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mar 26

EDITORIAL DA SEMANA: OS RÓTULOS QUE RECEBEMOS

DIREITA OU ESQUERDA

COMO JESUS SERIA ROTULADO NOS DIAS DE HOJE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Vivemos tempos bastante difíceis! Não que os tempos passados tenham sido maravilhosos, mas, sob certos aspectos, os dias de hoje são insuperáveis, se comparados com os antigos, principalmente, no campo da ideologia, onde cada opinião, cada posicionamento tem força suficiente para lançar o sujeito ao mais alto dos céus, ou, condená-lo ao mais profundo abismo, em questão de minutos, dada a força e a potencialidade das redes sociais.

Hoje em dia, por exemplo, defender a mulher ou algumas de suas causas significa ser feminista, ou, efeminado! Combater a homofobia ou defender a homossexualidade, como liberdade de expressão, significa ser contra a moral, a fé e os bons costumes da família cristã. Falar em favor dos menores de idade que lotam as principais vias das médias e grandes cidades, importa passar a mão na cabeça de potenciais infratores que, mais tarde, poderão vir a ser criminosos de alta periculosidade. Ir à igreja sempre, significa querer tirar onda de santinho ou santinha, puritano ou anjinho. Não ir à igreja, significa ser descrente e herege, que não se importa em virar as costas para a divindade. Ser contra as drogas, significa estar totalmente por fora da realidade, enquanto que, ser a favor, revela tendência para o vício e, consequentemente, para o tráfico e para o banditismo. Defender o aborto, significa ser conivente com o infanticídio enquanto que, ser contra, significa violentar o direito da mulher, no trato do próprio corpo. Defender a aplicação das leis, significa apoio à perseguição e exclusão de grupos historicamente deixados à margem da sociedade. Ser contra a prisão de pequenos infratores, significa colaborar com o crescimento da criminalidade, ser a favor, importa desconhecer as razões sociais que os move para o mau caminho. Falar em ordem pública mais rigorosa, significa ser de direita. Defender a liberdade e o zelo para com os direitos humanos, significa ser de esquerda e defender criminosos de forma indiscriminada. Ficar calado, sem emitir qualquer opinião, significa ser omisso e conivente com tudo o que está aí. Defender a democracia importa admitir qualquer forma de ação, sem qualquer vinculação com a ordem, com a lei, com a moral ou com bons costumes sociais. Exigir respeito aos próprios direitos, significa querer estar acima de tudo e de todos, em uma sociedade na qual ninguém respeita ninguém, porque todos entendem-se como absolutamente livres. Promover a orientação sexual, significa aprovar as cenas sexuais impostas pelas novelas da “rede-mãe”. Defender a convivência salutar e igualitária entre os desiguais torna-se passe livre para a defesa de todo tipo de degeneração com, inclusive, ampla divulgação midiática. Ser a favor de certos comedimentos, importa em ir contra a maré e, consequentemente, agir com discriminação. Afirmar que ricos e pobres vivem realidades muito diferentes, significa defender a luta de classes. A Igreja que defende os pobres é a Igreja marxista! A que se cala, é de direita e conservadora. E por aí vai. O certo é vivemos momento ímpar da nossa história no qual, se falar, o bicho pega, se calar, o bicho come!

Jesus, em determinado momento da vida pública, e em um contexto de bastante fustigação por parte do farisaísmo hipócrita, arrogante e demagogo, semelhante ao dos nossos dias, afirma, sobre os costumes de então: “Veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Ele tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e um bebedor de vinho, um amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11, 18-19). Por esta afirmação do Rabino de Nazaré podemos perceber que, mudam os tempos e os cenários, porém, permanece o ator principal: o homem!

Caso Jesus decidisse retornar fisicamente ao mundo, e, desgraçadamente, escolhesse o Brasil como terra natal, qual seria o rótulo a ele atribuído? Antes de qualquer resposta, é necessário destacar alguns detalhes do perfil de Jesus: não fala mentira; não se interessa em agradar ou em aparecer ao lado dos poderosos de plantão; não discrimina pessoa alguma; perdoa todo e qualquer pecado; diz “não” à vingança; manda amar o próximo, perdoar-lhe as dívidas e oferecer a outra face, quando uma delas for esbofeteada; manda andar dois mil passos, com aquele que obrigar andar apenas mil; ordena entregar, também, a capa, quando for exigida a túnica; ensina abençoar os que amaldiçoam; manda orar pelos inimigos; ordena que se faça ao outro, tudo o que se quer receber do outro; diz para não pedirmos de volta aquilo que for levado de nós; diz que devemos usar de misericórdia, da mesma forma como Deus-Pai usa para conosco; afirma que não devemos julgar, para não sermos julgados; nem condenar, para não sermos, também, condenados. Caso não acredite nestas características de Jesus, leia o capítulo 6, 27-38, do Evangelho de Mateus.

Um Jesus com este perfil, nascido em meio à hipocrisia, ao farisaísmo e à demagogia que tanto conhecemos, como seria rotulado por aqui? Não dá para ficar elucubrando quais seriam os títulos que esse Jesus receberia, dada a diversidade de rótulos que, possivelmente, seriam atribuídos a ele pelos nossos queridos e badalados “intelectuais” (de direita ou de esquerda) e pela nossa todo-poderosa e onipresente mídia, que teima em falar em nome da “sociedade civil organizada”.

Jesus, certamente, seria fuzilado em algum momento, e sabe-se lá se viraria mártir ou se seria “endeusado” pela tal “sociedade civil organizada”. Talvez o noticiário da rede-mãe fosse iniciado por algum âncora robotizado afirmando, com o semblante sério e tristonho: “foi morto hoje, com tiros de fuzil AR-15, um homem chamado Jesus. Um homem que dizia amar todas as pessoas e que pregava a paz, a união e a igualdade entre todos os seres humanos; um homem que não condenava ninguém, mas, que, segundo as primeiras investigações, era aliado de grupos desordeiros e inimigos da sociedade. Sabe-se que esse Jesus, junto com outros doze companheiros, não trabalhava, não estudava, não contribuía com a Previdência Social, não pagava imposto de renda, e, ainda, ensinava que não se deve ter qualquer preocupação com o dia de amanhã. Enfim, trata-se de um homem que fez muito mal à nossa sociedade “organizada”. E o tal âncora, personagem conhecido e imposto pelo sistema, continuaria dizendo: “por todo o país, trabalhadores sem terra e sem teto, prostitutas, homossexuais, militantes de partidos de esquerda, e de extrema esquerda, usuários de maconha e de crack, desempregados, mendigos e moradores de rua estão, neste momento, fazendo passeatas nas ruas e avenidas das principais capitais do país, exigindo investigação, apuração e punição dos assassinos de Jesus, mas, as forças de segurança já foram mobilizadas e estão dispersando os manifestantes, conforme mostra o repórter ‘X’”. Aí, o cinegrafista que trabalha com o repórter “X” mostra cenas de policiais com armas de fogo, cassetetes, bombas de efeito moral e cães de raça atirando-se sobre o exército de desvalidos, mais parecidos com zumbis ambulantes do que com qualquer outro ser pernicioso, cuja existência a rede-mãe tenta fazer crer aos expectadores. O cenário é, deveras, deprimente, mas, nos dias seguintes ao ocorrido, sociólogos, antropólogos, padres, pastores, babalorixás,  defensores dos direitos humanos, comandantes das forças policiais e militares, presidentes daquelas já conhecidas instituições de sempre, seriam convocados ao debate para desvendarem quem, a final, era o tal de Jesus. Conclusão: esse Jesus era um esquerdista-marxista-leninista-petista-anarquista-herege, bastante vinculado à Teologia da Libertação, usuário de drogas e com tendências homossexuais que, querendo se projetar politicamente, tentou cooptar pessoas pobres e humildes para a sua causa. Por esta razão, e com este intento, ele não discriminava ninguém, pois, o que ele queria mesmo era voto!

Por fim, lamentando a trágica morte de mais um “ser humano” em terras verde-amarelas, encerram-se os debates, e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Ou seja, precisamos rechaçar os rótulos e abraçar os conteúdos. Abominar as ideologias e acolher as ideias. Porque, caso contrário, continuaremos a fazer parte desta massa sovada sobre uma plataforma de mármore, ao gosto dos formadores de opinião que, desconsiderando totalmente as nossas opiniões, querem pintar o mundo com as cores que eles próprios fabricam. Aí, ora o mundo aparece em azul, ora em vermelho, amarelo ou mesmo negro. E, dependendo da cor predominante, corremos para a direta, para a esquerda ou caímos nos abismos cavados por eles mesmos, para se livrarem de parte de nós. A parte que normalmente incomoda, como o nosso Jesus triste-brasileiro.

Este texto não pretende ser divertido. Ao contrário, é lamentável. No entanto, convida à reflexão sobre o papel que cada um de nós está representando nesta sociedade totalmente devastada pela ignorância e por uma (in)cultura que em nada contribui para a reforma das bases, a partir de onde poderemos ser reerguidos e, talvez, consigamos sair do campo de manobra dos grupos dominantes. Nada disso será feito com revoltas, revoluções, violência ou guerras, mas, com sabedoria, inteligência, sensatez e bom senso. Quem não os possui, peça-os a Deus que, jamais, deixa de ouvir o clamor do seu povo! Reflita, e faça a sua parte. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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