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mar 19

EDITORIAL DA SEMANA: LEMBRANÇAS DE UM TEMPO MÁGICO

TEMPOS DA INFÂNCIA

NOS DIAS DA MINHA INFÂNCIA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Ah, quanta saudade eu sinto dos dias da minha infância, dos dias alegres e felizes que passei ao lado dos meus pais, ainda jovens e cheios de vida. Meu pai, um homem magro e um verdadeiro gigante perto de mim, menino pequeno e raquítico. Minha mãe, bonita como quê, charmosa e cheia de alegria no rosto, apesar das dificuldades vividas no conjunto. Aquilo era um lar! Um verdadeiro lar. Tínhamos muito pouco, em termos materiais, mas éramos muito ricos de amor, de simplicidade, de gratidão, de alegria e de solidariedade. Apesar de todas as dificuldades vividas, eu via meu pai ajudando a tanta gente mais pobre e mais necessitada do que nós que, realmente, não tínhamos quase nada. Até nesse ponto existia uma riqueza imensa: eu conheci, desde criancinha, as virtudes da caridade, do amor ao próximo, da compaixão e da solidariedade.

Ah, quanta saudade eu sinto dos dias da inocência, quando Papai Noel era quase um deus que via tudo e que, portanto, trazia pequenos castigos para os faltosos e grandes recompensas para os bons meninos. Quantas vezes me peguei rezando, à noite, de joelhos ao lado da cama, pedindo que Papai Noel trouxesse a bicicleta que nunca chegou e a bola de couro, que nunca deixou de ser de pano. Quantas promessas eu fazia para esse mesmo Papai Noel que, pelo visto, nunca se interessou pelos pequenos sacrifícios que eu oferecia. Como era mágico acreditar que um simples coelhinho era capaz de trazer ovinhos de chocolate, um produto tão raro que eu sequer podia imaginar o verdadeiro gosto ou sabor, só conhecendo pelo estalar dos lábios das crianças mais abastadas que moravam na vizinhança. Por que nem o Papai Noel e nem o tal coelhinho jamais lembravam de mim? Será que eu era tão traquinas assim? Na inocência de criança simples e pobre do interior, eu cresci sem saber as respostas.

Oh infância bendita, que tudo encobre e tudo disfarça a ponto de impedir o desalento e a desilusão tão destruidores de sonhos! Meu pai, um verdadeiro herói, capaz de impor respeito em casa e na rua. Homem bravo e forte, causando medo e assombro nos demais homens da redondeza, criando em mim a certeza de uma proteção que o tempo provou existir somente na minha cabeça. Minha mãe, astuta e sábia, pronta para ensinar qualquer analfabeto escrever e fazer contas de multiplicar e de dividir com a maior facilidade. Mulher de memória fantástica, que recordava histórias antigas contadas pelos meus bisavós. Para mim, aqueles dois, pai e mãe, eram os grandes maestros daquela sinfonia que parecia perfeita, fazendo com que todos os instrumentos emitissem os sons apropriados, nos momentos apropriados.

Quanta lembrança trago daqueles dias de ouro! Dias que não voltam mais, na realidade da vida, mas, que nunca deixaram de existir nos arquivos secretos da minha alma e que, até hoje, passadas tantas décadas, ainda permanecem intactos e tão reais que quase posso tocá-los novamente!

Aquele era um tempo verdadeiramente mágico! Não existiam brinquedos eletrônicos, nem espadas fluorescentes; não se ouvia falar de super-heróis ou de zumbis; não existiam Scooby doo nem Fred Flintstone; bola, era qualquer objeto mais ou menos arredondado, às vezes, até de meia amarrada ou costurada pelas prendadas mães. Os brinquedos mais desejados pelos meninos eram os caminhões de madeira e os carrinhos de plástico, com quatro rodinhas, alimentando sonhos e projetos de trabalho no futuro ainda muito distante. Os das meninas eram as bonequinhas de pano, as casinhas rosadas, com caminhas, fogõezinhos e panelinhas que pareciam de verdade, para o afloramento do sentimento caseiro e maternal que, atualmente, é tão combatido por certos movimentos sociais. Aquele modelo de infância era verdadeiramente indutor do homem e da mulher que, adultos, partiriam para a formação de um sólido e resistente núcleo familiar.

Hoje, ao olhar o filme já tantas vezes repassado, não há como não sentir uma certa nostalgia. É difícil deixar de comparar com a infância de hoje, quando tudo é automático, eletrônico e digital. Pais e filhos conversam muito mais pelas redes sociais do que de forma presencial. O toque de carinho entre pais e filhos, quando ocorre, é por meio das telas dos celulares e dos notebooks, sem calor e quase sem valor. Caminhões de madeira, carrinhos de plástico, bonequinhas de pano e casinhas rosadas só existem nos museus da infância, que nem sei se existem de verdade. Que lembranças haverão de ter as crianças de hoje quando, adultas, quiserem, como eu, olhar para o passado de suas vidas? Que saudades terão de seus brinquedos eletrônicos totalmente defasados e sem qualquer utilidade ou simbolismo? Não sei responder!

O que sei dizer é que, nos dias da minha infância, tanto pobres quanto ricos, sem qualquer distinção de raça ou de religião, meninos e meninas eram muito felizes e, dos que ainda vivem, tenho certeza de que muitos, se pudessem, voltariam àqueles tempos, para abraçar os amiguinhos e as amiguinhas que ficaram presos nas teias do tempo; para colocar os carrinhos de plástico na garagem de papelão improvisada ou as bonequinhas de pano nas caminhas arrumadinhas, olhando com saudade todo aquele ambiente cheio de vida, de luz, de inocência angelical e da verdadeira essência da beleza.

Não é possível, nem saudável, destruir as ilusões das crianças, seja em que tempo for, mas, as crianças de hoje, de alguma forma precisam saber como foi a infância dos pais e dos avós, até para poderem avaliar e conhecer a implacável ação do tempo, esse monstro assustador que, apesar de tudo,  e de forma paradoxal, é, também, manso, pacífico, educador e restaurador.

Nos dias da minha infância, eu fui completamente feliz. Eu não tinha nada, mas, ao mesmo tempo, não sentia a falta de nada, porque o essencial sempre estava presente: papai, mamãe, meus irmãozinhos, menores do que eu, e um formidável calor humano. O resto? Ah, era apenas o resto, não fazia falta. Éramos muito felizes. E aquela felicidade era tão forte e tão verdadeira que, até hoje, só de recordar, sinto-me muito confortado, diante da realidade vivida. Faça uma viagem aos dias da sua infância também. Pode ser bastante saudável e alentador. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

   

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