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jul 23

EDITORIAL DA SEMANA: MENTIRAS DESTROEM O MATRIMÔNIO

SEPARAÇÃO

O CASAMENTO E O POLÍGRAFO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Recentemente, recebi um vídeo no qual eram exibidos os primeiros atos e as primeiras palavras proferidas em uma cerimônia matrimonial. No altar da igreja, o padre com seus paramentos, e os noivos, de frente um para o outro. O padre inicia a cerimônia, com as palavras e as perguntas de praxe. Entretanto, antes de o noivo pronunciar suas primeiras falas, o sacerdote pede que ele aguarde por um instante, até que o operador do polígrafo dê o “ok”. Polígrafo, para quem não sabe, é a famosa máquina da verdade, ou detector de mentiras. Quando a pessoa fala alguma mentira, o aparelho faz soar um “bip, bip, bip”, para chamar a atenção dos demais.

A cena é por demais engraçada, porque o noivo mal abre a boca e o bendito bip soa três vezes. A noiva olha para ele com cara amarrada, mas, a cerimônia prossegue. O rapaz começa a prometer isso e aquilo e, quando chega na frase “prometo estar ao teu lado na saúde e na doença” o bip dispara, e a moça perdendo a paciência desanda a falar impropérios, lembrando ter guardado a virgindade para ele o que, naquele momento, faz o bip soar três vezes seguidas! O rapaz, atônito, olha para a noiva e pergunta admirado: “então, não és virgem?”. Todo mundo fica espantado com aquele bate-boca em pleno altar da igreja, até que a mãe da noiva entra em cena e fala alguma coisa que, também faz soar o bip, cobrando da moça respeito ao pai, que estava ali ao lado, neste momento o bip soa três vezes e o pai da noiva olha para a mulher assustado: “então, não sou o pai dela?”. No meio daquele bafafá, o padre pede silêncio e diz que a única coisa que mais deseja naquele momento é a paz, o que faz o soar o bip mais três vezes. Ou seja, a cena toda se passa em um ambiente repleto de mentiras!

É claro, ou pelo menos parece claro, tratar-se de encenação humorística, com a única finalidade de levar os assistentes às gargalhadas. Entretanto, se pararmos para refletir um pouco sobre o atual destino da grande maioria dos casamentos oficiais, chegaremos facilmente à conclusão de que, quase todos, nascem, crescem e morrem no pântano pegajoso da mentira.

Desde o período do namoro, é uma mentirinha aqui, outra ali; o namorado conta uma lorota; a namorada conta outra; as famílias de um e de outro, completam o arsenal e, finalmente, chega o dia da grande mentira: “vamos ficar noivos!” Aí, entram os amigos e os amigos dos amigos, que comparecem, parecendo que vão apenas para tirar sarro do evento! Ninguém, ou pelo menos muito pouca gente está, realmente, torcendo para que aqueles dois caminhem felizes para o enlace final. Geralmente, e via de regra, é muita bebedeira, música eletrizante e sabe Deus o que mais rola naquele dia e naquele local.

A partir dali, a mentira começa a ganhar corpo: vão discutindo entre si, não raro com os palpites das respectivas sogras, a decoração da casa ou do apartamento, os móveis e utensílios a serem adquiridos e todo o resto. Momentos nos quais um ou outro aceita o que está sendo proposto, apenas para evitar maiores discussões ou dissabores. Dizem gostar do que realmente não estão gostando; chamam de “lindo” aquilo que, no fundo, acham horroroso; afirmam “amar”, aquilo que, na verdade, odeiam. Mas, tudo em nome da tolerância e da bendita “partilha” que, um dia, vai dar o que falar.

Quando estão juntos entre os amigos, sempre surge aquela situação em que um olha para outro com ar interrogativo, como quem pergunta: “você pensa assim?”; “você não vive dizendo que não gosta disso?”; “nós já não concordamos sobre este tema?”, e por aí vai.

Em momentos de total distração, e sem qualquer preocupação, ela pega ele olhando para uma mulher mais bonita e mais charmosa que passa do outro lado da rua. Ou, ele observa certos olhares dela na direção de outros homens. Por fim, e para ajustarem estas “coisinhas bobas”, concordam que existe beleza em todas as criaturas e que não é pecado algum admirar o “belo”. Isso, para porem fim àquelas briguinhas por ciúmes.

Então, chega o dia “D”! O dia em que mentiras e mentirosos decidem se encontrar para selar aquela mentira nascente, e o fazem na presença de alguém que está pouco se lixando para o arsenal de mentiras que está sendo repetido, até porque são palavras escritas por alguém e que precisam ser ditas para, ao final, ser dispensada a famosa benção sobre aqueles dois mentirosos, que são despedidos com a autorização para o beijo fatal. A partir dali, diante de um monte de padrinhos e de outro monte de testemunhas são colocados documentos a serem assinados, como se tivessem o poder de soldar para sempre aquelas duas partes, unidas por algumas promessas, por um par de alianças, algumas palavras do pregador e um simples beijo (Judas, também, beijou Jesus na hora fatal).

Daquele dia em diante, os dois vão ter que se entender dia após dia; noite após noite; ano após ano e, se as mentiras não forem contidas e dissipadas imediatamente, a relação começa a sofrer pequenos arranhões, que vão se transformando em profundas rachaduras, até que a separação apresenta-se como o único remédio viável.

Chega a um ponto em que ela diz: “eu nunca gostei desse seu jeito babaca, de ficar bajulando todo mundo, mesmo quando é ofendido”; e ele retruca: “e você, que vive brigando por causa de qualquer coisinha, parecendo barraqueira esquizofrênica?”; “esquizofrênico é você, que se acha muito bonitinho, com este cabelinho esquisito e esta barriga enorme”; “posso ter barriga, sim, mas, tem gente que gosta”; “Ah é? Quer dizer que tem outra na jogada?”. Enfim, a coisa vai ficando incontrolável, exatamente porque as verdades passam a ser ditas de uma forma como nunca o foram antes. Nestas ocasiões, a mentira morre ou é expulsa daquela relação e, no reinado da verdade, aqueles dois não conseguem mais conviver lado a lado, agindo como se fossem verdadeiros estranhos.

Então, vem a separação e a tal da “partilha” que, agora, é dolorosa. Passado algum tempo, um e outro, quase que inevitavelmente, encontra outra pessoa e, mais maduros, iniciam relações meio tímidas com outras pessoas, mas que, de cara, fazem questão de deixar claro para o outro o seguinte: “olha, vamos deixar muito claro, eu adoro fazer isso ou aquilo; ou, odeio ir lá ou acolá; ou, não gosto de ser vigiado(a); ou, gosto da casa com as cores tais e tais”. Um montão de coisas são colocadas sobre a mesa daquela nova relação, de um lado e do outro, que parece até um negócio absolutamente condicionado, mas que, na verdade, são as verdades de cada um que estão sendo expostas, para que, caso aceitem-se mutuamente, possam ter uma relação duradoura. E, não raro, é o que acontece.

Alguns casos, no entanto, são conhecidos pelo renovado fracasso. Mas, normalmente, decorrem de algumas omissões na hora da negociação, ou, de mentiras mesmo, que entraram na relação e, no final, acabaram minando tudo novamente.

É por estas e por outras, que o casamento deve acontecer como um ato extremamente natural, onde os dois vivam tão intensamente suas individualidades, de forma tão responsável e tão comprometida com valores e princípios que, a partir de um determinado momento, decidam fazer isso juntos, sem que um invada ou perturbe a paz do outro, respeitando-se mutuamente como, de resto, respeitam qualquer outra criatura, independentemente da relação que possam ter.

A sacralização do casamento mediante ato solene e com liturgia já estabelecida por gerações passadas, onde o que realmente importa é a repetição de atos e de palavras, momento no qual todos estão loucos para terminar, para a corrida na direção da comemoração, não sela a união que, em tese, deveria/poderia ser duradoura, porque, na verdade, a união entre duas pessoas para uma vida em comum, pouco ou nada depende de atos solenes, de roupas requintadas, de carrões ou de grandes festejos, mas, sempre, da verdade do real sentimento, da admiração e do respeito que nutrem um pelo outro, a partir de uma vivência que tem inicio já na primeira conversa, no primeiro beijo ou na primeira relação íntima. Estas são as verdades que as instituições religiosas, assim como as famílias tradicionais, rejeitam, mas, que no fundo, no fundo, cimentam a união e esvaziam as Varas Judiciais de Família.

Devemos lutar com todas as nossas forças para que o ato matrimonial continue sendo realizado e celebrado. No entanto, é preciso fazer uma revisão dos critérios adotados, para que o ato seja transformado em fato e, como tal, entre positivamente para a história dos casais e das respectivas famílias.

Parece mais fácil, mais oportuno e mais aconselhável que o ato matrimonial exista para sacramentar uma experiência conjugal já amadurecida e, portanto, com força suficiente para prosseguir, ao invés de continuar sendo como tem sido, um ato que pretende lançar as estruturas de um edifício que mal se sabe a altura que alcançará depois de totalmente pronto. Há que se vencer fundamentalismos, tradicionalismos, caprichos e opiniões contrárias, para que um novo modelo, com força e resistência, seja adotado, fazendo com que o casamento se torne de fato um bloco sólido, baseado no cimento da verdade entre os casais, e não, no barro podre das mentiras de ocasião que, com consentimentos e conivências, mais dia, menos dia, retornam ao pó.

Sacramentar uma experiência bem sucedida tem muito mais valor e muito mais importância do que sacramentar algo ainda prenhe de confirmação pela prática  que, dependente de tudo, pode dar certo ou não. E, em caso negativo, os efeitos colaterais costumam ser terrivelmente danosos, afetando filhos, amigos, famílias, além de, é claro, atingir em cheio os próprios e diretos atores principais do episódio.

Parece ser meio óbvio que Deus abençoa o que Ele quer, e não, o que os homens apresentam diante Dele para ser abençoado. Uma relação bem sucedida, fundada no amor, na amizade e no mútuo respeito demonstra estar marcada com a verdadeira e eterna benção divina. Daí por diante, os homens podem, e devem, sacramentar aquele fato, ao menos em tese, já abençoado por Deus deixando de, ao contrário, e como ocorre hodiernamente, criarem todas as condições de conveniências e de liturgias, para apresenta-las a Deus crendo que serão abençoadas a partir de então. O fracasso dos casamentos ocorridos neste modelo demonstram a incorreção do caminho escolhido e adotado à exaustão pelos homens.

O casamento não é apenas a união entre duas pessoas, mas, destas, também, com Deus. É preciso reconhecer a presença de Deus naquela relação que se quer abençoada para, então, e somente então, crer-se na tão almejada benção. Não são palavras, juramentos, papéis, anéis e beijos que tornarão abençoada uma situação na qual ainda não é comprovada a presença e a permanência de Deus, o que só ocorrerá com a vivência e com a experiência que, assim, poderá ser sacramentada pelos homens, ante a indiscutível benção dos céus.

É preciso coragem e visão profética para uma revisão deste porte no modelo matrimonial vigente. A família e a sociedade ficarão imensamente agradecidas porque, certamente, ambas sairão ganhando. Reflita sobre isto e sobre os diversos modelos de união matrimonial conhecidos, observando em que condições ocorreram aqueles que fracassaram e os que, mesmo em uma segunda ou terceira tentativas, foram excepcionalmente bem sucedidos. Ao final, tire suas próprias e valiosas conclusões. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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