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nov 27

EDITORIAL DA SEMANA: SÃO JOÃO DE DEUS, IMAGEM DO BOM SAMARITANO!

SÃO JOÃO DE DEUS

SÃO JOÃO DE DEUS E A MENSAGEM DE JESUS: CAMINHO PARA O CÉU –

*Por Luiz Antonio d Moura –

Há pouco tempo tive a honra, o prazer e a felicidade de tomar conhecimento da obra de São João de Deus, um santo de origem portuguesa, nascido no ano de 1495, na vila de Montemor-o-Novo, pertencente ao bispado de Évora, no Reino de Portugal. Com a ciência da obra, veio o conhecimento acerca da existência da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, cujo objetivo é ecoar no mundo a ação do santo português, totalmente voltada para o acolhimento dos idosos, enfermos e marginalizados, pessoas que, de certa forma, não interessariam mais para a sociedade porque, com o passar dos anos e com o acúmulo das doenças e de todas as chagas impostas pela vida, foram se tornando um peso insuportável para o mundo, que vive em busca do prazer, da felicidade, da abundância de bens e das riquezas materiais.

A imagem de São João de Deus transportando nos braços um homem idoso e moribundo, criou uma marca indelével no meu espírito, calou e embargou a minha voz e trouxe algumas lágrimas aos meus olhos. Pela primeira vez na vida, refletindo sobre aquela imagem, eu me vi diante da materialização da mensagem viva de Jesus: “tive fome, e deste-me de comer; tive sede, e deste-me de beber; peregrino, acolheste-me; nu, vestiste-me; enfermo, viestes me visitar” (Mt 25, 35-36). Refletir sobre o significado daquela imagem, antes de conhecer a história do santo, me trouxe à mente algumas das lições mais importantes deixadas por Jesus. Mensagens que perpassam a ciência e a sabedoria humanas; fogem de todos os estereótipos de grandeza, de bondade, de santidade e de amor que conhecemos. Mensagens que, tal qual a verdadeira chave dourada, abrem as portas dos Céus para quem consegui-las decifrar e pô-las em prática no curso da existência terrena.

Deus, na sua infinita e inigualável sabedoria, permite que as pessoas recebam mensagens por meio de anjos escolhidos a dedo por Ele. E, em toda a minha vida, sempre, sempre, estes anjos estiveram, e ainda estão, presentes e atuantes. É extremamente verdadeira a frase: “foi Deus quem te mandou vir aqui”, dita inúmeras vezes por nós quando, em apuros ou em grande necessidade, recebemos a visita inesperada de um amigo, ou até mesmo de um estranho, que chega para nos socorrer. Embora muitos de nós não saibamos reconhecer, aquela pessoa, naquele momento, age na condição de anjo enviado, sim, por Deus, porque é assim que Ele age no mundo. Pois bem, um dos anjos enviados pelo Senhor para me apresentar à obra de São João de Deus foi o Irmão Raimundo Cassiano Ferraz, cuja residência é no Lar de São João de Deus, em Itaipava (Petrópolis-RJ).

Esse Irmão, do qual tenho a honra e a satisfação de ter sido admitido como amigo, convidou-me para visitar o Lar de São João de Deus. Acertamos a visita pelo menos por umas duas ou três vezes, até que um dia eu disse: “vou lá”. E fomos, eu e minha esposa. E, uma vez lá, ficamos deslumbrados com o ambiente acolhedor; com a presença de idosos, de ambos os sexos, alguns, inclusive, enfermos e cadeirantes; com o trabalho executado por funcionários e por voluntários; com o carinho com o qual cada um daqueles seres humanos são tratados. Seres humanos que, certamente, um dia foram pessoas de muito valor e de muita importância tanto para a comunidade, quanto para a  própria sociedade, mas, que, agora, “não têm mais o mesmo prestígio e a mesma importância de outrora”, dentro da lógica excludente e exclusiva do mundo, restando-lhes, apenas, os sempre presentes familiares e alguns poucos amigos.

Uma coisa, no entanto, intrigava o meu espírito: aquela instituição é inspirada em quem? Logo, logo, fui informado que o Lar de São João de Deus é inspirado na vida e na obra do Santo, que é, também, patrono e inspirador da Ordem Hospitaleira, cujo objetivo é, na medida do possível, ecoar no mundo a mensagem de acolhimento daqueles que sofrem e que, de alguma forma, vivem próximos da exclusão e do abandono social.

A atuação de São João de Deus, cuja vida foi dedicada ao acolhimento e ao socorro aos pobres, enfermos, marginalizados e necessitados, conduziu-me à estrada que fazia a ligação entre Jerusalém e Jericó, usada por Jesus para descrever a inusitada cena do homem que, vítima de ladrões cruéis, encontra-se ferido, desprovido e, quase morto, jogado num canto da estrada, à espera de alguém que pudesse socorrê-lo. Jesus conta que, primeiro, passou um sacerdote que, ao perceber o homem ferido e caído, logo desviou-se dele e foi embora sem prestar qualquer socorro. Em seguida, veio um levita, um homem letrado e conhecedor da lei sagrada. Também este, ao ver o pobre diabo caído, ferido e moribundo, tratou de mudar o seu percurso e, também, seguiu em frente, sem prestar qualquer auxílio. Por último, conta Jesus, veio um samaritano, que estava de viagem. Ora, dentre os três que passaram por aquela estrada naquele momento e naquelas circunstâncias, o samaritano era justamente quem deveria provocar maior receio no homem ferido, dada a animosidade existente entre judeus e samaritanos. Animosidade secular, desde os tempos de Esdras, da volta do exílio e da reconstrução do Templo.

Entretanto, Jesus lança o olhar na direção daqueles que o ouviam, e prossegue na narrativa. Aquele samaritano, de quem nada poderia ser esperado por um judeu ferido, foi justamente o que desceu da sua montaria, aproximou-se do moribundo cheio de misericórdia, e limpou as feridas com carinho e com atenção, derramando sobre elas azeite e vinho. Depois, colocando-o sobre o animal que o transportava, seguiu com ele até a hospedaria mais próxima, oferecendo-lhe o tão necessário repouso e descanso. Na manhã seguinte, o samaritano decide seguir em frente em sua viagem, deixando o homem ferido e já acolhido, aos cuidados do dono da pensão, a quem entrega duas moedas de prata e recomenda: “Cuida dele e o que gastares a mais, na volta eu te pagarei”  (Lc 10, 35).

Para mim a obra desencadeada por São João de Deus, encaixa-se perfeitamente na parábola do bom samaritano, porque em toda a sociedade são perceptíveis atitudes semelhantes às do sacerdote e à do levita que, vendo  um pobre coitado caído, sujo e ferido, quase à morte, dele se desviam por outro caminho e seguem em frente, sem prestar o socorro necessário. Quantos de nós, passamos todos os dias por estes pobres coitados feridos, sujos, famintos, enfermos e necessitados e, cheios de críticas, desviamo-nos deles e seguimos em frente, rumo à satisfação das nossas carências consumistas, individualistas e egoístas?

É digno de relato que João de Deus não era homem de posses, ou filho de família tradicional ou rica, mas, homem que vivia em absoluta pobreza, mal vestido, descalço, sem agasalhos para o frio e sem reservas de comestíveis. Sobrevivia e realizava as obras de caridade por meio das esmolas que pedia e recebia das pessoas que, a despeito de julgarem-no um louco, viam o trabalho por ele executado, recolhendo os pobres, os doentes, os órfãos, os indigentes, as prostitutas e os famintos, levando-os, inicialmente, para uma casa alugada com a ajuda de algumas pessoas devotas, segundo o primeiro biógrafo do santo, Francisco de Castro, sacerdote, teólogo e “reitor” do hospital de São João de Deus, de  Granada.

A obra de São João de Deus, cujas sementes ainda estão presentes nos dias de hoje, traz a marca inconfundível da Sagrada Face de Cristo. Do Cristo piedoso, misericordioso, atencioso e acolhedor, que não mandou ninguém criar qualquer religião, mas, mandou vivermos a lei do amor, da misericórdia e do acolhimento. Quem, realmente, desejar salvar sua alma e entrar no Reino dos Céus, cuide destes pobres, abandonados, feridos, enfermos, famintos e moribundos, para que possa, no dia da Redenção, ouvir da boca do próprio Jesus: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes  me ver. Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”  (Mt 25, 34-36.40).

A Ordem Hospitaleira – há 70 anos no Brasil (1947-2017) – atua como receptáculo e herdeira da obra de São João de Deus, e deve ser conhecida, visitada e prestigiada por todos os cristãos, independentemente da fé que professam porque, acima de qualquer coisa ela, também, traz em si a marca profunda da mensagem de Jesus, a quem todos os cristãos dizem seguir.

No Brasil, a OH – Ordem Hospitaleira – cujo Superior é o Irmão Augusto Vieira Gonçalves, está em Itaipava - Petrópolis-RJ; em São Paulo-SP; em Aparecida do Taboado-MS; e em Divinópolis-MG. Para maiores detalhes e informações pode ser acessado o endereço: www.saojoaodedeus.org.br

Em Petrópolis, graças a atuação da Ordem Hospitaleira, existe o Lar de São João de Deus, cuja fundação e história estão intimamente ligadas à pessoa e ao trabalho incansável e  dedicado do Irmão José J. Fernandes, falecido no ano de 2015, aos 101 anos de idade, e que tem no Centro de Atividades Irmão Fernandes (CAIF/2016) a expressão maior do reconhecimento por todo o bem realizado.

Não posso deixar de registrar a existência de muitas outras grandes obras de caridade, de acolhimento e de cuidado com os mais pobres, enfermos, feridos, abandonados e necessitados, inspiradas em outros santos, ainda que não reconhecidos oficialmente pela Igreja de Roma. Todas, sem nenhuma dúvida, revelam a mesma face de Jesus, e são exemplos vivos da mensagem do Cristo piedoso, misericordioso, bondoso e acolhedor.

Este texto é, acima de tudo, expressão de felicidade, de gratidão, de fé e de compartilhamento do conhecimento acerca de uma das mais belas vida e obra de que tive notícia – a de São João de Deus – na qual pude identificar a imagem perfeita do Filho de Deus. Lendo-o, não fique alheio(a). Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

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