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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 17

EDITORIAL DA SEMANA: SÃO JOÃO DE DEUS NÃO PODE SER CONFUNDIDO

SÃO JOÃO DE DEUSSÃO JOÃO DE DEUS NÃO PODE SER CONFUNDIDO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Nestes dias confusos e turbulentos pelos quais estamos passando é preciso, desde já, separar o joio do trigo, porque a fé das pessoas deve ser respeitada em toda a sua extensão, terrena e cósmica. Pessoas que adotam pseudônimos de santos(as) ou de quaisquer outros humanos que já tenham cumprido a missão terrena, precisam viver e agir em total conformidade com aqueles(as) dos quais adotaram o nome.

O caso da hora é o de alguém, contemporâneo nosso que, sabe-se lá por qual razão, decidiu usar o nome de “João de Deus” para, na sua lógica racional-espiritual, praticar o bem por meio de trabalhos mediúnicos. Até aí, nada demais! O problema surge quando, por trás do nome, existe uma personalidade que, verdade ou não, é envolvida em escândalos que, em termos nominais, mancha apenas o nome adotado. E o nome “João de Deus” é originário do Santo Português – São João de Deus – nascido a 08 de março de 1495, na Vila de Montemor-o-Novo, cidade portuguesa, no Distrito de Évora, região Alentejo. Santo que praticou o bem a partir do recolhimento, das ruas e praças, de pobres, abandonados e infestados por toda espécie de doença, do corpo e da alma.

A vida e a obra de São João de Deus não é contada apenas pelo povo de um lugarejo; nem ele vivia cercado de afagos de reis e de rainhas, ou mesmo de personalidades ricas e importantes de sua época. São João de Deus vivia e agia justamente nos locais onde a classe abastada fingia desconhecer; de  onde os sãos e remediados faziam questão de tomar distância. Não se podendo, portanto, confundir o São João de Deus português, que a todos acolhia com imenso carinho, preocupação e cuidado, com qualquer outra pessoa que decida adotar seu nome, ainda que para fazer o bem, porém, envolta em sérias suspeitas de desregramento e de desrespeito aos irmãos e irmãs que batem-lhe à porta.

João de Deus, o Santo, viveu na mais absoluta pobreza, fazendo da mendicância a profissão capaz de dar a ele e aos seus acolhidos, as condições básicas necessárias para a manutenção da vida e a busca pela cura do corpo e da alma.

Quem poderia imaginar, por exemplo, que o pequeno João de Deus, nascido em uma habitação modesta da Rua Verde, um dia diria para o mundo e para a história que “os doidos não devem ser tratados com pancadas e açoites, mas, sim, com brandura e boas palavras”?, ele mesmo, anos mais tarde, internado como louco, pelo simples fato de, no meio da praça de Bivarrambla, atirando-se de cara na lama, ter confessado diante de toda a gente, dizendo: “Tenho sido um pecador muito grande para com o meu Deus, e tenho-O ofendido nisto e naquilo. Ora, que merece um traidor que tal fez? – Que de todos seja ferido e maltratado, e tido pelo mais vil do mundo, e ser lançado na lama e no lodaçal, para onde se atiram as imundícies”[1].

Diante da gente irada com tais confissões, João sai correndo pelo lugarejo, perseguido pelo povaréu, até que, alguém dele se compadecendo, leva-o para o Hospital Real “onde recolhem e tratam os loucos da cidade”.

Na verdade, João Cidade não era louco; não estava louco, senão de amor por Deus e, por tal razão, profundamente arrependido por todos os pecados que a memória faziam-no recordar. Entretanto, ainda assim, os enfermeiros que lidavam com ele no período da internação, não apenas viam-no como louco, mas, pior ainda: como homem mau. Não que ele praticasse qualquer ato abominável, mas, somente porque, diante do tratamento que via ser dispensado aos demais internos, com açoites e outros castigos, rapidamente levantou a voz na defesa daqueles desvalidos, bradando em alto e bom som: “Oh! Traidores, inimigos da virtude! Por que tratais tão mal e com tanta crueldade a estes pobres miseráveis e meus irmãos, que estão nesta casa de Deus na minha companhia? Não seria melhor que vos compadecêsseis deles e dos seus sofrimentos, e os limpásseis e lhes désseis de comer com mais caridade e amor do que fazeis, já que os Reis Católicos deixaram para isso rendas suficientes?[2].

Ainda no recolhimento do hospital, João recebe um discípulo do Padre Mestre Ávila, enviado com a missão de semear naquele coração ferido a convicção de que, como valoroso soldado, deveria expor a própria vida ao seu Rei e Senhor, “e que aceitasse com humildade e paciência os sofrimentos que a divina Majestade lhe enviara”, conclamando-o a tudo aceitar como forma de treinamento da virtude para que, quando saísse daquela masmorra hospitalar, tivesse condições de pelejar contra os inimigos, sempre confiando do Senhor, “que nunca vos abandonará”.

Mas João, certamente confiando na Palavra do seu Rei e Senhor – “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”  –   pedia com insistência “Jesus Cristo me conceda tempo e me dê a graça de eu ter um hospital, onde possa recolher os pobres desamparados e faltos de juízo, e servi-los como desejo”[3]. Passado algum tempo, e mais calmo e conformado à vontade do Senhor, João sai daquele hospício e, finalmente, depois de alguma caminhada e de mais alguns sofrimentos, como a fome e a desnudez tendo que, no frio intenso e descalço, sair para pedir esmola para o sustento próprio, retorna a Granada e, nos arredores da mesma praça de Bivarrambla, consegue alugar uma casa, com a ajuda de algumas pessoas devotas e piedosas que o ajudavam em seus trabalhos.

É ali, e partir dali e de outras partes, que João começa a receber os pobres desamparados, doentes e entrevados, providenciando mantas usadas para dormirem e, também, a assistência espiritual por meio de qualquer sacerdote que se dispusesse a acompanhá-lo para ouvir as confissões dos pobres e desamparados sedentos, também, da paz de espírito.

Devoto apaixonado da Paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João queria que seus semelhantes, também, pudessem auferir todos os benefícios de tão caro sacrifício e, adotando a sexta-feira como dia especial da devoção, visitava às casas públicas das mulheres, para tentar “arrancar dali alguma alma das garras do demônio, em que estão metidas tais mulheres”[4]. A caridade do grande servo do Senhor era tanta, e ele vivia com tamanha consideração para com tudo o que recebera dos Céus, que sempre parecia-lhe ser muito pouco tudo o que fazia e dava, “julgando-se sempre em dívida para com os outros. Era assim que vivia, com aquela ânsia dos santos de se dar a si mesmo, de mil maneiras, por amor d’Aquele que tão magnífico e generoso tinha sido para com ele.”[5]

A fama de João aumentou tanto, diante do bem que fazia aos pobres, doentes e desamparados que, pessoas devotas e distintas resolveram comprar-lhe uma casa da Rua “De Los Gomeles” que tinha sido um mosteiro de religiosas, para onde foram transferidos todos aqueles socorridos pelo servo do Senhor. Era tanta gente que procurava por ele que, juntos, mal cabiam em pé. Pacientemente, João sentava-se no meio deles, para ouvir as necessidades de cada um e sempre dar alguma esmola ou aconselhamento, não deixando ninguém sair de mãos vazias.

João de Deus viveu a misericórdia de forma intensa e retributiva por tudo o que do Senhor recebia. Certa vez, alcançou do Senhor a cura de uma mulher que tinha uma enorme ferida na perna. João, visitando esta enferma, e sem ter o que fazer por ela, lançou a boca naquela chaga aberta e, por dias seguidos, chupava os excessos e toda a podridão de carne que ali existia, cuspindo fora todo aquele mal. Conta a Condessa de Nova Goa – Raquel Jardim de Castro – que, foi assim que “Nosso Senhor se dignou sarar completamente a enferma, cremos que para a livrar de tão horrível mal e a ele (João) de tão dificultosa prática”[6].

João de Deus não pensava  em alcançar salvação apenas para si. Andava pelas ruas da cidade exortando a todos a fazerem o bem a si mesmos. “Fazei o bem a vós mesmos!”, dizia ele, e muitos acolhiam o seu chamado.

Raquel Jardim de Castro declara não saber dizer com precisão, entre a caridade e a paciência, qual destas virtudes resplandecia mais em São João de Deus, reconhecendo nele o conhecimento da seguinte verdade: “Para se atingir a perfeição, não basta fazer o bem; é preciso saber suportar o mal”[7]

Falar sobre São João de Deus é tarefa para uma vida inteira, tendo em vista o tanto e o quanto que ele fez e ensinou. Entretanto, de todo o legado do santo, existe algo que pode santificar-nos a todos: a compreensão e a vivência da misericórdia ensinada e vivida por Jesus Cristo, conforme testemunhado nos Evangelhos. São João de Deus, na exata medida do santos e das santas, compreendeu e viveu a misericórdia e deixou para todas as gerações que o sucederam o exemplo. Cabe aos homens e às mulheres de cada tempo perseguirem a mesma compreensão e praticarem-na da forma mais adequada aos desafios de cada época, sempre mirando-se na parábola do bom samaritano, que enxerga-se a si próprio na pessoa do outro que carece de amparo, de socorro e de acolhimento. São João de Deus é modelo exemplar das virtudes evangélicas. Devemos conhecê-lo melhor e, dentro das nossas limitações, imitá-lo da forma mais perfeita possível por que ele, irmão de Cristo, aprendeu do próprio Senhor e deixou-nos uma herança de valor inestimável, conclamando-nos a fazermos o bem a nós mesmos!

Assim, é preciso, conforme dito no início, separar o joio do trigo, até para manter intacta, incólume e inatacável a vida e a obra de um Santo, cujo exemplo deixado remete-nos apenas para o bem e para o bom caminho. Caminho que leva à santidade e à vida eterna, e não, aos tribunais e às prisões, em decorrência de escândalos. Que a fé popular mantenha-se viva, porém, voltada para a direção correta.

É preciso que as pessoas saibam, e que não façam confusão, que a obra e os Lares de São João de Deus espalhados pelo Brasil e pelo mundo, nada têm a ver com obras de caridade praticadas por pessoas que adotam o nome do Santo português para darem uma aura de santidade àquilo que fazem, embora envolto em mistérios e em práticas suspeitas. Que os devotos de São João de Deus possam compreender a gigantesca diferença existente e manter a fé na obra e no exemplo deixados pelo nosso São João de Deus, santo português do século XVI.

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*Luiz Antonio de Moura, estudioso e pesquisador da vida de São João de Deus , é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

_____________________________________________ [1] CASTRO, Francisco de. História da Vida e Obras de São João de Deus. Editorial Franciscana. Évora: 1980. Pág. 62. [2] Idem, pág. 65 [3] Idem, pág. 68 [4] Idem, pág. 85 [5] Idem, pág. 93 [6] CASTRO, Raquel Jardim de. “S. João de Deus – Um Herói Português do Sec. XVI. Lisboa. Rei dos Livros: 1995. 295 págs. [7] Idem. pág. 145.

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