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mai 22

O RESGATE DA MEMÓRIA DE PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA – PARTE II

PADRE CÍCERO

PADRE CÍCERO: UM NOME DA NOSSA HISTÓRIA –

PARTE II –

            Estamos prosseguindo com a divulgação de alguns trechos do livro “PADRE CÍCERO – Poder, Fé e Guerra no Sertão[1]”, do jornalista e escritor Lira Neto, e editado pela Companhia das Letras, por meio do qual o autor revela aspectos bastante interessantes da vida e da história de Padre Cícero Romão Batista, inclusive, sobre o início dos trabalhos de revisão da pena imposta ao sacerdote cearense revelando, ainda, que tudo (re)começou sob a orientação do então Cardeal Joseph Ratzinger, então Prefeito da poderosa Congregação  para a Doutrina da Fé. A importância do relato, a induzir a aquisição do livro, é levar aos nosso leitores uma pequena contribuição acerca da riquíssima história devocional do nosso povo, em especial, do povo nordestino que, apesar de todos os pesares, jamais perdeu a fé e a esperança.

“Nos bastidores do Vaticano, o futuro papa Bento XVI planeja redimir um padre maldito

 2001-2006

 - CONTINUAÇÃO –

             A discutida relação de Cícero Romão Batista com jagunços e cangaceiros tem sido outro entrave à possível anistia cogitada por Ratzinger. Como absolver das penas do Tribunal do Santo Ofício um padre sobre cujas costas os detratores jogam a responsabilida­de pela concessão da patente de capitão ao mais feroz de todos os bandoleiros nordestinos, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lam­pião, em troca do compromisso para que o "Rei dos Cangaceiros" enfrentasse, em 1926, a célebre Coluna Prestes em sua passagem pelo sertão? Como indultar um clérigo que mesmo antes disso, em 1914, teria benzido rifles, punhais e bacamartes, aparato bélico entregue à jagunçada para promover uma revolução armada, uma sedição que envolveu saques violentos a várias cidades interioranas, provocou a morte de centenas de inocentes e resultou na der­rubada de um governo legal? Como redimir as penalidades de um sacerdote que se transformou em líder político, fez-se o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, elegeu-se deputado federal, tornou- -se vice-presidente (cargo então equivalente ao de vice-governador) do Ceará e arquitetou um pacto histórico entre os poderosos coronéis do sertão? Como perdoar um padre que acumulou vasto patrimônio à custa das esmolas e das doações de fiéis? Para os algozes de Cícero, não faltariam argumentos contrários à suposta reabilitação canônica. 

            Entretanto, do mesmo modo, não são poucos os que definem a eterna tempestade de acusações contra Cícero como frutos de in- verdades históricas, interpretações distorcidas e preconceitos elitis­tas que foram se acumulando, ao longo do tempo, em torno de tão controvertida figura. A carta que o cardeal Joseph Ratzinger escreve nesta manhã de primavera europeia tem exatamente o objetivo de retomar — com a chancela do brasão da Santa Sé — uma questão sobre a qual se debatem, por décadas a fio, apologistas e difamado- res de Cícero Romão Batista. Quem foi esse homem misterioso que, mesmo tendo um decreto de excomunhão assinado contra si, arre­batou o coração das massas e passou à memória coletiva e ao pan­teão popular como o santo Padim Ciço? Era um apóstolo visionário que soube entender a língua do povo, converteu multidões com sua singela pastoral sertaneja, mas ainda assim foi injustiçado por um clero intransigente, etnocêntrico, refratário às diferenças? Ou foi um sujeito astuto que usou a batina em seu próprio benefício, amealhou fortunas em terras, imóveis e gado, alimentando a sede de poder com a miséria e a ignorância de seus devotos? 

            Não parece ter sido coincidência. Poucos meses depois de a carta de Joseph Ratzinger ter alcançado o devido destino na sede da CNBB, em Brasília, um novo bispo diocesano desembarca no pequeno terminal de passageiros do aeroporto Orlando Bezerra de Menezes, em Juazeiro do Norte. O homem nomeado por João Paulo n para administrar dali por diante a diocese do Crato, à qual está subordinada a forania de Juazeiro, é um italiano sorridente e de fala serena. Quando perguntado se vem com alguma missão específica — e se tal missão tem relação direta com a possível reabilitação de padre Cícero —, ele silencia. Em alguns casos, dependendo do interlocutor, vai além: esboça um de seus enigmáticos sorrisos. 

            O recém-chegado, dom Fernando Pânico, nascido em 1946 na cidade de Tricase, sul da Itália, exibe um currículo exemplar. Além de sobrinho de um cardeal com respeitáveis serviços prestados à Santa Sé — dom Giovanni Pânico, ex-núncio em Portugal —, traz na bagagem os diplomas de bacharel em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e em teologia pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, ambos em Roma. Mestre em teologia litúrgica e doutor em liturgia, Pânico está desde 1974 no Brasil. Aqui, sempre trabalhou em dioceses nordestinas. Primeiro no Maranhão, onde foi reitor de seminário; depois no Piauí, como bispo de Oeiras e Floriano. Conhece bem, portanto, o universo e os matizes da religiosidade popular dos sertões. Está familiarizado com as singularidades das manifestações de fé do catolicismo caboclo, que tem em padre Cícero uma de suas maiores referências. 

            Tão logo toma posse no comando da diocese, em junho de 2001, dom Fernando Pânico demonstra, sem meias palavras, claramente a que veio. Do alto do púlpito, durante a homilia que faz na primeira missa como novo bispo do Crato, anuncia o propósito de encorajar e apoiar novos estudos críticos sobre a trajetória de Cícero Romão Batista. Em uma carta pastoral aos fiéis, datada de 20 de outubro, rea firma o mesmo propósito, dessa vez em letra de forma: "Ele merece nosso carinho, apesar de tudo o que contra ele aconteceu e se tem escrito", observa o bispo, a propósito do ambíguo sacerdote. Tais afirmações causam profundo mal-estar nos membros mais tradicio­nais do clero do Crato, que têm Cícero na conta de um embusteiro histórico, "padre Cícero chegou ao Juazeiro missionário, tomou-se visionário e acabou milionário", costumava dizer dom Newton Ho­landa Gurgel, o antecessor de dom Fernando, que se viu compelido a renunciar ao cargo ao completar 75 anos de idade e passar a mitra ao sucessor. 

            Contudo, não há dúvidas de que os ventos da Igreja pretendem soprar em outra direção. O que está em cena não é uma mera ques­tão paroquial, uma nova frente de batalha na eterna rivalidade entre cratenses e juazeirenses. Nesse mesmo mês de outubro de 2001, dom Fernando embarca para Roma, acompanhado dos demais bispos do Ceará e do Piauí, por ocasião da visita ad limina ao Vaticano — uma obrigação imposta pela Igreja a seus prelados a cada cinco anos, que devem ajoelhar-se diante dos túmulos dos apóstolos são Pedro e são Paulo; nessa ocasião, são recebidos pelo papa para reportar o estado pastoral de suas respectivas dioceses. Dom Fernando aproveita a viagem à Cidade Eterna e logo obtém uma audiência com o cardeal Joseph Ratzinger, no Palácio do Santo Ofício. Na pauta do encontro com o prestigioso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o assunto é um só: padre Cícero.”

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CONTINUA EM BREVE

_____________________________________________________________ PADRE CÍCERO - O LIVRO  

[1] NETO, Lira. PADRE CÍCERO – PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO. São Paulo. Companhia das Letras: 2009. 557 páginas.

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