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abr 02

ESPAÇO TEOLÓGICO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO, encerrando-o, pois, com esta edição. Procuramos, nestes três últimos meses (fevereiro, março e abril) apresentar, em linhas gerais, o pensamento e a teologia do Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO.

Além dos textos didáticos do Papa, sugerimos aos leitores e às leitoras a aquisição e a leitura do Livro “A ORAÇÃO”, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1] (à venda nas Livrarias Paulus de todo o Brasil), a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca de tema tão caro na vida de todos os fiéis.  

“ORAÇÃO E SILÊNCIO: JESUS MESTRE DE ORAÇÃO”

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Numa série de catequeses precedentes falei sobre a oração de Jesus e não gostaria de concluir esta reflexão sem meditar brevemente acerca do tema do silêncio de Jesus, tão importante na relação com Deus.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini fiz referência ao papel que o silêncio adquire na vida de Jesus, sobretudo no Gólgota: «Aqui vemo-nos colocados diante da “Palavra da cruz” (cf. ICor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se “disse” até calar, nada retendo do que nos devia comunicar.» (N.° 12) Diante deste silêncio da cruz, São Máximo, o Confessor, põe nos lábios da Mãe de Deus a seguinte expressão: «Fica sem palavras a Palavra do Pai, O qual fez todas as criaturas que falam; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele por cuja palavra e por cujo aceno se move tudo o que tem vida.»[2] A cruz de Cristo não mostra somente o silêncio de Jesus como Sua última palavra ao Pai, mas revela também que Deus fala por meio do silêncio'. «O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-LO lamentar: “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46) Avançando na obediência até ao último suspiro de vida, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.” (Lc 23,46)» (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, n.° 21). A experiência de Jesus na cruz é profundamente reveladora da situação do homem que reza e do ápice da oração: depois de ter ouvido e reconhecido a Palavra de Deus, devemos medir-nos também com o silêncio de Deus, expressão importante da própria Palavra divina.

A dinâmica de palavra e silêncio, que caracteriza a oração de Jesus em toda a Sua existência terrena, sobretudo na cruz, diz respeito também à nossa vida de oração, em duas direções.

A primeira é a que se refere ao acolhimento da Palavra de Deus. E necessário o silêncio interior e exterior, para que tal palavra possa ser ouvida. E este é um ponto particularmente difícil para nós, no nosso tempo. Com efeito, a nossa é uma época na qual não se favorece o recolhimento; aliás, às vezes a impressão é de que as pessoas têm medo de se separar, mesmo por um instante, do rio de palavras e de imagens que marcam e enchem os dias. Por isso, na já mencionada Exortação Verbum Domini recordei a necessidade de nos educarmos para o valor do silêncio: «Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher inseparável da Palavra e do silêncio.» (N.° 66) Este princípio - que sem silêncio não se sente, não se ouve, não se recebe uma palavra - é válido sobretudo para a oração pessoal, mas também para as nossas liturgias: para facilitar uma escuta autêntica, elas devem ser também ricas de momentos de silêncio e de acolhimento não verbal. E sempre válida a observação de Santo Agostinho: Verbo crescente, verba deficiunt - «Quando o Verbo de Deus cresce, as palavras do homem faltam.» (Cf. Sermo 288, 5: PL 38, 1307; Sermo 120,2: PL 38,677). Os evangelhos apresentam com frequência, sobretudo nas escolhas decisivas, Jesus que Se retira totalmente sozinho num lugar afastado das multi­dões e dos próprios discípulos para rezar no silêncio e viver a Sua relação filial com Deus. O silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso íntimo, para ali fazer habitar Deus, para que a Sua Palavra permaneça em nós, a fim de que o amor por Ele se arraigue na nossa mente e no nosso coração, e anime a nossa vida. Portanto, a primeira direção: voltar a aprender o silêncio, a abertura à escuta, que nos abre ao próximo, à Palavra de Deus.

Porém, há uma segunda importante relação do silên­cio com a oração. Com efeito, não há apenas o nosso silêncio para nos dispor à escuta da Palavra de Deus; muitas vezes, na nossa oração, encontramo-nos diante do silêncio de Deus, experimentamos quase um sentido de abandono, parece-nos que Deus não ouve e não responde. Mas este silêncio de Deus, como aconteceu também para Jesus, não marca a Sua ausência. O cristão sabe bem que o Senhor está presente e escuta, mesmo na escuridão da dor, da rejei­ção e da solidão. Jesus garante aos discípulos e a cada um de nós que Deus conhece bem as nossas necessidades, em qualquer momento da nossa vida. Ele ensina aos discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais, antes que vós Lho peçais» (Mt 6,7- -8): um coração atento, silencioso e aberto é mais impor­tante que muitas palavras. Deus conhece-nos no íntimo, mais do que nós mesmos, e ama-nos: e saber isto deve ser suficiente. Na Bíblia, a experiência de Job é particularmente significativa a este propósito. Em pouco tempo, este homem perde tudo: familiares, bens, amigos e saúde; até parece que a atitude de Deus no que se lhe refere é a do abandono, do silêncio total. E no entanto Job, na sua relação com Deus, fala com Deus, clama a Deus; na sua oração, não obstante tudo, conserva intacta a sua fé e, no fim, descobre o valor da sua experiência e do silêncio de Deus. E assim no final, dirigindo-se ao Criador, pode concluir: «Eu tinha ouvido falar de Ti, mas agora são os meus olhos que Te veem» (Jb 42,5): todos nós conhecemos Deus quase só por ter ouvido falar d’Ele, e quanto mais abertos permanecemos ao Seu e ao nosso silêncio, tanto mais começamos a conhecê-LO realmente. Esta confiança extrema que se abre ao encontro profundo com Deus amadureceu no silêncio. São Francisco Xavier rezava, dizendo ao Senhor: eu amo-Te, não porque podeis conceder-me o paraíso, ou condenar-me ao inferno, mas porque Vós sois o meu Deus. Amo-Vos porque Vós sois Vós!

Aproximando-nos da conclusão das reflexões sobre a oração de Jesus, voltam à mente alguns ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica'. «O drama da oração é-nos plenamente revelado no Verbo que Se faz carne e habita entre nós. Procurar compreender a Sua oração através do que as Suas testemunhas nos dizem dela no Evangelho é aproximar-nos do Santo Senhor Jesus como da sarça ardente: primeiro, contemplando-O a Ele próprio em ora­ção; depois, escutando como Ele nos ensina a rezar para, finalmente, conhecermos como é que Ele atende a nossa oração.» (N.° 2598) E como é que Jesus nos ensina a rezar? No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica encontramos uma resposta clara: «Jesus ensina-nos a rezar, não só com a oração do Pai Nosso» - certamente o ato central do ensi­namento do modo como rezar - «mas também com a Sua própria oração. Assim, para além do conteúdo, ensina-nos as disposições requeridas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa aos inimigos; a confiança audaz e filial que se estende para além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação.» (N.° 544)

Percorrendo os evangelhos vimos como o Senhor é, para a nossa oração, interlocutor, amigo, testemunha e mestre. Em Jesus revela-se a novidade do nosso diálogo com Deus: a oração filial, que o Pai espera dos Seus filhos. E de Jesus aprendemos como a oração constante nos ajuda a interpre­tar a nossa vida, a fazer as nossas escolhas, a reconhecer e a acolher a nossa vocação, a descobrir os talentos que Deus nos concedeu, a cumprir diariamente a Sua vontade, único caminho para realizar a nossa existência.

Para nós, muitas vezes preocupados com a eficácia fun­cional e com os resultados concretos que alcançamos, a prece de Jesus indica que temos necessidade de parar, de viver momentos de intimidade com Deus, “desapegando-nos” da confusão de todos os dias, para ouvir, para ir à “raiz” que sus­tenta e alimenta a vida. Um dos momentos mais bonitos da oração de Jesus é precisamente quando Ele, para enfrentar doenças, dificuldades e limites dos Seus interlocutores, Se dirige ao Seu Pai em oração e assim ensina a quantos estão ao Seu redor onde é necessário procurar a fonte para ter esperança e salvação. Já recordei, como exemplo comovedor, a oração de Jesus no túmulo de Lázaro. O evangelista João narra: «Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos para o Céu, disse: “Pai, dou-Te graças por Me teres aten­dido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa das pessoas que Me rodeiam, para que venham a crer que Tu Me enviaste.” Dito isto, bradou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”» (Jo 11,41-43) Mas o ponto mais alto de profundidade na oração ao Pai, Jesus alcança-o no momento da Paixão e Morte, quando pronuncia o extremo «sim» ao desígnio de Deus e mostra como a von­tade humana encontra o seu cumprimento precisamente na adesão plena à vontade divina, e não na oposição. Na oração de Jesus, no Seu brado na Cruz, confluem «todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salva­ção. [...] E eis que o Pai as acolhe e atende, para além de toda a esperança, ao ressuscitar o Seu Filho. Assim se cum­pre e se consuma o drama da oração na economia da criação e da salvação.» (Catecismo da Igreja Católica, n.° 2606)

Caros irmãos e irmãs, peçamos com confiança ao Senhor para viver o caminho da nossa oração filial, aprendendo quotidianamente do Filho Unigênito que Se fez homem por nós como deve ser o modo de nos dirigirmos a Deus. As palavras de São Paulo, sobre a vida cristã em geral, são válidas também para a nossa oração: «Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os princi­pados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades nem a altura, nem o abismo nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Nosso Senhor Jesus Cristo.» (Rm 8,38-39).

Praça de São Pedro

(Quarta-feira, 7 de março de 2012)

Terminamos, aqui, a transcrição de alguns trechos dos ensinamentos ao Papa Bento XVI acerca da ORAÇÃO. Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, daremos início a novo tema teológico, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

[2]A vida de Maria, n.° 89: Textos marianos do primeiro milênio, 2, Roma, 1989, p. 253).

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