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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: EDITORIAL DA SEMANA

dez 10

EDITORIAL DA SEMANA: RESPEITO E TOLERÂNCIA É TUDO

RESPEITO E TOLERÂNCIA

VIVER E DEIXAR VIVER, A SAÍDA PARA A CONVIVÊNCIA SADIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

A TV tem sido protagonista de uma chamada de consciência bastante interessante: artistas e celebridades conhecidas aparecem várias vezes durante o dia, em diversas inserções na quais pregam o respeito. Coisas do tipo “eu respeito a cor da sua pele”, “eu respeito a sua opção sexual” ou “eu respeito a sua religião” e, ao final de cada tirada, a frase lapidar: “respeite a minha também”.

De fato, e indubitavelmente, tudo passa pelo respeito, inclusive, no âmbito   audiovisual. Exibir programas, séries, novelas e outros tipos de “entretenimento” que a maioria do povo não aprova ou não gosta, também, deveria ser objeto de respeito. Assim, parece que o respeito pedido e incentivado tem endereço certo e que, ao contrário do que o veículo de comunicação pretende transmitir, não pratica a forma de vida saudável que defende.

Enfim, o fato é que, ainda que inobservado o respeito alardeado, o recado dado deve ser bem entendido e, como tal, amplificado para todos os setores da vida, comunitária ou social. É justamente a partir do respeito, que a vida e a convivência deixam de ser apenas uma imposição do destino para tornar-se uma atividade saudável. Uma atividade natural, que deve ser querida cada vez com intensidade ainda maior, porque viver é um direito natural assegurado a todos nós, seres vivos, racionais ou não.

Olhando sob este prisma, e cavando um pouco nas terras do subconsciente, certamente, vamos recordar e/ou reconhecer situações tais que, em decorrência da intransigência, da intolerância ou mesmo da já mencionada falta de respeito, pessoas vão se tornando insuportáveis umas às outras, justamente, por desejarem envolver-se de tal modo na vida alheia que, em determinado momento, e, a partir de certo ponto, comprometem a própria convivência. Daí para o estabelecimento do conflito e do consequente afastamento, é um pulo!

Para muitas pessoas, parece um verdadeiro tormento aceitar que o filho, a filha, o pai, o irmão ou mesmo o amigo tenham, de uma hora para outra, decidido seguir caminho diferente daquele que, para elas, é o mais justo, mais correto e mais acertado, quando não, o mais digno e moralmente aceitável. Parece faltar à sociedade pós-moderna um pouco mais de discernimento, para compreender que a vida do outro, enquanto não carimbada pela carência de auxílio direto e imediato, é patrimônio íntimo e pessoal, sobre o qual ninguém tem o direito de avançar, sem ser devidamente convocado ou autorizado.

Não são poucos os casos, até mesmo em família, em que as pessoas acabam se desentendendo umas com as outras, simplesmente porque, de uma hora para outra, alguém decide romper certos cordões, reais ou imaginários, ou desfazer alianças, promessas e juramentos, por convicção ou mesmo por loucura, mas, que, quase sempre, significa aquilo que todos, de uma certa forma, desejamos para as nossas próprias vidas: liberdade. E liberdade, como sabemos e espalhamos aos quatro ventos, não tem preço!

Entretanto, por mais que seja custoso, é preciso aceitar e compreender que os direitos são iguais e que todos têm-no, quando o assunto é restrito à própria vida e ao rumo a ser dado a ela. É verdade que a maioria de nós, quando tentamos demover um filho, filha, pai, irmãos ou amigo de determinada ideia, assim agimos com a mais reta e a melhor de todas as intenções querendo, apenas, e tão somente, impedir que aquele ente querido siga em uma direção que, para nós, por convicções ou por experiências adquiridas, será a pior possível.

E, quando contrariados, não poucas vezes, sentimos-nos desprestigiados, desprezados e abandonados mesmo, por aquele ou por aquela por quem nossa amizade e nosso amor é tão grande, que acabamos por confundir com o domínio e o controle que, sobre o outro, nenhum de nós tem, ou deve ter, justamente, em decorrência da liberdade, direito natural de todos os seres humanos. Assim, e nestas ocasiões, é necessário fazermos pequena pausa para a busca do equilíbrio capaz de recompor todas as coisas e de reconstruir todas as pontes.

Não podemos nos deixar levar apenas pelo impulso, muitas vezes venenoso, dos sentimentos meramente humanos, porque eles, na maioria das vezes, enganam-nos tanto o quanto julgamos estarem enganados aqueles a quem pretendemos ajudar com nossas intervenções.

A chegada a tais conclusões não decorre de leituras de livros de autoajuda ou de psicologia, mas, da longa caminhada pela espinhosa estrada da vida. Estrada que, não raro, lança a gente com a face na lama ou na poeira e faz com que a gente, como que num puxão para frente, se levante e continue caminhando,  correndo e tropeçando, engasgados, tossindo, soluçando e, muitas vezes, chorando mesmo, mas, sem tempo para se recompor. É assim que a vida nos prepara, nos molda e nos dá aquilo que, tempos depois, alguém intitula como “experiência de vida”. Seja lá o que for, o fato é que, quando vemos, descobrimos que aprendemos alguma coisa diferente.

Portanto, se durante a sua caminhada você consegue ouvir alguém, preste atenção: pare de tentar induzir o outro a seguir na direção que você julga ser a melhor, a mais correta, a mais acertada, a mais justa, a mais santa, a mais moralista ou a mais politicamente correta. Respeite a liberdade alheia. Respeite o direito que o outro tem de decidir, de forma absolutamente livre, o rumo que deve dar à própria vida. Aja assim, e, com toda certeza, se sentirá muito bem consigo mesmo(a) porque, talvez pela primeira vez na vida, consiga perceber que o seu respeito é muito mais importante do que o seu conselho.

A vida é feita de convivência e esta, de respeito e de tolerância. Sem isso, não se pode dizer que existe uma convivência, mas, um aprisionamento no qual as pessoas, sociais, comunitárias ou familiares, são obrigadas a estarem juntas, em razão de alguma pressão, interna ou externa.

Onde existe respeito e tolerância, a convivência se revela de forma natural e, eventuais afastamentos ou separações, acabam por causar mais pesar do que aquela satisfação que invade a alma do aprisionado que encontra a porta da liberdade aberta à sua frente.

E não é para ninguém pensar que estas palavrinhas tão simples – respeito e tolerância – podem ser adquiridas na lojinha da esquina, ou após assistir aos reclames da TV. Não! Respeito e tolerância são atributos da alma que, ensinados ainda na infância, acompanham-nos por toda a vida, e depende de nós regá-los diária, insistente e pacientemente, para que cresçam e produzam o excelente, saboroso, apetitoso e doce fruto da convivência.

Porque, da boa convivência, seja em que ambiente for, outros tesouros brotam e novos frutos são produzidos, em um interminável ciclo virtuoso que fará com que todos, nós e os outros, sintam, e sintamos, o prazer de viver. Portanto, respeite e seja tolerante. Viva e deixe viver. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

dez 03

EDITORIAL DA SEMANA: NA FORMA OU NO TEXTO, A ARTE DE ESCULPIR

SÃO MATEUS - MICHELANGELO - 3

O ESCULTOR LITERÁRIO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Certa feita, tomei conhecimento de uma obra esculpida por Michelangelo, que chamou minha atenção. Trata-se do “São Mateus inacabado”, formatando a ideia de que aquela figura humana está presa no interior do bloco de mármore e que, por meio da ação do artista, ela vai sendo lenta e expressivamente libertada. É exatamente como se a pessoa ganhasse vida e, de repente, surgisse como que rompendo o bloco de pedra, de dentro para fora. É trabalho e simbologia maravilhosos.

Fiz uma analogia comparativa entre a obra obtida pelo escultor, a partir do bloco sólido, e o texto produzido por um literato não identificado e percebi quanta semelhança existe entre ambas as construções, embora uma seja feita no bloco de mármore, de pedra, de gesso ou mesmo na madeira bruta e a outra, atualmente, na tela do computador, o que não desmerece ou desvaloriza, de forma alguma, o resultado obtido.

O homem da literatura, tal qual o escultor, apodera-se de um emaranhado espesso e bruto de palavras e vai entalhando parte por parte, detalhe por detalhe, até obter aquela forma por ele almejada. Depois, com um cinzel bem afiado, vai aparando as arestas, uma a uma, até poder olhar para aquele conjunto e identificar a obra gestada, inicialmente, apenas no seu departamento intelectual.

É interessante perceber, que daquele mesmo conjunto “espesso” de palavras são obtidas formas muito diferentes, a depender do “escultor” do momento. Cada um é capaz de produzir imagens muito diferentes e com significados bastante diversificados. Entretanto, assim como no caso do escultor da pedra ou do mármore, ou até mesmo o da madeira e do gesso, aquele que lida com as palavras precisa tomar um cuidado a mais: não permitir que o resultado da sua obra acabe por ferir, ofender, denegrir ou destruir a honra, a boa fama ou a moral de ninguém. Coisa que, muito dificilmente, ocorre com as esculturas sólidas, depois de prontas e acabadas.

O escultor literário precisa, além de dominar a arte da criação com perfeição, conhecer profundamente os significados de cada uma das partes por ele trabalhadas, para que, ao final, não acabe criando um verdadeiro monstro capaz de, inclusive, devorá-lo por meio das hábeis mãos dos que lidam com a justiça. Mas, com o devido cuidado, que a experiência acaba por amoldar o artista, ele cria obras maravilhosas.

Falando assim, de maneira tão simples, parece fácil, mas, não é não. Basta ler alguns dos textos que são hodiernamente publicados em jornais, revistas, internet e em outros meios de comunicação, para surpreender-se sobremaneira com o que é apresentado, não raro, com títulos pomposos. Algumas, são produções monstruosas, feias, mal definidas e mal direcionadas. Coisas que, quando acabamos de ler, deixam mais dúvidas do que convicções, a não ser a de que aquilo partiu de alguém que pega no cinzel pela parte cortante. Com certeza, tais “artistas” devem ser vítimas constantes de acidentes de trabalho, mas, estão aí e mais, são, em muitos casos, muito bem pagos para fazerem o que fazem, restando-nos, apenas, virar tais páginas ou mudarmos o veículo de informação.

O fato é que vejo semelhanças interessantes entre as obras produzidas tanto pelo escultor da matéria sólida, quanto o da matéria literária, apenas ressalvando os danos que uma obra e outra podem, eventualmente, causar a terceiros.

Para produzir um texto qualquer, e dizer exatamente o que eu quero dizer, preciso conhecer o significado, e até mesmo a origem, das palavras utilizadas afim de que, unidas umas às outras, com as devidas intermediações verbais e gramaticais, sem abrir mão das necessárias concordâncias e sem deixar de observar a coerência textual e contextual, poder apresentar ao leitor um produto capaz de, de alguma forma, interessá-lo, ou mesmo de auxiliá-lo, dependendo das circunstâncias por ele vividas naquele momento.

Para tanto, assim como o escultor do material sólido afia o cinzel na pedra de amolar, o literário deve afiar o seu instrumento de trabalho na grossa e sólida pedra, em cuja composição são encontrados elementos de definições, de informações sobre sinônimos e antônimos, de ortografia, de pronúncia, de classe gramatical, de etimologia etc., também conhecida como dicionário, evitando, assim, provocar sérios acidentes, dos quais saem feridos tanto o autor, quanto os seus queridos e estimados leitores. Com o instrumento devidamente afiado e com uma mente aguçada e vitaminada pela inspiração, produzem-se obras realmente muito boas. Tão boas que, muitas, perpassam as décadas e até mesmo os séculos.

Escultores, sejam lá quais forem os materiais por eles utilizados, revelam a extensão da genialidade do ser humano porque, enquanto não produzem, ninguém é capaz de conhecer-lhes em profundidade, apesar do quanto de sabedoria e de potencialidade carregam dentro de si.

Sugiro que, doravante, todas as leituras sejam feitas de modo a verificar se, ao final, o produto percebido, e recebido, é compreensível ou não; se diz, ou não, aquilo que afirma pretender dizer e mais, e melhor, se as arestas foram bem aparadas ou se existem pontas afiadas, capazes de cortar a carne interpretativa dos leitores, fazendo-os sangrar e sofrer desnecessariamente. Faça esta experiência, ela será bastante saudável e ajudará na identificação de bons artistas e de renomados impostores. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 26

EDITORIAL DA SEMANA: MEU PAI DEIXOU DE ME ENSINAR MUITAS COISAS

LIÇÕES DE UM PAI

AS COISAS QUE MEU PAI NÃO ME ENSINOU –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O avançar dos anos faz a gente dar voltas recreativas no passado da vida e, inevitavelmente, coloca-nos diante de um telão no qual são exibidas diversas imagens ou filmes – longos ou curtos – que trazem algumas recordações, umas boas, outras, nem tanto. A verdade é que, de cada viagem dessas a gente retorna com os pés mais fincados no chão da vida, muitas dúvidas são afastadas ou, quem sabe, muitas outras passam a existir,  sem chance, porém, de serem dissipadas.

Dei algumas voltas no passado da minha vida à procura de aprendizados que possam ter ficado caídos pela estrada e que hoje, com toda a modernidade e todas as consequências que dela advêm, parecem fazer alguma falta. Mais do que nunca é preciso muita ciência, e também paciência, além de boa dose de sabedoria para desvencilharmo-nos dos transeuntes do século em curso. Pessoas, grupos e instituições que, outrora, não demonstravam a força, a fúria e a intrepidez com que se expõem diante de tudo e de todos nós.

Recordei-me de alguns passos caminhados ao lado de um homem sem estudo e sem cultura, mas, com pós-doutorado na ciência do viver: meu pai. Pessoa simples, filho de uma época dura e difícil, mas que soube seguir por caminhos espinhosos e, mesmo ferido em diversas batalhas, chegou ileso do outro lado da margem do rio da vida, ostentando as marcas da idade, como rugas, dores e cansaço, mas, plenamente vitorioso pela forma digna, ética, moral e social de encarar a vida e, mesmo, de viver.

Algumas coisas ele me ensinou diretamente, outras, aprendi com os exemplos que ele jamais deixou de dar. Porém, do balanço de tudo o que ele me ensinou cheguei à conclusão de que deixou muito mais de ensinar. Ou seja, ensinou muito pouco, em vista do que hoje ensinamos aos nossos filhos, preocupados que somos com os detalhes de cada esquina por onde eles haverão de passar. Com tantas preocupações e precauções, ensinamos de tudo um pouco, na esperança de melhor prepará-los para uma vida e um mundo totalmente diferentes dos nossos tempos. Mesmo assim, ensinamos de tudo, sem nada deixar oculto, nem mesmo o jogo de cintura que, na boca popular, faz a gente se livrar de poucas e boas na vida.

Meu pai não me ensinou, por exemplo, a levar vantagem em tudo na vida! pelo contrário, em muitas oportunidades, pude vê-lo sendo prejudicado, para não prejudicar o outro. Vi que ele perdia, para não tirar vantagem de uma fraqueza ou mesmo de uma falta de conhecimento daqueles com quem lidava. Vi-o permanecer na pobreza, mesmo sendo convidado a conquistar algo mais, com um pouco mais de esperteza. Esperteza que sempre fez questão de recusar e de rejeitar porque, para ele, advinha de caminhos tortuosos e não tão bem definidos pela lógica da moral a ser vivida do jeito que ele entendia. Não me ensinou ser desonesto, desviando sempre alguma coisinha de quem tinha muito e que, com certeza, jamais daria falta do pouco que fosse tirado. Não me ensinou a desviar nada que pertencesse ao outro, acreditando ser muito melhor nada possuir, do que possuir algo marcado pela desonra ou pela desonestidade.

Meu pai não me ensinou e desrespeitar o outro, fosse ele quem fosse, santo ou pecador; bom ou mau; fiel ou infiel; temente a Deus ou ateu; branco ou negro; pobre ou rico; novo ou velho; homem ou mulher ou tivesse lá a opção que melhor entendesse para a sua vida. Não me ensinou a desprezar ou desrespeitar qualquer ser humano que trilhasse o meu caminho. Ele não me ensinou a desviar os olhos dos mais humildes, nem fazer-me de importante perante os menos favorecidos, ainda que culturalmente porque, no campo da pobreza, nós sempre disputávamos o primeiro lugar com os mais pobres.

Meu pai não me ensinou a ser ingrato, passando por cima dos menores favores recebidos, mesmo que fosse, como ele sempre dizia, ganhando um simples pente ou uma escova de dentes que, para ele, vindos de quem quer que fosse, era sempre um ótimo presente, já que ninguém, na sua concepção, estava obrigado a dar nada para ninguém. Não me ensinou a fazer pouco caso daquele que nada podia doar ou a desconsiderar a mínima coisa doada com amor e carinho por algum benfeitor de plantão. Ele não me ensinou a esquecer de dizer o “muito obrigado”, nem o “com licença” ou muito menos o “me desculpa”. Não me ensinou a tratar com desdém nada que viesse do outro, como tentativa de agradar-me ou mesmo de premiar-me por algum bem praticado, quando não, para suprir alguma suposta necessidade minha.

Meu pai não me ensinou a beber ou a fumar, como forma de transmitir hábitos que pudesse julgar serem saudáveis, ainda que os praticasse. Não me ensinou, porque assim não fazia, a dar uma passadinha no bar nos finais de tarde, nas noites ou mesmo nos finais de semana, para uma bebidinha com os amigos ou para um joguinho de cartas ou mesmo de sinuca. Não me ensinou, porque não praticava, a viver na embriaguez ou nos zigue-zagues causados pela bebida, durante as caminhadas pelas ruas, até chegar em casa. Não me ensinou a beber n’outro lugar, que não no cantinho sereno e harmônico do lar, como a celebrar qualquer coisa, boa ou má, que pudesse ter acontecido durante o dia ou no curso da semana.

Meu pai não me ensinou a ter orgulho, vaidade ou prepotência, deixando de viver contente com o muito ou com o pouco que eu tinha. Não me ensinou a contar vantagens ou mesmo a querer ser mais do que os outros, só para mostrar alguma diferença. Não me ensinou a andar em grupos, feito bando de andorinhas, confiando mais no coletivo do que no recato individual, mas, também, não ensinou a afastar-me das pessoas só por serem diferentes nem, tampouco, isolar-me por completo do mundo em evolução.

Meu pai não me ensinou a fazer da mentira a companheira de todas as horas, a amiga inseparável de todos os lugares, a companheira em todas as vitórias e a amante aguerrida na conquista de títulos e de menções honrosas. Não me ensinou a usar a mentira como arma nas batalhas da vida, fosse para afastar incômodos amigos, ou ainda para derrotar intrépidos inimigos. Não me ensinou a carregar a mentira sempre a tiracolo, para uma eventualidade qualquer, na suposição de que, dependendo da hora ou das circunstâncias, poderia ter utilidade. Não me ensinou a adotar o engano como forma de lidar com os meus semelhantes, na tentativa de ganhar deles a amizade ou a simpatia.

Meu pai não me ensinou a esconder a vingança como carta na manga, a ser sacada sempre que o outro de mim tirasse alguma coisa ou prejudicasse a minha trajetória. Não me ensinou a buscar na vingança o gosto mais refinado, que muitos afirmam dever ser saboreado quando frio, por ser mais palatável e apetitoso. Não me ensinou a tramar ciladas contra quem as vive tramando, nem a retribuir o mal com o mal. Meu pai deixou de me ensinar a fórmula para derrubar os que, durante a minha caminhada, pudessem servir de tropeço para mim. Não me mostrou como praticar o “olho por olho” ou o “dente por dente”, para que, ao menos enganando a mim mesmo, eu pudesse me sentir fazedor de justiça.

Meu pai não me ensinou a buscar a vitória a qualquer preço, ainda que fosse sobre o fracasso e a ruína alheios. Não me ensinou a puxar o tapete dos meus semelhantes ou mesmo a subir em seus ombros para alcançar um patamar mais elevado onde, para a sociedade, pudesse significar “vencer na vida”. Não me ensinou a passar à frente dos que caminham com dificuldade, nem mostrou como fazer para eliminar da competição os fracos e desvalidos. Não me ensinou a tirar proveito do despreparo do outro ou da sua incapacidade para permanecer nas disputas da vida.

Enfim, durante as minhas longas caminhadas recreativas pelo passado da vida, descobri quantas coisas meu pai deixou de me ensinar e, para o meu pesar, descobri, também, o quanto todas elas foram ensinadas à exaustão por diversos pais, com cujos filhos hoje somos obrigados a conviver. Quisera eu que todos os pais fossem omissos como o meu, deixando de ensinar, de incentivar e até mesmo de cobrar certas atitudes dos filhos que, nos dias que correm, tornam este nosso mundo tão marcado pelos horrores do desrespeito, da ingratidão, da desonestidade, da mentira, do orgulho e da prepotência, do vício, da sede de vingança pessoal ou social e de tantos outros males que contaminam a existência de todos nós, seres viventes. Digo “seres viventes” porque fauna, flora e humanos, tanto quanto a própria natureza, padecemos terrivelmente com todo o mal causado pela ausência de virtudes, de discernimento e de sabedoria.

Quisera eu que todos os pais deixassem de ensinar aos filhos todas as coisas que meu pai deixou de me ensinar. Não que eu tenha me tornado o melhor dos seres humanos, mas, certamente, eu poderia ter sido muito pior caso não tivesse passado pela escola pela qual passei e não tivesse tido o mestre que tive.

Faça algumas caminhadas recreativas na sua vida também. Elas poderão ajudar, e muito, na exata compreensão sobre onde você está, a que ponto chegou e sobre tudo o que se passa ao seu redor, inclusive, nas suas atividades profissionais, familiares e comunitárias. Caminhar sempre, dizem os sábios, é preciso! Mas, acrescento eu, com bom senso e com sabedoria. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

nov 19

EDITORIAL DA SEMANA: É PRECISO CORAGEM PARA MERGULHAR

CURSO DE FORMAÇÃO

ESCOLA DE CATEQUESE – É PRECISO AVANÇAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O papel mais importante a ser desempenhado por aquele ou aquela que trilha o caminho da teologia é o da reflexão. Cabe ao estudioso da teologia exercer, de forma constante e permanente, o sagrado exercício da reflexão à luz das Sagradas Escrituras, do Magistério e da Tradição, sim, mas, também, à luz do tempo presente, apresentando proposições que, de alguma forma, possam amalgamar a Palavra e a Ação.

Não é estranho para ninguém que o mundo está passando por dias bastante difíceis. Nada que já não tenha ocorrido de forma análoga em tempos passados. São desafios propostos, e muitas vezes impostos, pelo tempo e pelo suceder das gerações. A grande diferença entre o agora observado e os tempos mais antigos, está na formação do povo de Deus que, outrora, sem nenhuma tecnologia, era formado de um jeito mais eficaz, até por conta da boa vontade que existia da parte dos fiéis para com seus pastores e diretores espirituais. Hoje, esta relação está bastante dificultada, justamente, em decorrência do mau uso e do mau aproveitamento de uma tecnologia avançada que, ao invés de atuar como aliada, age como séria adversária, sobrepondo métodos absolutamente profanos e profanados sobre outros, sagrados e até mesmo consagrados, por meio da experiência religiosa.

O que temos presenciado hodiernamente faz-nos perceber que algo está falhando seriamente, haja vista que, também não é segredo para ninguém, muito menos falso, os templos estão cada dia menos ocupados. Ou seja, os fiéis de antigamente morreram, ou encontram-se fisicamente impossibilitados de locomoverem-se, e não conseguiram ser substituídos por seus sucessores que, filhos de uma sociedade de consumo midiático em evidente ascensão, veem na religião e na prática religiosa algo extremamente ultrapassado, e, porque não dizer, alienante, levando-se em consideração que o mundo midiático, com suas inúmeras redes sociais e propostas das mais diversas e diversificadas, oferece opções muito mais palatáveis e prazerosas, além de destilarem gigantescas torrentes de uma sensação percebida e recebida como “felicidade”.

Desta forma, como atrair um público que vivencia estas experiências, principalmente, as parcelas mais jovens, com métodos e pessoas tão antigas, quanto desatualizadas? E mais, e mais grave: um público que só é atraído para uma necessária catequese, nos períodos imediatamente antecedentes à administração dos sacramentos mais vistosos, como o Batismo, a 1ª comunhão, a confirmação do Batismo e/ou o matrimônio. Quer-se dizer: a catequese ofertada, principalmente, pela igreja Católica só ocorre, de fato, e, totalmente, direcionada, em momentos intrinsecamente vinculados com os sacramentos a serem recebidos pelo fiel. Passados estes períodos de “formação”, fiéis, pastores e catequistas seguem suas rotinas sem  se preocuparem uns com os outros. É óbvio que os pastores, na grande maioria, não se perdem nos descaminhos do mundo, podendo-se dizer mais ou menos o mesmo dos e das catequistas, mas, os jovens de todos os sexos, só Deus sabe onde vão parar.

A Igreja Católica é depositária de um imensurável acervo doutrinário e litúrgico, que permitem-na exercer com total eficiência o múnus de ensinar, conduzindo os fiéis seguidores de Cristo à necessária santificação. A riqueza trazida ao longo dos séculos, desde os Padres da Igreja, também chamados de “Pais da Igreja”, passando por inúmeros e insubstituíveis documentos e encíclicas papais, mais o advento do Concílio Vaticano II, com todos os documentos, Constituições, reformas e encíclicas daí decorrentes, sem falar no Código de Direito Canônico, promulgado pelo então Papa João Paulo II em 1983, permitem que a Igreja tenha plenas condições de influenciar, de forma bastante positiva, a geração que está em curso, assim como as vindouras.

Entretanto, parece ser chegado o momento de fazer-se uma séria revisão nos métodos adotados na formação dos leigos e leigas e, principalmente, na formação de catequistas, homens e mulheres que, amorosa e voluntariamente, dispõem-se ao trabalho em prol da assembleia de fiéis. E, para tanto, é preciso ampliar, melhor dizendo, é preciso qualificar a formação destes homens e destas mulheres para que eles, não apenas catequizem, mas, de forma imperiosa, urgente e extremamente necessária, contribuam na formação de cristãos e de cristãs verdadeiramente comprometidos com a doutrina de Cristo, cuja depositária por excelência é a Igreja.

A propósito, é saudável uma leitura acurada dos cânones 779 e 780, do Código de Direito Canônico, expressos que são acerca da necessidade premente de promoção da formação contínua e aprimorada dos catequistas, "com o emprego de todos os meios, subsídios didáticos e instrumentos de comunicação que pareçam mais eficientes", a evidenciar o quão urgente é a atualização do que hoje entende-se denominar por "catequese".

A proposta que se faz, fruto da reflexão a que nos referimos no inicio deste texto, é a criação, onde ainda não existe, de Escolas de Catequese voltadas com exclusividade para a formação atualizada e teologizada dos cristãos e das cristãs interessados no compromisso com uma catequese verdadeiramente evangélica que, por incrível que possa parecer, não compreendem muito bem, sequer, as Sagradas Escrituras e, ainda, desconhecem por completo o Magistério da Igreja. Tanto que, quando ouvem falar em justiça para o pobre, o oprimido e o trabalhador da terra confundem, com frequência, com as ideologias político-partidárias defendidas, difundidas, experimentadas e fracassadas ao longo dos dois últimos séculos, sem saberem que a justiça ao pobre, ao oprimido e aos trabalhadores, seja da terra ou, atualmente, dos novos meios de produção, é matéria amplamente tratada em todo o Antigo Testamento e que a Igreja, inclusive, e por meio de sua doutrina social, é portadora de inúmeros documentos e encíclicas papais que tratam com exclusividade do tema, não se podendo deixar de lado os frutos do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). É preciso ter coragem para uma séria e saudável autocrítica e, na mesma esteira, para elaborar e concretizar projetos inovadores e totalmente voltados para a formação dos fiéis cristãos e cristãs deste já avançado século XXI. É mais do que necessário trabalhar pela formação, incentivada e estimulada, dos fiéis dispostos à catequese.

Há que ser compreendido que o fiel precisa, além da necessária, oportuna e saudável formação bíblica, teológica, cristológica e eclesiológica, também, de acompanhamento de toda a sua vivência nos meios familiares e religiosos, a fim de que ele possa, não apenas frutificar, mas, e, sobretudo, frutificar com qualidade reprodutiva, com capacidade para, com o seu exemplo vivo na órbita familiar, comunitária e social, com mais ação e menos pose e discurso, revelar a presença do Cristo ressuscitado, ou seja, que ele se apresente, sempre como agente ativo, atuante e replicador, ao invés do simples, elegante e jovial frequentador de missas e de solenidades religiosas.

Pelo menos uma Escola de Catequese em cada Diocese, com um corpo docente formado por mestres e doutores em teologia, em liturgia, em exegese bíblica, em patrística e em direito canônico, com cursos regulares com previsão de, pelo menos, 360 horas, ao fim das quais o(a) catequista estará bastante habilitado(a) para a catequese familiar, paroquial e/ou comunitária, assim como para o acompanhamento permanente dos novos e dos já catequizados.

Pensamos não haver mais espaço para os métodos de catequese adotados e praticados nos dias que correm, sob pena de um brutal afundamento institucional, e, pior, do aniquilamento da própria prática religiosa, fenômeno regulador da vida em sociedade, cuja ausência trará ainda maiores prejuízos a toda a coletividade já incendiada pelo fogo colateral do progresso.

Os instrumentos estão aí: redes sociais das mais diversas (com a capacidade de alcance e de penetração que, agora, mais do antes, o Brasil todo conhece); cursos on line muito bem estruturados, cujo sucesso tem sido relativamente demonstrado; além do fenômeno acadêmico do EAD (Ensino A Distância) que, na impossibilidade de outra forma de aprendizado, tem se revelado opção bastante útil e de resultados bem satisfatórios. Portanto, se falta alguma coisa, com certeza, não são instrumentos. O Apóstolo Paulo ficaria assombrado se visse como as redes sociais são praticamente excluídas da evangelização e da catequese do povo de Deus.

Este texto é privado e, obviamente, protegido pelo direito autoral. Entretanto, pode ser utilizado na divulgação integral do seu conteúdo, desde que seja respeitada a autoria.

Trata-se de uma reflexão cujo único objetivo é fomentar no meio eclesial o desejo e a coragem para a promoção de uma profunda alteração na forma e no modo de habilitar os responsáveis pela catequese dos fiéis seguidores de Cristo que, atualmente, são cooptados por inúmeras outras atrações que, diferentemente da Palavra de Deus, em nada contribuem para a salvação das almas. Que, no mínimo, seja objeto de reflexão e de aprimoramento das ideias expostas. Sinceramente, é o que se espera. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura, Estudante de Teologia, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

nov 12

EDITORIAL DA SEMANA: EM NÓS, O SOPRO DA VIDA!

O SOPRO DA VIDA

O SOPRO DE DEUS: SEM ELE, NÃO TEMOS VIDA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Como a vida é simples e singela! Tão simples e tão singela, que a maioria absoluta das pessoas passam por ela, sem se dar conta da riqueza com a qual conviveram durante tantos e tantos anos. Muitas pessoas acreditam que a existência humana é uma peça teatral resumida em quatro atos: nascer, crescer, reproduzir e morrer, esquecendo-se de que, em cada uma destas etapas, existe uma força, uma chama, uma energia vital, um ânimo, um impulso, em resumo: um sopro. Sim, um simples sopro, porém, um sopro divino, que desperta o ser para a vida, para a existência e para uma caminhada sem fim, embora realizada em dois planos distintos: um, terreno e, outro, etéreo!

Mas, de onde vem esta energia, esta força vital e este ânimo que traz, principalmente, o ser humano à vida? esta questão perturbou a mente do homem antigo. Olhando para si e para os seus iguais, ele fazia incessantemente esta mesma pergunta. Pergunta que deixava-o ainda mais perplexo, quando percebia que seus semelhantes, vinham à vida mas, também, e de repente, caiam estatelados no chão, sem ela e, rapidamente, desapareciam em meio à decomposição fétida daquela matéria desconhecida. Olhar para si e para os demais sem entender nada, absolutamente nada, e, mais ainda, percebendo que aquela vida tinha um limite, um fim, deve ter sido um tormento muito grande para o ser humano, digamos, primitivo.

Entretanto, pela inspiração divina, o ser humano vislumbra o momento da Criação de todas as coisas e, no Livro do Gênesis, no capítulo segundo, narra que Deus formou o homem do barro da terra “e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2,7). Este “sopro de vida” é a irrupção do espírito. Um espírito que não é um qualquer, mas, um espírito procedente de Deus, uma parte do próprio Deus, cujo Espírito vive e abarca tudo, todos e todas as coisas existentes. Momento comparável ao do nascimento de um bebê que, imerso no líquido amniótico, no tempo certo, é trazido à luz.  Mesmo sem a famosa palmadinha dada pelo médico, o bebê solta o primeiro choro, ao experimentar o choque da primeira mudança na vida, quando os pulmões de forma exuberante, expulsam o líquido e recebem, pela primeira vez, o oxigênio puro e direto. A criança, como que acorda para a vida, para a existência. É alma vivente! Uma vida que jamais será extinta.

Assim aconteceu com o primeiro ser humano criado por Deus, deixando-se de lado, por enquanto, as discussões intermináveis sobre as teorias do criacionismo e do evolucionismo.

Uma vez levantado do solo, o ser humano caminha, fica admirado com tudo o que o cerca. Quanta beleza, quantas maravilhas. O criador acompanha-o de perto e percebe que aquele ser é perfeito e, por esta razão, ama-o desde o início, pois, é imagem e semelhança Sua. O Senhor Deus, porém, olha para aquele homem inebriado e desajeitado, tosco mesmo, podemos dizer, mas, feliz e repleto de "ânimo", e conclui: “Não é bom que o homem esteja só”. Na narrativa bíblica, em seguida a esta conclusão, o Senhor forma a mulher e, pela simples leitura do Livro do Gênesis, pode-se acompanhar tudo o que se passou com eles.

Mas, a questão que merece destaque aqui, é a sentença divina: “não é bom que o homem esteja só”, porque, embora o Senhor tenha-lhe providenciado uma companheira, hoje, para nós, parece bastante razoável a ideia de que a presença divina no ser humano era, e é, imprescindível. É justamente a partir desta presença que o ser humano consegue compreender o ambiente no qual é inserido desde o começo, com suas tramas e com os seus dramas. Começa a perceber as necessidades, as afinidades, os sentimentos, e, sobretudo, a capacidade interior para a superação. Uma superação que vai muito além dos embates físicos com os animais ferozes, com semelhantes tresloucados e, mais tarde, com sistemas políticos, ideológicos e de exploração. Uma superação de si mesmo, com seus medos, incertezas, inseguranças e fraquezas. É com a presença divina que o ser humano sente fervilhar dentro de si, mas que ainda não tem capacidade para compreender muito bem, que ele caminha, luta, vence, supera desafios e obstáculos e armazena no mais profundo do seu íntimo, sonhos e projetos. Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor que, providencialmente, coloca-se ao lado da sua principal criatura. Principal, porque fê-lo à própria imagem e semelhança. Principal, porque transforma-o no guardião de toda a Criação.

E esse Deus, como demonstrado inúmeras vezes, na Bíblia, caminha ao lado do ser humano. E mais do que caminhar, habita em cada um dos seres humanos, conforme testemunha o Apóstolo Paulo quando, escrevendo aos Coríntios, questiona “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (ICor 3,16).

Daí termos, hoje em dia, a convicção de que Deus, definitivamente, não quer que estejamos sós, mas, quer estar conosco e em nós, e só quem não consegue ter esta compreensão é que imagina ter o controle da própria vida nas mãos. Sem Ele, não temos a vida em toda a sua plenitude. Dele procede o sopro que faz de nós almas viventes e em nós constrói o templo sagrado no qual habita o seu divino Espírito, enquanto a Ele nos achegamos e com Ele aceitamos caminhar.

O mesmo raciocínio não se aplica àqueles que praticam, deliberadamente, o mal e a crueldade, descumprindo os preceitos divinos, porque é impensável que o Espírito de Deus habite no íntimo de tais criaturas que, certamente, caminham sozinhas ou movidas por forças contrárias à divindade e à santidade do Deus-Criador. Isso, para que não nos iludamos, acreditando que o Espírito de Deus está em absolutamente todos os seres humanos, é o que afirma a Primeira Carta de João: “O que observa os seus mandamentos, está em Deus, e Deus nele; pelo Espírito que nos deu, sabemos que ele permanece em nós” (IJo 3,24).

No mais, consolemo-nos em saber que não estamos e que não vivemos sós, porque Deus, ao sentenciar que não é bom o homem estar só, não se referiu apenas à companhia humana, mas, também, à divina que, do início ao fim, é quem nos assegura a vida, e vida em abundância. Creia nisto, respeite o Espírito de Deus que habita em você e em todos os seus semelhantes e mantenha sempre limpo e aberto o seu templo interior, para que o Sopro da vida jamais se afaste porque, sem Ele, não temos a vida plena. Os indianos e os nepaleses conhecem muito bem esta realidade, pois, não cessam de repetir o “Namastê” que, literalmente, significa “O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você”. É com esta consciência que precisamos olhar para os nossos semelhantes e, diante de cada um deles, prestar reverência ao Deus que é comum a todos nós – Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 05

EDITORIAL DA SEMANA: O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE

O HOMEM DA MONTANHA

O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Todos somos iguais perante a lei e perante Deus, mas, quanta diferença existe na forma de olhar o mundo e de viver, entre o homem da montanha e o que vive nos grandes centros urbanos, em meio à gente engomadinha, perfumada, bem maquiada e frequentadora dos lugares mais nobres. O homem da montanha tem um olhar simples para todas as coisas, a tudo enxerga com boa-fé: caminhando pelos grandes centros, ao presenciar alguém deitado em um canto da rua, logo se coloca no lugar daquele pobre coitado e quer aproximar-se para dar-lhe alguma coisa, enquanto o homem da cidade, olhando para o mesmo cenário, diz: “por que não trabalha? Por que vive às custas dos outros, fugindo do labor diário?”

O homem da montanha, acostumado com as grandes dificuldades da vida, sabe o valor de um prato de comida, tenha o conteúdo que tiver. O da cidade grande, não. O da cidade grande pensa primeiro na qualidade e na diversidade da salada, na textura do arroz, na maciez e na ausência de gordura da carne, no tomate “sem sementinhas” e, ao final das refeições, deixa sempre algumas sobras no prato, mesmo sabendo que irmãos seus passam fome pelo mundo afora. O homem da montanha só pensa em alimentar-se e ver o estômago satisfeito. Por isso, come em qualquer lugar, sem restrição a qualquer espécie comida. O homem da cidade, não. Ele escolhe lugares mais arejados, mais bonitos, bem localizados e melhor frequentados.

O homem da cidade é preocupado com a aparência: tem que estar bem barbeado, bem vestido, sapatos brilhosos, cabelo bem penteado, cortado e bem aparado, enquanto o homem da montanha pouco se lixa para esses detalhes pessoais, o que ele mais quer é conversar descontraidamente, dar gargalhadas quando sente vontade, contar piadas ao seu jeito, dar tapinhas no ombro do interlocutor, demonstrando intimidade. Uma intimidade que incomoda o homem fino da cidade que, de certa forma, fica até um pouco envergonhado quando está acompanhado do amigo da montanha.

Para o homem da montanha nada é mais rico, belo e querido do que passar as férias em casa, fazendo alguns trabalhos de melhoria para a família ou, quando muito, ir para a roça, para a casa de algum parente que há muito não vê, comer torresmo com couve e tomar uma cachacinha. Rachar lenha e pescar no pequeno lago, onde encontra tilápias graúdas que, fritas, farão a alegria de todos da casa. Para esse homem simples, faz parte das férias matar galinhas e porcos para os pratos roceiros de sempre. É da essência deste tipo de homem o andar descalço quando, de volta e meia, pisa de forma desajeitada em alguma pedra, machucando o centro do pé, ou, ainda, em um espinho de alguma fruteira, caído no solo pedregoso. É da essência deste homem visitar os porcos no chiqueiro, acariciando-os pelo lombo para verificar a solidez e a textura do toucinho que se afirma a cada dia, assim como está no seu ser sentir o cheiro do mato, das vacas e dos cavalos que, mesmo não sendo de sua propriedade, ele aprecia como se dono fosse.

Para o homem da cidade isso não é férias, é, como se diz “programa de índio”. Férias para o homem fino da cidade, é viajar para o estrangeiro. Quanto mais países ele visitar ao lado da família, quanto mais dólares gastar, quanto mais restaurantes grã-finos puder frequentar e quanto mais parques, jardins, museus e espaços públicos e privados puder adentrar e tirar fotos, muitas fotos, mais terão valido a pena as suas doces e inesquecíveis férias, que ele faz questão de repetir ano após ano, para o deleite próprio e dos seus amigos e familiares

O homem da montanha, quando passa diante de uma igreja, ainda que não faça nenhuma reverência física com as mãos, lembra-se do seu Deus e louva-O por todas as coisas que possui. Enquanto o homem da cidade, ao passar diante de uma igreja, fica admirado com a arquitetura, com os vitrais alemães ou italianos e, não raro, critica a falta de manutenção, esquecendo-se de que qualquer obra demanda dinheiro. O homem da montanha, de forma religiosa, enfia a mão no bolso e tira sempre um trocadinho para depositar na caixa de coleta da igreja, ou mesmo para doar o dízimo do seu pequeno ganho. O homem da cidade, na maioria das vezes, critica e condena a coleta de dinheiro nas igrejas, afirmando que os pregadores e os líderes religiosos abusam dos pobres fiéis, pedindo dinheiro de forma descarada. Este homem moderno, inteligente e esperto, bem arrumado e maquiado à altura, não dá uma moeda para ninguém, porque ele “não quer contribuir com o crime organizado!”.

O homem da montanha é simples e aberto, não desconfia de ninguém e, por esta razão, sempre que é solicitado estende a mão para o próximo. O homem da cidade, não. Ele que conhece tudo e todos os mecanismos de esperteza e de maldade, desconfia da própria sombra e evita estender a mão para qualquer desconhecido que o aborda na rua. Entretanto, volta e meia ele é abordado por alguém com uma arma e, necessariamente, tem que entregar, não apenas as moedas, mas, também, as notas e os diversos cartões de banco que carrega consigo e que faz questão de deixar à vista quando vai efetuar algum pagamento, para que todos vejam tratar-se de “pessoa de bem”. O homem da montanha nem carteira possui, carrega seu dinheirinho amassado em qualquer um dos bolsos da calça ou da camisa, sem chamar a atenção de ninguém.

O homem da montanha quando passa diante de um hospital ou de uma capela fúnebre, faz profundo silêncio e eleva o pensamento a Deus, porque sabe que alguém está sofrendo em qualquer daqueles lugares. O homem da cidade não liga para isso e, quando passa pelos mesmos lugares, não se importa em meter a mão na buzina do carro se alguém o ultrapassa de forma desajeitada, ou, então, passa com os alto-falantes do carro na último estágio do volume, pouco se lixando para o fato de alguém, naquelas imediações, está em profundo sofrimento.

O homem da cidade, quando morre é levado para o salão mais nobre de uma das instituições por ele frequentadas no curso da vida, onde amigos, vizinhos e parentes fazem filas para olhá-lo naquela última forma que, impreterivelmente, a família cuida para que demonstre boa aparência e feições parecidas com as dos santos, para que todos digam: “olha, parece que está dormindo”, porque a morte, para este tipo de homem, é a maior humilhação pela qual um ser humano pode passar. Ao passo que o homem da montanha, nas mesmas condições, é velado nas capelas mais simples e humildes do lugarejo, sem qualquer pompa e sem nenhuma glória.

Não queria, mas, é bom lembrar que o caixão do homem da cidade é de madeira boa, com alças cromadas e elegantemente projetadas, além de estar regiamente ornamentado e de ser depositado em urna especialmente preparada para ele, no mausoléu da família. Enquanto o homem simples da montanha tem o corpo deitado em um caixão bonito, sim, mas, feito com a pior madeira possível, porque a família não tem condições de dar-lhe um aconchego melhor e, na hora “H”, é depositado no primeiro gavetão público que estiver desocupado. Enquanto no mausoléu da família do homem da cidade a urna mortuária recebe placa de bronze ou de outro metal mais vistoso, com foto e tudo, o do homem da montanha, na maioria da vezes é identificado apenas com uma placa de latão que exibe números grandes, em preto, parecendo marcação de propriedade privada. Propriedade da terra!

São muitas as diferenças entre estes dois tipos humanos, embora feitos da mesma matéria: o pó da terra. De lá veem e para lá retornam, sem se darem conta de que, nesta vida, o que vale mesmo é o viver. Simplesmente viver. Viver da forma mais simples e humilde possível, sem máscaras, sem requintes, sem maquiagens e sem enfeites externos porque, no final, no mausoléu da família ou no gavetão público, tudo será reduzido a nada. Portanto, olhe para o homem da montanha com admiração e procure imitá-lo em tudo porque a ele foram revelados segredos espirituais que, certamente, farão toda a diferença quando o mausoléu da família ou o gavetão público forem lacrados. Dali por diante, tal qual em vida, a caminhada será muito diferente. Reflita sobre isto e ajuste-se enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

nov 02

EDITORIAL DE FINADOS: A PASSAGEM É PARA TODOS

CHAMADO PARA A VIDA

O TÚNEL ESTÁ SEMPRE ABERTO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Muitas pessoas, que alegam terem passado pelo estado de pré-morte, afirmam que, no momento em que parecia ser o último neste mundo, viram-se diante de um túnel de luz, por meio do qual foram insistentemente convidadas a entrar e a fazerem a passagem para o lado de lá. Segundo diversas destas pessoas, na hora da decisão final, por uma força que não conseguem explicar, foram reencaminhadas para esta instância mortal, com a renovada chance de continuarem suas caminhadas. Ainda segundo tais depoimentos, a possibilidade de retorno, com a consequente continuação da vida tal como conhecida, inspirou-lhes renovado ânimo para, não apenas uma modificação em tudo, mas, principalmente, para a necessária reconciliação com tudo e com todos.

Não se sabe muito bem até que ponto tais depoimentos refletem a veracidade do que ocorre no momento derradeiro de cada um de nós, nem em qual intensidade espiritual e emocional tudo isso se passa. O que não quer dizer que tais depoimentos devam ser colocados em dúvida. Pelo contrário, na dúvida, é mais prudente considerá-los como verídicos!

O fato concreto é que, se tais casos ocorrem, os escolhidos são realmente muito felizes, porquanto ganham uma maravilhosa “segunda chance” para reformularem seus métodos, visões e trajetórias e, sinceramente, acredito que passam, sim, por tais transformações porque, nada mais positivo para a vida do ser humano do que poder experimentar aquilo de que sempre ouviu falar, mas, que, no seu íntimo, ou não acreditou ou fez questão de excluir da realidade da sua vida. Assim, diante da iminência da travessia, a consciência da chegada da hora fatal, pode trazer certo desespero para quem, realmente, não está minimamente preparado. Aí, receber autorização para voltar e reconstruir-se perante tudo e todos é, de fato, prêmio de valor incalculável.

Entretanto, com segunda chance ou não, o mais certeiro de todos os eventos da vida, é a morte, que é uma palavra brusca, forte, dolorosa, medonha mesmo, poder-se dizer, mas, que é o único caminho pelo qual nenhum ser vivente pode deixar de passar, mais cedo ou mais tarde.

Antes de temer o que é melhor chamar de “passagem”, é bom procurar compreender um pouco sobre o fenômeno tão assustador e que tanto horror causa na maioria de nós, pobres mortais.

A morte, para nós ocidentais, soa como algo terrível porque põe fim a uma existência que entendemos ser nossa única chance de felicidade. Acreditamos que, por pior que seja a vida, ainda é muito melhor do que a morte, justamente porque nossa compreensão é muito restrita e, conceitualmente, acreditamos tratar-se de uma espécie de castigo, para nós ou para os nossos entes queridos que ficam chorando a nossa partida.

Na verdade, a vida é um processo cuja origem é Deus e, portanto, sem qualquer interrupção. Quando o Criador decidiu doar a vida a nós humanos, também, permitiu que tivéssemos a oportunidade de sermos parte no projeto da Criação, dando nossa contribuição para que ele seja expansivo e, nunca, regressivo. Tudo caminha para uma expansão tal que, se pudéssemos falar em tempo, diríamos tratar-se de um tempo infinito. Porém, como o tempo para Deus não existe, pelo menos da forma como o conhecemos, podemos dizer que a vida, em si, é eterna. No entanto, é vivida em dois estágios: um aqui, neste plano terreno e, o outro, no lugar cósmico reservado por Deus para que suas criaturas possam usufruir da eternidade, sob as bênçãos divinas ou, em lugar, também cósmico, onde não se trata de usufruir a vida, mas, de suportá-la com todo o peso daquilo que armazenamos no primeiro estágio, ou seja, aqui. Dentro desta lógica, é aqui, no mundo, que colocamos na nossa vida certos adereços que servirão de carga pesadíssima para ser transportada no segundo estágio. Ou, a contrário senso, desgarramos de nós todos os pesos possíveis e, no espaço cósmico reservado pelo Criador, teremos a possibilidade de, tal como as águas puras e cristalinas, seguirmos o curso da vida por toda a eternidade, de forma absolutamente suave, alegre e feliz, louvando eternamente Aquele que tudo fez por todos e por cada um de nós.

Desse modo, o que nos acostumamos a chamar de morte é, de fato, uma travessia de verdade, quando, por meio de um túnel de luz ou de água, passamos desta realidade efêmera e ilusória para uma outra, realmente concreta e absolutamente verdadeira. Pode-se afirmar isso com certa segurança por causa da fé e da esperança que o Senhor plantou em cada um de nós, sem as quais, nada tem ou faz sentido e tudo, tudo, começa aqui e por aqui termina. Mas, para o crente e para aquele que navega nas águas serenas da esperança, todo este existir é apenas passageiro e, em dado momento, somos chamados a atravessar para o lado realmente seguro, feliz e eterno onde, embora não tenhamos consciência, fomos iniciados na vida, na verdadeira e superabundante vida, por lá, ela jamais tem fim ou qualquer interrupção.

No dia em que recordamos de todos aqueles que já passaram por aqui, amigos, familiares e entes verdadeiramente queridos, é bom despertar, também, para o fato de que, em algum momento, seremos convocados à travessia que eles já fizeram, porque o túnel está sempre aberto, a questão é apenas o chamado que, tal qual sussurro ao ouvido, é individual e secreto. Daí que, muitas vezes, a pessoa amada está ao nosso lado, demonstrando estar de partida e, de repente, vai embora, porque ouviu o chamado secreto que só é ouvido naquele momento e que cada de um de nós, mais cedo ou mais tarde vai ouvir também.

Portanto, não tenhamos qualquer receio, porque o chamado é para a vida e não, para a interrupção dela. Tudo vai depender, no entanto, do papel que estamos desempenhando aqui, neste plano ilusório, enganoso e sedutor. Se não nos deixamos enganar – e para que isso não aconteça devemos nos apegar à Palavra de Deus e ao próprio Cristo – nossa passagem será repleta de felicidade e de uma indizível satisfação.

Olhando por este prisma, devemos recordar dos nossos entes queridos com muita alegria, porque fizeram sua passagem e, certamente, e é o que desejamos, estão felizes e alegres no Reino de Deus, lugar de glória e de louvores eternos, onde não mais imperam a maldade, a injustiça, a traição, a mentira e o crime.

Cuidemos para que, enquanto não ouvimos o sussurro, não da morte, mas do anjo de Deus, convidando-nos para a passagem, trabalharmos para o aperfeiçoamento da nossa essência espiritual, imagem e semelhança de Deus, a fim de que sejamos para Ele enviados e de onde, certamente, jamais pensaremos em retornar, porque não existe maior luz, felicidade e saciedade do que estar Naquele e com Aquele donde provém nossa vida, que jorra de forma incessante e superabundante. Assim crendo, a passagem torna-se momento mais do que desejado e não, como ocorre com a maioria de nós, temido. Reflita e mantenha-se na paz do Senhor, pois, em paz e na serenidade, tudo será revelado para todos e para cada um de nós no momento oportuno. Seja feliz, e mantenha a serenidade!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.
   

nov 01

A SANTIDADE É SEMPRE POSSÍVEL, E VISÍVEL

SER SANTO

TEOLOGIA, LIBERTAÇÃO E SANTIDADE:  O PILARES DA SANTIFICAÇÃO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Teologia, libertação e santidade é o tripé sobre o qual, invariavelmente, está construída a vida da maioria absoluta dos santos e santas reconhecidos pela Igreja de Roma e, não raro, por grande parte da própria humanidade. A teologia, porque é necessário conhecer profundamente, e isso não significa a conquista de títulos acadêmicos, a relação filial e cultual entre o humano e o divino. É preciso descer às origens da Criação, perceber o trabalho realizado pelo oleiro no contato com a argila, ver o que dali é extraído, com todas as decorrências e consequências, observar, e até mesmo sentir em si, o amor do Criador de todas as coisas, apesar da rebeldia, da ingratidão, da sublevação e da idolatria da criatura para então, e só então, sentir-se parte viva desta relação, atuando como ponto de contato entre ambos – criatura e Criador – facilitando e possibilitando mesmo  o permanente reencontro e a reconciliação capazes de inviabilizar a ruptura indesejada, principalmente, pelo Senhor da vida. Daí a força e o potencial da teologia que, de muitos de nós, exige o esquentamento dos bancos acadêmicos, mas, que, para os santos, flui de maneira quase que natural como, por exemplo, é o caso Teresa de Ávila, proclamada Doutora da Igreja, em 1970 pelo Papa Paulo VI, e de Teresa de Lisieux, proclamada também, Doutora em 1997, pelo Papa João Paulo II. Coincidentemente, ou não, ambos os Papas foram elevados à condição de santos, recentemente, pelo Papa Francisco.

Quanto ao segundo pilar do tripé referido nas primeiras linhas – a libertação – parece ser o mais difícil de ser construído, porque exige mais do que conhecimento e mais do que doutrina: exige compreensão, abertura e renúncia de si mesmo. Aqui está o ponto nodal da santidade. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”, dirá Jesus conforme a narrativa de Mateus (Mt 16,24) para quem, à época escritural do Evangelho, a cruz já revelava de forma clara o caminho da redenção e da santificação.

Renunciar-se a si mesmo não é tarefa fácil. É difícil renunciar aos apegos da vida, às coisas, mesmo as materiais, que compõem o nosso acervo pessoal. Porém, renunciar aos sentimentos, às convicções, à forma de ver, de interpretar e de encarar o mundo, com todos os seus sistemas e suas ideologias, jogando tudo por terra e, com a mente e o coração abertos e totalmente esvaziados, aceitar a loucura da cruz, exatamente da forma radical proposta por Jesus, é desafio que muitos tentaram, e que ainda tentam, mas que poucos – somente os santos – conseguiram, e ainda conseguem.

Esta é a verdadeira libertação. Deixar sair de dentro de si, como a água que escorre do corpo após o banho, toda uma concepção de vida, um ideário e inúmeros caminhos desenhados na composição de projetos bem definidos para, literalmente, esvaziar-se completamente e viver de forma absoluta para Deus e para o outro. E aqui, merece ser aberto um parêntesis: muitos santos e santas viveram de forma absoluta para Deus e para o outro. Mas, há registros daqueles que viveram de forma ainda mais absoluta para o outro, em nome de Deus, como é o caso de Francisco de Assis, de João de Deus e, mais recentemente, de Teresa de Calcutá.

Esvaziar-se por completo, para aceitar ser preenchido por Aquele que é simplesmente Espírito, nada mais. Neste ponto do texto, vem a mente a imagem de Francisco de Assis, absolutamente despido, na praça, diante de todos e da Igreja, representada pelo Bispo. Eis a libertação! Eis a libertação mal compreendida, mal difundida e mal perseguida pelo ser humano dos nossos dias tão tenebrosos. E Jesus virá para acrescentar um pouco mais de sabor a esta libertação: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8,32), pois, o que é a verdade? Onde está a verdade? Ele próprio responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). E Ele, e somente Nele é possível encontrar a verdadeira libertação – “Por isso, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”, dirá o Evangelista João bem mais tarde, recordando palavras de Jesus (Jo 8,36).

Este entendimento e esta compreensão parece ter tomado conta de forma absoluta da vida dos santos e das santas que, no curso de toda a história do cristianismo, foram reconhecidos e elevados aos altares, por toda a Igreja.

Recentemente, veio a público a tão esperada, e justíssima, canonização de Oscar Romero, cuja vida foi ceifada de forma brutal, sim, mas, que brilha como um facho de luz resplandecente no meio cristão. Dom Oscar Romero que, ao tempo do assassinato (1980), era Arcebispo de San Salvador, durante muito tempo de sua vida acreditou estar enfrentando um movimento incendiário nas hostes da igreja local. Entretanto, convencido pelos fatos, e pelas mortes brutais de sacerdotes e de pessoas simples do povo com quem convivia e com quem mantinha laços fraternos e de profunda amizade – camponeses e trabalhadores braçais – compreendeu que tudo o que se passava no seu entorno político, eclesial e social, desfigurava por completo a justiça querida por Deus para todos os seres humanos. Dom Oscar termina por esvaziar-se completamente, para assumir a condição do oprimido, do explorado, do perseguido e do martirizado para, colocando-se na linha de frente, literalmente abraçado ao Cristo consagrado, levar o tiro que tira-o da vida para colocá-lo na galeria dos que souberam amar Cristo e seus irmãos.

A terceira parte do tripé a que nos referimos desde o início deste texto, é a santidade. Esta, pois, entendida como forma de vida resultante dos dois primeiros pilares, porém, não menos difícil de ser alcançada, haja vista ser cavada dia-após-dia na vida daquele agricultor de almas que sofre todo tipo de incompreensão, de ingratidão, de inveja e até mesmo de perseguição e de morte, mas, que, com olhar fixo no horizonte, enxerga o gólgota e contempla a figura Daquele que padeceu por primeiro todas as adversidades. É a vitória Dele, a certeza da coroação celestial, sem, sequer, almejar a coroação terrena após a morte, que faz dos santos e das santas pessoas tão especiais e tão difícil de serem imitadas.

Há quem, no meio cristão, apresente severas críticas à santidade reconhecida àqueles e àquelas que, sobre o tripé da teologia, da libertação e da santidade, foram reconhecidos e elevados à condição de santos e de santas, para serem reverenciados e imitados no seu viver e no seu proceder. No entanto, tais críticas provêm, justamente, daqueles e daquelas que, olhando para si e para o seu entorno, são incapazes de enxergar e de reconhecer os santos e as santas que caminham ao seu lado. Não têm culpa por pensarem da forma como pensam, afinal, são carentes de uma maior revelação por parte do Espírito. Por estes irmãos e irmãs, certamente, nossos queridos santos e santas rogam ao Cristo Jesus por toda a eternidade.

O fato a ser destacado é este: viver neste mundo de hoje, como o foi no de ontem e, certamente, como o será no de amanhã, não é tarefa fácil para os servos e as servas de Deus. Sempre haverá a necessidade de lançar um olhar para a teologia, com toda a sua profundidade e em toda a sua essência, para a libertação do espírito, de modo a alcançar o completo esvaziamento de si mesmo, e para a santidade na práxis do dia-a-dia e em todos os dias da existência. Diante da dificuldade para chegarmos a tal ponto, não podemos deixar de reverenciar a memória daqueles e daquelas que, ainda em vida, alcançaram tamanha vitória, e, deles e delas, devemos procurar ser imitadores porque, também eles e elas foram imitadores do Cristo Jesus.

No dia dedicado a todos os santos, é nosso dever recordar de todos e de cada um deles, de acordo com nossa capacidade de memória, procurando conhecer-lhes um pouco da vida, valorizando tudo o que fizeram e buscando imitá-los na medida do que nos for permitido por Deus. Nossa devoção, portanto, deve ser dirigida a todos os santos e santas, em reverência a tudo o que representaram neste mundo e em reconhecimento pelo status que galgaram na história do cristianismo. Leia, reflita e procure conhecer um pouco mais sobre a vida dos santos que lhe vierem à memória neste dia. Certamente, sua vida terá objetivos muito mais diretos, definidos e santos, sem se esquecer de que, ao lado de cada um de nós, e em todas as partes, santos e santas, conhecidos nossos, continuam caminhando e praticando as boas obras, com mentes e corações totalmente voltados para o Senhor. São irmãos e irmãs que vivem em profunda santidade, também. É preciso identificá-los, reconhecê-los e imitá-los, para podermos cumprir o desejo de Jesus: “Sede perfeitos pois, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5,48). Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

out 29

EDITORIAL DA SEMANA: VIVA A DEMOCRACIA!!

democracia

ELEIÇÕES DE 2018: O POVO E A DEMOCRACIA SÃO OS GRANDES VENCEDORES –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Completado o ciclo eleitoral, com a eleição em dois turnos para Presidente da República e para os governos de diversos estados da federação, há que ser feito um balanço com resultados extremamente positivos do pleito. Não há dúvida de que estas eleições, ao contrário do que se previa há mais ou menos um ano, criou um clima de interesse popular poucas vezes visto entre nós. Um interesse, que teve o mérito de levar a questão política para o centro da vida dos cidadãos e das cidadãs, com tal intensidade que adentrou em todos os setores da sociedade, levando pessoas, grupos, instituições e agremiações partidárias para o necessário debate, e embate, que antecede toda escolha verdadeiramente democrática.

O que para muitos pode parecer prejudicial à democracia, deve ser visto como extremamente positivo, sob o prisma da indiscutível liberdade de expressão, de pensamento e de ação que reina de forma absoluta sobre toda a nação brasileira. A polarização a que fomos levados pelos diversos aspectos e circunstâncias da disputa, principalmente, para o cargo maior da República – o de Presidente – é o resultado da ponderação que cada pessoa fez acerca do que entende ser o melhor para o país. De um lado, um grupo aguerrido em torno de uma visão, segundo a qual a mudança no comando geral da nação é imperiosa e que, independentemente dos riscos (que estão sempre presentes), deve ser promovida, até como lição para um modelo, momentaneamente alijado do poder central. Do outro, um não menos empedernido grupo, lutando para deixar claro que mudanças radicais, podem levar o país para a rabeira da história recente, trazendo consequências bastante graves para a atual e para as futuras gerações, acreditando que, apesar dos erros cometidos, embora não expressamente reconhecidos, quem busca a manutenção do status quo político-partidário, no fundo no fundo, não carrega consigo maiores riscos à tão querida, amada e protegida, democracia.

Há que se verificar que a disputa acirrada, entre candidatos e entre eleitores, de um modo geral, se, de um lado estabelece de forma bastante nítida, campos delimitados para o debate criando, inclusive, animosidades e conflitos pessoais, familiares, profissionais e sociais, de outro, revela o quão apaixonada se tornou uma questão que parecia não mais fazer parte da vida dos brasileiros e das brasileiras: a política nacional. E é exatamente aí, a meu ver, que está o grande brilho da polarização a que chegamos, alimentado pela força energética e substancial da democracia, que permite, primeiro, o surgimento de campos literalmente opostos digladiando entre si, usando como armas a persuasão, a tecnologia e o conhecimento histórico, político e social ainda fresco nas mentes e nos corações sem, no entanto, empolgar o povo para o lado de um enfrentamento físico e bélico, como visto em muitas partes do planeta e, segundo, que, da disputa acirrada, fosse mantido vivo e intacto, o desejo de mudança de rumos, seja lá qual for o candidato vencedor, na voz inconfundível do eleitor e da eleitora que, ao final, e neste momento, é quem tem a primazia da vontade, externada por meio do voto, ainda que NULO ou EM BRANCO.

Não se pode fechar os olhos para o gigantismo dos interesses, dos conflitos e dos desejos envolvidos na questão eleitoral de sempre, de um modo geral, e deste ano eleitoral, de um modo especial. E, diante deste gigantismo quase que, podemos dizer, incontrolável caso, como muitos temiam, ocorresse qualquer desequilíbrio para um ou outro extremo do debate, somente a força da democracia, consubstanciada no conjunto sólido das instituições, é que se revela impávida e colossalmente sobreviva. E isto, além de não ser pouco, é de ser comemorado com muita alegria por todos nós que, ao final, colheremos os frutos nascidos das árvores cujas mudas foram fincadas no chão democrático da pátria, neste final de segundo turno das eleições de 2018.

Os derrotados deste pleito foram projetos – sem adentramos na discussão se bons ou maus – estruturas e ideologias partidárias e mecanismos apresentados como forma de ascensão, de recuperação ou de manutenção ao, e do, poder. E, os vencedores, somos todos nós que, de uma forma ou de outra, comparecemos diante das urnas para indicar a nossa posição perante o cenário que envolve-nos de forma tão intensa e tão avassaladora, cobrando de cada um de nós o pagamento pelos atos e omissões praticados até então por pessoas e agremiações partidárias que, direta ou indiretamente, foram escolhidas, também, por nós.

Com os candidatos vencedores neste 28 de outubro de 2018, aparece reluzente e como chão que lhes servirá de base para suas ações e governanças, a democracia, que todos dizem amar e defender, embora nem sempre trilhem na direção dela.

Portanto, o povo e a democracia são os grandes vencedores das eleições de 2018, apesar de todos os percalços verificados desde o início da campanha eleitoral, com discursos inflamados, debates acalorados, incitações ao enfrentamento, acusações de todos os lados, fake news, descontextualizações, interpretações maldosas de palavras e de gestos e tudo o mais que se possa esperar em um jogo de nível baixíssimo, porque na democracia, com ela, por ela e a partir dela é que todo o cenário político-eleitoral desenvolveu-se e chegou ao final do segundo turno apresentando ao país os candidatos vencedores, tanto para os governos estaduais, quanto para o cargo máximo da nação: o de Presidente da República.

Como povo, somos todos vencedores porque, de uma forma ou de outra, e por meio do voto, demos o nosso recado. Dissemos claramente o que queremos e o que não queremos. Demonstramos de forma cabal até que ponto somos, ou não, influenciados e dirigidos pela mídia, pela retórica, pelo discurso fácil e até pelo engodo dos que acreditam terem a primazia da “verdade”, da “sabedoria” e da fórmula perfeita para o alcance da justiça social, mesmo que decretando a morte da ética e da moral, bem como do respeito às leis e à própria Constituição da República.

Que a nossa vitória conjunta – povo e democracia – possa conduzir-nos para dias mais promissores nos campos da política, da economia, da justiça, da sensatez e da ética, a fim de que tanto nós, quanto os nossos descendentes, tenhamos – e tenham – o privilégio de experienciar a recuperação de toda uma tradição popular que envolve a boa-fé, a disposição para o trabalho honesto e construtivo, o sincero desejo de uma formação educacional e profissional, o respeito a tudo e a todos/todas, sem qualquer forma de discriminação e o amor e a dedicação ao próximo, pois, só assim, teremos coroada a nossa vitória, principalmente, na condição de filhos e filhas de Deus e, como tais, merecedores e merecedoras de tudo o que foi criado por e para todos nós. Com as novas realidades estabelecidas a partir do final destas eleições e com a necessária reconciliação entre todos os opositores, que o País cumpra com seu destino e com sua missão perante as nações e ao mundo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador cristão, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

out 22

EDITORIAL DA SEMANA: O SÁBIO CONSELHO DE GAMALIEL

GAMALIEL

A SABEDORIA DE GAMALIEL –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O nome “Gamaliel” talvez passe despercebido por muitos cristãos de carteirinha, o que é plenamente escusável, por ser citado no Novo Testamento apenas uma vez. O fato de ser citado apenas uma vez não tira a importância deste homem que, mestre e doutor da lei, teve o Apóstolo Paulo como um dos seus destacados discípulos, no tempo em que ainda era conhecido por Saulo.

Sobre Gamaliel, em termos bíblicos, tudo o que se sabe está descrito no Livro dos Atos dos Apóstolo, capítulo 5, que narra a intervenção dele em favor dos apóstolos de Jesus, que estavam presos e pressionados por um Sinédrio alarmado com a disseminação de uma mensagem, cujo autor eles haviam, há pouco, visto morrer pregado em uma cruz.

A partir do versículo 17, Lucas (Autor do Livro dos Atos dos Apóstolos) narra que o príncipe dos sacerdotes, assim como seus amigos do partido dos saduceus, agride violentamente os apóstolos, lançando-os na prisão, em decorrência do extremo ódio e da inegável inveja. No entanto, colocados em liberdade por um anjo enviado pelo Senhor, retornam ao Templo onde ensinam a todo o povo. Novamente presos, são encaminhados para o Sinédrio, onde são interrogados pelo príncipe dos sacerdotes que cobra deles a desobediência à ordem para não falarem em nome de Jesus. Pedro, porém, junto com os demais companheiros, repete tudo o que se passou com Jesus, afirmando que, antes dos homens, devem obediência a Deus, que ressuscitou Jesus, elevando-O aos céus, “para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Nós somos testemunhas destas coisas e também o Espírito Santo, que Deus tem dado a todos os que lhe obedecem” (At 5, 31-32).

Diante do que ouviram, os sábios do Sinédrio ficaram possessos e queriam mandar matar os apóstolos. É aí que Gamaliel, que Lucas descreve como “doutor da lei, respeitado por todo o povo”, levanta-se no meio deles e propõe aos colegas o uso da razão. Ele recorda o aparecimento de diversos movimentos libertários surgidos entre eles em tempos um pouco mais antigos, todos eles guiados por algum líder que, apesar de alguma expressão inicial, ao final, é derrotado e seus seguidores dispersados, sem maiores consequências. Após tais recordações, e a respeito daqueles pobres apóstolos, diz Gamaliel: “Agora aconselho-vos a que não vos metais com estes homens e que os deixeis; porque se esta ideia ou esta obra vem dos homens, ela mesma se desfará; mas, se vem de Deus, não podereis desfazer; assim não correis o risco de fazer oposição ao próprio Deus”  (At. 5, 38-39). Segundo o Autor do Livro dos Atos dos Apóstolos, o conselho de Gamaliel foi seguido e os apóstolos, depois de açoitados mais uma vez, foram postos em liberdade sob a ordem de não mais falarem no nome de Jesus.

A lembrança de Gamaliel deve ser sempre trazida à baila, quando estamos diante de situações, movimentos ou ondas que parecem indicar o fim dos tempos, causando medo, pavor, incerteza e insegurança. Precisamos saber que, se aquilo que nos perturba vier de Deus, tudo dará certo e seremos rapidamente serenados pela força invencível do Espírito. Entretanto, se não for de Deus, será dissipado de forma natural ou em decorrência de alguma força por nós desconhecida. Olhemos para a história do mundo e do nosso próprio país. Quantas coisas já nos deixaram apavorados, assustados e inseguros, mas, que, de repente, viraram fumaça e nada do que temíamos aconteceu? Quantas pessoas foram tachadas de serem verdadeiros santos e santas que, com o passar do tempo, tiveram a verdadeira face revelada e foram, peremptoriamente, afastadas do nosso meio, algumas indo até para o além? Outras tantas que, de início, foram tidas como representantes do diabo, mas, que, igualmente, com o tempo revelaram não serem nada daquilo que delas era falado e, no final, mostraram-se essenciais nos meios sociais, comunitários, familiares e, até mesmo, políticos.

Precisamos, no estágio atual das nossas realidades, e mais do que nunca, ouvir o conselho do mestre Gamaliel e deixar que todas as poeiras sejam assentadas para, só então, verificarmos se o que tanto nos acalenta ou tanto nos amedronta é real ou não. Isto porque, mais do que no tempo de Gamaliel, somos vítimas de muita desinformação, muita mentira, muita falsidade, muita distorção dos fatos e, como sempre, de muita perversidade, o que nos induz para atitudes impulsivas, explosivas, insensatas e imprudentes quando, se agíssemos movidos pela serenidade e por um mínimo de racionalidade, faríamos como fazem os jogadores de xadrez: movem a peça e aguardam o opositor fazer sua jogada para, só então, voltarem a agir. Assim, agindo depois da jogada dos opositores, poderemos dar o famoso xeque-mate e vencermos o jogo, coisa que não conseguiremos se continuarmos dando ouvidos aos quatro ventos e, atônitos, mexermos a primeira peça que aparecer diante dos nossos olhos. Corremos o risco de, mais uma vez, perdermos o jogo.

A figura de Gamaliel, assim como sua sabedoria, deve estar sempre presente nas nossas memórias e, mais do isso: devemos acreditar sempre que Deus caminha ao lado do seu povo, o que é testemunhado em toda a Bíblia Sagrada.

Portanto, não permitamos que o medo, o pavor, a incerteza e a insegurança tomem conta das nossas vidas e dos nossos dias, e acreditemos firmemente que Deus está, realmente, no comando de tudo e que, na hora “H”, somente Ele será vitorioso, apesar das insídias do mal que se autopromove, e que é promovido por seus fiéis seguidores.

Relendo o Livro dos Atos dos Apóstolos (At 5, 12-42), perceba onde residem a verdadeira sabedoria e a força de Deus e, crendo de todo o seu coração e com a sua alma, confie Naquele que tudo pode e contra o qual inexiste a predominância de qualquer poder humano. Não se assuste com as maquinações dos homens. No final, eles próprios caem nas ciladas que armam para os seus semelhantes, mas, como diz o salmista, o que não se deixa levar pelo conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores nem toma assento junto aos escarnecedores, “Será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas” (Sl 1, 1-3).

Oremos e confiemos na Providência de Deus, que jamais abandona o seu povo e que sempre está a ouvir os nossos clamores, como fez com o povo hebreu, a quem tirou da terra do Egito, da casa da escravidão (Dt 6, 13), conduzindo-o para uma terra de paz e de fartura. Não tenhamos medo dos dias vindouros porque, “se o Senhor é por nós, quem será contra nós?”, é a pergunta que o Apóstolo Paulo faz aos cristãos romanos, na longa carta a eles dirigida, por volta do ano 57 d.C. (Rm 8, 31). Como disse Jesus a Jairo, cuja filha acabara de morrer: “não temas, crê somente e ela será salva” (Lc 8, 50).

Assim, crendo e orando, prossigamos com a nossa caminhada e, ouvindo o conselho do douto Gamaliel, deixemos que as obras revelem suas origens e seus desígnios e, desse modo, veremos o sol brilhar novamente. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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