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fev 01

ESPAÇO TEOLÓGICO: SEGREDOS DA ORAÇÃO

ESPAÇO TEOLÓGICO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

Conforme antecipamos no mês de janeiro estamos, a partir de deste mês de fevereiro de 2018, iniciando a apresentação de diversos temas caros a todos os cristãos, de um modo geral, e aos católicos, de modo especial, sob a ótica de renomados Teólogos que, de muitas formas, podem nos ajudar na melhor compreensão dos diversos aspectos da nossa fé.

Iniciamos nossa apresentação, trazendo o tema: ORAÇÃO.

E, sobre este tema, vamos nos valer das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado, tratou deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1].  

Certamente, não vamos reproduzir todo o conteúdo do livro, pois, seriam necessários muitos meses para tanto. Vamos, no entanto, reproduzir alguns trechos, que consideramos mais diretos e mais importantes e, no mais, sugerimos a aquisição do livro (devidamente identificado no rodapé desta página, que pode ser adquirido, em princípio, em qualquer livraria Paulus).

 

“A ORAÇÃO DOS ANTIGOS

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de dar início a uma nova série de catequeses. Depois das catequeses sobre os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, gostaria de escolher um tema muito querido a todos nós: é o tema da oração, de modo específico da cristã, ou seja, a prece que Jesus nos ensinou e que a Igreja continua a ensinar-nos. Com efeito, é em Jesus que o homem se torna capaz de se aproximar de Deus com a profundidade e a intimidade da relação de paternidade e filiação. Com os primeiros discípulos, com confiança humilde, dirijamos-nos então ao Mestre e peçamos-Lhe: «Senhor, ensina-nos a rezar.» (Lc 11,1)

Nas próximas catequeses, aproximando-nos da Sagrada Escritura, da grande tradição dos Padres da Igreja, dos mestres de espiritualidade e de liturgia, queremos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, quase uma “escola de oração”. Com efeito, sabemos que a oração não se deve dar por certa: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo; mesmo aqueles que estão muito avançados na vida espiritual sentem sempre a necessidade de se pôr na escola de Jesus para aprender a rezar autenticamente. Recebemos a primeira lição do Senhor através do Seu exemplo. Os evangelhos descrevem- -nos Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: é uma profunda comunhão d’Aquele que veio ao mundo não para fazer a Sua vontade, mas a do Pai que O enviou para a salvação do homem.

Nesta primeira catequese, como introdução, gostaria de propor alguns exemplos de oração presentes nas antigas culturas, para relevar como, praticamente sempre e em toda a parte, o homem se dirigiu a Deus.

Por exemplo, no antigo Egito um homem cego, pedindo à divindade que lhe restituísse a vista, atesta algo de universalmente humano, que é a pura e simples prece de pedido da parte de quem se encontra no sofrimento. Este homem reza: «O meu coração deseja ver-Te... Tu que me fizeste ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu Te veja! Debruça sobre mim o Teu rosto dileto.»1 Que eu Te veja; eis o núcleo da prece!

[...]

ORAÇÃO E SENTIDO RELIGIOSO

Vivemos numa época em que são evidentes os sinais do secularismo. Deus parece ter desaparecido do horizonte de várias pessoas ou ter-Se tornado uma realidade diante da qual o homem permanece indiferente. Mas vemos, ao mesmo tempo, muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superar uma visão puramente horizontal, material da vida humana. Olhando para a história recente, malogrou a previsão de quem, desde a época do Iluminismo, preanunciava o desaparecimento das religiões e exaltava uma razão absoluta, separada da fé, uma razão que teria esmagado as trevas dos dogmatismos religiosos e dissolvido o “mundo do sagrado”, restituindo ao homem a sua liberdade, a sua dignidade e a sua autonomia de Deus. A experiência do século passado, com as duas trágicas guerras mundiais, pôs em crise aquele progresso que a razão autônoma, o homem sem Deus parecia poder garantir.

O Catecismo da Igreja Católica afirma: «Pela criação, Deus chama todos os seres do nada à existência. [...] Mesmo depois de, pelo pecado, ter perdido a semelhança com Deus, o homem continua a ser à imagem do seu Criador. Conserva o desejo d’Aquele que o chama à existência. Todas as religiões testemunham esta busca essencial do homem.» (N.° 2566) Poderíamos dizer, como demonstrei na última catequese, que não houve qualquer grande civilização, desde os tempos mais longínquos até aos nossos dias, que não tenha sido religiosa.

(...)

O Concilio Vaticano II, na Declaração Nostra aetate, sublinhou-o sinteticamente: «Os homens esperam das diversas religiões uma resposta aos mais árduos problemas da condição humana que, hoje como outrora, continuam a perturbar profundamente os seus corações: o que é o homem [quem sou eu?], qual o sen­tido e o fim da nossa vida, o que é o bem e o que é o pecado, qual é a origem e a finalidade do sofrimento, qual é o caminho para se obter a verdadeira felicidade, o que é a morte, o julgamento e a recompensa que se lhe hão de seguir, e qual é, finalmente, aquele derradeiro e inefável mistério que envolve a nossa existência: De onde partimos e para onde vamos?» (N.° 1) O homem sabe que não pode responder sozinho à sua necessidade fundamental de compreender. Por mais que se tenha iludido e que ainda se iluda que é autossuficiente, contudo ele faz a experiência de que não é suficiente a si mesmo. Tem necessidade de se abrir ao outro, a algo ou a alguém que possa doar-lhe quanto lhe falta, deve sair de si mesmo rumo Aquele que é capaz de satisfazer a amplidão e a profundidade do seu desejo.

O homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus. E o homem sabe, de qualquer modo, que pode dirigir-se a Deus, sabe que Lhe pode rezar. São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da História, define a oração «expressão do desejo que o homem tem de Deus». Esta atração por Deus, que o próprio Deus colocou no homem, é a alma da oração, que depois se reveste de muitas formas e modalidades, segundo a história, o tempo, o momento, a graça e até o pecado de cada orante.

(...)

Com efeito, estimados irmãos e irmãs, como vimos anteriormente, a oração não está ligada a um contexto particular, mas encontra-se inscrita no coração de cada pessoa e de cada civilização.

(...)

Na oração, em cada época da História, o homem considera-se a si mesmo e a sua situação diante de Deus, a partir de Deus e em vista de Deus, e experimenta que é criatura carente de ajuda, incapaz de alcançar sozinho o cumprimento da própria existência e da própria esperança. (...) Na dinâmica desta relação com quem dá sentido à existência, com Deus, a oração tem uma das suas expressões típicas no gesto de se pôr de joelhos. E um gesto que contém em si uma ambivalência radical: com efeito, posso ser obrigado a pôr-me de joelhos, condição de indigência e de escravidão, mas posso também inclinar-me espontaneamente, declarando o meu limite e, portanto, o fato de que tenho necessidade de Outro. A Ele declaro que sou frágil, necessitado, “pecador”. Na experiência da oração, a criatura humana exprime toda a consciência de si, tudo o que consegue captar da própria existência e, ao mesmo tempo, dirige-se inteiramente para o Ser diante do qual se encontra, orienta a própria alma para aquele mistério do qual espera o cumprimento dos desejos mais profundos e a ajuda para superar a indigência da própria vida. Neste olhar para o Outro, neste dirigir-se “para além” está a essência da oração, como experiência de uma realidade que supera o sensível e o contingente.

Todavia, só no Deus que Se revela encontra pleno cumprimento a busca do homem. A oração, que é a abertura e elevação do coração a Deus, torna-se assim relação pessoal com Ele. E mesmo que o homem se esqueça do seu Cria dor, o Deus vivo e verdadeiro não cessa de chamar primeiro o homem ao misterioso encontro da oração. Como afirma o Catecismo'. «Na oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é sempre uma resposta. A medida que Deus Se revela e revela o homem a si mesmo, a oração surge como um apelo recíproco, um drama de aliança. Através das palavras e dos atos, este drama compromete o coração e manifesta-se ao longo de toda a história da salvação.» (N.° 2567)

Caros irmãos e irmãs, aprendamos a deter-nos em maior medida diante de Deus, de Deus que Se revelou em Jesus Cristo, aprendamos a reconhecer no silêncio, no íntimo de nós mesmos, a Sua voz que nos chama e nos reconduz à profundidade da nossa existência, à fonte da vida, à nascente da salvação, para nos fazer ir além do limite da nossa vida e abrir-nos à medida de Deus, à relação com Ele, que é Amor infinito. Obrigado!

Praça de São Pedro (Quarta-feira, 11 de maio de 2011)”

Sugerimos uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

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