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ago 20

EDITORIAL DA SEMANA: SÁBIO É QUEM SABE QUE NADA SABE

TEORIA E PRÁTICA

CIÊNCIA E EXPERIÊNCIA: JUNTAS, SUPERAM DESAFIOS –

*Por Luiz Antonio de Moura –

É surpreendente o número de pessoas que, deslumbradas com o academicismo no qual estão inseridas desde as fraudas da adolescência, acreditam na possibilidade de mudar os rumos da história sem que, para tanto, tenham que pegar no arado e trabalhar a terra. São pessoas que carregam em si a convicção de que o conhecimento acadêmico, por si só, é capaz de garantir-lhes aquilo que só vem com a conjugação entre a ciência e a experiência: a sabedoria! Desconhecem que uma não sobrevive sem a outra e que, sem ambas, o ser humano é levado de um lado para o outro, como folha seca.

Certo dia, conheci um jovem profissional que, já a partir da apresentação, fez questão de colocar na precedência do nome, o título que carrega por força da função que exerce. Depois, questionou a formação recebida por alguns de seus colegas de ofício, que passaram ou que ainda passam por instituições diferentes das que ele frequentou, desdenhando e até colocando em dúvida os fundamentos do ensino acadêmico ministrado em tais estabelecimentos. Cada vez que eu abria a boca, o jovem sábio interrompia a minha fala com uma pergunta cuja resposta, suponho, havia decorado feito menininho que se prepara para responder ao questionário dado pela professora. Falava com certa desenvoltura e demonstrava uma ortodoxia feroz, com cara de “senhor absoluto da verdade”. Uma verdade que, talvez, ensinaram-lhe para que pudesse, no palco da vida, verificar a aplicabilidade e a dosimetria possíveis e necessárias.

Ouvindo aquele jovem prepotente falando, tive pena dele. Pena, porque traz escrito na testa, acreditando que alguém mais experiente não consiga enxerga-lo, que não tem qualquer experiência de vida, apesar de suas quase três décadas de caminhada por este mundo. Conversando, ou melhor, ouvindo-o falar, percebe-se claramente tratar-se de um filhote da academia, que não conhece o laboratório da vida e que, portanto, não possui a vivência que outros colegas seus, mais velhos e, em decorrência, muito mais sábios, adquiriram em suas longas e sofridas caminhadas.

Aquele jovem, para mim, não trouxe qualquer ineditismo, haja vista já ter me deparado com alguns outros exemplares, ao longo da minha carreira. Pessoas das mais variadas origens e no exercício das mais complexas funções, públicas ou privadas, mas que, no fundo, no fundo, demonstraram padecer do mesmo defeito: não possuírem a necessária experiência para, conjugada com os títulos acadêmicos que ostentam, poderem sentar-se com a humildade dos que, mais sábios que os sábios, reconhecem que nada sabem. É claro que muitos leitores e leitoras poderão estar imaginando que o tempo tudo resolve e que com ele, também, vem a tão propalada experiência. É verdade, só que, dependendo do público alvo deste tipo de profissional, o risco do descaminho, do mau direcionamento, do mau exemplo, sem falar na prepotência, na arrogância e na infidelidade às fontes, pode gerar efeitos extremamente danosos e, com estes, a desilusão, o descrédito, o erro, a injustiça, a impiedade, a falta de misericórdia, e o pior de tudo: o péssimo desempenho da função para a qual é designado por vontade própria, em nome de uma altamente discutível vocação.

Tudo isto, porque as pessoas têm pressa em revelar para o mundo aquilo que deveriam tratar com a máxima cautela: os títulos honoríficos. E isto, antes, de poderem alardear que, depois da academia, vivenciaram experiências valiosíssimas que, ou robusteceram o conhecimento adquirido ou, como ocorre com certa frequência, levaram à necessária adaptação entre o ideal e o real.

E o mais assustador, é constatar que pessoas com este perfil acreditam, sinceramente, estarem nadando e mergulhando nas águas profundas do deserto, imaginando que ninguém percebe que estão dando duras braçadas nas dunas quentes e escaldantes de um cenário criado por elas e para elas, fechando os olhos e fingindo não enxergarem a realidade que se passa a poucos centímetros de onde estão.

Será de grande valia para todos os acadêmicos, das mais diversas áreas do saber, atentarem para o fato de que a ciência e a experiência formam a base sólida da sabedoria, que só é visível a olho nu com o passar do tempo e com a chegada dos cabelos brancos, ou da calvície, e não, como pensam alguns, com a quantidade de títulos que ostentam ou pelo fato de terem frequentado instituições de ensino renomadas, nacionais e/ou internacionais.

De mais a mais, há que se indagar: qual será o melhor título para aquele ou aquela que jaz no túmulo? Como diz o Cohelet (Eclesiastes) “O homem não sabe que fim será o seu, mas, como os peixes são apanhados no anzol e as aves caem no laço, assim os homens são surpreendidos pela adversidade, quando ela der sobre eles de improviso” (Ecl 9, 12).

Portanto, e sem qualquer pretensão, embora usando um pouco da ciência e da experiência, é de se convidar os que escoram-se apenas na ciência a envidarem esforços no árduo trabalho de campo, onde a palavra fácil cede lugar a ação, cujo resultado final é a mistura dos ingredientes da fé, do sofrimento, dos golpes, das angústias, das perdas, das traições, das mentiras, das injustiças, da miséria, da doença e de muito mais. A partir desta vivência e desta experiência da boca fechada e dos pés no chão, é que nascem os verdadeiros sábios.

E, para quem tiver alguma dúvida ou mesmo insegurança para esta vivência/experiência, pesquise a vida e a caminhada de Jesus Cristo que detinha a ciência, mas que, ao mesmo tempo, vivia a experiência da caminhada ao lado do povo humilde e sofrido de então. Aquele jovem judeu de Nazaré não frequentou estabelecimentos de ensino internacionais, não possuía títulos dados pelo judaísmo e, quando sentava para conversar, sabia ouvir com humildade e profundo senso de igualdade, sem, jamais pretender ser chamado de Mestre Jesus.

Sabe-se, também por experiência, que nem todos os jovens acadêmicos agem de modo negativo e que muitos, até, fazem questão de destacar a ausência de experiência na área em que atuam de forma recente ou que estão na iminência de atuar. Entretanto, vale revelar, também para estes jovens e promissores profissionais, que os exemplos negativos precisam ser conhecidos e que, como tais, não devem, de forma alguma, serem seguidos.

Da conjugação entre a ciência e a experiência surgem homens e mulheres capazes de, realmente, trazerem algo de alvissareiro para o mundo tão carente de novas perspectivas, ainda que repetindo ensinamentos e lições muito antigos, mas, capazes de superar os desafios nossos de cada dia. Reflita sobre tudo isso, e não se impressione com aqueles que fazem questão de alardear os títulos e os diplomas que receberam ao longo da vida. Talvez, seja tudo o que lhes resta apresentar! Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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