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dez 04

EDITORIAL DA SEMANA: OREMOS E SUPLIQUEMOS A DEUS PELOS REFUGIADOS

REFUGIADOS - 2017

A DOR DOS REFUGIADOS DEVE DOER EM TODOS NÓS, PORQUE DESCONHECEMOS O DIA DE AMANHÃ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Parece ser uma cena comum, afinal, todos os dias os telejornais mostram aquelas filas enormes de seres humanos vagando ao longo de estradas empoeiradas. Muitos, caminhando a pé, descalços, mal vestidos e com trouxas nos ombros ou nas cabeças. Quem olha, pensa que são nômades em busca de terras mais promissoras, onde a vida, talvez, seja mais palatável.

N’outras cenas, vemos barcos apinhados de pessoas, muitos dos quais acabam por naufragar, matando grande parte daquele povo que parece ter sido sorteado para uma longa viagem marítima, em busca de aventura em países mais ricos, na busca por melhores condições de vida e de sobrevivência.

refugiados no mar

Todas estas cenas, aos olhos de um mundo descrente, descolado da realidade e, até certo ponto, descomprometido com as causas humanitárias, passam como se fossem anúncio dos próximos capítulos das famigeradas novelas, que tanta atenção despertam, todos os dias, ainda que sejam conhecidos os atores e os enredos, dos quais ninguém parece se cansar ou se entediar. Cansaço e tédio causam as cenas das multidões pobres, cansadas, doentes, negras, magricelas e desprovidas de todo e de quaisquer recursos. Gente que muita gente gostaria de ver dizimada, para não afrontar a consciência da massa de privilegiados que, pelo menos por enquanto, usufruem, ainda que de forma bastante humilde, da sua casinha, da sua caminha, do banheiro, do pratinho de comida e de um simples, mas, rico, copo com água.

Toda esta gente que vemos atravessar estradas, mares e fronteiras, sob o sol escaldante, a chuva torrencial, a fome que faz gritar o estômago, a doença que aniquila e que mata, a perseguição que amedronta, a morte própria e a dos filhos que tanto desespero traz para as famílias, são pessoas como nós. Pessoas que um dia tiveram suas casinhas, sua cama, seu banheiro, seu alimento, seu ganha-pão, sua profissão e, o mais importante, sua identidade, mas, que, hoje, perambulam mundo afora em busca, não de riquezas ou de terras mais produtivas, mas, de paz, de vida, de liberdade, de reconstrução da própria vida e, da própria identidade.

REFUGIADOS SOB O SOL

São pessoas que, conforme mostram alguns documentários mais comprometidos com a verdade, tinham profissão proeminente – médicos, professores, engenheiros, enfermeiras, construtores, cozinheiros, padeiros – mas que, depois da guerra, depois da perseguição étnica, religiosa ou política, depois da limpeza social patrocinadas pelo lado mais cruel, obscuro e insensível do ser humano, tiveram que abandonar tudo, ou o pouco do que restou, para irem mais adiante na tentativa de salvar, pelo menos, a própria vida e a dos seus entes mais queridos que, por milagre, ainda estão vivos.

Perder todos, absolutamente todos os bens materiais; perder casas, empregos, parte da família, roupas, calçados, malas, animais domésticos e documentos e sair mundo afora, com sério e iminente risco de perda da própria vida, bem como a dos entes mais próximos, ainda é dizer pouco sobre o cruel destino desta pobre gente. Pois, além de todas as perdas sofridas e de todos os desafios enfrentados durante longas viagens, nas quais são exploradas e humilhadas, estas pessoas correm o risco maior: o de serem rejeitadas no endereço de destino, com a ordem de retorno imediato para os locais de origem onde, inevitavelmente, serão recebidas pela morte violenta e torturante.

Não é possível que, assistindo a tudo isto, durante dias e dias seguidos, por meses e anos a fio, ainda consigamos dormir tranquilos; ainda consigamos sentarmo-nos à mesa farta e levantarmos brindes ao time campeão, ao Natal que se aproxima e à Escola de Samba a desfilar no Grupo I no próximo carnaval. Não é possível que consigamos nos esquecer, ou, na melhor das hipóteses, não consigamos, sequer, aventar a possibilidade de que, diante das atuais estruturas de poder e de mando do mundo, nós somos sérios candidatos à perda do pouco que ainda temos e, certamente, disputaremos lugares nas mesmas embarcações para, atravessando mares e fronteiras, tentarmos sermos recebidos n’outros países, talvez, governados por homens e por mulheres mais humanos, mais honestos, mais sensíveis e mais sensatos.

UM BRINDE À VIDA

Precisamos ter em mente que nossos irmãos refugiados estão sofrendo muito, e que a dor que hoje dói em cada um deles, poderá doer, manhã, em cada um de nós graças, repito, às macabras estruturas de poder e de comando sob as quais estamos, e somos, sujeitos.

Para aqueles que julgam nada poderem fazer, a não ser lamentar, digo que podemos fazer muito: podemos nos unir em profunda oração e súplica a Deus, que sempre caminha ao lado de todos os sofredores, perseguidos, humilhados e rejeitados de todos os tempos. Podemos nos colocar à disposição do voluntariado para, dentro das nossas limitadas possibilidades, colaborarmos com o acolhimento e com a distribuição de víveres para os mais sofredores do que nós. Podemos, e devemos acreditar que, o que hoje acontece com eles, amanhã poderá acontecer com muitos de nós.

ORAÇÃO DE SÚPLICA

Certamente, concordamos não ser fácil ter que fugir no nosso lugar, da nossa gente, do nosso solo, das nossas coisas e das nossas raízes para, totalmente desprovidos de tudo, inclusive, da esperança, seguir sem rumo e sem destino certo, em busca do acolhimento que nem sempre chega de forma espontânea, aconchegante e carinhosa mas, quase sempre, quando chega, é por meio de imposição governamental, fruto de acordos multilaterais entre diversas nações, cujos povos nem sempre estão dispostos ao compartilhamento.

Pensemos nestes nossos sofridos irmãos que, mundo afora, estão sofrendo, chorando e caminhando em busca de um lugar para viverem longe das guerras, das perseguições, das humilhações e de toda forma de vida degradante. Pensemos neles, sem esquecermos de que somos todos iguais, frutos da mesma terra e que, portanto, estamos sujeitos, sempre, à mesma sorte e ao mesmo destino.

Ao se aproximar mais um período de festas natalinas e de expectativas para mais um ano novo, voltemos os nossos corações e os nossos espíritos para estes nossos irmãos e irmãs de diversos países do Continente Africano, da Síria e do Afeganistão, principalmente que, segundo relatórios mais recentes do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), passa dos 43 milhões de seres humanos, dentre os quais figuram mais de 15 mil crianças órfãs ou separadas dos pais. E mais: reservemos um tempo durante as nossas animadas comemorações de fim de ano para unirmo-nos em oração de súplica a Deus, para que, dos céus, envie o socorro e o acolhimento de que tanto necessitam estes nossos irmãos e irmãs espalhados pela estradas empoeiradas, pelos desertos e pelos mares revoltos de todo o mundo. Apesar de tudo isso, tente ser feliz, e boa sorte!

REFUGIADOS - O SÍMBOLO _________________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é um caminhante com outros caminhantes, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

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