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jun 01

O SANTO DO MÊS DE JUNHO

SANTO ANTONIO DE PÁDUA - 3

SANTO DO MÊS DE JUNHO –

*Enrico Pepe[1]

13 de junho

Santo Antônio de Pádua – sacerdote e doutor evangélico –

(1195-1231)

"A suprema origem, como diz Agostinho no livro De vera religione, é o Pai, do qual são todas as coisas e do qual procedem o Filho e o Espírito Santo. A perfeitíssima beleza é o Filho, que é a verdade do Pai, em nada dele diferente. A beatíssima alegria e o sumo bem é o Espírito Santo, que é o dom recíproco do mútuo amor entre o Pai e o Filho ”

Era esta a teologia que frei Antônio ensinava aos frades já nos tempos de São Francisco. Ele dava à ordem, que estava surgindo, uma preparação intelectual que a teria tornado capaz de levar o carisma franciscano a todos os ambientes sem perder o seu genuíno esplendor. Mas a figura de Antônio é pouco notada sob este aspecto, enquanto que é conhecidíssima na versão elaborada pela piedade popular.

Um santo universal

Em uma biblioteca de um bispo brasileiro encontrei um bonito livro com o título Antônio de Lisboa, santo e soldado. Eu já sabia bem que os países de tradição portuguesa sempre gostam de recordar suas origens lusitanas, mas que o amor dos brasileiros por este santo tivesse chegado até o ponto de colocá-lo na lista de pagamento do exército, isso eu jamais teria imaginado. Não só o escolheram para protetor dos seus soldados, mas fizeram-no percorrer toda a carreira militar desde simples soldado até capitão, pagando regularmente o estipêndio, não a ele, que está no paraíso onde não existe moeda corrente, mas ao convento de Santo Antônio.

Por sua vez também não é de maravilhar, porque a devoção para com este santo ultrapassou as soleiras da Igreja católica, suscitando o interesse também dos ortodoxos, budistas e muçulmanos. Onde tenham chegado os franciscanos, aí os povos, sem distinção de fé religiosa, o acolheram como um homem de Deus que com o seu poder taumatúrgico vai ao encontro das dores e das expectativas da humanidade de todos os tempos. Também por isso contam-se dele os seus milagres infindáveis, e às vezes até mesmo sem sentido crítico.

As primeiras etapas

Mas vamos olhar de bem perto a verdadeira história de Antônio. O seu nome de batismo é Fernando Martins; nasceu em Lisboa, Portugal, de uma família abastada, no ano de 1195. Até os 15 anos frequentou a escola da catedral. Nesse tempo, o livro de texto era o Saltério e os alunos mais inteligentes o aprendiam de memória. Servia para aprender a ler e a escrever, para cantar na igreja nas funções religiosas e também como catecismo para se instruir nas verdades da fé. Naturalmente era em latim, a língua de todas as escolas da Europa, que oferecia o privilégio muito grande de poder frequentar os mais prestigiosos centros de estudo desse continente. Junto com as verdades de fé, Fernando aprendeu também a gramática, a retórica, a música e a aritmética.

Aos 15 anos entrou para o mosteiro de São Vicente, dos monges regulares de Santo Agostinho, a poucos quilômetros de Lisboa. Era a única maneira de progredir nos estudos, mas foi também uma ocasião para descobrir a beleza da vida religiosa segundo a regra agostiniana: a vida comum tinha por modelo a primeira comunidade cristã, onde os monges procuravam ser um só coração e uma só alma e com este espírito se lançavam para fora do mosteiro, tendo como finalidade a edificação da Igreja.

Fernando teve ótimos mestres e tornou-se um fervoroso agostiniano. Tinha somente um desgosto: com muita frequência os seus parentes iam lá procurá-lo e isso o perturbava. Havia em Portugal o triste hábito de ir sempre aos mosteiros, não para fazer uma visita breve ou para se aprofundar na vida espiritual, mas para choramingar seus azares e com isso enganar os monges aparentados. Para o jovem Fernando isso não lhe melhorava o gênio, e não podendo se opor a esse abuso já inveterado, precisava num só golpe talhar o mal, e por isso pediu para ser transferido para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, distante 175 quilômetros de Lisboa.

Libertado da presença importuna dos parentes, pôde dedicar-se totalmente aos estudos e à oração. Orientado por ótimos mestres, ele aproveitou bem os estudos de teologia como de costume, começando pela leitura e meditação da Sagrada Escritura, depois a leitura dos escritos dos santos padres, com Agostinho em primeiro lugar, e os comentários mais prestigiosos como os de Pedro Lombardo.

Foi em Coimbra que ele encontrou a possibilidade de saciar a sua sede de sabedoria, mas foi aí também que encontrou uma grande cruz. Essa comunidade há muito tempo estava dividida em duas. Alguns observavam fielmente a regra sob a orientação do mestre João Nunonez, com o apoio até mesmo do papa, enquanto que outros bem consistentes seguiam os costumes dissolutos do prior, Dom João César, que se sentia forte pelo apoio do rei. O régio e pontifício mosteiro agostiniano de Coimbra, mais famoso pela santidade e pela ciência, tinha-se tornado motivo de escândalo em todo o reino.

Aí Fernando terminou os seus estudos e tornou-se sacerdote, sempre fiel ao seu ideal de monge e cultivando a esperança de que o seu mísero prior mudasse de vida, sobretudo depois que ele retornou do Concilio Lateranense IV, que havia chamado a atenção de todos para a necessidade da reforma da Igreja. Uma esperança que o prior de Coimbra logo fez que se tornasse vã, visto que acarretou para o rei e para o reino de Portugal a interdição.

O carisma do qual se enamorou

Nestas circunstâncias tão dolorosas, Fernando conheceu os frades de São Francisco. Eles moravam no cenóbio de Santo Antão das Oliveiras, não muito distante do mosteiro, e sempre vinham pedir esmola. O modo como eles se vestiam e a maneira como anunciavam a palavra de Deus tocaram profundamente o jovem monge agostiniano, mas o que ainda mais o fez pensar foi a chegada a Coimbra dos restos mortais de cinco frades franciscanos martirizados pelos muçulmanos em Marrocos. Esses filhos de Francisco de Assis não brincavam, tomavam o evangelho ao pé da letra e estavam sempre prontos para dar a vida pelo seu ideal.

Fernando procurou quem o aconselhasse e, tendo obtido a permissão do prior, pediu para se tornar franciscano. A passagem para a ordem e a vestição do rude hábito aconteceu no verão de 1220 de forma humilde e quase que escondida, pois Portugal estava sob a pena da interdição; e de fato não era a pompa das cerimônias o que atraía o apreço de Fernando.

A vida em Santo Antão das Oliveiras era aquela que ele, depois de se tornar frei Antônio, tinha sempre sonhado, porque aí a pobreza, a castidade e a obediência não eram dotes de dissertação, mas pérolas luminosas que resplandeciam no cotidiano, e o viver em fraternidade atingia plenamente o sonho evangélico de Agostinho: ser um só coração e uma só alma.

Antônio abraçava o carisma de São Francisco quando já havia adquirido com os agostinianos uma riquíssima bagagem cultural, sobretudo bíblica e patrística, que naqueles tempos ainda não teria encontrado entre os franciscanos. Ao mesmo tempo teve a felicidade de conhecer o franciscanismo no fervor da sua fundação.

Dirigido a Marrocos encontrou-se em Assis

Nesse período, o desejo de Francisco era o de evangelizar as terras onde habitavam os muçulmanos, e então também Antônio se preparou para partir para Marrocos, na esperança de que tal aventura terminasse com o martírio. Frei Antônio partiu no outono do mesmo ano ou na primavera do ano seguinte. Assim que chegou em terras de missões, nela permaneceu por bem pouco tempo, porque adoeceu e logo teve de retornar para a sua pátria. O navio que deveria levá-lo para Lisboa, devido a uma grande tempestade, mudou de rumo e teve de desembarcá-lo na Sicília. A essa altura dos acontecimentos achou melhor tomar o rumo para Assis, onde São Francisco estava preparando o famoso “Capítulo das esteiras”, acolhendo em torno de si os seus frades. Antônio participou desse capítulo como um simples fradinho português, sendo até mesmo desconhecido pelo próprio Francisco. Passou aqueles dias encantando-se na contemplação da humilde figura do fundador. Francisco quase sempre estava sentado aos pés de frei Elias, atento em escutar a palavra de quem ele considerava muito mais douto do que a si mesmo, mas muito decidido quando se tratava de defender o espírito da senhora Pobreza.

Quando terminou o capítulo, era preciso estabelecer a destinação de cada frade e com Antônio ninguém sabia o que fazer, mesmo porque ele só falava em latim e então não era útil para a pregação ao povo. Mas sendo ele sacerdote, tomou-o consigo frei Graciano da Romagna para celebrar a missa no eremitério de Montepaolo. Antônio, além de celebrar a eucaristia para os frades, lhes preparava o alimento enquanto eles repousavam, oravam ou se preparavam para descer novamente do monte para pregar.

Uma teologia que não extinga o Espírito

Em setembro de 1222 aconteceu, porém, um fato curioso. Em uma festa de ordenação sacerdotal de alguns frades, frei Graciano não conseguiu encontrar um bom pregador. Para o espanto de todos, ele foi pedir a Antônio que fizesse a pregação. Talvez já conhecesse o talento de Antônio. E quando Antônio começou a pregar foi uma revelação. Não se podia manter escondido sob o jacá um candeeiro assim tão luminoso. A notícia desse acontecimento chegou logo até os ouvidos de Francisco e com a notícia um insistente pedido: Antônio poderia ensinar a todos os frades a ciência divina das Escrituras.

O espanto foi maior ainda com a resposta de Francisco. Todos sabiam de sua aversão para com os estudos que adulteravam com a vangloria da ciência o vinho genuíno do Evangelho. Mas ele escreveu uma graciosa carta para Antônio, dizendo o seguinte: “A frei Antônio, meu bispo, frei Francisco, saúde! Tenho o prazer de que tu ensines a sagrada teologia aos frades, conquanto que em tal ocupação tu não extingas o espírito da santa oração e devoção, como está escrito na regra. Passar bem”.

Antônio foi chamado de bispo, porque naquela época somente os bispos tinham a tarefa e estavam à altura - se é que estavam! - de pregar e ensinar a verdadeira doutrina aos fiéis; outros só podiam fazê-lo mediante a autorização dos responsáveis das ordens ou do papa, como acontecia com os franciscanos e dominicanos. Francisco reconheceu no seu filho espiritual que a sabedoria genuína do evangelho não era ofuscada pela ciência, mas que foi colocada a seu serviço. São Francisco, confiando no douto frade vindo de Lisboa, aproveitava o seu carisma para iluminar a teologia. Mais tarde será São Boaventura que resplandecerá esta luz no seu máximo esplendor.

Mestre e orientador

No entanto, Antônio abria o caminho, ensinando teologia aos frades nos conventos de Bolonha até o ano de 1224; de Montpellier, talvez no ano de 1225; de Toulouse, no ano de 1225; e de Pádua, de 1229 até 1231. Contemporaneamente continuava a pregação ao povo em várias regiões da Itália setentrional até Rimini, onde se espalhavam as heresias cátara e patarina, depois na França e finalmente novamente nos arredores de Pádua.

Antônio foi também o responsável pelo governo de sua ordem como guardião em Limoges, na França, e como ministro provincial na Itália do norte.

Nos intervalos de tempo livre Antônio escrevia suas lições e suas pregações. Também neste campo ele vivia a pobreza franciscana de seu tempo. Habituado a utilizar-se da rica biblioteca agostiniana de Santa Cruz em Coimbra, agora se encontrava ora nos pequenos conventos ou nos eremitérios somente com o livro do seu Senhor crucificado. Mas, vinha em seu socorro sua magnífica memória, que se movia tranquilamente nas páginas da Sagrada Escritura e nos escritos patrísticos, sem deixar de recorrer aos famosos autores latinos, como Horácio, Cícero, Ovídio e Virgílio, mesmo que suas citações não pudessem ter todo o rigor científico pela falta de códices para consultar.

Aos frades, Antônio ensinava a teologia que ele havia aprendido, uma teologia bíblica que privilegiava a meditação da Palavra enriquecida pelos comentários dos santos padres, mas toda ela envolvida pela inspiração própria do carisma franciscano, que vê Deus como amor, do qual provém toda a criação.

O Filho de Deus é a revelação deste amor, uma revelação iniciada na encarnação no seio virginal de Maria e elevada à máxima expressão na paixão. Antônio e os seus ouvintes tinham bem vivo diante de seus olhos o que havia acontecido ao seráfico pai sobre o monte de Verna.

A lei trinitária: o amor

Segundo o ensinamento de Antônio, não só a vida dos frades, mas a de todo cristão, deve ser vivida de acordo com a lei trinitária do amor nas suas duas direções: amor para com Deus e amor para com o próximo. Repetindo o que disse santo Isidoro de Sevilha, ele também cita um exemplo dizendo que a águia, depois de ter posto três ovos no seu ninho, atira para fora um para poder chocar somente dois, de antemão sabendo muito bem que não poderá alimentar três filhotes. Assim também nós não podemos alimentar o amor de Deus, o amor ao próximo e o amor próprio; o cristão deve expulsar do seu íntimo o amor próprio para poder levar em frente o amadurecimento dos outros dois amores.

Antônio foi um mestre incomparável pela simplicidade da sua linguagem, pela vivacidade das imagens e pela síntese que permitia ao ouvinte guardar na memória tudo quanto havia escutado. “Jesus Cristo” - dizia Antônio - “nos alimenta cada dia com a doutrina evangélica e com os sacramentos da Igreja”. Ele partia sempre da palavra de Deus como um alimento indispensável, mas, consciente da fraqueza humana, logo acrescentava a graça dos sacramentos.

Mesmo em meio às ocupações, Antônio seguia as orientações de são Francisco, gostava de retirar-se por algum tempo nos pequenos eremitérios da ordem, ou até mesmo a pequenas grutas para se dedicar mais intensamente à oração, que ele não definia “uma elevação da mente”, mas sim “uma elevação do coração a Deus”, um relacionamento de amor entre a criatura e o Criador, um contemplar e um discorrer entre o amante e o amado. Por isso a primeira coisa que ele ensinava a respeito da oração era “pedir Deus a Deus”. Essa frase parece para nós fazer eco à resposta de santa Clara a são Francisco.

Essas coisas Antônio as vivia, ensinava-as aos frades e as pregava ao povo e, para ajudar uns e outros, as escrevia. Assim é que nasceram os Discursos dominicais e os Discursos festivos, que lhe valeram o título de doutor evangélico. Os Discursos festivos ficaram incompletos por causa de seu falecimento.

Reformador da Igreja

No imaginário popular, Antônio apresenta um aspecto delicado e juvenil, um caráter paciente e submisso e uma palavra doce e persuasiva. Frequentemente traz nos braços a imagem de Jesus menino. A realidade histórica é um pouco diversa.

Dos exames feitos em seus restos mortais se sabe que ele possuía um rosto com traços decididos ou - como se costuma dizer - uma face que parecia talhada a machado. A aparência física espelhava bem o seu caráter. Conseguiu dominar a si mesmo e tornou-se um homem pacífico, mas no momento oportuno também sabia colocar para fora suas garras, não para defender a sua pessoa mas para afirmar com clareza as verdades evangélicas.

Aquilo que ele havia visto quando jovem no mosteiro de Coimbra percebia-o também em muitos outros lugares, porque a vida dos eclesiásticos daqueles tempos não era nada edificante. Se lhe pediam para combater a heresia cátara, primeiro deviam permitir-lhe corrigir os costumes daqueles que eram a causa mais profunda da heresia.

Em um de seus discursos ele escreveu: “Os prelados e os clérigos usurpam a ciência do Antigo e do Novo Testamento... quando não a aprendem para a edificação dos outros, mas para receber louvores e honras. Para eles eis o que vem dito nos Provérbios: Um anel de ouro no focinho de um porco, tal é a mulher bonita, mas sem juízo. A mulher bonita e insensata são os clérigos que são indolentes e bem adornados como as mulheres que se entregam por dinheiro: belos pelo luxo das vestes, pelas filas de sobrinhos e talvez até de filhos e pelos muitos rendimentos; insensatos porque o que dizem, nem eles mesmos nem os outros o fazem. Todos os dias gritam nas igrejas e uivam como cães, mas sem se fazerem entender, porque o corpo está no coro, mas a alma está na praça... Eles que possuem o anel de ouro da ciência e da eloquência não se envergonham de, como verdadeiros porcos, deixá-lo cair no estrume do luxo e da avareza... Não procuram a verdade do Evangelho, não vivem segundo as prescrições dos fundadores, mas vivem de maneira dissoluta e falsa”.

Antes de tudo recomendava aos religiosos a humildade como virtude fundamental para entrar em comunhão com Deus e empreender um caminho evangélico. Fazia também uma observação muito apropriada a respeito dos pequenos defeitos que acompanham sempre a vida também das pessoas virtuosas que, “junto com as boas coisas que produz, julga serem para a sua humilhação os defeitos. O não sabê-los vencer, não obstante a pequenez deles, é para a pessoa uma advertência contínua a viver na humildade”.

Referindo-se aos sábios que entravam no convento e que mais facilmente eram tentados a serem soberbos, recordava: “Se em uma comunidade temos sábios, Deus para convocá-los serviu-se dos simples. Por isso ele escolheu o que no mundo é estulto e ínfimo, fraco e desprezível, para associar a si os sábios, os fortes e os nobres, para que ninguém possa se gloriar de si mesmo, mas naquele que em Nazaré estava submisso a eles”. No fundo era esta a sua experiência.

É interessante também o que ele dizia sobre a obediência: “Não conseguirás jamais ver se não fores obediente... Se fores surdo à voz de quem comanda, serás também cego. Obedece, pois, com todo o afeto do teu coração, para poderes ver com o olho da contemplação... Deus coloca um olho no coração, quando em quem obedece infunde a luz da contemplação”.

Antônio faz notar aos leigos, que normalmente vivem no matrimônio, que Deus lhes pede a pureza da mente, e aos religiosos a castidade perfeita. Mas a pregação mais eficaz sobre a castidade era a sua própria presença da qual transparecia o divino.

Estes três pilares da vida cristã e religiosa, a pobreza, a obediência e a castidade, não possuem nenhuma consistência e são abatidas facilmente pelos primeiros sintomas de luta, se não forem animados sempre pelo amor. Ele gostava de recordar: “Duas coisas, o amor a Deus e ao próximo, tornam perfeito o ser humano”.

Defensor dos pobres

Na última etapa de sua vida (1229-1231) percorreu várias cidades e vilas do Vêneto, pregando e repacificando os ânimos, tomando a peito a defesa dos mais fracos, mas nem sempre alcançando o fim desejado. O cronista Rolandino de Pádua, contemporâneo do santo, conta que Antônio “quer porque colocasse a sua confiança no Senhor, quer porque lhe fosse pedido pelos amigos do conde Rizzardo, foi a Verona e aí esconjurou os dirigentes da liga lombarda e a suprema autoridade municipal de Verona, senhor Ezzelino, e os seus conselheiros, para que libertassem o conde e os seus amigos. Mas de nada valeram as orações, mesmo que fossem justas, para o coração daqueles que não possuem a caridade. Sem ter sido atendido, o santo retornou para Pádua”.

Uma das pragas mais tremendas daquele tempo eram as leis injustas que permitiam não só a usura, mas também a prisão para aqueles que não podiam pagar as próprias dívidas. Sua pregação contra essas injustiças convenceu a cidade de Pádua a emanar uma lei que no dia 15 de março de 1231 conseguiu eliminar essa praga social. “A pedido do reverendo e piedoso frade Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, nenhum devedor ou fiador poderá ser privado no futuro da sua liberdade, quando estiver impossibilitado de pagar. Em tal caso poderá responder com a sua propriedade, mas não com a sua pessoa e a sua liberdade.”

Dos ramos da nogueira à casa do Pai

No mês de maio do ano de 1231, no calor da primavera que estava em andamento, Antônio se transferiu da ermida de Camposampiero, próximo de Pádua, para hospedar-se no castelo do conde Tiso. Aí podia tranquilamente dedicar-se à oração e continuar a redação dos Discursos festivos. Porém não aceitou viver em um quarto do castelo, mas construiu para si uma pequena cela em cima de uma nogueira para viver imerso em Deus e na natureza. Pouco tempo depois ele adoeceu e precisou descer e ir novamente para Pádua. Em viagem foi forçado a parar na localidade chamada Arcella, onde os frades haviam aberto um asilo. No dia 13 de junho de 1231, Antônio partia deste mundo e o seu corpo era sepultado na igrejinha de Santa Maria Mater Domini (Santa Maria Mãe do Senhor), onde hoje está a famosa basílica em Pádua.

O povo que ele instruiu na fé e defendeu contra as injustiças logo o escolheu como seu padroeiro e um ano depois o papa Gregório IX o proclamou santo. Em 1263, são Boaventura fez o reconhecimento dos restos mortais e encontrou incorrupta a língua do santo frade. No ano de 1946, Pio XII o declarou doutor da Igreja.

______________________________________________________________ [1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

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