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Sementes da Palavra, É tempo de semear

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dez 24

EDITORIAL DA SEMANA: NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ

A LUZ INTERIOR

NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O tema não é novo em nossos escritos, mas, decidimos voltar a ele porque parece-nos ser de grande importância o aprofundamento em torno de uma questão vital para o ser humano: a presença constante do Espírito de Deus, no templo sagrado da criatura humana.

É importante repetir a sentença divina proferida após a criação do homem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18), ainda que, na sequência, o narrador bíblico atribua ao Criador as palavras “façamos-lhe uma semelhante a ele” tendo, então, da costela do homem, formado a mulher.

A situação vivida por Adão e Eva, a questão do “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, assim como a ingestão do fruto proibido, até a expulsão do Paraíso, são suficientemente conhecidas por todos nós e, caso não, é só ler o final do capítulo 2 e o capítulo 3 do Livro do Gênesis para inteirar-se de tudo.

O que realmente chama a nossa atenção na frase: “Não é bom que o homem esteja só”, é o procedimento de Deus a partir de então, em relação àquele homem que, se no primeiro momento, encanta o Criador, em seguida decepciona-O ao ponto de expulsá-los (homem e mulher) do Paraíso Terrestre. Pois, já um pouco antes da expulsão, Deus tece “túnicas de peles” e veste-os, para que não saíam completamente nus, totalmente desamparados. Foram embora daquele oásis, mas, levaram consigo a preocupação, o carinho e, certamente, o Espírito de Deus.

De dois filhos – Caim e Abel – que nascem de Adão e Eva, o Senhor valoriza mais a produção de Abel, que é pastor, o que foi suficiente para atrair a ira de Caim, lavrador que, enciumado, arma uma trama e mata o irmão, manchando a terra, pela primeira vez, com o sangue inocente. Pois nem assim, Deus se afasta e, num gesto de extrema bondade, aproxima-se de Caim e, depois de ouvir-lhe a confissão do crime que acabara de cometer, coloca nele um sinal para que, “qualquer um que matar Caim será castigado sete vezes mais” (Gn 4, 15-16) e Caim sai do lugar e vai tocar sua vida.

E o narrador bíblico conta que o Senhor deu ao primeiro casal a graça de gerarem um outro filho, para o lugar de Abel. Ora, o que percebemos já nestas poucas linhas é que Deus expulsa o ser humano do Paraíso Terrestre, mas, vai atrás dele, para acudi-lo nos momentos mais difíceis, cumprindo o que havia pressentido desde o início: “Não é bom que o homem esteja só”.

Na narrativa sobre o dilúvio – real ou mito – Deus fala diretamente com o ancião Noé porque, preocupado em manter intacta aquela família abençoada e mais todas as espécies criadas, dá as coordenadas para a construção de uma enorme Arca na qual, de cada espécie, um casal, além da esposa e dos filhos e noras de Noé, todos ficariam abrigados da fúria das águas que caíram tenebrosamente durante quarenta dias e quarenta noites (Gn 6, 9-22.7, 1-12), levando o extermínio a tudo o que se movia sobre a terra, tanto homens quanto animais. Depois da devastação pelas águas, que cobriram toda a terra por cento e cinquenta dias (Gn 7,27), Deus coloca-se ao lado de Noé, da família e de todas as espécies salvas, abençoa-os e diz: “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 9,1).

A Bíblia não omite nenhuma passagem na qual o Senhor está presente ao lado dos seres humanos. Nós é que, para encurtar caminhos, damos aqui alguns saltos. Assim, bem mais tarde, vamos encontrar o Criador falando a Abraão (que no início tinha o nome de Abrão), com quem, a exemplo do ocorrido com Noé, faz aliança. Com Abraão é diferente. Primeiro Deus fala com ele e manda-o sair da terra, de perto do pai e dos parentes, para ir rumo a uma terra ainda a ser designada. De tanta confiança, Abraão segue a ordem do Criador. Mas, a vida de Abraão é marcada, principalmente, pela ausência de uma prole, que Deus insiste e assegurar-lhe, será mais extensa do que as estrelas do céu e do que os grãos de areia das praias. Para consolidar ainda mais a promessa, Deus envia três anjos a Abraão, no Vale de Mambré e ali, o Senhor assegura ao ancião que em um ano, Sara, a estéril, dará à luz um filho do Patriarca.

Aqui, ao custo da redução do texto, vale lembrar o quanto Abraão deve ter se sentido solitário, ouvindo a voz de Deus constantemente, fazendo-lhe promessas de uma posteridade incontável, mesmo sendo marido, e velho, de uma estéril. Mas, o Senhor não o deixa “só”, envia-lhe os três anjos com ordem e poder para assegurar-lhe que tudo seria cumprido a seu tempo.

Não bastasse a presença dos anjos, portadores de boas notícias, Abraão decide interceder pelo povo de Sodoma e de Gomorra (Gn 18,16-33), travando uma insistente intercessão por uma gente já marcada para ser dizimada. Deus é companheiro e é paciente!

Também por nós não é desconhecida a passagem em que Moisés, “solitário” na montanha, na condução do rebanho do sogro, pressente a presença do Criador, nas chamas inextinguíveis da sarça. Inebriado com o trabalho e, possivelmente, meditando sobre sua vida, Moisés aproxima-se da sarça ardente  e ouve a voz que chama-o pelo nome: “Moisés, Moisés” (Ex 3,4) e, a partir de então, ambos andarão juntos, na condução de todo um povo escolhido: na saída do Egito; na travessia do Mar Vermelho; no Maná no deserto; na água do rochedo; nas codornizes; a nuvem e a coluna de fogo; as tábuas da Lei. Sempre a presença de Deus, impedindo que o homem esteja só”.

O Profeta Samuel, ainda menino-adolescente, sozinho em seu ambiente de dormir, no templo do Senhor, ainda sob os cuidados do sacerdote Heli, tem o sono interrompido pela voz de Deus que, sucessivamente, chama-o pelo nome: “Samuel, Samuel” (ISm 3,3.6) e que, conforme pressentido por Heli, fará de Samuel um grande profeta e com ele andará por toda a vida, fazendo o mesmo com inúmeros outros profetas que, cada qual no seu tempo, são interpelados pelo Senhor que, não apenas se revela presente, mas, e, sobretudo, caminha com eles na direção, na condução e no ensinamento do povo escolhido.

Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor e, Ele mesmo, se faz presença na vida deste homem. Ele próprio se apresenta diante do ser humano como que para dizer: estou aqui, em ti e contigo. Vamos avante, sem medo!

Estes são apenas uns poucos exemplos. A Bíblia está repleta com muitos e muitos outros exemplos da presença, e da comunicação direta de Deus, junto ao ser humano, homens e mulheres, de forma indiscriminada.

Mesmo mais tarde, quando do mistério da encarnação, Deus se faz representar pelo anjo junto a Maria e, pela virtude do Espírito Santo, na concepção da Virgem.

Revelando-se, e revelado, como Pai, Deus se faz presente junto ao Filho que, na condição plenamente humana submete-se ao batismo, no Jordão. Mais tarde, o mesmo Deus se manifesta no monte Tabor, quando da transfiguração de Jesus. Sempre o mesmo Deus zeloso, presente, amoroso e paciente.

Ele jamais deixa o homem sozinho porque, como sempre, entende não ser bom que o homem esteja só. Confiantes nesta presença constante e permanente, em todas as nossas atribulações, podemos e devemos contar com o Deus que habita em nós, templos vivos do Espírito Santo. Não falamos isso apenas com respaldo na fé, que pode ser colocada em dúvida, mas, acima de tudo, na palavra de Jesus, que é Deus. É Ele quem fala da presença que temos em nós e assegura-nos que, diante dos nossos embaraços, nada devemos temer, “Porque o Espírito Santo vos ensinará, naquele momento, o que deveis dizer” (Lc 12,11-12); depois, declara que, quando o Pai enviar o Espírito Santo “ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26); adiante, Jesus afirma que o Espírito Santo “vos guiará no caminho da verdade integral” (Jo 16, 13), destacando que, ainda que o mundo não o conheça, “vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (Jo 14,17)

O Capítulo 2 do Livro dos Atos do Apóstolos narra a descida do Espírito Santo, no primeiro Pentecostes depois da Ressurreição de Jesus.

Paulo, o Apóstolo tardio, vai exortar os cristãos de Corinto a manterem-se íntegros porque, questiona-os Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá. Com efeito, é santo o templo de Deus, que vós sois” (ICor 3, 16-17).

A pergunta frequente quando tratamos sobre esta habitação divina no ser humano é se o Espírito habita em todos, de forma indiscriminada. O Apóstolo Paulo é quem elucida a questão, ao responder aos cristãos de Tessalônica: “Em verdade Deus não nos chamou para a imundície, mas para a santidade. Aquele, pois, que despreza isto, não despreza um homem, mas Deus, que também deu o seu Espírito Santo para habitar em nós” (Its 4, 7-8).

E, se ainda assim, alguma dúvida permanece, é bom confiar na mensagem do Evangelho de João, onde está escrito que Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23).

Portanto, o templo do Espírito Santo deve estar conformado à Palavra e aos ensinamentos divinos, tendo no homem um fiel seguidor, a fim de que mais e mais possa sentir em si a divina presença, não apenas mediante sucessivas vitórias, mas, e, sobretudo, na portabilidade das virtudes espirituais, armas com as quais é possível enfrentar todas as intempéries. E assim, e de modo efusivo, dar cumprimento à vontade de Deus: Não é bom que o homem esteja só”.

Reflita sobre este texto e perceba que Deus não acha bom que estejas só. Ele quer estar contigo, quer caminhar ao teu lado, quer habitar em ti, quer ouvir tua voz e quer falar contigo e, então, somente Nele esperarás. E, os que Nele esperam, “adquirirão sempre novas forças, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão” (Is 40, 31). Pense sobre isto, creia e não permita que o seu templo interior fique ou permaneça desabitado. Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

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