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fev 26

EDITORIAL DA SEMANA: LOUCO POR JESUS

A LOUCURA DE JESUS

CONHECER JESUS, LEVOU-ME À LOUCURA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Quem consegue assumir a loucura, em sã consciência? Quem pode vencer o ego, a vaidade, o orgulho e tudo o mais que caracteriza o ser humano e dizer: sou louco? Pois eu, depois de refletir no silêncio do meu eu e de avaliar minha conduta espiritual perante a criação e perante o mundo, cheguei à conclusão de que estou irremediavelmente louco!

Os primeiros sinais da loucura apareceram depois que conheci Jesus de Nazaré: um homem-Deus, profeta carismático, capaz de curar, de ressuscitar os mortos, de acalmar tempestades, de multiplicar pães e peixes, de andar sobre as águas e de perdoar os pecados, mas, ao mesmo tempo, capaz de entregar-se nas mãos dos algozes e permitir ser esbofeteado e açoitado, para, finalmente, ser pregado em uma infame cruz. Conhecer esse Jesus mexeu com a minha cabeça, com o meu espírito e com a minha capacidade de interpretar e de conviver com este mundo, para mim, verdadeiramente louco.

No início, achei que a vida do homem de Nazaré era apenas um conto mitológico, banhado em contradições e blindado contra os desgastes do tempo. Uma história sem pé e sem cabeça inventada por alguém que queria ficar famoso e vender livros.

Depois, comecei a encontrar lógica e coerência entre as palavras daquele homem e as atitudes que partiam Dele, na forma em que descrita pelos seus, digamos, biógrafos que, tradicionalmente, são chamados de evangelistas. Estudei a vida de alguns destes “evangelistas” e descobri que foram homens contemporâneos do próprio Jesus ou dos seus mais antigos discípulos. Tudo começou, então, a se encaixar na minha mente e no meu espírito. Algumas dúvidas, no entanto, permaneceram durante algum tempo: como pode um Deus ser preso, açoitado e morto, sem oferecer qualquer resistência? Como pode um único Deus ser, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo? O que leva um Deus a se rebaixar à condição humana, para experimentar as dores, os sofrimentos e as angústias dos seres humanos? Não dava para entender direito! Decidi mergulhar fundo na vida e na obra desse Jesus que tanta gente segue e diz amar.

Um homem sem igual: ensinou oferecer a outra face tendo, Ele próprio, oferecido, não apenas a face, mas o corpo todo e a vida, para serem destroçados; mandou orar pelos inimigos, tendo Ele mesmo orado ao Pai, na hora da agonia e pedido perdão para os agressores; mandou perdoar até setenta vezes sete, mas, Ele mesmo, e sem fazer nenhuma conta, nunca negou o perdão a ninguém; chamou de bem aventurados os pobres, sendo Ele, também, um pobre sem terra, sem teto e sem bens materiais; saciou a fome do povo, quando Ele mesmo jamais se preocupou com a própria alimentação; condenou o adultério, mas Ele próprio perdoou a mulher adúltera em praça pública; diz ter vindo para cumprir a Lei, mas, Ele próprio curou e perdoou pecados em dia de sábado, proibido pela Lei; afirma que nada acontece sem que o Pai celestial saiba, mas, ressuscita Lázaro, quatro dias após o sepultamento; discursa perante as multidões, pregando o Reino de Deus, mas, fica calado diante do Sinédrio, de Pôncio Pilatos e de Herodes Antipas, quando interrogado e à beira da condenação à morte; diz que precisa ir para o Pai, mas, sofre terrivelmente ao perceber a chegada da morte, clamando pelo afastamento do cálice amargo.

Estudei a vida Deste homem e fiquei louco. Louco para ser igual a Ele! Louco para conseguir imitá-lo, de alguma forma. E, mais louco ainda eu fiquei quando percebi que, por mais que eu quisesse e que me esforçasse, não conseguia parecer em nada com Ele!! Quando via a maldade no mundo, eu torcia para que alguém fosse punido; quando via ladrões e corruptos sendo apanhados pela justiça, queria vê-los, todos, atrás das grades, algemados e acorrentados; quando tomava conhecimento de que alguém tinha sido lesado, aconselhava a procura pela justiça, em busca da reparação moral e/ou material; quando ficava diante de um probleminha qualquer, logo, logo procurava alguém para me socorrer e, se possível, dar preferência ao meu caso que, para mim, era sempre de urgência; quando olhava para tudo o que eu possuía, sempre percebia que podia conquistar um pouco mais, afinal, diziam os amigos, não é pecado ter um pouco de ambição; andar ao lado dos poderosos, e com eles conviver, era o que mais me dava prazer na vida; alcançar algum tipo de poder sempre fazia parte dos meus projetos para o futuro. Então, como eu conseguiria seguir Aquele homem de Nazaré, para quem nada disso tem a menor importância ou valor? Ah, e para explicar ou para justificar as minhas atitudes, eu costumava, como fazem os insensatos, atribuir as minhas deficiências à condição humana. Mas, Jesus, também, não assumiu plenamente a condição humana e, como tal, não viveu no meio dos homens, padecendo dos mesmos males, enfrentando os mesmos desafios e superando todos eles?

Dá ou não dá pra ficar louco? Eu queria amar, quando alimentava sentimentos de vingança, em nome de uma moral altamente duvidosa; queria perdoar até setenta vezes sete quando, por qualquer motivo, me distanciava do outro, de cara virada; queria orar pelos meus inimigos... para que morressem o quanto antes; queria assegurar, primeiro, os meus direitos e os meus privilégios, para, depois, quem sabe, pensar nos outros. Aquilo, para mim, era esperteza, inteligência, perspicácia, prudência, justiça, sabedoria. Mas, o Senhor disse: “meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos” (Is 55, 8) e, bem mais tarde, o Apóstolo Paulo vai dizer que: “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, pois está escrito: ‘Eu apanharei os sábios na sua própria astúcia’” (ICor 3, 19). Eu era louco, e o mundo me amava e me aplaudia, porque me considerava sábio, justo e astuto!

Mas, agora, meus amigos já perceberam os sinais do que, para eles, é a verdadeira loucura: perceberam que não guardo mágoas e nem ressentimentos; observaram que não desejo o mal para ninguém e que, no fundo, no fundo, sinto pena e me compadeço dos que são apanhados no crime e submetidos a condições desumanas nos cárceres privados ou nas prisões públicas; ouviram-me dizer que precisamos aprender a conviver com o que é mau, sem opor resistência; não compreendem quando falo em favor dos pobres e dos necessitados, que recebem do Estado algum tipo de auxílio; ficam assustados quando ouvem o meu conceito de justiça para todos, independentemente de partidos, religiões ou mesmo do crime que possam ter cometido; mostram-se assombrados quando defendo o direito dos presos, de manifestarem revolta com as condições da prisão ou quando tentam a fuga; ficam assustados com o meu grau de sinceridade, lançando fora a mentira e a falsidade e expressando de forma clara tudo o que se passa em meu coração; acham que sou politicamente incorreto e que... não tenho, digamos, jogo de cintura; ficam escandalizados, quando afirmo que Deus está sempre pronto para perdoar todo aquele que se arrepender diante Dele, inclusive, os piores criminosos e que nós devemos agir da mesma forma; revelam grande espanto, quando declaro que a verdadeira felicidade não existe neste mundo, mas, sim, na vida plena em Deus, por Deus e para Deus; têm certeza da minha loucura, quando digo que estou ansioso para sair desta vida, para retornar a Deus, em busca da vida eterna prometida por Jesus. Acham que meu caso é de internação urgente!

Nada disso me incomoda! Depois que conheci Jesus, estudei Sua vida e analisei Suas obras e palavras, reconheci que a proposta Dele para os homens é, de fato, uma loucura, assim como toda a vida Dele foi uma loucura. Não em vão Ele afirmou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” Mt 16, 24-25). Depois que, por intermédio de Jesus, estudei e me aproximei da Santíssima Trindade, outra loucura para os meus contemporâneos, fiquei louco de vez, sem possibilidade de cura neste mundo!

Talvez o prezado leitor ou a prezada leitora, também, não duvide da minha loucura! Fique, pois, sabendo que Jesus ama todos esses loucos e que o Reino de Deus é feito por esses, para esses e para todos os demais loucos que, certamente, ainda aparecerão porque, há mais de dois mil anos, a loucura do Evangelho vem seduzindo as mentes, os corações e os espíritos mais brilhantes e mais sábios deste mundo convertendo-os, todos, para Deus, para o desespero e a verdadeira loucura de todos os que não conseguem entender, aceitar nem seguir, a verdadeira e lúcida mensagem de Jesus. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é estudante de Teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, é um pensador espiritualista e um cultor do silêncio.

1 comentário

  1. Kelly Soares

    Lindas e sábias palavras !!

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