Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

dez 03

EDITORIAL DA SEMANA: NA FORMA OU NO TEXTO, A ARTE DE ESCULPIR

SÃO MATEUS - MICHELANGELO - 3

O ESCULTOR LITERÁRIO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Certa feita, tomei conhecimento de uma obra esculpida por Michelangelo, que chamou minha atenção. Trata-se do “São Mateus inacabado”, formatando a ideia de que aquela figura humana está presa no interior do bloco de mármore e que, por meio da ação do artista, ela vai sendo lenta e expressivamente libertada. É exatamente como se a pessoa ganhasse vida e, de repente, surgisse como que rompendo o bloco de pedra, de dentro para fora. É trabalho e simbologia maravilhosos.

Fiz uma analogia comparativa entre a obra obtida pelo escultor, a partir do bloco sólido, e o texto produzido por um literato não identificado e percebi quanta semelhança existe entre ambas as construções, embora uma seja feita no bloco de mármore, de pedra, de gesso ou mesmo na madeira bruta e a outra, atualmente, na tela do computador, o que não desmerece ou desvaloriza, de forma alguma, o resultado obtido.

O homem da literatura, tal qual o escultor, apodera-se de um emaranhado espesso e bruto de palavras e vai entalhando parte por parte, detalhe por detalhe, até obter aquela forma por ele almejada. Depois, com um cinzel bem afiado, vai aparando as arestas, uma a uma, até poder olhar para aquele conjunto e identificar a obra gestada, inicialmente, apenas no seu departamento intelectual.

É interessante perceber, que daquele mesmo conjunto “espesso” de palavras são obtidas formas muito diferentes, a depender do “escultor” do momento. Cada um é capaz de produzir imagens muito diferentes e com significados bastante diversificados. Entretanto, assim como no caso do escultor da pedra ou do mármore, ou até mesmo o da madeira e do gesso, aquele que lida com as palavras precisa tomar um cuidado a mais: não permitir que o resultado da sua obra acabe por ferir, ofender, denegrir ou destruir a honra, a boa fama ou a moral de ninguém. Coisa que, muito dificilmente, ocorre com as esculturas sólidas, depois de prontas e acabadas.

O escultor literário precisa, além de dominar a arte da criação com perfeição, conhecer profundamente os significados de cada uma das partes por ele trabalhadas, para que, ao final, não acabe criando um verdadeiro monstro capaz de, inclusive, devorá-lo por meio das hábeis mãos dos que lidam com a justiça. Mas, com o devido cuidado, que a experiência acaba por amoldar o artista, ele cria obras maravilhosas.

Falando assim, de maneira tão simples, parece fácil, mas, não é não. Basta ler alguns dos textos que são hodiernamente publicados em jornais, revistas, internet e em outros meios de comunicação, para surpreender-se sobremaneira com o que é apresentado, não raro, com títulos pomposos. Algumas, são produções monstruosas, feias, mal definidas e mal direcionadas. Coisas que, quando acabamos de ler, deixam mais dúvidas do que convicções, a não ser a de que aquilo partiu de alguém que pega no cinzel pela parte cortante. Com certeza, tais “artistas” devem ser vítimas constantes de acidentes de trabalho, mas, estão aí e mais, são, em muitos casos, muito bem pagos para fazerem o que fazem, restando-nos, apenas, virar tais páginas ou mudarmos o veículo de informação.

O fato é que vejo semelhanças interessantes entre as obras produzidas tanto pelo escultor da matéria sólida, quanto o da matéria literária, apenas ressalvando os danos que uma obra e outra podem, eventualmente, causar a terceiros.

Para produzir um texto qualquer, e dizer exatamente o que eu quero dizer, preciso conhecer o significado, e até mesmo a origem, das palavras utilizadas afim de que, unidas umas às outras, com as devidas intermediações verbais e gramaticais, sem abrir mão das necessárias concordâncias e sem deixar de observar a coerência textual e contextual, poder apresentar ao leitor um produto capaz de, de alguma forma, interessá-lo, ou mesmo de auxiliá-lo, dependendo das circunstâncias por ele vividas naquele momento.

Para tanto, assim como o escultor do material sólido afia o cinzel na pedra de amolar, o literário deve afiar o seu instrumento de trabalho na grossa e sólida pedra, em cuja composição são encontrados elementos de definições, de informações sobre sinônimos e antônimos, de ortografia, de pronúncia, de classe gramatical, de etimologia etc., também conhecida como dicionário, evitando, assim, provocar sérios acidentes, dos quais saem feridos tanto o autor, quanto os seus queridos e estimados leitores. Com o instrumento devidamente afiado e com uma mente aguçada e vitaminada pela inspiração, produzem-se obras realmente muito boas. Tão boas que, muitas, perpassam as décadas e até mesmo os séculos.

Escultores, sejam lá quais forem os materiais por eles utilizados, revelam a extensão da genialidade do ser humano porque, enquanto não produzem, ninguém é capaz de conhecer-lhes em profundidade, apesar do quanto de sabedoria e de potencialidade carregam dentro de si.

Sugiro que, doravante, todas as leituras sejam feitas de modo a verificar se, ao final, o produto percebido, e recebido, é compreensível ou não; se diz, ou não, aquilo que afirma pretender dizer e mais, e melhor, se as arestas foram bem aparadas ou se existem pontas afiadas, capazes de cortar a carne interpretativa dos leitores, fazendo-os sangrar e sofrer desnecessariamente. Faça esta experiência, ela será bastante saudável e ajudará na identificação de bons artistas e de renomados impostores. Seja feliz, e boa sorte.

_________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: