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mar 05

EDITORIAL DA SEMANA: ONDE ESTÁ O “OUTRO”?

TIVE FOME - 2

ONDE ESTÁ O OUTRO? UMA PERGUNTA ANTIGA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Vivemos em um mundo, e em uma época, em que o que menos interessa é a vida do nosso semelhante. O nível de medo e de desconfiança aumentou tanto, que preferimos manter poucas relações pessoais e decidimos passar ao largo dos problemas alheios, quase sempre com a desculpa de que “não temos tempo agora” ou “não podemos fazer nada mesmo”, e por aí vai. O certo é que, aos trancos e barrancos, tentamos viver e sobreviver num emaranhado de sensações e de sentimentos que vão desde a alegria extrema, de um lado, à tristeza, sofrimento e preocupação, de outro, sem termos, realmente, muita coisa para oferecer a quem quer que seja. Até porque, para muitos de nós, problemas sérios são os nossos; sofrimento grande, é o nosso! O outro? ah, o outro é o outro. Nada mais. Não interessa.

Entretanto, vivemos diante de uma lógica perversa, porque, ao escolhermos ignorar o "outro", atentando apenas para o nosso umbigo e para o daqueles mais próximos de nós, deixamos de ampliar as possibilidades de socorro, para quando surgirem as adversidades no nosso caminho. Porque é na queda que sentimos falta de uma mão amiga para o soerguimento. Em pé, e caminhando, todos somos livres e independentes. No chão da vida, porém, acaba a liberdade para caminhar e surge a dependência e a necessidade da tal mão amiga.

Tudo isso, para buscar na Palavra a direção acertada para a vida. Deus, conforme a narrativa do Livro do Gênesis, cria um mundo maravilhoso! Um mundo extremamente belo, grande e produtivo. Nada faltou! Nada? Faltou sim. Faltou um ser semelhante, com quem pudesse desenvolver uma relação de amizade e de confiança. Uma relação de crescimento e de desenvolvimento de toda a criação já iniciada. E Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). E depois, ainda não plenamente satisfeito, cria a mulher e incentiva-os: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e dominai-a” (Gn 1, 28). Ou seja, mesmo para Deus, a existência e a presença do “outro” é de suma importância, porque Ele quer estar junto, quer se fazer presente e companheiro.

Assim, em meio ao silêncio estranho que reina no Jardim do Éden, o Senhor chama pelo homem e pergunta: “Onde estás?” (Gn 3, 9). É claro que Ele sabia onde o homem e a mulher estavam, mas, quer demonstrar interesse, preocupação, mostrar que sente necessidade da companhia das suas principais criaturas.

No mesmo sentido, bem mais tarde o Senhor Deus questiona Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” (Gn 4, 9). Também aqui, Deus sabia que Abel já não vivia, pois, tinha sido morto pelas mãos do irmão. Mas, o Senhor, com a pergunta: “Onde está o teu irmão Abel?”, toca fundo na alma de Caim que, naquele momento, percebe que Deus queria vê-los juntos. Não, divididos e, pior, divididos pela morte de um deles pelas mãos do “outro”. Para Deus, o “outro” deve ser agregador, não, divisor. Deus é com todos, e não, com uns ou com outros, mas, com todos. E todos, aqui, somos nós e os “outros” que, juntos, somos um com o verdadeiramente Outro, Aquele que é e que sempre está.

João Batista, o precursor, depois de batizar Jesus, envia “dois” de seus discípulos para seguirem-No. Dois mais o verdadeiramente Outro. Depois, segundo o relato de Mateus, Jesus “viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão”. Mais adiante, “viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão”. Tais escolhas não ocorreram sem uma razão específica: sempre unir, jamais, dividir! Daí, um aspecto negativo na parábola do filho pródigo, quando o irmão mais velho se revolta contra o pai que faz festa para celebrar a volta daquele que “estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi encontrado” (Lc 15, 24). Para aquele pai havia uma incompletude: faltava o “outro” filho. Agora, com o seu retorno, toda a alegria está de volta e o pai diz ao filho aborrecido: “Filho, tu estás sempre comigo, tudo o que é meu é teu; era, porém, justo que houvesse banquete e festa, porque esse teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi encontrado” (Lc 15, 31-32). Agora, sim, com o retorno do “outro, está completa a felicidade daquele pai.

E é preciso caminhar ao lado do “outro”, sem excluí-lo, sem desprezá-lo, para não acontecer como no caso contado por Jesus, sobre o rico avarento e o pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Da compreensão acerca da necessária relação com o “outro”, nasce a vida comunitária e desta, o ambiente de comunhão com o Deus Trindade. É necessário saber que o “outro” é qualquer um, para não cairmos na tentação de escolhermos a quem devemos abraçar ou prestigiar ou ajudar. Por esta razão, quando um doutor da lei pergunta a Jesus: “E quem é o meu próximo?”, ouve como resposta a parábola do “bom samaritano” na qual, e em resumo, um homem absolutamente estranho e mal visto pelos judeus, apieda-se daquele que, vítima de ladrões, jaz ferido e moribundo na estrada, necessitando de socorro imediato, para não perder a própria vida. Ao final, Jesus indaga ao doutor: “qual dos passantes te parece ser o próximo daquele moribundo” ao que ele responde; “o que agiu com misericórdia”, “vai e faze tu o mesmo”, ordena Jesus, encerrando a conversa.

Onde está o outro? É a pergunta tema: o outro está, sempre, onde eu estou, seja ele quem for. Se for do bem, alio-me a ele; se do mal, afasto-me dele; se cair, sendo do bem ou do mal é meu dever ampará-lo e soerguê-lo porque, na parábola do bom samaritano, ninguém se interessou em saber se o moribundo era do bem ou do mal; ninguém se preocupou em saber se os ladrões que o atacaram agiam por vingança, contra possível e antigo parceiro, e quem sabe, até mesmo um trapaceiro. Simplesmente, o samaritano decide expor-se para cuidar e, depois, segue seu caminho de forma absolutamente anônima. Como disse Jesus, devemos ir e fazer o mesmo.

O “outro” é tão importante, que Jesus compara-se a ele, ao declarar: “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40). E, por que Ele diz isto? Porque é Deus, e Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Portanto, Deus tem em cada um de nós, um semelhante Seu.

É difícil para nós, que vivemos em um período tão violento, cruel e maldoso, abrir as portas do coração e da casa para o “outro”, total e perigosamente “estranho”, mas, por esta razão, mais do que sempre, precisamos, repetindo a oração do Pai Nosso, pedir com fé redobrada: “livrai-nos do mal”. Somente Deus pode nos livrar do mal e dos seus tentáculos, mas, se eventualmente, virarmos vítimas, grande será a nossa recompensa porque, segundo a fé que professamos, precisamos confiar nas palavras de Jesus quando afirma: “Bem aventurados sois, quando vos insultarem e vos perseguirem, e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas, que existiram antes de vós” (Mt 5, 11).

Não tenhamos medo do “outro”, por intermédio dele e das ações que direcionarmos a ele, as portas do céu poderão ser trancadas ou escancaradas para nós. Façamos a nossa parte, à imitação do Deus Uno e Trino, e aguardemos a tão esperada recompensa que, certamente, não virá de forma definitiva enquanto estivermos neste plano terreno, mas, chegará quando mais necessitarmos. Aquela mão amiga, a que nos referimos no início deste texto, será estendida para podermos fazer a maior de todas as travessias da nossa existência. E depois, o Pai estará esperando por nós para, junto com todos os “outros”, celebrar o nosso retorno à verdadeira vida. Apenas creia. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia, no ITF-Petrópolis, é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio!

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