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Sementes de vida, ������© tempo de semear

Arquivo por categoria: A PALAVRA DO SACERDOTE

jan 14

A PALAVRA DO SACERDOTE

ZÉ MARIA-2

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B – PROCURAR E ENCONTRAR...

*Por Mons. José Maria  Pereira –

O início da vida pública de Jesus, o começo de sua missão, é marcado pelo chamamento (VOCAÇÃO) dos primeiros discípulos. O evangelho (Jo 1, 35-42) nos fala da vocação de João e André. O chamado nasce do testemunho de João Batista que aponta Jesus presente entre o povo: “Eis o cordeiro de Deus”. E segue aquela cena comovente. Jesus volta-se para eles e pergunta: “Que estais procurando?” Disseram: “Rabi, onde moras?” Disse-lhes: “Vinde e Vede”. Eles foram e viram onde morava e permaneceram com Ele aquele dia. O encontro causou tal impressão que o evangelista nunca mais esqueceu a hora.

A experiência do encontro com Cristo faz de André, um dos dois que O haviam seguido, um apóstolo: Encontrou seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias”. Ele o conduziu a Jesus!

Coisa maravilhosa! André conduz Pedro a Jesus. A experiência do convívio com Jesus transforma as pessoas em apóstolos! Todo o Cristão de acordo com o seu estado de vida, é um chamado a seguir Jesus, à santidade, ao apostolado.

Será que nossa experiência de encontro com Cristo, o Messias, é tão forte que sejamos capazes de conduzir outras pessoas a Jesus? Cada Domingo deveria repetir-se esta experiência do nosso encontro com Jesus Cristo, na Eucaristia, na escuta da Palavra, no encontro com os irmãos…

A Liturgia, além da vocação dos primeiros discípulos, apresenta-nos a vocação de Samuel (1Sm 3, 3-10. 19). No silêncio da noite Samuel se encontra com Deus que o chama.

A vocação é sempre uma iniciativa misteriosa e gratuita de Deus.

Seguir o Senhor, tanto naquela época como hoje, significa entregar-lhe o coração, o mais íntimo, o mais profundo do nosso ser, a nossa própria vida. Entende-se, pois, que para corresponder ao chamamento de Jesus, seja necessário guardar a castidade e purificar o coração. É São Paulo que nos ensina: “Fugi da fornicação… Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que habita em vós, que o recebestes de Deus e que, portanto, não vos pertenceis? Fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 13-15; 17-20). Jamais ninguém como a Igreja ensinou a dignidade do corpo. “A pureza é glória do corpo humano perante Deus. É a glória de Deus no corpo humano” (São João Paulo II).

A castidade, fora ou dentro da vida matrimonial, segundo o estado e a peculiar vocação recebida por cada um, é absolutamente necessária para se poder seguir a Cristo e exige, juntamente com a graça divina, uma grande luta e esforço pessoais. As feridas do pecado original (na inteligência, na vontade, nas paixões e nos afetos), que não desaparecem com o Batismo, introduziram um princípio de desordem na nossa natureza: a alma, de maneiras muito diversas, tende a rebelar-se contra Deus, e o corpo resiste a submeter-se à alma; os pecados pessoais revolvem o fundo ruim que o pecado original deixou em nós e aumentam as feridas que causou na alma.

Os atos de renúncia, ainda que sejam imprescindíveis, não são tudo na guarda da castidade; a essência desta virtude é o amor: delicadeza e ternura com Deus, respeito pelas pessoas, que devem ser encaradas como filhos de Deus. A castidade “mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida” (São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, nº 25).

Para seguirmos o Senhor com um coração limpo, é necessário que pratiquemos um conjunto de virtudes humanas e sobrenaturais, apoiados sempre na graça, que nunca nos há de faltar se a pedimos com humildade e se desenvolvemos todos os esforços ao nosso alcance.

Entre as virtudes humanas, merece destaque a laboriosidade, o trabalho constante e intenso; muitas vezes, os problemas de pureza são uma questão de ociosidade ou de preguiça: “Cabeça vazia é oficina do diabo”. Também são necessárias a valentia e a fortaleza, para fugirmos da tentação…; a sinceridade na confissão e na direção espiritual.

Nenhum meio humano seria suficiente se não recorrêssemos ao trato íntimo com o Senhor na Oração e na Eucaristia. Nelas encontramos sempre a ajuda necessária, as forças que vêm em socorro da nossa fraqueza pessoal, no amor que nos cumula o coração, criado para o que é eterno, e, portanto, sempre insatisfeito com tudo o que há neste mundo. E o Sacramento da Penitência (Confissão) purifica-nos a consciência, concede-nos as graças específicas do sacramento para vencermos naquilo em que fomos vencidos, seja em matéria grave ou leve.

Possamos corresponder ao chamado que o Senhor nos fez, com um coração puro, e assim tenhamos o mesmo ardor missionário dos primeiros discípulos, que partiram com entusiasmo para anunciar aos amigos o tesouro que encontraram! É o que nos diz o Doc. de Aparecida, nº 29: “A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-Lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-Lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”.

A beleza deste tempo está no fato de que nos convida a viver a nossa vida ordinária como um itinerário de santidade, isto é, de fé e de amizade com Jesus, continuamente descoberto e redescoberto como Mestre e Senhor, Caminho, Verdade e Vida do homem. É o que nos sugere o Evangelho de João, apresentando – nos o primeiro encontro entre Jesus e alguns dos que se tornarão seus apóstolos. Eles eram discípulos de João Batista, e foi precisamente ele quem os orientou para Jesus, quando, depois do Batismo no Jordão O indicou como “Cordeiro de Deus” ( Jo 1, 36). Então dois dos seus discípulos seguiram o Messias, o qual lhes perguntou: “Que procurais?”. Os dois perguntaram – Lhe: “Mestre, onde moras?”. E Jesus respondeu: “Vinde e vede”, isto é, convidou – os a segui – Lo e a estar um pouco com Ele. Nas poucas horas transcorridas com Jesus, eles ficaram tão admirados, que imediatamente um deles, André, falou com o irmão Simão dizendo – lhe: “Encontramos o Messias”. Eis duas palavras singularmente significativas; “procurar”, “encontrar”.

Podemos tirar da texto evangélico (Jo 1, 38 e 41) estes dois verbos ( procurar e encontrar) e obter uma indicação fundamental para o ano novo, que desejamos seja um tempo no qual renovar o nosso caminho espiritual com Jesus, na alegria de O procurar e de O encontrar incessantemente. De fato, a alegria mais verdadeira está na relação com Ele encontrado, seguido, conhecido, amado, graças a uma contínua tensão da mente e do coração. Ser discípulo de Cristo: isto é suficiente para o cristão. A amizade com o Mestre garante à alma paz profunda e serenidade também nos momentos obscuros e nas provas mais difíceis. Quando a fé se confronta com noites escuras, nas quais já não se “sente” nem se “vê” a Presença de Deus, a amizade de Jesus garante que na realidade nada nos pode separar do seu Amor ( Rm 8, 39).

Procurar e encontrar Cristo, fonte inexaurível de verdade e de vida: a Palavra de Deus convida – nos a retomar, neste início de ano novo, o caminho de fé que nunca se conclui. “Mestre, onde moras?”, dizemos também nós a Jesus e Ele responde – nos: “Vinde e vede”. Para o crente é sempre uma incessante busca e uma nova descoberta, porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, mas nós, o mundo, a História, nunca somos os mesmos, e Ele vem ao nosso encontro para nos oferecer a sua comunhão e a plenitude da vida. 

Como Samuel, sejamos disponíveis: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3, 10).

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
     

dez 31

MARIA, RAINHA DA FAMÍLIA: ROGAI POR TODOS NÓS!

ZÉ MARIA-2

SAGRADA FAMÍLIA – LIÇÕES DA FAMÍLIA DE NAZARÉ –

*Por Monsenhor José Maria Pereira –

No Domingo, após o Natal do Senhor, celebramos com alegria a Santa Família de Nazaré. O contexto é o mais adequado, porque o Natal é por excelência a festa da família. Deus quis manifestar-se aos homens, integrado numa família humana. Ele quis nascer numa família, quis transformar a família num presépio vivo. Pode-se dizer que hoje celebramos o verdadeiro Dia da Família!

A Palavra de Deus em (Eclo. 3, 3 – 7. 14 – 17) lembra aos filhos o dever de honrarem pai e mãe, de socorrê-los e compadecer-se deles na velhice, ter piedade, isto é, respeito e dedicação para com eles; isto é cumprimento da vontade de Deus.

São Paulo, em Cl 3, 12 – 21, enumera as virtudes que devem reinar na família: sentimentos de compaixão, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportar-se uns aos outros com amor, perdoar-se mutuamente. Revestir-se de caridade e ser agradecidos. Se a família não estiver alicerçada no amor cristão, será muito difícil a sua perseverança em harmonia e unidade de corações. Quando esse amor existe, tudo se supera, tudo se aceita; mas, se falta esse amor mútuo, tudo se faz sumamente pesado. E o único amor que perdura, não obstante os possíveis contrastes no seio da família, é aquele que tem o seu fundamento no Amor de Deus.

A Sagrada Família é proposta pela Igreja como modelo de todas as famílias cristãs: na casinha de Nazaré, Deus ocupa sempre o primeiro lugar e tudo Lhe está subordinado.

Os lares cristãos, se imitarem o da Sagrada Família de Nazaré, serão lares luminosos e alegres, porque cada membro da família se esforçará em primeiro lugar por aprimorar o seu relacionamento pessoal com o Senhor e, com espírito de sacrifício, procurará ao mesmo tempo chegar a uma convivência cada dia mais amável com todos os da casa.

A família é escola de virtudes e o lugar habitual onde devemos encontrar a Deus.

Cada lar cristão tem na Sagrada Família o seu exemplo mais cabal; nela, a família cristã pode descobrir o que deve fazer e como deve comportar-se, para a santificação e a plenitude humana de cada um dos seus membros. Diz o Papa Paulo VI: “Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e a penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa muito simples, muito humilde e muito bela manifestação do Filho de Deus entre os homens. Aqui se aprende até, talvez insensivelmente, a imitar essa vida”.

A família é a forma básica e mais simples da sociedade. É a principal escola de todas as virtudes sociais. É a sementeira da vida social, pois é na família que se pratica a obediência, a preocupação pelos outros, o sentido de responsabilidade, a compreensão e a ajuda mútua, a coordenação amorosa entre os diversos modos de ser. Está comprovado que a saúde de uma sociedade se mede pela saúde das famílias. Esta é a razão pela qual os ataques diretos à família (como divórcio, aborto, união de pessoas do mesmo sexo) são ataques diretos à própria sociedade, cujos resultados não tardam a manifestar-se.

O Messias quis começar a sua tarefa redentora no seio de uma família simples, normal. O lar onde nasceu foi a primeira realidade humana que Jesus santificou com a sua presença.

“Queridas famílias, não deixeis que o amor, que a abertura à vida e os vínculos incomparáveis que unem o vosso lar se desvirtuem. Pedi por isto constantemente ao Senhor, orai juntos, para que os vossos propósitos sejam iluminados pela fé e enaltecidos pela Graça divina no caminho rumo à santidade. Deste modo, com a alegria do vosso compartilhar todo o amor, dareis ao mundo um maravilhoso testemunho de quanto a família é importante para o ser humano e para a Sociedade. O Papa está ao vosso lado, pedindo sobretudo ao Senhor por quantos em cada família têm mais necessidade de saúde, de trabalho, de conforto e de companhia.” (Papa Bento XVl, Angelus, 28 dezembro de 2008).

Hoje, de modo muito especial, pedimos à Sagrada Família por cada um dos membros da nossa família e pelo mais necessitado dentre eles.

Maria, Rainha da Família, rogai por nós!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.

dez 25

O NATAL DO SENHOR

NATAL LINDO

NATAL

*Por Monsenhor José Maria Pereira –

“Anuncio – vos uma grande alegria (...): hoje, na cidade de Davi, nasceu – vos um Salvador, que é o Messias Senhor” ( Lc 2, 10-11). Neste dia solene, ressoa o anúncio do Anjo que é um convite – dirigido também a nós, homens e mulheres do terceiro milênio – para acolher o Salvador. Que a humanidade atual não hesite em faze–Lo entrar nas suas casas, nas cidades, nas nações e em qualquer ângulo da Terra! É verdade que nos últimos séculos, foram muitos os progressos realizados em campo técnico e científico; podemos hoje dispor de vastos recursos materiais. Mas, o homem da era tecnológica corre o risco de ser vítima dos próprios êxitos da sua inteligência e dos resultados das suas capacidades inventivas, caminha para uma atrofia espiritual, um vazio do coração. Por isso, é importante abrir a sua mente e o seu coração ao Natal de Cristo, acontecimento de salvação capaz de imprimir uma renovada esperança à existência de todo o ser humano.

“Desperta, ó homem! Por ti, Deus se fez homem” ( Santo Agostinho). Ó homem moderno, adulto e todavia às vezes débil de pensamento e de vontade, deixa o Menino de Belém conduzir – te pela mão; não temas, confia n’Ele! Deus  se fez homem por amor do homem!

Somos convidados a formar coro com os anjos: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na Terra às pessoas de boa vontade. Chegou a salvação! A luz se manifestou para iluminar os caminhos da humanidade, que anseia por paz e fraternidade. Deus se torna presente em nosso meio. A palavra se fez carne e veio morar junto a nós!

Alegremo-nos todos no Senhor! Hoje nasceu o Salvador do mundo; hoje desceu do céu a verdadeira paz. “Acabamos de ouvir uma mensagem transbordante de alegria e digna de todo o apreço: Cristo Jesus, o Filho de Deus, nasceu em Belém de Judá. A notícia faz-me estremecer, o meu espírito acende-se no meu interior e apressa-se, como sempre, a comunicar-vos esta alegria e este júbilo”, anuncia São Bernardo. Coloquemo-nos a caminho para contemplar e adorar Jesus, pois todos temos necessidade d’Ele; é unicamente d’Ele que temos verdadeira necessidade. A verdade é que nenhum caminho que empreendemos vale a pena se não termina no Menino-Deus.

“Hoje nasceu o nosso Salvador. Não pode haver lugar para a tristeza, quando acaba de nascer a própria vida, a mesma que põe fim ao temor da mortalidade e nos infunde a alegria da eternidade prometida. Ninguém deve sentir-se incapaz de participar de tal felicidade, a todos é comum o motivo para o júbilo; pois Nosso Senhor, destrutor do pecado e da morte, como não encontrou ninguém livre de culpa, veio libertar-nos a todos. Alegre-se o santo, já que se aproxima a vitória. Alegre-se o gentio, já que é chamado à vida. Pois o Filho, ao chegar a plenitude dos tempos, assumiu a natureza do gênero humano para reconciliá-la com o seu Criador” (São Leão Magno). Daqui nasce para todos, como um rio que não pode ser contido, a alegria destas festas.

Vamos à Gruta de Belém levando o nosso presente! E talvez aquilo que mais agrade à Virgem Maria seja uma alma mais delicada, mais limpa, mais alegre por ser mais consciente da sua filiação divina, mais bem preparada por meio de uma confissão realmente contrita, a fim de que o Senhor resida com mais plenitude em nós: essa confissão que talvez Deus esteja esperando há tanto tempo…

Maria e José estão nos convidando a entrar. E, já dentro, dizemos a Jesus com a Igreja: “Rei do universo, a quem os pastores encontraram envolto em panos, ajudai-nos a imitar sempre a vossa pobreza e a vossa simplicidade” (Preces das Laudes de 5 de janeiro).

No presépio contemplamos Jesus, recém nascido, que não fala; mas é a Palavra eterna do Pai. Já se disse que o Presépio é uma cátedra. Nós deveríamos hoje “entender as lições que Jesus nos dá, já desde Menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens” (São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, nº 14).

Jesus nasce pobre e ensina-nos que a felicidade não se encontra na abundância de bens. Vem ao mundo sem, ostentação alguma, e anima-nos a ser humildes e a não estar preocupados com o aplauso dos homens.

Quando nos aproximarmos hoje do Menino para beijá-lo, quando contemplarmos o presépio ou meditarmos neste grande mistério, agradeçamos a Deus o seu desejo de descer até nós para se fazer entender e amar, e decidamo-nos, nós também a tornar-nos crianças, para podermos assim entrar no Reino dos Céus.

Sejamos anunciadores da Boa Nova da Salvação que veio até nós! Na verdade, para que serviria celebrar o Natal de Jesus se os cristãos não soubessem anunciá-Lo aos seus irmãos com a sua própria vida? Celebra verdadeiramente o Natal todo aquele que, em si mesmo, acolhe o Salvador, com fé e com amor cada vez mais intensos, aquele que O deixa nascer e viver em seu coração para que possa manifestar-Se ao mundo na bondade, benignidade e doação generosa de quantos n’Ele acreditamos.

No Natal, o nosso espírito abre – se à esperança, ao contemplar a Glória divina escondida na pobreza de um Menino envolvido em panos e reclinado numa manjedoura: é o Criador do Universo, reduzido à importância de um recém- nascido. Aceitar este paradoxo, o paradoxo do Natal, é descobrir a Verdade que liberta, o Amor que transforma a existência. Na Noite de Belém, o Redentor faz – se um de nós, para ser nosso companheiro  nas estradas insidiosas da História. Acolhamos a mão que Ele nos estende: é uma mão que não nos quer tirar nada, mas apenas dar.

Com os pastores, entremos na Gruta de Belém sob o olhar amoroso de Maria, silenciosa testemunha do prodigioso nascimento. Que Ela nos ajude a viver um bom Natal; nos ensine a guardar no coração o Mistério de Deus, que por nós Se fez homem; nos guie ao testemunharmos no mundo a sua verdade, o seu amor, a sua paz.

Um Feliz e Santo Natal para todos!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.

 

 

dez 24

MARIA E O FILHO DE DEUS: VIDA E MAIS VIDA

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IV DOMINGO DO ADVENTO – A VIRGEM E O EMANUEL –

*Por Mons. José Maria Pereira  –

No Quarto Domingo do Advento entra em cena Maria. Seu Filho é o Deus conosco e já se faz presente, ainda de modo velado, mas real, no seio da Virgem, que concebeu por obra do Espírito Santo (cf. Lc. 1,26-38)

A liturgia da palavra apresenta-nos hoje uma das mais importantes profecias messiânicas e a sua realização. O rei Davi desejava construir uma casa, um templo para o Senhor; mas o Senhor manda-lhe dizer, pelo profeta Natã, que a Sua vontade é diferente: o próprio Senhor se preocupará da casa de Davi, isto é, prolongando a sua descendência, porque dela nascerá o Salvador. A tua casa e a tua realeza permanecerão diante de Mim para sempre. O teu trono será consolidado eternamente (2 Sm 7,16). Muitas vezes, através das vicissitudes da história, pareceu que a linhagem davídica esteve prestes a extinguir-se, mas Deus salvou-a sempre até que dela nasceu José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo (Mt 1,16). O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono do Seu Pai Davi, reinará eternamente… e o Seu reino não terá fim (Lc 1, 32-33). Tudo o que Deus tinha prometido se cumpriu apesar dos acontecimentos adversos da história, dos pecados dos homens e das culpas e impiedade dos próprios sucessores de Davi. Deus é sempre fiel: Fiz uma aliança com o meu eleito, jurei a Davi, Meu servo… Eternamente lhe assegurarei o Meu favor e a Minha aliança com ele será fiel (Sl 89, 4.29).

Paralela à fidelidade de Deus, a liturgia apresenta-nos a fidelidade de Maria, em quem se cumpriram as Escrituras. Tudo estava previsto nos planos eternos de Deus e tudo estava já preparado para a encarnação do Verbo no seio de uma virgem descendente da casa de Davi; mas, no momento em que este projeto devia fazer-se história, o Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação (LG. 56). S. Lucas refere o diálogo sublime entre o anjo e Maria e que termina com a humildade e incondicional aceitação da Virgem: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). O faça-se de Deus criou do nada todas as coisas; o faça-se de Maria deu origem à redenção de todas as criaturas. Maria é o templo da Nova Aliança, imensamente mais precioso do que aquele que Davi desejava construir ao Senhor, templo vivo que encerra em si, não a arca santa, mas o Filho de Deus. Maria é a fidelíssima, totalmente disponível à vontade do Altíssimo; e, precisamente pela sua fidelidade, atualiza-se o mistério da salvação universal em Cristo Jesus.

Nossa Senhora fomenta na alma a alegria, porque, quando procuramos a sua intimidade, leva-nos a Cristo. Ela é Mestra de esperança. Maria proclama que a chamarão bem-aventurada todas as gerações (Lc. 1, 18).

Dentro de poucos dias veremos Jesus reclinado numa manjedoura, o que é uma prova de misericórdia e do amor de Deus. Poderemos dizer: “Nesta noite de Natal, tudo para dentro de mim. Estar diante d'Ele; não há nada mais do que Ele na branca imensidão. Não diz nada, mas está aí… Ele é o Deus amando-me. E se Deus se faz homem e me ama, como não procurá-Lo? Como perder a esperança de encontrá-Lo, se é Ele que me procura? Afastemos todo o possível desalento; as dificuldades exteriores e a nossa miséria pessoal não podem nada diante da alegria do Natal que se aproxima.

Faltam poucos dias para que vejamos no presépio Aquele que os profetas predisseram, que a Virgem esperou com amor de mãe, que João anunciou estar próximo e depois mostrou presente entre os homens.

Desde o presépio de Belém até o momento da sua Ascensão aos céus, Jesus Cristo proclama uma mensagem de esperança. Ele é a garantia plena de que alcançaremos os bens prometidos. Olhamos para a gruta de Belém, em vigilante espera, e compreendemos que somente com Ele poderemos aproximar-nos confiadamente de Deus Pai.

Nas festas que celebramos por ocasião do Natal, lutemos com todas as nossas forças, agora e sempre, contra o desânimo na vida espiritual, o consumismo exagerado, e a preocupação quase exclusiva pelos bens materiais. Na medida em que o mundo se cansar da sua esperança cristã, a alternativa que lhe há de restar será o materialismo, do tipo que já conhecemos; isso e nada mais. Por isso, nenhuma nova palavra terá atrativo para nós se não nos devolver à gruta de Belém, para que ali possamos humilhar o nosso orgulho, aumentar a nossa caridade e dilatar o nosso sentimento de reverência com a visão de uma pureza deslumbrante.

O Espírito do Advento consiste em boa parte em vivermos unidos à Virgem Maria neste tempo em que Ela traz Jesus em seu seio.

A devoção a Nossa Senhora é a maior garantia de que não nos faltarão os meios necessários para alcançarmos a felicidade eterna a que fomos destinados. Maria é verdadeiramente “porto dos que naufragam, consolo do mundo, resgate dos cativos, alegria dos enfermos” (Santo Afonso M. de Ligório). Nestes dias que precedem o Natal e sempre, peçamos-Lhe a graça de saber permanecer, cheios de fé, à espera do seu Filho Jesus Cristo, o Messias anunciado pelos Profetas.

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.

 

dez 17

NOSSA ALEGRIA ESTÁ EM CRISTO JESUS

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III DOMINGO DO ADVENTO – VERDADEIRA ALEGRIA –

 *Por  Mons. José Maria Pereira –

Aproximando-se o dia de Natal a Liturgia faz um convite à alegria! “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos” (Fl 4, 4-7), exorta S. Paulo.

Celebramos o Domingo da Alegria! Diz o Profeta Isaías: “Exulto de alegria no Senhor…” (Is 61,10). Nossa alegria está no Senhor!

A fonte da alegria cristã é a certeza de que Deus nos ama e está no meio de nós com uma proposta de salvação e de felicidade.

Todos os domingos do Advento se caracterizam pela insistência sobre o tema da salvação; mas no III domingo o faz de modo particular. Na primeira leitura, o profeta Isaías canta: “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus”. No Salmo responsorial, ouvimos essas palavras ecoando no Magnificat de Maria: Meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador.

O trecho evangélico (Jo 1,6-8.19-28) diz que João Batista veio “como testemunha da luz”, isto é, como anunciador da salvação.

Se nós também, como João Batista, queremos ser-lhe testemunhas de salvação, devemos antes desejá-la como a desejaram os profetas, conhecê-la e saborear-lhe todas as riquezas; devemos, sobretudo, aprender a conhecer a fonte da qual ela nasce: Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador.

São Paulo (1Ts 5,16-22) lembra-nos precisamente a missão de bondade e de alegria confiada aos cristãos: “Irmãos, vivei sempre na alegria… Avaliai tudo, mantendo o que é bom. Afastai-vos de toda espécie de maldade”. Não são reprováveis apenas as más ações, mas também a omissão de tantas obras boas que não se concretizam por egoísmo, por frieza ou indiferença para com o próximo necessitado. Mas, para se estar sempre disposto a fazer bem a todos, é preciso viver em comunhão com Jesus, deixando-se arrastar pelos Seus sentimentos de bondade, de amor e de misericórdia. E a oração é o momento culminante desta comunhão, como afirma o Apóstolo: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17).

A alegria do Advento e a de cada dia é porque Jesus está muito perto de nós. A alegria cristã não é uma atitude passageira de festas humanas, mas um estado permanente, de quem confia que a vida cristã é uma caminhada ao encontro do Senhor que vem. A alegria é um dos sinais da presença de Deus no coração de uma pessoa.

“Alegra-te, cheia de graça, porque o Senhor está contigo”, diz o Anjo a Maria. A causa da alegria na Virgem é a proximidade de Deus. E o Batista, ainda não nascido, saltará de alegria no seio de Isabel ante a proximidade do Messias. E o Anjo dirá aos pastores: “Não temais, trago-vos uma boa nova, uma grande alegria que é para todo o povo, pois nasceu-vos hoje um salvador…” (Lc 2, 10-11). A alegria é ter Jesus, a tristeza é perdê-Lo.

Jesus, após a Ressurreição, aparecerá aos seus discípulos em diversas ocasiões. E o evangelista irá sublinhando repetidas vezes que os Apóstolos “se alegraram vendo o Senhor” (Jo 20,20). Eles não esquecerão nunca esses encontros em que as suas almas experimentaram uma alegria indescritível.

Poderemos estar alegres se o Senhor estiver verdadeiramente presente na nossa vida, se não o tivermos perdido, se não tivermos os olhos turvados pela tibieza ou pela falta de generosidade. Quando, para encontrar a felicidade, se experimentam outros caminhos fora daquele que leva a Deus, no fim só se acha infelicidade e tristeza. Fora de Deus não há alegria verdadeira. Não pode havê-la. Encontrar Cristo, ou tornar a encontrá-Lo, é fonte de uma alegria profunda e sempre nova.

O cristão deve ser um homem essencialmente alegre. Mas a sua alegria não é uma alegria qualquer, é a alegria de Cristo, que traz a justiça e a paz, e que só Ele pode dar e conservar, porque o mundo não possui o seu segredo.

A alegria do mundo procede de coisas exteriores: nasce precisamente quando o homem consegue escapar de si próprio, quando olha para fora, quando consegue desviar o olhar do seu mundo interior, que produz solidão porque é olhar para o vazio. O cristão leva a alegria dentro de si, porque encontra a Deus na sua alma em Graça. Esta é a fonte da sua alegria! Não nos é difícil imaginar a Virgem Maria, nestes dias do Advento, radiante de alegria com o Filho de Deus no seu seio. A alegria do mundo é pobre e passageira. A alegria do cristão é profunda e capaz de subsistir no meio das dificuldades. É compatível com a dor, com a doença, com o fracasso e as contradições. “Eu vos darei uma alegria que ninguém vos poderá tirar” (Jo 16,22), prometeu o Senhor. Nada nem ninguém nos arrebatará essa paz gozosa, se não nos separarmos da sua fonte.

A nossa alegria deve ter um fundamento sólido. Não se pode apoiar exclusivamente em coisas passageiras: notícias agradáveis, saúde, tranquilidade, situação econômica desafogada, etc., coisas que em si são boas se não estiverem desligadas de Deus, mas que por si mesmas são insuficientes para nos proporcionarem a verdadeira alegria.

O Senhor pede que estejamos sempre alegres! Só Ele é capaz de sustentar tudo na nossa vida. Não há tristeza que Ele não possa curar: “Não temas, mas apenas crê” (Lc 8,50), diz-nos o Senhor.

Fujamos da tristeza! Uma alma triste está à mercê de muitas tentações. Quantos pecados se têm cometido à sombra da tristeza! Por outro lado, quando a alma está alegre, abre-se e é estímulo para os outros; quando está triste obscurece o ambiente e faz mal aos que tem à sua volta.

A tristeza nasce do egoísmo, de pensarmos em nós mesmos esquecendo os outros. Quem anda excessivamente preocupado consigo próprio dificilmente encontrará a alegria da abertura para Deus e para os outros. Em contrapartida, com o cumprimento alegre dos nossos deveres, podemos fazer muito bem à nossa volta, pois essa alegria leva a Deus.

A Igreja tem razão de alegra-se neste tempo do Advento por “estar revestida das vestes da salvação, envolvida com o manto da justiça”. Mas isto não é suficiente; ela deve fazer germinar a salvação diante de todos os povos “como um jardim faz germinar as sementes”; deve ser fermento de vida entre os homens. É nosso dever de cristãos. O Advento nos faz recordar e a Eucaristia nos renova a certeza, para que saibamos proclamá-la aos irmãos que estão vivendo na tristeza, “sentados à sombra da morte”.

“Dentro de pouco, de muito pouco, Aquele que vem chegará e não tardará” (Hb 10,37), e com Ele chegarão a paz e a alegria; em Jesus encontraremos o sentido da nossa vida.

Que a nossa alegria seja um testemunho muito forte de que Cristo já está no meio de nós.

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
   

dez 10

II DOMINGO DO ADVENTO – JOÃO BATISTA: O PRECURSOR

ZÉ MARIA-2

II  DOMINGO DO ADVENTO – O ESPÍRITO DO BATISTA!

*Por Mons. José Maria Pereira –

Advento! Tempo de se preparar para acolher o Senhor que vem! Por mais escuro que esteja o horizonte à nossa frente, precisamos acreditar que dias melhores virão, pois Deus é fiel e não abandona seu povo.

No segundo domingo do Advento, João Batista aparece como uma voz no deserto, fazendo um apelo à conversão, para preparar o caminho do Senhor!

Na linha da pregação de João Batista (cf. Mc 1, 1-8), acodem-me à mente as palavras do Profeta Isaías: “Uma voz clama: abri no deserto um caminho para o Senhor  […]. Que todo vale seja aterrado, que toda montanha e colina sejam abaixadas… Subi a uma alta montanha, para anunciar a boa nova a Sião. Elevai com força a voz…, dizei às cidades de Judá: “Eis o vosso Deus!” (Is 40, 1-5.9-11).

 Marcos e Isaías falam da mesma pessoa, porque “o nosso Deus” é um só e porque em Jesus Cristo é Deus mesmo que “visitou o seu povo” (Lc 7,16).

 Está na hora de retomar a boa notícia sobre Jesus Cristo, Filho de Deus, para gritá-la com força (é o sentido do Kerigma!) em Jerusalém e nas cidades de Judeia, isto é, na Igreja e fora da Igreja.

João Batista nos oferece um esplêndido exemplo de proclamação do Evangelho. O que o Batista compreendeu a respeito de Jesus é que se trata de alguém de que ele não é sequer digno de aproximar-se para desatar-lhe as sandálias; que é “o mais forte”, aquele que batizará no Espírito Santo e que desafiará, por assim dizer, o mundo a ferro e fogo!

João Batista teve a capacidade de fazer sentir Cristo “perto”, às portas (Jo 1,26), como alguém que está “no meio” dos homens e não como uma abstração mental; como alguém que já tem na mão a pá (Mt 3,12) e se apresenta para atuar o juízo, por isso não há mais tempo a perder. A força de seu anúncio estava em sua humildade (Jo 3,30): Importa que ele cresça e eu diminua, em sua austeridade e em sua coerência.

Hoje precisamos de anúncios inspirados e corajosos, como os de Isaías e de João Batista; diante deles o mundo não poderia ficar insensível, como acontece quando se fala de Jesus Cristo só com sabedoria de palavras, com livros que não acabam mais, mas sem a força e sem a coerência de vida.

Toda a essência da vida de João, desde o seio materno, esteve subordinada a essa missão! João se entrega totalmente nessa missão, dedicando-se a ela, não por gosto pessoal, mas por ter sido concebido para isso. E vai realizar a sua missão até o fim, até dar a vida, no cumprimento da sua vocação.

Foram muitos os que conheceram Jesus graças ao trabalho apostólico do Batista. Os primeiros discípulos seguiram Jesus por indicação expressa dele e muitos outros se prepararam interiormente para segui-Lo, graças à sua pregação.

É bela a Vocação de João Batista! A vocação abarca a vida inteira e leva a fazer girar tudo em torno da missão divina. Cada homem, no seu lugar e dentro das suas próprias circunstâncias, tem uma vocação dada por Deus; de que ela se cumpra dependem outras coisas queridas pela vontade divina!

“Eu sou a voz que clama no deserto!” João Batista não é mais do que a voz, a voz que anuncia Jesus. Essa é a sua missão, a sua vida, a sua personalidade. Todo o seu ser está definido em função de Jesus, como teria que acontecer na nossa vida, na vida de qualquer cristão. O importante da nossa vida é Jesus!

À medida que Cristo se vai manifestando, João procura ficar em segundo plano, ir desaparecendo. Dizia São Gregório: “João Batista perseverou na santidade porque se conservou humilde no seu coração.”

Como precursor, indica-nos o caminho que devemos seguir! Na ação apostólica pessoal- enquanto preparamos os nossos amigos para que encontrem o Senhor-, devemos procurar não ser o centro. O importante é que Cristo seja anunciado, conhecido e amado.

Sem humildade, não poderíamos aproximar os nossos amigos de Deus. E então a nossa vida ficaria vazia.

Não somos apenas precursores! Somos  também testemunhas de Cristo. Recebemos, com a graça batismal e a Crisma, o honroso dever de confessar a fé em Cristo, com as nossas ações e com a nossa palavra.  Que tipo de testemunhas nós somos? Como é o nosso testemunho cristão entre os nossos colegas, na família?

Temos que dar testemunho e,  ao mesmo tempo, apontar aos outros o caminho. “Também conduzir-nos de tal maneira que, ao ver-nos, os outros possam dizer: este é cristão porque não odeia, porque sabe compreender, porque não é fanático, porque está acima dos instintos, porque é sacrificado, porque manifesta sentimento de paz, porque ama” (É Cristo que passa, nº 122).

Nesse tempo do Advento, encontramos muitas pessoas olhando em outra direção, de onde não virá ninguém; ou onde outros estão debruçados sobre os bens materiais, como se fossem o seu último fim; mas eles jamais satisfarão o seu coração!  Cabe a nós apontar-lhes o Caminho. A todos! Diz-nos Santo Agostinho: “Sabeis o que cada um de nós tem que fazer em casa, com o amigo, com o vizinho, com os dependentes, com o superior com o inferior. Não queirais, pois, viver tranquilos até conquistá-los para Cristo, porque vós fostes conquistados por Cristo.”

A nossa família, os amigos, os colegas de trabalho, as pessoas que vemos com frequência, devem ser os primeiros a beneficiar-se  do nosso amor por Deus. Com o exemplo e com a oração, devemos chegar até mesmo àqueles com quem não temos ocasião de falar habitualmente, porém, não devemos nos esquecer que é a graça de Deus, não as nossas forças humanas, que consegue levar as almas ao Senhor!

Que o Senhor nos ilumine para descobrirmos, em nossa vida, quais as estradas tortuosas temos que endireitar para chegar até Ele.  E quais os vales a preencher na vida profissional, na vida espiritual, na vida familiar, na vida de comunidade?

Possamos perceber que temos que abaixar nosso orgulho, nossa auto - suficiência!

Deus quer servir-se de nós para preparar os homens de hoje para a vinda de Cristo no Natal desse ano.

UM APELO À CONVERSÃO

Temos o mesmo espírito de João Batista?

No segundo domingo do Advento ouvimos a voz profética de Isaías e de João Batista que nos faz um apelo de conversão para a vinda do Senhor.

O Senhor vem… O Salvador está para chegar e o mundo continua, como de costume, na indiferença mais completa.

É neste tempo litúrgico que a Igreja propõe à nossa meditação a figura de João, o Batista. Este é aquele de quem falou o profeta Isaías dizendo: “Voz do que clama no deserto; preparai os caminhos do Senhor, endireitai suas veredas”. A missão de João Batista foi a de ir à frente do Senhor para preparar os seus caminhos…

Esta seria sua vocação: preparar para Jesus um povo capaz de receber o Reino de Deus e, por outro lado, dar testemunho público d’Ele. Não se dedicará a essa missão por gosto pessoal, mas por ter sido concebido para isso! E irá realizá-la até o fim, até dar a vida no cumprimento da sua vocação.

Os primeiros discípulos seguiram Jesus por indicação expressa dele e muitos outros se prepararam interiormente para segui-Lo graças à sua pregação.

A vocação abarca a vida inteira e leva a fazer girar tudo em torno da missão divina. Cada homem, no seu lugar e dentro das suas próprias circunstâncias, tem uma vocação dada por Deus; de que ela se cumpra dependem muitas outras coisas queridas pela vontade divina.

Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas… O Batista é a voz que anuncia Jesus. Essa é a sua missão, a sua vida, a sua personalidade. Todo seu ser está definido em função de Jesus, como teria que acontecer na nossa vida, na vida de qualquer Cristão. O importante de nossa vida é Jesus!

O Precursor indica-nos também a nós o caminho que devemos seguir: o importante é que Cristo seja anunciado, conhecido e amado. Só Ele tem palavras de vida eterna, só n’Ele se encontra a salvação. A atitude de João é uma clara e enérgica advertência contra o desordenado amor próprio que sempre nos incita a colocar-nos indevidamente em primeiro plano. Uma preocupação de singularidade, a ânsia de sermos protagonistas, não deixaria lugar para Jesus. Sem humildade, não poderíamos aproximar os nossos amigos de Deus. E então a nossa vida ficaria vazia.

Que tipo de testemunhas nós somos? Como é nosso testemunho Cristão entre os nossos colegas, na família? Tem força suficiente para persuadir os que ainda não creem em Jesus, os que ainda não o amam, os que têm uma ideia falsa a seu respeito?

Temos que dar testemunho e, ao mesmo tempo, apontar aos outros o caminho. Dizia São Josemaría Escrivá: “Grande é a nossa responsabilidade, porque ser testemunha de Cristo implicará, antes de mais nada, procurar comporta-se segundo a sua doutrina, lutar para que nossa conduta recorde Jesus e evoque a sua figura amabilíssima. Temos que conduzir-nos  de tal maneira que, ao ver-nos, os outros possam dizer: este é Cristão porque não odeia, porque sabe compreender, porque não é fanático, porque é sacrificado, porque manifesta sentimentos de paz, porque ama” ( É Cristo que passa, 122)

“Preparai o caminho de Senhor e endireitai suas estradas”. João aponta um caminho de purificação e de conversão!

Durante o tempo do Advento, preparando-nos para o Natal, busquemos o Sacramento da Penitência (Confissão) como um gesto que manifesta a vontade de conversão e esperança dos tempos novos. O Sacramento da Confissão é um encontro privilegiado com Deus que salva e perdoa!

– Quais são os vales a serem preenchidos? (vazios, omissões…)

– Os montes a serem abaixados? (orgulho, vaidade, ambição…)

-Os caminhos a serem endireitados? (egoísmo, ganância, ódio…)

A nossa grande alegria será termos aproximado de Jesus, como fez o Batista, muitos que estavam longe ou se mostravam indiferentes, sem perdermos de vista que é a graça de Deus, não as nossa forças humanas, que consegue levar as almas ao Senhor. Ensinava Sto. Agostinho: “Não queirais viver tranquilos até conquistá-los para Cristo, porque vós fostes conquistados por Cristo”.

Deus quer se servir de nós, de você, para preparar os homens de hoje, para a vinda do Cristo, no Natal desse ano…

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
 

dez 03

FICAI VIGILANTES E ATENTOS!

ZÉ MARIA-2

I DOMINGO DO ADVENTO – FICAR VIGILANTE –

*Por Mons. José Maria Pereira –

Um novo ano litúrgico tem início neste domingo. O Ano Litúrgico é a evocação e atualização ( isto é, memória e presença) de toda a  História da Salvação “já” realizada  e é, ao mesmo tempo, promessa e antecipação da História da Salvação que “ainda” deverá realizar – se. A Igreja nos põe de sobreaviso com quatro semanas de antecedência a fim de que nos preparemos para celebrar de novo o Natal e, ao mesmo tempo, para que, com a lembrança da primeira vinda de Deus feito homem ao mundo, estejamos atentos a essas outras vindas do Senhor: no fim da vida de cada um e no fim dos tempos. Por isso o Advento é o tempo de preparação e de esperança.

A palavra ADVENTO significa “Vinda”, chegada: nos faz relembrar e reviver as primeiras etapas da História da Salvação, quando os homens se preparam para a vinda do Salvador, a fim de que também nós possamos preparar hoje em nossa vida a vinda de Cristo por ocasião do Natal.

Os textos bíblicos deste primeiro domingo nos permitem descobrir o que é o Advento: é memória, presença e espera, como, aliás, toda a liturgia da Igreja: Memória e espera. Vejamos Isaías,  o profeta que viveu setecentos anos antes de Cristo: Sois vós, Senhor, o nosso pai, nosso Redentor (... ). Por que, Senhor, desviar – nos para longe de vossos caminhos (...). Voltai, por amor de vossos servos e das tribos de vossa herança! A lembrança da bondade de Deus nos faz descobrir a tristeza da situação presente, mas nos leva a esperar, para o futuro, uma nova intervenção divina.

O Evangelho (Mc 13, 33 –37) convoca os cristãos à vigilância: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento”. “ Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem...” Chegou a hora de acordar, para que não nos encontre dormindo! É preciso deixar as trevas e ser iluminados pela luz do dia, pela luz de Cristo. Trata-se da conversão: deixar as obras das trevas e fazer o bem revestindo-se do Senhor Jesus Cristo.

Preparemos o caminho para o Senhor que chegará em breve; e se notarmos que a nossa visão está embaçada e não distinguimos com clareza essa luz que procede de Belém, é o momento de afastar os obstáculos. É tempo de fazer com especial delicadeza o exame de consciência e de melhorar a nossa pureza interior para receber a Deus. É o momento de discernir as coisas que nos separam do Senhor e de lançá-las para longe de nós. Um bom exame de consciência deve ir até as raízes dos nossos atos, até os motivos que inspiram as nossas ações. E logo buscar o remédio no Sacramento da Penitência (Confissão)!

“Vigiai, não sabeis em que dia o Senhor virá”. Não se trata apenas da “parusia”, mas também da vinda do Senhor para cada homem no fim da sua vida, quando se encontrar face a face com o seu Salvador; e será esse o dia mais belo, o princípio da vida eterna! Toda a existência do homem é uma constante preparação para ver o Senhor, que cada vez está mais perto; mas no Advento a Igreja ajuda-nos a pedir de um modo especial: “Senhor, mostrai-me os vossos caminhos e ensinai-me as vossas veredas. Dirigi-me na vossa verdade, porque sois o meu Salvador” (Sl 24).

“Vigiai!” Essa palavra , no Evangelho, ressoa espera! É uma palavra que faz de nós discípulos, sentinelas ou, como disse Jesus, porteiros. Será como um homem que, partindo em viagem, deixa a sua casa  e delega sua autoridade aos seus servos ( Mc 13, 34).

A vida do porteiro num prédio moderno de cidade é realmente uma parábola viva para o cristão. Nunca afastar – se sem ter um substituto, fechar as portas, vigiar quem sai e quem entra, cuidar para que não haja invasão de ladrões; enfim, vigiar sempre. Sua vida é uma vida de espera, ou melhor, de “atenção”. Ficai de sobreaviso, vigiai! É viver concentrando a atenção não só da mente, mas também do coração e de toda a vida; viver tendendo para alguma coisa, prontos a captar todos os sinais que anunciam sua presença.

É muito oportuno que no início do Advento a Igreja dê um grande destaque àquelas palavras de São Paulo: Já é hora de despertardes do sono ( Rm, 13,  11 ).

O Cristão não vive só na espera de Cristo, mas também em comunhão com Cristo, isto é, na posse daquilo que espera. Isto nos recorda o tempo do Advento.

Para manter este estado de vigília, é necessário lutar, porque a tendência de todo homem é viver de olhos cravados nas coisas da terra.

Fiquemos alertas! Assim será, se cuidarmos com atenção da oração pessoal, que evita a tibieza e, com ela, a morte dos desejos de santidade; estaremos vigilantes se não abandonarmos os pequenos sacrifícios, que nos mantêm despertos para as coisas de Deus. Diz-nos São Bernardo: “Irmãos, a vós, como às crianças, Deus revela o que ocultou aos sábios e entendidos: os autênticos caminhos da salvação. Aprofundai no sentido deste Advento. E, sobretudo, observai quem é Aquele que vem, de onde vem e para onde vem; para quê, quando e por onde vem. É uma curiosidade boa. A Igreja não celebraria com tanta devoção este Advento se não contivesse algum grande mistério”

Procuremos afastar os motivos que impedem a acolhida do Senhor:

– os prazeres da vida: a pessoa mergulhada nos prazeres fica alienada… No domingo, dorme… passeia… pratica esportes… mas não sobra tempo para a Missa.

– trabalho excessivo: a pessoa obcecada pelo trabalho esquece o resto: Deus, a família, os amigos, a própria saúde…

Como desejo me preparar para o Natal desse ano?

Apenas programando festas, presentes, enfeites, músicas?

Preparemos numa atitude de humildade e vigilância a chegada de Cristo que vem.

Fiquemos vigilantes! Porém, não vigiar apenas com as forças humanas, mas na oração para que Deus nos ajude a estar vigilantes!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
 

nov 26

VENHA A NÓS O VOSSO REINO

ZÉ MARIA-2

SOLENIDADE DE CRISTO REI – CRISTO REI E PASTOR –

*Por Mons. José Maria Pereira  –

Com a Solenidade de Cristo, Rei do Universo, encerramos o Ano Litúrgico. No próximo domingo será o primeiro domingo do Advento, um novo Ano Litúrgico; início da preparação para o Natal. Ainda que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a festa de hoje foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus.

Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os e vendou-lhes as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. No Prefácio da Missa fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”.

Assim é o Reino de Cristo, do qual somos chamados a participar e que somos convidados a dilatar mediante um apostolado fecundo. O Senhor deve estar presente nos nossos familiares, amigos, vizinhos companheiros de trabalho… “Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem por o Senhor de cara contra a parede, ou colocá-Lo num canto da alma…, temos de afirmar, com as nossas palavras e com as nossas obras, que aspiramos a fazer de Cristo um autêntico Rei de todos os corações…, também dos deles” (São Josemaria Escrivá, Sulco, nº 608).

Disse São João Paulo II: “A Igreja tem necessidade sobretudo de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade entre os fiéis, porque é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja, todo o enriquecimento da fé e do seguimento cristão, uma reatualização vital e fecunda do cristianismo com as necessidades dos homens, uma renovada forma de presença no coração da existência humana e da cultura das nações”.

Continua São João Paulo ll ao encerrar o Jubileu do Ano 2000: “Terminando o Jubileu, retoma-se o caminho comum; no entanto, apontar a santidade permanece mais que nunca uma urgência da pastoral. Em primeiro lugar,  não hesito em dizer que o horizonte para o qual deve tender todo caminho pastoral é a santidade.

Assim, é preciso redescobrir , em todo seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumem Gentium, intitulado “Vocação universal à santidade.”

Professar a Igreja como santa significa apontar seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou, entregando-se por ela precisamente para a santificar (Ef 5, 25-26). Este dom de santidade, por assim dizer, objetiva, é oferecido a cada batizado.

Por sua vez , o dom se traduz num dever que deve dirigir toda a existência cristã: ““Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.” (1Ts 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, pois os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.” (S. João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 30)

A atitude do cristão não pode ser de mera passividade em relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse reinado. É necessário que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum amor se anteponha ao amor de Deus. É necessário que reine no nosso corpo, templo do Espírito Santo; no nosso trabalho profissional, caminho de santidade… Convém que Ele reine!”(Papa Pio XI).

Cristo é um Rei que recebeu todo o poder no Céu e na terra, e governa sendo manso e humilde de coração, servindo a todos, porque não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção de muitos.

O texto do profeta Ezequiel salienta o amor de Cristo-Rei, que veio estabelecer o seu reinado, não com a força de um conquistador, mas com a bondade e a mansidão do Pastor: “Assim diz o Senhor Deus: “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas. Como o pastor toma conta do rebanho, de dia, quando se encontra no meio das ovelhas dispersas, assim vou cuidar de minhas ovelhas e vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersadas num dia de nuvens e escuridão” (Ez 34, 11-12).

São Paulo ensina que a soberania de Cristo sobre toda a criação cumpre-se agora no tempo, mas alcançará a sua plenitude definitiva depois do Juízo universal. “É necessário que Ele reine…” (1Cor 15,25).

O Evangelho (Mt 25, 31-46) mostra que há um discernimento, um juízo. Jesus que tinha sempre falado do Bom-Pastor que “reúne” as ovelhas num só rebanho (Jo 10,16), agora fala do Pastor que “separa” ovelha de outra ovelha e forma dois rebanhos eternos: um para os carneiros e outro para as ovelhas. O Pastor deixa o lugar ao Rei-Juiz que senta “no trono de sua glória.”

Creio que o pensamento central seja este. Nossa vida se divide em dois tempos: o primeiro, aqui neste mundo, onde estamos vivendo. Nele encontramos Cristo como “Bom-Pastor”; a decisão depende de nós; é o que São Paulo chama o tempo propício ou o dia da salvação (2Cor 6,2). Chegará, porém, o momento em que se atravessará uma porta e se entrará numa nova fase: aquela em que se encontrará Cristo como juiz, em que a decisão não estará mais em nossas mãos, em que não haverá mais tempo para debate ou defesa, mas somente para sentença. Deixemos que Cristo reine em nossa vida! Deus não criou o mundo para uma espécie de jogo de se correr atrás, no qual nada é sério e nada é definitivo. “Lá onde a árvore cai, ali fica.” (Ecl 11,3); atrás não se volta, nem para informar os próprios irmãos, como queria fazer o rico avarento (Lc 16,27).Daí o absurdo da reencarnação pregada pelo Espiritismo: “O homem morre uma só vez, e logo em seguida vem o juízo” (Hb 9,27).

Diz-nos a Palavra de Deus: “Animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido na palavra hoje, para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução do pecado” (Hb 3,13).

Agora, portanto, Cristo é para nós ainda o bom pastor cantado por Ezequiel (cf. Ez 34,11-17).

Ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nos reforce a vontade de colaborar na tarefa de estender o seu reinado ao nosso redor e em tantos lugares em que ainda não o conhecem.

“Venha a nós o vosso Reino”.

Que esse Reino venha de fato ao nosso coração e ao coração de todos os homens: Reino de Verdade e de Vida; Reino de Santidade e de Graça; Reino de Justiça, de Amor e de Paz…

Sejamos mensageiros desse Reino, na família, na rua, na sociedade, no ambiente de trabalho… E, que Maria, a Mãe Santa do nosso Rei, Rainha da Paz, Rainha do nosso coração, cuide de nós como somente Ela o sabe fazer!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
 

nov 19

QUEM É FIEL NO POUCO, SERÁ NO MUITO TAMBÉM

ZÉ MARIA-2

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – ADMINISTRADORES DOS TALENTOS –

*Por Mons. José Maria Pereira –

No Evangelho (Mt 25,14-30) Jesus conta a parábola dos talentos: um homem que, partindo de viagem para o estrangeiro, chamou os seus próprios servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um. A cada um, de acordo com a sua capacidade. Depois de muito tempo ele voltou e pôs-se  a ajustar as contas com eles. Elogiou e recompensou os que fizeram render os talentos a eles confiados e repreendeu e castigou o que não fez render o único talento recebido.

Com esta parábola Jesus nos ensina que a vida na terra é um tempo para administrarmos a herança do Senhor e assim ganharmos o Céu.

O significado da parábola é claro. Nós somos os servos; os talentos são as condições  com que Deus dotou cada um de nós (a inteligência, a capacidade de amar, de fazer os outros felizes, os bens temporais…); o tempo que dura a ausência do patrão é a vida; o regresso inesperado, a morte; a prestação de contas, o juízo; entrar no gozo de Senhor, o Céu. Não somos donos, mas administradores de uns bens dos quais teremos de prestar contas.

Hoje podemos examinar na presença de Deus se realmente temos mentalidade de administradores e não de donos absolutos, que podem dispor a seu bel-prazer do uso que fazemos do nosso corpo e dos sentidos, da alma e das suas potências. Servem realmente para dar glória a Deus? Pensemos se fazemos o bem com os talentos recebidos: com os bens materiais, com a nossa capacidade de trabalho, com as amizades… o Senhor deseja ver o seu patrimônio bem administrado. O que Ele espera é proporcional àquilo que recebemos.

“Muito bem servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria” (Lc 25,21). Vale a pena sermos fiéis aqui, enquanto aguardamos a chegada do Senhor, aproveitando este curto espaço de tempo com sentido de responsabilidade. Que alegria quando nos apresentarmos diante d’Ele com as mãos cheias, dizendo: olha Senhor, fiz render os talentos que me destes. Não tive outro fim senão a tua glória!

Nesta parábola o Senhor ensina-nos especialmente a necessidade de corresponder à graça de maneira esforçada, exigente e constante durante toda a vida. Importa fazer render todos os dons que recebemos do Senhor. O importante não é o número, mas a generosidade para fazê-los frutificar.

Fiquemos atentos, pois a correspondência à graça se dá no dia a dia, na família, no trabalho profissional, no apostolado etc. Ensina São Josemaría Escrivá: “Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus, deste Deus invisível, que nós encontramos nas coisas mais visíveis e materiais. Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida corrente, ou nunca O encontraremos” (Temas Atuais do Cristianismo, n° 114).

Mas o que tinha recebido um talento foi, cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Quando este lhe pediu contas, tentou desculpar-se…

Este último servo revela-nos como é que o homem se comporta quando não vive uma fidelidade ativa em relação a Deus. Prevalecem o medo, a auto estima, a afirmação do egoísmo que procura justificar a sua conduta com as injustas pretensões do seu senhor que deseja colher onde não semeou. “Servo mau e preguiçoso”, é como o Senhor o chama ao ouvir as suas desculpas. Esqueceu uma verdade essencial: que o homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus neste mundo e assim merecer a vida com o próprio Deus para sempre no Céu.

Quando se conhece a Deus, é fácil amá-Lo e servi-Lo. Quando se ama, servir não só não é custoso nem humilhante: é um prazer. “Servo preguiçoso”, diz o Senhor. A preguiça fruto da falta de amor leva a um desamor muito maior. Nesta parábola, o Senhor condena os que desenvolvem os dons que Ele lhes deu e os que os empregaram a serviço do seu comodismo pessoal, ao invés de servirem a Deus e aos seus irmãos, os homens, num serviço de amor.

A nossa vida é breve! Por isso temos que aproveitá-la até o último instante para crescer no amor e no serviço a Deus. Alerta-nos a Sagrada Escritura para a brevidade da vida. È comparada à fumaça (Sl 38,6), à sombra (Sl 143,4), à passagem das nuvens (Jó 4,2; 37,2), ao nada (Sl 38,6). Que pena se perdemos o tempo ou o empregamos mal, como se não tivesse valor! Quando o cristão mata o seu tempo na terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu.

Aproveitar o tempo é levar a cabo o que Deus quer que façamos em cada momento; é viver plenamente o momento presente, empenhando a cabeça e o coração naquilo que fazemos, ainda que humanamente pareça ter pouca importância, sem nos preocuparmos excessivamente com o passado nem nos inquietarmos muito com o futuro. Viver o momento presente, de olhos postos em Deus, torna-nos mais eficazes e livra-nos de muitas ansiedades inúteis, que nada mais fazem do que paralisar-nos.

Ao pedir que administremos os talentos o Senhor convida-nos à vigilância.

No fim de nossa vida, o que desejamos ouvir? “Servo bom e fiel… vem participar da minha alegria…” ou “ servo mau e preguiçoso… servo inútil… joguem-no fora… na escuridão… onde haverá choro e ranger de dente?”. A escolha será nossa!

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.
 

nov 12

NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER O BEM

ZÉ MARIA-2

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – AS DEZ VIRGENS –

*Por Mons. José Maria Pereira –

O Evangelho ( Mt 25, 1 – 13 ) narra a parábola das dez virgens que vão ao encontro do esposo. O Senhor quis esboçar a situação de seus discípulos no mundo e o próprio significado de sua passagem através da vida; quis ajudar – nos a responder àquela eterna e inquietante pergunta: “Para onde estamos indo?” Meditar isso é refletir sobre nosso destino mais verdadeiro; é como olhar – se espelho da vontade de Deus.

O que é a vida à luz desta parábola evangélica? É uma espera ativa. Todo o ambiente criado por Jesus pela parábola é de expectativa, está dominado por este sentimento de espera. Tudo respira um ar de suspense. Sabe – se  que o esposo virá ( buscar a esposa da sua casa )e cada coisa se ilumina com este pensamento: os ouvidos estão grudados na porta e os olhos na janela; todas as conversas falam “dele” e se espera de um momento ao outro que se levante o grito: “Eis o noivo, está chegando. Ide ao seu encontro!”.

 Assim é a vida cristã nesta terra à luz da fé: uma espera. O cristão é aquele que – certo de que um dia vai realizar – se um evento decisivo para ele – se esmera para organizar cada ato de sua vida em vista desta espera. Não se trata, porém, de uma espera inerte, uma espera para que o tempo passe, e basta, como fez o servo que enterrou o talento recebido e esperou que o dono chegasse. Para as virgens da parábola, a espera é preenchida com duas preocupações: manter a lâmpada  acesa e ir ao encontro do esposo. Transposto em nossa vida, isto significa viver na “vigilância” e na “fidelidade”.

Jesus, ao falar, é seguido por esses traços característicos do verdadeiro discípulo. Compara o cristão ao “servo fiel” a quem o patrão confiou a guarda de sua casa, que não adormece, não se apodera do que está na despensa, não é prepotente com os outros servos; fica, porém, desperto e pronto, para abrir a porta a seu patrão assim que volte das núpcias ( Lc 12, 35 ss).

Mas o que significa ser fiel? São Paulo o explica aos primeiros cristãos: Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na fé ( Gl 6, 9 – 10 ). Ser fiéis a Deus significa, portanto, ser perseverantes, não abandonar a luta, mesmo quando a espera se prolonga e o compromisso se torna mais duro.

Fidelidade e vigilância: o que torna tudo isso muito urgente é que não se sabe a hora: Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora ( Mt 25, 13). Não sabiam a hora aquelas virgens e não a sabe nenhum de nós.

Mas o que significa, a este ponto, este vigiar tão insistente do Evangelho? Ficar pensando na morte, dia e noite, paralisados com este pensamento? Pelo contrário. Significa pensar na vida e como enche–la  de conteúdo; significa agir em cada momento conforme a vontade de Deus, mas agir!

Examinemos na presença do Senhor o que é realmente o principal na nossa vida. Procuramos o Senhor em tudo o que fazemos, ou procuramos–nos a nós mesmos? SE Cristo  viesse hoje ao nosso encontro, achar – nos – ia vigilantes, esperando – O com as mãos cheias de boas obras?

 “Há esquecimentos que não são falta de memória, mas de amor”. Quem ama não se esquece da pessoa amada. Quando o Senhor ocupa o primeiro lugar, não nos esquecemos d’Ele.  Permanecemos em atitude vigilante, acordados, como Jesus nos pede no final da parábola: Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.

 Meditemos hoje sobre o estado da nossa alma e sobre  o sentido que estamos dando aos nossos dias, ao trabalho.... e repitamos – retificando o que não estiver de acordo com o querer de Deus – a oração do Salmo 62: Ó Deus, Tu és o meu Deus, desde a aurora Te procuro. A minha alma tem sede de Ti, deseja – Te a minha carne, como terra seca, sem água.

Sei bem, Senhor, que nada do que faço tem sentido se não me aproxima de Ti.

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*Mons. José Maria Pereira, Sacerdote da Diocese de Petrópolis, é, também, Professor, Juiz do Tribunal Eclesiástico Interdiocesano de Niterói e Diocesano de Petrópolis e Vigário Paroquial de Nossa Senhora de Fátima  enviando para o Blog, semanalmente, a homilia do domingo.

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