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jan 01

ESPAÇO ABERTO: UMA HISTÓRIA, UMA VIDA

ANA DE JESUS: A VIDA DEDICADA A CRISTO E AO CARMELO

 

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                                     Hoje vamos contar um pouco da história de vida de uma pessoa maravilhosamente serena e sábia, embora não seja detentora de títulos acadêmicos. Uma pessoa que entregou sua vida, sua história e sua alma nas mãos do Filho de Deus, confiando de forma absolutamente segura em que, vencida esta etapa terrena, cruzará definitivamente os umbrais do Reino de Deus.

                                 Falo de Ana de Jesus, nascida no sul de Minas Gerais, numa localidade próxima ao Município de Tocos do Moji, filha de José Virgínio Pereira e de Maria de Faria Pereira, cujo o nome de batismo é Ana Maria Pereira.

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Tocos do Moji-MG

                                   Ana Maria começou sua vida de forma bastante simples, filha de pessoas humildes que, por meio do trabalho, conquistaram a honra e da honradez, o troféu por todo o trabalho que realizaram. Infelizmente, já próximo de completar seus primeiros três anos de vida , Ana Maria percebeu a presença da morte perto de si, que viera buscar seu querido e amado pai.

                                    Na sua autobiografia, publicada em 2013, Ana revela as recordações daquele momento dramático, que ainda guarda na memória:

“Primeira recordação do alvorecer de minha infância: contemplo meu pai, deitado, com uma fisionomia plácida e muito pálido, com um terno preto ou azul marinho. Era bonito, feições finas e delicadas. O meu irmão Zezinho herdou a sua aparência fisionômica. É a única lembrança que ainda está presente em minha memória. Seu rosto transmitia uma grande tranquilidade e ao mesmo tempo, parecia estar contemplando algo de surpreendente e magnífico. Ela estava mergulhado em Deus, com Deus. e, agora, Ele o possuía para sempre! Eu vi minha tia e logo perguntei-lhe: Titia, papai está dormindo? E ela, com um rosto dominado por uma notável consternação, disse-me: “Sim, filhinha, papai está dormindo”. E eu concluí: se papai está entregue ao sono, por que tanta tristeza? O que ela dizia era verdade: sim, ele dormia o sono da paz.”
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A mãe, o pai e as três irmãs mais velhas

                                     A ausência do pai trouxe para a família um enorme transtorno e Ana Maria, ainda bem pequenina, viu a força da mãe, de apenas trinta anos de idade, imperar, pois, diante da dura realidade, com quatro filhos menores e morando em um sítio, partiu para o trabalho sem medo e sem se acovardar.

                                  Ana conta que, pequena e travessa, brincando no meio dos bois, um deles esmagou sua tíbia e, por pouco, não ficou impossibilitada de andar. Isso porque, ao chegar ao hospital, foi atendida por um profissional despreparado que, sem mais delongas, aplicou-lhe uma medicação que provocou um choque anafilático, quase fatal. Passado algum tempo, ela diz que caiu no colégio e fraturou a perna direita, próximo da fratura anterior, ficando novamente hospitalizada: “Quando fiz oito anos estava em convalescência e passei esse dia na casa de meus tios, em Pouso Alegre-MG .”

                                A perda do pai, por certo, não fora superada por aquela pequena criança que, nada tendo a fazer para mudar o destino, seguia com sua vidinha interiorana e alheia aos sofrimentos dos adultos. Porém, ela ainda hoje, quando busca na memória pelas recordações daquele tempo, afirma sem titubear:

“Minha mãe foi uma grande heroína, sofreu problemas sérios de saúde com cada filho em particular. Minha irmã mais velha foi fazer chá para sua boneca – “sua filha” – o fogo pegou em seu vestido – queimadura de 3º grau. Traz a cicatriz até os dias de hoje”

                                  O tempo, como sempre, passou. As marcas e as cicatrizes físicas e psicológicas foram superadas, ou, acolhidas em repouso no fundo de uma alma voltada para o transcendental. Daí, fazendo um corte rigoroso no tracejado do tempo, vamos encontrar Ana Maria Pereira já adolescente, conhecedora das pequenas paixões humanas e das possibilidades oferecidas pelo mundo materialista e consumista, voltando-se para Deus e decidindo entregar-se Àquele que um dia levara seu pai para junto de Si. É incrível a história de uma freira que somente recebeu a primeira Eucaristia aos quatorze anos. Pois foi justamente isso que aconteceu com Ana Maria que, mesmo após receber a primeira comunhão, continuou sua vida da forma mais natural possível, mantendo a paixão pela dança, pelo divertimento e pelos “namoricos”, indo à missa de vez em quando, agindo muito mais como expectadora do que como participante ativa e fervorosa, como era de se esperar.

                                       Deus porém, não busca os grandes e sábios deste mundo. Olhou para aquela pobre mocinha, com suas ilusões, suas incertezas e inseguranças e tocou seu coração de forma tão eficaz, como ocorre com o peixe ao perceber que o anzol está definitivamente preso em sua boca. Tal qual o peixe, aquele que é tocado pelo Senhor, sacode-se de um lado para o outro tentando provar a si mesmo que tudo está normal em sua vida; que ainda está no comando absoluto do seu destino e que nada poderá alterar o rumo da sua caminhada. Ledo engano. A partir daquele toque de Deus na alma do homem nada, absolutamente nada mais será como antes.

                                           Em sua autobiografia, Ana Maria recorda Santo Agostinho e eleva a Deus a seguinte oração:

“Senhor, perdão por minha grande indiferença à santa missa. Tu és luz, e eu continuava nas trevas... Tu és tudo, e eu nada queria... Tu és a mão, e eu mantinha os braços presos a mim mesma...”Jesus é a mão estendida aos pecadores”. Tu és a força, e eu me mantinha parada. Tu és o amor, e eu, o desamor. Tu és Deus, e eu, criatura vil desprezada sem rumo e sem estrada.”

                                   Passar um período no interior de São Paulo, na casa da irmã mais velha, foi decisivo na vida de Ana Maria pois, conforme ela própria reconhece, todas as coisas começaram a ser transformadas. Ela não recorre à Palavra do Senhor, mas, quero lembrar, aqui o que dizem as Escrituras: “Eis que eu renovo todas as coisas (...). Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21, 5.6-7).

                                       O primeiro sábado em São Paulo instigou nela o desejo de ir à danceteria, com a condição de retornar até às nove horas em ponto. Depois desse episódio, tomou conhecimento de que sua irmã, com o marido, integrava um círculo de estudo bíblico juntamente com outros casais. Em pouco tempo, ela também estava interagindo com um grupo de jovens, onde fora muito bem recebida e, para sua surpresa, sentiu a forte presença de Jesus naquele ambiente. Ela conta que, ao chegar na cidade, “arrumei sem demora um flerte e concomitantemente participava da comunidade.” Entretanto, ressalta, seus olhos começaram a ser abertos e logo tomou consciência de que nenhum amor humano poderia preencher sua vida de forma tão completa como o amor de Jesus, afirmando que, de repente, tudo se fez luz à sua volta e ela percebeu de forma bastante clara que “nenhum homem poderia satisfazer o meu coração plenamente. Somente Ele, Jesus. E Agostinho diz: o meu coração estava inquieto enquanto não repousei em ti Senhor!”

                                      A partir de então, Ana Maria teve ciência de que o matrimônio não era o seu destino, decidindo lançar-se nos braços do Senhor, à Ele entregando sua vida, sua alma e toda a sua existência, nessa e na vida futura.

                                 É riquíssima a história da vida desta freira que, por fim, depois de algumas peregrinações por conventos religiosos, decidiu-se pela Ordem das Carmelitas Descalças, fundada por Santa Teresa de Ávila com o auxílio direto de São João da Cruz.

                                  Conversando com ela, fazendo algumas indagações sobre sua trajetória, contou-me que, confiando na promessa feita por Jesus, de que quem deixar tudo para segui-lo receberá, ainda nesta vida, o cêntuplo do que tiver deixado, abandonou todos os projetos de vida que um dia elaborara cautelosa e pacientemente, para seguir Aquele que revelou ser o seu único ideal de vida, porque supera qualquer projeto humano.

                                    Em meio a tantas perguntas e respostas, destaquei uma que iluminou minha alma:

“Sem modéstia, a senhora quer ser santa? Pretende ser reconhecida um dia como santa, ou apenas procura viver santamente?

R - Sim. Trabalho por minha santidade e desejaria ser reconhecida como santa, contudo a cada momento vejo a minha pequenez, o meu nada, no entanto Maria disse: “Ele olhou a minha pequenez”! E o salmo 112, 7 diz assim: Da poeira Ele levanta o indigente e do lixo Ele retira o pobrezinho para fazê-lo assentar-se com os nobres de seu povo. COMPLEMENTO: Na sua opinião, ser santo é uma opção do homem, que luta para alcançar esse estágio, é uma escolha pessoal de Deus, que olha para o ser humano com amor infinito ou são as duas coisas que acontecem ao mesmo tempo? Em resumo: qualquer um pode vir a ser santo? R - Sim, qualquer um pode ser santo, mas não existe santo sem um querer férreo da parte de quem busca. Hoje se fala muito de sinergia, ou seja, as nossas débeis forças unidas as de Deus. São Paulo diz que “a escolha depende de Deus e não de nós”. São Tomas de Aquino disse que para ser santo é preciso uma única coisa, ou seja, “querer”.

                                       Ana Maria Pereira, agora, simplesmente, Ana de Jesus, mora no Carmelo de São José em Petrópolis, com outras doze irmãs:

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                                 Em 2013 Ana de Jesus publicou o título “Minha Autobiografia”. Agora, em 20 de dezembro de 2014, lançou o título “Direção Espiritual” e, para breve, promete outros dois títulos que, por razões éticas, não serão divulgados antecipadamente. Ao final de tudo, depois de 27 anos de vida monástica, uma imagem de Irmã Ana de Jesus chama a nossa atenção e marca o final desta matéria:

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                                             Hoje contei uma pequena parte da história de Irmã Ana de Jesus, OCD. Um exemplo de vida, de santidade, de inteligência e de vocação para a literatura, ainda que não seja, como ela própria reconhece, uma literata no sentido estrito da palavra, mas, tem na alma a porta aberta para a inspiração divina que, por meio do Espirito Santo, faz com que ela produza trabalhos dignos dos grandes escritores.

                                        Nosso objetivo é sempre o de revelar histórias de pessoas anônimas que, sabe-se lá porque, não interessam à grande mídia nem às redes sociais, mas que é bom ser divulgado, porque são exemplos a serem seguidos sempre.

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