-47). O Apóstolo Paulo destaca muitas destas casas/igrejas que se colocaram a serviço da evangelização (Rm 16,5; 1 Cor 16,9; Fil 4,22; Cl 4,15). Já na atividade missionária de Jesus a casa sempre foi lugar especial de aproximação e acolhimento, de fraternidade e escuta de seus ensinamentos. Da mesma forma, nos círculos bíblicos, as pessoas se reúnem nas casas sob a coordenação de um dos participantes, sempre com o mesmo objetivo, ou seja, fazer com que grupo possa encontrar a vida em Cristo tornarem-se mais próximos, solidários, criando novas comunidades fraternas. A consequência é formar uma comunidade e uma presença de “Igreja” naquele local. Os círculos bíblicos portanto, são a presença da Igreja nas regiões geográficas das paróquias.

        Na sua essência, o círculo bíblico é missionário. Pelo fato de ser realizado nas casas, o convite é aberto aos vizinhos ou parentes que estejam um pouco afastados da Igreja ou do próprio Deus. Os participantes são verdadeiros missionários da Palavra de Deus. Ao longo do ano são aprofundados vários temas, conforme os subsídios semanais, que se encontram no jornal O Pilar todos os meses. O Grupo refletindo junto vai descobrir na vida e na Bíblia muitas riquezas que são aplicadas na própria vida e na vida do grupo ou da comunidade. Não podemos esquecer que a Palavra de Deus é exigente e pede ação: “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Mt 7,24). A Palavra é luz para os nossos passos!

          Ao examinarmos o conhecido texto de Lucas 24,13-35, dos discípulos de Emaús, percebemos uma relação imediata com a dinâmica dos círculos bíblicos. A conversa de Jesus com os discípulos de Emaús torna-se um paradigma dessa reflexão. Jesus Cristo é a Palavra encarnada. Ele se torna presente entre nós. É sempre Ele quem dá início à conversa. Jesus, a Palavra encarnada, o Verbo, cria um ambiente de conversa e, com muito jeito, faz os dois falarem sobre os problemas que eles estavam vivenciando naqueles dias. Na conversa aparece toda a realidade: a tristeza, o desânimo, a frustração dos dois, a sua falsa esperança de um messias glorioso, a incapacidade dos dois em crer nos pequenos sinais de esperança. (Lc 24, 13-24). É a Palavra que ilumina nossa história. É Jesus vivo entre nós que nos faz perceber o sentido dos acontecimentos.

              Jesus usou as várias passagens correlatas da Bíblia para com elas interpretar os fatos da vida e animar os dois discípulos. Ao começarmos a falar sobre a Palavra proclamada que ilumina nossa história, logo vêm à memória outros trechos bíblicos. Jesus assim refletiu com eles. Junto com os dois, Ele soube encontrar aqueles textos de Moisés e dos profetas que pudessem trazer alguma luz para a situação de tristeza que os impregnava. (cf. Lc 24, 25-27). Assim acontece também em nossos encontros de círculos bíblicos, quando a Palavra ilumina a história iluminada pela Palavra. Passamos a ver a nossa história pessoal e comunitária iluminada e não mais uma história inventada para motivar – agora é o Verbo encarnado que nos motiva a reflexão.

       Jesus andou com eles, conversou, criou um ambiente de abertura e teve a paciência de escutá-los. Falando da vida e da Bíblia, agradou tanto que o coração dos dois se esquentou, e eles chegaram a convidá-Lo para jantar. Ficou com eles, sentou à mesa, rezou com eles e fez a partilha do pão, como se tornou costume entre os cristãos que tinham tudo em comum. Jesus não só falou, mas colocou gestos bem concretos de amizade.

            Ora, tudo isto é o ambiente da comunidade, onde se procura viver como irmão. É aí que se faz a experiência da ressurreição, do Cristo vivo no meio de nós; a experiência de Javé, Deus libertador (Lc 24, 28-32). Escutar a Palavra aquece o coração e nos faz missionários: os discípulos de Emaús, que estavam desanimados, retornam para encontrar os discípulos e continuar “o caminho”.

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*Carlos Frederico Schlaepfer  é  Doutor pela PUC do Rio e Professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis
   

mai 22

A IMPORTÂNCIA DA TEOLOGIA

TEOLOGIA

POR QUE ESTUDAR TEOLOGIA?

 *Por Carlos Frederico Schlaepfer –

 “Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste. E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2 Tim 3,14-17).

                 Com as palavras presentes na carta de Paulo a Timóteo, inicio uma pequena reflexão sobre a importância do estudo de teologia. O conhecimento da Palavra de Deus é fundamental para darmos testemunho de nossa fé (1 Pe 3,15). Há oito séculos antes de Paulo e Pedro, o profeta Oséias já afirmava: “porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por teres rejeitado a instrução, excluir-te-ei de meu sacerdócio; já que esqueceste a lei de teu Deus, também eu me esquecerei dos teus filhos” (Os 4,6).

              O estudo e compreensão da Palavra de Deus é fundamental para estabelecer um diálogo, seja através da oração ou na busca de uma vivência e experiência de Deus. 

               Muitos se enganam quando pensam que o estudo da teologia é campo apenas para intelectuais ou acadêmicos; também se enganam aqueles que dizem que o estudo da teologia contribui para o enfraquecimento de nossa fé. Ao contrário, o estudo da teologia é tarefa para todos nós. Muitas vezes realizamos nossos serviços pastorais, seja na formação catequética, preparação da liturgia e outros, sem um mínimo de conhecimento teológico da Palavra de Deus, o que nos traz insegurança e consequentemente desânimo de continuar nossa caminhada dentro da Igreja.

                     A Igreja, desde o Concílio Vaticano II, nos exorta a aproximar-nos da Palavra de Deus, através do estudo e oração. No XII Sínodo dos Bispos de 2008 sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, se afirma enfaticamente: “Esse Sínodo recomenda que se intensifique a pastoral bíblica, não a justapondo a outras formas de pastoral, mas como animação bíblica de toda a pastoral”. Aqui a novidade não é somente a expressão “animação bíblica”, mas o acréscimo: “de toda a pastoral”. Portanto, o estudo teológico da Palavra de Deus se torna imprescindível para todos quantos queiram de fato tornar a pastoral animada, ou seja, com alma, através da Palavra de Deus.

                 Uma formação teológica, verdadeira e autêntica, nos alimenta e faz crescer na fé. Ajuda-nos a superar uma visão infantil da fé que recebemos no período da catequese. Ali, o que aprendemos foi adequado à nossa idade e maturidade. Entretanto crescemos, tornamo-nos adultos, estudamos, muitas vezes formamo-nos e continuamos com a mentalidade religiosa de pré-adolescentes. Neste sentido e de acordo com o que pede nossa Igreja, muitas Dioceses iniciaram cursos regulares de teologia, sem a pretensão de titulação. São leigos e leigas, padres, religiosas e religiosos, bispos que contribuem com a formação teológica de inúmeras lideranças de comunidades, participantes de diversas pastorais e serviços ou muitas vezes de pessoas que participam destes cursos apenas para conhecimento sobre a teologia e passam a compreender que a teologia não é só uma questão de conhecimento, mas principalmente de vivência da fé.

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*Carlos Frederico Schlaepfer  é  Doutor pela PUC do Rio e Professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis

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