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mai 21

EDITORIAL DA SEMANA: JEREMIAS, O PROFETA DE ONTEM E DE HOJE

JEREMIAS - O PROFETA

JEREMIAS, O PROFETA QUE SOFREU COM O SEU POVO –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Todos os profetas foram muito importantes na história do povo eleito de Deus, mas, dentre todos, Jeremias teve um papel crucial, porque atuou como ponte entre Deus e o povo, no período final antes da desgraça do exílio. Antes, porém, ele passou aperto diante do Altíssimo que, decididamente, escolhe-o para a função para a qual ele se julga totalmente incompetente.

Jeremias conta que a palavra do Senhor foi dirigida a ele para comunicar-lhe que estava sendo constituído profeta entre as nações. Assim diz o Senhor: “Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te conheci; e, antes que tu saísses do seu seio, te santifiquei e te estabeleci profeta entre as nações” (Jr 1, 5). Jeremias, como era de se esperar, acha graça daquela escolha e tenta escapar do encargo, afirmando ainda ser um menino, sem experiência de vida e sem traquejo para lidar com o povo, homem simples e filho da terra, onde vivia e de onde extraía os meios para a subsistência.

O Senhor, no entanto, tranquiliza-o imediatamente, afirmando que, para onde quer que Jeremias fosse enviado, diria apenas aquilo que lhe fosse ordenado por Deus assegurando-lhe acerca dos inimigos: “não os temas, porque eu sou contigo, para te livrar” e, imediatamente, o Senhor toca na boca de Jeremias e afirma: “Eis que eu pus as minhas palavras na tua boca; eis que te constituí hoje sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, para arruinares e dissipares, para edificares e plantares” (Jr 1, 9-10).

A partir daquele momento, Jeremias anda com o Senhor e, com a palavra do Senhor dirige-se àquele povo ingrato, pecador e idólatra. O objetivo de Deus é, por meio de Jeremias, cobrar do povo a fidelidade, o abandono da idolatria e da mentira e a conversão para que, perdoado e reconciliado, não caia nas mãos de povos estrangeiros e se torne, verdadeiramente escravo.

Jeremias caminha resoluto e obstinado na direção de Israel e diz: “Ouvi a palavra do Senhor, casa de Jacó, e todas as famílias da casa de Israel. Isto diz o Senhor: Que injustiça encontraram em mim vossos pais, quando se distanciaram de mim, foram após a vaidade e se tornaram vãos?” (Jr 2, 4-5). O Senhor quer fazer ver ao povo, que ele não é escravo ou filho de escrava e exorta com firmeza: “Guarda o teu pé da desnudez (dos ídolos) e a tua garganta da sede”. Mas, como resposta, ouve palavras de desilusão e de desesperança por parte do povo. Ainda assim, o Senhor fala da inutilidade dos ídolos na hora do perigo e questiona mais uma vez, de forma severa: “Por que procuras tu justificar o teu procedimento, a fim de eu me pôr de bem contigo, se além de fazeres o mal, o ensinastes também aos outros, e nas orlas dos teus vestidos se acham o sangue dos pobres e inocentes que sacrificastes aos ídolos?” (Jr 2, 33-34).

Pela boca de Jeremias, O Senhor convida o povo à conversão, prometendo que, “se tu tirares de diante de mim os teus tropeços (ou ídolos), não enfrentarás os abalos. Lava, ó Jerusalém, o teu coração de toda a maldade, para que sejas salva. Até quando permanecerão em ti pensamentos pecaminosos?” (Jr 4,1.14). O povo, porém, não dá ouvidos à palavra do Senhor, proferida pela boca do profeta e, diante daquele imbróglio vem a profecia amarga: “Deserta ficará toda a terra, porém não a destruirei de todo. Chorará a terra, e entristecer-se-ão os céus lá em cima; porque decretei, resolvi e não me arrependi, nem desisti”  (Jr 4, 30).

A destruição, no entanto, não será completa. O Senhor preservará um resto de povo, do qual a nação renascerá, e dela virá o caminho para a formação do novo povo de Deus. Diante da corrupção total de Judá, o Senhor convida a que sejam percorridas as ruas de Jerusalém, a ver se é encontrado algum homem comprometido com a justiça e com a verdade, afirmando que, se tal homem for encontrado “eu perdoarei a cidade” (Jr 5, 1). O Senhor, porém, sabe que Judá está irremediavelmente perdida, e anuncia a chegada da devastação: “Eis que eu farei vir sobre vós uma gente de longe, ó casa de Israel, uma gente robusta, uma gente antiga, uma gente cuja língua não saberás, nem entenderás o que ela fala.” (Jr 5, 15). Essa gente referida é a gente da Babilônia que, sob o comando de Nabucodonosor, sitiará a cidade, levá-la-á à ruína, destruirá o ponto mais sagrado, o Templo, e conduzirá a corte, os sábios, os doutores da lei e os escribas para o cativeiro.

Mas, o Senhor insiste: “Ouve, povo insensato, que não tens coração; vós que, tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos, não ouvis.” (Jr 5, 21). No meio daquele povo insano, insensível e insensato circulavam falsos profetas, que agiam com a plena conivência dos sacerdotes do templo que os aplaudiam e com a adesão do povo. Ao final eis a pergunta dura: “Que castigo não virá, pois, sobre esta gente no fim de tudo isto” (Jr. 5, 31). O comportamento do povo é de tal monta agressivo ao Senhor e aos seus preceitos que o próprio Deus proíbe Jeremias de interceder pelo povo: “Tu pois (Jeremias) não rogues por este povo, nem empreendas por eles louvor nem oração, e não te oponhas a mim, porque não te ouvirei. Não vês tu o que eles fazem nas cidades de Judá, e nas praças de Jerusalém?” (Jr 7, 16-17).

Jeremias sofre e lamenta: “A minha dor é sobre toda a dor, o meu coração está angustiado dentro de mim. Estou desfalecido e entristecido.” (Jr 8, 18.21). O profeta, no entanto, reconhece o mal proceder do povo, a quem tenta demover da prática sistemática, da infidelidade, da ingratidão, da mentira e da idolatria e, não querendo opor-se ao Senhor, apenas questiona: “Por que motivo é próspero o caminho dos ímpios, e sucede bem a todos os que prevaricam e fazem o mal?” (Jr 12, 1).

Não teve jeito: “No ano nono de Sedecias, rei de Judá, no décimo mês, veio Nabucodonosor, rei de Babilônia, com todo o seu exército a Jerusalém e sitiaram-na.” (Jr 39,1). O rei Sedecias com toda a corte, foge durante a noite, a caminho do deserto. Mas, o exército invasor persegue-os e, já no deserto de Jericó, consegue aprisioná-los e conduzi-los à presença do rei babilônico que, impiedosamente, mata os dois filhos de Sedecias diante dos seus olhos e, em seguida, arrança os olhos do próprio rei que, cego e desolado, é conduzido ao cativeiro, na Babilônia. Ali tinha inicio o exílio que duraria 70 anos ao final dos quais, um novo povo surgiria. Mas, isto é tema para outro momento.

Por ora, é preciso chamar a atenção para alguns detalhes importantes: primeiro, a certeza de que Deus sempre está no meio do seu povo; depois, que Ele exige fidelidade, verdade, compromisso, gratidão e seguimento; por fim, Deus se afasta do seu povo quando este se revela resistente à vontade do Senhor, nosso Deus e Pai.

A profecia de Jeremias é sempre atual, basta olhar e comparar os tempos, os momentos, os contextos históricos, as ações e a reações, para termos certeza de que o exílio e a escravidão estão sempre à porta dos infiéis.

Por fim, é nosso intento convidar os leitores e as leitoras a caminharem pelas riquíssimas páginas do Livro de Jeremias, lendo com calma, serenidade e de forma espaçada, para verificarem  que o que foi dito, ainda está dito para os dias atuais. Leiam, reflitam e tirem suas próprias conclusões. Sejam felizes, e boa sorte!

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*Luiz Antonio de Moura é Estudante de Teologia, pensador espiritualista, caminhante e um cultor do silêncio.

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