Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

abr 16

EDITORIAL DA SEMANA: VOCÊ TAMBÉM PODE OUVIR A VOZ DE DEUS!

SILÊNCIO PARA OUVIR DEUS

NO SILÊNCIO, A VOZ DE DEUS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É conhecido o número de pessoas que pedem prova da existência de Deus, sem saberem que podem, elas mesmas, serem protagonistas do pedido que fazem, ouvindo a voz do Criador. É coisa que psicólogos e psiquiatras não entendem e, por não entenderem, lançam as maiores dúvidas possíveis, mas, que, na prática individual e íntima de cada ser humano, traz o conforto e o consolo necessários para a plenitude da alma, cujo sinônimo é a felicidade!

No silêncio do jardim do Éden, narra o Livro do Gênesis, Adão e Eva estavam escondidos, e obviamente quietos, pelo medo, quando são surpreendidos com a voz de Deus: “Onde estás?” (Gn 3, 9), pergunta o Senhor. Na sequência, tem-se o diálogo travado entre o Criador, a mulher, a serpente e o homem.

Moisés estava tranquilamente nos escarpados do montanha, ajuntando o rebanho do sogro, num silêncio aterrador quando, de repente, ouve o estalar de galhos secos sendo queimados. Curioso, e em profundo silêncio, prendendo a própria respiração, aproxima-se e vê a sarça coberta por um fogo alto e forte que, por mais que durasse, não se extinguia. Mais curioso ainda, começa a se aproximar sorrateiramente quando, para seu espanto, ouve a voz de Deus a chamá-lo pelo nome: “Moisés, Moisés (...) não te aproximes daqui: tira as sandálias de teus pés porque o lugar, em que estás, é uma terra santa” (Ex 3, 4-5).

Samuel era ainda um menino, e vivia aos cuidados do profeta Heli quando, numa noite, quando imperava o silêncio absoluto no qual todos estavam deitados para o sono de descanso, ouviu alguém chamá-lo pelo nome: “Samuel, Samuel” (ISm 3, 2-10). Sem reconhecer aquela voz, Samuel correu para o profeta e disse: “tu me chamas? Estou aqui”. Diante da negativa de Heli, Samuel voltou a deitar-se e, mal pegara no sono, ouviu novamente alguém chamando-o pelo nome: “Samuel, Samuel”. Mais uma vez o menino corre para o profeta que afirma não tê-lo chamado. Depois da repetição do fato por três vezes, o profeta compreende ser a voz de Deus que estava se manifestando ao menino e orienta Samuel como deve proceder se, novamente, ouvir alguém chamá-lo pelo nome: “Vai e dorme. E, se te chamarem outra vez, dirás: Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. Assim fez Samuel e, quando ouve a mesma voz chamá-lo pela quarta vez, responde conforme a orientação de Heli e, então, é contemplado com a mensagem de Deus, dando conta da ruína que estava para assolar a família do profeta.

Jesus, em muitas oportunidades, escolhe o silêncio e a paz da noite para retirar-se em oração, nos montes e nas elevações próximas de onde vivia com os apóstolos.

Em todos estes poucos exemplos, é perceptível que Deus não se manifesta em meio a gritarias, algazarras, sons altos, lamentações, pregações exacerbadas e coisas do gênero, mas, no silêncio e na paz. É, pois, nestas circunstâncias e ambientes, que o homem, em profundo silêncio depois de já ter se manifestado ao Senhor, e com o coração e o espírito abertos, ouve a voz de Deus a confortá-lo, a consolá-lo e a orientá-lo diante dos tantos problemas, conflitos e dificuldades narrados pelo orante.

A lógica de Deus é bastante simples: Ele ouve o que temos a dizer, percebe nossas lágrimas, nossos sentimentos e nossas fragilidades e, diante do silêncio que fazemos, Ele entende ser a hora de se manifestar. E assim o faz!

Entretanto, quantas e quantas vezes nos prostramos diante do Senhor para orar, lamentar, chorar, pedir, implorar e, tão logo terminamos o nosso monólogo, levantamos e saímos fungando ou enxugando os olhos sem, sequer, darmos chance para que Deus fale alguma coisa? Imaginemo-nos diante de um amigo que vem à nossa presença para falar conosco, lamentar, chorar, pedir auxílio e, assim que acaba de falar, levanta e sai sem nos conceder a oportunidade de qualquer manifestação.

E o pior de tudo é que, depois, a gente diz: “Rezo, rezo, mas acho que Deus não me ouve. Não obtenho respostas”. Como obter respostas, se, sequer, paramos para ouvi-las? Falamos, falamos e, por fim, deixamos Deus falando sozinho porque, ou não acreditamos que Ele está ali naquele momento diante de nós, ou pensamos que Deus é uma caixa registradora de problemas, cujas soluções são enviadas, depois, via satélite!

Deus é sempre presente! A razão de não O vermos da forma como O imaginamos deve-se ao fato de que Ele é, conforme descrito por Jesus, Espírito e nós, como seres eminentemente materiais e materialistas, estamos acostumados a olhar tudo com os olhos da carne. Não em vão Jesus afirma: “Deus é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram” (Jo 4, 24). Assim, quando nos colocamos diante do Senhor, estamos e somos livres para todo tipo de desabafo, de confissão, de arrependimento e de pedidos de socorro e de auxílio, mas, precisamos compreender que, após a nossa lamúria, devemos lembrar de que o Senhor deseja falar algo ao nosso coração e, assim, é necessário fazermos profundo silêncio para, sem pressa, termos a confirmação de que tudo o que dissemos foi ouvido e que, no tempo Dele, tudo será solucionado a nosso favor, o que não significa que será feita a nossa vontade.

Diante destes exemplos e destas indicações, quando se colocar na presença do Senhor, primeiro, tenha certeza de que Ele está ali, em espírito. Em segundo lugar, saiba que está pronto para ouvir tudo o que for dito. E, por fim, lembre-se de fazer uma pequena pausa, em silêncio, para que Ele possa, se assim o desejar, manifestar-Se da forma que julgar mais apropriada. Ele sempre respeita as nossas limitações intelectuais e espirituais e, por esta razão, a cada um se manifesta de forma diferente. No entanto, Ele nunca fica alheio aos nossos clamores e sempre, de uma forma ou de outra, dá respostas aos nossos questionamentos. Precisamos aprender a ouvi-Lo e a compreendê-Lo, a fim de não cairmos na conversa fácil do abandono e do desinteresse por parte da divindade.

Precisamos, acima de tudo, e de qualquer coisa, compreender que Deus é Pai, Pai Nosso, e que, na condição de Pai, quer sempre estar conosco, ouvir-nos, falar conosco e participar ativamente da nossa existência. Por esta simples razão é que devemos, também, ouvi-Lo. Ao deixarmos de ouvi-Lo, deixamos de ser fieis e passamos a impressão de que o Pai é apenas um "ouvidor" e um "solucionador de problemas". Não é! Deus é infinitamente mais: Ele é, também, Pai, amigo, confidente e companheiro que tem voz e que quer, e deve, ser ouvido. Ouça-O!

Espero que este texto seja esclarecedor e que, doravante, você se sinta plenamente ouvido(a) e correspondido(a) por este Deus que, sendo Uno e Trino, sempre caminha ao lado do ser humano, sejam quais forem as circunstâncias, ainda que para repreender as nossas petulâncias e arrogâncias. Reflita sobre tudo isso e abra seus ouvidos espirituais à voz do Pai que está em toda parte, mas, e, sobretudo, dentro de cada um de nós. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

 

abr 09

EDITORIAL DA SEMANA: CRISTO NOS DEIXOU VALIOSOS EXEMPLOS

CAMPANHA DA FRATERNIDADE -2018

FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA: EM CRISTO SOMOS TODOS IRMÃOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Estes são o tema e o lema adotados como sustentáculos da Campanha da Fraternidade de 2018, pela CNBB, na quarta-feira de cinzas, como já é praxe acontecer todos os anos. E, também, como ocorre a cada ano, a divulgação do tema é o ponto de partida para uma trajetória que, no curso de doze meses, tentará ocupar mentes e espíritos, sempre com vistas à necessária conversão. Conversão, não no sentido de adesão religiosa, mas, e acima de tudo, no sentido de mudar de caminho, de orientação, de conduta e de vida.

Do tema e do lema três palavras são chaves para a nossa reflexão: fraternidade, superação e Cristo. E, por qual razão fazemos tal afirmação? Porque são palavras que podem ser facilmente interligadas e de tal modo, que uma tem origem na outra e, sucessivamente, geram inúmeras outras possibilidades para um mundo totalmente descrente no ser humano acima de tudo.

Na pessoa de Jesus Cristo vamos encontrar a essência da fraternidade, na medida em que Ele abraça a causa do homem com tal afinco, responsabilidade e compromisso, que despreocupa-se com a própria vida e com todos os atributos que compõem aquilo que denominamos como existência terrena.

A fraternidade, em Cristo, é a fonte de todo o sacrifício da cruz, porque é justamente pela causa humana, por amor ao ser humano, com todas as suas falhas, deficiências, indisposições, má vontades e, porque não dizer, até mesmo maldades, que Jesus vem doar-se de forma integral, lançando-se em socorro ao leproso; levantando o aleijado; fazendo ver aos cegos; ressuscitando os mortos; perdoando pecados; enfrentando a lei do sábado e assumindo, no horto das Oliveiras, a responsabilidade por toda a obra e por toda a pregação por Ele realizadas.

Nesta sanha obsessiva pelo exercício exemplar da fraternidade, Jesus chega ao ponto máximo do sacrifício quando, do alto da cruz, declara: “Tudo está consumado”, como a sacramentar, e a sacralizar, uma vida pautada pela ação, pela doação, pela assunção de todas as nossas dívidas e pelo amor sem fronteiras e sem limites por todos os seres humanos, sem excluir, inclusive, seus algozes.

No bojo desta fraternidade imensurável e infinita, Jesus deixa-nos singular exemplo de superação. Ele, sim, soube superar, mais do que qualquer outro ser humano, os limites, não da riqueza e do poder terreno, conforme já havia feito Sidarta Gautama, o Buda, cinco séculos antes, mas, do poder absoluto, por ser Filho do Deus Altíssimo e, como tal, ser Ele mesmo, verdadeiramente Deus. Esvaziou-se a si mesmo, derrotando, de imediato, a possibilidade de descer dos céus como faziam, no tempo do Antigo Testamento, os anjos enviados por Deus, optando por nascer como qualquer ser humano, a partir do ventre de uma mulher. E, a partir desta opção, superou a vocação humana para o exibicionismo, preferindo nascer em família e local humildes e pobres, e dessa maneira passar toda a Sua existência terrena. Um Deus, um Rei forte, rico e poderoso, superando todos os desafios propostos aos seres humanos e fazendo-se pobre com os pobres, humilde com os humildes, sofredor com os sofredores e, acima de tudo, irmão de todos. Irmão na essência humana, nas carências e nas angústias da vida; irmão espiritual e consanguíneo, deixando o seu próprio sangue para alimentar a chama da vida eterna que acendeu em todos e em cada um de nós.

Por meio dos exemplos inimitáveis de forma plena, deixados por Jesus, nós caminhamos em meio à onda de violência que assola o mundo, as sociedades, as instituições e, principalmente, os lares. Pela lógica atual indisfarçadamente exposta pelas mídias sociais e pelo sistema de comunicação em tempo real, tem-se a impressão de que todos somos os próximos inimigos a serem combatidos. Essa sensação traz-nos o medo e o sentimento de autodefesa, lançando-nos na montanha do isolamento, da solidão e do egoísmo, apresentando-nos as mais diversas armas para o iminente combate. Somos e temos inimigos em decorrência da raça, da religião, da política, da opção sexual, da opção esportiva, da profissão e da própria visão de mundo. Em todos estes embates, e não são poucos, a violência dita todas as regras e impõe, sempre, novas e mais vorazes regras, levando os seres humanos à perda da vida, da família, da autoestima, da identidade, da força para continuar na caminhada de forma digna, honesta e humana e, enfim, da perda de tudo. Não raro, da própria fé.

A Campanha apresentada pela Igreja, ao propor a visão da fraternidade e ao convidar para a superação da violência, lembrando-nos de que, em Cristo, somos todos irmãos, coloca diante de nós o Cristo, como figura central, e exemplar, de fraternidade e de superação. Modelos que podem nos distanciar da lógica imposta pelo mundo como a única possível, levando-nos à percepção de que, com Cristo e em Cristo, podemos agir e viver, todos, como irmãos e, como tais, superarmos as regras e as barreiras impostas pela já insuportável violência.

Se Ele, na condição de verdadeiramente homem, superou as tentações no deserto; superou a dor e o sofrimento causados pelos seus algozes e, por fim, superou todos os sentimentos humanos de ódio, de vingança e de revanchismo, pedindo ao Pai o perdão para os seus detratores, por que nós, também, e com o auxílio Dele, não podemos superar e vencer todos os desafios a que somos submetidos? O sangue derramado por Jesus não era fruto dos efeitos especiais tão utilizados pelo cinema. Era sangue de verdade. Os pregos que cravaram-No na cruz, eram de verdade. Aquela cruz era de verdade, assim como os soldados romanos e os chicotes por eles utilizados eram de verdade. Então, Jesus sofreu de verdade. Mas, mesmo assim, optou pela não violência, pelo perdão e pela fraternidade. Naquelas condições, Ele era apenas um ser humano, como qualquer um de nós. No entanto, foi muito além do que qualquer um de nós conseguiria ir em tais circunstâncias.

É com o Cristo que devemos aprender. É Nele que devemos buscar o auxílio necessário para superarmos todos os nossos limites e percebermos que nossa vocação deve ser a fraternidade e que devemos combater a violência, e não, os nossos irmãos porque, unidos em Cristo, caminhamos para o Pai, para sermos, todos, um, como o Pai, o Filho e o Espírito Santo o são.

Aproveite o tema e o lema desta Campanha da Fraternidade e mergulhe em profundidade na vida, na obra e nos exemplos de Jesus Cristo que, sempre e sempre, espera por mim e por você para, juntos com Ele e com todos os demais irmãos, sermos um no Pai, no Filho e no Espírito Santo, fonte da nossa vida neste e no século vindouro. não nos deixemos levar pelo obscurantismo midiático ou pela ineficiência dos políticos, porque, da soma destes dois componentes, o resultado é sempre um divisor de águas e, por que não dizer, de irmãos.    Seja feliz, e boa sorte!

________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 02

EDITORIAL DA SEMANA: DEUS DEVE SER ADORADO EM ESPÍRITO

ICONOGRAFIA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

A FÉ SEM ÍCONES – DESAFIO PARA MUITOS CRISTÃOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Caminhamos sobre os escombros de um mundo em decomposição moral e existencial, no qual as verdadeiras leis que imperam são as que dizem respeito à riqueza, ao poder e, consequentemente, ao domínio dos fracos pelos fortes. Na verdade, este não é o mundo do final dos tempos ou do apocalipse bíblico, mas, o mundo dos homens que povoam a terra desde os tempos imemoriais.

E tal como antes, somente aqueles que têm fé alcançarão a plena liberdade e, com ela, a vitória final. Entretanto, e aí já falamos dos tempos atuais e, terrivelmente apocalípticos, quem, ainda, tem fé? E, para os crentes, em quem baseiam a fé que afirmam possuir? Esta última pergunta é de resposta fácil, quando se tratam de personagens. Uns dirão, creio em Deus; outros, em Jesus; outros, ainda, neste ou naquele santo ou em qualquer outra divindade. A verdade, porém, é que, até para os que afirmam crer em Deus, especificamente, como se fosse possível falar de Deus sem Jesus e sem o Espírito Santo, sempre trazem impressas nas mentes e nos corações certas imagens iconográficas que, de uma forma ou de outra, representam o personagem-objeto da fé declarada.

Ocorre que, a fé capaz de vencer o mundo com suas obscuras e tenebrosas estruturas, não pode ser baseada na imagem de um ancião de cabelos e barba brancos e longos, de idade incalculável, representando Deus-Pai, nem a de um jovem esbelto e forte, representando o Filho de Deus e, menos ainda, a de uma pomba branca, representando o Espírito Santo, que são as formas utilizadas por  uma grande parte dos cristãos, para a expressarem a fé que professam, com a qual afirmam estarem intimamente ligados ao sobrenatural.

A iconografia está, irremediavelmente, ligada às diversas religiões que, mundo afora, arrebatam mentes e corações, para não falar nas imensuráveis cifras. Poucas religiões, pouquíssimas, estão totalmente desvinculadas ou isentas do apelo iconográfico cujo objetivo principal é a representação física da divindade ou de quem por Ela é designado para agir.

No lado específico dos cristãos, é preciso lembrar, por exemplo, a quantidade de imagens de Jesus que transitam pelo mundo, salvo as exceções de sempre, sugerindo, ora um Jesus com traços de profunda santidade e com os olhos ligeiramente voltados para o alto, fruto de um período histórico dominado por uma visão mais ortodoxa, ora um Jesus com olhar penetrante, parecendo querer dizer alguma coisa para todo aquele que ousar encará-lo de frente.

Não bastasse a prática esvaziada da fé, têm-se multiplicado imagens da Santíssima Trindade com, é fácil imaginar, um ancião, um jovem e uma pomba, na tentativa de representarem fisicamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo e, por mais que algumas lideranças religiosas possam negar, é fácil comprovar a verdadeira devoção que milhares de cristãos dedicam a estas imagens representativas, no afã de expressarem uma fé que, por fim, revela-se vazia, posto que direcionada à esmo.

Quando Jesus conversa com a mulher samaritana, junto ao poço de Jacó (Jo 4, 24), explica a ela a forma como Deus deve ser adorado, ensinando: “Deus é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram”, apesar de, em diversos trechos dos Evangelhos esse mesmo Jesus ter afirmado que quem o vê, vê Aquele que O enviou. No entanto, o culto e a adoração devem ser dirigidos a Deus na condição de espírito. Isso pode parecer óbvio para quem lê, no entanto, é óbvio, também, para quem vê o modo como milhares de cristãos dizem adorar ao Deus Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, tendo ao alcance das mãos ou dos olhos as imagens e, caso sofram algum tipo de crítica, sentem-se imensamente ofendidos, estendendo a ofensa à divindade.

São formas de expressão da fé que precisam ser combatidas porque o mundo está carente de orações fervorosas, consistentes e persistentes, dirigidas ao Espírito de Deus cuja visão é-nos impedida de ter e cuja representação física não podemos fabricar por não sabermos qual é a aparência do Espírito o que, de certa forma, conduz à prática da idolatria.

Muitas orações devem ser proferidas e dirigidas ao Deus Pai, ao filho e ao  Espírito Santo, rogando e clamando pelo socorro divino, diante de tudo a que estamos sendo submetidos no mundo, e nossas preces precisam sair do mais íntimo dos nossos espíritos para, sem qualquer intermediação visual ou imaginativa, chegarem a Deus que, como disse Jesus “vê tudo o que se passa” e saberá vir em nosso auxílio.

É chegada a hora, e talvez já esteja passando da hora, de alterarmos nossa forma de adoração e de culto, abandonando o recurso às imagens e abraçando o recurso direto ao Espírito de Deus que, de forma absolutamente sobrenatural e transcendente age no mundo desde a Criação.

Lembremo-nos de que Deus, quando decidiu falar com Moisés, valeu-se da sarça e, para caminhar com seu povo em direção à terra prometida, fez-se presente por meio da nuvem, de dia, e da coluna de fogo à noite (Ex 13, 21-22) sem, jamais, ter-se permitido aparecer ou ser representado por meio de qualquer forma humana.

Jesus, que é o Verbo de Deus encarnado, assumiu a forma humana, sim, porém, sem fotos, imagens ou desenhos precisos, não temos ideia de qual era a sua real aparência física.

É de se repetir: o mundo carece de orações! Precisamos fazê-las com as mãos limpas e estendidas e com o coração e o espírito totalmente livres de memórias e de imagens iconográficas, sob pena de estarmos dirigindo nossas preces para a divindade errada. Uma divindade que, a exemplo do que ocorria na antiga Babilônia, recebia culto, devoção e sacrifícios, porém, sem dar nada em troca, porque existia apenas nas mentes e nos corações de um povo pagão e idólatra.

Sem confundir as palavras e sem criar maiores discussões, refaçamos os caminhos das nossas adorações, orações e cultos e vejamos se estamos nos dirigindo ao Deus de Jesus, que é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram”, ou se estamos fabricando o deus ao qual encaminhamos nossos clamores e súplicas. Talvez aí possamos encontrar a origem das sucessivas faltas de respostas que, ingenuamente, atribuímos ao desinteresse de Deus pelos nossos sofrimentos. O que não é verdade, posto que Deus sempre ouve os nossos clamores e sempre vem em nosso auxílio. É preciso refletir e, abrindo as portas do nosso templo interior, falarmos diretamente ao Deus único e verdadeiro, Pai e Filho e Espírito Santo. Dessa forma, seremos ouvidos e socorridos a tempo. Pense sobre isso. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

     

mar 26

EDITORIAL DA SEMANA: OS RÓTULOS QUE RECEBEMOS

DIREITA OU ESQUERDA

COMO JESUS SERIA ROTULADO NOS DIAS DE HOJE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Vivemos tempos bastante difíceis! Não que os tempos passados tenham sido maravilhosos, mas, sob certos aspectos, os dias de hoje são insuperáveis, se comparados com os antigos, principalmente, no campo da ideologia, onde cada opinião, cada posicionamento tem força suficiente para lançar o sujeito ao mais alto dos céus, ou, condená-lo ao mais profundo abismo, em questão de minutos, dada a força e a potencialidade das redes sociais.

Hoje em dia, por exemplo, defender a mulher ou algumas de suas causas significa ser feminista, ou, efeminado! Combater a homofobia ou defender a homossexualidade, como liberdade de expressão, significa ser contra a moral, a fé e os bons costumes da família cristã. Falar em favor dos menores de idade que lotam as principais vias das médias e grandes cidades, importa passar a mão na cabeça de potenciais infratores que, mais tarde, poderão vir a ser criminosos de alta periculosidade. Ir à igreja sempre, significa querer tirar onda de santinho ou santinha, puritano ou anjinho. Não ir à igreja, significa ser descrente e herege, que não se importa em virar as costas para a divindade. Ser contra as drogas, significa estar totalmente por fora da realidade, enquanto que, ser a favor, revela tendência para o vício e, consequentemente, para o tráfico e para o banditismo. Defender o aborto, significa ser conivente com o infanticídio enquanto que, ser contra, significa violentar o direito da mulher, no trato do próprio corpo. Defender a aplicação das leis, significa apoio à perseguição e exclusão de grupos historicamente deixados à margem da sociedade. Ser contra a prisão de pequenos infratores, significa colaborar com o crescimento da criminalidade, ser a favor, importa desconhecer as razões sociais que os move para o mau caminho. Falar em ordem pública mais rigorosa, significa ser de direita. Defender a liberdade e o zelo para com os direitos humanos, significa ser de esquerda e defender criminosos de forma indiscriminada. Ficar calado, sem emitir qualquer opinião, significa ser omisso e conivente com tudo o que está aí. Defender a democracia importa admitir qualquer forma de ação, sem qualquer vinculação com a ordem, com a lei, com a moral ou com bons costumes sociais. Exigir respeito aos próprios direitos, significa querer estar acima de tudo e de todos, em uma sociedade na qual ninguém respeita ninguém, porque todos entendem-se como absolutamente livres. Promover a orientação sexual, significa aprovar as cenas sexuais impostas pelas novelas da “rede-mãe”. Defender a convivência salutar e igualitária entre os desiguais torna-se passe livre para a defesa de todo tipo de degeneração com, inclusive, ampla divulgação midiática. Ser a favor de certos comedimentos, importa em ir contra a maré e, consequentemente, agir com discriminação. Afirmar que ricos e pobres vivem realidades muito diferentes, significa defender a luta de classes. A Igreja que defende os pobres é a Igreja marxista! A que se cala, é de direita e conservadora. E por aí vai. O certo é vivemos momento ímpar da nossa história no qual, se falar, o bicho pega, se calar, o bicho come!

Jesus, em determinado momento da vida pública, e em um contexto de bastante fustigação por parte do farisaísmo hipócrita, arrogante e demagogo, semelhante ao dos nossos dias, afirma, sobre os costumes de então: “Veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Ele tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e um bebedor de vinho, um amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11, 18-19). Por esta afirmação do Rabino de Nazaré podemos perceber que, mudam os tempos e os cenários, porém, permanece o ator principal: o homem!

Caso Jesus decidisse retornar fisicamente ao mundo, e, desgraçadamente, escolhesse o Brasil como terra natal, qual seria o rótulo a ele atribuído? Antes de qualquer resposta, é necessário destacar alguns detalhes do perfil de Jesus: não fala mentira; não se interessa em agradar ou em aparecer ao lado dos poderosos de plantão; não discrimina pessoa alguma; perdoa todo e qualquer pecado; diz “não” à vingança; manda amar o próximo, perdoar-lhe as dívidas e oferecer a outra face, quando uma delas for esbofeteada; manda andar dois mil passos, com aquele que obrigar andar apenas mil; ordena entregar, também, a capa, quando for exigida a túnica; ensina abençoar os que amaldiçoam; manda orar pelos inimigos; ordena que se faça ao outro, tudo o que se quer receber do outro; diz para não pedirmos de volta aquilo que for levado de nós; diz que devemos usar de misericórdia, da mesma forma como Deus-Pai usa para conosco; afirma que não devemos julgar, para não sermos julgados; nem condenar, para não sermos, também, condenados. Caso não acredite nestas características de Jesus, leia o capítulo 6, 27-38, do Evangelho de Mateus.

Um Jesus com este perfil, nascido em meio à hipocrisia, ao farisaísmo e à demagogia que tanto conhecemos, como seria rotulado por aqui? Não dá para ficar elucubrando quais seriam os títulos que esse Jesus receberia, dada a diversidade de rótulos que, possivelmente, seriam atribuídos a ele pelos nossos queridos e badalados “intelectuais” (de direita ou de esquerda) e pela nossa todo-poderosa e onipresente mídia, que teima em falar em nome da “sociedade civil organizada”.

Jesus, certamente, seria fuzilado em algum momento, e sabe-se lá se viraria mártir ou se seria “endeusado” pela tal “sociedade civil organizada”. Talvez o noticiário da rede-mãe fosse iniciado por algum âncora robotizado afirmando, com o semblante sério e tristonho: “foi morto hoje, com tiros de fuzil AR-15, um homem chamado Jesus. Um homem que dizia amar todas as pessoas e que pregava a paz, a união e a igualdade entre todos os seres humanos; um homem que não condenava ninguém, mas, que, segundo as primeiras investigações, era aliado de grupos desordeiros e inimigos da sociedade. Sabe-se que esse Jesus, junto com outros doze companheiros, não trabalhava, não estudava, não contribuía com a Previdência Social, não pagava imposto de renda, e, ainda, ensinava que não se deve ter qualquer preocupação com o dia de amanhã. Enfim, trata-se de um homem que fez muito mal à nossa sociedade “organizada”. E o tal âncora, personagem conhecido e imposto pelo sistema, continuaria dizendo: “por todo o país, trabalhadores sem terra e sem teto, prostitutas, homossexuais, militantes de partidos de esquerda, e de extrema esquerda, usuários de maconha e de crack, desempregados, mendigos e moradores de rua estão, neste momento, fazendo passeatas nas ruas e avenidas das principais capitais do país, exigindo investigação, apuração e punição dos assassinos de Jesus, mas, as forças de segurança já foram mobilizadas e estão dispersando os manifestantes, conforme mostra o repórter ‘X’”. Aí, o cinegrafista que trabalha com o repórter “X” mostra cenas de policiais com armas de fogo, cassetetes, bombas de efeito moral e cães de raça atirando-se sobre o exército de desvalidos, mais parecidos com zumbis ambulantes do que com qualquer outro ser pernicioso, cuja existência a rede-mãe tenta fazer crer aos expectadores. O cenário é, deveras, deprimente, mas, nos dias seguintes ao ocorrido, sociólogos, antropólogos, padres, pastores, babalorixás,  defensores dos direitos humanos, comandantes das forças policiais e militares, presidentes daquelas já conhecidas instituições de sempre, seriam convocados ao debate para desvendarem quem, a final, era o tal de Jesus. Conclusão: esse Jesus era um esquerdista-marxista-leninista-petista-anarquista-herege, bastante vinculado à Teologia da Libertação, usuário de drogas e com tendências homossexuais que, querendo se projetar politicamente, tentou cooptar pessoas pobres e humildes para a sua causa. Por esta razão, e com este intento, ele não discriminava ninguém, pois, o que ele queria mesmo era voto!

Por fim, lamentando a trágica morte de mais um “ser humano” em terras verde-amarelas, encerram-se os debates, e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Ou seja, precisamos rechaçar os rótulos e abraçar os conteúdos. Abominar as ideologias e acolher as ideias. Porque, caso contrário, continuaremos a fazer parte desta massa sovada sobre uma plataforma de mármore, ao gosto dos formadores de opinião que, desconsiderando totalmente as nossas opiniões, querem pintar o mundo com as cores que eles próprios fabricam. Aí, ora o mundo aparece em azul, ora em vermelho, amarelo ou mesmo negro. E, dependendo da cor predominante, corremos para a direta, para a esquerda ou caímos nos abismos cavados por eles mesmos, para se livrarem de parte de nós. A parte que normalmente incomoda, como o nosso Jesus triste-brasileiro.

Este texto não pretende ser divertido. Ao contrário, é lamentável. No entanto, convida à reflexão sobre o papel que cada um de nós está representando nesta sociedade totalmente devastada pela ignorância e por uma (in)cultura que em nada contribui para a reforma das bases, a partir de onde poderemos ser reerguidos e, talvez, consigamos sair do campo de manobra dos grupos dominantes. Nada disso será feito com revoltas, revoluções, violência ou guerras, mas, com sabedoria, inteligência, sensatez e bom senso. Quem não os possui, peça-os a Deus que, jamais, deixa de ouvir o clamor do seu povo! Reflita, e faça a sua parte. Seja feliz, e boa sorte!

____________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mar 19

EDITORIAL DA SEMANA: LEMBRANÇAS DE UM TEMPO MÁGICO

TEMPOS DA INFÂNCIA

NOS DIAS DA MINHA INFÂNCIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Ah, quanta saudade eu sinto dos dias da minha infância, dos dias alegres e felizes que passei ao lado dos meus pais, ainda jovens e cheios de vida. Meu pai, um homem magro e um verdadeiro gigante perto de mim, menino pequeno e raquítico. Minha mãe, bonita como quê, charmosa e cheia de alegria no rosto, apesar das dificuldades vividas no conjunto. Aquilo era um lar! Um verdadeiro lar. Tínhamos muito pouco, em termos materiais, mas éramos muito ricos de amor, de simplicidade, de gratidão, de alegria e de solidariedade. Apesar de todas as dificuldades vividas, eu via meu pai ajudando a tanta gente mais pobre e mais necessitada do que nós que, realmente, não tínhamos quase nada. Até nesse ponto existia uma riqueza imensa: eu conheci, desde criancinha, as virtudes da caridade, do amor ao próximo, da compaixão e da solidariedade.

Ah, quanta saudade eu sinto dos dias da inocência, quando Papai Noel era quase um deus que via tudo e que, portanto, trazia pequenos castigos para os faltosos e grandes recompensas para os bons meninos. Quantas vezes me peguei rezando, à noite, de joelhos ao lado da cama, pedindo que Papai Noel trouxesse a bicicleta que nunca chegou e a bola de couro, que nunca deixou de ser de pano. Quantas promessas eu fazia para esse mesmo Papai Noel que, pelo visto, nunca se interessou pelos pequenos sacrifícios que eu oferecia. Como era mágico acreditar que um simples coelhinho era capaz de trazer ovinhos de chocolate, um produto tão raro que eu sequer podia imaginar o verdadeiro gosto ou sabor, só conhecendo pelo estalar dos lábios das crianças mais abastadas que moravam na vizinhança. Por que nem o Papai Noel e nem o tal coelhinho jamais lembravam de mim? Será que eu era tão traquinas assim? Na inocência de criança simples e pobre do interior, eu cresci sem saber as respostas.

Oh infância bendita, que tudo encobre e tudo disfarça a ponto de impedir o desalento e a desilusão tão destruidores de sonhos! Meu pai, um verdadeiro herói, capaz de impor respeito em casa e na rua. Homem bravo e forte, causando medo e assombro nos demais homens da redondeza, criando em mim a certeza de uma proteção que o tempo provou existir somente na minha cabeça. Minha mãe, astuta e sábia, pronta para ensinar qualquer analfabeto escrever e fazer contas de multiplicar e de dividir com a maior facilidade. Mulher de memória fantástica, que recordava histórias antigas contadas pelos meus bisavós. Para mim, aqueles dois, pai e mãe, eram os grandes maestros daquela sinfonia que parecia perfeita, fazendo com que todos os instrumentos emitissem os sons apropriados, nos momentos apropriados.

Quanta lembrança trago daqueles dias de ouro! Dias que não voltam mais, na realidade da vida, mas, que nunca deixaram de existir nos arquivos secretos da minha alma e que, até hoje, passadas tantas décadas, ainda permanecem intactos e tão reais que quase posso tocá-los novamente!

Aquele era um tempo verdadeiramente mágico! Não existiam brinquedos eletrônicos, nem espadas fluorescentes; não se ouvia falar de super-heróis ou de zumbis; não existiam Scooby doo nem Fred Flintstone; bola, era qualquer objeto mais ou menos arredondado, às vezes, até de meia amarrada ou costurada pelas prendadas mães. Os brinquedos mais desejados pelos meninos eram os caminhões de madeira e os carrinhos de plástico, com quatro rodinhas, alimentando sonhos e projetos de trabalho no futuro ainda muito distante. Os das meninas eram as bonequinhas de pano, as casinhas rosadas, com caminhas, fogõezinhos e panelinhas que pareciam de verdade, para o afloramento do sentimento caseiro e maternal que, atualmente, é tão combatido por certos movimentos sociais. Aquele modelo de infância era verdadeiramente indutor do homem e da mulher que, adultos, partiriam para a formação de um sólido e resistente núcleo familiar.

Hoje, ao olhar o filme já tantas vezes repassado, não há como não sentir uma certa nostalgia. É difícil deixar de comparar com a infância de hoje, quando tudo é automático, eletrônico e digital. Pais e filhos conversam muito mais pelas redes sociais do que de forma presencial. O toque de carinho entre pais e filhos, quando ocorre, é por meio das telas dos celulares e dos notebooks, sem calor e quase sem valor. Caminhões de madeira, carrinhos de plástico, bonequinhas de pano e casinhas rosadas só existem nos museus da infância, que nem sei se existem de verdade. Que lembranças haverão de ter as crianças de hoje quando, adultas, quiserem, como eu, olhar para o passado de suas vidas? Que saudades terão de seus brinquedos eletrônicos totalmente defasados e sem qualquer utilidade ou simbolismo? Não sei responder!

O que sei dizer é que, nos dias da minha infância, tanto pobres quanto ricos, sem qualquer distinção de raça ou de religião, meninos e meninas eram muito felizes e, dos que ainda vivem, tenho certeza de que muitos, se pudessem, voltariam àqueles tempos, para abraçar os amiguinhos e as amiguinhas que ficaram presos nas teias do tempo; para colocar os carrinhos de plástico na garagem de papelão improvisada ou as bonequinhas de pano nas caminhas arrumadinhas, olhando com saudade todo aquele ambiente cheio de vida, de luz, de inocência angelical e da verdadeira essência da beleza.

Não é possível, nem saudável, destruir as ilusões das crianças, seja em que tempo for, mas, as crianças de hoje, de alguma forma precisam saber como foi a infância dos pais e dos avós, até para poderem avaliar e conhecer a implacável ação do tempo, esse monstro assustador que, apesar de tudo,  e de forma paradoxal, é, também, manso, pacífico, educador e restaurador.

Nos dias da minha infância, eu fui completamente feliz. Eu não tinha nada, mas, ao mesmo tempo, não sentia a falta de nada, porque o essencial sempre estava presente: papai, mamãe, meus irmãozinhos, menores do que eu, e um formidável calor humano. O resto? Ah, era apenas o resto, não fazia falta. Éramos muito felizes. E aquela felicidade era tão forte e tão verdadeira que, até hoje, só de recordar, sinto-me muito confortado, diante da realidade vivida. Faça uma viagem aos dias da sua infância também. Pode ser bastante saudável e alentador. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

mar 12

EDITORIAL DA SEMANA: NA BÍBLIA ESTÁ A CHAVE

A BÍBLIA COMO CHAVE

NA BÍBLIA, A CHAVE QUE ABRE TODAS AS PORTAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Imagine adquirir, por herança, uma mansão muito, muito grande e ricamente ornamentada, com muitos quartos, salas e salões, copas, cozinhas, banheiros dos mais variados tipos e gostos, com diversas saídas para jardins e áreas de lazer, escritórios particulares e outros aposentos dos mais variados, tudo muito bem protegido, cujo acesso é feito por meio de portas eficazmente trancadas, não apenas por segurança, mas, também, para preservar a paz e a intimidade dos moradores e dos eventuais visitantes. Num primeiro olhar, o adquirente fica maravilhado com todo aquele cenário, porém, vê-se impossibilitado daquele gozo, por não ter em mãos uma simples ferramenta: a chave que abre a porta principal! Alguém, no entanto, diz: “uma única chave abre todas as portas, o segredo está no número de voltas, para a direita ou para esquerda, que devem ser dadas em cada uma das trancas”. Ora, parece bastante claro que o adquirente fica louco para encontrar a “bendita chave”, para ter acesso a todo aquele mundo maravilho sobre o qual ele apenas ouviu falar e, eventualmente, viu fotografias. Ao tomar conhecimento acerca do local onde pode encontrar aquela chave, ele deixa tudo para trás, e vai em busca daquela ferramenta que poderá levá-lo ao desfrute de toda uma riqueza que, por direito, é totalmente sua.

Agora, imagine, que a referida mansão não é mais um imóvel, um bem material, mas, a própria vida! Quantas possibilidades, quantas portas, quantas riquezas, quantos compartimentos e sentimentos, quantas salas cofres, esconderijos dos mais variados segredos, e, depois, uma vida após outra. Como acessar tudo isso da forma mais proveitosa possível? Como abrir cada uma destas portas, sem necessidade do arrombamento que, sempre, causa muitos estragos e, normalmente, destrói todo o conteúdo, fazendo esvair-se por completo o interesse do adquirente?

Se, no caso da mansão, apenas uma simples chave, observadas as regras de uso, destranca todas as portas, levando o proprietário ao pleno gozo e usufruto do imóvel adquirido, no caso da vida, com todas as portas circunstanciais, emblemáticas e problemáticas, a chave está escondida no meio de um emaranhado de palavras, de histórias, de poemas, de Leis e de preceitos, de orações, de profecias, de bênçãos e de maldições encerradas, todas, em um mesmo lugar: a Bíblia Sagrada!

Esta revelação, em princípio, assusta a muitas pessoas. Muita gente, depois de ter acesso à Bíblia, interrompe a busca pela chave com a mesma afirmação: “A Bíblia é muito complicada! Leio, leio e leio, e não consigo entender quase nada. Não consigo compreender a lógica da repetição de narrativas que, não raro, são divergentes entre si” e, com esta constatação, prefere abandonar a pesquisa e continuar vivendo à esmo, agindo como um atirador que, não tendo mira, atira para todos os lados, para ver se acerta em alguma coisa. De tempos em tempos até descobre ter acertado algo, mas, a maioria dos tiros dados são totalmente inúteis, justamente porque o atirador não consegue identificar o alvo. E, não consegue, exatamente porque não sabe o que é alvo. E, assim, nem para onde atirar!

Entretanto, na Bíblia está a chave para a vida. A chave que abre todas as portas desta vida e prepara para a passagem para a vida além túmulo. No entanto, é preciso conhecer o alvo para poder acertá-lo. No caso, primeiro é preciso saber o que é “chave”, para poder procurá-la e, ao encontrá-la, reconhecê-la de imediato. Feito isto, abrir as portas é questão de treino e de tempo.

Por ora, vamos passar as características da “chave”, para que a busca possa ser iniciada. Depois, vamos apresentar algumas sugestões de busca, para que o leitor e a leitora tenham condições de partir para a missão, com segurança.

A chave é um instrumento que, não obstante o tamanho, destrava fechaduras. Também, aqui, não importam as dimensões da tranca. O que importa é saber reconhecer o objeto “chave”. Em se tratando de Bíblia, a chave é formada por um conjunto de informações que, bem manuseado, abre passagens internas e, ao mesmo tempo, destrava portas externas. Portas que frequentemente precisam ser ultrapassadas para possibilitar o acesso a diversos compartimentos, ou mesmo a diversos outros caminhos. São como os tais cômodos da nossa mansão inicial.

As informações que formam esse conjunto denominado “chave” são: 1) Deus é o centro de toda a Bíblia e, sempre, caminha ao lado dos seres humanos; 2) quem escreve os diversos Livros da Bíblia é inspirado diretamente por Deus, cujo único objetivo é orientar e guiar o ser humano no caminho de volta para o paraíso perdido com o pecado original; 3) dentre todas as divisões observadas na Bíblia, duas possuem significado decisivo: as antigas Alianças, feitas entre Deus e os homens, no Antigo Testamento e a nova Aliança, trazida por Jesus Cristo e configurada no Novo Testamento; 4) dois Testamentos, um mesmo objetivo: a libertação e a salvação do homem, enquanto espírito vivente; 5) o conjunto de Livros que compõem a Bíblia é fruto de uma organização literária, e não, sequencial. Ou seja, não existe uma sequência histórica lógica dos fatos narrados; 6) pelo mistério da encarnação, o Verbo de Deus se faz homem e habita no meio de nós, revelando-nos o Deus Uno e Trino – Pai, e Filho e Espírito Santo; 7) o Livro do Apocalipse – último da Bíblia – é a descrição das revelações feitas a João, na Ilha de Patmos, que são narradas por meio de uma visão estritamente apocalíptica da época, não significando, necessariamente, uma profecia a ser cumprida exatamente na forma e com o conteúdo das visões.

É importante que o leitor e a leitora da Bíblia compreendam que estas informações, no conjunto, corporificam a chave que abre todas as portas, sejam as internas, da própria Bíblia, ou mesmo as externas, relativamente à vida de cada um de nós. Posteriormente, trataremos sobre as diversas formas de utilização desta chave para que possa, efetivamente, destravar trancas muito bem fechadas. Conforme já antecipado, identificando a chave, o uso e o proveito decorrem do treino e do tempo. No início, abre-se a porta principal! Que alegria! Entra-se na mansão. Depois, calma e serenamente, outras portas vão sendo destrancadas e, um dia, nasce a convicção de que diversas outras portas também estão sendo destravadas. Entretanto, somente a passagem pela porta que conduz à vida eterna, é que proporcionará o conhecimento e o pleno domínio sobre todo o conjunto da obra.

Por ora, basta ao leitor e à leitora abrir a Bíblia e iniciar a busca pela chave, procurando identificar, com clareza, cada uma das informações acima descritas para, em pouco tempo, perceber que, diante de si, está o tão desejado instrumento, cujo manuseio já abrirá algumas das principais portas.

Leia este texto com atenção e, de forma lenta, serena e pausada procure entender que tudo o que está escrito na Bíblia é fundamento para a ação de Deus junto a todos os seres humanos, e para a devida correspondência destes para com Deus, em um processo de trancas e de destrancas, que só terá fim quando for empreendida a passagem final desta, para a outra vida. Faça deste exercício o desafio da sua vida: encontrar e reconhecer a verdadeira chave. Depois, entre na mansão. A partir de então, o interesse, a curiosidade e o entusiasmo darão o impulso necessário na direção das demais portas. Faça esta maravilhosa experiência. Seja feliz, e boa sorte!

____________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia no ITF-Petrópolis, um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

mar 05

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE ESTÁ O “OUTRO”?

TIVE FOME - 2

ONDE ESTÁ O OUTRO? UMA PERGUNTA ANTIGA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Vivemos em um mundo, e em uma época, em que o que menos interessa é a vida do nosso semelhante. O nível de medo e de desconfiança aumentou tanto, que preferimos manter poucas relações pessoais e decidimos passar ao largo dos problemas alheios, quase sempre com a desculpa de que “não temos tempo agora” ou “não podemos fazer nada mesmo”, e por aí vai. O certo é que, aos trancos e barrancos, tentamos viver e sobreviver num emaranhado de sensações e de sentimentos que vão desde a alegria extrema, de um lado, à tristeza, sofrimento e preocupação, de outro, sem termos, realmente, muita coisa para oferecer a quem quer que seja. Até porque, para muitos de nós, problemas sérios são os nossos; sofrimento grande, é o nosso! O outro? ah, o outro é o outro. Nada mais. Não interessa.

Entretanto, vivemos diante de uma lógica perversa, porque, ao escolhermos ignorar o "outro", atentando apenas para o nosso umbigo e para o daqueles mais próximos de nós, deixamos de ampliar as possibilidades de socorro, para quando surgirem as adversidades no nosso caminho. Porque é na queda que sentimos falta de uma mão amiga para o soerguimento. Em pé, e caminhando, todos somos livres e independentes. No chão da vida, porém, acaba a liberdade para caminhar e surge a dependência e a necessidade da tal mão amiga.

Tudo isso, para buscar na Palavra a direção acertada para a vida. Deus, conforme a narrativa do Livro do Gênesis, cria um mundo maravilhoso! Um mundo extremamente belo, grande e produtivo. Nada faltou! Nada? Faltou sim. Faltou um ser semelhante, com quem pudesse desenvolver uma relação de amizade e de confiança. Uma relação de crescimento e de desenvolvimento de toda a criação já iniciada. E Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). E depois, ainda não plenamente satisfeito, cria a mulher e incentiva-os: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e dominai-a” (Gn 1, 28). Ou seja, mesmo para Deus, a existência e a presença do “outro” é de suma importância, porque Ele quer estar junto, quer se fazer presente e companheiro.

Assim, em meio ao silêncio estranho que reina no Jardim do Éden, o Senhor chama pelo homem e pergunta: “Onde estás?” (Gn 3, 9). É claro que Ele sabia onde o homem e a mulher estavam, mas, quer demonstrar interesse, preocupação, mostrar que sente necessidade da companhia das suas principais criaturas.

No mesmo sentido, bem mais tarde o Senhor Deus questiona Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” (Gn 4, 9). Também aqui, Deus sabia que Abel já não vivia, pois, tinha sido morto pelas mãos do irmão. Mas, o Senhor, com a pergunta: “Onde está o teu irmão Abel?”, toca fundo na alma de Caim que, naquele momento, percebe que Deus queria vê-los juntos. Não, divididos e, pior, divididos pela morte de um deles pelas mãos do “outro”. Para Deus, o “outro” deve ser agregador, não, divisor. Deus é com todos, e não, com uns ou com outros, mas, com todos. E todos, aqui, somos nós e os “outros” que, juntos, somos um com o verdadeiramente Outro, Aquele que é e que sempre está.

João Batista, o precursor, depois de batizar Jesus, envia “dois” de seus discípulos para seguirem-No. Dois mais o verdadeiramente Outro. Depois, segundo o relato de Mateus, Jesus “viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão”. Mais adiante, “viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão”. Tais escolhas não ocorreram sem uma razão específica: sempre unir, jamais, dividir! Daí, um aspecto negativo na parábola do filho pródigo, quando o irmão mais velho se revolta contra o pai que faz festa para celebrar a volta daquele que “estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi encontrado” (Lc 15, 24). Para aquele pai havia uma incompletude: faltava o “outro” filho. Agora, com o seu retorno, toda a alegria está de volta e o pai diz ao filho aborrecido: “Filho, tu estás sempre comigo, tudo o que é meu é teu; era, porém, justo que houvesse banquete e festa, porque esse teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi encontrado” (Lc 15, 31-32). Agora, sim, com o retorno do “outro, está completa a felicidade daquele pai.

E é preciso caminhar ao lado do “outro”, sem excluí-lo, sem desprezá-lo, para não acontecer como no caso contado por Jesus, sobre o rico avarento e o pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Da compreensão acerca da necessária relação com o “outro”, nasce a vida comunitária e desta, o ambiente de comunhão com o Deus Trindade. É necessário saber que o “outro” é qualquer um, para não cairmos na tentação de escolhermos a quem devemos abraçar ou prestigiar ou ajudar. Por esta razão, quando um doutor da lei pergunta a Jesus: “E quem é o meu próximo?”, ouve como resposta a parábola do “bom samaritano” na qual, e em resumo, um homem absolutamente estranho e mal visto pelos judeus, apieda-se daquele que, vítima de ladrões, jaz ferido e moribundo na estrada, necessitando de socorro imediato, para não perder a própria vida. Ao final, Jesus indaga ao doutor: “qual dos passantes te parece ser o próximo daquele moribundo” ao que ele responde; “o que agiu com misericórdia”, “vai e faze tu o mesmo”, ordena Jesus, encerrando a conversa.

Onde está o outro? É a pergunta tema: o outro está, sempre, onde eu estou, seja ele quem for. Se for do bem, alio-me a ele; se do mal, afasto-me dele; se cair, sendo do bem ou do mal é meu dever ampará-lo e soerguê-lo porque, na parábola do bom samaritano, ninguém se interessou em saber se o moribundo era do bem ou do mal; ninguém se preocupou em saber se os ladrões que o atacaram agiam por vingança, contra possível e antigo parceiro, e quem sabe, até mesmo um trapaceiro. Simplesmente, o samaritano decide expor-se para cuidar e, depois, segue seu caminho de forma absolutamente anônima. Como disse Jesus, devemos ir e fazer o mesmo.

O “outro” é tão importante, que Jesus compara-se a ele, ao declarar: “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40). E, por que Ele diz isto? Porque é Deus, e Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Portanto, Deus tem em cada um de nós, um semelhante Seu.

É difícil para nós, que vivemos em um período tão violento, cruel e maldoso, abrir as portas do coração e da casa para o “outro”, total e perigosamente “estranho”, mas, por esta razão, mais do que sempre, precisamos, repetindo a oração do Pai Nosso, pedir com fé redobrada: “livrai-nos do mal”. Somente Deus pode nos livrar do mal e dos seus tentáculos, mas, se eventualmente, virarmos vítimas, grande será a nossa recompensa porque, segundo a fé que professamos, precisamos confiar nas palavras de Jesus quando afirma: “Bem aventurados sois, quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas, que existiram antes de vós” (Mt 5, 11).

Não tenhamos medo do “outro”, por intermédio dele e das ações que direcionarmos a ele, as portas do céu poderão ser trancadas ou escancaradas para nós. Façamos a nossa parte, à imitação do Deus Uno e Trino, e aguardemos a tão esperada recompensa que, certamente, não virá de forma definitiva enquanto estivermos neste plano terreno, mas, chegará quando mais necessitarmos. Aquela mão amiga, a que nos referimos no início deste texto, será estendida para podermos fazer a maior de todas as travessias da nossa existência. E depois, o Pai estará esperando por nós para, junto com todos os “outros”, celebrar o nosso retorno à verdadeira vida. Apenas creia. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, no ITF-Petrópolis, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

fev 26

EDITORIAL DA SEMANA: LOUCO POR JESUS

A LOUCURA DE JESUS

CONHECER JESUS, LEVOU-ME À LOUCURA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quem consegue assumir a loucura, em sã consciência? Quem pode vencer o ego, a vaidade, o orgulho e tudo o mais que caracteriza o ser humano e dizer: sou louco? Pois eu, depois de refletir no silêncio do meu eu e de avaliar minha conduta espiritual perante a criação e perante o mundo, cheguei à conclusão de que estou irremediavelmente louco!

Os primeiros sinais da loucura apareceram depois que conheci Jesus de Nazaré: um homem-Deus, profeta carismático, capaz de curar, de ressuscitar os mortos, de acalmar tempestades, de multiplicar pães e peixes, de andar sobre as águas e de perdoar os pecados, mas, ao mesmo tempo, capaz de entregar-se nas mãos dos algozes e permitir ser esbofeteado e açoitado, para, finalmente, ser pregado em uma infame cruz. Conhecer esse Jesus mexeu com a minha cabeça, com o meu espírito e com a minha capacidade de interpretar e de conviver com este mundo, para mim, verdadeiramente louco.

No início, achei que a vida do homem de Nazaré era apenas um conto mitológico, banhado em contradições e blindado contra os desgastes do tempo. Uma história sem pé e sem cabeça inventada por alguém que queria ficar famoso e vender livros.

Depois, comecei a encontrar lógica e coerência entre as palavras daquele homem e as atitudes que partiam Dele, na forma em que descrita pelos seus, digamos, biógrafos que, tradicionalmente, são chamados de evangelistas. Estudei a vida de alguns destes “evangelistas” e descobri que foram homens contemporâneos do próprio Jesus ou dos seus mais antigos discípulos. Tudo começou, então, a se encaixar na minha mente e no meu espírito. Algumas dúvidas, no entanto, permaneceram durante algum tempo: como pode um Deus ser preso, açoitado e morto, sem oferecer qualquer resistência? Como pode um único Deus ser, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo? O que leva um Deus a se rebaixar à condição humana, para experimentar as dores, os sofrimentos e as angústias dos seres humanos? Não dava para entender direito! Decidi mergulhar fundo na vida e na obra desse Jesus que tanta gente segue e diz amar.

Um homem sem igual: ensinou oferecer a outra face tendo, Ele próprio, oferecido, não apenas a face, mas o corpo todo e a vida, para serem destroçados; mandou orar pelos inimigos, tendo Ele mesmo orado ao Pai, na hora da agonia e pedido perdão para os agressores; mandou perdoar até setenta vezes sete, mas, Ele mesmo, e sem fazer nenhuma conta, nunca negou o perdão a ninguém; chamou de bem aventurados os pobres, sendo Ele, também, um pobre sem terra, sem teto e sem bens materiais; saciou a fome do povo, quando Ele mesmo jamais se preocupou com a própria alimentação; condenou o adultério, mas Ele próprio perdoou a mulher adúltera em praça pública; diz ter vindo para cumprir a Lei, mas, Ele próprio curou e perdoou pecados em dia de sábado, proibido pela Lei; afirma que nada acontece sem que o Pai celestial saiba, mas, ressuscita Lázaro, quatro dias após o sepultamento; discursa perante as multidões, pregando o Reino de Deus, mas, fica calado diante do Sinédrio, de Pôncio Pilatos e de Herodes Antipas, quando interrogado e à beira da condenação à morte; diz que precisa ir para o Pai, mas, sofre terrivelmente ao perceber a chegada da morte, clamando pelo afastamento do cálice amargo.

Estudei a vida Deste homem e fiquei louco. Louco para ser igual a Ele! Louco para conseguir imitá-lo, de alguma forma. E, mais louco ainda eu fiquei quando percebi que, por mais que eu quisesse e que me esforçasse, não conseguia parecer em nada com Ele!! Quando via a maldade no mundo, eu torcia para que alguém fosse punido; quando via ladrões e corruptos sendo apanhados pela justiça, queria vê-los, todos, atrás das grades, algemados e acorrentados; quando tomava conhecimento de que alguém tinha sido lesado, aconselhava a procura pela justiça, em busca da reparação moral e/ou material; quando ficava diante de um probleminha qualquer, logo, logo procurava alguém para me socorrer e, se possível, dar preferência ao meu caso que, para mim, era sempre de urgência; quando olhava para tudo o que eu possuía, sempre percebia que podia conquistar um pouco mais, afinal, diziam os amigos, não é pecado ter um pouco de ambição; andar ao lado dos poderosos, e com eles conviver, era o que mais me dava prazer na vida; alcançar algum tipo de poder sempre fazia parte dos meus projetos para o futuro. Então, como eu conseguiria seguir Aquele homem de Nazaré, para quem nada disso tem a menor importância ou valor? Ah, e para explicar ou para justificar as minhas atitudes, eu costumava, como fazem os insensatos, atribuir as minhas deficiências à condição humana. Mas, Jesus, também, não assumiu plenamente a condição humana e, como tal, não viveu no meio dos homens, padecendo dos mesmos males, enfrentando os mesmos desafios e superando todos eles?

Dá ou não dá pra ficar louco? Eu queria amar, quando alimentava sentimentos de vingança, em nome de uma moral altamente duvidosa; queria perdoar até setenta vezes sete quando, por qualquer motivo, me distanciava do outro, de cara virada; queria orar pelos meus inimigos... para que morressem o quanto antes; queria assegurar, primeiro, os meus direitos e os meus privilégios, para, depois, quem sabe, pensar nos outros. Aquilo, para mim, era esperteza, inteligência, perspicácia, prudência, justiça, sabedoria. Mas, o Senhor disse: “meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos” (Is 55, 8) e, bem mais tarde, o Apóstolo Paulo vai dizer que: “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, pois está escrito: ‘Eu apanharei os sábios na sua própria astúcia’” (ICor 3, 19). Eu era louco, e o mundo me amava e me aplaudia, porque me considerava sábio, justo e astuto!

Mas, agora, meus amigos já perceberam os sinais do que, para eles, é a verdadeira loucura: perceberam que não guardo mágoas e nem ressentimentos; observaram que não desejo o mal para ninguém e que, no fundo, no fundo, sinto pena e me compadeço dos que são apanhados no crime e submetidos a condições desumanas nos cárceres privados ou nas prisões públicas; ouviram-me dizer que precisamos aprender a conviver com o que é mau, sem opor resistência; não compreendem quando falo em favor dos pobres e dos necessitados, que recebem do Estado algum tipo de auxílio; ficam assustados quando ouvem o meu conceito de justiça para todos, independentemente de partidos, religiões ou mesmo do crime que possam ter cometido; mostram-se assombrados quando defendo o direito dos presos, de manifestarem revolta com as condições da prisão ou quando tentam a fuga; ficam assustados com o meu grau de sinceridade, lançando fora a mentira e a falsidade e expressando de forma clara tudo o que se passa em meu coração; acham que sou politicamente incorreto e que... não tenho, digamos, jogo de cintura; ficam escandalizados, quando afirmo que Deus está sempre pronto para perdoar todo aquele que se arrepender diante Dele, inclusive, os piores criminosos e que nós devemos agir da mesma forma; revelam grande espanto, quando declaro que a verdadeira felicidade não existe neste mundo, mas, sim, na vida plena em Deus, por Deus e para Deus; têm certeza da minha loucura, quando digo que estou ansioso para sair desta vida, para retornar a Deus, em busca da vida eterna prometida por Jesus. Acham que meu caso é de internação urgente!

Nada disso me incomoda! Depois que conheci Jesus, estudei Sua vida e analisei Suas obras e palavras, reconheci que a proposta Dele para os homens é, de fato, uma loucura, assim como toda a vida Dele foi uma loucura. Não em vão Ele afirmou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” Mt 16, 24-25). Depois que, por intermédio de Jesus, estudei e me aproximei da Santíssima Trindade, outra loucura para os meus contemporâneos, fiquei louco de vez, sem possibilidade de cura neste mundo!

Talvez o prezado leitor ou a prezada leitora, também, não duvide da minha loucura! Fique, pois, sabendo que Jesus ama todos esses loucos e que o Reino de Deus é feito por esses, para esses e para todos os demais loucos que, certamente, ainda aparecerão porque, há mais de dois mil anos, a loucura do Evangelho vem seduzindo as mentes, os corações e os espíritos mais brilhantes e mais sábios deste mundo convertendo-os, todos, para Deus, para o desespero e a verdadeira loucura de todos os que não conseguem entender, aceitar nem seguir, a verdadeira e lúcida mensagem de Jesus. Seja feliz, e boa sorte!

________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

fev 19

EDITORIAL DA SEMANA: NOSSOS DESERTOS E TENTAÇÕES

JESUS NO DESERTO - 3

JESUS, O DESERTO E O ADVERSÁRIO: OS MESMOS COMPONENTES DA NOSSA VIDA TERRENA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tempo da quaresma de todos os anos traz para nós cristãos, de um modo geral, e para os católicos, de modo especial, algumas recordações do Evangelho que dão conta do início da vida pública de Jesus. Não bastassem os apelos relacionados com este tempo (quaresma), como jejum, caridade, perdão, reconciliação, oração etc., sempre somos levados a relembrar a ida do Filho de Deus, conduzido pelo Espírito, para o deserto.

É, pois, no deserto, que Jesus vai se deparar e, de certo modo, se confrontar, com o adversário de Deus, aquele a quem são atribuídos diversos nomes, cada um mais assombroso que o outro, coisa que não farei aqui por considerar absolutamente desnecessário e, também, para não dar mais fama para quem já tem tanta!

Pois bem, o tal adversário é, acima de tudo, astuto, sábio e conhecedor profundo da natureza humana, sabendo que o ser humano, por qualquer estalar de dedos, faz qualquer coisa para se agigantar perante seus semelhantes e, se for o caso, até destruí-los da pior maneira possível, por um punhado de ouro, ou equivalente, e, digamos, por um cargo qualquer que o coloque acima dos demais. Ele, o adversário de Deus, sempre soube de tudo isso sobre nós, humanos, e, ao saber que Jesus tinha dupla natureza (humana e divina) decide comparecer naquele deserto para ver o que conseguiria.

Interessante, e apenas para abrir um parênteses, este mesmo adversário já tinha investido contra Jó, lá no Antigo Testamento, só que, ao invés de oferecer algo, ele apareceu para tirar tudo o que o pobre servo de Deus tinha. Fecha (“).

Agora, no deserto, ele se aproxima sorrateiramente de Jesus, olha-O bem e de forma admirada, percebe que Jesus sente as mazelas da fome prolongada, e diz: “Se és filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pães”. Ora, para quem tem o poder de um Deus, por que continuar com fome, quando basta apenas um simples gesto para que tudo ao redor se transforme em alimento? O adversário é forte e, bem alimentado, desafia Jesus a saciar a fome de uma vez por todas, como se dissesse: “chega, você já provou que é capaz de fazer jejum, mostra aí um pouco do teu poder”. Jesus, no entanto, olha para ele e afirma: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Parece que vejo o adversário esboçando um sorriso e, balançando a cabeça, conduz Jesus para o ponto mais alto do templo e lança um novo desafio: “Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Porque mandou aos seus anjos em teu favor, e eles te guardarão em todos os teus caminhos e te levarão pelas mãos, para que teu pé não tropece em alguma pedra’”. Aqui, ele mostra conhecimento sobre a Palavra de Deus e cita textualmente os versículos 11 e 12 do salmo 90. Jesus aceita o confronto e afirma: “Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus”, reportando-se ao Livro do Deuteronômio, capítulo 6, versículo 16 (Não tentarás o Senhor teu Deus, como o tentaste no lugar da tentação).

O adversário admira-se de ver o conhecimento de Jesus sobre o Antigo Testamento. Sabia que Jesus era Judeu, mas, sem nenhum estudo e sem qualquer formação ou prática religiosa. Fica surpreso com a performance do nazareno!

Porém, não satisfeito, e conhecendo a origem pobre e humilde daquele servo de Deus, conduz Jesus até o ponto mais elevado de um monte, de onde podem ser contemplados diversos dos seus domínios e, mais uma vez, desafia o nazareno: “Tudo isso eu te darei se, prostrado diante de mim, me adorares”. Agora a cena é invertida e é Jesus quem olha para o adversário com ar de escárnio e, chamando-o por um de seus nomes, diz: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto”, recordando a lei mosaica descrita no Livro do Deuteronômio, no capítulo 10, versículo 20 (Temerás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás).

O Evangelista São Mateus afirma que, naquele exato momento, o adversário sai de cena, dando lugar aos anjos que se aproximam para servirem o filho de Deus em todas as suas necessidades.

A narrativa da tentação é, apesar de tudo, muito bonita: de um lado, Jesus enfrentando os primeiros desafios da vida longe do lar materno, do aconchego e do carinho daquela que sobre dizer “sim” à proposta da salvação e, de outro lado, a presença daquele que sempre surge no momentos mais difíceis da vida humana, para trazer propostas de vaidade, de ambição e de sujeição a qualquer preço. São dois projetos bastante distintos que, não apenas naquele inóspito deserto, mas, também, na vida de todos nós, estão presentes durante toda a nossa estada neste plano terreno: o sofrimento, a dificuldade, a angústia e o sentimento de fidelidade ao Pai e ao seu Ungido, de um lado, e o desejo de fazer diferente, de ser diferente, de querer crescer e de mostrar-se pronto para o que der e vier, para alcançar “prestígio e glória”, sempre em nome da “coragem para enfrentar e vencer desafios”, de outro. É o eterno confronto entre o projeto de Deus para salvar o homem, numa extremidade, e o projeto do adversário para provar que o homem não tem salvação, na outra ponta!

Nesse jogo de ontem, de hoje e de sempre, nem sempre o ser humano consegue imitar Jesus e, infelizmente, acaba cedendo às propostas (tentações) do adversário que sai dando gargalhadas diante da queda dos humanos que, por qualquer provocação, cedem. Se queres, podes comprar: e o sujeito compra, sem importar-se com as consequências; se cuidares bem de mim (dinheiro), dar-te-ei tudo o que precisares, e o sujeito dedica-se ao dinheiro, de corpo e alma; se, prostrado, me adorares, te darei todo o poder sobre tudo e sobre todos, e o homem compromete-se com as instituições, que asseguram-lhe poder e status suficientes para subjugar seus semelhantes, e até explorá-los à vontade. Vaidade, riqueza e poder, os três pilares oferecidos a Jesus, que soube recusá-los por amor ao Pai e por amor à humanidade. Esta mesma humanidade que, hoje mais do que nunca, anseia pelo encontro com o adversário de Deus para, recebendo iguais propostas, entregar-se a ele de braços e mente abertos, acreditando libertar-se de todo o mal que a aflige.

A imagem de Jesus no deserto reflete a nossa imagem nos dias atuais, quando enfrentamos momentos inóspitos e somos tentados aos caminhos mais fáceis e quase sempre formosos, mas, que, irremediavelmente, afastam-nos do projeto de Deus.

Olhando para a nossa vida, para os nossos desertos, com seus inúmeros desafios, e para as diversas tentações a que somos submetidos por um adversário que tem certeza da nossa fraqueza e da nossa queda, precisamos focar em Jesus e pedir para Ele nos libertar das nossas fragilidades, das nossas cegueiras e da nossa falta de fé e que, tal como Ele, saibamos dizer: “Vai-te embora satanás”.

Se não agirmos desta forma, nunca seremos imitadores de Jesus e, pelo contrário, sempre estaremos à disposição do adversário, que já nem se preocupa tanto conosco, pois, sabe que somos presas fáceis da vaidade, do orgulho, da prepotência, da ambição e de um relativismo que de tudo nos liberta e nos desvia do caminho, da verdade e da vida. Ou seja, de Jesus!

Nesta quaresma, reflita sobre os desertos da sua vida e das tentações das quais tem sido vítima, assim como da forma como tem se saído destas armadilhas tramadas pelo adversário de Deus que, contra o homem Jesus, nada conseguiu. Seja feliz, e boa sorte!

_______________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

fev 12

EDITORIAL DA SEMANA: A FACE HUMANA DE DEUS

DEUS PAI E FILHO

UM DEUS QUE SE ASSEMELHA AO HOMEM –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Segundo o Livro do Gênesis, Deus, deliberando com a corte celeste, disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). A narrativa de Gn 2, 7, que é mais antiga, fala que “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente”.

O homem, este ser racional, totalmente diferente do restante da criação, recebeu do Criador uma alma dotada de atributos intelectivos e sensitivos capazes de torná-lo superior a todos os demais seres criados, a ponto de, nas palavras do Criador, poder presidi-los (Gn 1, 26).

Entretanto, para Deus não bastou criar o homem à sua imagem e semelhança, justamente porque, ao ser afastado do paraíso em decorrência da desobediência, o homem perde o contato direto e visual com o Criador, perdendo, da mesma forma a capacidade de encontrá-lo e, portanto, de reconhecê-lo. Daí a enorme dificuldade da humanidade pós-Adão e Eva em perceber a magnificência de Deus em toda a sua plenitude, dando origem, não apenas à descrença na divindade, mas, e pior, a uma imagem totalmente distorcida e falsa de Deus.

A distorção acerca da imagem de Deus, tido, visto e apresentado como um Deus-guerreiro, vingador e vingativo, capaz de impor castigos terríveis à humanidade pode, até certo ponto, ter servido de comparação do Deus único de Abraão, de Isaac e de Jacó, com os deuses da antiga Mesopotâmia ou mesmo da Babilônia, de modo a fazer crescer a idolatria tão combatida pelos profetas e, também, um dos principais motivos para a desgraça da casa de Davi, dividida em dois reinos após a morte de Salomão e, posteriormente, enviada para o longo período do exílio.

A incompreensão e a distorção sobre Deus chegou a tal ponto que, pela boca do profeta Isaías, o Senhor rejeita todos os sacrifícios oferecidos pelos homens, assim como o jejum, exortando o povo a fazer penitência, a praticar o bem, a procurar a justiça porque, diz o Senhor: “Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos. Ainda que multipliqueis a oração, eu não ouço: Vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1, 15). Este mesmo Deus, no entanto, é amoroso e compassivo e, ao mesmo tempo em que se volta contra a infidelidade, a incredulidade e a idolatria do povo, afirma: “Aprendei a fazer o bem! Procurai a justiça, corrigi o opressor. Fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Vinde e discutiremos – diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, ficarão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, ficarão como lã. Se concordardes em obedecer, comereis as coisas boas da terra” (Is 1, 17-19), como a dizer: vocês estão fazendo tudo errado; não Me compreendem e não conseguem entender que eu quero o bem máximo para todos vocês. Parem de oferecer sacrifícios inúteis e desnecessários. Vivam no amor e na justiça!

Entretanto, na plenitude dos tempos (Gl 4,4), o Verbo de Deus encarna-se no seio da Virgem Maria e revela ao mundo a face que nem a Moisés, no alto da montanha, foi permitido ver: a face do Deus-humano-Deus, apresentando, também, o Espírito Santo, no insondável mistério da Santíssima Trindade.

É a partir deste evento sem igual na história da humanidade que Deus, outrora apresentado e compreendido como o Todo-poderoso Senhor dos Exércitos, apresenta-se diante de nós, exatamente, como um de nós: simples, pobre, frágil, sofredor e sujeito a tudo e a todos, a indicar para nós o único e verdadeiro caminho: Jesus.

A presença de Jesus é a presença do Pai e Deles o Espírito Santo. A partir desta revelação, e desta compreensão, surge diante de todos e de cada um de nós, um Deus muito diferente daquele sobre o qual havíamos formado opinião totalmente distorcida. O Verbo de Deus encarnado, cuja humanidade é assumida pela Segunda Pessoa da Trindade representa o bem, o amor, a misericórdia e a compaixão a que todos nós somos convidados a aderir de corpo e de alma porque, se o Pai e o Filho são “um”, com o Espírito Santo, o plano salvífico de Deus importa que sejamos, também, “um”, com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Quando Jesus afirma “Eu vim para que todos tenham vida, e tenham-na em abundância” (Jo 10,10), Ele quer dizer que nossa vida somente será abundante (ilimitada) se totalmente integrada a Ele, ao Pai e ao Espírito Santo. Isto fica muito claro, quando Jesus faz as seguintes afirmações: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) e, mais adiante: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, diferentemente da crença difundida entre muitos cristãos, o nosso Deus, o Deus da vida, e da vida em abundância, é Aquele que caminha conosco sempre, sofrendo, chorando, sorrindo, perdendo e vencendo e não, Aquele Deus Todo-poderoso cujo trono fica lá em cima, no mais alto dos céus, para onde Jesus foi, também, e está sentado ao lado do Pai, como se fossem duas pessoas distintas, olhando para baixo, de forma estática, aguardando o desenrolar da nossa triste história.

Precisamos redescobrir o Deus que nos criou, que sempre cuidou, e que ainda cuida, de nós e mais: que veio até nós, assumindo a condição humana de forma plena, sem abrir mão da Sua divindade, porém, fazendo-se semelhante a nós em tudo, menos no pecado, simplesmente porque é impossível para Deus pecar contra si mesmo. O Filho do Homem é, também, o filho da humanidade que, mantendo íntegra a Sua divindade, faz-se e vive como um de nós, conhecendo profundamente todos os nossos percalços, sofrimentos, angústias e dificuldades. Por esta razão Ele, que conheceu na própria carne todas as nossas mazelas e nossas misérias, não é o Deus vingador e vingativo de quem, outrora, ouvimos falar.

Ao olharmos para Esse Deus, pela face de Jesus e pela luz do Espírito Santo, identificamos Nele a nossa própria imagem refletida porque, se, por um lado, fomos criados à imagem e semelhança Dele, por outro, Ele próprio assemelhou-se a nós ao se encarnar no seio da Vigem de Nazaré para, vivendo a condição humana de forma plena, lançar sobre todos nós oceanos de bênçãos, perdoando os nossos pecados e as nossas transgressões e colocando-nos no verdadeiro caminho para a salvação e para a vida eternamente abundante, conforme prometido por Ele.

Precisamos corrigir o nosso olhar, acerca daquela imagem distorcida que nos foi apresentada como sendo a de Deus, passando a vê-Lo, a admirá-Lo e  a reverenciá-Lo em toda a Sua beleza e divindade, mas, também, em toda a Sua humanidade, da qual somos descendestes e herdeiros, convidados para o banquete celestial em permanente união e comunhão com todos os irmãos, as irmãs, os santos, os anjos e com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Não estanque a sua visão na leitura deste simples texto, mas, aprofunde o estudo, a pesquisa e a leitura da Bíblia, de modo a encontrar-se com o Deus único e verdadeiro; o Deus que, para estar permanentemente ao nosso lado, assemelhou-se a nós, no mistério da Encarnação e que, para nos integrar totalmente a Ele, trouxe-nos o mistério da Santíssima Trindade por meio da qual somos convidados à unidade e à comunhão, a fim de realizarmos plenamente o desejo de Jesus manifestado ao Pai nas últimas orações: “Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da tua palavra; para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 20-21). Reflita sobre tudo isto e transforme sua vida para sempre, credo absolutamente no Deus único e verdadeiro, que é Pai, é Filho e é Espírito Santo e que está, não no céu, apenas, mas, também, em nós e no meio de nós, convidando e querendo que com Ele vivamos e reinemos para sempre. Seja feliz, e boa sorte!

_____________________________________
*Luiz Antonio de Moura estuda Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Posts mais antigos «

Apoio: