Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

out 01

EDITORIAL DA SEMANA: O ANTIGO TESTAMENTO É A PORTA DE ENTRADA

BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO

ANTIGO TESTAMENTO: UMA LEITURA SEMPRE NECESSÁRIA!

*Por Luiz Antonio de Moura –

Infelizmente, a maioria dos fiéis, em grande parte nos meios cristãos, perdeu o interesse pelo Antigo Testamento, acreditando que, depois de Jesus, a Lei e os Profetas viraram coisas de um passado absolutamente remoto, inacessível e totalmente dispensável. Com isto, guardadas as devidas reverências, muitos falam sobre as Escrituras apenas a partir do que leem no Novo Testamento e nas tão profundas Cartas do Apóstolo Paulo, deixando de lado, no entanto, a verdadeira razão de ser da Nova Aliança pactuada por Deus com os homens, por meio do Cristo Jesus. E a razão é, justamente, o esgotamento de uma Aliança (a primeira), cuja finalidade principal foi preparar o caminho da Redenção, prometida por Deus ainda no jardim do Éden. Mas, este é um tema ainda a ser explorado. Por ora, a questão passa pelo interesse, ou não, por toda a saga descrita no Antigo Testamento, base, como dito, para o estabelecimento da Nova Aliança.

A leitura da Bíblia, a partir do Pentateuco – conjunto dos cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) – vai fornecer a exata medida para a compreensão de tudo o que Jesus disse e fez, desde o início da vida pública.

Não vou, aqui, por razões óbvias, fazer detalhamento comparativo entre uma geração e outra. Mas, quero destacar, apenas, dois pontos que me parecem importantes neste momento: a poderosa influência do patriarcado, liderado pelo trio Abraão, Isaac e Jacó e a força da Lei mosaica, a cimentar todo o arcabouço social, jurídico e cultual. A soma deste conjunto vai produzir a plataforma sobre a qual Jesus vai, bem mais tarde, instaurar a Nova e Eterna  Aliança entre Deus e seu povo. É a partir, principalmente, desta leitura e da compreensão sobre esta formação, que será possível assimilar quase todas as palavras, as ações e os ensinamentos de Jesus. Sem isto, sem um olhar integrativo, ficamos, como alguns fundamentalistas, presos em narrativas engessadas, seja no Antigo ou mesmo  no Novo Testamento sem, no entanto, compreendermos o principal: a origem e os fundamentos da fé que hoje professamos.

Do principal patriarcado narrado no Livro do Gênesis, sobressai a figura ímpar de Abraão. É com ele que o Senhor quer estabelecer um diálogo que vai muito além de uma simples conversa entre amigos. Com Abraão, Deus inicia uma proposta de confiança mútua, na qual faz com que aquele simples homem do campo, em determinado momento da vida, abandone o pai, o irmão e os negócios prósperos da família e siga na direção de uma terra absolutamente desconhecida, pois, assim fala o Senhor a Abraão: “Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrar” (Gn 12, 1). Ora, qual de nós, por maior que seja a fé, atenderia a um chamado desta natureza e magnitude? E mais: o mesmo Deus promete a Abraão uma descendência extraordinária e uma bendição toda especial. Eu farei de ti” diz o Senhor, “um grande povo, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome, e serás bendito” (Gn 12, 2). Ali nasce uma Aliança que, na linha reta do tempo, vai chegar na Galileia, muitos séculos depois, ecoando a voz do profeta Isaías - "Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel" (Is 7, 14) - e encontrando a Virgem Maria, que ouvirá do Anjo Gabriel a afirmação: “achaste graça diante de Deus, eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim” (Lc 1, 30-33). Alguns meses depois desta fala do Anjo, a própria Maria dirá que “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada. (Porque o Senhor) tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia; conforme prometera a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre” (Lc 1, 48.54-55).

A Abraão Deus promete uma posteridade incontável, ao dizer: “eu te abençoarei, e multiplicarei a tua estirpe como as estrelas do céu, e como a areia que há sobre a praia do mar” (Gn 22, 17). Lendo estas perícopes, logo é de se perceber que em Abraão concretiza-se uma Aliança duradoura e, em Jesus, uma Aliança eterna.

Mas não é só: o Anjo Gabriel, no momento da Anunciação, falando sobre Jesus, afirma que Ele “reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”. A leitura da saga de Abraão vai conduzir o estudioso ao conhecimento de que Jacó é, nada mais nada menos do que, neto de Abraão, eis que filho de Isaac que, por sua vez, é filho de Abraão e de Sara, a estéril. Por esta razão, afirmo com convicção, que o cristão precisa, sim, ler com atenção e de forma continuada e permanente, os grandes Livros que compõem o Antigo Testamento, para descobrir o entrelaçamento que existe entre aquele e o Novo Testamento, para não ficar na mesmice de repetir palavras atribuídas a Jesus, sem conhecer a verdadeira origem e o fundamento sagrado de todas elas. Vamos caminhar mais um pouco!

Jacó, como afirmado acima, é filho de Isaac e de Rebeca que, por sua vez, é filha de Batuel, sobrinho de Abraão. Este parentesco não vem ao caso, neste momento. O que interessa dizer agora, é que Jacó, por determinação do Senhor, adotará o nome de Israel (Gn 35, 9-10). Um nome do qual surgirá uma grande nação e, daí, o povo de Deus. Pois bem, deste mesmo Jacó nascerão doze filhos: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zabulon, Dan, José, Benjamim, Neftali e Aser. E estes serão os nomes das doze tribos de israel. Sabendo-se que, o lugar de José na composição das tribos, será reservado aos filhos Efraim e Manassés. Muito mais tarde, Jesus, cuja origem genealógica é da casa de Davi, que é da tribo de Judá, um dos doze filhos de Jacó, vai escolher dentre os seus mais fieis seguidores “doze Apóstolos”, em uma clara reverência à casa de Jacó. São informações que vão se cruzando ao longo de toda a Bíblia e que, portanto, tornam quase obrigatória a leitura constante, tanto do Antigo quanto do Novo Testamentos.

Uma outra comparação interessante de ser apreciada é o Magnificat, a oração de louvor que Maria recita quando, já grávida, visita a prima Isabel (ver Lc 1, 46-55). Oração de louvor bastante semelhante a que é feita por Ana, mulher de Elcana, mãe do menino Samuel, futuro profeta de Deus (ver ISm 2, 1-10).

Outro olhar paradigmático entre o Antigo e o Novo Testamentos é o clamor de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste” (Mt 27, 46), que nada mais é do que a memória que Ele faz do Salmo 21 (22) que diz “Ó Deus, Deus meu, olha para mim, por que me desamparaste?”.

Depois da ressurreição, Jesus aparece aos Apóstolos e, durante longa conversa, afirma: “Isto são as coisas que eu vos dizia, quando ainda estava convosco, que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lc 24, 44). Na tarde do dia da ressurreição Jesus aproxima-se de dois discípulos que que caminhavam na direção de Emaús e, depois de conversar longamente com eles, mostra-lhes como havia sido cumprido tudo o que fora dito nas Escrituras, iniciando por Moisés e passando por todos os profetas (Lc 24, 25-27).

Muitas e muitas outras leituras integrativas e associativas podem ser feitas entre as palavras e as ações de Jesus com textos do Antigo Testamento.

É, também, famosa a fala de Jesus sobre a Lei de Moisés: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não os vim destruir, mas sim para os cumprir” (Mt 5, 17) e, a partir desta fala, Jesus vai recordando diversos mandamentos fixados na lei, acrescentando: “Eu, porém, vos digo”, demonstrando que os termos da Lei podem ser renovados, desde que mantida a essência da vontade do Pai (ver Mt 5, 17-48).

É de ser lembrado que Jesus, ao chegar em Nazaré, e entrando na Sinagoga, é convidado a examinar e ler o Livro do Profeta Isaías, onde está escrito: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a sarar os contritos de coração, a anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a recuperação da vista, a por em liberdade os oprimidos e a pregar o ano favorável do Senhor” (Lc 4, 16-21). Ao final, enrolado o Livro, Jesus afirma: “Hoje cumpriu-se esta escritura (profecia) que acabais de ouvir”. A leitura feita por Jesus, naquele tempo, está registrada no Livro de Isaías, capítulo 61, versículos 1 a 3 (Is 61, 1-3).

Quando um doutor da lei pergunta quem é o seu próximo, ouve de Jesus: O que é que está escrito na lei? Como lês tu?” (Lc 10, 25-27). A narrativa feita por Lucas reproduz fielmente o que está escrito no Capítulo 6, versículos 4 a 5, do Livro do Deuteronômio (Dt 6, 4-5): “Ouve, ó Israel (shemá Israel), o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e com toda a tua força”. Portanto, segundo as narrativas dos evangelistas, o próprio Jesus, em diversas oportunidades,  reporta-se às Sagradas Escrituras que, então, eram o que hoje são para nós: o Livro da Lei, o Antigo Testamento.

Do pouco que vimos, é de se concluir ser extremamente importante que os cristãos, principalmente os católicos, não deixem de lado a leitura dos diversos Livros que compõem o Antigo Testamento, a fim de poderem obter uma maior compreensão sobre tudo o que se passa a partir dos mistérios da Anunciação, da encarnação, do nascimento e da vida, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dar maior ênfase apenas aos escritos produzidos depois de Jesus é como tapar o olho direito e tentar caminhar apenas com o esquerdo: a visão será fortemente prejudicada, porque não terá a mesma amplitude que tem o uso de ambos os olhos.

Isso tudo, sem mencionar de forma detalhada, o caminho errante tomado pelo povo de Deus, seja na Samaria ou em Judá, bem como as consequências daí originadas, cuja mais prolongada é a saga do exílio, por onde, por longos setenta anos, o povo teve que reaprender a andar nos caminhos prescritos pelo Criador, a fim de que pudesse sair da escravidão na Babilônia e reconstruir o Templo, em Jerusalém. Tudo isso é lição para nós e para o nosso tempo, que não pode permanecer no desconhecimento, sob pena de cairmos nos mesmos abismos que, outrora, o povo de Deus caiu.

E, uma última palavra: não tenha receio de ler o Antigo Testamento, em especial, e a Bíblia, de um modo geral. Compreenda que tudo o que está escrito faz parte de um conjunto de narrativas vindas de diversas tradições e de épocas muito antigas, cujos autores (hagiógrafos) são inspirados diretamente pelo Senhor Deus que, de forma perfeita, escolhe-os para torná-las (as narrativas)  públicas, fazendo com que cheguem aos seres humanos de todas as épocas, assim como chegaram até a nossa geração e, certamente, seguirão o curso natural na linha do tempo, cujo fim só o Senhor sabe se, e quando, ocorrerá.

Por mais extenso que pareça, este texto é muito curto para demonstrar de forma mais ampla a espetacular integração entre ambos os Testamentos. Entretanto, pelos poucos exemplos descritos, já dá para incentivar os leitores e as leitoras a uma experiência mais aprofundada com as Sagradas Escrituras (ambos os Testamentos). Faça isso, você obterá grande crescimento espiritual, e sentirá de perto todos os efeitos daí decorrentes. Seja feliz, e boa sorte!

_________________________________________________
*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: