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jun 01

ESPAÇO TEOLÓGICO – O ANTIGO TESTAMENTO – PARTE II

BÍBLIA - O CAMINHO

ESPAÇO TEOLÓGICO –

 No Espaço Teológico deste mês de junho, vamos continuar apresentando trechos da obra de Dom Estevão Bettencourt – OSB, sobre o Antigo Testamento e as chaves necessárias para desvendar um pouco das tramas da Escritura neste ponto que, para muitos fieis, ainda é bastante confuso e até mesmo obscuro.

Dom Estevão, em linguagem simples e de fácil compreensão, vai esclarecendo os meandros dos Livros que compõem o AT, ao mesmo tempo em que vai abrindo as portas para a Nova Aliança que, mais tarde, será conhecida como Novo Testamento.

As páginas que permitimo-nos transcrever de forma literal, compõem o livro “Para Entender o Antigo Testamento – Estevão Bettencourt  - Ed. Santuário. 9ª Reimpressão. Aparecida-SP: 2013. 286 páginas”, para onde remetemos nossos leitores e leitoras, a fim de terem em mãos a obra completa, já que, aqui, serão apresentados trechos previamente selecionados, apenas para transmitir a importância da matéria, esperando, sinceramente, despertar ávido interesse na completude da obra que é vendida nas grandes livrarias cristãs.  Prosseguimos, portanto, com o Capítulo V, sob o tema:

“O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO”

(CONTINUAÇÃO)

*Por Dom Estevão Bettencourt –

2 - O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.

Já que, após o primeiro pecado, a corrupção se alastrava entre os homens, Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração; desse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. Em vista disto, por volta de 1800 a.C., Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldeia, terra idólatra, para Canaã (Palestina atual), a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gn 12, 1-3).

A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para todas as nações. Daí chamar-se este segundo marco da história “A PROMESSA”.

3 - A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.

O surto do povo de Deus foi confirmado por cerca de 1240 a.C.: tendo Israel caído cativo do Egito, Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã, dando-lhe, por meio de Moisés, uma constituição teocrática.

A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA, aliança, sim, provisória e nacional, travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

4 - A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.

Por volta de 1020 a.C., Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos, ou seja, a MONARQUIA. Este desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fora governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes), queria um governo menos dependente da Providência insondável do Criador, humanamente mais “garantido”, mais fundado sobre bases que o bom senso pode apreciar (tal é, sem dúvida, a monarquia).

Instaurou-se então o REINO de Israel, que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930).

A própria monarquia, porém, acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte, dito da Samaria, e reino do Sul, dito de Judá. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. Os dois pequenos Estados irmãos, Samaria e Judá, politicamente insignificantes, sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Samaria em 722 se tornou presa dos assírios, ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios.

A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política, que sua missão religiosa não estava necessariamente ligada com sua missão nacional. Israel deveria esperar o REINO... DE DEUS, com tudo que este reino implica de transcendente, de desconcertante para o “filósofo”, um reino tal que “quem não o recebe como uma criancinha, nele não pode entrar” (cf. Mc 10, 15).

5 - Deportados para a Babilônia em 587, os habitantes de Judá sofreram o EXÍLIO. Também este foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Privado de todo o aparato exterior (templo, sacrifícios, ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém, os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica da Divindade e da religião, passando a conceber o Criador de modo muito mais puro; a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente...

Em 538 Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus; Javé assim lhes mandou uma “redenção", que ainda era etapa em demanda da Redenção plena, messiânica. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita, a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa; era o chamado RESTO DE ISRAEL. Note-se bem: esse resto se constituía de judeus pobres, humanamente falando, quase malogrados, mas fervorosos adeptos de sua fé; a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio, pois lá haviam adquirido certo bem-estar material, prosperidade humana, que lhes sufocava o fervor teocrático!

6 - Após o exílio, Judá passou a viver como COMUNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro, comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias; infelizmente, porém, oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas, gregos, egípcios, sírios e romanos sucessivamente), os israelitas facilmente confundiam a figura do Messias, Restaurador da ordem religiosa, com a de um Libertador político.

Muito digna de nota é a epopeia dos irmãos Macabeus (165- 134), os quais, vibrando de autêntica piedade, moveram a resistência contra os sírios, que queriam paganizar o povo de Deus.

O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus, contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de pensar; Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus, dos espíritos, a sorte póstuma do homem; foi admitindo outrossim certo universalismo religioso, ou seja, a noção de que os bens messiânicos não se destinam a um povo apenas, mas a todas as nações da terra.

7 - Finalmente na plenitude dos tempos veio o Messias, segundo Adão, que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada.

Da vinda de Cristo em diante, a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus, ou seja, em Pentecostes; prolonga-se já por vinte séculos, não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento, mas unicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Uma vez completo o número dos que entrarão na bem-aventurança, Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história, induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sobre a morte e as demais consequências do pecado). Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo são tempos de máxima tensão, em que o cristão experimenta o que é “ser” e, ao mesmo tempo, “não ser” filho de Deus, “ter” e, ao mesmo tempo, “não ter” a vida eterna.

[...]

Quanto ao Antigo Testamento em particular, não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula:

“Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda, povo que não tinha gênio metafísico, mas religioso, viveu e aparentemente descobriu a via da salvação: formulou-a pouco a pouco. O Antigo Testamento é a história desse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha, a Promessa, a Aliança, a Monarquia, o Exílio, a Comunidade. As experiências, as tentativas, os reveses, os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. Esse povo nos aparece movido por um ímpeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente, a reconsiderar em nível mais espiritual o que ele viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. O Antigo Testamento é a história desse contínuo ultrapassar-se a si mesmo, desse catecumenato, dessa espiritualização crescente.”

No próximo mês, daremos continuidade a este tema do Antigo Testamento, sempre com o intento de levar aos nossos leitores e leitoras traços de uma teologia construtiva e edificante, de modo que todos os filhos e filhas de Deus tenham acesso ao conhecimento da Palavra da forma mais simples e didática possível, no cumprimento da sentença de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Até lá!!

 

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