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mar 02

ESPAÇO TEOLÓGICO: CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO

BENTO XVI-3

ESPAÇO TEOLÓGICO – CAMINHOS E SEGREDOS DA ORAÇÃO - 

No Espaço Teológico deste mês, conforme já havíamos antecipado, vamos prosseguir com o tema: ORAÇÃO.

E, na continuação, valemo-nos das sábias e didáticas palavras do então Papa Bento XVI, considerado pela crítica acadêmica como um dos maiores teólogos do século XX que, durante seu curto pontificado tratou, dentre tantos outros, deste relevante tema em diversas palestras de natureza catequética, no contexto da CATEQUESE PASTORAL. De tudo, originou-se o Livro A ORAÇÃO, lançado em 2013 pela Editora Paulus, em Lisboa[1], cuja aquisição recomendamos aos nossos leitores, a fim de obterem, na íntegra, todos os ensinamentos do então Papa, agora Emérito, acerca da ORAÇÃO.  

“A LEITURA DA BÍBLIA, ALIMENTO PARA O ESPÍRITO

*Por Bento XVI, Papa Emérito

Gostaria de continuar hoje o tema ao qual tínhamos dado início, ou seja, uma “escola de oração”, e também hoje, de uma maneira um pouco diversificada, sem me afastar desta temática, referir-me a alguns aspetos de índole espiritual e concreta, que parecem úteis não apenas para quem vive - numa região do mundo - a temporada das férias de verão, como nós, mas inclusive para todos aqueles que estão comprometidos no trabalho diário.

Quando temos um momento de pausa nas nossas atividades, de modo especial durante as férias, muitas vezes pegamos num livro, que desejamos ler. É precisamente este o primeiro aspecto sobre o qual hoje gostaria de meditar. Cada um de nós tem necessidade de momentos e de espaços de recolhimento, de meditação e de calma... Graças a Deus é assim! Com efeito, esta exigência diz-nos que não fomos feitos apenas para trabalhar, mas também para pensar, ponderar ou simplesmente para acompanhar com a mente e o coração uma narração, uma história com a qual nos identificarmos, num certo sentido, “perder-nos”, para depois nos encontrarmos enriquecidos.

Naturalmente, muitos destes livros de leitura que temos nas nossas mãos durante as férias são sobretudo de evasão, e isto é normal. Todavia, várias pessoas, especialmente se podem contar com espaços de pausa e de descanso mais prolongados, dedicam-se à leitura de algo mais comprometedor. Então, gostaria de lançar uma proposta: Porque não descobrir alguns livros da Bíblia, que normalmente não são conhecidos? Ou dos quais, talvez, ouvimos alguns trechos durante a Liturgia, mas que nunca lemos na íntegra?

Com efeito, muitos cristãos já não leem a Bíblia, e têm um seu conhecimento muito limitado e superficial. A Bíblia - como diz o nome - é uma coletânea de livros, uma pequena “biblioteca”, nascida ao longo de um milênio. Alguns destes “livrinhos” que a compõem permanecem quase desconhecidos para a maior parte das pessoas, inclusive de bons cristãos. Alguns são muito breves, como o Livro de Tobias, uma narração que contém um sentido muito elevado da família e do matrimônio; ou o Livro de Ester, em que a rainha judia, com a fé e a oração, salva o seu povo do extermínio; ou ainda mais breve, o Livro de Rute, uma estrangeira que conhece Deus e experimenta a Sua providência. Estes pequenos livros podem ser lidos inteiramente numa hora. Mais exigentes, e autênticas obras-primas, são o Livro de Job, que enfrenta o grande problema da dor inocente; o Qoelet, que impressiona pela modernidade desconcertante com que põe em discussão o sentido da vida e do mundo; o Cântico dos Cânticos, maravilhoso poema simbólico do amor humano. Como vedes, são todos livros do Antigo Testamento. E o Novo? Sem dúvida, o Novo Testamento é mais conhecido, e os seus gêneros literários são menos diversificados. Porém, a beleza da leitura integral do Evangelho deve ser descoberta, assim como recomendo os Atos dos Apóstolos, ou uma das cartas.

Caros amigos, para concluir, hoje gostaria de sugerir que conserveis ao vosso alcance, durante a temporada de verão, ou nos momentos de pausa, a Bíblia Sagrada, para a saborear de modo novo, lendo inteiramente alguns dos seus livros, aqueles menos conhecidos e também os mais famosos, como os evangelhos, mas numa leitura contínua. Assim, os momentos de descanso podem tornar-se, além de um enriquecimento cultural, inclusive um alimento para o espírito, capaz de nutrir o conhecimento de Deus e o diálogo com Ele, a oração. E esta parece ser uma bonita ocupação para as férias: pegar num livro da Bíblia, gozar assim de um pouco de descanso e, ao mesmo tempo, entrar no grande espaço da Palavra de Deus e aprofundar o nosso contato com o Eterno, precisamente como finalidade do tempo livre que o Senhor nos concede.

OS “OÁSIS” DO ESPÍRITO

Em cada época, homens e mulheres que consagraram a sua vida a Deus na oração - como os monges e as monjas - estabeleceram as suas comunidades em lugares particularmente lindos, nos campos, nas colinas, nos vales montanheses, às margens dos lagos ou do mar, ou até mesmo em pequenas ilhas. Estes lugares unem dois elementos muito importantes para a vida contemplativa: a beleza da criação, que remete à do Criador, e o silêncio, garantido pela distância em relação às cidades e às grandes vias de comunicação. O silêncio constitui a condição ambiental que melhor favorece o recolhimento, a escuta de Deus, a meditação. Já o próprio facto de nos deleitarmos com o silêncio, de nos deixarmos por assim dizer “cumular” do silêncio, predispõe-nos para a oração. O grande profeta Elias, no monte Horeb - ou seja, o Sinai - assistiu a um redemoinho, depois a um tremor de terra e finalmente a clarões de fogo, mas não reconheceu neles a voz de Deus; no entanto, reconheceu-a numa brisa ligeira (cf. lRs 19,11-13). Deus fala no silêncio, mas é preciso saber ouvi-LO. Por isso, os mosteiros são um oásis em que Deus fala à humanidade; e neles encontra-se o claustro, lugar simbólico, porque é um espaço fechado, mas aberto para o Céu.

[...]

O silêncio e a beleza do lugar em que vive a comunidade monástica - beleza simples e austera - constituem como que um reflexo da harmonia espiritual que a própria comunidade procura realizar. O mundo está constelado de tais oásis do espírito, alguns muito antigos, particularmente na Europa, outros mais recentes e outros ainda restaurados por novas comunidades. Olhando a realidade numa perspectiva espiritual, estes lugares do espírito são estruturas importantes do mundo! E não é por acaso que muitas pessoas, especialmente nos períodos de pausa, visitam estes lugares, transcorrendo ali alguns dias: graças a Deus, também a alma tem as suas exigências!

[...]

Agora, dirijamo-nos à Virgem Maria, para que nos ensine a amar o silêncio e a oração.

Castel Gandolfo

(Quartas-feiras, 3 e 10 de agosto de 2011). 

Mantemos a sugestão anterior, de uma leitura lenta e reflexiva. Não tenha pressa! Leia com calma e procure apreender cada ensinamento, cada exemplo e cada direção que o autor se disponibiliza passar. Somente assim, este trabalho terá grande proveito na sua vida, religiosa e espiritual.

Além do quê, o próprio Papa Bento XVI recomenda a paz de espírito, precedida de uma boa leitura, inclusive, da Bíblia, e um ambiente sadio e envolvido pelo silêncio. É sempre bom recordar que Jesus buscava o silêncio da montanha e da noite para dirigir-se ao Pai, em profunda oração.

No próximo mês, vamos prosseguir com este mesmo tema sobre a ORAÇÃO, a fim de que todos e todas sejam, e se sintam, altamente gratificados.

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[1] XVI, BENTO, Papa. A ORAÇÃO. Lisboa. Paulus: 2013. 271 páginas.

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