Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

dez 02

O SANTO DO MÊS DE DEZEMBRO: SANTO AMBRÓSIO

SANTO AMBRÓSIO - 2

SANTO DO MÊS –

07 de dezembro –

*Enrico Pepe[1]

Santo Ambrósio (340-397) – (Bispo e Doutor) –

“Eis um homem que não foi nutrido no seio da Igreja, que não foi chamado quando criança, mas que ai chegou raptado dos tribunais... eis um homem que passou das disputas do fórum para o canto dos salmos; ei-lo sacerdote não por virtude sua, mas por graça de Cristo, assentado entre os convidados para a mesa celeste.” 

De catecúmeno a bispo, não obstante a proibição do segundo cânon do Concilio de Nicéia. Para Ambrósio abriram uma exceção, aplicando ao seu caso a expressão: Vox populi vox Dei! [A voz do povo é a voz de Deus!].

Ele estava em Milão para governar, além daquela região, também a Ligúria e a Emília, quando morreu o bispo Auxêncio que havia seguido a fé ariana. Ambrósio sabia que os cristãos estavam profundamente divididos entre arianos e católicos, e, na esperança de evitar que surgissem graves tumultos, tinha se dirigido à basílica cristã, onde leigos e presbíteros estavam reunidos junto dos bispos da província para eleger o novo pastor. Não pretendia intrometer-se nesse assunto interno da Igreja, mas recomendou calorosamente que a eleição se desenvolvesse em um clima de paz, como convinha a verdadeiros cristãos.

Seu discurso foi acolhido em respeitoso silêncio e agradou a ambas as facções. Em um dado momento alguém gritou: “Ambrósio, bispo!” A aclamação foi repetida unanimemente pelo povo, e Ambrósio encontrou-se em uma situação verdadeiramente e ilimitadamente absurda.

Sabia que como catecúmeno não podia ser eleito bispo; isso sem contar que não havia recebido nenhuma preparação para um tal cargo. Tentou, pois, todos os meios para subtrair-se, mas no fim precisou aceitar, também porque a vontade do povo era confirmada pelo beneplácito dos outros bispos e do próprio imperador.

Quem era Ambrósio?

A maior parte das notícias sobre Ambrósio devemo-las a seu secretário, o diácono Paulino, que dele escreveu a Vida, mediante sugestão de Santo Agostinho.

Seu nome de família pertencia à gens Aurelia e podia orgulhar-se de uma sólida tradição cristã. Já sob Diocleciano uma parenta, Sotere, “jovem filha de magistrados e de cônsules”, havia honrosamente enfrentado o martírio.

Nasceu aproximadamente no ano 340 em Treviri onde o pai, que se chamava também Ambrósio, era prefeito das Gálias. Não conhecemos o nome da mãe: tinha uma irmã maior, Marcelina, e um irmão, Sátiro. Ele era o terceiro filho do casal.

Com a morte imprevista do pai toda a família retornou para Roma. A viúva não tinha dificuldades econômicas para levar adiante a educação dos filhos, porque possuía bens até na África.

Marcelina escolheu o seu caminho e no ano 343 consagrou-se virgem na basílica de São Pedro durante a solene liturgia da noite de Natal celebrada pelo papa Libério. Deste acontecimento Ambrósio conservou uma belíssima recordação e a sua estima pela irmã foi sempre muitíssimo elevada.

Entretanto, Sátiro e Ambrósio dedicavam-se aos estudos para entrar para a carreira dos funcionários imperiais, a mais estimada e a mais rendosa. Certamente Ambrósio nesse período precisou estudar não só os clássicos latinos, mas também os clássicos gregos, porque adquiriu um ótimo domínio dessas duas línguas.

Terminados os estudos, encontramo-lo em Sírmio na Panônia, na atual parte ocidental da Hungria, como advogado do pretório daquela prefeitura. Pelas suas capacidades, aproximadamente em 370, foi escolhido como governador das províncias da Ligúria e da Emília com sede em Milão. O prefeito de Sírmio, ao comunicar-lhe essa nomeação, lhe teria dito: “Vai, comporta-te não como juiz, mas como bispo”.

Antes cristão, depois bispo

Sendo um homem inteiramente imparcial e a serviço do bem público, logo ganhou não só a estima, mas também o afeto da população. Também por isso, depois de breve tempo, o fiel servidor do império precisou aceitar, malgrado seu, a eleição para pastor da Igreja milanesa.

Sob a direção do presbítero Simpliciano preparou-se para o batismo. Tornar-se cristão foi para Ambrósio fazer a escolha decisiva daquele estilo de vida muito bem conhecido também em Milão, o estilo próprio dos ascetas. Se não podia se retirar para a vida privada em um mosteiro, podia, porém, encarnar como bispo todos os valores evangélicos da vida monástica. Despojou-se dos seus bens, também das possessões de terras na África recebidas em herança, doando-os à Igreja em benefício dos pobres; empenhou-se não só em viver casto, mas em promover a virgindade, vendo nela o ornamento mais nobre de uma comunidade cristã; restava-lhe a sua vontade, mas também esta quis submeter a Simpliciano, não para se subtrair das suas responsabilidades de bispo, mas para ter um mestre espiritual com quem confrontar-se.

Com estas disposições recebeu o batismo a 30 de novembro e a plenitude do sacerdócio no dia 7 de dezembro do ano 374. Escolheu como colaborador o presbítero Simpliciano, abade do pequeno mosteiro de presbíteros que habitavam com o novo bispo, seguindo nisso o exemplo de santo Eusébio de Vercelli.

Mais tarde, recordando esse primeiro período do seu episcopado, dirá que em geral uma pessoa primeiro aprende e só depois é que ensina, enquanto para ele aconteceu o contrário: encontrou-se na cátedra sem ter antes aprendido. Mas talvez não fosse exatamente assim: ele já tinha o cristianismo no sangue e o Evangelho, ele o vivia desde criança.

Habituado a cumprir os seus deveres com competência, entregou-se ao estudo acurado da Sagrada Escritura e dos padres da Igreja. O conhecimento do grego lhe facilitava o acesso aos grandes padres orientais, como Orígenes, Atanásio e Basílio. Estudava e orava, depois escrevia e pregava. Mais tarde, em uma carta ao neo-eleito bispo Vigílio, dava estes conselhos: “Os teus sermões sejam fluentes, puros, cristalinos, e que o teu ensinamento moral soe doce aos ouvidos do povo e a graça das tuas palavras conquiste os ouvintes, para que te sigam docilmente aonde tu os conduzes. O teu falar seja pleno de sabedoria’’.

Era o seu modo de propor a palavra de Deus ao seu povo. Testemunha-o santo Agostinho, que nesta matéria era muito exigente. Enquanto estava em Milão, foi um dia, por curiosidade, à basílica onde Ambrósio pregava, ficou fascinado e o escolheu como seu mestre na fé.

Se Ambrósio passava muitas horas no estudo, não podia deixar de atender aos outros deveres de um bispo. Uma atividade, a sua, muito intensa, mas também muito organizada. Depois da sua morte foram necessários cinco bispos auxiliares para levar adiante todas essas tarefas.

Defensor dos pobres

Uma das tarefas dos bispos naquele tempo era dar audiência. Eram muitos os que acorriam a Ambrósio com os seus problemas, sobretudo aqueles que eram vítimas de injustiças. Talvez vissem ainda nele o ótimo governador, mas, sobretudo, queriam escutar sua palavra e seu conselho. Ele conhecia bem as leis dos homens e a lei de Deus, e sabia encontrar para cada um a estrada justa para que os direitos dos pobres não fossem espezinhados.

Por sua natureza era simples, mas quando se tratava de defender os pobres tornava-se um leão e não voltava atrás nem diante do imperador e dos seus generais. Quando Teodósio ordenou a matança na cidade de Tessalônica, impediu-lhe o ingresso na igreja e, para ser readmitido à eucaristia, o primeiro cidadão do império precisou sujeitar-se à penitência pública como qualquer outro pecador.

Aos seus sacerdotes recordava distribuir os bens da Igreja sem esquecer nenhum necessitado: “Lembra-te daqueles que estão no cárcere; devem estar presentes na tua memória também os doentes, que não podem gritar aos teus ouvidos”.14

No ano 378, depois de uma invasão de soldados nórdicos, que tinham levado consigo, como escravos, homens e mulheres, o bispo não hesitou em fundir as peças de ouro e os vasos sagrados para pagar seu resgate. A quem teve a ousadia de criticá-lo respondeu: “Se a Igreja tem ouro, não é para guardá-lo, mas para doá- lo a quem dele precisa. Se não o tivesse dado, o Senhor me poderia dizer: ‘Como suportaste que tantos pobres morressem de fome? Como permitiste que tantos prisioneiros fossem assassinados? Melhor conservar os cálices vivos das almas do que aqueles de metal’. Teria podido talvez responder que não podia privar o templo do esplendor conveniente? Dir-me-ia o Senhor: ‘Os sacramentos não têm necessidade do ouro, porque não é com o ouro que se obtêm”’.15

A formação dos ministros do altar

Ambrósio tomava essa tarefa particularmente muito a sério. Para eles, que estavam reunidos em vida comum ao redor de Simpliciano no conhecido mosteiro dos presbíteros, escreveu Os deveres dos eclesiásticos em três livros.

“Queria-os plenamente conformados a Cristo, possuídos totalmente por ele e providos das mais sólidas virtudes humanas: a hospitalidade, a afabilidade, a fidelidade, a lealdade, uma generosidade que espanta a avareza, a reflexão, um pudor impoluto, o equilíbrio, a amizade. Exigente quanto paterno, o seu afeto para com os sacerdotes era verdadeiramente transbordante: ‘Por vós, que gerei no Evangelho, não nutro menor amor do que se vos tivesse gerado pelo matrimônio’.”

Cantor da virgindade

Um capítulo glorioso da ação pastoral de Ambrósio foi o cuidado das pessoas consagradas a Deus. Em Milão eram muitos os ascetas e as virgens disseminados em numerosos mosteiros masculinos e femininos ao redor da cidade. E eram numerosas também as virgens que, mesmo permanecendo nas suas famílias, se dedicavam ao serviço da comunidade. Ambrósio, que na sua família tinha delas um exemplo admirável na irmã Marcelina, tornou-se o cantor da virgindade.

“A virgindade” - dizia - “foi procurar no céu o modelo a imitar na terra; e era justo que se procurasse no céu a norma de vida, ela, que no céu havia encontrado o Esposo, foi transportada para além das nuvens, para além dos espaços estelares, acima dos próprios anjos; no seio do Pai encontrou o Verbo de Deus e com o poder do seu amor o atraiu a si... E quem poderá negar que tenha vindo do céu este gênero de vida, se na terra era praticamente desconhecido antes que Deus nela descesse para assumir a natureza humana? Foi exatamente quando a Virgem concebeu no seu seio, e o Verbo se fez carne para que a carne se tornasse Deus... Quando o Filho de Deus se fez homem unindo, sem nenhuma mancha carnal, a natureza divina à humana, então esta vida celeste se difundiu entre os homens e fora em todas as partes do mundo”.

O ideal que apresentava era tão belo que, mesmo o seguindo, acorriam a ele numerosos jovens da alta sociedade não só de Milão e das cidades italianas, como Bolonha e Piacenza, mas até mesmo da distante África. As famílias, sobretudo aquelas de alto coturno, começaram a alarmar-se e proibiram às suas filhas de ir para a Igreja para escutá-lo. Para as virgens escreveu cerca de cinco livros.

Co-responsável por toda a Igreja

Sua ação pastoral não se restringiu à diocese de Milão nem mesmo à Itália do norte, da qual era metropolita e onde fundou novas dioceses, escolheu e consagrou bispos dignos e preparados, mas sua influência estendeu-se até a Panônia, a Dácia, a Macedônia. Foi pessoalmente a Aquiléia, a Sírmio, a Vercelli, a Bolonha, a Florença, a Pavia e a Roma, fazendo sentir em toda parte sua influência de homem de paz.

Em Roma defendeu o papa Dâmaso contra o antipapa Ursino. Ele tinha um sentido muito distinto das funções do bispo de Roma como centro de unidade para todos os cristãos. É sua a famosa expressão: “Onde está Pedro, aí está a Igreja”.

Defensor da liberdade da Igreja

Tratou com os políticos do tempo com muito tato, mas também com energia. Um momento muito delicado para Ambrósio foi quando, lá pelo fim de 384, a imperatriz Justina acolheu com todas as honras em Milão um bispo ariano, Mercurino, e quis que Ambrósio lhe cedesse uma igreja. Este opôs uma nítida rejeição, ao passo que o povo ocupou a igreja para não cedê-la ao ariano. A corte voltou atrás e pediu-se a Ambrósio que acalmasse a população.

A imperatriz aguardou um ano para pôr-se na contra-ofensiva, emanando uma lei que concedia liberdade de culto aos arianos e cominava severas penas para quem a essa lei se opusesse. Entre ela e Ambrósio estabeleceu-se um braço de ferro. À ordem peremptória de entregar a Mercurino a basílica Porcia nas portas de Milão, Ambrósio respondeu que “um sacerdote de Deus não pode entregar a qualquer pessoa o seu templo”. O povo colocou-se do lado de Ambrósio e a corte deu ordem aos soldados de passar à repressão. Ambrósio admoestou os soldados que seriam privados da comunhão com a Igreja, se tivessem usado a violência. Muitos militares abandonaram o seu posto e os outros não moveram um dedo. A corte também desta vez precisou ceder.

Na Páscoa de 387 Ambrósio batizava, com outros catecúmenos, Agostinho de Hipona, que havia participado de todos aqueles acontecimentos, admirando a firmeza e a prudência do bispo.

Dez anos depois, em fevereiro de 397, voltando de uma viagem a Pavia para a ordenação de um bispo, Ambrósio adoeceu gravemente e a 4 de abril, »sábado santo, recebeu a eucaristia e deixou esta terra.

Doutor da fé

A produção literária de Ambrósio é muito vasta e fez dele um grande padre da Igreja, merecendo dela, com pleno direito, o título de doutor. Ele não era um especulativo como Agostinho, mas um pastor inteligente que ensinava a sã doutrina com competência e fidelidade. Na escolha dos argumentos era guiado pelas necessidades concretas da sua Igreja: escrevia o que devia pregar.

E considerado também pai da mariologia latina. “De Maria Ambrósio foi o teólogo refinado e o cantor incansável. Ele oferece um retrato atento, afetuoso, particularizado, tratando-lhe das virtudes morais, da vida interior, da assiduidade ao trabalho e à oração. Mesmo na sobriedade do estilo, transparece sua cálida devoção à Virgem Maria, Mãe de Cristo, imagem da Igreja, modelo de vida para os cristãos. Contemplando-a no júbilo do Magnificat, o santo bispo de Milão exclama: “Em cada um esteja a alma de Maria a engrandecer o Senhor, esteja em cada um o espírito de Maria a exultar em Deus”.

As virgens escrevia: “Que a vida de Maria seja para vós, ó virgens, o tipo perfeito da virgindade na qual, como em um espelho, resplandecem a imagem da castidade e o ideal da virtude”.

Sempre por razões pastorais tratou dos sacramentos da iniciação cristã e da penitência. Assim fala da eucaristia: “Tu talvez dirás: este pão é como o outro. Sim! Antes que sejam pronunciadas as palavras da consagração é pão como qualquer outro; mas depois da consagração de simples pão torna-se carne de Cristo... Como acontece isto? Mediante o poder das palavras pronunciadas (por intermédio do sacerdote) pelo próprio Cristo”, e convidava à comunhão frequente.

Opôs-se decididamente contra os restos do paganismo, sobretudo quando senadores nostálgicos queriam recolocar em evidência o culto da deusa Vitória, também para tornar amigo um conspícuo grupo de sacerdotes pagãos que desse modo teriam recebido do Estado o seu pagamento. Nesta ocasião ele escreveu: “Não existe nenhuma segurança para quem não adora com sinceridade o verdadeiro Deus, o Deus dos cristãos, pelo qual o universo é governado. Somente ele é o verdadeiro Deus, e a ele apenas devemos adorar.

Os deuses pagãos não são senão demônios, diz a Escritura. Quem, portanto, milita para o verdadeiro Deus e o adora com profundo respeito não deve fazer uso de ficções, nem de conivências, mas consagrar-lhe todo o seu zelo e a sua devoção”.

Como mestre de vida Ambrósio tem uma linha propositiva, não se limitando à simples proibição do não fazer, mas indicando sempre o bem a atuar em vista não só da perfeição pessoal, mas também do bem-estar social.

Mesmo dotado de tantos dons, estava consciente da própria fraqueza, como revela esta sua oração: “Dá-me ser humilde, ó Deus, e concede-me que toda vez que se tornar conhecido o pecado de uma pessoa caída, eu tenha de compadecê-la e não elevar soberbamente a minha voz, mas chorar e gemer ao lado dela e assim, enquanto choro pelos outros, choro também por mim mesmo”.

Talvez também por isso sua delicadeza para com a humana fragilidade, Deus o escolheu como instrumento para a conversão do grande Agostinho.

_____________________________________________________________________

[1] PEPE, Enrico. Mártires e Santos do Calendário Romano. Ave Maria. São Paulo: 2008. 838 páginas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: