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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

fev 19

EDITORIAL DA SEMANA: NOSSOS DESERTOS E TENTAÇÕES

JESUS NO DESERTO - 3

JESUS, O DESERTO E O ADVERSÁRIO: OS MESMOS COMPONENTES DA NOSSA VIDA TERRENA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tempo da quaresma de todos os anos traz para nós cristãos, de um modo geral, e para os católicos, de modo especial, algumas recordações do Evangelho que dão conta do início da vida pública de Jesus. Não bastassem os apelos relacionados com este tempo (quaresma), como jejum, caridade, perdão, reconciliação, oração etc., sempre somos levados a relembrar a ida do Filho de Deus, conduzido pelo Espírito, para o deserto.

É, pois, no deserto, que Jesus vai se deparar e, de certo modo, se confrontar, com o adversário de Deus, aquele a quem são atribuídos diversos nomes, cada um mais assombroso que o outro, coisa que não farei aqui por considerar absolutamente desnecessário e, também, para não dar mais fama para quem já tem tanta!

Pois bem, o tal adversário é, acima de tudo, astuto, sábio e conhecedor profundo da natureza humana, sabendo que o ser humano, por qualquer estalar de dedos, faz qualquer coisa para se agigantar perante seus semelhantes e, se for o caso, até destruí-los da pior maneira possível, por um punhado de ouro, ou equivalente, e, digamos, por um cargo qualquer que o coloque acima dos demais. Ele, o adversário de Deus, sempre soube de tudo isso sobre nós, humanos, e, ao saber que Jesus tinha dupla natureza (humana e divina) decide comparecer naquele deserto para ver o que conseguiria.

Interessante, e apenas para abrir um parênteses, este mesmo adversário já tinha investido contra Jó, lá no Antigo Testamento, só que, ao invés de oferecer algo, ele apareceu para tirar tudo o que o pobre servo de Deus tinha. Fecha (“).

Agora, no deserto, ele se aproxima sorrateiramente de Jesus, olha-O bem e de forma admirada, percebe que Jesus sente as mazelas da fome prolongada, e diz: “Se és filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pães”. Ora, para quem tem o poder de um Deus, porque continuar com fome, quando basta apenas um simples gesto para que tudo ao redor se transforme em alimento? O adversário é forte e, bem alimentado, desafia Jesus a saciar a fome de uma vez por todas, como se dissesse: “chega, você já provou que é capaz de fazer jejum, mostra aí um pouco do teu poder”. Jesus, no entanto, olha para ele e afirma: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Parece que vejo o adversário esboçando um sorriso e, balançando a cabeça, conduz Jesus para o ponto mais alto do templo e lança um novo desafio: “Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Porque mandou aos seus anjos em teu favor, e eles te guardarão em todos os teus caminhos e te levarão pelas mãos, para que teu pé não tropece em alguma pedra’”. Aqui, ele mostra conhecimento sobre a Palavra de Deus e cita textualmente os versículos 11 e 12 do salmo 90. Jesus aceita o confronto e afirma: “Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus”, reportando-se ao Livro do Deuteronômio, capítulo 6, versículo 16 (Não tentarás o Senhor teu Deus, como o tentaste no lugar da tentação).

O adversário admira-se de ver o conhecimento de Jesus sobre o Antigo Testamento. Sabia que Jesus era Judeu, mas, sem nenhum estudo e sem qualquer formação ou prática religiosa. Fica surpreso com a performance do nazareno!

Porém, não satisfeito, e conhecendo a origem pobre e humilde daquele servo de Deus, conduz Jesus até o ponto mais elevado de um monte, de onde podem ser contemplados diversos dos seus domínios e, mais uma vez, desafia o nazareno: “Tudo isso eu te darei se, prostrado diante de mim, me adorares”. Agora a cena é invertida e é Jesus quem olha para o adversário com ar de escárnio e, chamando-o por um de seus nomes, diz: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto”, recordando a lei mosaica descrita no Livro do Deuteronômio, no capítulo 10, versículo 20 (Temerás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás).

O Evangelista São Mateus afirma que, naquele exato momento, o adversário sai de cena, dando lugar aos anjos que se aproximam para servirem o filho de Deus em todas as suas necessidades.

A narrativa da tentação é, apesar de tudo, muito bonita: de um lado, Jesus enfrentando os primeiros desafios da vida longe do lar materno, do aconchego e do carinho daquela que sobre dizer “sim” à proposta da salvação e, de outro lado, a presença daquele que sempre surge no momentos mais difíceis da vida humana, para trazer propostas de vaidade, de ambição e de sujeição a qualquer preço. São dois projetos bastante distintos que, não apenas naquele inóspito deserto, mas, também, na vida de todos nós, estão presentes durante toda a nossa estada neste plano terreno: o sofrimento, a dificuldade, a angústia e o sentimento de fidelidade ao Pai e ao seu Ungido, de um lado, e o desejo de fazer diferente, de ser diferente, de querer crescer e de mostrar-se pronto para o que der e vier, para alcançar “prestígio e glória”, sempre em nome da “coragem para enfrentar e vencer desafios”, de outro. É o eterno confronto entre o projeto de Deus para salvar o homem, numa extremidade, e o projeto do adversário para provar que o homem não tem salvação, na outra ponta!

Nesse jogo de ontem, de hoje e de sempre, nem sempre o ser humano consegue imitar Jesus e, infelizmente, acaba cedendo às propostas (tentações) do adversário que sai dando gargalhadas diante da queda dos humanos que, por qualquer provocação, cedem. Se queres, podes comprar: e o sujeito compra, sem importar-se com as consequências; se cuidares bem de mim (dinheiro), dar-te-ei tudo o que precisares, e o sujeito dedica-se ao dinheiro, de corpo e alma; se, prostrado, me adorares, te darei todo o poder sobre tudo e sobre todos, e o homem compromete-se com as instituições, que asseguram-lhe poder e status suficientes para subjugar seus semelhantes, e até explorá-los à vontade. Vaidade, riqueza e poder, os três pilares oferecidos a Jesus, que soube recusá-los por amor ao Pai e por amor à humanidade. Esta mesma humanidade que, hoje mais do que nunca, anseia pelo encontro com o adversário de Deus para, recebendo iguais propostas, entregar-se a ele de braços e mente abertos, acreditando libertar-se de todo o mal que a aflige.

A imagem de Jesus no deserto reflete a nossa imagem nos dias atuais, quando enfrentamos momentos inóspitos e somos tentados aos caminhos mais fáceis e quase sempre formosos, mas, que, irremediavelmente, afastam-nos do projeto de Deus.

Olhando para a nossa vida, para os nossos desertos, com seus inúmeros desafios, e para as diversas tentações a que somos submetidos por um adversário que tem certeza da nossa fraqueza e da nossa queda, precisamos focar em Jesus e pedir para Ele nos libertar das nossas fragilidades, das nossas cegueiras e da nossa falta de fé e que, tal como Ele, saibamos dizer: “Vai-te embora satanás”.

Se não agirmos desta forma, nunca seremos imitadores de Jesus e, pelo contrário, sempre estaremos à disposição do adversário, que já nem se preocupa tanto conosco, pois, sabe que somos presas fáceis da vaidade, do orgulho, da prepotência, da ambição e de um relativismo que de tudo nos liberta e nos desvia do caminho, da verdade e da vida. Ou seja, de Jesus!

Nesta quaresma, reflita sobre os desertos da sua vida e das tentações das quais tem sido vítima, assim como da forma como tem se saído destas armadilhas tramadas pelo adversário de Deus que, contra o homem Jesus, nada conseguiu. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

fev 12

EDITORIAL DA SEMANA: A FACE HUMANA DE DEUS

DEUS PAI E FILHO

UM DEUS QUE SE ASSEMELHA AO HOMEM –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Segundo o Livro do Gênesis, Deus, deliberando com a corte celeste, disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). A narrativa de Gn 2, 7, que é mais antiga, fala que “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente”.

O homem, este ser racional, totalmente diferente do restante da criação, recebeu do Criador uma alma dotada de atributos intelectivos e sensitivos capazes de torná-lo superior a todos os demais seres criados, a ponto de, nas palavras do Criador, poder presidi-los (Gn 1, 26).

Entretanto, para Deus não bastou criar o homem à sua imagem e semelhança, justamente porque, ao ser afastado do paraíso em decorrência da desobediência, o homem perde o contato direto e visual com o Criador, perdendo, da mesma forma a capacidade de encontrá-lo e, portanto, de reconhecê-lo. Daí a enorme dificuldade da humanidade pós-Adão e Eva em perceber a magnificência de Deus em toda a sua plenitude, dando origem, não apenas à descrença na divindade, mas, e pior, a uma imagem totalmente distorcida e falsa de Deus.

A distorção acerca da imagem de Deus, tido, visto e apresentado como um Deus-guerreiro, vingador e vingativo, capaz de impor castigos terríveis à humanidade pode, até certo ponto, ter servido de comparação do Deus único de Abraão, de Isaac e de Jacó, com os deuses da antiga Mesopotâmia ou mesmo da Babilônia, de modo a fazer crescer a idolatria tão combatida pelos profetas e, também, um dos principais motivos para a desgraça da casa de Davi, dividida em dois reinos após a morte de Salomão e, posteriormente, enviada para o longo período do exílio.

A incompreensão e a distorção sobre Deus chegou a tal ponto que, pela boca do profeta Isaías, o Senhor rejeita todos os sacrifícios oferecidos pelos homens, assim como o jejum, exortando o povo a fazer penitência, a praticar o bem, a procurar a justiça porque, diz o Senhor: “Quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos. Ainda que multipliqueis a oração, eu não ouço: Vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1, 15). Este mesmo Deus, no entanto, é amoroso e compassivo e, ao mesmo tempo em que se volta contra a infidelidade, a incredulidade e a idolatria do povo, afirma: “Aprendei a fazer o bem! Procurai a justiça, corrigi o opressor. Fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Vinde e discutiremos – diz o Senhor. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, ficarão brancos como a neve. Se forem vermelhos como o carmesim, ficarão como lã. Se concordardes em obedecer, comereis as coisas boas da terra” (Is 1, 17-19), como a dizer: vocês estão fazendo tudo errado; não Me compreendem e não conseguem entender que eu quero o bem máximo para todos vocês. Parem de oferecer sacrifícios inúteis e desnecessários. Vivam no amor e na justiça!

Entretanto, na plenitude dos tempos (Gl 4,4), o Verbo de Deus encarna-se no seio da Virgem Maria e revela ao mundo a face que nem a Moisés, no alto da montanha, foi permitido ver: a face do Deus-humano-Deus, apresentando, também, o Espírito Santo, no insondável mistério da Santíssima Trindade.

É a partir deste evento sem igual na história da humanidade que Deus, outrora apresentado e compreendido como o Todo-poderoso Senhor dos Exércitos, apresenta-se diante de nós, exatamente, como um de nós: simples, pobre, frágil, sofredor e sujeito a tudo e a todos, a indicar para nós o único e verdadeiro caminho: Jesus.

A presença de Jesus é a presença do Pai e Deles o Espírito Santo. A partir desta revelação, e desta compreensão, surge diante de todos e de cada um de nós, um Deus muito diferente daquele sobre o qual havíamos formado opinião totalmente distorcida. O Verbo de Deus encarnado, cuja humanidade é assumida pela Segunda Pessoa da Trindade representa o bem, o amor, a misericórdia e a compaixão a que todos nós somos convidados a aderir de corpo e de alma porque, se o Pai e o Filho são “um”, com o Espírito Santo, o plano salvífico de Deus importa que sejamos, também, “um”, com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Quando Jesus afirma “Eu vim para que todos tenham vida, e tenham-na em abundância” (Jo 10,10), Ele quer dizer que nossa vida somente será abundante (ilimitada) se totalmente integrada a Ele, ao Pai e ao Espírito Santo. Isto fica muito claro, quando Jesus faz as seguintes afirmações: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) e, mais adiante: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, diferentemente da crença difundida entre muitos cristãos, o nosso Deus, o Deus da vida, e da vida em abundância, é Aquele que caminha conosco sempre, sofrendo, chorando, sorrindo, perdendo e vencendo e não, Aquele Deus Todo-poderoso cujo trono fica lá em cima, no mais alto dos céus, para onde Jesus foi, também, e está sentado ao lado do Pai, como se fossem duas pessoas distintas, olhando para baixo, de forma estática, aguardando o desenrolar da nossa triste história.

Precisamos redescobrir o Deus que nos criou, que sempre cuidou, e que ainda cuida, de nós e mais: que veio até nós, assumindo a condição humana de forma plena, sem abrir mão da Sua divindade, porém, fazendo-se semelhante a nós em tudo, menos no pecado, simplesmente porque é impossível para Deus pecar contra si mesmo. O Filho do Homem é, também, o filho da humanidade que, mantendo íntegra a Sua divindade, faz-se e vive como um de nós, conhecendo profundamente todos os nossos percalços, sofrimentos, angústias e dificuldades. Por esta razão Ele, que conheceu na própria carne todas as nossas mazelas e nossas misérias, não é o Deus vingador e vingativo de quem, outrora, ouvimos falar.

Ao olharmos para Esse Deus, pela face de Jesus e pela luz do Espírito Santo, identificamos Nele a nossa própria imagem refletida porque, se, por um lado, fomos criados à imagem e semelhança Dele, por outro, Ele próprio assemelhou-se a nós ao se encarnar no seio da Vigem de Nazaré para, vivendo a condição humana de forma plena, lançar sobre todos nós oceanos de bênçãos, perdoando os nossos pecados e as nossas transgressões e colocando-nos no verdadeiro caminho para a salvação e para a vida eternamente abundante, conforme prometido por Ele.

Precisamos corrigir o nosso olhar, acerca daquela imagem distorcida que nos foi apresentada como sendo a de Deus, passando a vê-Lo, a admirá-Lo e  a reverenciá-Lo em toda a Sua beleza e divindade, mas, também, em toda a Sua humanidade, da qual somos descendestes e herdeiros, convidados para o banquete celestial em permanente união e comunhão com todos os irmãos, as irmãs, os santos, os anjos e com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Não estanque a sua visão na leitura deste simples texto, mas, aprofunde o estudo, a pesquisa e a leitura da Bíblia, de modo a encontrar-se com o Deus único e verdadeiro; o Deus que, para estar permanentemente ao nosso lado, assemelhou-se a nós, no mistério da Encarnação e que, para nos integrar totalmente a Ele, trouxe-nos o mistério da Santíssima Trindade por meio da qual somos convidados à unidade e à comunhão, a fim de realizarmos plenamente o desejo de Jesus manifestado ao Pai nas últimas orações: “Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da tua palavra; para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 20-21). Reflita sobre tudo isto e transforme sua vida para sempre, credo absolutamente no Deus único e verdadeiro, que é Pai, é Filho e é Espírito Santo e que está, não no céu, apenas, mas, também, em nós e no meio de nós, convidando e querendo que com Ele vivamos e reinemos para sempre. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura estuda Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

set 18

A HOMOSSEXUALIDADE DENTRO DE CASA: DESAFIO A SER VENCIDO

FILHO HOMOSSEXUAL

A HOMOSSEXUALIDADE DENTRO DE CASA: UM DESAFIO PARA QUALQUER FAMÍLIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O fenômeno da homossexualidade é quase tão antigo quanto a existência humana sobre a terra. Tanto, que ainda no tempo de Moisés, mais ou menos lá pelo século XIII a.C., foi transmitido aos seres humanos de então o preceito de que um homem não deveria se aproximar ou dormir com outro homem como se fosse mulher, “porque isto é abominável aos olhos do Senhor” (Lv 18, 22).

Portanto, a homossexualidade é por demais conhecida, embora não totalmente assimilada, pelos seres humanos de todos os tempos. Não pretendemos, no entanto, discutir os aspectos religiosos, morais ou mesmo sociais que envolvem a homossexualidade, mas, apenas, e tão somente, o modo como a questão é enfrentada no ambiente familiar.

Antes de maior avanço, quero esclarecer que a razão deste texto é um documentário que assisti em um canal aberto de TV, recentemente, no qual o entrevistador (jornalista) ouvia o depoimento de pais, mães e irmãos de pessoas que, em dado momento de suas vidas, decidiram se declarar homossexuais, assumindo a verdadeira identidade espiritual em descompasso com o corpo.

O comportamento dos pais e das mães ouvidos, inclusive, o de um pai famoso e ídolo do boxe brasileiro, guarda muita semelhança entre si: todos contaram que, no primeiro momento, sentiram raiva de si mesmos, vergonha da situação e, um ou outro confessou ter agido com bastante agressividade, não contra o filho, mas, contra o parceiro escolhido pelo filho. Um pai, inclusive, narrou ter se apoderado de uma faca e circulado pelas imediações da casa do namorado do filho, pensando em cometer o homicídio que, agora, dá graças a Deus por não feito nada do que andara planejando.

Todas as mães ouvidas admitiram mais ou menos o mesmo comportamento: sensação de culpa na criação do filho, raiva de si mesmas e vergonha sendo que, uma delas, admitiu, ao lado do filho, ter pensado seriamente e atentar contra a própria vida, atravessando desesperada e descontroladamente uma rodovia bastante movimentada de São Paulo (a Rodovia dos Bandeirantes) agora, também, agradecendo aos céus por ter conseguido, de alguma forma, manter-se sob controle.

Outra mãe, mulher simples e humilde, afrodescendente, enquanto falava com o repórter, deixava escorrer algumas poucas lágrimas, que afirmava serem de amor pelo filho sem deixar, porém, de reconhecer a gigantesca dificuldade enfrentada no início de tudo.

Não tive tempo para assistir a todo o documentário, mas, pelo que pude ver, consegui colocar-me na situação daqueles pais e senti o desafio que eles enfrentaram, até poderem abraçar aqueles filhos queridos e declararem amor profundo por eles.

Uma mãe falou uma coisa que me impressionou muito, disse ela: “quando a gente vê acontecer na família dos outros, é uma coisa. A gente dá palpite, critica o preconceito, fala de amor e tudo mais. Mas, quando acontece dentro da nossa casa é que vemos o quão difícil é a situação. Não é fácil não. A gente acaba vencendo, mas, é muito difícil no primeiro momento.”

Pensei em quantas situações idênticas são vividas, dia-a-dia, na vida de diversas famílias. Famílias cristãs; religiosas ou não; abertas ou fechadas; preconceituosas ou sem preconceitos, pelo menos no discurso. Enfim, pensei no quanto deve ser difícil para um pai, para uma mãe, para um irmão ou irmã, deparar-se com uma realidade muito diferente daquela imaginada para e por todos os componentes daquele grupo familiar.

Conforme falado por aquela mãe, quando o problema é no quintal alheio tudo é fácil e simples, porém, quando acontece nos nossos domínios a coisa muda de figura. É sempre assim, quando ocorre um assalto, uma doença, uma demissão, um desemprego, uma separação conjugal, uma prisão ou uma morte na casa do outro, temos as mais belas palavras de consolo, às vezes, de críticas e, ponto final. Aquela situação sai rapidamente do cenário da nossa vida. No entanto, quando ocorre conosco, dentro da nossa casa, aí o bicho pega, porque, então, somos chamados a provar na prática tudo o que, no discurso fácil, filosófico e poético sabemos expressar, olhando para a vida e a realidade alheias.

No caso da homossexualidade, parece ser verdade que nenhum pai ou mãe olha para aquele bebê recém-nascido e diz: “ah, quero tanto que ele seja homossexual, será a alegria da minha vida”. Acredito que nenhum pai ou mãe jamais tenha se manifestado desta forma. Pelo contrário, olha-se para aquele menino ou para aquela menina e, imediatamente, grandes e belos sonhos nascem no jardim do nosso coração. Desta forma quando, mais tarde ele ou ela anunciam a condição de vida que, como seres humanos, decidiram assumir por terem-se encontrado a partir do grande labirinto da vida, os pais e  demais familiares passam pela necessidade de um ajuste brusco em suas concepções, seus conceitos e pré-conceitos e esse processo, por óbvio, não ocorre da noite para o dia. Ele, além de ser bastante duro e de difícil assimilação, é dependente de muitos fatores: psicológico, religioso, social, sentimental, emocional e, fundamentalmente, do amor. Amor próprio, para não culparem-se a si próprios; amor paternal e/ou maternal para com aquele novo ser que está sendo revelado naquele núcleo familiar, em substituição àquele membro que, até então, era visto, querido e aceito como uma pessoa heterossexual, masculino ou feminino. Amor familiar, para buscar as bases sólidas da família, na compreensão de que aquele(a) que agora está revelando sua condição homossexual, é parte integrante do grupo familiar e que, portanto, não pode, de forma alguma, ser lançado porta afora, ficando sujeito e exposto a todo tipo de agressão, física, moral, social, psicológica e até mesmo sexual, com sério risco de perda da própria vida.

Portanto, devemos estar sempre atentos para a possibilidade de termos de enfrentar este desafio familiar, difícil, sim, mas não impossível de ser vencido. E, é sempre bom termos presente que, a qualquer tempo e em qualquer circunstância, podemos e devemos contar com o auxílio divino, nunca devendo ser esquecido que Deus está sempre pronto para vir em nosso socorro, nas mais diversas situações e que, diante de qualquer desafio, Ele nos une, nos fortalece e nos dá coragem para o encontro com o outro, procurando compreendê-lo, aceitá-lo, integrá-lo, incluí-lo e caminhar com ele, por onde quer que ele decida ir.

Se você, por acaso, está vivendo este desafio, saiba, em primeiro lugar, que não é castigo. É desafio mesmo! Em segundo lugar, saiba que poderá vencer este, da mesma forma que já venceu outros tantos ao longo da vida. E, por último, acredite que Deus está do seu lado, do lado da sua família e do lado daquele que, agora, assume sua condição sexual com liberdade, com determinação, mas, também, com medo, com insegurança, sem coragem e, em muitos casos, sem força alguma contando, apenas, com você. Se você falhar nesta hora, ele sofrerá muito mais.

E, não se esqueça: Deus pode até abominar certos atos praticados pela humanidade, no entanto, está sempre pronto para caminhar ao lado do ser humano, seja em que circunstância for, afinal, Ele é o verdadeiro Pai que, com o infinito amor, carinho e misericórdia, age como a melhor de todas as mães, jamais abandonando sua criação. Criação pela qual doou a própria vida, na pessoa de Jesus Cristo, o Verbo encarnado.

Reflita sobre este texto, tenha fé e prossiga na sua caminhada, assim como eu estou prosseguindo com a minha, pois, também sou pai e, como tal, sujeito aos mesmos desafios. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.
     

set 11

EDITORIAL DA SEMANA: VOZES QUE EMERGEM DOS TEXTOS

VOZES DO TEXTO

AS VOZES QUE FALAM NOS TEXTOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Certo amigo fez há pouco tempo, uma observação acerca das diversas vozes que aparecem na redação do texto, de qualquer texto e, depois de algumas reflexões, levei em consideração por entendê-la bastante pertinente e, portanto, vou compartilhá-la aqui, neste espaço.

A voz do texto não é somente a do autor, diz o amigo, são diversas as vozes que falam junto com ele. Ou seja, não é apenas a opinião do redator que está sendo exposta, mas, também, as vozes de diversos outros autores que, uma vez lidos, estudados e/ou pesquisados, acabam por configurar ou influenciar o pensamento daquele que escreve um determinado texto.

A coisa faz certo sentido. O escritor, por exemplo, pois, quando escreve um texto religioso, deve estar embasado em diversos outros textos que leu sobre aquele tema que, no conjunto, ajudaram-no a formar uma opinião que, ao ser transportada para a página em branco, aparece como se fosse genuinamente dele. Não é! É de se reconhecer que o amigo, neste aspecto, tem alguma razão.

O fato é recorrente na vida de quase todos os autores, exceto, talvez, aqueles que escrevem sobre pesquisas de campo realizadas individualmente, após o que o pesquisador escreve sobre o conteúdo e as impressões tiradas da experiência.

Entretanto, a reflexão acerca do assunto traz a compreensão de que, quando escrevemos sobre algo a partir, também, das experiências próprias, apesar de alguém já ter, anteriormente, esboçado algo a respeito, o peso maior deve ser atribuído ao conteúdo que estamos formulando, sabendo que o conteúdo apresentado por outros autores tem natureza secundária e comparativa.

Neste caso, o texto não traz vozes outras a serem ouvidas, mas, somente a do autor que, ainda que parta de outras ideias, está fazendo a exposição literária do resultado da própria visão, compreensão e formulação de ideias que, sob certos parâmetros, são, sim, novas e, deveras, genuínas.

A maioria dos textos que eu elaboro, por exemplo, tem origem em duas fontes: na inspiração temática que recebo e que me desperta para a expressão literária, sem qualquer influência externa e na comparação analítica com a experiência vivida ao longo dos anos, durante os quais a questão ficou latente em meu intelecto, sempre vindo à tona e sempre sendo objeto da mesma análise comparativa, inclusive, com a percepção dos efeitos decorrentes do tempo.

Parece fácil pretender atribuir ao autor de determinado texto uma espécie de “plágio ideológico” quando, na ótica simplista do leitor, ninguém seria capaz e de forma inédita, de produzir uma narrativa tão cristalina e, por vezes, tão próxima de outras realidades, chegando mesmo a parecer que aquele conteúdo foi “copiado” ou sofre forte influência de fontes diversas.

Entretanto, quem escreve por hábito e por paixão não fica atrelado a determinadas leituras, não é dependente de inspirações literárias de terceiros e/ou de recordações de matérias com a mesma identidade literária e não tem a pretensão de se apresentar como gênio dos gênios na arte de escrever, apenas, busca as boas inspirações no Espírito e no próprio intelecto.

O autor, sob os efeitos da inspiração, é capaz de escrever sobre a formiguinha que atravessa a rua transportando uma pequena folha verde nas costas, sobre o canto dos pássaros ou, ainda, sobre o barulho inconfundível saído do encontro das diversas águas com o rochedo, sem necessidade de leitura prévia acerca de tais ocorrências, apenas, retratando o resultado da observação e da reflexão próprias.

O mesmo ocorre quando, diante de temas religiosos ou bíblicos, por exemplo, o autor, arguto estudante-pesquisador e, de novo, promotor de comparações com a realidade que o cerca, além de observador do comportamento dos atores externos, ligados e não ligados a religiões institucionalizadas ou em práticas espiritualistas ou místicas, extrai de todo o contexto, conclusões importantes a serem externadas para o fim de servirem de mote para reflexões e até mesmo para possíveis conversões, estas entendidas como mudanças de rumo.

Desta forma, penso que, por mais razão que possa ter o amigo que fez a ponderação narrada no início deste texto, o fato é que existem exceções e que, daí, o mais fácil é indagar de cada autor quantas e quais são as vozes que falam em cada texto que produz, a fim de podermos fazer uma avaliação mais precisa acerca do assunto.

Divergências ou convergências à parte, o escritor deve continuar escrevendo sem medo e sem muitas conexões, tendo como única fronteira o respeito por todos os seus semelhantes evitando, a todo custo, causar qualquer constrangimento que seja aos seus leitores ou às suas leitoras.

No mais, diante do teclado, e sempre buscando o pleno domínio da arte, procuro escrever sobre tudo o que a inspiração lança de forma abundante na direção do meu espírito, fazendo de mim um receptor e, ao mesmo tempo, um articulista de ideias, de críticas e de sugestões a serem expostas por meio das palavras bem trabalhadas, cujo o único objetivo é o bem, próprio e o de todos os irmãos e de todas as irmãs em Cristo Jesus, nosso Mestre e Senhor! Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

 

set 04

NA BÍBLIA SAGRADA, AS SENHAS PARA A VIDA!

LER A BÍBLIA - 2

A LEITURA DA BÍBLIA E SUA ADEQUAÇÃO AOS TEMPOS ATUAIS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A Bíblia Sagrada é, antes de tudo, um livro contextualizado, escrito no formato dos tempos antigos que narra tradições igualmente antigas, mas que, ordenadamente, transmite a mensagem divina para os homens de todos os tempos. Deste modo, a melhor e mais proveitosa forma de ler a Bíblia, é com o coração, limpo e vazio de ideologias, de teorias pré-concebidas e de direcionamentos religiosos. Antes de abrirmos a Bíblia, devemos abrir o coração. A Bíblia é composta por um conjunto de Livros que narram histórias reais, poéticas, históricas e proféticas, novelescas ou míticas, mas que sempre revelam um conteúdo cujo objetivo é trazer aos homens e às mulheres de todas as épocas ensinamentos, esperança, força, coragem, fé e determinação para a caminhada por este mundo.

Da leitura atenta da Bíblia podem ser extraídas algumas convicções que contribuem para impulsionar nossa vida, tirando-nos do marasmo e dos medos, tanto do presente quanto do futuro. Em primeiro lugar, as Sagradas Letras revelam de forma bastante clara e perceptível aos corações mais humildes a constante presença de Deus no meio do seu povo, vale dizer: junto do ser humano. Esta presença começa a ser mostrada ainda na narrativa da criação. Quando o Livro do Gênesis narra o dia-a-dia de todo o trabalho divino, ele vai encerrando cada uma das etapas com a frase: “E Deus viu que era bom”, como se desse a tarefa por cumprida e com ela não tivesse mais contato.

No entanto, quando cria o ser humano – homem e mulher – Deus se faz presente, ao lado daquele que, desde o princípio, é designado para dominar toda a criação. Deus caminha com o homem em meio aos animais e às plantas, como que colocando-o diante de toda a Sua obra e dele colhendo opiniões e sugestões, inclusive, quanto ao nome a ser dado a cada animal criado (Gn 2, 19-20). Depois da desobediência do ser humano – o homem e a mulher – e da fuga da presença do Senhor, eis que Deus vem à procura deles e, mesmo repreendendo-os e expulsando-os do paraíso celeste, se preocupa em preparar-lhes túnicas, para cobrirem o corpo, de modo a não saírem totalmente desprotegidos em direção ao destino igualmente desconhecido.

Depois destas passagens iniciais, vamos ver, por exemplo, o carinho de Deus para com Abel e, incrivelmente, para com Caim também que, mesmo depois de ter manchado a terra com o sangue inocente do irmão, recebeu do Altíssimo a promessa de que não seria castigado por ninguém, pois, ao manifestar a Deus a certeza de que seria morto, Caim ouve do Senhor a promessa de que: “Não será assim; mas qualquer que matar Caim será castigado sete vezes mais. E o Senhor pôs um sinal em Caim, para que o não matasse ninguém que o encontrasse” (Gn 4, 15).

Esta presença constante de Deus junto do ser humano vai sendo revelada e construída ao longo de toda a Bíblia, desde o Antigo até o Novo Testamento quando o próprio Jesus, na tarde da ressurreição, vai aparecer aos discípulos de Emaús, caminhando com eles como se fosse um do povo, conversando alegremente, contando diversos episódios envolvendo a lei e os profetas e, depois, um pouco mais tarde, estará presente junto dos onze apóstolos e das mulheres que faziam parte daquele séquito de pregadores do Reino.

Esta presença divina no meio de nós tem o ápice na narrativa do evangelista João quando, falando sobre o Verbo divino, afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1, 14).

Portanto, a leitura da Bíblia consolida no coração dos homens a certeza de que o Deus-Criador caminha ao lado da sua criatura que, mesmo dotada de razão e de inteligência, é carente da presença do Pai Eterno que nunca está ausente. É o Deus conosco, Aquele que caminha conosco sempre, ainda que o rejeitemos por meio de palavras, atos e omissões.

Outro aspecto que brota das linhas sagradas é o desejo de Deus de, sempre,  também, selar alianças com os homens de todos os tempos, trazendo-nos propostas que visam a nossa proteção, o nosso bem estar e, por fim, a nossa salvação eterna. Ao ser humano, impõe o respeito aos mandamentos que, nas palavras de Jesus, resumem-se ao “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” destes dois mandamentos, afirma Ele “depende toda a lei e os profetas” (Mt 22, 40).

Para os homens dos nossos dias, estes mandamentos parecem loucura, quando não, um enorme fardo a ser carregado porque, amar a Deus de todo o coração e com toda a força da alma revela-se cada dia mais difícil, diante de um mundo que, além de negar insistentemente o nome Deus, apresenta opções que, ainda que voláteis e efêmeras, são por demais atraentes, haja vista o prazer, a alegria, a segurança, o conforto e a satisfação que proporcionam. Além disso, como amar o próximo que está sempre à espreita para fazer o mal, para explorar e para se apoderar, inclusive, da nossa vida? Por estas razões, para os homens do nosso tempo tornou-se mais fácil agir como Adão, escondendo-se da face do Criador, do que se sujeitando a Ele.

A pactuação com os homens sempre esteve presente na ação direta de Deus que, embora traído inúmeras vezes, jamais desistiu daquele que recebeu a primazia entre todos os seres criados. A leitura atenta da Bíblia, por certo, deixa isto bastante evidente e, portanto, abre a cada um de nós a possibilidade de estreitar nossas relações com o nosso Deus-Pai.

Por fim, porém, sem esgotar o tema nesta oportunidade, a mesma leitura bíblica revela que, por mais paradoxal que possa parecer, se o homem não tem mais confiança no Criador, Ele, Deus, sempre acreditou no ser humano! Isto nos é revelado ao longo de ambos os Testamentos (Antigo e Novo), por meio das inúmeras narrativas trazidas pelos autores sagrados, culminando com a presença física do Deus-homem que, mesmo conhecendo o material de que somos feitos, sujeitou-se a viver no meio de nós, mesmo sabendo que sofreria e que morreria de forma humilhante. Tudo para, ao final, assegurar-nos a possibilidade da salvação eterna.

Ler a Bíblia, portanto, de forma serena, consistente e permanente, serve para revelar a todos e a cada um de nós, que esta face estranha que o mundo apresenta para nós, principalmente, para nós que fugimos do mal, não representa nada diante de tudo o que Deus fez e que reserva para nós, ainda nesta vida e, depois, na continuidade da nossa existência. É bom que o ser humano tenha bastante viva no coração a palavra do Profeta Isaías, depois repetida pelo Apóstolo São Paulo, de que “Nunca ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, nem nenhum olho viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam” (Is 64, 4; ICor 2,9).

Caso você não possua uma Bíblia, adquira uma e leia-a todos os dias da sua vida. Se possui uma e já faz a leitura permanente, divulgue a ideia para as pessoas das suas relações (amigos, colegas, parentes, filhos etc.) para que, ao final, todos tomem conhecimento de que Deus caminha ao nosso lado, confia em nós, está sempre pronto para nos acolher e que reserva para todos nós algo que o mundo, com todo o seu poder e a sua glória, não pode assegurar: a vida e a felicidade eternas. E se Deus nos promete, Ele cumprirá porque é Ele mesmo quem afirma pela boca do Profeta Isaías:

10Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer,11assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta (para mim) sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Is 55, 10-11)

Acredite: Deus confia em você, em mim e em todos nós. Por esta razão, não podemos decepcioná-lo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

ago 21

EDITORIAL DA SEMANA: ERA UMA VEZ, A CLASSE MÉDIA!

CLASSE MÉDIA

RICOS E POBRES FRENTE A FRENTE NOVAMENTE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Depois de mais de um século, finalmente, as duas classes sociais mais famosas do mundo estão voltando à ribalta, como protagonistas da desgraça humana: ricos e pobres voltam a ser as duas classes mais importantes e, em algum momento, inevitavelmente, vamos ver o futuro repetir o passado, com a velha cantilena socialista da famigerada luta de classes.

Já há alguns anos venho sustentando que o maior engodo proposto pelo capitalismo, com a finalidade de contradizer o socialismo que ameaçava a estrutura financista, consumista e mercadológica do sistema dominante, tirando o capital das mãos dos mesmos de sempre, chama-se CLASSE MÉDIA. A classe média foi uma tirada de mestre do capitalismo para fazer frente à fúria socialista que afirmava, com toda razão, a existência de apenas dois atores principais no palco da estrutura produtiva: de um lado, os ricos, donos de terras, de capital e dos meios de produção; do outro, o camponês, pobre, trabalhador, sem estudo e sem recursos para a própria subsistência. Era preciso, então, na ótica de Friedrich Engels, Karl Marx e de outros menos famosos, incitar a classe trabalhadora contra os ricos exploradores, chegando-se à fórmula mágica: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, como a grande tônica do manifesto comunista de 1848.

O capitalismo, pela primeira vez na história, sentia-se verdadeiramente ameaçado. Então, em fins do século XVIII, inicia-se um movimento tendente a demonstrar que, entre a nobreza e o campesinato, existia uma classe que prosperava, por meio dos frutos auferidos com o trabalho. Ou seja, a ideia era deixar claro que a tese socialista era totalmente falsa e que o pobre, apesar da sua condição, não estava fadado a morrer na pobreza e na miséria e que, com o próprio esforço, interesse e dedicação podia crescer na estrutura piramidal das classes sociais, chegando mesmo a tornar-se membro honorável da sociedade.

Ora, defender e sustentar uma ideia falsa exige esforço dobrado e muito investimento para concretizá-la, tornando-a factível e aceita pela plateia. Por mais de um século, foi necessário todo um trabalho de injeção de recursos dos ricos e poderosos para permitir a ascensão da pobreza a um patamar imediatamente acima sem, no entanto, ameaçar os donos do poder absoluto. Desse modo, milhares de pessoas, talvez, milhões, saíram da pobreza e realmente ascenderam na pirâmide social, passando a serem vistas como “os novos ricos”. Esta jogada, esse passe de mágica, arrefeceu a imponência e impôs silêncio ao socialismo que, em muitas partes do mundo, mostrava suas garras ditatoriais e totalitárias.

O capitalismo revelava aos quatro ventos a existência de três classes bastante distintas, formadas pelos ricos, por uma classe média que, em pouco tempo foi subdividida em “classe média baixa” e “classe média alta” e... os pobres.

Ora, uma estrutura social na qual o capital e os meios de produção são bem administrados, gerando possibilidades para todos é um sonho dourado. Milhares de vezes ouvimos depoimentos de pessoas que saíram da boca-do-mato, chegaram na cidade grande, conseguiram um empreguinho modesto, estudaram, foram diplomadas e alçaram voos altíssimos, conquistando espaços antes exclusivos dos ricos e poderosos.

No Brasil mesmo, o próprio Estado abriu as portas da Administração criando vagas bem remuneradas que, ao longo do tempo foram sendo conquistadas de forma disputadíssima tornando-se, ele próprio, fonte de empoderamento dos filhos do camponês que migravam do campo para as grandes cidades para, assumindo cargos importantes na Administração Pública, receberem vultosas quantias em nome do necessário serviço público em benefício de toda a coletividade. A boa remuneração e a possibilidade de apadrinhar parentes e amigos, colocando-os nas mesmas condições, foi permitindo o surgimento de uma classe média impositiva que, rapidamente, passou a dividir espaço com os ricos e poderosos em cenários antes frequentados por aqueles cujo patrimônio vinha na esteira dos séculos e embalado pelo direito de propriedade, de herança e de sucessão.

Mundo afora, enquanto o socialismo mostrou suas garras, principalmente, em países do porte da URSS, da República Popular da China, de Cuba e dos países satélites, o glamour da classe média nadou de braçada. No entanto, a partir da queda do muro de Berlim, com o início da derrocada do socialismo, com a desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com os braços abertos da China para a economia de mercado, menina dos olhos do capitalismo e com o raquitismo de Cuba, que em pouco tempo perdeu força e influência, tudo isso adicionado aos estragos promovidos pelas ditaduras militares, principalmente, na América do Sul, teve início um tímido, porém, consistente e permanente movimento para, lenta e progressivamente, ir soltando os freios e ir impulsionando a classe média criada em laboratório sofisticado do poder econômico e financeiro, cada vez mais para a direção de suas origens, ou seja, a pobreza.

Primeiro, ressurgiram as chamadas forças liberais ou neoliberais, cujo discurso enfático é o do Estado mínimo; da necessidade de vender ativos; de privatizar e de investir em áreas sensíveis como a saúde, a educação, a segurança pública, a justiça e a infraestrutura, encurralando o pobre e trabalhador e proporcionando o retorno do rico para o famoso laissez-faire, laissez-passer.

Não tardou muito para que países como a França, por exemplo, viessem com propostas de reformas estruturais nas áreas sociais, trabalhista e previdenciária, ocorrendo o mesmo em diversos países do bloco europeu. O resto desta história é por demais conhecido.

Tratando-se de Brasil, então, basta ativar a memória para ir desencadeando toda a sequência de movimentos eficazes na destruição de uma classe média iludida e conivente com os desmandos e abusos praticados pelos verdadeiros donos do poder que, enquanto julgaram útil, esconderam-se atrás de uma Constituição que eles mesmos deram o título de “Cidadã”, mas, que, quando viram não ser mais importante, passaram a ultrajar direitos até então sagrados, como o pagamento dos salários e dos benefícios devidos aos trabalhadores da ativa e aos aposentados, escarrando sobre o direito adquirido e vilipendiando inúmeros outros direitos em nome da reforma de um Estado que, se fosse realmente reformado, colocaria parte significativa dos reformadores atrás das grades, tamanhas as acusações que pesam sobre cada um deles.

Aumento de impostos, reformas trabalhista e previdenciária que outra coisa não são senão projetos para assegurar gigantescos ganhos para os donos do capital e dos meios de produção que, agora, passado o perigo socialista, retomam seus lugares de forma voraz, impedindo o repasse da inflação para os salários, pensões e benefícios, pregando a redução do Estado a quase nada, posto que saúde, educação, segurança pública, justiça e infraestrutura estão desmoronando ao longo das últimas décadas. Tudo isto, só tem revelado a destruição de uma classe média iludida e cega que, com tudo o que teve, não foi capaz de enxergar que estava sendo usada, apenas, como bucha de canhão. Preferiu viajar para o exterior, acumulando milhas para pagar parte dos custos, frequentando casas de câmbio e desfilando ao lado de famosos e prestigiados, rumando com os ricos para os lugares mais sofisticados do mundo, sem perceber que os inimigos estavam ao lado.

Agora, o que estamos assistindo? A tentativa, parece que bem sucedida, de destruição do serviço público, em detrimento dos servidores e de toda a coletividade que, em breve, ficará à míngua, e da classe média que, agora e de forma mais célere, está mais perto da pobreza do que da riqueza e que, em breve, será facilmente confundida quando, então, e finalmente, teremos novamente ricos e pobres em lados opostos e, quiçá, preparados para a luta que não ocorreu há quase dois séculos mas que, ao que tudo indica, revela potencial para ocorrer daqui por diante.

Entretanto, ainda há tempo para barrar a loucura que está sendo esboçada. Precisamos votar, e votar consciente. Votar naqueles que ainda vão chegar nas próximas eleições, repudiando e negando o voto a todo e qualquer político que, atualmente, exerce mandato seja no nível federal, estadual ou municipal. Todos estes políticos, assim como todos os seus partidos, estão contaminados pela loucura do mercado, do liberalismo e da sede de retomada do poder, tirando de nós, cidadãos e cidadãs de bem todas as condições de sobrevivência digna, cortando salários e benefícios sob a pecha de uma moralidade altamente questionável, haja vista a origem, corroendo nossos direitos, taxando nossos salários e atirando-nos na vala comum da miséria, ao invés de projetar-nos para um patamar acima, com melhorias sociais e estruturais, com taxação das grandes fortunas, com a cobrança dos grandes devedores da Previdência Social e do Fisco, iniciando pela própria União e passando pelos grandes conglomerados financeiros e midiáticos.

A classe média, tanto aqui quanto adiante, está fadada a retornar ao status quo ante quando, então, terá a oportunidade de rever seus métodos e conceitos e, quiçá, num distante futuro, possa reaver tudo o que dela já está sendo tirado, porque não foi dado, mas, emprestado e com data marcada para a devolução. Apesar de tudo, seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.
 

ago 14

EDITORIAL DA SEMANA: É PRECISO REVISITAR O PASSADO

ERROS DO PASSADO - 2O QUE FAZER PELO FUTURO?

*Por Luiz Antonio de Moura –

Dizem alguns sábios, antigos e atuais, que não devemos nos preocupar com o passado, porque já passou, e nem com o futuro, porque ainda está fora do nosso alcance e, sequer, sabemos se chegará recomendando, portanto, vivermos o aqui e o agora. O momento, dizem estes sábios, é agora. Viver o presente da forma mais intensa possível, aproveitando cada segundo da existência, hoje, para que, então, possamos usufruir da verdadeira felicidade.

Como filosofia a ideia é magnífica. Realmente, olhar para o imutável passado e para o insondável futuro, leva o ser humano a esquecer de viver o momento presente deixando de aproveitar o que de melhor a vida tem para oferecer a todos e a cada um de nós. É neste momento, no qual escrevo estas linhas e no qual você as está lendo, que temos a possibilidade de criar, de pensar, de aprender e de ensinar algo para alguém. Caso não tenhamos feito nada disto ontem, perdemos uma oportunidade de ouro e, por outro lado, se vamos deixar para fazê-lo amanhã, estaremos desperdiçando uma possibilidade ímpar porque, aqui, agora e neste momento, estamos presentes e com reais chances para agir.

Entretanto, devemos fazer uma reflexão mais aprofundada, diante do momento (presente) dificílimo pelo qual toda a raça humana está passando, enfrentando, ao que parece, todos os males de uma só vez: fome; doenças; guerras; violência nas ruas, nas famílias, nos presídios e nas escolas; desastres naturais; crimes dos mais variados, e até impensáveis, modos; corrupção em todas as esferas das sociedades nacionais e internacionais; tráfico de drogas, de armas e de pessoas; contrabando e pirataria; falta de amor e de respeito generalizados; ausência de fé, com fidelidade; desmoronamento da família, como instituição; a morte sendo cultuada em seus mais diversos aspectos e formas; além da busca pelo respeito ao direito de desrespeitar normas que até cinquenta/oitenta anos atrás eram obrigações morais, sociais e religiosas. Enfim, tudo isto acima descrito, que está incompleto em razão da ausência de boa memória, está acontecendo em todas as partes do mundo, sem exceção, neste caminhar do século XI. Um século do qual esperávamos melhores e mais vantajosas condições de vida.

Diante de todo este cenário que pode ser contestado, ante a incompletude, mas, não pelo exagero, é recomendável que ainda fiquemos olhando para o chão do presente? Realmente devemos esquecer o passado e, sequer, pensar no futuro acreditando que só o aqui e o agora é que têm real importância? Parece-me não ser esta a conduta mais apropriada para o momento vivido por toda a humanidade atordoada, atribulada e sob certos aspectos, sem perspectivas positivas para o futuro.

Primeiro, reputo saudável uma releitura da história, para examinarmos se em algum outro período passou-se por tantas desgraças simultâneas e abrangentes, das quais ninguém, absolutamente ninguém, é excluído. Depois, parece ser recomendável uma análise acerca do respeito dos antepassados às leis e às normas humanas e divinas, verificando-se se tais regramentos eram cumpridos à risca ou se todos procuravam a burla, sob os fundamentos esdrúxulos da plena liberdade, do pleno domínio sobre o corpo e sobre o próprio destino e do direito à busca da felicidade a qualquer preço sabendo-se, de antemão que as leis e as normas humanas e/ou divinas foram criadas justamente para equilibrar e pacificar o convívio entre os seres humanos no seio das sociedades. Feitos estes confrontos de épocas e de gerações, surge de forma inevitável, uma questão bastante simples, porém, de vital indagação: onde é, ou foi, que erramos? E, para o exame proposto, bem como para responder à pergunta colocada, torna-se necessário revisitar o passado. O passado que, tal como um filme de época, pode passar na tela da nossa TV interior a forma como viveram os antepassados de todos nós que, hoje, compomos a chamada sociedade moderna (ou pós-moderna para alguns), mostrando-nos como enfrentaram todos os desafios que, na essência, eram os mesmos: constituição familiar; conflitos raciais e religiosos; (in)tolerância e convívio familiar, social, religioso e político; postura diante das leis e normas civis e religiosas; adequação e conformação com os diversos extratos sociais, relações de trabalho etc.

Sem um sério e, acredito, necessário confronto com o passado, é muito difícil compreender, e até mesmo explicar, o porquê de tudo o que estamos sofrendo, repito, de forma simultânea, e em todo o mundo. Em contexto pouco parecido, o povo de Israel, notadamente o rei, a corte, os sacerdotes e os escribas, tidos como as classes dominantes, amargaram a transposição de uma vida abastada e confortável, para a inesperada, e desacreditada, vida no exílio que durou mais de cinquenta anos. Primeiro, a queda da Samaria, capital do Reino do Norte. Depois, Jerusalém, capital do Reino do Sul em chamas, com o templo destruído e com a deportação da elite dominante, para a Babilônia. Pois foi justamente no período exílico que aquele povo, outrora arrogante e descumpridor das leis de Deus, parou, pensou e viu onde havia errado, apesar de todos os avisos recebidos dos profetas, dentre os quais se destaca Jeremias que, inclusive, intercedeu junto de Deus para poupar aquele povo de cabeça dura.

Somente quando se deparou com a amargura e a desolação do exílio, quando passou da condição de “servido” para a de “servidor”, deixando de ser “provido”, para ser provedor, foi que o povo conseguiu enxergar que a burla às leis, a prática insistente da maldade e da injustiça, a exploração cega dos pobres trabalhadores, em busca do aumento da carga tributária, a luxúria, o esmagamento das classes menos favorecidas, a corrupção e a idolatria desenfreada, culminou com aquele destino impensado por qualquer um deles. O profeta Ezequiel conviveu com o povo exilado e narra com bastante eloquência tudo o viu enquanto esteve dentre a gente sofrida, até a morte ocorrida entre os anos 571 e 561 a. C. É fácil estudar esta matéria, o Livro do Profeta Jeremias, do Profeta Ezequiel e o das Lamentações, por exemplo, apresentam uma narrativa bastante aprofundada e comovente sobre a questão envolvendo os amargos dias de exílio do povo de Israel.

Depois de tudo o que sofreram, retornaram cabisbaixos para Jerusalém e, retomando a caminhada interrompida pelo rei da Babilônia, atribuíram a si próprios a missão de reconstrução do templo e, a partir de então, a de cumprir as leis divinas, abandonando de vez a idolatria e prestando culto apenas ao Deus único e verdadeiro. Foi preciso, infelizmente, o sofrimento e a dor, configurados pela perda do status social, das propriedades, do poder político e financeiro e da própria identidade como povo.

Diante destes dias tão nebulosos, nos quais estamos, cada um a seu modo, sendo rebaixados a condições cada vez menos dignas e mais ultrajantes, com sujeição a ditaduras (políticas, midiáticas, mercadológicas e sociais), corrupções e imposições políticas das mais descabidas, com diversas camadas populacionais sendo obrigadas a abandonarem suas pátrias e a vagarem por um mundo cada vez mais desumano e impiedoso, é aconselhável que reflitamos com seriedade sobre os nossos erros do passado. Precisamos revisitar o nosso passado recente, para identificarmos a partir do que e de quando deixamos de lado os bons costumes, a moral, a ética, a sabedoria, a santidade, a prudência, o caráter e as boas práticas, para darmos azo à cultura da morte, da vingança a qualquer preço, do olho por olho e dente por dente, do salve-se quem puder, do levar vantagem em tudo e sob todos os aspectos, da falta de perdão, do afastamento da reconciliação, do não arrependimento, da defesa de uma liberdade tresloucada que avilta os princípios mais sagrados da identidade e da intimidade do ser humano e, principalmente, da prática voluntária da idolatria, com verdadeiros culto e paixão pelo dinheiro, pelo poder, pelo prazer, pela satisfação pessoal, pela moda, pela mídia em todas as suas âncoras e pelo suposto “direito” de felicidade a qualquer preço.

Se a humanidade, de um modo geral, e a sociedade brasileira, de modo especial, não se propuser a esta reavaliação de procedimentos, estará caminhando a passos largos para um futuro muito sombrio, no qual forças ainda desconhecidas vão tomar conta de tudo e seremos, todos, subjugados, escravizados, presos, condenados e executados da forma mais impiedosa possível. É necessário uma rearrumação social, familiar, política, religiosa, comunitária, trabalhista, legislativa, judiciária e humana mesmo, de modo a consertar todo este cenário catastrófico no qual estamos envolvidos e a prevenir a chegada de dias piores, bem piores.

Reflita sem medo e sem preconceitos sobre este texto. Converse com seus amigos, parentes, vizinhos, colegas, cônjuges, filhos e filhas e, enfim, com todas as pessoas das suas relações e avalie tudo o que for possível, ainda, fazer para, juntos, enfrentarmos e vencermos a onda do mal que tem avançado de forma desafiadora e avassaladora sobre toda a nossa raça. Façamos cada um de nós, a parte que nos toca fazer, para não continuarmos sendo cúmplices silenciosos de tudo o que está afetando a todos nós de forma simultânea. Faça a sua reflexão e vamos dar início à mudança. Talvez alguém, mais alguém, mais alguém e, enfim, todos nos acompanhem no retorno à vida, antes da morte (é um paradoxo mesmo). Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.
   

ago 07

EDITORIAL DA SEMANA: AS ILUSÕES DA VIDA

A FORÇA DO DINHEIRO

DIANTE DE TUDO, QUEM SOMOS NÓS?

*Por Luiz Antonio de Moura –

É interessante observar a imponência com que o ser humano gosta de se apresentar perante os mais diversos contextos sociais, na vã ilusão de estar, de algum modo, no comando absoluto, não do mundo, mas, do próprio destino, acreditando de forma convicta que, naquele cenário no qual está inserido, detém pleno domínio sobre tudo o que o cerca.

Quase sempre toda esta empáfia está ancorada no dinheiro, do qual sobrevêm poder e status e, com eles, fama, prestígio e muita bajulação. Com os dois primeiros atributos a pessoa já se coloca em posição de elevada importância e influência, assegurando presença certa em diversas instâncias negociais, sociais, políticas e eclesiais, de onde pode multiplicar o conjunto do patrimônio que ostenta.

Fama e prestígio decorrem da competência com que o abastado transita no meio de seus iguais, ou até mesmo, em muitos casos, seus superlativamente desiguais. Quer dizer: como se relaciona com aqueles que estão na mesma faixa do extrato social e com aqueles que se colocam em patamares mais elevados. A partir deste relacionamento e dos ganhos auferidos por todos, e sem causar prejuízos a ninguém, a pessoa caminha com certa tranquilidade e em posição de permanente ascensão.

A bajulação complementa o enfeite e, normalmente, provém das camadas imediatamente colocadas abaixo. Ou seja, aqueles que estão em um patamar social menos considerado e com pouca, ou nenhuma, força monetária ou financista, tendem a bajular (puxar o saco, em linguagem popular) aquele que desponta um pouco mais acima, fazendo com o bajulado atribua a si próprio uma performance excepcional, por meio da qual acredita sincera e convictamente, estar no auge, no comando, no domínio absoluto das situações que o cercam.

Esta lógica, embora possa parecer estar se referindo aos ricos, propriamente ditos, tem a ver com qualquer cadeia hierárquica: política, financeira, legislativa, judicial, social, eclesial e, até mesmo, criminosa. A história é sempre a mesma: dinheiro, poder, fama, prestígio e bajulação! Daí, da junção de todos estes componentes, nasce o orgulho, a arrogância, a prepotência, a soberba, a imponência e toda uma sub camada de atributos que fazem com que a pessoa se sinta única e capaz de derrotar qualquer adversário.

Surge, porém, uma desunião familiar promovida por uma traição entre os cônjuges ou pela entrada de um filho ou de uma filha no mundo complicado do vício ou do crime. A partida do marido ou da esposa para cama e braços estranhos, nem sempre é assimilada com a simplicidade mostrada na telinha da TV e, nestas ocasiões, dinheiro e status pouco resolvem. Aliás, são os primeiros a serem objetos de divisão. A descoberta sobre o trânsito de um filho ou de uma filha no mundo do vício, seja ele qual for, ou mesmo sobre o envolvimento com práticas criminosas que, não raro, aparecem nas telinhas das TVs, com cobertura proporcional ao prestígio e à fama do patriarca, é evento que nenhum dinheiro é capaz de ocultar, trazendo, portanto, e no mínimo, o desconforto da pessoa perante seus iguais e um certo constrangimento perante os que estão um pouco acima, no extrato social, que quase sempre se afastam das situações difíceis e comprometedoras.

Em tais circunstâncias, a bajulação é reduzida a telefonemas, e-mails e mensagens eletrônicas, mas, nada de encontros, abraços ou fotos em público.

Quando tais cenários não se apresentam, surge uma doença grave ou mesmo incurável, em cujo tratamento a fortuna vai sendo dissipada pouco a pouco, com resultados muito pequenos e quase imperceptíveis. Poder e status, fama e prestígio, bajulação e demais atributos vão sendo diluídos até se perderem totalmente, lançando o antigo rico e poderoso, famoso, prestigiado, bajulado e influente no fosso do esquecimento sendo-lhe reservado, apenas, um pequeno espaço nos jornais e revistas para a derradeira homenagem. Uma homenagem que, no fundo no fundo quer dizer: vai com Deus!

Não se iludam queridos leitores e leitoras: com raras exceções, é o que ocorre impreterivelmente com aqueles/aquelas que depositam sua confiança nas ilusões oferecidas por este mundo, que têm no dinheiro e nas armas os alicerces do poder. Sem um ou outro, ou sem ambos, não existe poder. Sem poder, não existem status, fama, prestígio e influência. E, sem nada disso, não existe bajulação. Estará o ser humano perdido, então, sem nada disto? A resposta é negativa. Porque, sem nada do que acima foi apresentado, o ser humano é verdadeiramente humano e, como tal, tem consciência de que tudo é efêmero e de que, no fim de todas as contas, o que conta realmente é a amizade desinteressada e fiel, o amor e a solidariedade, a compaixão, a partilha, o simples sorriso e a alegria de estar entre os iguais. O resto, ah, o resto é o resto.

Portanto, caso conheça alguém que vive escondido na floresta das ilusões perdidas, tente trazê-lo para a realidade. Caso não consiga, fuja para bem longe da tal floresta, se é que você pretende viver e morrer feliz e no meio de pessoas que realmente te amam, te respeitam e te consideram pelo você é, e não, pelo que ostenta perante o mundo. Pense sobre isto! Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio!

jul 31

EDITORIAL DA SEMANA: É SEMPRE BOM RECORDAR

BOLINHA DE GUDE

OS DIAS ERAM ASSIM ...

*Por Luiz Antonio de Moura –

O título pode parecer conhecido, mas, nada tem a ver com o homônimo televisivo. Trata-se, na verdade, de recordar como eram os dias da infância das pessoas que hoje, como eu, circulam pela faixa dos sessenta anos de idade. Não se trata de saudosismo ou de recordações melancólicas, mas, de trazer para os moços e moças de hoje o que de melhor pudemos vivenciar nos idos anos da nossa juventude. Anos que não voltam mais, mas que, com certeza, se voltassem, encontrariam inúmeros adeptos, apesar do Facebook, do instagram, do Whatsapp e de outras redes sociais conhecidas.

Os meninos da minha época, assim como algumas meninas também, jogavam bolinha de gude nos terreirões. Era um entretenimento e tanto! Duas eram as modalidades mais disputadas: o triângulo e a búlica.  No primeiro modelo, riscava-se um triângulo mais ou menos grande em qualquer espaço de chão de terra e, mais adiante, traçava-se um risco reto no chão. Vários garotos, jovens e adultos participavam do jogo. Primeiro, decidia-se qual seria a aposta. Normalmente, começava com uma bolinha de gude para cada participante, casada no centro do triângulo, mas, podia-se optar, também, por duas ou mais bolinhas. Os três ou quatro participantes alinhados ao lado do triângulo arremessavam, de forma individual, sua bolinha mestra na direção da linha reta riscada no chão. A ordem de jogada era obedecida a partir de quem ficasse mais próximo da linha. Às vezes alguém parava exatamente em cima da linha e, pela lógica, seria o primeiro a jogar. Mas, um dos participantes ao lançar sua bolinha, acertava aquela que estava sobre a linha e abocanhava o primeiro lugar. A partir dali, era matar ou morrer. O jogo era divertido! Muitos meninos iniciavam o jogo com três ou quatro bolinhas e, ao final, graças à habilidade e à mão certeira, saíam com mais de vinte bolinhas, novas ou velhas, mas, saíam felizes e fazendo gozação com os perdedores. Todos riam, zombavam e, não raro, brigavam também, mas tudo acabava em muita risada. O segundo modelo (a búlica) era mais entediante, mas, era bastante usual também.

Da mesma época, e quase que de forma simultânea, meninos e meninas soltavam pipas. Que brincadeira agradável! Como era bom passar cerol na linha para, ao cruzar com pipas que vinham de longe, ter o gosto de cortar a linha do “adversário” e ver sua pipa balançando de forma desgovernada e vagueando em queda livre pelo espaço. O grande prazer não era apenas cortar a linha do outro, mas, aparar a pipa que caía a esmo e conseguir trazê-la na mão, como dizíamos então, com largas braçadas. Soltar pipa era o esporte favorito dos meninos, e de muitas meninas também, e que, apesar do tempo, não saiu totalmente da moda.

Tinha, ainda, o pique-esconde, o pulo da corda e da amarelinha e toda uma gama de diversões, de invenções e de entretenimentos que faziam voar os dias das longas férias escolares, do meio ou do final do ano.

Brincava-se com os famosos carrinhos de rolimã, infernizando as calçadas com um zunido gostoso de ser ouvido. Cada um fazia e incrementava seu próprio carrinho. Uns, criando um “sistema” diferenciado de freios! Outros, colocando rolimãs de tamanhos diferentes na frente ou na traseira. Outros, ainda, criavam um assento extra para o carona que, não raro, era a menina mais charmosa do grupo, por quem palpitavam corações e traziam sonhos e paixões inesquecíveis. Como era bom transportar aquela por quem o nosso coração pegava fogo, ainda mais quando conseguíamos vencer a corrida! Tudo era maravilhoso, tudo era divertido!

Por falar em corações e em paixões, como a gente sofria pela garota amada. Pedia-se ao amigo ou à amiga de confiança para levar os famosos “bilhetinhos” e “cartinhas de amor”, nos quais eram escritas coisas bastante sentimentais,  com pedidos de namoro, com convites para um encontro fortuito, para uma festinha de aniversário na casa de um vizinho onde, quase sempre, rolava um som romântico, convidativo para uma dança de rosto colado, quando a paixão, então, chegava ao ponto máximo. Tudo era lindo!

Falar sobre as famosas peladas é quase chover no molhado. De tão boas, são praticadas até os dias de hoje. Metade pra cá, metade pra lá, pouco importando o número, sendo fundamental a existência de uma bola qualquer, um gol de cada lado, e o resto era (e ainda é) só alegria. Jogava-se uma peladinha todo dia, se fosse possível. Na escola, na rua, no ponto final do ônibus entre uma chegada e outra, na quadra emprestada... em qualquer lugar. Na escola pública na qual eu estudava, jogávamos pelada até com tampinha de garrafa de refrigerante, com goleiro e tudo! Tinha falta, pênalti, lateral e escanteio. Tudo era diversão, tudo era alegria, tudo era sonho e romantismo! Sabíamos viver. Soubemos viver, mas, infelizmente, não fomos capazes de trazer tudo aquilo para os nossos filhos e filhas, hoje reduzidos a uma pequena caixinha retangular, por meio da qual afirmam estarem se divertindo, trocando conhecimentos, falando de amor, de sexo, de gostos e de prazeres, mas..., distantes uns dos outros. Falta-lhes o contato físico. O chute na canela, no meio de uma pelada; o tapa na cara, no meio de uma briga por causa de uma pipa de papel de seda; o abraço caloroso depois de uma vitória; o pegar na mão da garota desejada; o gostinho, a sensação e a alegria do primeiro beijo e tudo o mais. Hoje tudo isto é revelado por meio de emojis: mãozinha, tchauzinho, beijinho, risadinha, choro, sinal de positivo, de negativo etc., de forma fria e desprovida de qualquer sentimentalismo, como se fossem robôs falando uns com os outros. Dizem que são felizes! Talvez sejam sim, mas, de uma forma resultante da evolução tecnológica, e não, da evolução humana, com o aperfeiçoamento dos brinquedos, dos meios de entretenimento e das disputas sadias. Falta a estas últimas gerações o pé descalço no chão, o contato com a terra, com os rios e lagos, com o pescar na lagoa do vizinho e com o subir na árvore, seja para pegar uma fruta, uma pipa, um balão ou simplesmente para beijar a menina paquerada e sonhada por longos dias.

Nossos dias eram assim, cheios de pobreza, de simplicidade e de dificuldades, mas, também, cheios de alegrias, de emoções, de sonhos, de projetos e de expectativas porque não tínhamos o Android ou o IOS, dois dos principais sistemas operacionais utilizados na transmissão e na recepção de dados, para calcular as inúmeras possibilidades e, em segundos, mostrar resultados. Tínhamos que aprender a esperar o momento certo para tudo. Aprendíamos a lançar o anzol e, pacientemente, aguardar o peixe morder a isca. Não existiam peixes inteligentemente preparados para morder iscas assim que as vissem cair n’água. Fumava-se um cigarrinho ou tomava-se um golinho de whisky trazido por algum amigo mais abastado, escondido dos pais. Tinha-se prazer simplesmente no fazer algo escondido. Não estávamos sendo filmados ou tendo nossas intimidades reveladas em “redes sociais” ou coisa do gênero e, quando algum amigo ou amiga denunciava nossos atos para os pais, a coisa ficava feia.

As meninas vibravam com a chegada da maturidade, com a primeira experiência no uso do absorvente, com o uso escondido do batom e do esmalte, das primeiras aparadas e pinturas dos cílios, das saias curtas e do shortinho sensual, que causavam tanta sensação entre os jovenzinhos que, desde muito cedo queriam estar ao lado sexo oposto, fazendo mirabolantes projeções de futuro. Tudo era muito simples e bonito, porém, sem vulgaridades.

É de se lamentar que os jovens de hoje não possam mais, sequer, circular de forma livre pelas ruas, calçadas e bairros sem correrem o risco de um assalto, de uma agressão, de uma violência ou mesmo de uma bala perdida. Tudo, por culpa da tecnologia que trouxe jogos vorazes e violentos, disputas acirradas que, não raro, induzem a rivalidades mortais entre indivíduos e grupos, como tem sido visto, por exemplo, nos estádios de futebol. A eletrônica invadiu vidas e lares, agrediu sistemas milenares de convívio e destruiu sonhos, sentimentos, projetos e expectativas.

A extrema liberdade hoje desfrutada afasta a grandeza de cada ato praticado. É como o respirar o oxigênio no estado de maior pureza: causa perplexidade e assombro. Não existem segredos nem intimidades preservados. Tudo é volátil e vulgar, sem qualquer sensação de surpresa ou de ineditismo. Espera-se tudo de todos a qualquer momento e em qualquer lugar!

Aqueles foram dias verdadeiramente mágicos, porque foram herdados dos nossos bisavós, dos avós, dos pais, dos tios e dos irmãos mais velhos que, de geração em geração, foram trazendo e ensinando aos mais novos. Mas nós, lamentavelmente, não soubemos trazer aquela herança para as nossas crianças, nossos jovens e adolescentes e preferimos o caminho fácil do aparelho eletrônico que, inclusive, tem nos substituído com algum sucesso, pois, estão sempre ao lado dos nossos filhos e filhas fazendo-lhes a companhia que a agitação do mundo tem nos impedido de fazer e dando-lhes uma segurança que não somos mais capazes de dar. Os dias eram assim...

Não quis espantar os jovens nem causar angústias nos mais velhos. Quis, apenas, falar um pouco sobre os dias da minha juventude ao lado de todos aqueles que, hoje, ostentam ruguinhas, barriguinhas, cabelos brancos ou calvície, mas, que mantêm vivas n’alma as doces recordações dos belos dias que foram vividos com sabor, com amor, com felicidade e com paixão, e que hoje, com certeza, fazem a diferença entre as gerações que nos sucederam, pois, dificilmente elas sentirão saudades do ambiente eletrônico no qual estão mergulhadas até a alma, porque ali tem de tudo, menos sentimentos ou calor humano. Seja feliz, e boa sorte! 

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

jul 24

A RELIGIÃO SOCIABILIZA O HOMEM

RELIGIÃO-3

A RELIGIÃO E O SER HUMANO – UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A religião é, hoje, um dos grandes pontos de referência do ser humano. E, também, motivo de esperança, nem sempre na vida eterna, mas, na possibilidade de uma existência feliz e próspera aqui mesmo, neste plano terreno. Apesar dos grandes conflitos, e até mesmo das guerras em defesa de princípios e dogmas, a religião não pode ser descartada como algo ultrapassado, inútil e sem valor.

Esta convicção não nasce de uma hora para outra. Não! Somos levados, muitas vezes durante a vida, a imaginar diversas possibilidades de vida sem a religião, chegando mesmo a acreditar que as pessoas que professam esta ou aquela fé, são alienadas e vivem no mundo da lua, ao invés de colocarem os pés no chão firme do mundo real.

Entretanto, com o passar do tempo e fazendo uma análise holística do espectro religioso que cerca o ser humano, verifica-se o quão útil e importante é a pertença a uma religião, afastando-se, de imediato, questões como “salvação” e "dogmas". Não é por aí! Até porque, religião não salva ninguém. Mas, a análise deve ser encaminhada no sentido de verificar o comportamento, social, comunitário, ético e moral da maioria das pessoas que praticam esta ou aquela religião.

 E isto ocorre porque, se é verdade que religião não salva ninguém, também é verdade que a religião induz o ser humano a percorrer determinados caminhos que o afastam do caminho tenebroso da prática “exagerada” e progressiva do mal. E mal, aqui, é aquele que desastradamente prejudica, muitas vezes de forma irreparável, outras pessoas, e de forma cumulativa. Aquele que mata um pai ou uma mãe de família, não causa apenas um tremendo sofrimento ao cônjuge sobrevivente, como ameaça e compromete seriamente o futuro dos filhos órfãos. É apenas um pequeno, mas, muito corriqueiro exemplo. Outro, também, corriqueiro, é o daquele que fornece gratuitamente uma pequena porção de droga para um jovem. Ao se tornar mais um viciado, este jovem causa sofrimento, angústia, desarmonia e não raro, também, desunião de toda uma família. São exemplos simples de como o mal, que já nem causa tanto espanto nas pessoas, pode ter efeito destrutivo cumulativo.

Nesse aspecto, a religião e sua prática possui efeito devastador sobre o mal porque, como dito acima, induz o ser humano a olhar o mundo por meio de janelas diferentes daquelas às quais ele está acostumado, seja em decorrência da origem e das condições familiares e sociais, seja em decorrência da descrença geral que se abate cada vez com maior intensidade sobre toda a raça humana. O fato é que a religião possui um enigmático poder de frenagem da conduta humana, colocando-se à frente da pessoa, como que a ostentar uma placa com os dizeres “PARE”. Para o celerado da vida, que age por impulsos externos e sem medir quaisquer consequências, deparar-se com um “PARE” diante de si, significa, no mínimo, diminuir a velocidade de percurso e, de repente, ser levado a observar a outra placa que surge em seguida: “PENSE”. E, por fim, a placa decisiva: “MUDE SUA VIDA”.

Diante destas três placas, impreterivelmente levantadas por todas as religiões, o ser humano, necessariamente, tem de levar o pé ao freio e, ainda que o carro não pare imediatamente, e mesmo que continue andando em marcha lenta, não terá mais a velocidade alucinada que vinha sendo desenvolvida até então.

 E hoje, o que vemos? Vemos pessoas que professam, mas, não praticam a religião A, B ou C, tirando o pé do freio e acelerando o carro novamente, partindo para a desatinada prática do mal que está assustando toda a humanidade, porque o mal não tem fronteiras ou nacionalidade e a primazia é daquele que o abraça primeiro.

Não se trata mais, de encaminhar o ser humano para esta ou para aquela religião, sob a falsa ideia da salvação, mas, e, sobretudo, de incentivar todo aquele ou aquela que já se encontra vinculado a uma religião a permanecer firme e forte na prática religiosa prescrita pela Casa escolhida, sob pena de contribuir-se para o desatino e para a prática progressiva do mal que atinge a todos nós.

Pesquisa no campo da ciência das religiões revela que, teologicamente falando, nenhuma religião é absolutamente completa. Ou seja, a Verdade única é e está com Deus e em Deus. As religiões, quando muito, aproximam-se da Verdade, mas, não são detentoras Dela. Portanto, é ilusória e falsa a ideia de que a religião A, B ou C possui o mapa do paraíso e que, aquele ou aquela que segui-la terá sua vaguinha no céu assegurada, ao lado de Jesus e dos anjinhos. Não é assim, e as pessoas precisam tomar consciência desta realidade, para não continuarem andando por aí falando do que não sabem e, pior, afastando pessoas que já estão aninhadas em outras religiões.

Muitas vezes a pessoa muda de religião, acreditando estar entrando no caminho da “salvação” e, ao se deparar com realidades eclesiais idênticas às da religião antiga, acaba desacreditando, não apenas das religiões, mas, muitas vezes, do próprio Deus e da sua misericórdia, voltando lenta e progressivamente para a prática do mal que tanto prejuízo traz à coletividade e comprometendo o próprio destino final, por culpa exclusiva de um descaminho e um desaviso.

Portanto, e por tais razões, devemos incentivar as pessoas a abraçarem uma religião comprometida com a Palavra de Deus, sem nos determos nos ritos e/ou nos dogmas porque, assim, estaremos contribuindo sobremaneira para o desmoronamento da espiral do mal. Pertencer a uma religião, já é o primeiro sinal de que tudo pode ser diferente naquela vida instigada por tentações malignas, sendo fundamental, não apenas a permanência, mas, também, a firmeza no seguimento e na consciência de estar numa estrada que, certamente, conduzirá ao Pai que, finalmente, e só Ele, dirá o destino último de cada um de nós.

Não devemos acreditar que só a religião que seguimos é a que detém o mapa da mina celeste e que, portanto, e pior, devemos propagar que todas as outras religiões são falsas e enganadoras, incentivando seus seguidores a abandoná-las e a migrarem para a nossa, como se estivéssemos participando de um torneio, para ver quem consegue mais troca-troca e adesões por mês. Este jogo é perigoso e comprometedor, e os resultados negativos poderão ser debitados na nossa “conta celeste”.

Deixemos que cada um siga a sua propensão religiosa e, se queremos fazer algo de bom, passemos a angariar novos seguidores da Palavra de Deus, respeitando a opção de cada um acerca da religião a ser seguida. Assim, certamente, estaremos contribuindo para desacelerar o carro desgovernado do mal que, tresloucadamente, está devastando o mundo e, em decorrência, a todos nós e às nossas famílias.

Por fim, pertencer a uma religião comprometida com a Palavra de Deus e com a prática e a disseminação do bem constitui o primeiro grande ato que o ser humano pode, e deve, praticar na vida. O segundo é manter-se firme no seguimento e nos exemplos diante de toda uma comunidade perplexa com a força e com a impertinência do mal. Afastar, ou tentar afastar, este ser humano da sua religião, vendendo-lhe falsas ideias, ilusões e/ou mentiras pode significar estar carregando a chave errada da porta do reino de Deus e, na hora “H”, ficar de fora do paraíso sobre o qual afirma conhecer o caminho.

Reflita seriamente sobre tudo isto, sobre o seu procedimento diante dos fieis de outras religiões, sobre a importância de encaminhar aquele/aquela que segue e pratica o mal, para uma religião séria e comprometida com a Palavra de Deus e, assim, sem armas, sem conflitos e sem enfrentamentos você, eu e muitos outros seres humanos estaremos contribuindo, decisivamente, para a salvação de todos os homens o que, nas eternas palavras de Jesus Cristo, a quem afirmamos convictamente estar seguindo, é o desejo de Deus (cf. Jo 6, 38-40). Seja feliz e, boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio!

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