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jul 01

O SANTO DO MÊS – INÁCIO DE LOYOLA

SANTO INÁCIO DE LOYOLA

SANTO DO MÊS DE JULHO –

*Enrico Pepe[1]

31 de julho

Santo Inácio de Loyola – Fundador dos Jesuítas –

“Sentado lá (junto ao rio de Manresa), começaram a abrir-se os olhos da inteligência: não que tivesse uma visão; não obstante isso compreendia e conhecia muitas coisas, tanto espirituais quanto de fé e de ciência, com uma luz tão grande que tudo lhe parecia novo. Nem se podem descrever todas as particularidades que agora compreendia, pois eram muitas; pode-se somente dizer que experimentou uma grande luz na inteligência. Tal que em toda a duração da sua vida, até os 62 anos passados, embora desejando colocar juntas todas as ajudas recebidas de Deus e todas as coisas aprendidas, somando tudo, não lhe parece ter obtido tanto quanto naquela única vez”

Aos 62 anos, Inácio recorda, com estas palavras, a extraordinária luz com a qual Deus o havia transformado, em Manresa, para torná-lo capaz de cumprir sua missão.

Nascera em Azpeitia, Países Bascos, em 1491, décimo terceiro e último filho. Aos 14 anos, foi enviado à carreira eclesiástica, mas depois de um breve tempo renunciou decididamente a ela e escolheu a carreira militar, mais cheia de aventuras e mais de acordo com seu caráter. Na juventude, não foi nenhum santo, ao contrário, uma vez acabou indo ao tribunal e só a posição social de sua família evitou sua condenação à prisão. 

Deixou seu país para servir à corte dos grandes daquela época. Feito cavaleiro, desejava ardentemente ir à guerra para conquistar fama e ganhar a mão de uma nobre dama da mais alta sociedade de sua época.

Na guerra entre Filipe I da França e Carlos V foi destinado com seus soldados à defesa da cidade de Pamplona. No dia, antes da batalha decisiva, foi à procura de um sacerdote para se confessar e, não tendo encontrado nenhum, acabou contando seus pecados a um companheiro de armas: um ato de humildade este que entrava na tradição cristã, aprovada e recomendada por teólogos como são Tomás e são Boaventura.

UMA PERNA QUEBRADA

A batalha foi muito difícil e as forças inimigas derrubaram os muros da cidade. Inácio resistiu até quando “um projétil o atingiu na perna, quebrando-a”, como ele mesmo relata. Em um primeiro momento, parecia que iria morrer, mas depois conseguiram levá-lo de maca para sua terra natal a fim de ser tratado.

Quando Inácio percebeu que os ossos da perna já estavam soldados, mas deixando um osso exposto que o tornava não só manco, mas também defeituoso para sempre, não sossegou. Consultou os médicos e, quando encontrou uma solução, submeteu-se a uma dolorosíssima operação: mandou serrar o osso exposto e endireitar a perna.

Não havia anestesia naquele tempo e a operação não era sem perigo, mas mostrou-se irredutível. Os médicos começaram a trabalhar com o bisturi e com a serra. Ele cerrou os dentes e mandou continuar. A operação teve êxito. Depois, começaram os intermináveis e enfadonhos dias preso no leito sem fazer nada. As vezes, passava o tempo compondo poesias para sua namorada, mas poesia não era o seu forte. Então, pediu um livro sobre cavalaria para se distrair, ou melhor, para se preparar para aquilo que ele considerava sua vocação. Mas livros daquele gênero não existiam na casa dos Loyola e a bondosa cunhada conseguiu encontrar somente uma Vida de Cristo e uma Leggenda áurea. Esta última era uma coletânea de vidas de santos.

Não havendo outro, Inácio começou a ler e sua mente, habituada a desenfrear-se nas fantasias cavalheirescas e mundanas, foi atraída, pela primeira vez, pela vida de Jesus e pelos feitos dos santos. As vezes inflamava-se e sentia o desejo de segui-los. Percebeu com surpresa que naqueles momentos experimentava uma paz e uma alegria jamais sentidas antes, enquanto depois de ter divagado atrás das fantasias mundanas permanecia-lhe na alma uma profunda tristeza.

Começou a entender, por experiência própria, o que depois chamaria de discernimento dos espíritos. Após longa e madura reflexão, tomou a decisão de servir não mais ao rei deste mundo, mas ao próprio Cristo, como tinham feito são Francisco e são Domingos. Se eles tinham empregado toda sua vida para a glória de Deus, ele teria que superá-los, dando a Deus uma glória maior: Para a maior glória de Deus passou de fato a ser o seu lema.

A VISITA DE MARIA

Naquele período, teve uma visão que o confirmou definitivamente na sua escolha. Ele mesmo, na Autobiografia, chamando-se de “o peregrino”, relata em terceira pessoa: “Aconteceu que, numa noite, enquanto ainda estava acordado, vi claramente uma imagem de Maria com o menino Jesus. Depois daquela visão, experimentou longa e grandíssima consolação; e sentiu um desgosto enorme por toda a vida passada, especialmente pelas coisas sensuais, parecendo-lhe que tinham desaparecido da alma todas as imaginações que antes ali estavam impressas”.

Daquele momento em diante, Inácio tornou-se uma outra pessoa. Se a busca da glória do mundo substituiu a da maior glória de Deus, o morrer de amores por aquela dama da corte foi substituído agora pelo amor mais sincero e o serviço mais devoto pela Dama do céu. Mas como seguir Jesus? Segundo o autor da Vida de Cristo, o mais importante era ir em peregrinação à Terra Santa. Inácio, assim que ficou curado, colocou-se a caminho, embora os familiares inutilmente procurassem dissuadi-lo.

Antes, foi visitar o santuário de Nossa Senhora de Montserrat. Lá, depois de uma confissão geral, dependurou a espada e o punhal no altar de Nossa Senhora, encarregou o confessor de vender sua mula, desfez-se das roupas de cavaleiro dando-as a um pobre e vestiu o hábito de peregrino: uma longa túnica de pano grosseiro, um grande chapéu, um cantil, um par de sandálias e os bolsos vazios, porque daquele momento em diante viveria de esmolas. Passou a noite inteira acordado, como os antigos cavaleiros antes da investidura, e de seu coração saiu esta oração que mais tarde ele transcreveria:

Toma, Senhor, e aceita toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência e toda a minha vontade, tudo aquilo que eu sou e possuo. Tu me deste, a ti, Senhor, o restituo; tudo é teu. Dispõe de mim segundo tua vontade; dá-me teu amor e tua graça, pois esta me basta.

DEUS O ESPERAVA EM MANRESA

Era a noite entre 24 e 25 de março de 1522. De Montserrat, passou a Manresa. Lá, os primeiros quatro meses foram de grande tranquilidade interior e de muitas alegrias espirituais; depois, sobreveio um período duríssimo, cheio de escrúpulos e tentações com sofrimentos interiores tão fortes que o levaram ao desejo de suicídio. Naqueles momentos, Inácio se defendia, bradando a Deus: “Senhor, jamais farei algo que possa te ofender”. Por fim foi inundado de particularíssimas revelações divinas.

Em um período da vida da Igreja caracterizado pelas incertezas na doutrina e da divisão que minavam suas estruturas vitais, Deus quis infundir na mente de Inácio, de maneira forte e indelével, as verdades fundamentais do cristianismo: contemplou a Trindade, o Verbo encarnado, a mãe de Deus e a santa eucaristia... “E, este fato de permanecer com a inteligência iluminada” - ele mesmo confirmava — “foi tão grande, que lhe parecia ser um outro homem e que tivesse uma inteligência diferente da primeira”

Com tal realidade na alma, Inácio visitou a Terra Santa e lá permaneceria para sempre, se o superior dos franciscanos não o tivesse reexpedido para a Europa. Então, compreendeu que, para poder falar ao mundo de seu tempo, sobretudo aos eclesiásticos e aos sábios, deveria estudar, não tanto para aprender as coisas de Deus, mas para aprender a linguagem dos homens para que eles o pudessem compreender.

Inácio, com a idade de 33 anos, foi para Barcelona e, como um menino, retornou à escola e estudou com persistência. Assim que terminou, passou para a Universidade de Alcalá e lá acabou na prisão, pois, tendo pregado em particular os Exercícios para algumas pessoas, mudando a vida de cada uma, suscitou a suspeita de heresia. Um professor universitário de Sagrada Escritura foi visitá-lo e fez o seguinte comentário: “Eu vi Paulo na prisão!”

Libertaram-no, mas lhe proibiram “pregar os Exercícios”. Era a morte de seu ideal. Mudou de cidade e foi para Salamanca, mas também lá foi perseguido e preso. Foi novamente solto, mas agora já pensava em Paris, então capital intelectual da Europa.

EM PARIS, OS PRIMEIROS COMPANHEIROS

Em Paris, Inácio obteve o título de “doutor nas artes” ou “mestre”, mas, sobretudo, conquistou seus primeiros companheiros entre os estudantes, pessoas particularmente dotadas e aptas para encarnar o ideal que Deus lhe havia colocado no coração, o de realizar uma reforma profunda dentro da própria Igreja com o exemplo de uma vida apostólica e com a pregação do Evangelho. Inácio cuidou um a um, separadamente, dos que Deus colocava em seu caminho, fazendo a cada um pessoalmente os Exercícios e, quando estes já estavam de acordo com seu mesmo ideal, reuniu-os.

Famosa é a data de 15 de agosto 1534 quando Inácio e outros seis estudantes se reencontraram em Montmartre na cripta de são Dionísio, e durante a missa celebrada por um deles, já sacerdote, Pedro Fabro, fizeram voto de se “dedicarem em pobreza ao serviço de Deus..., pregando e ajudando nos hospitais; de ir, se fosse possível, até aos pés do Papa, vigário de Cristo, para pedir a permissão de ir a Jerusalém” e, se isso não fosse possível, iriam para onde ele os mandasse. Certamente, Inácio e os primeiros companheiros não imaginavam que estavam iniciando aquela que seria a Companhia de Jesus; eles tinham sido conquistados pela luz de Manresa que Inácio transmitia e sonhavam em reevangelizar o mundo.

Enquanto o famoso humanista Erasmo de Roterdã havia abandonado Paris, queixando-se porque, depois de ter aberto novos horizontes às ciências e ter conclamado para a oportunidade de uma profunda reforma da Igreja, não tinha sido escutado; e, enquanto Martinho Lutero na Alemanha e Zwinglio e Calvino na Suíça levavam adiante sua reforma pessoal, em oposição ao Papa; Inácio, sem pensar em contrapor-se aos reformadores, sentia-se impelido por Deus a empreender também ele a reforma da Igreja, mas de acordo com o carisma de Pedro.

Por conselho dos médicos, Inácio saiu de Paris e foi para a terra natal para cuidar da saúde. Lá, em três meses acabou com litígios, iniciou a reforma do clero, organizou de modo estável a assistência aos pobres, mas sobretudo com suas pregações converteu muita gente de todas as classes sociais.

Quem o tinha visto como um jovem um pouco desmiolado, livre quase por milagre da prisão, não conseguia acreditar no que estava vendo. De Azpeitia, depois de um breve giro pela Espanha, Inácio foi para Veneza e lá retomou os estudos teológicos, interrompidos em Paris, enquanto esperava a vinda dos companheiros, deixados na França, para empreender com eles a peregrinação à Palestina.

EM VENEZA À ESPERA DA TERRA SANTA

Em Veneza conheceu João Pedro Carafa, que tinha renunciado ao bispado de Chieti em Abruzzos, e, junto com são Caetano de Thiene, tinha fundado a Ordem dos Teatinos. Carafa era um homem enérgico e também desejava a reforma da Igreja. Quando conheceu Inácio pressentiu nele um elemento precioso para os seus planos se entrasse na sua ordem, mas Inácio, depois de ter conhecido os teatinos, disse com franqueza a Carafa que aquela nova ordem não lhe parecia muito adaptada à finalidade que ele se prefixara.

Quando seus companheiros chegaram a Veneza, Inácio já tinha sido ordenado sacerdote, embora, segundo o costume daquela época, ainda não celebrasse a missa. Enviou os companheiros ao papa Paulo III e mesmo tendo eles obtido a permissão de ir à Terra Santa, não conseguiram mais partir por causa de guerras. Inácio compreendeu que não valeria a pena perder tempo com esperas inúteis e enviou alguns companheiros a várias cidades da Itália, a pedido dos bispos, para pregar, enquanto ele e mais dois dirigiram-se a Roma.

Foi naquele período que nasceu o nome de Companhia de Jesus: Polanco, primeiro secretário de Inácio, relata: “Falando-lhes como deveriam se chamar se alguém perguntasse qual era a congregação deles (composta de nove ou dez pessoas), começaram a orar e a pensar qual o nome que podia ser mais conveniente. Visto que não havia entre eles um chefe, nem um outro superior, exceto Jesus Cristo, ao qual somente desejavam servir, pareceu-lhes oportuno tomar o nome daquele que tinham como chefe, chamando-se Companhia de Jesus”.

A VISÃO EM STORTA

A escolha feita de comum acordo foi confirmada logo por Deus mediante um fato extraordinário acontecido com santo Inácio, nas proximidades de Roma, em um local chamado La Storta, onde em uma visão o Pai Eterno entregava-o a Jesus como seu discípulo e “Jesus o tomava e dizia: ‘Eu quero que tu nos sirvas’. Foi por isto que, tomando a grande devoção a este santíssimo nome (Jesus), resolveu chamar a congregação de Companhia de Jesus”.

Assim que chegaram a Roma, o papa Paulo III, que já havia percebido o valor daqueles homens, colocou-os logo a trabalhar: Pedro Fabro e Diego Lainez, como professores na università delia Sapienza, e Inácio, para pregar os Exercícios a quem lhos pedisse. Este primeiro período romano deu muitos frutos, mas, em um certo momento, alguns acusaram falsamente Inácio de ter fugido da Espanha e de Paris por ser herege. Embora o Papa o tivesse em grande estima, foi instaurado um processo regular.

Providencialmente, os juízes dos processos precedentes encontravam-se em Roma e unanimemente testemunharam em seu favor. Foi um verdadeiro triunfo, com grande satisfação do Papa e do povo romano. Em sinal de reconhecimento, Inácio e seus companheiros se apresentaram ao Papa e colocaram suas vidas à disposição do vigário de Cristo, dando cumprimento ao voto já feito em Montmartre, anos atrás.

Em 27 de setembro de 1540, a Companhia de Jesus foi aprovada por bula pontifícia e, daquele momento em diante, Inácio, eleito superior, permaneceu definitivamente em Roma para governar a Companhia. Começou a elaborar a redação das Constituições e trabalhou com persistência por longo tempo, fazendo-as reler e corrigir pelos colaboradores mais chegados e, quando lhe pareceu que estavam em perfeita sintonia com as luzes que Deus lhe tinha dado em Manresa e em outros momentos especiais da vida, enviou os colaboradores às várias províncias para explicar o sentido genuíno a todos os seus filhos.

UM EXTRAORDINÁRIO FLORESCIMENTO

Nos últimos anos, Inácio assistiu a um extraordinário florescimento da Companhia na Europa (Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Áustria, Bélgica), na América Latina, na índia até o Japão e na Etiópia. Aonde quer que chegavam, seus filhos levavam seu carisma e, com isso, renovavam a Igreja ou procuravam novos filhos em terras de missão. O carisma inaciano se revelava de uma atualidade impressionante.

Inácio, bem enraizado no passado sem ser escravo, era aberto ao futuro, sabia harmonizar admiravelmente tradição e profecia. Daí então o fascínio que sua pessoa e sua Companhia exerciam nos eclesiásticos e leigos da sua época.

Foi intuição sua fundar Colégios, onde se estudava gratuitamente, abrindo assim o mundo das ciências às inteligências de todas as classes sociais. Dos Colégios nasceram numerosas e conceituadas universidades na Europa e no mundo a começar pelo Colégio Romano, por ele fundado, que se tornaria a famosa Universidade Gregoriana.

Um outro fator importante para a renovação da Igreja foi a fundação dos seminários, começando lá também pelo Colégio Alemão que acolhia seminaristas das dioceses de língua alemã. Sob a espiritualidade inaciana, foram-se formando, pouco a pouco, todos os seminários católicos do mundo até os nossos dias.

Inácio tinha tido uma boa intuição ao escolher os primeiros companheiros em Paris e seus filhos continuaram nesta linha. Quem queria entrar na Companhia deveria, antes de tudo, estar decidido a viver em tudo segundo o Evangelho, depois deveria ser inteligente e ter bom aspecto para poder desenvolver o apostolado em todos os ambientes, desde o mais humilde, dos mais pobres até o da universidade e das cortes. Por isso, os jesuítas procuravam vocações também entre personalidades da alta classe social.

Assim, na Espanha, Francisco de Bórgia, já vice-rei, ficou viúvo e tendo encaminhado os filhos colocou-se nas mãos de Inácio. Este soube apreciar seus dons espirituais e humanos, chamou-o a Roma e percebeu sua capacidade extraordinária de governo e foi como se já tivesse assimilado o genuíno carisma inaciano. Seria o seu primeiro sucessor, o homem mais adequado para cuidar da jovem da Companhia.

Nos últimos anos de sua vida Inácio, sentindo que suas forças diminuíam, quando até assinar um documento já lhe era difícil, quis renunciar ao cargo de superior-geral, mas seus filhos não lho permitiram. Então nomeou um substituto, com plenos poderes, e se preparou para entrar definitivamente naquele céu que várias vezes já havia pregustado sobre a terra. Morreu em Roma em 31 de julho de 1556.

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[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

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