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nov 26

EDITORIAL DA SEMANA: MEU PAI DEIXOU DE ME ENSINAR MUITAS COISAS

LIÇÕES DE UM PAI

AS COISAS QUE MEU PAI NÃO ME ENSINOU –

*Por Luiz Antonio de Moura –

O avançar dos anos faz a gente dar voltas recreativas no passado da vida e, inevitavelmente, coloca-nos diante de um telão no qual são exibidas diversas imagens ou filmes – longos ou curtos – que trazem algumas recordações, umas boas, outras, nem tanto. A verdade é que, de cada viagem dessas a gente retorna com os pés mais fincados no chão da vida, muitas dúvidas são afastadas ou, quem sabe, muitas outras passam a existir,  sem chance, porém, de serem dissipadas.

Dei algumas voltas no passado da minha vida à procura de aprendizados que possam ter ficado caídos pela estrada e que hoje, com toda a modernidade e todas as consequências que dela advêm, parecem fazer alguma falta. Mais do que nunca é preciso muita ciência, e também paciência, além de boa dose de sabedoria para desvencilharmo-nos dos transeuntes do século em curso. Pessoas, grupos e instituições que, outrora, não demonstravam a força, a fúria e a intrepidez com que se expõem diante de tudo e de todos nós.

Recordei-me de alguns passos caminhados ao lado de um homem sem estudo e sem cultura, mas, com pós-doutorado na ciência do viver: meu pai. Pessoa simples, filho de uma época dura e difícil, mas que soube seguir por caminhos espinhosos e, mesmo ferido em diversas batalhas, chegou ileso do outro lado da margem do rio da vida, ostentando as marcas da idade, como rugas, dores e cansaço, mas, plenamente vitorioso pela forma digna, ética, moral e social de encarar a vida e, mesmo, de viver.

Algumas coisas ele me ensinou diretamente, outras, aprendi com os exemplos que ele jamais deixou de dar. Porém, do balanço de tudo o que ele me ensinou cheguei à conclusão de que deixou muito mais de ensinar. Ou seja, ensinou muito pouco, em vista do que hoje ensinamos aos nossos filhos, preocupados que somos com os detalhes de cada esquina por onde eles haverão de passar. Com tantas preocupações e precauções, ensinamos de tudo um pouco, na esperança de melhor prepará-los para uma vida e um mundo totalmente diferentes dos nossos tempos. Mesmo assim, ensinamos de tudo, sem nada deixar oculto, nem mesmo o jogo de cintura que, na boca popular, faz a gente se livrar de poucas e boas na vida.

Meu pai não me ensinou, por exemplo, a levar vantagem em tudo na vida! pelo contrário, em muitas oportunidades, pude vê-lo sendo prejudicado, para não prejudicar o outro. Vi que ele perdia, para não tirar vantagem de uma fraqueza ou mesmo de uma falta de conhecimento daqueles com quem lidava. Vi-o permanecer na pobreza, mesmo sendo convidado a conquistar algo mais, com um pouco mais de esperteza. Esperteza que sempre fez questão de recusar e de rejeitar porque, para ele, advinha de caminhos tortuosos e não tão bem definidos pela lógica da moral a ser vivida do jeito que ele entendia. Não me ensinou ser desonesto, desviando sempre alguma coisinha de quem tinha muito e que, com certeza, jamais daria falta do pouco que fosse tirado. Não me ensinou a desviar nada que pertencesse ao outro, acreditando ser muito melhor nada possuir, do que possuir algo marcado pela desonra ou pela desonestidade.

Meu pai não me ensinou e desrespeitar o outro, fosse ele quem fosse, santo ou pecador; bom ou mau; fiel ou infiel; temente a Deus ou ateu; branco ou negro; pobre ou rico; novo ou velho; homem ou mulher ou tivesse lá a opção que melhor entendesse para a sua vida. Não me ensinou a desprezar ou desrespeitar qualquer ser humano que trilhasse o meu caminho. Ele não me ensinou a desviar os olhos dos mais humildes, nem fazer-me de importante perante os menos favorecidos, ainda que culturalmente porque, no campo da pobreza, nós sempre disputávamos o primeiro lugar com os mais pobres.

Meu pai não me ensinou a ser ingrato, passando por cima dos menores favores recebidos, mesmo que fosse, como ele sempre dizia, ganhando um simples pente ou uma escova de dentes que, para ele, vindos de quem quer que fosse, era sempre um ótimo presente, já que ninguém, na sua concepção, estava obrigado a dar nada para ninguém. Não me ensinou a fazer pouco caso daquele que nada podia doar ou a desconsiderar a mínima coisa doada com amor e carinho por algum benfeitor de plantão. Ele não me ensinou a esquecer de dizer o “muito obrigado”, nem o “com licença” ou muito menos o “me desculpa”. Não me ensinou a tratar com desdém nada que viesse do outro, como tentativa de agradar-me ou mesmo de premiar-me por algum bem praticado, quando não, para suprir alguma suposta necessidade minha.

Meu pai não me ensinou a beber ou a fumar, como forma de transmitir hábitos que pudesse julgar serem saudáveis, ainda que os praticasse. Não me ensinou, porque assim não fazia, a dar uma passadinha no bar nos finais de tarde, nas noites ou mesmo nos finais de semana, para uma bebidinha com os amigos ou para um joguinho de cartas ou mesmo de sinuca. Não me ensinou, porque não praticava, a viver na embriaguez ou nos zigue-zagues causados pela bebida, durante as caminhadas pelas ruas, até chegar em casa. Não me ensinou a beber n’outro lugar, que não no cantinho sereno e harmônico do lar, como a celebrar qualquer coisa, boa ou má, que pudesse ter acontecido durante o dia ou no curso da semana.

Meu pai não me ensinou a ter orgulho, vaidade ou prepotência, deixando de viver contente com o muito ou com o pouco que eu tinha. Não me ensinou a contar vantagens ou mesmo a querer ser mais do que os outros, só para mostrar alguma diferença. Não me ensinou a andar em grupos, feito bando de andorinhas, confiando mais no coletivo do que no recato individual, mas, também, não ensinou a afastar-me das pessoas só por serem diferentes nem, tampouco, isolar-me por completo do mundo em evolução.

Meu pai não me ensinou a fazer da mentira a companheira de todas as horas, a amiga inseparável de todos os lugares, a companheira em todas as vitórias e a amante aguerrida na conquista de títulos e de menções honrosas. Não me ensinou a usar a mentira como arma nas batalhas da vida, fosse para afastar incômodos amigos, ou ainda para derrotar intrépidos inimigos. Não me ensinou a carregar a mentira sempre a tiracolo, para uma eventualidade qualquer, na suposição de que, dependendo da hora ou das circunstâncias, poderia ter utilidade. Não me ensinou a adotar o engano como forma de lidar com os meus semelhantes, na tentativa de ganhar deles a amizade ou a simpatia.

Meu pai não me ensinou a esconder a vingança como carta na manga, a ser sacada sempre que o outro de mim tirasse alguma coisa ou prejudicasse a minha trajetória. Não me ensinou a buscar na vingança o gosto mais refinado, que muitos afirmam dever ser saboreado quando frio, por ser mais palatável e apetitoso. Não me ensinou a tramar ciladas contra quem as vive tramando, nem a retribuir o mal com o mal. Meu pai deixou de me ensinar a fórmula para derrubar os que, durante a minha caminhada, pudessem servir de tropeço para mim. Não me mostrou como praticar o “olho por olho” ou o “dente por dente”, para que, ao menos enganando a mim mesmo, eu pudesse me sentir fazedor de justiça.

Meu pai não me ensinou a buscar a vitória a qualquer preço, ainda que fosse sobre o fracasso e a ruína alheios. Não me ensinou a puxar o tapete dos meus semelhantes ou mesmo a subir em seus ombros para alcançar um patamar mais elevado onde, para a sociedade, pudesse significar “vencer na vida”. Não me ensinou a passar à frente dos que caminham com dificuldade, nem mostrou como fazer para eliminar da competição os fracos e desvalidos. Não me ensinou a tirar proveito do despreparo do outro ou da sua incapacidade para permanecer nas disputas da vida.

Enfim, durante as minhas longas caminhadas recreativas pelo passado da vida, descobri quantas coisas meu pai deixou de me ensinar e, para o meu pesar, descobri, também, o quanto todas elas foram ensinadas à exaustão por diversos pais, com cujos filhos hoje somos obrigados a conviver. Quisera eu que todos os pais fossem omissos como o meu, deixando de ensinar, de incentivar e até mesmo de cobrar certas atitudes dos filhos que, nos dias que correm, tornam este nosso mundo tão marcado pelos horrores do desrespeito, da ingratidão, da desonestidade, da mentira, do orgulho e da prepotência, do vício, da sede de vingança pessoal ou social e de tantos outros males que contaminam a existência de todos nós, seres viventes. Digo “seres viventes” porque fauna, flora e humanos, tanto quanto a própria natureza, padecemos terrivelmente com todo o mal causado pela ausência de virtudes, de discernimento e de sabedoria.

Quisera eu que todos os pais deixassem de ensinar aos filhos todas as coisas que meu pai deixou de me ensinar. Não que eu tenha me tornado o melhor dos seres humanos, mas, certamente, eu poderia ter sido muito pior caso não tivesse passado pela escola pela qual passei e não tivesse tido o mestre que tive.

Faça algumas caminhadas recreativas na sua vida também. Elas poderão ajudar, e muito, na exata compreensão sobre onde você está, a que ponto chegou e sobre tudo o que se passa ao seu redor, inclusive, nas suas atividades profissionais, familiares e comunitárias. Caminhar sempre, dizem os sábios, é preciso! Mas, acrescento eu, com bom senso e com sabedoria. Seja feliz, e boa sorte.

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

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