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Sementes de vida, ������© tempo de semear

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nov 06

EDITORIAL DA SEMANA: O FUTURO INCERTO DAS CRIANÇAS

ÁRVORE TORTA

QUE SEMENTES ESTAMOS PLANTANDO?

*Por Luiz Antonio de Moura –

Planta-se hoje, colhe-se amanhã! Este axioma, de tão verdadeiro, tornou-se uma ameaça para o nosso tempo, quando lançamos o olhar para os canteiros de hoje e vislumbramos as árvores de amanhã. Aquilo que no passado era motivo de muita esperança e expectativa foi transformado em séria dúvida e até mesmo de receio da iminente chegada.

Observo o tempo, as práticas e os meios adotados, assim como os primeiros resultados de uma infância que jamais poderia declinar para o campo da monstruosidade adulta, na fala, nos gestos, nos gostos e nas próprias inclinações que, em diversos casos, são, deveras, violentos e desprovidos do sentimento puro e inocente que outrora escorria pelas faces de meninos e de meninas, como gotas de luzes resplandecentes.

Um caso aqui, outro ali, um outro acolá e, no fim, o resultado assustador de crianças, algumas ainda menores de quatorze anos, agindo no pior formato dos adultos rebeldes e rebelados contra uma sociedade que, desde sempre, se afigura injusta, insensível, insana e insensata, a ditar modos e costumes para o que se convencionou chamar de “pós modernidade”, desmantelando todo vigor da construção humana e humanística vivida até fins do século passado.

Chocou a mim, e deve ter chocado boa parte da opinião pública, o recente caso ocorrido em uma escola de Goiânia, onde um menino de apenas quatorze anos, portando uma arma de uso exclusivo dos pais, que integram as forças de segurança do estado, vai para a aula e lá chegando atira contra colegas, amigos e inimigos, tirando a vida de dois colegas, deixando uma outra colega paraplégica e ferindo alguns outros de forma, aparentemente, inexplicável. Tão inexplicável, que a própria mãe, em estado de choque, foi internada, com risco de morte. O que está sendo feito com as crianças, não apenas no Brasil, mas, também, em todo o mundo?

Os jogos são vorazes, mas, são vendidos a vontade pela internet sem controle e sem medidas; as cores gritantes, os adereços gráficos e metálicos para os cabelos e o corpo estão disponíveis em cada quarteirão e em cada esquina; os encontros furtivos com amigos de idade mais avançada e, portanto, já iniciados na vida adulta, ocorrem de forma natural e sem qualquer controle ou ingerência dos pais ou educadores. A escola tornou-se o palco, o ringue, o local de acertos e de treino de todas as artes fantasiosas, fantasmagóricas, agressivas, de assunção de posturas e de inversão de valores que, aliás, sequer são ensinados a contento.

A casa, onde era de ser esperado o encontro de gerações, com seus valores, costumes e convicções éticas, morais, sociais, políticas e religiosas, tornou-se uma parada para o reabastecimento do estômago, porque favorece o bolso de uns e de outros. Quando é pronunciado o título “pai”, sem qualquer assombro, uma pessoa do sexo feminino responde e, quando é o da mãe, é o inverso que acontece. O quadro na parede, onde antes exibia a performance do casal no dia do casamento exibe, hoje, dois seres humanos de barba, bigode e brinco beijando-se na boca de forma apaixonada, ou, duas jovens do sexo feminino na mesma posição. São os novos tempos! Tempos nos quais as crianças foram esquecidas porque, sejam lá quais forem as circunstâncias vividas, não existe a preocupação com o esclarecimento, com a preparação para a vida, com a formação humana, de modo a se tornarem pessoas íntegras, educadas, socializadas e capazes de superar os desafios que, pouco a pouco, vão surgindo nas vidas de todos e de cada um de nós. Acredita-se que as crianças, de forma natural, vão aprendendo as novas condições que os adultos resolveram viver e seguir, sem que a elas sejam dados os necessários aconselhamentos e as diretrizes para, mais tarde, seguirem seus destinos de forma civilizada, consciente, democrática, ética, cidadã, enfim, sem medos, sem traumas, sem fronteiras, mas, também, sem causarem medo ou perplexidade na sociedade na qual estiverem inseridas.

Os jogos são vorazes, e a ética é massacrada, o respeito às regras do jogo é trucidado, as conveniências são exaltadas juntamente com os próprios interesses, em detrimento do alheio e do próximo, seja ele quem for: pai, mãe, irmãos, colegas, professores, pedestres, autoridades, religiosos, templos e instituições públicas. Todos são potenciais inimigos a serem vencidos da pior forma possível e, quase sempre, por meio da violência. Nestes novos tempos algo, seguramente, está muito errado. Algo precisa ser modificado, se é que ainda temos a ilusão de vida e de futuro.

Perguntaram ao sábio sobre o segredo da boa educação de uma criança e ele respondeu: “a criança é como uma semente lançada no solo. Germina, vem à luz e começa a crescer. É neste momento que precisa ser bem posicionada e bem direcionada, enquanto o caule é frágil e flexível. Depois de engrossar e de virar um tronco forte, ela não pode mais ser reposicionada e, se tombar, o estrago será muito grande, para si e para os que estiverem no seu entorno.”

Parece verdadeira esta comparação! Nossas crianças, nossas e de todo o mundo, estão à deriva, sem rumo, sem direção e com sinais totalmente invertidos e equivocados, de tal forma que, se nada for feito de positivo, as árvores do futuro trarão mais medo do que sombra; mais frutos podres do que os saudáveis e saborosos que nos acostumamos a esperar.

Precisamos nos mobilizar em defesa destes pequenos projetos de mundo e de sociedade, concedendo-lhes as mesmas oportunidades que tivemos um dia, pelo menos as relacionadas com o aconchego do lar e do núcleo familiar, com a adição de uma escola sadia e provedora, para que eles aprendam desde cedo os verdadeiros valores que impulsionam o ser humano na direção do seu destino, seja ele qual for. Mas, de qualquer forma, que possa ser bem vivido e sem grandes atropelos. Reflita sobre isto. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um caminhante, um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.
 

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