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nov 12

MARIA: MÃE DE DEUS E DOS HOMENS

maria-mae-de-deus-e-dos-homensMARIA: MULHER DE DEUS E DOS POBRES[1] -

 

             O título acima é do livro da religiosa argentina Clara Temporelli, da Ordem da Companhia de Maria Nossa Senhora, do qual pretendemos publicar alguns trechos, a fim de prosseguirmos com o trabalho de divulgação de diversos aspectos da pessoa, da vida, da santidade e da devoção a Maria, Mãe de Deus e nossa também.

            Vamos iniciar, destacando a parte do livro que aborda o tema-chave do Concílio de Éfeso, no qual Maria é afirmada como verdadeira Mãe de Deus – Theotokos. Assim, nossa autora principia sua trajetória mariana:

“A Theotokos e seu contexto religioso

 Conforme assinalamos, o concilio queria esclarecer o fato de que Jesus Cristo é o Filho de Deus nascido de mulher e, portanto, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É assim que Maria se tornou parte dos argumentos teológicos evocados nos debates cristológicos. Desde então, podemos dizer que “a mariologia se converteu em disciplina teológica”.[2]

 Durante aqueles dias do concilio, o povo de Éfeso ouvira em todas as igrejas pregações sobre Maria como Theotokos. Esse mesmo povo, depois da segunda sessão, acolheu com entusiasmo a proclamação de Maria como Theotokos e acompanhou alegremente os padres conciliares a suas casas. Cirilo de Alexandria atesta:

 Levaram-nos em meio a tochas a nossas residências. Era de noite. A alegria era geral e toda a cidade se iluminou. As mulheres seguiam adiante com incensários. O Senhor demonstrou sua onipotência contra os que blasfemavam seu Santo nome.[3]

 Em Éfeso, o povo venerara durante séculos a Grande Mãe (originalmente, a deusa virgem Ártemis). Por isso, existia na cidade uma religiosidade popular arraigada, que logo adotou e batizou muitas práticas pagãs e tributou a Maria as honras que, em outra época, eram reservadas à Rainha do Céu.[4]

Com relação a esse tema, J. Moingt aponta:

 Para os historiadores das religiões, não há nada de novo nisso: a representação de uma divindade feminina e materna, de uma deusa mãe, domina gravida, senhora grávida, que dá à luz milagrosamente, leva nos braços e amamenta seu filho divino, é atestada em todas as reli­giões, desde os mais antigos milênios, pela arqueologia e pela epigrafia. Em Roma e em todo o império adorava-se a Grande Mãe, Mãe dos Deuses ou Venus Genitrix. O mesmo ocorria lá onde apareceu o culto a Maria: na Anatólia, desde a época paleolítica, prestava-se culto à Mãe dos deuses, a deusa Kurotrofos, e a seu divino filho, representado como um belo jovem; no Egito adorava- se a deusa Ísis alimentando seu filho Hórus. É possível que Nestório tivesse isso em mente ao denunciar como uma “enfermidade grega” a ideia de “levar o Deus Verbo, associado por apropriação, à lactação”. Ocorrerá, de fato, que muitos elementos do culto a Ísis serão reciclados na nova devoção a Maria Theotokos. “Os deuses vão, os cultos ficam”, constata Eric Dodds. A conivência dessa devoção com um imaginário religioso ancestral será uma ajuda pouco contestável para a penetração da fé cristã em povos ainda marcados pela religiosidade pagã.[5]

 Os cultos e as crenças anteriores ao processo de uma nova evangelização e inculturação da fé cristã se concretizam em Éfeso, onde o culto a Maria cresce e, com ele, as características da Virgem e Mãe, que assume títulos e funções das grandes deusas das cidades importantes do império romano.

 É verdade que as discussões conciliares se concentraram nas questões cristológicas, mas, para o povo simples, as categorias discutidas pelos padres conciliares não faziam sentido algum, ou não eram totalmente captadas. No entanto, o culto às deusas estivera muito arraigado ali, e com tal força que a definição de Maria como Theotokos significava reconhecer para ela um lugar destacado no panteão cristão. Com esta proclamação se realiza, por um lado, uma nova relação com o paganismo - Maria assume e transforma as figuras divinas femininas - e, por outro lado, se dá uma diferença notável entre as antigas deusas e Maria - ela não gera por si mesma um filho de Deus, mas sim recebe de Deus um Filho, que deve unicamente a Deus o ser propriamente Filho de Deus; não o gera fora do tempo nem no mundo dos deuses, gera-o na terra e no tempo, para que pertença à história da huma­nidade; além disso, seu culto está longe de ser associado aos rituais de fecundidade e de sexualidade.

 Do Concilio de Éfeso nos resta, além de sua definição, um fenômeno religioso da maior importância: o culto a Maria, Mãe de Deus, que logo conhecerá um desenvolvimento litúrgico considerável e dará ao cristianismo a forma característica de culto à Virgem Mãe e ao Deus Menino. Culto que alcançará grande esplendor, sobretudo, na Igreja oriental e que paulatinamente se estenderá ao Ocidente.

d) A doutrina da maternidade divina antes e depois de Éfeso Concilio Constantinopolitano I (ano 381)

 A única referência a Maria no Concilio de Constantinopla I (ano 381 ,DS 150) é a afirmação destinada a esclarecer a doutrina da encarnação do Verbo, expressa em seu símbolo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine (e se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria). A importância desse breve inciso aparece de imediato ao notarmos que, no símbolo do Concilio de Niceia (ano 325), não há nenhuma menção mariana.

 Ainda que não se trate de um discurso diretamente relativo à maternidade virginal de Maria, a afirmação de sua função materna na encarnação do Filho é explícita e segura. Como tal, deve ser considerada a primeira formulação de fé, de data segura, apesar de ter adquirido valor dogmático universal somente a partir daí.

 A fórmula mariana do Constantinopolitano I conserva o tom das fórmulas simbólicas mais antigas, que sintetizavam a fé da Igreja ligada à revelação da Palavra de Deus e à tradição fiel do testemunho apostólico. Maria é mencionada como elemento humano que esclarece a encarnação do Verbo e sua obra redentora."

 

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[1] TEMPORELLI, Clara. MARIA – Mulher de deus e dos pobres. São Paulo. Paulus. 2ª ed.: 2011. 263 páginas.

[2] S. Benko. The Virgin Goddess. Studies in the pagan and Christian roots of mariology. New York/Köln: J. Brill Leiden, 1993, p. 257.

 [3] Cirilo de Alexandria. Epístola 24. PG 77, p. 237

[4] S. Benko. The Virgin Goddess. Studies in the pagan and Christian roots of mariology, p. 262

[5] J. Moingt. El hombre que vertia de Dios. Bilbao: DDB, 1995, vol. I, p. 136.

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