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jun 25

EDITORIAL DA SEMANA: JOÃO BATISTA E JOÃO DE DEUS, SEMPRE PELO OUTRO!

JOÃO BATISTA - 4

MINHA IDENTIFICAÇÃO COM JOÃO – O BATISTA E O DE DEUS –

*Por Luiz Antonio de Moura - 

A história de João Batista é bastante peculiar, porque, fruto da intervenção divina, tal como ocorreu com Sara e Abraão, em razão da idade avançada dos pais – Isabel e Zacarias – ele, diferentemente de Isaac, assume a missão de abrir o caminho para o Salvador. Isaac, tornou-se protagonista do patriarcalismo e, para sempre, seu nome ficou associado a Deus que, em todas as manifestações, não cessa de identificar-se como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.

João Batista, também, não é de menor importância, eis que, também para sempre, é associado ao Filho de Deus, por ser o precursor Daquele de quem não se sente digno de levar as sandálias. João não é o Messias; não é o Cristo; não é aquele que virá para resgatar o homem, mas, aquele que vai iniciar o processo de salvação que culminará com a redenção na cruz. Não é homem de palavras gentis; não sabe bajular o poder dos césares nem dos invasores; não se cala diante do adultério de Herodes e, por sua fé e seus princípios, assume o destino do cárcere e, por fim, da infame degola.

Da boca de João partem terríveis palavras: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vos ameaça?”; “Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo” (Mt 3, 7.10). Mas, sabe também, transmitir esperança mirando na luz que já antevê à frente: “o que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu” e sabe indicar o caminho para aqueles que querem alcançar a salvação: “apresentai, pois, dignos frutos de penitência”. Na simplicidade de homem rústico criado na dureza dos desertos da vida, sem bens, sem luxo, sem roupas ou calçados finos e sem alimento requintado, João assume posição real, porque brande a espada da fé e da fidelidade a qualquer preço, ainda que ao custo da própria vida.

Mas, a João ainda é reservada por Deus uma missão ainda mais elevada: mostrar aos homens de todos os tempos que o batismo é a porta de entrada do Reino. E, no desempenho desta missão, João vê à frente a figura inconfundível de Jesus que, certo dia, apresenta-se juntamente com os demais populares, para ser, também Ele, batizado pelo Batista. É fácil imaginar a confusão mental que tomou conta de João quando, ciente de que deveria batizar toda aquela multidão, exortando-a com duras palavras ao arrependimento e à penitência, vê diante de si o Cordeiro de Deus, O que tira o pecado do mundo. A reação de João é igual à de qualquer outro homem consciente da sua estatura profética: “Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?”.

João, certamente, e naquele momento, percebe o quão grande é a sua tarefa neste mundo, pois, além de conduzir os homens de boa vontade para as portas do Reino, deve deixar bem claro que, também, o Verbo encarnado está posto à entrada deste mesmo Reino e que, quem quiser entrar, só poderá fazê-lo com Ele, que se apresenta como um igual de todos nós, justamente para, conosco, apresentar-Se diante do Pai, para o banquete preparado desde antes de todos os séculos.

João é o precursor, é a boca por meio da qual Deus fala aos homens acerca da chegada da hora em que “o machado já está posto à raiz das árvores”. Não fala de si nem sobre si; não promete nenhuma ação ou milagre, mas, fala sobre Outro e assegura que Dele tudo virá, pois: “Ele tem a pá na sua mão, limpará bem a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível” (Mt 3, 12).

Por fim, João passa como a folha seca que é levada pelo vento, depois de ter cumprido sua missão e, disto, ele próprio tem plena consciência quando, referindo-se a Jesus, afirma convictamente: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30).

Apraz-me o papel desempenhado por João batista: sempre agir pelo e em favor do outro; sempre visando o crescimento do outro, sem aparecer e sem buscar qualquer notoriedade. Apenas a ação e o serviço, para que o outro sobressaia e possa desempenhar bem a sua missão que, considero ser sempre maior do que a minha! Não preciso, não quero e não faço questão de aparecer, já que quem me convocou para a missão assegura-me posição privilegiada na vida vindoura. Ser como João Batista, missionário competente e destemido, sem compromissos partidários, ideológicos, políticos ou religiosos, e sem pretender agradar a quem quer que seja, a não ser para a própria edificação, comprometido apenas com a verdade e com a justiça que procedem de Deus, é  o foco mirado pelo meu espírito e é olhando fixamente para este alvo que tenho conduzido a minha vida, e a minha caminhada, por todos estes anos nos quais estou aqui, neste plano terreno.

Neste sentido, regozijo-me com as palavras do Santo Padre, quando afirma que “Eis então, qual é o mistério de João: Nunca se apodera da Palavra. João é aquele que indica, que assinala. O sentido da vida de João é indicar Outro” ( Papa Francisco).

Existe, entretanto, outro João cujo conhecimento da vida e da obra marcou minha estadia neste mundo: João Cidade Duarte, ou, como é mais conhecido, São João de Deus. Santo português do século XVI que outra coisa não fez, senão agir em benefício do outro, esquecendo-se de si próprio e lançando-se de corpo e alma na direção dos pobres, dos desvalidos, dos doentes e dos desamparados, tratando de acolhê-los e de providenciar-lhes o tratamento digno.

SÃO JOÃO DE DEUS - MAIO DE 2018

Sobre São João de Deus já escrevi alguns textos, e muitos outros ainda pretendo escrever, porque ele, tal qual o bom samaritano da parábola contada por Jesus, olha e acolhe o outro sem se importar com nada. Absolutamente nada! João de Deus não indaga sobre a religião, o estado civil, a condição social, o grau de estudo, a profissão. Enfim, para ele, o que realmente importa é a prestação de serviço e de socorro àquele a quem não resta mais nenhuma esperança de acolhimento e de dignidade! Como admiro e como procuro colocar em prática esta visão na minha vida. É lógico e evidente, que precisamos saber reconhecer o joio e o trigo. É preciso sermos como Jesus ensinou “mansos como as pombas, mas, prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16), porque, como Ele mesmo diz “os filhos deste século são mais hábeis no trato com os seus semelhantes que os filhos da luz” (Lc 16, 8). No entanto, caminhar é preciso e, neste afã, não podemos virar o rosto na direção contrária de quem clama por socorro, seja ele quem for, esteja na condição em que estiver. Olhar para o outro como um seu semelhante é, acima de tudo e de qualquer coisa, reconhecer-se filho de Deus, que é Pai de todos nós e que “faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 45).

João Batista e João de Deus, para mim, ao lado de muitos outros, são modelos e exemplos sobre os quais procuro pautar a minha vida, porque eles, na verdade, vivem e demonstram ser humanamente possível viver, os mandamentos de Deus, reforçados por Jesus Cristo, modelo maior e Mestre de todos nós.

Não desprezemos, pois, os que procuram o enaltecimento próprio, em detrimento do outro; procuram aparecer sempre, ainda que pisando sobre os ombros do outro ou, ainda pior, procuram apenas o bem estar pessoal, pouco se importando com o sofrimento do outro. Na verdade, merecem compaixão, porque são privados da luz e da graça divinas. Luz e graça com as quais somos constante e permanentemente renovados na fé e na fidelidade capazes de, em nome do Cristo Jesus, levar-nos ao Reino de Deus que, gostemos ou não, aceitemos ou não, é também para todos eles.

Na simplicidade do seu coração, procure mirar-se, também, nos exemplos deixados por homens como João Batista e João de Deus. Talvez você consiga perceber o quanto pode fazer em benefício do outro porque o seu prêmio, já está assegurado por Aquele que doou a própria vida, para que você tenha vida em abundância, a vida eterna. Seja feliz, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

 

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