Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

jun 18

EDITORIAL DA SEMANA: O SENHOR É O MEU PASTOR

O SENHOR É O MEU PASTOR

O SENHOR É O MEU PASTOR, NADA ME FALTARÁ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Pouca gente pode afirmar desconhecer o tradicional Salmo 23 (22 em algumas traduções), cuja beleza poética, a força teológica e a magnitude da fé e da esperança sobressaem de forma exuberante, a ponto de ser recitado por diversas profissões de fé e até mesmo por quem não professa nenhuma religião.

“O Senhor é o meu pastor, e nada me falta” diz o versículo nº 1. Aqui o Salmista deixa claro a sua condição de ovelha a ser conduzida por Aquele que afirma ser o único e verdadeiro pastor (Jo 10, 11) e, sujeitando-se à divina condução, ele crê firmemente estar em boas mãos, onde de nada será privado. Ele, porém, não fica no vazio do “nada me falta”, mas, leva o leitor mais adiante, ao declarar que, pelas mãos do pastor, é conduzido a um lugar de pastos e de água fortificante. O verdadeiro pastor é aquele que conduz o rebanho, com segurança, para os verdejantes pastos e para lugares onde, da forma mais fácil e segura, pode encontrar água em abundância. Lugar onde a erva e a água são distribuídos com justiça e sem discriminação ou preço de mercado, porque tudo procede do Santo nome do Senhor.

Diante deste cenário de paz, de justiça, de segurança, de alimento e de saciedade, o Salmista se revela pleno e feliz e, para nós, lendo o salmo de baixo para cima, torna-se fácil compreender o porquê da afirmação inicial “O Senhor é o meu pastor e nada me falta”.

Mas o Salmista quer mostrar mais, quer revelar o que se passa por trás das entrelinhas do salmo. Os rebanhos de ovelhas, normalmente, e tratando-se do Oriente, são conduzidos para os elevados e escarpados montes, passando por lugares desérticos e próximos a despenhadeiros e abismos onde, não raro, os animais caem, perdem-se do rebanho e até morrem. Daí Jesus ter perguntado qual homem, se a ovelha cair em um fosso, em dia de sábado, deixará de socorrê-la? (Mt 12, 11). Pois bem, o perigo ao longo da caminhada e da condução do rebanho exige perícia, conhecimento, segurança, compromisso e responsabilidade do pastor, razão pela qual, não pode ser qualquer um, mas, um bom pastor. Um pastor que, se preciso for, dá a vida pelas ovelhas, a exemplo do Senhor Jesus (Jo 10, 11).

Nosso Salmista, colocando-se na condição de ovelha, afirma-se seguro e protegido, declarando que, ainda que caminhe no vale da sombra da morte, não temerá nenhum mal, porque sente a presença segura e reconfortante do pastor que, com a vara e com o báculo, isto é, com dois bastões, um mais curto e o outro mais longo, servindo de instrumentos de segurança e de condução do rebanho, cuida com amor e zelo do rebanho que foi-Lhe confiado.

Mesmo assim, os perigos existem e a cada passo, a cada entrada em território estranho, estão presentes desafios e adversários prontos para surpreenderem ovelhas e pastor. Mas o Salmista afirma que uma mesa é preparada à vista daqueles que podem servir de tropeço e que, por meio da unção do óleo sobre a cabeça o cálice da tranquilidade é transbordante, referindo-se à proteção da tenda preparada pelo pastor para proteger o rebanho durante as intempéries do dia e das surpresas das noites escuras.

Por fim, diz o Salmista: “Tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida, a fim de que eu habite na casa do Senhor durante longos dias”, numa demonstração da extrema confiança N’Aquele que caminha à frente do rebanho com fortidão e como que um verdadeiro facho de luz a alumiar o caminho de modo que o rebanho se mantenha unido sob o comando único do pastor, por longos e longos dias.

Quão belas são as palavras e fortes os simbolismos utilizados pelo Salmista para expressar o papel do verdadeiro pastor à frente do rebanho, rumo às verdes pastagens e às fontes de águas fortificantes, tendo, também para todos nós que cremos, forte significado porque caminhamos pelas estradas deste mundo sujeitos a todo tipo de perigos, de desafios e de adversários e, se não tivermos confiança no pastor que nos conduz, o que será de nós?

Assim como o Salmista, precisamos confiar N’Aquele que está à nossa frente, conduzindo-nos às verdes pastagens e assegurando-nos uma caminhada tranquila e sem sobressaltos ou riscos de sermos abocanhados pelo mal que nos cerca e nos espreita a curta distância.

Se o leitor ou a leitora possui uma Bíblia, abra-a no Salmo 23(22) e leia-o na íntegra, meditando sobre cada versículo, para apreender todos os simbolismos e significados que o Salmista deixa para todos nós. Desfrute desta fonte de fé, de esperança e de confiança no Senhor, que é o nosso único e verdadeiro Pastor, em quem devemos confiar toda a nossa vida e a nossa existência. Faça a leitura e reflita. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 11

EDITORIAL DA SEMANA: SOBRE JESUS, FALTA CONHECIMENTO

JESUS NAS BODAS DE CANÁ

SOBRE JESUS, NÃO FALTA RESPEITO, FALTA CONHECIMENTO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Recentemente li em um desses veículos da mídia que temos por aqui, o debate acirrado em torno da “censura” sobre uma representação teatral envolvendo a pessoa de Jesus Cristo que, na obra, é apresentado como “Rainha do Céu”, numa clara pretensão de colocar o Filho de Deus em pé de extrema igualdade com os homens, a ponto de assumir uma imaginada transexualidade.

A questão, pelo que li, ainda está dando o que falar porque, como sempre, envolve exaltados de ambos os lados. Uns, defendem a apresentação da peça teatral, advogando tratar-se de obra de arte e sem qualquer cunho religioso ou mesmo desrespeitoso. Outros, no entanto, querem porque querem barrar a peça, sob o argumento do necessário respeito às mais diversas tradições religiosas. A querela envolve artistas, produtores, administradores públicos, políticos e religiosos.

Como ocorre vez por outra, de tempos em tempos somos surpreendidos por alguns trabalhos, muitas vezes assinados por renomados autores, envolvendo, também, renomados atores, que decidem ousar sua criatividade em cima de figuras representativas da fé de milhões e milhões de pessoas mundo afora e, como vimos há bem pouco tempo, costuma terminar até em atentados terroristas tenebrosos, com a morte de culpados e de inocentes.

O fato é que, no caso da peça teatral em questão – que não vi nem tenho interesse em fazê-lo – a coisa encaixa-se naquela situação que costumamos destacar do “fazer tempestade num copo d’água”. Primeiro porque o próprio Jesus, do alto da cruz, ora ao Pai e pede: “Pai, perdoai-lhes, pois, não sabem o que fazem”, evidenciando ter pleno conhecimento sobre a nossa absoluta ignorância acerca de tudo o que se relaciona com a divindade, com o Céu e com os seus habitantes. Segundo porque, somente quem desconhece profundamente a natureza humana de Jesus, é capaz de compará-lo a nós, seres humanos, acreditando que o Filho de Deus – verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus – é capaz de trazer em si dúvidas, certezas, rejeição ou preferências no âmbito da sexualidade.

A natureza humana de Jesus faz Dele o homem perfeito, da forma pretendida por Deus no momento exato da Criação, ao declarar: “façamo-lo à nossa imagem e semelhança”. Aquele homem retratado no Livro do Gênesis, antes do pecado, isto é, antes de conhecer sobre o bem e sobre o mal, é o homem-Deus querido pelo Criador. É o ser perfeito, sem mácula e sem qualquer vinculação com desejos, com apetites, com inclinações ou com “prazeres”. Tanto é assim, que o primeiro homem não pediu ao Criador que lhe trouxesse companhia humana. Mas, é o próprio Deus que, olhando o homem à distância, percebe faltar-lhe uma companhia da mesma espécie, já que era patente a diferença entre o humano e os demais seres criados. Aquele homem, no entanto, e por razões que não serão analisadas aqui, deixa-se levar pela desobediência e, como dissera o Senhor Deus, passa a conhecer o sofrimento e todos os tormentos que envolvem o homem decaído, até o retorno ao pó donde provém.

Jesus, no entanto, vem para resgatar o homem original e, como Deus-homem, assume a condição daquele que, verdadeiramente, é imagem e semelhança do Criador, tão perfeito, que resgata o próprio homem da sua infelicidade, cujo ápice é a morte.

Portanto, qualquer criatura que pretender atribuir a Jesus esse ou aquele papel, por entendê-Lo humano como qualquer outro humano, mostra, acima de tudo, falta de conhecimento e, assim, livre está de qualquer condenação, porquanto, se Deus não castiga a ninguém, menos ainda, aos ignorantes, devendo ficar claro que, no caso em questão, não se trata de falta de respeito, mas, de falta de conhecimento acerca do próprio Jesus.

É verdadeiramente estéril o debate entre os homens acerca da representação de figuras religiosas o que, infelizmente, tem contribuído para conflitos, não raro sangrentos. Acima de tudo, precisamos compreender que nossas limitações são gigantescas e que nossas “ousadias” ficam muito aquém da capacidade de aranhar a reverência, o respeito e a santidade de qualquer divindade, menos ainda, Daquele que criou-nos conhecendo plenamente a fragilidade do barro utilizado.

Não façamos coro com os debatedores. Deixemo-los à deriva das suas loucuras e dos embates inúteis que travam, pois, como disse o próprio Jesus, “eles não sabem o que fazem”, nem o que dizem. Nada é impuro até que alguém assim o veja e, para quem assim o vê, deixemos que permaneça impuro como quer. De Deus, no entanto, não esperem castigo algum, porque Deus é Pai e, como tal, ama profundamente todos os seus filhos e filhas, mesmo sabendo-nos ignorantes. Reflita sobre isto e siga em frente. Seja feliz, e boa sorte!

_____________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

jun 04

EDITORIAL DA SEMANA: A DIFÍCIL INTERAÇÃO ENTRE OS SERES HUMANOS

CONVIVÊNCIA

AS DIFÍCEIS RELAÇÕES E INTERAÇÕES HUMANAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Os humanos são os seres mais complexos que existem porque, sejam quem forem – pais, irmãos, cônjuges, amigos, colegas, vizinhos, adversários, amantes ou amados – são capazes dos mais diversos comportamentos e das mais variadas atitudes, deles podendo ser esperada qualquer coisa. Daí a necessidade de estarmos sempre atentos nas necessárias e insubstituíveis relações que mantemos, nunca nos esquecendo de que somos todos iguais, porque, da mesma essência, capacidade e complexidade, sempre estamos interagindo uns com os outros.

Os seres humanos são dotados de capacidade, de competências e de carismas que revelam-nos seres divinamente especiais, com carta branca do Criador para administrar e gerenciar toda a criação. No entanto, dada a complexidade de potências com as quais somos dotados, somos capazes de agir, de falar, de omitir, de pactuar, de corromper e de sermos corrompidos, de amar, de odiar, de fazermos o bem ou o mal, de acolhermos ou de rejeitarmos, de construirmos ou de destruirmos, da forma mais natural possível. Sempre em nome de uma “liberdade” e de um “livre arbítrio” que não são apenas teses filosóficas ou teológicas não, são realidades nas quais estamos envolvidos.

E, deste emaranhado de atributos com os quais fomos premiados pelo Criador nasce a tremenda dificuldade da mútua convivência e da necessária interação. Querer, quando o outro não quer; pensar, quando outro não concorda; concordar, quando o outro discorda; silenciar, quando outro espera uma palavra; falar, quando o outro quer silêncio; esperar do outro o que ele não quer ou não tem condições de dar; dar ao outro o que ele não aceita receber; ajudar, quando o outro dispensa ajuda; omitir-se, quando o outro espera uma atitude; defender, quando o outro quer acusar; apontar erros, quando o outro quer minimizá-los ou até mesmo escondê-los; trabalhar, quando outro quer fazer corpo mole; descansar, quando o outro impõe o trabalho; comprar, o que o outro não quer vender; vender, o que o outro não tem condições de comprar; sorrir, quando o outro quer chorar; chorar, enquanto o outro quer sorrir; preocupar-se com o que o outro sequer dá atenção, e muitas outras situações.

São episódios que, no dia-a-dia da vida vão desafiando nossa capacidade de conviver com os nossos semelhantes, sem desconsiderá-los, desprezá-los e com eles estar em permanente confronto ou conflito. E mais: na lógica cristã, tendo que amarmos uns aos outros, como o Cristo nos ensinou com exemplo de sangue.

E quando se fala no Cristo, a visão acerca do “outro” tem que ser modificada, porque Ele, Jesus, soube melhor que qualquer um de nós, olhar para o outro e aceitá-lo exatamente como ele é, com suas virtudes, defeitos, carências, fraquezas e até mesmo maldades. Ele soube perscrutar a alma de todos os que O cercavam e que com Ele caminhavam e deixou-nos o exemplo. Daí, a necessidade primária que temos de, em primeiro lugar, fazer como Jesus fazia: olhar para o outro, bem no fundo dos olhos. Examiná-lo por dentro, através do olhar profundo e do silêncio. É deste comportamento, aliado da pausa no falar e do não agir de forma intempestiva e açodada, que nasce a compreensão acerca daquele ou daquela que está diante de nós. Seja quem for, venha com as armas que vier, aja da forma que agir. Jesus fez isto de forma admirável quando, diante do sinédrio, observou aqueles clérigos “decidindo o seu destino” e acusando-O de todas as formas: calou-se e observou a contenda entre eles. Percebeu claramente, que de nada adiantaria fazer discursos, pois, ao admitir expressamente ser o Filho de Deus, viu o sumo sacerdote rasgar as vestes, em sinal de desespero diante do que, para ele, era a maior de todas as blasfêmias.

Olhar para o outro, no fundo dos olhos, é enxergá-lo no fundo da alma. Por esta razão, muitas pessoas quando percebem que estão sendo olhadas no fundo dos olhos, abaixam a cabeça ou desviam o olhar para a direita, para esquerda, para cima ou para baixo, porque a alma logo, logo, denuncia que está sendo exposta de forma integral. Ao assim procedermos, não estamos querendo desvendar segredos, não. Estamos, apenas, observando com que tipo de pessoa estamos lidando para, a partir de então, tomarmos todas as precauções possíveis. Primeiro, resguardando-nos das atitudes explosivas e das notórias demonstrações de impaciência. Depois, estamos nos preparando para agir e para falar de modo a não perturbar aquele ser já exasperado, perturbado, indignado, revoltado, estressado, amargurado, decepcionado ou desiludido, grosseiro e até mesmo violento que está à nossa frente.

É preciso olhar para este semelhante da forma mais tranquila possível, aceitá-lo naquele estado em que ele se revela para nós e, de forma equilibrada tentar descobrir do que ele está precisando naquele momento: de silêncio, de paz, de uma palavra amiga, de força, de coragem, de sugestões, enfim, tentar dar a ele exatamente o que ele revela estar precisando ou “exigindo”, sem contendas, conflitos ou confrontos. Mais uma vez, Jesus ensina: “Ouvistes o que foi dito: “olho por olho, dente por dente”. Eu, porém, digo-vos que não resistais ao que é mau; mas, se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra; e ao que quer chamar-te a juízo para te tirar a túnica cede-lhe também a capa” (Mt 5, 38-40).

A proposta de Jesus, muitos dirão, é difícil de ser seguida. Pode ser sim, porém, é a única capaz de aperfeiçoar a nossa relação com os nossos semelhantes, de modo a que consigamos passar por esta prova de fogo a que somos submetidos a partir do momento em que aqui chegamos.

Lidarmo-nos uns com os outros é desafio para toda a vida e, feliz daquele ou daquela que consegue aperfeiçoar-se cada vez mais, tomando o exemplo de Jesus. Pois, assim, conseguirá compreender que faz parte de um todo no qual todos somos iguais, com virtudes, defeitos, carências, carismas, competências e, também, com o contrário de tudo isso. Daí decorrer que precisamos aceitar, compreender e ceder, porque, também nós precisamos ser aceitos, compreendidos e acolhidos com as nossas mais diversas fraturas espirituais, morais, sociais e, digamos, existenciais.

Este texto, como todos os demais que escrevo, é mais um convite à reflexão. Aqui, não estão sendo expostos verdades, teses ou dogmas, mas, o resultado de reflexões que o leitor e a leitora, também, podem e devem fazer, na busca por uma convivência mais humanizada e mais cristianizada com os semelhantes, tendo sempre em vista que a promessa de Jesus, como plano do Pai, é que vivamos eternamente juntos, no Reino que já está preparado para todos nós. Se não conseguirmos viver juntos aqui, como será na eternidade? Reflita e tire suas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

____________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.
 
   

mai 28

EDITORIAL DA SEMANA: UM OLHAR PARA DEUS

QUEM É DEUS

SOBRE DEUS, O QUE DIZER?

*Por Luiz Antonio de Moura - 

A busca da resposta para a pergunta tema, impõe a tentativa de traçar um perfil de Deus. Do Deus de todos os tempos, sem qualquer separação ou mesmo divisão temporal. Aqui, para nós, não importa falar sobre o Deus do Antigo ou do Novo Testamento; do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó ou do Deus de Jesus Cristo, posto que, desde o início deve ficar bem definido que Deus é um só e é atemporal.

Há algum tempo tomei conhecimento sobre um homem que afirmava, de forma convicta, não aceitar o Deus do Antigo testamento. Ao ser questionado sobre o porquê de tal convicção, ele dizia que, em Jesus Cristo acreditava um pouco e até sentia alguma simpatia por Ele, mas, pelo Deus do Antigo Testamento, “um Deus mal, guerreiro, vingador e vingativo, que matava inocentes ao fio da espada”, não guardava nenhum sentimento bom, chegando mesmo a declarar certa “ojeriza” por tal Deus.

Pelas declarações daquele homem, pude perceber rapidamente a enorme confusão que grande parte dos seres humanos fazem a respeito de Deus que, por fim, é um só! Bem, é claro que não basta falar que Deus é um só. É preciso deixar claro quem é Deus, onde Ele fica, de que forma atua, e com que objetivos se faz presente no meio dos homens.

A primeira notícia que a Bíblia nos traz sobre Deus é aquela retratada no primeiro capítulo e no primeiro versículo do Livro do Gênesis: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Ou seja, é-nos revelada a existência de um Deus Criador. Um Deus que, ao contemplar toda a vastidão da terra, informe e vazia, conforme narrado nos primeiros versículos do capítulo 1, do Livro do Gênesis, decide criar. E criar, não com passes de mágica, mas, com sabedoria e conhecimento, distribuindo vida a tudo aquilo que julga ser essencial para o conjunto daquela obra. Deus é, portanto, autor da vida. Deus é vida!

Assim, o autor sagrado afirma que a terra estava envolta em trevas. E Deus diz: “Faça-se a luz”. E existiu a luz! Deus age às claras, não, nas trevas, na escuridão. Feita por Ele e por Ele utilizada para iluminar a terra coberta pelas trevas, Deus é Luz!

Deus é Criador, é vida e é luz!

A Criação, porém, tem seu curso natural, porque, a partir dos primeiros movimentos, e com a criação do firmamento, a quem Ele chama de céu, Deus faz uma organização das coisas, separando terra, águas e firmamento. O firmamento é o lugar destinado aos corpos celestes que, a seu tempo, serão criados também. Porém, é preciso, antes, ajuntar num só lugar todas as águas que estão sob o firmamento, atribuindo-lhes o nome de mares e ordenando o aparecimento do elemento árido, denominado terra. Agora, sim, começa a haver certa ordem: céu, terra e mares! Deus é organizado e organizador. É prático e sabe perfeitamente aonde pretende chegar com estes primeiros e decisivos atos criacionais. Deus é perfeito!

Na sequência da Criação, Deus ordena que a terra produza a erva verde e, principalmente, que dê sementes! Que produza árvores frutíferas, que deem frutos e, destes, as sementes. Deus não apenas dá a vida, mas, e, sobretudo, as condições para a continuidade do processo de criação. Por meio das sementes caídas ou lançadas no solo, a vida se multiplica num eterno produzir e reproduzir. Aqui, Deus apresenta dois intentos: condições de alimentação e proliferação das espécies! Deus não é egocêntrico.

Lançada a vida no solo, Deus dirige o olhar para o firmamento (céu) e ordena o surgimento de luzeiros próprios para o dia e para a noite, demarcando, também, a contagem do tempo. O luzeiro do dia é maior do que o outro, destinado a iluminar a noite, com a adição das estrelas, de modo a separar de forma bastante nítida a luz, das trevas. Deus não esconde nada: existem as trevas, mas, também, a luz. Deus é magnânimo!

Entre a terra e o firmamento, não pode existir um vácuo de vida. Assim, ordena a criação de répteis animados e viventes, de modo que as aves voem sobre a terra e embaixo do céu. A vida se alastra de todas as formas sobre a terra.

Deus é Criador, é vida, é luz, é perfeito, não é egocêntrico, é magnânimo!

A narrativa do Gênesis repara no olhar de Deus na direção das águas. Ora, se a terra produz e se o firmamento já está formado, é necessário que, das águas, exploda, também, a vida. O alimento e as mesmas condições de procriação e de reprodução dos seres. E Deus cria os grandes peixes e todos os demais animais cuja vida é desenvolvida nas profundezas dos mares e dos oceanos, segundo a sua espécie.

Deus olha para todo aquele cenário, que até pouco tempo era inóspito, vazio, negro e sem vida e, agora, depois de tudo o que foi criado, contempla tamanha beleza e, conforme ressaltado pelo autor sagrado, “viu que tudo era bom”. Deus é zeloso! Porque assim ocorreu desde o primeiro dia. Ao final de cada jornada, o autor repete: “E Deus viu que isso era bom”.

Deus ordenou, ainda, que a terra produzisse animais viventes segundo a sua espécie, animais domésticos e selváticos, segundo a sua espécie, e todos os répteis, também, segundo a sua espécie.

Tudo era bom. Tudo estava bom. Se, porém, a terra e as águas estavam prontas para a vida, tanto sob o aspecto produtivo quanto sob o reprodutivo, dispensando o Criador de maiores cuidados, faltava criar um ser capaz de a tudo organizar, manter organizado e, por fim, comandar com vigor e com pleno domínio, de tudo se assenhoreando como verdadeiro proprietário e usufrutuário. Alguém que, diferentemente das ervas, das árvores frutíferas, das aves, dos peixes, dos animais selváticos e domésticos, dos répteis e dos luzeiros do firmamento, fosse dotado de inteligência, de razão e de capacidade de interagir com toda a Criação e com a própria espécie.

Se até o quinto dia Deus pareceu agir por vontade própria na criação e na ordenação de tudo, no sexto dia, porém, Ele revela a ação em plena comunhão com o Verbo e com o Espírito Santo e afirma: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e presida aos peixes do mar, e às aves do céu, e aos animais selváticos, e a toda a terra, e a todos os répteis, que se movem sobre a terra” (Gn 1, 26)

E o Autor sagrado afirma que “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2, 7).

Deus é o Senhor da Vida!

O que vimos até aqui é apenas uma pálida, e humana, ideia sobre Deus. Dá para perceber, no entanto, que Deus é de todo especial e que, além disso, age com imenso e com intenso amor quando cria todas as coisas, reservando ao ser humano o ponto mais elevado da Criação.

Não existe margem, portanto, para dúvidas quanto à magnanimidade de Deus que, na condição de Pai Nosso, age em nosso benefício e, por esta razão, está sempre pronto para vir ao nosso encontro, para sarar nossas feridas e curar nossas enfermidades, sendo absolutamente equivocada a compreensão de alguns que, olhando de forma fundamentalista para as Sagradas Escrituras, delas extraem uma figura divina totalmente deformada e destoante da verdadeira imagem de Deus, refletida em toda a sua dimensão em Jesus Cristo, Seu filho Unigênito.

É preciso dizer que Jesus traz-nos a revelação do Pai, e é no modo de agir e na forma como cuida das pessoas que Jesus revela a verdadeira face de Deus, porque, pelo mistério da Trindade, podemos perceber a atuação do Pai, do filho e do Espírito Santo, de modo distinto, mas, em comunhão e em perfeita unidade. Pessoas distintas, porém, com a mesma essência. Deus Uno e Trino!

Este texto é parte integrante de um projeto mais abrangente no qual estamos trabalhando, justamente, para tentar reverter a falsa compreensão que muitos possuem a respeito deste Deus, Pai de bondade e de misericórdia que, desde os tempos mais remotos, caminha ao lado dos seres humanos, revelando-se cada vez mais ser o DEUS CONOSCO! O Deus que age e interage conosco de forma plena e permanente e, se não O percebemos ou se não O reconhecemos é porque ainda não conseguimos abrir-nos inteiramente para Aquele que é tudo em todos e por todos porque, em permanente comunhão na Trindade, quer-nos, também, em comunhão n’Ele e com Ele, para o que, precisamos estar totalmente abertos e despojados.

Voltaremos ao tema em breve. Por ora, basta que os leitores/leitoras voltem-se para as Sagradas Escrituras e apreciem a atuação de Deus no meio da Criação, especialmente, dos seres humanos de todos os tempos. Leia, pausadamente, a Bíblia, e reflita sobre tudo. Seja feliz, e boa sorte!

________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mai 21

EDITORIAL DA SEMANA: JEREMIAS, O PROFETA DE ONTEM E DE HOJE

JEREMIAS - O PROFETA

JEREMIAS, O PROFETA QUE SOFREU COM O SEU POVO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Todos os profetas foram muito importantes na história do povo eleito de Deus, mas, dentre todos, Jeremias teve um papel crucial, porque atuou como ponte entre Deus e o povo, no período final antes da desgraça do exílio. Antes, porém, ele passou aperto diante do Altíssimo que, decididamente, escolhe-o para a função para a qual ele se julga totalmente incompetente.

Jeremias conta que a palavra do Senhor foi dirigida a ele para comunicar-lhe que estava sendo constituído profeta entre as nações. Assim diz o Senhor: “Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te conheci; e, antes que tu saísses do seu seio, te santifiquei e te estabeleci profeta entre as nações” (Jr 1, 5). Jeremias, como era de se esperar, acha graça daquela escolha e tenta escapar do encargo, afirmando ainda ser um menino, sem experiência de vida e sem traquejo para lidar com o povo, homem simples e filho da terra, onde vivia e de onde extraía os meios para a subsistência.

O Senhor, no entanto, tranquiliza-o imediatamente, afirmando que, para onde quer que Jeremias fosse enviado, diria apenas aquilo que lhe fosse ordenado por Deus assegurando-lhe acerca dos inimigos: “não os temas, porque eu sou contigo, para te livrar” e, imediatamente, o Senhor toca na boca de Jeremias e afirma: “Eis que eu pus as minhas palavras na tua boca; eis que te constituí hoje sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, para arruinares e dissipares, para edificares e plantares” (Jr 1, 9-10).

A partir daquele momento, Jeremias anda com o Senhor e, com a palavra do Senhor dirige-se àquele povo ingrato, pecador e idólatra. O objetivo de Deus é, por meio de Jeremias, cobrar do povo a fidelidade, o abandono da idolatria e da mentira e a conversão para que, perdoado e reconciliado, não caia nas mãos de povos estrangeiros e se torne, verdadeiramente escravo.

Jeremias caminha resoluto e obstinado na direção de Israel e diz: “Ouvi a palavra do Senhor, casa de Jacó, e todas as famílias da casa de Israel. Isto diz o Senhor: Que injustiça encontraram em mim vossos pais, quando se distanciaram de mim, foram após a vaidade e se tornaram vãos?” (Jr 2, 4-5). O Senhor quer fazer ver ao povo, que ele não é escravo ou filho de escrava e exorta com firmeza: “Guarda o teu pé da desnudez (dos ídolos) e a tua garganta da sede”. Mas, como resposta, ouve palavras de desilusão e de desesperança por parte do povo. Ainda assim, o Senhor fala da inutilidade dos ídolos na hora do perigo e questiona mais uma vez, de forma severa: “Por que procuras tu justificar o teu procedimento, a fim de eu me pôr de bem contigo, se além de fazeres o mal, o ensinastes também aos outros, e nas orlas dos teus vestidos se acham o sangue dos pobres e inocentes que sacrificastes aos ídolos?” (Jr 2, 33-34).

Pela boca de Jeremias, O Senhor convida o povo à conversão, prometendo que, “se tu tirares de diante de mim os teus tropeços (ou ídolos), não enfrentarás os abalos. Lava, ó Jerusalém, o teu coração de toda a maldade, para que sejas salva. Até quando permanecerão em ti pensamentos pecaminosos?” (Jr 4,1.14). O povo, porém, não dá ouvidos à palavra do Senhor, proferida pela boca do profeta e, diante daquele imbróglio vem a profecia amarga: “Deserta ficará toda a terra, porém não a destruirei de todo. Chorará a terra, e entristecer-se-ão os céus lá em cima; porque decretei, resolvi e não me arrependi, nem desisti”  (Jr 4, 30).

A destruição, no entanto, não será completa. O Senhor preservará um resto de povo, do qual a nação renascerá, e dela virá o caminho para a formação do novo povo de Deus. Diante da corrupção total de Judá, o Senhor convida a que sejam percorridas as ruas de Jerusalém, a ver se é encontrado algum homem comprometido com a justiça e com a verdade, afirmando que, se tal homem for encontrado “eu perdoarei a cidade” (Jr 5, 1). O Senhor, porém, sabe que Judá está irremediavelmente perdida, e anuncia a chegada da devastação: “Eis que eu farei vir sobre vós uma gente de longe, ó casa de Israel, uma gente robusta, uma gente antiga, uma gente cuja língua não saberás, nem entenderás o que ela fala.” (Jr 5, 15). Essa gente referida é a gente da Babilônia que, sob o comando de Nabucodonosor, sitiará a cidade, levá-la-á à ruína, destruirá o ponto mais sagrado, o Templo, e conduzirá a corte, os sábios, os doutores da lei e os escribas para o cativeiro.

Mas, o Senhor insiste: “Ouve, povo insensato, que não tens coração; vós que, tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos, não ouvis.” (Jr 5, 21). No meio daquele povo insano, insensível e insensato circulavam falsos profetas, que agiam com a plena conivência dos sacerdotes do templo que os aplaudiam e com a adesão do povo. Ao final eis a pergunta dura: “Que castigo não virá, pois, sobre esta gente no fim de tudo isto” (Jr. 5, 31). O comportamento do povo é de tal monta agressivo ao Senhor e aos seus preceitos que o próprio Deus proíbe Jeremias de interceder pelo povo: “Tu pois (Jeremias) não rogues por este povo, nem empreendas por eles louvor nem oração, e não te oponhas a mim, porque não te ouvirei. Não vês tu o que eles fazem nas cidades de Judá, e nas praças de Jerusalém?” (Jr 7, 16-17).

Jeremias sofre e lamenta: “A minha dor é sobre toda a dor, o meu coração está angustiado dentro de mim. Estou desfalecido e entristecido.” (Jr 8, 18.21). O profeta, no entanto, reconhece o mal proceder do povo, a quem tenta demover da prática sistemática, da infidelidade, da ingratidão, da mentira e da idolatria e, não querendo opor-se ao Senhor, apenas questiona: “Por que motivo é próspero o caminho dos ímpios, e sucede bem a todos os que prevaricam e fazem o mal?” (Jr 12, 1).

Não teve jeito: “No ano nono de Sedecias, rei de Judá, no décimo mês, veio Nabucodonosor, rei de Babilônia, com todo o seu exército a Jerusalém e sitiaram-na.” (Jr 39,1). O rei Sedecias com toda a corte, foge durante a noite, a caminho do deserto. Mas, o exército invasor persegue-os e, já no deserto de Jericó, consegue aprisioná-los e conduzi-los à presença do rei babilônico que, impiedosamente, mata os dois filhos de Sedecias diante dos seus olhos e, em seguida, arrança os olhos do próprio rei que, cego e desolado, é conduzido ao cativeiro, na Babilônia. Ali tinha inicio o exílio que duraria 70 anos ao final dos quais, um novo povo surgiria. Mas, isto é tema para outro momento.

Por ora, é preciso chamar a atenção para alguns detalhes importantes: primeiro, a certeza de que Deus sempre está no meio do seu povo; depois, que Ele exige fidelidade, verdade, compromisso, gratidão e seguimento; por fim, Deus se afasta do seu povo quando este se revela resistente à vontade do Senhor, nosso Deus e Pai.

A profecia de Jeremias é sempre atual, basta olhar e comparar os tempos, os momentos, os contextos históricos, as ações e a reações, para termos certeza de que o exílio e a escravidão estão sempre à porta dos infiéis.

Por fim, é nosso intento convidar os leitores e as leitoras a caminharem pelas riquíssimas páginas do Livro de Jeremias, lendo com calma, serenidade e de forma espaçada, para verificarem  que o que foi dito, ainda está dito para os dias atuais. Leiam, reflitam e tirem suas próprias conclusões. Sejam felizes, e boa sorte!

___________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é Estudante de Teologia, pensador espiritualista, caminhante e um cultor do silêncio.

mai 14

EDITORIAL DA SEMANA: EM ESTRUTURAS PODRES, NÃO CABEM MAIS REMENDOS!

ESTRUTURA PODRE

O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA, CEDO OU TARDE DEVE ACONTECER –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Nada dura para sempre neste mundo! Por mais que gostemos ou queiramos preservar determinadas coisas, situações, relações ou laços afetivos, infelizmente, chega a hora do desenlace ou, o fim, para os mais dramáticos. Não é uma regra absoluta, mas, são raras as exceções de durabilidade e mesmo de estabilidade de certas estruturas. A maioria de nós conhece, certamente, situações, relações e afetividades que deram certo e que perduram por anos a fio, sem interrupções, mas, reconhece serem poucos os casos. A percentagem maior está sempre do outro lado, do lado das interrupções e dos rompimentos, amigáveis ou não, conscientes ou não. Casos como o de amigos ou de amigas que, por causa de determinadas rusgas ou mesmos desencontros ideológicos ou comportamentais, foram se distanciando lentamente até, por fim, perderem totalmente o contato e a própria relação, sem ódio, mágoa ou ressentimentos, mas, que, simplesmente, viraram cinzas. Casos familiares ou conjugais que o tempo, sempre o tempo, vai corroendo de tal forma que, em dado momento, só restam retalhos enferrujados e apodrecidos. Retalhos que, ao menor toque, desintegram-se nas mãos que deles se aproximam.

Por mais que nossa índole seja a da preservação, nem sempre conseguimos vencer o processo de desgaste que envolve todas as circunstâncias da vida, principalmente, quando acrescentado o componente humano. Nunca ouvimos falar que alguém tenha rompido relações com o ex-cão, o ex-gato ou qualquer ex-animal. Justamente porque o ser humano é quem é capaz de criar, manter e, também, de deteriorar todas e quaisquer situações bastando, apenas, um simples e leve despertar da consciência. Um despertar que revela o quanto esta ou aquela situação está aniquilada; um despertar que mostra quantas tentativas de preservação, de aproximação, de recomposição e mesmo de convivência foram feitas, até a conclusão de que o tecido está irremediavelmente decomposto e sem a menor chance de receber qualquer remendo ou reparo. E não, por má vontade ou por falta de persistência ou de insistência das partes envolvidas, mas, e principalmente, porque nada mais resta de original naquele tecido. Como tentar costurar algo em uma teia de aranha? É completamente impossível.

A concretização de situações semelhantes sempre aponta, como solução mais provável, a separação, a divisão, a interrupção, o abandono, o afastamento e a partida para novas composições. Composições em bases mais sólidas e nascidas da uma experiência anterior que, jamais, pode ser desprezada. É justamente por meio das experiências adquiridas que conseguimos vencer antigos e novos desafios e, no momento em que tomamos consciência de que alguma ou algumas das nossas relações estão combalidas e sem possibilidade de recomposição, é chegada a hora de partirmos para novas aproximações. Afinal, tratando-se de relações humanas, não falta a matéria-prima necessária para novas e promissoras construções, sejam em que níveis forem.

Não se está, aqui, a defender a tese da separação, do rompimento ou das divisões irremediáveis. O que está-se sugerindo é que, tomando-se consciência de que tais situações chegaram ao nível considerado como irrecuperável, não vale a pena continuar lutando, porque a luta será inglória e aí, sim, vai-se perdendo substancia e essência física, orgânica e espiritual e o dano pessoal pode se tornar fatal para qualquer das partes envolvidas. Isso vale para relações conjugais, de amizade, societárias, religiosas e, enfim, para todos e quaisquer tipos de relações nas quais os seres humanos estejam atuando como motores propulsores.

Precisamos estar atentos, e conscientes, para a vida contínua e permanentemente envolvida em processos desgastantes e, consequentemente, conflituosos que, em muitos casos, só são mantidos em nome de certos dogmas sociais, religiosos, humanitários e fraternos, mas, que, no fundo, no fundo, representam o lado oposto de tudo isso, levando-nos ao paredão da vida onde, no final de tudo, acabamos sendo fuzilados porque, enquanto havia tempo, não fomos capazes de, tomando consciência do abismo no qual estávamos caídos, romper com tudo e com todos e partirmos para uma nova forma de vida e para uma nova metodologia relacional.

É necessário, acima de tudo, ter e tomar consciência de que rompimentos, separações, afastamentos, desligamentos ou seja lá o nome que se queira dar, não é sinônimo de fuga, de medo, de fraqueza ou de covardia, mas, de sabedoria! Sabedoria para perceber que somente os insensatos acreditam poder furar uma parede de granito com o próprio dedo, sem acabar perdendo a mão inteira. Isso, também, não significa falta de persistência ou de insistência na busca pela vitória que, no dito popular, é concedida apenas aos “fortes e destemidos”. Não, nada disso é verdade! Na realidade, fomos criados para a vitória, não importando onde, quando ou contra quem. Vencer é o que importa e esta vitória, muitas vezes, é sobre nós mesmos e sobre os nossos maus hábitos e nossas deficiências. O que não podemos, nem devemos, é passarmos a vida inteira acreditando que vamos conseguir modificar situações sobre as quais o tempo, sempre o tempo, já revelou que nunca seremos vitoriosos. Pra quê insistir e persistir na restauração de peças apodrecidas, se existem outras que, com pouca ação e pouco trabalho podem ser totalmente renovadas e aproveitadas por longo período?

Reflita sobre este texto e, caso se identifique com situações semelhantes, tome consciência de que tudo pode ser modificado, ainda que pela destruição das estruturas velhas e pela construção de outras, novas e promissoras e, talvez, mais condicionadas aos possíveis e necessários “remendos” de adaptação trazendo-nos, não, a felicidade, por ser ilusória e passageira, mas, e, sobretudo, a paz e a tranquilidade que tantos de nós persegue com afinco e com dedicação. Seja feliz, e boa sorte!

_________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

mai 07

EDITORIAL DA SEMANA: HOJE, ESCREVO ESPECIALMENTE PARA VOCÊ!

ESCREVO PARA VOCÊ

ESCRITO ESPECIALMENTE PARA VOCÊ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Hoje decidi escrever especialmente para você, que não tem o hábito de ler os editoriais que escrevo todas as semanas. Obviamente que, se você não lê, não sabe que escrevo sobre o Evangelho, sobre Deus Pai, Filho e Espírito Santo, sobre as mais diversas formas de vivenciar o dia-a-dia com todos os desafios que aparecem na caminhada de cada um de nós, sobre a força da Santíssima Trindade que habita em cada um de nós, sobre a compreensão da Palavra de Deus, sobre os desafios expostos nas Sagradas Escrituras, sobre o caminhar da Teologia. Enfim, se você não lê, acaba perdendo boas oportunidades de reflexão sobre temas que fazem parte da vida cotidiana de todos nós, inclusive, da sua.

Mas, penso eu, você tem muitas ocupações e grandes preocupações com a vida prática, com os negócios, com o trabalho, que te consomem inteiramente e, inevitavelmente, com a intensa busca pela felicidade e pela realização plena neste plano terreno. Com certeza, você, que vive com os “pés no chão”, não tem tempo a perder com textos e com palavras sobre princípios sociais, familiares, individuais, teologais e espirituais, “coisas de quem não tem muito o que fazer”, diria você. E assim, com os “pés cada vez mais fincados neste chão de terra”, e na terra, você segue na sua caminhada, empolgando-se com os amigos, com o dinheiro, com o prestígio, com a fama, com a corporação profissional a que pertence, com os tecidos que cobrem o seu corpo e que, em muitos casos, simbolizam a corporação que detém sua vida e sua alma, e vai vivendo dia após dia, sem perceber que algo de muito mais importante e infinitamente valioso existe dentro de você, à espera de um estalar de dedos para despertar sua atenção e conduzi-lo(a) para um patamar acima das suas pobres, pequenas e mesquinhas ambições terrenas.

Talvez, até, e nem quero acreditar nisso, você pertença a uma outra religião e, infelizmente, acredita que, por ter Jesus no coração, está isento de viver em comunhão com todos os demais seres humanos, não devendo ouvir nem compartilhar nada com seus semelhantes, se não professarem a mesma fé que você. Peço a Deus que eu esteja enganado nesse ponto. Você, certamente, é instruído pelo Senhor!

Olhando sob este prisma, eu tenho proposto a você alguns textos, não para doutriná-lo ou para convertê-lo para esta ou aquela religião que, afinal, reputo de menor importância, mas, para conscientizá-lo sobre a existência de questões infinitamente mais importantes do que aquelas das quais você se ocupa diariamente. E são importantes, porque envolvem, não apenas a vida neste “chão” em que estão atrelados os seus pés, mas, e, sobretudo, à vida após esta vida. A vida plena e em abundância, da qual fala Jesus no evangelho de João, capítulo 10, versículo 10. São questões, como eu dizia, que levam você à reflexão sobre o como está sendo pautada a sua vida e a sua caminhada por este mundo, frente aos desafios propostos a cada jornada. Desafios de convivência com o próximo; desafios impostos no dia a dia do trabalho, do convívio familiar, social, comunitário, religioso e, principalmente, os desafios relacionais com o Espírito que habita em cada um de nós, e, em você, também.

Através dos tais textos, procuro desenvolver algumas (e limitadas) linhas de raciocínio sobre os mais diversos temas, expondo, sim, minha opinião e minha visão, mas, também, convidando os leitores e as leitoras a embarcarem na reflexão acerca de cada um dos temas propostos, a fim de que todos possamos aderir aos planos e projetos disponibilizados a nosso favor, cuja finalidade é apenas uma: promover a real felicidade para a nossa vida, atual e futura.

Não são as minhas opiniões e visões acerca de cada um dos temas propostos, que farão melhorar sua compreensão dos fatos e da forma de vida que compõem a sua existência, mas, a partir de cada um deles você é convidado(a), incentivado(a) e estimulado(a) a refletir e, aí sim, a partir da sua reflexão, seja lá qual for o resultado final, poderão surgir algumas novas percepções sobre sua conduta, seus rompantes, suas omissões e, principalmente, sobre sua forma de procurar e de se relacionar com o Deus que habita no seu interior, hóspede com quem você, talvez por desconhecer a presença, não mantém qualquer diálogo e acaba agindo como age e vivendo como vive.

Eu sei que é muito mais fácil para você viver repetindo os mantras dos tolos: “tenho minha fé e basta”; “vivo como quero e ninguém tem nada a ver com isso”; “sigo minha religião e já estou salvo”; “sempre procuro ajudar os pobres e necessitados”; “já faço a minha parte”; “cuido de mim, e Deus, de todos”, e por aí vai. É muito mais simples entrar no seu carro, todas as manhãs, e dirigir-se para o ambiente no qual se sente acolhido(a), respeitado(a) e, quem sabe, até mesmo idolatrado(a), por causa da sua beleza física, do cargo que ocupa ou do dinheiro que possui. Mas, saiba, tudo isso é casca! E, um dia, esta casca cai naturalmente e você vai sentir necessidade de ouvir palavras. Só palavras: de carinho, de críticas, de incentivo, de esperança, de fé e de como fazer para se aproximar verdadeiramente do Deus que, por décadas, habitou no seu templo interior, mas, que você, “com os pés no chão” da vida, preferiu fingir desconhecer.

É sempre viva e atual a carta do Apóstolo Tiago, quando questiona os homens de então:

“Caríssimos: 1De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós? 2Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir. E a razão está em que não pedis. 3Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres. 4Adúlteros, não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Assim, todo aquele que pretende ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus.” (Tg 4,1-4).

Os textos que escrevo, e que insisto para que leia, podem servir para ajudar você a encontrar o seu próprio caminho espiritual, retirando os tais “pés do chão” e elevando-os para o solo por onde caminhará por toda a eternidade. É neste solo que você precisa estar treinado, porque será nele que terá que caminhar a partir da certeira despedida deste chão, no qual você coloca suas preferências, confiança e esperanças. Repito: são textos convidativos à reflexão! Você continuará sendo o grande condutor da sua vida, porém, sob novas perspectivas e com novas visões, nascidas do solo sagrado que é o seu coração, solo no qual Deus Pai está presente desde sempre, com o Filho e com o Espírito Santo.

Este texto, como todos os demais, é mais um convite à reflexão. Reflita, faça um reexame das suas escolhas e das opções de vida que tem adotado, e veja se condizem com uma vida plena de felicidade após esta caminhada terrena, ou se te deixam perplexo diante da certeza de um fim que, certamente, chegará. Reflita e, se julgar conveniente e oportuno, leia (ou continue lendo) os textos que apresento todas as semanas na página EDITORIAL DA SEMANA, do site www.sementesdapalavra.com.br! Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 30

EDITORIAL DA SEMANA: O SOPRO IMPETUOSO DO ESPÍRITO

ESPÍRITO SANTO - VENTO

O ESPÍRITO QUE NOS MOVE É SANTO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O Espírito é sopro, é ruah, é ar, é vida. É o que nos anima a vida e nos impulsiona a agir, a criar e a recriar, a sorrir e a chorar, a buscar a reconciliação e o perdão, a perdoar e a amar. É Ele que, de dentro para fora, nos dá aquele empurrão para a caminhada, para irmos adiante na busca, na conquista e no alcance dos objetivos que Ele mesmo nos ajuda a traçar. Ele é, enfim, o sopro de vida que o Criador inspirou no rosto do primeiro ser humano criado e, de então para cá, a vida vem se multiplicando e, graças à Segunda Pessoa da Trindade, o Filho, é eterna! É sobre Ele que o Apóstolo fala  aos Coríntios “Porventura não sabeis que os vossos membros são templo do Espirito Santo, que habita em vós, que vos foi dado por Deus, e que não pertenceis a vós mesmos?" (ICor 6, 19).

Ele pairava sobre os abismos, antes de todas as coisas; Ele avançou sobre as trevas eternas e com o Pai e com o Filho criou, fez-se luz, separou, organizou, embelezou e distribuiu a vida do mais alto do firmamento ao mais profundo e insondável dos abismos. No mundo criado para os homens, Ele caminhou em redemoinho, em tudo penetrando e em tudo e a todos se misturando, modificando, iluminando, guiando, inspirando, fazendo acontecer e impedindo o avanço do mal, quando da vontade do Pai e do Filho, com quem Ele é comunhão e dinamismo por meio da Kênosis e da Pericorese. Ele também é Reino e, portanto, está no meio de nós! Sem Ele o vazio; sem Ele, as trevas; sem Ele não há vida e, sem vida, tudo retorna ao caos eterno.

Por Ele, o mistério da encarnação do Verbo. Ele traz a Luz ao mundo e com Ela caminha por entre os homens. O Sopro e a Luz caminham juntos, abrem portas, desobstruem caminhos, trazem a cura, abrem sepulcros e renovam a vida. Juntos, trazem a visão aos cegos, a audição aos surdos, a palavra aos mudos, a paz aos perseguidos, a ressurreição aos mortos. Juntos, o Sopro, a Luz e o Criador são, estão e atuam sempre e para sempre. Nada impede-Lhes a comunhão e a ação.

O Espírito está presente no batismo realizado no Jordão e, depois, leva o Filho ao deserto e com Ele revive a criação desde o começo; com o Filho, percebe o mal, observa seu agir e sofre a sedução que ele engendra no mundo. É Dele que o Filho, feito homem, absorve o entendimento, o conhecimento e a compreensão da unigenitura do Pai. É o Espírito Santo que, com o Filho, impõe a primeira derrota ao adversário de Deus, ainda nas entranhas do deserto, onde a fome, a sede, a solidão, as dúvidas e a sensação de abandono se fazem presentes a cada momento da longa quarentena.

Com o Espírito, o Filho deixa o deserto vitorioso sobre o adversário e caminha para o início da vida pública, para enfrentar todos os desafios humanos, e até desumanos, que enfrentou.

É o Espírito quem opera juntamente com o Verbo, nas diversas curas, libertações e ressurreições, trazendo para o Reino os filhos muito amados do Pai, que se regozija de felicidade, ao vê-los todos ao redor da mesma Palavra. O Espírito caminha com o Filho até o calvário, com Ele, morre na cruz e, com Ele, ressuscita no terceiro dia.

É Ele que, em forma de vento impetuoso vem em Pentecostes e, repartido em línguas de fogo repousa sobre os apóstolos, conforme os Atos dos Apóstolos (At 2, 1-12), transformando para sempre aquelas vidas até então dedicadas ao mar e ao trabalho braçal.

É esse sopro, essa ruah, esse vento impetuoso que habita em cada um de nós, na proporção da abertura que damos à porta do nosso templo interno: se fechada, Ele bate e retorna; pouco aberta, Ele entra aos poucos e aos poucos opera por meio das suas virtudes; totalmente aberta, Ele entra de vez, e ali faz a sua morada, tudo modificando e transformando o velho em novo, o fraco em forte, o feio em belo, o pobre em herdeiro do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).

Nele e com Ele, somos vencedores em Cristo Jesus e, assim, vivemos e caminhamos com a força do Espírito Santo, juntamente com o Pai e com o Filho que, em constante Pericórese, envolvem-nos a todos nós, fazendo-nos um, como Eles são Um, Deus Uno  e Trino. Crendo, e vivendo, seja feliz, e boa sorte!

____________________________________________
*Luiz Antonio de Moura, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

abr 23

EDITORIAL DA SEMANA: A PERDA DA ORIGINALIDADE DO SER HUMANO

PERDA DA ORIGINALIDADE

A PERDA DA ORIGINALIDADE POSSIBILITA O APARECIMENTO DE NOVOS PADRÕES –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A originalidade é a marca primordial de qualquer criação. Por maior que possa ser a evolução, sempre recorre-se ao projeto original para não haver qualquer perda quanto à essência do que foi criado com objetivo definido.

Quando falamos em criação, originalidade, projeto e evolução, parece que estamos tratando de produtos ou bens materiais, propriamente ditos. No caso, não. No caso está-se a falar sobre o ser humano, este ser criado a partir do desejo e do projeto eterno de Deus que, no momento adequado, afirma: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26).

Todo o trabalho de Deus, no processo da Criação, decorre de projeto previamente definido, tanto nas causas quanto nos efeitos e na finalidade. Portanto, cada um dos itens enumerados em todo o Capítulo 1 do Livro do Gênesis, faz parte do plano imutável de Deus, exceto um: a perda da originalidade do ser humano, ou, o esvaziamento do homem de todos os atributos que o assemelham ao Criador.

As aves que voavam, os peixes do mar, os animais selváticos e os animais domésticos, mantiveram a originalidade. As aves que voavam pelos céus, não perderam a capacidade de voo; os peixes não deixaram de viver submersamente nos rios e nos oceanos; os animais selváticos não estão dentro de casa, nem os de casa fugiram para a selva. O homem, porém...

O homem decidiu mudar. Mudar, aqui, não se refere à forma de vida ou aos meios de sobrevivência, mas, à própria essência, aos valores internos e externos; à originalidade da formatação da máquina humana. Nos dias que correm, vemos o ser humano, na tentativa de impor-se ao projeto de Deus, esforçando-se para mudar a originalidade do projeto humano, sem se importar com as consequências, sem se preocupar em aprimorar o conhecimento da íntegra do projeto para, então, depois, avaliar a possibilidade de modificações. Isso, aceitando-se pacificamente o fato de que Deus errou ou, no mínimo, não teve capacidade de prever o futuro da humanidade.

Essa questão, no entanto, não tem importância, dado que o próprio Deus dotou o ser humano com a razão, concedendo-lhe o direito da livre decisão e da livre escolha. O importante, aqui, é saber se o ser humano tem agido com sabedoria e inteligência, alterando o projeto humano original, ou, se apenas age para confrontar, e, até certo ponto, afrontar, o Criador.

Se pudermos avaliar que o ser humano tem agido com sabedoria e com inteligência, propondo e implementando alterações na originalidade do projeto divino, deixando claro, e evidente, que as versões mais atualizadas são dignas de esperança e de confiança, a raça humana tem muito a agradecer e a aplaudir esta iniciativa louvando, acima de tudo, e, sobretudo, ao próprio Deus, por ter dotado sua principal criatura de inteligência comparável à divina.

No entanto, se nossa avaliação for no sentido contrário, então, somos levados a concluir que o ser humano está rumando para a autodestruição, porque não parece inteligente a criatura afrontar o Criador, alterando de forma soberba, arrogante, mesquinha, inconsequente e irresponsável um projeto preparado por Deus desde toda a eternidade. O que está presente diante dos nossos olhos é uma verdadeira mudança de padrões.

Os resultados que vemos aí, no dia a dia, são bastante claros no sentido de revelarem o descalabro vivido pela espécie humana que, ao modificar, na essência, o projeto original sabiamente engendrado na prancha de Deus, expõe-se à mesma derrota já sofrida anteriormente, quando do pecado original, quando teve de esconder-se de Deus, por causa do fracasso vivido.

É preciso observar o curso do tempo, a força das palavras, a consequência dos atos e o caminho a ser percorrido, para podermos avaliar se o homem moderno está, ou não, caminhando em conjunto para o fim da própria espécie, ou seja, se está, ou não, na direção certa da extinção da raça.

Não é necessário entrar em detalhes ou em minucias, basta um olhar profundo e crítico para o avanço da humanidade, desde os tempos remotos sobre os quais recebemos algumas informações, para podermos observar, como dizem os mais antigos, “a que ponto chegamos”, e com eles repetirmos a pergunta: “aonde vamos parar”?

Tudo é válido, tudo é experiência, podem dizer alguns. É verdade! No entanto, precisamos indagar se vale a pena, por causa da experiência desejada e  imposta por uns, submeter toda a espécie às consequências decorrentes. E aqui, não se fala de simples consequências não. Fala-se sobre consequências nefastas, tanto nos aspectos sociais, morais, religiosos e familiares, quanto nos aspectos genéticos, biológicos e psíquicos mesmo. Fala-se sobre consequências potencialmente modificadoras de todo o DNA da espécie humana, com profundas, e quiçá irreparáveis, mudanças em toda a cadeia da criação, a partir de quando poderemos ter, sim, peixes subindo em árvores e aves nadando no fundo dos oceanos.

Precisamos deixar os teóricos da modernidade um pouco de lado e, de maneira séria e responsável reavaliar tudo o que está sendo proposto para este ser humano do século XXI, verificando até que ponto temos razões fundamentadas para apoiar ou rechaçar, se concluirmos que as pessoas estão sendo levadas no roldão da história.

A proposta é, como sempre, para a reflexão, pois, somente a partir dela é que teremos condições de, cada um no seu mais secreto íntimo, compartilhar, recusar ou denunciar tudo o que forças poderosas estão articulando contra a criatura e contra o próprio Criador. Reflita. Seja feliz, e boa sorte!

___________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

abr 16

EDITORIAL DA SEMANA: VOCÊ TAMBÉM PODE OUVIR A VOZ DE DEUS!

SILÊNCIO PARA OUVIR DEUS

NO SILÊNCIO, A VOZ DE DEUS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É conhecido o número de pessoas que pedem prova da existência de Deus, sem saberem que podem, elas mesmas, serem protagonistas do pedido que fazem, ouvindo a voz do Criador. É coisa que psicólogos e psiquiatras não entendem e, por não entenderem, lançam as maiores dúvidas possíveis, mas, que, na prática individual e íntima de cada ser humano, traz o conforto e o consolo necessários para a plenitude da alma, cujo sinônimo é a felicidade!

No silêncio do jardim do Éden, narra o Livro do Gênesis, Adão e Eva estavam escondidos, e obviamente quietos, pelo medo, quando são surpreendidos com a voz de Deus: “Onde estás?” (Gn 3, 9), pergunta o Senhor. Na sequência, tem-se o diálogo travado entre o Criador, a mulher, a serpente e o homem.

Moisés estava tranquilamente nos escarpados do montanha, ajuntando o rebanho do sogro, num silêncio aterrador quando, de repente, ouve o estalar de galhos secos sendo queimados. Curioso, e em profundo silêncio, prendendo a própria respiração, aproxima-se e vê a sarça coberta por um fogo alto e forte que, por mais que durasse, não se extinguia. Mais curioso ainda, começa a se aproximar sorrateiramente quando, para seu espanto, ouve a voz de Deus a chamá-lo pelo nome: “Moisés, Moisés (...) não te aproximes daqui: tira as sandálias de teus pés porque o lugar, em que estás, é uma terra santa” (Ex 3, 4-5).

Samuel era ainda um menino, e vivia aos cuidados do profeta Heli quando, numa noite, quando imperava o silêncio absoluto no qual todos estavam deitados para o sono de descanso, ouviu alguém chamá-lo pelo nome: “Samuel, Samuel” (ISm 3, 2-10). Sem reconhecer aquela voz, Samuel correu para o profeta e disse: “tu me chamas? Estou aqui”. Diante da negativa de Heli, Samuel voltou a deitar-se e, mal pegara no sono, ouviu novamente alguém chamando-o pelo nome: “Samuel, Samuel”. Mais uma vez o menino corre para o profeta que afirma não tê-lo chamado. Depois da repetição do fato por três vezes, o profeta compreende ser a voz de Deus que estava se manifestando ao menino e orienta Samuel como deve proceder se, novamente, ouvir alguém chamá-lo pelo nome: “Vai e dorme. E, se te chamarem outra vez, dirás: Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. Assim fez Samuel e, quando ouve a mesma voz chamá-lo pela quarta vez, responde conforme a orientação de Heli e, então, é contemplado com a mensagem de Deus, dando conta da ruína que estava para assolar a família do profeta.

Jesus, em muitas oportunidades, escolhe o silêncio e a paz da noite para retirar-se em oração, nos montes e nas elevações próximas de onde vivia com os apóstolos.

Em todos estes poucos exemplos, é perceptível que Deus não se manifesta em meio a gritarias, algazarras, sons altos, lamentações, pregações exacerbadas e coisas do gênero, mas, no silêncio e na paz. É, pois, nestas circunstâncias e ambientes, que o homem, em profundo silêncio depois de já ter se manifestado ao Senhor, e com o coração e o espírito abertos, ouve a voz de Deus a confortá-lo, a consolá-lo e a orientá-lo diante dos tantos problemas, conflitos e dificuldades narrados pelo orante.

A lógica de Deus é bastante simples: Ele ouve o que temos a dizer, percebe nossas lágrimas, nossos sentimentos e nossas fragilidades e, diante do silêncio que fazemos, Ele entende ser a hora de se manifestar. E assim o faz!

Entretanto, quantas e quantas vezes nos prostramos diante do Senhor para orar, lamentar, chorar, pedir, implorar e, tão logo terminamos o nosso monólogo, levantamos e saímos fungando ou enxugando os olhos sem, sequer, darmos chance para que Deus fale alguma coisa? Imaginemo-nos diante de um amigo que vem à nossa presença para falar conosco, lamentar, chorar, pedir auxílio e, assim que acaba de falar, levanta e sai sem nos conceder a oportunidade de qualquer manifestação.

E o pior de tudo é que, depois, a gente diz: “Rezo, rezo, mas acho que Deus não me ouve. Não obtenho respostas”. Como obter respostas, se, sequer, paramos para ouvi-las? Falamos, falamos e, por fim, deixamos Deus falando sozinho porque, ou não acreditamos que Ele está ali naquele momento diante de nós, ou pensamos que Deus é uma caixa registradora de problemas, cujas soluções são enviadas, depois, via satélite!

Deus é sempre presente! A razão de não O vermos da forma como O imaginamos deve-se ao fato de que Ele é, conforme descrito por Jesus, Espírito e nós, como seres eminentemente materiais e materialistas, estamos acostumados a olhar tudo com os olhos da carne. Não em vão Jesus afirma: “Deus é espírito e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram” (Jo 4, 24). Assim, quando nos colocamos diante do Senhor, estamos e somos livres para todo tipo de desabafo, de confissão, de arrependimento e de pedidos de socorro e de auxílio, mas, precisamos compreender que, após a nossa lamúria, devemos lembrar de que o Senhor deseja falar algo ao nosso coração e, assim, é necessário fazermos profundo silêncio para, sem pressa, termos a confirmação de que tudo o que dissemos foi ouvido e que, no tempo Dele, tudo será solucionado a nosso favor, o que não significa que será feita a nossa vontade.

Diante destes exemplos e destas indicações, quando se colocar na presença do Senhor, primeiro, tenha certeza de que Ele está ali, em espírito. Em segundo lugar, saiba que está pronto para ouvir tudo o que for dito. E, por fim, lembre-se de fazer uma pequena pausa, em silêncio, para que Ele possa, se assim o desejar, manifestar-Se da forma que julgar mais apropriada. Ele sempre respeita as nossas limitações intelectuais e espirituais e, por esta razão, a cada um se manifesta de forma diferente. No entanto, Ele nunca fica alheio aos nossos clamores e sempre, de uma forma ou de outra, dá respostas aos nossos questionamentos. Precisamos aprender a ouvi-Lo e a compreendê-Lo, a fim de não cairmos na conversa fácil do abandono e do desinteresse por parte da divindade.

Precisamos, acima de tudo, e de qualquer coisa, compreender que Deus é Pai, Pai Nosso, e que, na condição de Pai, quer sempre estar conosco, ouvir-nos, falar conosco e participar ativamente da nossa existência. Por esta simples razão é que devemos, também, ouvi-Lo. Ao deixarmos de ouvi-Lo, deixamos de ser fieis e passamos a impressão de que o Pai é apenas um "ouvidor" e um "solucionador de problemas". Não é! Deus é infinitamente mais: Ele é, também, Pai, amigo, confidente e companheiro que tem voz e que quer, e deve, ser ouvido. Ouça-O!

Espero que este texto seja esclarecedor e que, doravante, você se sinta plenamente ouvido(a) e correspondido(a) por este Deus que, sendo Uno e Trino, sempre caminha ao lado do ser humano, sejam quais forem as circunstâncias, ainda que para repreender as nossas petulâncias e arrogâncias. Reflita sobre tudo isso e abra seus ouvidos espirituais à voz do Pai que está em toda parte, mas, e, sobretudo, dentro de cada um de nós. Seja feliz, e boa sorte!

__________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

 

Posts mais antigos «

Apoio: