Lisaac

Sementes de vida, ������© tempo de semear

«

»

nov 12

EDITORIAL DA SEMANA: EM NÓS, O SOPRO DA VIDA!

O SOPRO DA VIDA

O SOPRO DE DEUS: SEM ELE, NÃO TEMOS VIDA –

*Por Luiz Antonio de Moura –

Como a vida é simples e singela! Tão simples e tão singela, que a maioria absoluta das pessoas passam por ela, sem se dar conta da riqueza com a qual conviveram durante tantos e tantos anos. Muitas pessoas acreditam que a existência humana é uma peça teatral resumida em quatro atos: nascer, crescer, reproduzir e morrer, esquecendo-se de que, em cada uma destas etapas, existe uma força, uma chama, uma energia vital, um ânimo, um impulso, em resumo: um sopro. Sim, um simples sopro, porém, um sopro divino, que desperta o ser para a vida, para a existência e para uma caminhada sem fim, embora realizada em dois planos distintos: um, terreno e, outro, etéreo!

Mas, de onde vem esta energia, esta força vital e este ânimo que traz, principalmente, o ser humano à vida? esta questão perturbou a mente do homem antigo. Olhando para si e para os seus iguais, ele fazia incessantemente esta mesma pergunta. Pergunta que deixava-o ainda mais perplexo, quando percebia que seus semelhantes, vinham à vida mas, também, e de repente, caiam estatelados no chão, sem ela e, rapidamente, desapareciam em meio à decomposição fétida daquela matéria desconhecida. Olhar para si e para os demais sem entender nada, absolutamente nada, e, mais ainda, percebendo que aquela vida tinha um limite, um fim, deve ter sido um tormento muito grande para o ser humano, digamos, primitivo.

Entretanto, pela inspiração divina, o ser humano vislumbra o momento da Criação de todas as coisas e, no Livro do Gênesis, no capítulo segundo, narra que Deus formou o homem do barro da terra “e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2,7). Este “sopro de vida” é a irrupção do espírito. Um espírito que não é um qualquer, mas, um espírito procedente de Deus, uma parte do próprio Deus, cujo Espírito vive e abarca tudo, todos e todas as coisas existentes. Momento comparável ao do nascimento de um bebê que, imerso no líquido amniótico, no tempo certo, é trazido à luz.  Mesmo sem a famosa palmadinha dada pelo médico, o bebê solta o primeiro choro, ao experimentar o choque da primeira mudança na vida, quando os pulmões de forma exuberante, expulsam o líquido e recebem, pela primeira vez, o oxigênio puro e direto. A criança, como que acorda para a vida, para a existência. É alma vivente! Uma vida que jamais será extinta.

Assim aconteceu com o primeiro ser humano criado por Deus, deixando-se de lado, por enquanto, as discussões intermináveis sobre as teorias do criacionismo e do evolucionismo.

Uma vez levantado do solo, o ser humano caminha, fica admirado com tudo o que o cerca. Quanta beleza, quantas maravilhas. O criador acompanha-o de perto e percebe que aquele ser é perfeito e, por esta razão, ama-o desde o início, pois, é imagem e semelhança Sua. O Senhor Deus, porém, olha para aquele homem inebriado e desajeitado, tosco mesmo, podemos dizer, mas, feliz e repleto de "ânimo", e conclui: “Não é bom que o homem esteja só”. Na narrativa bíblica, em seguida a esta conclusão, o Senhor forma a mulher e, pela simples leitura do Livro do Gênesis, pode-se acompanhar tudo o que se passou com eles.

Mas, a questão que merece destaque aqui, é a sentença divina: “não é bom que o homem esteja só”, porque, embora o Senhor tenha-lhe providenciado uma companheira, hoje, para nós, parece bastante razoável a ideia de que a presença divina no ser humano era, e é, imprescindível. É justamente a partir desta presença que o ser humano consegue compreender o ambiente no qual é inserido desde o começo, com suas tramas e com os seus dramas. Começa a perceber as necessidades, as afinidades, os sentimentos, e, sobretudo, a capacidade interior para a superação. Uma superação que vai muito além dos embates físicos com os animais ferozes, com semelhantes tresloucados e, mais tarde, com sistemas políticos, ideológicos e de exploração. Uma superação de si mesmo, com seus medos, incertezas, inseguranças e fraquezas. É com a presença divina que o ser humano sente fervilhar dentro de si, mas que ainda não tem capacidade para compreender muito bem, que ele caminha, luta, vence, supera desafios e obstáculos e armazena no mais profundo do seu íntimo, sonhos e projetos. Não é bom que o homem esteja só, diz o Senhor que, providencialmente, coloca-se ao lado da sua principal criatura. Principal, porque fê-lo à própria imagem e semelhança. Principal, porque transforma-o no guardião de toda a Criação.

E esse Deus, como demonstrado inúmeras vezes, na Bíblia, caminha ao lado do ser humano. E mais do que caminhar, habita em cada um dos seres humanos, conforme testemunha o Apóstolo Paulo quando, escrevendo aos Coríntios, questiona “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (ICor 3,16).

Daí termos, hoje em dia, a convicção de que Deus, definitivamente, não quer que estejamos sós, mas, quer estar conosco e em nós, e só quem não consegue ter esta compreensão é que imagina ter o controle da própria vida nas mãos. Sem Ele, não temos a vida em toda a sua plenitude. Dele procede o sopro que faz de nós almas viventes e em nós constrói o templo sagrado no qual habita o seu divino Espírito, enquanto a Ele nos achegamos e com Ele aceitamos caminhar.

O mesmo raciocínio não se aplica àqueles que praticam, deliberadamente, o mal e a crueldade, descumprindo os preceitos divinos, porque é impensável que o Espírito de Deus habite no íntimo de tais criaturas que, certamente, caminham sozinhas ou movidas por forças contrárias à divindade e à santidade do Deus-Criador. Isso, para que não nos iludamos, acreditando que o Espírito de Deus está em absolutamente todos os seres humanos, é o que afirma a Primeira Carta de João: “O que observa os seus mandamentos, está em Deus, e Deus nele; pelo Espírito que nos deu, sabemos que ele permanece em nós” (IJo 3,24).

No mais, consolemo-nos em saber que não estamos e que não vivemos sós, porque Deus, ao sentenciar que não é bom o homem estar só, não se referiu apenas à companhia humana, mas, também, à divina que, do início ao fim, é quem nos assegura a vida, e vida em abundância. Creia nisto, respeite o Espírito de Deus que habita em você e em todos os seus semelhantes e mantenha sempre limpo e aberto o seu templo interior, para que o Sopro da vida jamais se afaste porque, sem Ele, não temos a vida plena. Os indianos e os nepaleses conhecem muito bem esta realidade, pois, não cessam de repetir o “Namastê” que, literalmente, significa “O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você”. É com esta consciência que precisamos olhar para os nossos semelhantes e, diante de cada um deles, prestar reverência ao Deus que é comum a todos nós – Namastê. Seja feliz, e boa sorte!

____________________________________________________________

*Luiz Antonio de Moura é um pensador espiritualista, um caminhante e um cultor do silêncio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Apoio: