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out 22

EDITORIAL DA SEMANA: O SÁBIO CONSELHO DE GAMALIEL

GAMALIEL

A SABEDORIA DE GAMALIEL –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O nome “Gamaliel” talvez passe despercebido por muitos cristãos de carteirinha, o que é plenamente escusável, por ser citado no Novo Testamento apenas uma vez. O fato de ser citado apenas uma vez não tira a importância deste homem que, mestre e doutor da lei, teve o Apóstolo Paulo como um dos seus destacados discípulos, no tempo em que ainda era conhecido por Saulo.

Sobre Gamaliel, em termos bíblicos, tudo o que se sabe está descrito no Livro dos Atos dos Apóstolo, capítulo 5, que narra a intervenção dele em favor dos apóstolos de Jesus, que estavam presos e pressionados por um Sinédrio alarmado com a disseminação de uma mensagem, cujo autor eles haviam, há pouco, visto morrer pregado em uma cruz.

A partir do versículo 17, Lucas (Autor do Livro dos Atos dos Apóstolos) narra que o príncipe dos sacerdotes, assim como seus amigos do partido dos saduceus, agride violentamente os apóstolos, lançando-os na prisão, em decorrência do extremo ódio e da inegável inveja. No entanto, colocados em liberdade por um anjo enviado pelo Senhor, retornam ao Templo onde ensinam a todo o povo. Novamente presos, são encaminhados para o Sinédrio, onde são interrogados pelo príncipe dos sacerdotes que cobra deles a desobediência à ordem para não falarem em nome de Jesus. Pedro, porém, junto com os demais companheiros, repete tudo o que se passou com Jesus, afirmando que, antes dos homens, devem obediência a Deus, que ressuscitou Jesus, elevando-O aos céus, “para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Nós somos testemunhas destas coisas e também o Espírito Santo, que Deus tem dado a todos os que lhe obedecem” (At 5, 31-32).

Diante do que ouviram, os sábios do Sinédrio ficaram possessos e queriam mandar matar os apóstolos. É aí que Gamaliel, que Lucas descreve como “doutor da lei, respeitado por todo o povo”, levanta-se no meio deles e propõe aos colegas o uso da razão. Ele recorda o aparecimento de diversos movimentos libertários surgidos entre eles em tempos um pouco mais antigos, todos eles guiados por algum líder que, apesar de alguma expressão inicial, ao final, é derrotado e seus seguidores dispersados, sem maiores consequências. Após tais recordações, e a respeito daqueles pobres apóstolos, diz Gamaliel: “Agora aconselho-vos a que não vos metais com estes homens e que os deixeis; porque se esta ideia ou esta obra vem dos homens, ela mesma se desfará; mas, se vem de Deus, não podereis desfazer; assim não correis o risco de fazer oposição ao próprio Deus”  (At. 5, 38-39). Segundo o Autor do Livro dos Atos dos Apóstolos, o conselho de Gamaliel foi seguido e os apóstolos, depois de açoitados mais uma vez, foram postos em liberdade sob a ordem de não mais falarem no nome de Jesus.

A lembrança de Gamaliel deve ser sempre trazida à baila, quando estamos diante de situações, movimentos ou ondas que parecem indicar o fim dos tempos, causando medo, pavor, incerteza e insegurança. Precisamos saber que, se aquilo que nos perturba vier de Deus, tudo dará certo e seremos rapidamente serenados pela força invencível do Espírito. Entretanto, se não for de Deus, será dissipado de forma natural ou em decorrência de alguma força por nós desconhecida. Olhemos para a história do mundo e do nosso próprio país. Quantas coisas já nos deixaram apavorados, assustados e inseguros, mas, que, de repente, viraram fumaça e nada do que temíamos aconteceu? Quantas pessoas foram tachadas de serem verdadeiros santos e santas que, com o passar do tempo, tiveram a verdadeira face revelada e foram, peremptoriamente, afastadas do nosso meio, algumas indo até para o além? Outras tantas que, de início, foram tidas como representantes do diabo, mas, que, igualmente, com o tempo revelaram não serem nada daquilo que delas era falado e, no final, mostraram-se essenciais nos meios sociais, comunitários, familiares e, até mesmo, políticos.

Precisamos, no estágio atual das nossas realidades, e mais do que nunca, ouvir o conselho do mestre Gamaliel e deixar que todas as poeiras sejam assentadas para, só então, verificarmos se o que tanto nos acalenta ou tanto nos amedronta é real ou não. Isto porque, mais do que no tempo de Gamaliel, somos vítimas de muita desinformação, muita mentira, muita falsidade, muita distorção dos fatos e, como sempre, de muita perversidade, o que nos induz para atitudes impulsivas, explosivas, insensatas e imprudentes quando, se agíssemos movidos pela serenidade e por um mínimo de racionalidade, faríamos como fazem os jogadores de xadrez: movem a peça e aguardam o opositor fazer sua jogada para, só então, voltarem a agir. Assim, agindo depois da jogada dos opositores, poderemos dar o famoso xeque-mate e vencermos o jogo, coisa que não conseguiremos se continuarmos dando ouvidos aos quatro ventos e, atônitos, mexermos a primeira peça que aparecer diante dos nossos olhos. Corremos o risco de, mais uma vez, perdermos o jogo.

A figura de Gamaliel, assim como sua sabedoria, deve estar sempre presente nas nossas memórias e, mais do isso: devemos acreditar sempre que Deus caminha ao lado do seu povo, o que é testemunhado em toda a Bíblia Sagrada.

Portanto, não permitamos que o medo, o pavor, a incerteza e a insegurança tomem conta das nossas vidas e dos nossos dias, e acreditemos firmemente que Deus está, realmente, no comando de tudo e que, na hora “H”, somente Ele será vitorioso, apesar das insídias do mal que se autopromove, e que é promovido por seus fiéis seguidores.

Relendo o Livro dos Atos dos Apóstolos (At 5, 12-42), perceba onde residem a verdadeira sabedoria e a força de Deus e, crendo de todo o seu coração e com a sua alma, confie Naquele que tudo pode e contra o qual inexiste a predominância de qualquer poder humano. Não se assuste com as maquinações dos homens. No final, eles próprios caem nas ciladas que armam para os seus semelhantes, mas, como diz o salmista, o que não se deixa levar pelo conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores nem toma assento junto aos escarnecedores, “Será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas” (Sl 1, 1-3).

Oremos e confiemos na Providência de Deus, que jamais abandona o seu povo e que sempre está a ouvir os nossos clamores, como fez com o povo hebreu, a quem tirou da terra do Egito, da casa da escravidão (Dt 6, 13), conduzindo-o para uma terra de paz e de fartura. Não tenhamos medo dos dias vindouros porque, “se o Senhor é por nós, quem será contra nós?”, é a pergunta que o Apóstolo Paulo faz aos cristãos romanos, na longa carta a eles dirigida, por volta do ano 57 d.C. (Rm 8, 31). Como disse Jesus a Jairo, cuja filha acabara de morrer: “não temas, crê somente e ela será salva” (Lc 8, 50).

Assim, crendo e orando, prossigamos com a nossa caminhada e, ouvindo o conselho do douto Gamaliel, deixemos que as obras revelem suas origens e seus desígnios e, desse modo, veremos o sol brilhar novamente. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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