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O SANTO DO MÊS – SÃO JOÃO MARIA VIANNEY

SÃO JOÃO MARIA VIANNEY

SANTO DO MÊS DE AGOSTO –

*Enrico Pepe[1]

04 de agosto

São João Maria Vianney – Sacerdote e padroeiro dos párocos (1786-1859) –

“Esta é a nossa mais bela tarefa: orar e amar. Se rezarmos e amarmos, eis que esta é a nossa felicidade sobre a terra. A oração nada mais é do que a união com Deus. Quando uma pessoa tem o coração puro e unido a Deus, é tomada por uma certa suavidade e doçura que a inebria; é purificada por uma luz que se difunde ao derredor dela misteriosamente. ”

Esse texto, extraído de uma catequese do santo, exprime muito bem a elevação espiritual a que ele chegou e explica por que eram numerosos os peregrinos em Ars, chegando a alcançar aproximadamente a cifra dos cem mil nos últimos anos da vida de Vianney.

UM IGNORANTE OU UM SÁBIO?

João Maria nasceu em Dardilly, uma cidadezinha da diocese de Lyon, a 8 de maio de 1786, de uma família de camponeses muito pobre de bens materiais, mas rica na fé. Foram anos sombrios para a religião na França. Durante o segundo Terror também a igreja paroquial de Dardilly foi fechada, e toda atividade de culto foi impedida.

O futuro cura d’Ars recebeu a primeira comunhão escondido em uma casa de campo durante a missa clandestina e o contato com aquele padre lhe fez nascer no coração o primeiro desejo de se tornar sacerdote. Uma ideia que parecia utópica para a situação política do país e pela impossibilidade de frequentar a escola.

Em 1806, não distante de Dardilly, um corajoso sacerdote, Charles Balley, então mestre de noviços do famoso convento de Santa Genoveva, havia aceitado a nomeação para pároco de Écully e tinha aberto uma escola paroquial para preparar os futuros candidatos ao sacerdócio, antes de os mandar para o seminário. João também se apresentou: um caso humanamente quase desesperador, porque tinha mais de 20 anos e conhecia mal e mal os primeiros rudimentos da leitura e de escrita.

O padre Balley ouviu-o, apreciou-lhe o candor da alma e a persistência de camponês e o admitiu em sua escola. Não foi fácil para o jovem acompanhar as lições do mestre, sobretudo em se tratando da língua latina, que não entrava na cabeça, enquanto se saía muito bem na aprendizagem das verdades da fé e na prática das virtudes cristãs.

Entre os dois nasceu uma profunda amizade espiritual e depois de alguns anos de preparação o abade Balley o apresentou ao seminário. Os professores reconheceram os dotes morais do jovem, mas não quiseram tomá-lo como aluno, porque ele não sabia latim e, portanto, não conseguia acompanhar as lições. O padre Balley tomou-o consigo para continuar o ensinamento da teologia em francês. Acompanhou-o ao seminário para fazer os exames e foi uma outra decepção, pois ele não conseguia nem mesmo compreender as perguntas formuladas em latim pelos professores.

Nova humilhação, e outra vez retornou a Ecully, mas o seu protetor não desanimou; pediu e conseguiu que ele fizesse o exame na sua presença, por um professor escolhido pelo bispo. Obteve o que pretendia e Vianney conseguiu realizar os exames. Foi ordenado padre, a 13 de agosto de 1815, na condição de que ficasse sob a orientação de Balley e que não exercesse o ministério das confissões.

TRÊS ANOS DE PARAÍSO

Entre os dois sacerdotes passaram-se três anos de convivência maravilhosa. O jovem sacerdote amava sinceramente o seu pai e mestre e, apesar de ele ter uma leve influência de jansenismo, estimava-o pela sua fé inabalável e por seu espírito de penitência e procurava imitá-lo; o pároco, por sua vez, alegrava-se por ter um discípulo tão unido a Deus e tão dócil. Pôde, muitas vezes, afirmar ao bispo que ele estava à altura dos trabalhos ministeriais, que as suas pregações eram sem erros, e que conhecia e aplicava corretamente a moral nos casos de consciência.

Mas, quando o pároco morreu, em 16 de dezembro de 1817, a cúria não considerou oportuno deixar nas mãos do padre Vianney o cuidado daquela paróquia importante e, em 11 de fevereiro de 1818, nomeou-o capelão de uma pequena vila com 40 casas e 270 habitantes: Ars-en-Dombes, que foi elevada a paróquia somente depois de três anos, quando o capelão já havia dado prova de ser capaz de guiar aquela pequena comunidade cristã.

A aldeia de Ars, como todos os pequenos aglomerados de camponeses da região, não brilhava pela santidade. Ainda havia fé em Deus, mas escondida sob a cinza de grande ignorância religiosa e de uma prática moral tradicional que deixava muito a desejar.

O MILAGRE DE ARS

O jovem sacerdote iniciou o seu trabalho pastoral limpando e estabelecendo uma certa ordem na igrejinha, mantendo contato com os seus paroquianos. Ia encontrá-los em suas casas e nos campos, conversava sobre como estava andando a colheita e sobre a saúde dos animais, desse modo quebrava o gelo e construía amizades. Em pouco tempo, conheceu os vícios e as virtudes de todos e se convenceu de que, no fundo, as pessoas a ele confiadas eram boas, mesmo que apresentassem algum ponto fraco na prática da moral.

Os homens, por exemplo, obrigados pela necessidade mais do que pela ideologia da revolução, nas manhãs de domingo, preferiam ir trabalhar nos campos abandonando as missas, e à tarde, em vez de ir a alguma função religiosa, lotavam as quatro tavernas do lugarejo - vejam só! - todas situadas exatamente bem atrás da igrejinha, nelas gastando o pouco dinheiro que possuíam, sem levar em conta as brigas e as blasfêmias proferidas, cujo clamor chegava até mesmo aos ouvidos das poucas mulheres que iam à igreja. As jovens não tinham o necessário para casar-se e, o que era pior, não se preparavam para aprender uma profissão: sabiam só pastorear as poucas ovelhas da família e recolher feno para o inverno.

Também nos dias mais solenes, o ponto de encontro não era a celebração litúrgica, mas as festas e bailes, que se prolongavam até altas horas da noite, à luz de vela e - segundo o parecer do jovem padre - sempre terminavam em lugares onde não havia nem mesmo essa luz fraca, permitindo ao demônio a destruição da moral familiar, até mesmo levando à prostituição alguma pobre moça. A situação, às vezes, lhe parecia desesperadora, foi então que ele cunhou aquela famosa frase: “Deixai por vinte anos uma paróquia sem padre e aí adorareis os animais!”.

Nesta situação o rigorismo moral aprendido com seu mestre não o ajudava muito. Por felicidade ele havia conservado o equilíbrio e o bom senso herdados de sua família, baseados na sabedoria do evangelho. Mesmo que as pregações dos primeiros tempos em Ars, tiradas dos pregadores da época, fossem repletas de ameaças de perdição eterna, no contato pessoal com os seus paroquianos ele procurava ser o bom pai de família e logo se apercebeu dos tesouros escondidos em toda alma: bastava aquecer os corações com um pouco do amor de Deus e Ars teria encontrado o seu rosto cristão.

Um dia apercebeu-se disso, tendo observado um camponês que toda noite voltando do trabalho, deixava seus apetrechos fora da igreja, entrava e permanecia sentado por muito tempo em silêncio; aproximou-se dele e perguntou: “O que fazes tu aqui, bom homem, em silêncio?”. O camponês, surpreso pela pergunta, lhe respondeu: “Estou diante do meu Senhor: ele me olha e eu olho para ele!”. Em Ars havia também o bem: o que precisava só fomentar-lhe o crescimento.

Não bastava pregar às poucas pessoas que vinham à igreja, assustando-as com sermões ameaçadores. Era necessário guiar-se pelo Espírito Santo. Para isso era necessário antes de tudo orar. O tempo sobrava-lhe. Se os homens estavam nas tavernas blasfemando, ele estava ajoelhado diante do Santíssimo adorando, preparando o catecismo para as crianças e para os adultos. O Senhor lhe inspiraria as palavras certas, muito mais fáceis de recordar do que aquelas que lia nos livros e, sobretudo, - como lhe ensinará a experiência -, mais compreensíveis aos seus ouvintes.

Além do mais, precisava fazer penitência. Isso para ele não era difícil por dois motivos: já estava habituado a isso pelo seu mestre, o padre Balley, e também porque em Ars a vida era muito miseranda e quando podia contar com um pouco de batatas cozidas e uma pitada de sal ele era um homem venturoso. Acrescentou, porém, algumas práticas um tanto exageradas, como jejuns muito prolongados e noites deitado sobre a terra nua, que prejudicaram a sua saúde, apesar de impressionar bem os paroquianos. Ele próprio, mais tarde, irá dizer que foram “excessos da juventude”.

ORAÇÃO E PENITÊNCIA, MAS TAMBÉM OBRAS SOCIAIS

Não se limitou somente a orar e a mortificar-se pelos pecados do seu rebanho. Vendo a miséria material e moral na qual se encontravam muitas jovens sem futuro, criou para elas uma escola, onde encontravam alimento, instrução humana e cristã e onde aprendiam um ofício. Chamou-a de “Providência” e levou-a adiante com muito empenho sendo ajudado por outras duas valentes senhoras.

Para os adultos criou duas associações: a irmandade do Rosário para as mulheres e a do Santíssimo Sacramento para os homens, envolvendo todos em atividades de culto e caritativas.

Lentamente a fisionomia da paróquia começou a mudar e a fama deste padre bem conhecida nos ambientes eclesiásticos pela sua pouca capacidade intelectual, ultrapassando os confins de Ars, começou a se espalhar pelos arredores. Até mesmo nos mercados se ouviam camponeses que diziam: “Nenhum padre jamais nos falou como o nosso pároco!”. Ele próprio num momento de entusiasmo deixou escapar esta frase durante uma homilia: “Meus irmãos, Ars não é mais Ars!”, acrescentando que o pequeno cemitério local estava cheio de santos.

Por fim, espalhou-se a notícia de que em Ars estavam acontecendo fatos milagrosos e — pelo menos no tocante às conversões que se verificavam no confessionário do pobre cura - não eram ignorados. O padre Vianney atribuía- os a santa Filomena, mas no entanto os fiéis dos arredores acorriam em grande número à igrejinha de Ars para ouvir o “santo cura” e para depositar no seu coração o fardo dos próprios pecados. Não eram poucos os que iam à procura de cura para os males que afligem aquele pobre povo e, mesmo que nem todos fossem curados no corpo, todos retornavam para suas casas fortalecidos no espírito.

“VÓS ME ENSINASTES A CONHECER O ESPÍRITO SANTO!”

Com a fama de santidade espalharam-se também notícias difamantes, aceitas pelos párocos da região que não conseguiam entender que um colega bom para nada pudesse operar prodígios. As más línguas por fim chegaram ao bispo, o qual ordenou que se fizesse uma inquirição canônica que trouxe à luz a falta de fundamento das acusações e serviu para aumentar o afluxo dos peregrinos a Ars.

Até mesmo o famoso Lacordaire, em 1845, depois de ter ouvido a pregação do cura, disse-lhe: “Vós me ensinastes a conhecer o Espírito Santo!”. E o padre Vianney, depois de ter falado na igreja ao seu povo, no dia seguinte comentava com argúcia: “Costuma-se dizer que às vezes os extremos se tocam. Isso, sem dúvida, verificou-se ontem no púlpito de Ars. Viu-se a extrema ciência e a elevada ignorância!”. Àqueles que perguntavam a Lacordaire sobre o que ele achou da pregação do padre considerado um ignorante, ele respondia: “Seria bom desejar-se que todos os párocos dos campos pregassem tão bem como ele”.

O CAMINHO DA CRUZ

Enquanto Deus abençoava a obra pastoral deste humilde padre com frutos que ultrapassavam muito as suas capacidades humanas, ao mesmo tempo purificava-o da crosta do rigorismo adquirido nos anos de formação com o abade de Ecully.

De fato o padre Vianney, mesmo que infundisse nos pecadores a confiança sem fim na bondade misericordiosa de Deus, passava por momentos terríveis de terror pela própria salvação. A esta dor pungente que, às vezes, parecia que chegava à raia do desespero, ajuntava-se a consciência exagerada da incapacidade de levar em frente a sua missão de pároco. E como se tudo isso não bastasse, de noite muitas vezes sentia-se atormentado por uma presença diabólica.

Por três vezes tentou fugir de Ars para se refugiar na vida contemplativa e pensar na própria salvação, mas inutilmente. Tanto o povo quanto o próprio bispo queriam-no em Ars. Era no confessionário e no púlpito daquela pobre igrejinha camponesa que multidões de peregrinos o procuravam. Ele não podia abandonar esse trabalho mesmo que fosse difícil, porque lhe permitia anunciar o amor de Deus a todos, também aos pecadores mais empedernidos que diante dele caíam de joelhos e se debulhavam em lágrimas.

O fenômeno das peregrinações era tamanho que o bispo primeiramente lhe deu um vigário coadjutor que se ocupasse de toda a administração da paróquia e da organização dos visitantes, deixando o padre Vianney livre para as pregações e confissões; depois, no lugar do vigário enviou para Ars uma ajuda mais consistente; um grupo de sacerdotes “missionários diocesanos” que não só ajudassem o padre Vianney, mas se preparassem para um dia recolher dele a herança espiritual.

Também as duas obras sociais que surgiram na paróquia foram organizadas. A escola para as moças, a Providência, foi confiada às irmãs, e a escola para os rapazes foi entregue aos Irmãos da Santa Família de Belley.

Quando o padre Vianney viu que tudo já estava organizado, pensou que os missionários poderiam fazer melhor que ele e pela última vez ele tentou ir para a solidão preparar-se - como costumava dizer - para a boa morte. Deixou uma carta para o bispo e desapareceu. Tudo inútil, porque assim que a carta foi descoberta, um grupo de paroquianos e de peregrinos encontrou-o e o reconduziu para casa. Ainda precisava orar, confessar e pregar outros dez anos, antes que Deus o chamasse para si a 4 de agosto de 1859.

Até mesmo depois de sua morte continuará a anunciar o amor misericordioso de Deus através dos escritos que, mesmo sendo de estilo sóbrio, difundiram-se por todos os cantos junto com numerosas biografias. São Pio X o proclamou beato em 1905, Pio XI canonizou-o em 1925 e declarou-o padroeiro dos párocos.

Mesmo que na vida desse humilde pároco existam alguns aspectos que não se adaptam à sensibilidade moderna, a sua figura permanecerá como um modelo sempre válido pela sua união com Deus e pela caridade pastoral para com a humanidade.

_______________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

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