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nov 05

EDITORIAL DA SEMANA: O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE

O HOMEM DA MONTANHA

O HOMEM DA MONTANHA E O DA CIDADE –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Todos somos iguais perante a lei e perante Deus, mas, quanta diferença existe na forma de olhar o mundo e de viver, entre o homem da montanha e o que vive nos grandes centros urbanos, em meio à gente engomadinha, perfumada, bem maquiada e frequentadora dos lugares mais nobres. O homem da montanha tem um olhar simples para todas as coisas, a tudo enxerga com boa-fé: caminhando pelos grandes centros, ao presenciar alguém deitado em um canto da rua, logo se coloca no lugar daquele pobre coitado e quer aproximar-se para dar-lhe alguma coisa, enquanto o homem da cidade, olhando para o mesmo cenário, diz: “por que não trabalha? Por que vive às custas dos outros, fugindo do labor diário?”

O homem da montanha, acostumado com as grandes dificuldades da vida, sabe o valor de um prato de comida, tenha o conteúdo que tiver. O da cidade grande, não. O da cidade grande pensa primeiro na qualidade e na diversidade da salada, na textura do arroz, na maciez e na ausência de gordura da carne, no tomate “sem sementinhas” e, ao final das refeições, deixa sempre algumas sobras no prato, mesmo sabendo que irmãos seus passam fome pelo mundo afora. O homem da montanha só pensa em alimentar-se e ver o estômago satisfeito. Por isso, come em qualquer lugar, sem restrição a qualquer espécie comida. O homem da cidade, não. Ele escolhe lugares mais arejados, mais bonitos, bem localizados e melhor frequentados.

O homem da cidade é preocupado com a aparência: tem que estar bem barbeado, bem vestido, sapatos brilhosos, cabelo bem penteado, cortado e bem aparado, enquanto o homem da montanha pouco se lixa para esses detalhes pessoais, o que ele mais quer é conversar descontraidamente, dar gargalhadas quando sente vontade, contar piadas ao seu jeito, dar tapinhas no ombro do interlocutor, demonstrando intimidade. Uma intimidade que incomoda o homem fino da cidade que, de certa forma, fica até um pouco envergonhado quando está acompanhado do amigo da montanha.

Para o homem da montanha nada é mais rico, belo e querido do que passar as férias em casa, fazendo alguns trabalhos de melhoria para a família ou, quando muito, ir para a roça, para a casa de algum parente que há muito não vê, comer torresmo com couve e tomar uma cachacinha. Rachar lenha e pescar no pequeno lago, onde encontra tilápias graúdas que, fritas, farão a alegria de todos da casa. Para esse homem simples, faz parte das férias matar galinhas e porcos para os pratos roceiros de sempre. É da essência deste tipo de homem o andar descalço quando, de volta e meia, pisa de forma desajeitada em alguma pedra, machucando o centro do pé, ou, ainda, em um espinho de alguma fruteira, caído no solo pedregoso. É da essência deste homem visitar os porcos no chiqueiro, acariciando-os pelo lombo para verificar a solidez e a textura do toucinho que se afirma a cada dia, assim como está no seu ser sentir o cheiro do mato, das vacas e dos cavalos que, mesmo não sendo de sua propriedade, ele aprecia como se dono fosse.

Para o homem da cidade isso não é férias, é, como se diz “programa de índio”. Férias para o homem fino da cidade, é viajar para o estrangeiro. Quanto mais países ele visitar ao lado da família, quanto mais dólares gastar, quanto mais restaurantes grã-finos puder frequentar e quanto mais parques, jardins, museus e espaços públicos e privados puder adentrar e tirar fotos, muitas fotos, mais terão valido a pena as suas doces e inesquecíveis férias, que ele faz questão de repetir ano após ano, para o deleite próprio e dos seus amigos e familiares

O homem da montanha, quando passa diante de uma igreja, ainda que não faça nenhuma reverência física com as mãos, lembra-se do seu Deus e louva-O por todas as coisas que possui. Enquanto o homem da cidade, ao passar diante de uma igreja, fica admirado com a arquitetura, com os vitrais alemães ou italianos e, não raro, critica a falta de manutenção, esquecendo-se de que qualquer obra demanda dinheiro. O homem da montanha, de forma religiosa, enfia a mão no bolso e tira sempre um trocadinho para depositar na caixa de coleta da igreja, ou mesmo para doar o dízimo do seu pequeno ganho. O homem da cidade, na maioria das vezes, critica e condena a coleta de dinheiro nas igrejas, afirmando que os pregadores e os líderes religiosos abusam dos pobres fiéis, pedindo dinheiro de forma descarada. Este homem moderno, inteligente e esperto, bem arrumado e maquiado à altura, não dá uma moeda para ninguém, porque ele “não quer contribuir com o crime organizado!”.

O homem da montanha é simples e aberto, não desconfia de ninguém e, por esta razão, sempre que é solicitado estende a mão para o próximo. O homem da cidade, não. Ele que conhece tudo e todos os mecanismos de esperteza e de maldade, desconfia da própria sombra e evita estender a mão para qualquer desconhecido que o aborda na rua. Entretanto, volta e meia ele é abordado por alguém com uma arma e, necessariamente, tem que entregar, não apenas as moedas, mas, também, as notas e os diversos cartões de banco que carrega consigo e que faz questão de deixar à vista quando vai efetuar algum pagamento, para que todos vejam tratar-se de “pessoa de bem”. O homem da montanha nem carteira possui, carrega seu dinheirinho amassado em qualquer um dos bolsos da calça ou da camisa, sem chamar a atenção de ninguém.

O homem da montanha quando passa diante de um hospital ou de uma capela fúnebre, faz profundo silêncio e eleva o pensamento a Deus, porque sabe que alguém está sofrendo em qualquer daqueles lugares. O homem da cidade não liga para isso e, quando passa pelos mesmos lugares, não se importa em meter a mão na buzina do carro se alguém o ultrapassa de forma desajeitada, ou, então, passa com os alto-falantes do carro na último estágio do volume, pouco se lixando para o fato de alguém, naquelas imediações, está em profundo sofrimento.

O homem da cidade, quando morre é levado para o salão mais nobre de uma das instituições por ele frequentadas no curso da vida, onde amigos, vizinhos e parentes fazem filas para olhá-lo naquela última forma que, impreterivelmente, a família cuida para que demonstre boa aparência e feições parecidas com as dos santos, para que todos digam: “olha, parece que está dormindo”, porque a morte, para este tipo de homem, é a maior humilhação pela qual um ser humano pode passar. Ao passo que o homem da montanha, nas mesmas condições, é velado nas capelas mais simples e humildes do lugarejo, sem qualquer pompa e sem nenhuma glória.

Não queria, mas, é bom lembrar que o caixão do homem da cidade é de madeira boa, com alças cromadas e elegantemente projetadas, além de estar regiamente ornamentado e de ser depositado em urna especialmente preparada para ele, no mausoléu da família. Enquanto o homem simples da montanha tem o corpo deitado em um caixão bonito, sim, mas, feito com a pior madeira possível, porque a família não tem condições de dar-lhe um aconchego melhor e, na hora “H”, é depositado no primeiro gavetão público que estiver desocupado. Enquanto no mausoléu da família do homem da cidade a urna mortuária recebe placa de bronze ou de outro metal mais vistoso, com foto e tudo, o do homem da montanha, na maioria da vezes é identificado apenas com uma placa de latão que exibe números grandes, em preto, parecendo marcação de propriedade privada. Propriedade da terra!

São muitas as diferenças entre estes dois tipos humanos, embora feitos da mesma matéria: o pó da terra. De lá veem e para lá retornam, sem se darem conta de que, nesta vida, o que vale mesmo é o viver. Simplesmente viver. Viver da forma mais simples e humilde possível, sem máscaras, sem requintes, sem maquiagens e sem enfeites externos porque, no final, no mausoléu da família ou no gavetão público, tudo será reduzido a nada. Portanto, olhe para o homem da montanha com admiração e procure imitá-lo em tudo porque a ele foram revelados segredos espirituais que, certamente, farão toda a diferença quando o mausoléu da família ou o gavetão público forem lacrados. Dali por diante, tal qual em vida, a caminhada será muito diferente. Reflita sobre isto e ajuste-se enquanto é tempo. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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